quarta-feira, 20 de março de 2013

O poder do exemplo

Já ouvi pessoas dizendo que a novela das 21h mostra a vida como ela é. Que o programa do Datena (ainda existe?) é importante, pois mostra a realidade. Não concordo com nenhuma delas!
As coisas boas superam, em muito, as más. Claro que existe maldade, crimes, violência, ocorrendo por aí, mas fosse na proporção que aparece na TV, estaríamos perdidos! O problema é o foco nas coisas ruins, e o pior: o exemplo.
Em um interessante debate com um amigo ele foi de uma razão cruel: "a televisão passa o que as pessoas querem ver, que dá lucro a ela. Existe a TV Cultura, com uma programação instrutiva, cultural e educacional. Quantos a assistem? Compare com o Ibope do Big Brother Brasil.". Triste realidade.
Porém acho que uma emissora tem um papel muito grande na construção de uma sociedade. Uma criança que cresce vendo nas telas crimes, traições, luxúrias, ambições desmedidas, pode achar que é certo agir desse modo.
Claro que pessoas bem esclarecidas podem jogar games onde "metralham" o exército inimigo, policiais e até cidadãos comuns, desligar o Play Station e ser um cidadão pacífico, sem se alterar. Mas é inocente quem acha que os assassinos que fuzilam alunos em escolas, cinemas ou pelas ruas, nunca jogaram ou foram incentivados por esses programas.
Todas as mídias deveriam forçar o contrário, passar coisas positivas, que melhorem a sociedade. Inverter a proporção desgraça x mundo bom, que temos hoje. Forcem as pessoas a ver apenas coisas boas, deixem as crianças crescerem apenas com bons exemplos, para que se choquem quando observarem algo errado e não que se acostumem com ele.
Utopia? Pode parecer. John Lennon sonhou com um mundo assim mais de 30 anos atrás. Jesus a mais de 2000.
Sim, é possível.

" you may say I'm a dreamer, but I'm not the only one. I hope someday you will join us and the world will be as one"
John Lennon

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Luva de pelica

Em uma cidade do interior dois homens conversavam na fila de um caixa eletrônico. Falavam alto, como se o assunto fosse de relevância transcendental e de interesse a todos. Uma senhora elegante e bonita caminhou à máquina quando chegou sua vez. Um não se conteve e comentou para o outro:
- Olha lá, o mamazão daquela mulher! - falou pouco mais baixo, porém, o suficiente para os que estavam em volta escutar.
- Deixa de ser tonto, você não tá vendo que aquilo é selicone? - disse o outro, indignado.
- Será?
- É claro, olha lá! Selicone, na certa!
Um senhor que estava do lado, caminhou na direção dos dois, elegante, colocou a mão ao lado da própria boca, como quem queria falar em segredo, mas respondeu na mesma altura que os homens:
- Eu garanto pra vocês que é natural. - disse, se encaminhou para a bela senhora que havia acabado de retirar o dinheiro, a abraçou e sairam pela porta do banco.
O silêncio enorme só era quebrado por alguns baixos risos que escapavam de um ou outro cliente da fila. Os dois se escondiam na própria vergonha e na dor, muito maior do que se o homem houvesse resmungado, esbravejado ou os agredido.
Na realidade, se tivesse ocorrido qualquer agressão, seria a salvação dos dois. A chance de mudar o foco, de passar a agressão para o outro lado. A chance que não teriam...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Amizade é...

Era final de um grande projeto, de início no Ceará e término no Pará, na cidade de Primavera.
A última noite é sempre muito especial. Apesar de ser um trabalho leve espiritualmente (pois fisicamente é uma prova de resistência!) sempre se começa com a grande responsabilidade de ter muitos pacientes a atender, crianças com dor, adultos que nunca usaram próteses, enfim, a expectativa de não saber o que encontrará pela frente e ter de lidar com a saúde de muitas pessoas.
Ele faria as próteses. Dezenas e mais dezenas de pessoas para moldar durante o dia, confeccionar a primeira parte das próteses de noite (alguns casos passando das 22 horas), tirar uma prova no dia seguinte e embalá-las com cuidado, para que nenhuma distorção aconteça na volta para São Paulo, onde elas seriam finalizadas.
Tudo foi intenso e muito cansativo, porém, extremamente gratificante. Naquela noite a sensação de dever cumprido aliada ao impagável contentamento por ter ajudado tantas pessoas o deixava inebriado.
Olhava para seus amigos e sentia um orgulho geral, de cada um que havia participado da equipe. Em meio ao calor úmido e intenso que o envolvia, percebeu o prazer que eles tomavam a Cerpa, cerveja local, bem gelada. Não tinha costume de beber, mas todo o conjunto o levou a experimentar aquele néctar que seus amigos tanto falavam.
Foram algumas cervejas, menos do que seus amigos haviam tomado, mas para um "iniciante" o bastante para amanhecer com uma considerável ressaca.
Entrou na van, a caminho de Belém, onde pegaria o avião para casa, e o mundo parecia girar, só que em torno de si mesmo. Escolheu, estrategicamente, o lugar junto à janela, no último banco e tentou dormir. A cada solavanco do carro porém, seu estômago embrulhava e desembrulhava. O vai e vem da estrada o faria fatalmente colocar para fora tudo aquilo que insistia em continuar a festa da noite anterior em seu estômago.
Após uma curva não resistiu, mas não faria um estardalhaço por causa disso. No carro todos dormiam, abriu a janela, pôs a cabeça para fora; percebeu que havia dois motoqueiros na faixa do lado, quase ultrapassando a van, mas não deu tempo: goooooooooooorf!!! Colocou para fora metade da cerveja tomada na noite anterior.
Suspirou aliviado. Recostou no banco contente por todos continuarem nas mesmas posições. Ninguém perceberia seus revertérios. Pensando nisso, outra rajada de mal estar o acometeu, se precipitou novamente janela afora. Nesse momento os motoqueiros, sabiamente, já estavam lá atrás, preferindo tomar distância daquele voluntário feroz.
Para completar o paradoxo só restaria saber se os motoqueiros bebiam. Seria curioso dois motoqueiros com caras de mal, jaquetas de couro, motos estilo Harley, serem abstêmios e um voluntário bonzinho de uma ong vomitando pela janela por ter exagerado na bebida na noite anterior.
Nunca saberia, naquele momento nem pensava nisso, apenas aliviou toda a outra metade que o virava do avesso. As motos distanciaram ainda mais.
Voltou para dentro, encostou no banco aliviado. Só o incomodava aquela sensação de ter escovado os dentes com ácido clorídrico e rosto imprestável pelo serviço que o vento ajudou a fazer durante sua incursão fora do automóvel.
Ainda se recompondo, sentiu um toque de seu amigo sentado no banco do lado que, de olhos fechados e bem baixinho, para que só ele ouvisse, perguntou:
- Tá dando uma vomitadinha aí, brother?
E antes que ele pensasse em responder, lhe deu duas coisas valiosíssimas, que nem ele imaginava conseguir naquele momento: uma garrafa de água mineral e um saquinho com lenços de papel.
Ninguém naquela van soube do acontecido. Hoje conta a história para todos, lembrando o alívio de se lavar, se limpar, e de ter um amigo do lado. Sempre.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Invertendo a inversão

E assim caminha a humanidade. E nós, nascemos girando, girando, girando na mesma roda, sem ao menos pararmos para pensar se esse é o giro certo.
Foi batendo muito a cabeça que algo começou a me incomodar. Não gosto de ficar "chorando" desconto. Algo que me deixa desconfortável é pedir para alguém abaixar o preço de seu serviço ou de seu produto. Para mim, a pessoa cobra o preço que acha justo para seu trabalho e pronto. Honestidade dos dois lados: nós pagamos pelo serviço bem feito.
Porém os anos foram me mostrando que as coisas não acontecem como deveriam. Normalmente as pessoas, sabendo que muitos vão pechinchar, colocam seus valores mais altos, quando encontram alguém que insiste para cobrar a menos, abaixa para seu preço justo e tudo fica certo.
O triste é, quando alguém não quer prejudicar o vendedor e paga o valor pedido, sem pechinchar.
Algo está errado: a pessoa bacana, que acreditou no trabalho, quis ajudar, paga mais caro. O "chato", que brigou para abaixar o preço, muitas vezes pouco se importando com a vida de quem vende, ganha o desconto e paga menos.
Eu também já errei muito. No consultório as vezes, quando era necessário, desmarcava alguém bacana, porque sabia que era compreensivo, e não aquele agressivo, que iria reclamar. Hoje, não faço mais isso. Até pelo lado profissional seria errado. Priorizar pacientes difíceis em vez dos bacanas seria insano.
Mas o principal é pelo lado moral. A vantagem tem que ser dada ao melhor ser humano, cada dia mais.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Uma cena da grande cidade

Ele está lá todos os dias, na mesma esquina movimentada. Os carros que passam em torno das 7 horas da manhã podem vê-lo, algumas vezes deitado na calçada, outras sentado, mas, normalmente, está em pé, olhando fixo para os motoristas dentro de seus carros caros de vidros fechados.
Como não entendê-los, em uma cidade como São Paulo, onde a violência pode esperar em qualquer farol com uma arma apontada para sua cabeça?
Como não entendê-lo, sabendo de todo o básico que lhe é privado e ainda receber preconceito por sua condição e sua cor?
Cor. Quando começamos a separar o ser humano por cores? Talvez mesmo antes de separarmos por condição social. Talvez mesmo antes do "social" ter que ser usado como palavra para regimentar um grupo de pessoas. Que importa? Importa o abismo que vai se criando entre um e outros.
Talvez por isso ele venha se tornando pouco mais agressivo a cada dia. Não no sentido violento, mas em olhar, encarar. Algumas vezes, quando o sinal fecha, anda até a frente de um carro e olha bravo, diretamente nos olhos do motorista.
Um deles olhou calmo para ele, sustentando o olhar. Certo, errado? Desviar o olhar mostraria medo? Manter o olhar mostraria enfrentamento e uma possível agressão? Não sabia. O farol abriu e foi embora.
A roupa sempre suja e surrada. Jeito de quem desistiu de tentar, qualquer coisa. A culpa foi sua, foi da sociedade, de alguém? Quem sabe?
E todos os outros carros o veem, sabem dele. E quando o farol abre vão embora. Sempre.
E ele continua lá. Todos os dias.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Crianças do sertão

Toda vez que atendo uma criança que dá muito trabalho no consultório me lembro, automaticamente, das criancinhas do sertão.
A carência de atendimento que existe por lá - e também a criação sem cuidados excessivos como temos nas grandes cidades - as deixa com uma serenidade impressionante.
É como se em seus olhos eu pudesse ler "Estou com medo, mas sei o quanto é difícil receber um tratamento para essa dor que incomoda há tempos. Pode ir".
Esta semana, quando um garotinho de 6 anos chorou muito para ser atendido, me lembrei da garotinha, da mesma idade, que atendi em Quatipuru Mirim, comunidade de pescadores no Pará. Atendimento odontológico para aquelas pessoas consegue ser mais difícil do que continuar os estudos após o quarto ano.
Ela se sentou quietinha e percebi que estava com medo. Ao examiná-la entendi: restos de um dente destruído em uma gengiva inflamada. Quanta dor havia sentido?
Expliquei o que iria fazer e contei a minha mentira sobre a anestesia (iria apenas "espirrar" uma "aguinha" que faria adormecer o dente) e pedi para que fechasse os olhos, para não espirrar nada que pudesse ardê-los. Ela apertava tanto os olhinhos que estes quase se abriam novamente. Já estava com a seringa próximo à sua boca, quando ela levantou a mão pedindo para falar.
Escondi o anestésico rapidamente para ela não o ver e disse que podia falar, imaginando que diria que não queria a "aguinha".
- Eu posso fechar meus olhos com minhas mãos, tio? - disse, colocando as duas mãos, uma sobre cada olhinho tenso a minha frente.
Anestesiei por completo, ela nem se mexeu. Foi a anestesia mais emocionante da minha vida.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Biodigestor

Foi assim: assistindo a um programa de TV que lhe veio a idéia. "Vou construir um desses!", pensou com convicção. Com a ajuda da igreja de sua comunidade conseguiu o investimento necessário para a obra.
A cada dificuldade que encontrava, Alderi com sua inteligência nata, ia testando e descobrindo a solução para o funcionamento perfeito da estrutura. O resultado foi tão positivo, que hoje recebe a visita outras pessoas, de várias cidades do Brasil, que tentaram produzir um biodigestor e não conseguiram.
A idéia é simples: o esterco de gado libera gás metano para o meio ambiente (contribuindo para o aumento do efeito estufa). O aprisionando, podemos usá-lo como gás natural na cozinha, gerando economia financeira e melhorando a qualidade do ar do meio ambiente. Além de melhorar a qualidade de vida dos animais, livres do esterco em seu pasto, que atrai moscas, carrapatos e doenças.
O projeto é tão importante que, colocando-se um medidor para quantificar o metano produzido, pode-se conseguir o crédito carbono, vendido para países que ultrapassarem a cota máxima de produção de gases do efeito estufa (GEE).
Esta semana recebi um e-mail de Alderi, feliz por estar construindo mais três biodigestores em sua comunidade. O Instituto Brasil Solidário financiará outros dois nos próximos meses.
Um exemplo de como a força de vontade de uma única pessoa pode melhorar a vida de muitos e ainda deixar nosso planeta um local melhor de se viver. O vídeo abaixo foi gravado no começo deste ano e mostra o primeiro aparelho construído por nosso amigo pernambucano.
Hoje já possui um blog onde ensina como construir um biodigestor, num sonho de ver muitas famílias carentes independentes da compra do gás ou da queima diária de lenha. Num sonho de ver um mundo melhor.
Um brasileiro que merece nossa admiração e respeito.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O referencial

Tudo depende do referencial. Nunca podemos nos esquecer disso. Histórias, ouvidas de cada um dos lados, podem dar a certeza de razão para um ou outro. Já ouvi uma amiga reclamando do ex-namorado, que a enrolou por meses, esperando que ela tomasse a iniciativa de terminar.
- Covarde! Porque não foi homem o bastante para chegar e dizer "não dá mais, vamos terminar. Conheci outra pessoa". É simples! - dizia.
Um amigo, depois de meses em um relacionamento que já não vinha bem, conversou com sua namorada e disse que o namoro não estava mais bacana, que seria melhor para os dois terminar e seguirem sua vida. Virou o crápula para a ex e todas as amigas.
Todos nós já tivemos um carro vagaroso na frente, atrapalhando o trânsito e já tivemos também um chato, impaciente, querendo nos ultrapassar de qualquer jeito.
João vinha subindo a serra, voltando do litoral. O trânsito não estava pesado, mas uma kombi subia vagarosamente, o que o fez diminuir muito a velocidade. Como o trecho era de muitas curvas, pacientemente aguardou o momento para ultrapassar, ficando bem próximo para não perder tempo nas poucas oportunidades que teria. Demorou, mas em um espaço de visualização um pouco maior da pista, acelerou bastante e ultrapassou o idoso carro que estava a sua frente. Respirou aliviado, por pouco tempo, pois em seguida um guarda fazia sinal para que parasse e recebesse uma multa por ultrapassar em lugar perigoso.
Segundos depois, vagarosa, passou a kombi ao seu lado, quis não olhar, pois imaginaria que até o para-choque estaria rindo.
Pode-se imaginar a festa que estava dentro do carro. Risadas e comemorações pela "justiça" feita contra o chato que os provocava no carro de trás. João ouvia, não com os ouvidos, mas com a alma, um ruidoso "chuuuuuuuupa!!" subindo vagarosamente a serra de São Paulo.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A colheita

Já não era a primeira vez que aquele homem, entre seus 50 anos de idade, demonstrava mal humor ao entregar o papel da guarita do supermercado.
Em outras ocasiões eu havia ficado com aquela expressão de tolo, de quem cumprimenta com um sorriso e recebe uma resposta "atravessada" em resposta.
Neste dia seria diferente. Como se quisesse devolver aquilo que o homem plantou durante as poucas vezes em que tive contato com ele, numa atitude que não me orgulho, como se fosse a vida que quisesse ensinar o "colhemos o que plantamos", decidi não mais sorrir ao cumprimentá-lo. Mais ainda, decidi incorporar a expressão de homens arrogantes que acham que outros são inferiores; baixei o vidro, olhei com cara de bravo e poucos amigos e não disse bom dia, simplesmente estendi a mão para pegar o papel de estacionamento, como se achasse a pior coisa do mundo precisar pegar algo daquele cidadão.
Para minha surpresa o homem me recebeu com uma expressão mais amena, dando um bom dia submisso e sorrindo.
Mundo estranho este em que vivemos. Há pessoas que não dão valor quando são bem tratadas e se desvelam em respeito e cuidado com os que "pisam" nelas. Como se respeitassem apenas os mais poderosos, porque precisam. Como se respeito fosse preciso apenas para quem se teme, não como algo merecido a todos os seres humanos.
Educação, simpatia e respeito deveria ser a regra. Deveria.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O super-herói

Quando falamos em super-heróis, pensamos em uma entidade, de uniforme, sua vontade imensurável de melhorar o mundo e caráter inalterável. Eu definiria um herói de outra maneira, com atitudes positivas, bondade no coração aliada à ação, para tornar o mundo melhor.
Porém, meses atrás, conheci um, nos moldes originais, inclusive nos uniformes que usa para evidenciar sua luta pelo bem.
Alguns podem não entender, outros julgar sem perceber a real pureza das ações e idéias deste benfeitor. A humanidade tem seus devaneios. Muitos vivem dizendo que Jesus Cristo vai voltar e que este tempo está prestes a acontecer. Se Ele nascer novamente entre nós, como da primeira vez, não escolheria um berço de ouro, e sua mãe daria a luz em um simples casebre, uma favela. Quando um homem muito pobre, viesse dar seu testemunho de ser o Cristo, provavelmente seria ridicularizado e perseguido por todos das igrejas que hoje o clamam. Assim como a história mostrou lá atrás.
Sendo assim, como querer que todos possam enxergar um super-herói.
Mas ele está lá, firme em sua luta, na cidade de Palmeiras, interior da Bahia. Índio Gladiador - "gladiador do meio ambiente!", ele completa - é um brasileiro que tem no sangue a vocação de cuidar do planeta. Daquelas pessoas que vendo um lixo esparramado sobre um terreno não reclama ou perde sua calma, segue até o local e pacientemente recolhe todo o entulho, mostrando aos que estão em volta que a melhor lição é fazer a sua parte.
Não vive só de ações silenciosas, educa a todos que pode, ensina as crianças sobre o perigo do lixo para toda a humanidade e incentiva a todos para a reciclagem dos materiais. Assim, de sua própria ação, criou vários tambores de coleta seletiva e espalhou pela cidade. Com grande parte do material constrói utensílios ou artesanatos, os quais vende para se sustentar. O restante leva para o GAP (Grupo Ambiental de Palmeiras), que fazendo uma comparação com a história em quadrinhos seria a Liga da Justiça, onde trabalham outras pessoas de bem, como Joás, mais um herói de nosso país.
Ele mesmo constrói suas armaduras, com latas, pedaços de garrafa pet, tampinhas de plástico, anéis de metal. E anda praticamente o tempo todo uniformizado, para chamar atenção para o problema do lixo e a importância da reciclagem.
Incrível como a vida imita a ficção, pois nosso amigo encontra até vilões pela frente:
- Outro dia eu estava recolhendo lixo na beira de um córrego e um homem disse que eu era louco de ficar fazendo aquilo. Eu disse que queria deixar o mundo um lugar melhor, ele saiu e voltou com um montão de lixo e jogou ali perto. - disse e com uma paz inalterável comentou que pacientemente juntou todo o lixo que o rapaz jogou mais algumas vezes, até que mostrasse que a sua vontade de fazer o bem era superior a do outro de fazer o mal.
Assim ele segue sua luta. Dia a dia buscando molhorar o planeta em que vive para que os pequeninos tenham um lugar mehor para viver no futuro.
Índio, eu acreditava em heróis. Depois de te conhecer, passei a acreditar em super-heróis!

Foto: Luis Salvatore

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Nem um metro

Eu estava atendendo sua filha, quando ela me perguntou:
- A última vez que vocês vieram aqui foi em outubro do ano na passado, não foi? - concordei e ela continuou - Eu não pude trazer a minha filha porque quase morri! - disse séria.
Perguntei o motivo e ela contou sua história. Mora perto da escola, em Tamboril, sertão do Ceará, mas costuma acompanhar o marido na roça, onde ele trabalha com plantação. Andando pela trilha, não percebeu a grande cobra cascavel que estava no caminho. Pisou no perigoso animal que no reflexo a atacou.
- Foi tão rápido que nem deu para ouvir o guizo da bicha. As vezes andando a gente ouve ela avisando e desvia, mas acho que nem ela tinha me visto.
Não era a hora de Josefa morrer, alguns fatores a ajudaram.
- Primeiro eu dei sorte que ela não mordeu em cheio, acertou meu dedo do pé, mas só com um dente. Depois, ela tinha acabado de matar um rato do mato, soltado a maior parte do veneno nele. E por último, que minha filha estava perto e correu pra me acudir. - completou.
E foi muita sorte mesmo. Alguns segundos após o susto da picada, sua vista começou a escurecer. A filha correu em sua direção enquanto se apoiava no mato rasteiro ao lado da trilha, matou a cobra e a levou rápido para o socorro.
Pela gravidade do caso, mesmo sendo uma pequena cidade, foi resgatada de helicóptero para a capital, onde ficou internada por uma semana.
Na mesma viagem, duas cidades a frente, em Primavera, no Pará, terminei tarde o trabalho. Só restava na escola eu, Manolo - grande amigo que me ajuda na área da saúde - e o vigia da escola. Havia sido um dia cansativo. Fui até o escovódromo e joguei água no meu rosto, como para recobrar as energias, me espreguicei, e fui à frente da escola, ligar para casa. Ao voltar para me despedir o segurança disse:
- Olha, acabei de matar uma urutu ali atrás das torneiras. - disse com a normalidade de quem diz que  comeu uma tapioca.
Urutu é uma cobra bem venenosa e me preocupei por ser dentro da escola, onde há centenas de crianças durante o dia. Ele a havia matado onde eu havia acabado de lavar o rosto.
- Mas era pequenininha, não tinha nem um metro.
Lembrei da história da senhora de Tamboril. "Não tinha nem um metro", era o que eu precisava ouvir para ficar bem tranquilo...

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Caridade

Muitas pessoas chegam a mim e comentam a vontade de ir ao sertão, ajudar as pessoas, fazer caridade. É, realmente, uma experiência singular e recomendo a quantos possam ir um dia ao menos, que embarquem nessa idéia. Porém, a caridade verdadeira não é encontrada somente lá.
Já vi pessoas, nesses anos de trabalho, que viajaram dias ao nosso lado, se emocionaram, conheceram, viveram. Mas de tudo, aproveitaram o superficial, uma experiência fantástica, mas só isso. Tenho amigos em São Paulo, que quase nunca saíram daqui, e são de um amor ao próximo de se emocionar, que exercitam a caridade a todo momento.
Para falar a verdade, uma cidade grande é um prato cheio para exercitar essa virtude, e em sua forma mais pura, pois na magia do sertão, em meio a pessoas boas, carentes, é mais fácil. Difícil é ser caridoso imerso nas preocupações do cotidiano, num caos social, em meio à bagunça sob o medo da violência.
Mas atitudes simples nos tornam uma pessoa melhor. Poucos lugares oferecem mais possibilidades de fazer uma caridade como o trânsito. Tentei, mas perdi a conta de quantas pessoas pediram passagem no trajeto ao meu trabalho. Quantas vezes ajudamos e damos passagem? E nem digo que devemos deixar todos que dão seta a entrar em nossa frente, pois no trânsito de São Paulo fazer isso é quase ficar parado e não pensar na pessoa que está atrás de você. Digo ajudar algumas pessoas a saírem de situações difíceis no trânsito, quando a verdade é que há uma grande competição, como se motoristas fossem adversários.
Quantos pedintes sofridos que vemos pela rua, nos pedindo dinheiro. Caridade não é dar uma moeda, mas um cumprimento com vontade, carinho, mostrar que você se importa com ele (a), quando a maioria das vezes, ele (a) acha que ninguém se importa. Isso, por si só, pode liberar uma alegria nesta pessoa, um bem estar tão positivo ao seu coração, que nenhuma nota conseguiria.
Pra mim, fazer caridade é dar descarga naquele vaso imundo de um banheiro público, pensando que a próxima pessoa que o usará não terá aquela visão horrível que você viu.
A caridade verdadeira não está lá no sertão, porque está dentro de cada um. Pode-se ir até lá e voltar do mesmo modo que foi, pode-se viver em São Paulo e ser uma pessoa melhor. A cada dia.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Brasil, BRICs e populismo


Há mais de oito anos viajamos pelo sertão do Brasil. Desde as cidades mais estruturadas até as localidades mais isoladas onde dormimos em casa de moradores que não possuem banheiros. Já ouvi algumas historias sobre fome e miséria, assim como a seca que ainda hoje dificulta a vida de muitos brasileiros. Eu mesmo, em tanto tempo visitando locais diversos, nunca presenciei uma cena trágica dessas, apesar de saber que elas existem, assim como a miséria debaixo das pontes e nas grandes periferias dos grandes centros urbanos.
Porém já vi muitas historias de comerciantes que não conseguem registrar seus funcionários, pois assim eles deixariam de ganhar o Bolsa Família. Pessoas que me contam fatos sobre meninas que engravidam para ganhar o auxílio maternidade. 
Em uma palestra no início do ano, Jim O'Neill - economista chefe do banco de investimento Goldman Sachs -, que criou o termo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) designando as futuras potências econômicas do planeta, disse que, infelizmente, em pouco tempo o famoso grupo tem grande chance de ser apenas RIC. O Brasil poderá sair desta projeção pois, de todos os integrantes, é o único que não investe pesado em infra-estrutura e educação, dando prioridade a políticas populistas e investindo grande volume financeiro em ações de curto prazo, como ajuda financeira para empresas ou baixando impostos para vender mais carros, por exemplo. 
Hoje não temos desculpas para usar políticas como o bolsa-família. Investir dinheiro público com intuito de ganhar votos na próxima eleição é um atentado contra o próprio povo! Estamos perdendo a oportunidade de lançar o Brasil na onda de desenvolvimento e torná-lo um dos fortes países das próximas décadas.
Até quando o país será regido por homens que pensam apenas no que fazer para estar no poder daqui a quatro anos, e não no que fazer para sermos um país melhor daqui a dez?
Como cantava Luiz Gonzaga nos anos cinquenta, em meio a uma seca que castigava o sertão e gerava uma miséria digna de auxílio. Agradecia o auxílio de roupas e dinheiro para os sertanejos, mas pedia aos políticos para investirem na infra-estrutura, em empregos:

"... mas doutor uma esmola a um homem que é são
      ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão".

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Um profissional exemplar (por Carlos Fonseca)

Certa vez me fiz uma pergunta, e que talvez já tenha sido feita por muitas pessoas. “- Por que é tão difícil acordar pela manhã?”
E a resposta me veio da maneira mais surpreendente que poderia imaginar, e me serviu inclusive para elucidar a definição de “profissional exemplar”. Tudo começou quando em mais uma manhã de trabalho parei em um semáforo próximo de casa, fim do verão, por volta das 6H10 da manhã. Um garoto que aparentava os seus vinte e poucos anos, de semblante simples e sorriso no rosto, se aproximou do meu carro e colocou acima de meu retrovisor um pequeno pacote com algumas balas e seguiu dizendo:“-Bom dia senhor!” , após aguardar um certo tempo o garoto retirava o pacote com as balas e dizia com o mesmo sorriso e empolgação: “- Muito obrigado, tenha um bom trabalho”.
Seria um acontecimento qualquer para a rotina de um paulistano que percorre mais de 80 Km por dia e passa por mais de 15 semáforos, mas este singelo evento se repetia com a mesma motivação todos os dias, no calor, no frio, em dias de chuva, inclusive nos feriados. E o que mais me deixava surpreso era a pontualidade e a dedicação do rapaz, que nos 4 meses seguidos esteve naquele mesmo local com a mesma motivação e o mesmo sorriso todos os dias da semana.
Não vou negar que comprei as balas algumas vezes, principalmente nos dias de chuva, e assim como eu muitas pessoas faziam o mesmo, acredito até que aquele pequeno “comércio do farol” lhe ofereceu um importante retorno financeiro. Acontece que determinado dia não o encontrei mais, e assim seguiu por algumas semanas e meses, e tal foi minha surpresa quando encontrei outro garoto no mesmo lugar, com a mesma “estratégia” de venda e com uma motivação parecida. Foi então que tive a ideia de questionar o novo vendedor a respeito do paradeiro de seu antecessor, e o mesmo me disse:
- Ele é meu irmão, um dia um de seus clientes o convidou para trabalhar em uma empresa, está ganhando bem e está muito feliz.
Dei um sorriso, agradeci os esclarecimentos, e me enchi de orgulho ao lembrar de toda dedicação que aquele garoto ofereceu ao seu comercio informal, do quanto ele teve que superar a vontade de permanecer na cama nos dias de chuva e frio, mas sempre se colocou motivado e confiante. Esta simples história me fez refletir sobre a maneira com a qual as pessoas encaram o trabalho, tornando o seu dia-a-dia muitas vezes cansativo e estressante, ao invés de encarar com motivação e comprometimento, ingredientes facilitadores para o crescimento e satisfação profissional. Mas uma coisa não posso negar, de fato aquele garoto é um profissional exemplar.

Carlos Fonseca é dentista, tem 28 anos, e realiza projetos sociais em São Paulo ("Sorria Jd. Capela") e pelo Brasil com o "Bandeira Científica" da USP.

sábado, 28 de julho de 2012

Portugal

Temos muito a agradecer a Portugal. Claro que na história de nosso Brasil foram cometidos erros, excessos e muitas coisas erradas que levamos décadas e mais décadas para acertar. Outras, até hoje ainda sentimos.
Mas a história só pode ser julgada quando nos colocamos nas circunstâncias históricas da época vivida. Em um tempo mercantilista, de nações de reis e nobres materialistas, seria difícil pensar em uma metrópole que não explorasse as riquezas de uma imensa colônia como foi o nosso caso.
Pensemos nos fatos positivos. Como um país incrivelmente pequeno em sua extensão territorial manteve uma colônia gigante intacta, mesmo em meio a tantos países poderosos e com frotas marítimas assustadoramente superiores à sua decadente frota, em uma época em que nações agiam como piratas, conseguiu manter a união de todas suas capitanias.
A forte Espanha - que dominou Portugal por alguns anos naquela mesma época - perdeu o controle de todos os seus territórios (divididos no tratado de Tordesilhas) que se tornaram todos os países diferentes que nos circundam.
A vinda da família real para as terras brasileiras, em 1808, ajudou a manter a união, mesmo em meio a tantos movimentos separatistas do nordeste ao Sul.
Nossa independência foi realizada aos poucos, mas sem que precisássemos derramar sangue sobre nosso solo, como ocorreu em tantos outros países.
Se hoje podemos viajar mais de 4.000 quilômetros, verificando as mais diferentes paisagens, observando as diferenças culturais de cada estado, cada povoado, histórias, e tantas diferenças que tornam o Brasil um dos países mais ricos do mundo, temos que reconhecer a grande contribuição de Portugal.
E incrível o grande carinho que percebemos recíproco entre brasileiros e portugueses. Como nações irmãs que reconhecem a importância enorme que um exerceu na história do outro.
Aqui fica o carinho, de um homem que exalta todo o amor que tem pelo seu país, ao outro, que como um irmão mais velho, o guiou para sua formação.