domingo, 11 de abril de 2021

O caminho do meio e questões políticas e raciais

" Devo seguir meu coração ou a razão?". Uma das questões feitas no silêncio de nosso consciente. Pergunta que diz muito sobre situações importantes que estamos passando nos dias atuais.

Já disse um filósofo: "O correto é o caminho do meio. Siga-o e estará no caminho certo".

Guiar-se apenas pela razão, de maneira fria, nos levaria para um mundo frio e sem sentimentos que estaria longe de nossa essência humana, porém, em um Brasil passional e desgovernado como vivemos hoje seria uma boa força para nos colocar num rumo mais adequado em nossa caminhada.

A forma passional, que leva nossas forças a serem usadas como armas numa batalha pelo aspecto que defendemos, nos joga numa guerra muito mais a favor de nosso próprio ego do que em busca de um mundo melhor que acreditamos buscar.

O futebol, para quem já torceu ou simplesmente observou pessoas que, como eu, adoram este esporte, é um exemplo clássico de ser guiado cegamente pelo emocional. Um corintiano dificilmente consegue numa conversa com um palmeirense analisar que o outro time apresenta um elenco que merece o título porque é melhor e joga de forma mais bonita. Discussões calorosas sempre levam as pessoas a buscarem argumentos que promovam seu lado em detrimento ao outro.

Fácil entender quando é o futebol, mas difícil perceber que este mesmo aspecto permeia e se espalha em áreas muito mais significativas de nossas vidas como a política e o aspecto racial.

Um dos grandes problemas diretos que viemos enfrentando nos últimos anos em nosso país é a polarização entre "direita e esquerda". A opção de uma próxima eleição que traga os dois aspectos polarizados deste exemplo em um possível segundo turno presidencial assusta e desanima quem gostaria de desapegar deste estado de nossa velha nova política.

Cerca de uma semana atrás um episódio de um reality show trouxe uma cena onde um integrante falou sobre uma peruca grande parecer o cabelo de outro, João, que usa o estilo "black power". Fato suficiente para ambos os lados da sociedade pegarem suas armas para a batalha e nos vermos perdidos em tiroteios onde as balas de "mimimi" ou de "racistas" cruzam os ares.

Este foi um episódio claro onde os dois lados estão certos e estão errados. Fato onde a discussão coerente - única que realmente poderia nos ajudar a evoluir como sociedade e como seres humanos - fica sufocada sob os gritos que se seguem.

Fosse feito o comentário a um integrante loiro, de cabelo crespo e que usasse o mesmo penteado, este poderia se ofender, criticar quem o disse, a vida seguiria, quase como após um deslize descuidado de se chamar alguém de "gordinho".

Totalmente compreensível João ter se magoado e atingido em um local dentro de si tão dolorido como apenas pessoas que já passaram por caminhos semelhantes entendem.

O bom senso deve ser uma procura para nossa melhora e muitas vezes uma conversa coerente resolverá de forma muito mais rápida o problema do que a guerra, que faz a outra pessoa se armar e tentar se salvar para não ser colocado com uma alcunha de racista.

Assim como brincadeiras,  que de forma sutil habitam nosso inconsciente, sobre cor, padrão estético corporal, opção sexual, devem diminuir de nosso convívio cada vez mais. Hoje muito mais elas acontecem por um descuido do que por uma raiva ou preconceito.

Falar sobre é importante, mas o caminho mais rápido para encontrar a paz é a coerência. É o caminho do meio, como disse o antigo filósofo.


sábado, 21 de novembro de 2020

Raiva

Imagine a seguinte cena: você visita uma fazenda e num certo momento chega ao chiqueiro, onde vivem tristemente porcos enormes e maltratados, deitados sobre uma lama suja e fétida. Enquanto se compadece com a triste situação daqueles animais uma pessoa chega ao seu lado, lhe cumprimenta friamente, pula a cerca daquele local imundo, anda entre os porcos e se senta ali no meio, enquanto suas mãos enxarcadas de sujeira passam pelo seu rosto e corpo, como se estivesse em meio a um banho acolhedor.
"Não é possível! Ele deve ter algum problema!", você pensa ante aquela visão surreal. Em seguida pula a cerca com a mesma facilidade, senta-se ao seu lado e se chafurda, imitando os mesmos gestos que o vê realizando.
Seria algo extremamente insano, não?
Quando alguém está com raiva, está num dos estados mais indesejados do ser humano. Você não consegue pensar com clareza, raramente suas atitudes serão coerentes com seus valores e dependendo do tempo que convive com este sentimento causa danos reais ao seu organismo.
Digno de pena alguém que se deixe envolver em tal situação, por problemas fora de seu controle, e num sofrimento interno, como um vulcão em erupção, solte suas labaredas a sua volta.
De repente é você quem está no caminho. Por um acaso do destino - até mesmo como uma lição a ser aprendida pela vida - teve que lidar com aquela pessoa, naquele instante e recebeu sua descarga negativa.
Devemos entender que quando um indivíduo despeja sobre nós suas angústias, desesperos e sofrimentos internos, isso é um problema dele. Nossa resposta sim, passará a ser nosso problema.
Desse modo podemos claramente decidir ter compaixão por quem aceita a insanidade de mergulhar na lama indesejável - quem sabe até mesmo dizer uma palavra que a ajude a sair de lá - ou escolhermos mergulhar ao seu lado.
O importante, independente de nossa escolha, é que a façamos de forma consciente.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

A volta

E de repente, lá em cima passou voando um casal de araras. Uma sensação que poucas vezes havia sentido em sua vida extravasou em seu corpo como uma inundação, que nem tentou conter. Em meio à emoção ainda tentou relembrar quais outras vezes teria sentido aquilo. Seria quando criança, onde visitou aquele parquinho cheio de brinquedos? Seria quando beijou a pessoa amada? Ou ainda quando foi promovido para a área do trabalho que tanto desejava?
Voltou para o momento presente, como que puxado, pelo som da cachoeira que jorrava à sua frente.
"Que lugar mágico é este!", pensou.
Não era um lugar mágico em especial. Tampouco era diferente de tantos outros locais onde executivos como ele tinham um contato total e direto com a natureza. 
Lembrou de um amigo que visitou a Chapada Diamantina e lhe disse: "É o mais perto que você pode chegar de Deus!".
Na época achou um exagero. "Papo de bicho grilo". Mas naquele momento entendeu perfeitamente. Tudo fazia sentido. Ali ele sentia Deus. 
Lembrou, quando criança,  mecanicamente balbuciando palavras nas rezas aprendidas com sua avó - que fazia mais por medo de estar desprotegido do que por um entendimento de estar ligado ao universo. Só ali conseguiu realizar.
- Estar aqui é a melhor oração que já fiz em minha vida!
Se sentiu parte do mundo. Entendeu a importância de se cuidar do meio ambiente. Que era um animal deste planeta assim como aqueles que estavam dividindo o Jalapão com ele. "Aqui sou um mero visitante", pensou. E pediu em pensamento permissão por estar ali.
Automaticamente pensou na pegada do ser humano no planeta. Nos afastamos da natureza. Criamos cimento sobre a terra, prédios no lugares de árvores e quase cobrimos o céu! Talvez por isso quando voltamos a um contato intenso com a natureza somos chamados a relembrar de onde viemos e nos sentimos muito, mas muito bem.
Enquanto voltava para casa, para seu apartamento, um caixote em cima de vários outros que subia 12 andares em uma cidade de pedra, sabia que estava diferente do que quando foi. Estava mais próximo do que sempre deveria ter sido. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Luan

 O sol brilhante de Cabaceiras, na Paraíba, ardia lá fora. Luan arrumava os últimos detalhes para o projeto social que faria em sua comunidade.

25 anos e já organizara muitos deles, desde ação com profissionais diversos em regiões carentes, campeonatos de futebol a cursos de fotografia.

Enquanto separava os materiais sua mente foi longe, entre projetos realizados e o primeiro encontro com o mundo social, pousando no garoto que era e decidiu deixar para trás.

13 anos e era considerado um dos alunos mais bagunceiros da escola. Uma época em que ser reconhecido, mesmo que por motivos duvidosos, já trazia orgulho. Na fase inicial de formação do caráter há grande perigo nessa equação.

Uma vez um médico lhe disse que os primeiros meses de uma gestação são muito importantes, pois no começo o feto é apenas um aglomerado de poucas células e um erro nesta fase provoca distorções enormes no futuro indivíduo.

"Foi na hora exata que eles chegaram!", pensou.

Seu mundo interno travava uma árdua batalha. De um lado uma grande timidez, de outro uma energia latente que procurava gritar aos quatro cantos a revolta que não mais se contentava em permanecer ali dentro. Para a tristeza dos educadores da escola este último lado vinha vencendo as recentes batalhas.

Quando soube do projeto que sua escola receberia ficou feliz por não ter aula, depois pensou nas bagunças que protagonizaria. 

Porém, no primeiro momento que os viu, algo o tocou de uma maneira diferente. Aquelas pessoas agiam de uma forma que o desconcertou. Nos primeiros instantes seu lado tímido ganhou uma maturidade que nunca havia sentido, como se assumisse uma autoridade ímpar e apaziguasse toda turbulência que sentia dentro de si desde os tempos mais longínquos de sua memória.

"Se puderem dar uma olhada no Luan, agradeceríamos muito. Ele é um dos alunos mais bagunceiros da escola, mas um bom menino. Não ter um dente da frente não é fácil nessa idade...", disse a diretora a um dos profissionais da equipe.

Vanderson, além de dentista, era também protético e procurava restaurar justamente casos como aquele.

Enquanto se divertia em cada oficina que conseguia participar, aguardava com uma ansiedade ímpar sua prótese ficar pronta.

"Vamos ver como ficou?", disse o novo amigo, colocando novamente harmonia em seu sorriso.

Lembrava como se tivesse sido há uma semana. Lágrimas escorregaram pelos seus olhos, e por um instante parou de guardar os últimos itens do projeto que faria naquela manhã.

Sorriu. Um sorriso completo. Mais importante do que em número: completo em alma.

Pensou se o gatilho para ser o homem de bem que é hoje seria ter recebido novamente o dente que lhe faltava; o curso de fotografia e rádio que havia feito; o exemplo daquelas pessoas que deixavam suas casas a milhares de quilômetros para se doarem em outro estado...

Parou de procurar a resposta. Sabia que não a encontraria e naquele momento não podia perder tempo. Tinha algo muito importante a fazer.



quarta-feira, 10 de junho de 2020

Máscaras e sobrevivência

De repente ele passou a ver as pessoas de máscara. A primeira pensou se tratar de alguém doente. Mas aí veio outra e outra...
"Que diacho tá acontecendo?".
No princípio até se questionou se o estavam sacaneando, uma forma de reclamar de seu cheiro sem terem que olhar em seus olhos. Afinal, olhar nos olhos é uma coisa que um morador de rua se desabitua. Mas as viu aparecendo também dentro de ônibus que passavam apressados pela rua movimentava onde vivia.
"Pois é, estamos passando uma pandemia. Um vírus que está se espalhando pelo mundo todo!", lhe disse uma senhora simpática que vez ou outra lhe deixava algum petisco. Dormir na frente de um supermercado é estratégico.
Se você passa a morar na rua tem que desenvolver algumas estratégias de sobrevivência. Alimentação é uma delas. Banheiro outra. Ali naquela região deu sorte, fez amizade com trabalhadores, alguns taxistas no ponto da frente e o dono do bar da esquina onde teve a bênção de usar o banheiro. Dá para imaginar o valor de se usar uma privada quando já sofreu para encontrar um lugar o mínimo escondido para aliviar suas necessidades, agachado em um lugar público e sem ter com o que se limpar?
Alguns como ele - não costumava usar a palavra "amigos" - não tinham a mesma sorte.
"Na rua você não tem amigo", dizia. "Cada um tenta sobreviver como pode e se você tá no caminho da sobrevivência do outro é melhor correr...".
Tentou durante um tempo dormir em albergues. Desistiu. O clima que encontrava por lá era horrível! Primeira noite, roubaram seu cobertor; depois, dividir espaço com outros que vivem suas dores e loucuras não lhe pareceu uma boa idéia. Preferiu a rua, mesmo no frio. Pelo menos fazia o que queria e não dava satisfação a ninguém.
Essa era sua vida, seu cotidiano, que se alterava naquele momento com o desfile de máscaras ao seu redor.
"Você tem que tomar cuidado! Esse vírus é muito perigoso!" - disse outra senhora, olhos bondosos, mas que tinha aquele traço de dó que ele tanto detestava. Porém aprendeu a separar isso. Tudo ficava mais leve se focasse no aspecto bondoso da pessoa e não na dó vergonhosa que recebia.
Olhou para a máscara depois que ela foi embora. Colocou no rosto, mais para sentir como era usar uma. Mais para, pelo menos num instante, se sentir parte da sociedade. Por um instante se sentiu um cidadão, junto aos demais. Enfim compartilhava algo com os outros à sua volta, mesmo que fosse o medo de uma doença.
O medo. Tirou depressa a máscara, como acordando de um sonho que parecia bom mas o poderia levar ao precipício. Havia levado um bom tempo para criar a casca em sua alma que o protegia naquele duro cotidiano, não podia correr o risco de quebrá-la.
Já tinha comido coisas do lixo não seria qualquer vírus que iria baqueá-lo.
Morrer? Tinha coisas mais importantes para pensar naquele momento, como onde conseguiria comer naquele dia.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Empatia: uma viagem de paulistas ao Maranhão

Era uma aluna do ensino médio de uma escola particular de São Paulo. Com seus 16 anos esperava empolgada durante meses para uma viagem que mudaria sua vida.
- Vamos para o Maranhão para um intercâmbio, realizar um projeto social! - comentava aos familiares com todo orgulho que seu jovem e bondoso coração deixava transbordar.
A imagem que formava em sua mente sobre a carência local e a chance de ajudar os jovens de lá a enchia de compaixão e idealismo. E nessa atmosfera inebriante embarcou para a outra ponta de seu país.
O primeiro dia surgiu, belo e brilhante como costumam nascer os dias no nordeste brasileiro. A chegada à escola, onde trabalharia ao lado de seus amigos ministrando oficinas diversas (dança, pinturas de rosto, esporte, ciências, bijuterias, entre outras) aos alunos locais, apresentou a primeira surpresa: aqueles garotos eram diferentes do que poderia imaginar. Não apresentavam a carência entristecedora, aparência frágil ou tristeza alguma. Muito pelo contrário, o sorriso fácil, o alto astral, a alegria que a alma exalava os fazia vibrar na mesma sintonia que sua turma.
- De repente percebi que não cabia olhar aquelas crianças - que tinham tão pouco em relação ao que temos - com dó, mas sim com empatia, vendo como temos coisas em comum! Somos todos seres humanos, brasileiros, com muito mais em comum do que diferenças. - Confidenciou a um dos amigos que coordenava o projeto.
Realmente, aquela experiência, tão longe de casa, revirava sua visão interna de Brasil, de mundo. Mesmo a de todos seus amigos. Em uma turma onde normalmente há uma certa hierarquia entre alunos do primeiro, segundo e terceiro ano, aquela atmosfera colocava a todos numa horizontalidade que desnudava qualquer conceito ou pré-conceito.
Ali, no último dia de trabalho num pátio de escola do interior do Maranhão, viu os amigos brincarem com uma bola de vôlei em uma imensa roda com os alunos locais e os coordenadores da equipe. Todos unidos, sem diferenças de classe social, localidades ou idade. A alegria vibrava em cada um naquele pátio numa sintonia que estava muito, mas muito além de qualquer conceito. Formavam uma grande família.
Por um instante seu espírito vislumbrou um pouco do sentido da vida e uma lágrima escorreu de seus olhos abençoando aquele momento.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Sobre o valor e valores

Ela chegou eufórica em casa. Tinha vivido na escola a oportunidade de ajudar ao próximo. Nove anos de idade e a vontade de melhorar o mundo.
- Pai! Pai! Me dá dinheiro para eu levar na escola?! Eles estão arrecadando para ajudar a comprar leite para famílias carentes!
O Pai se felicitava por dentro ao ver que ali se mostrava um coração preocupado com pessoas e com o mundo em que vive. Perguntou quanto ela levaria e se surpreendeu quando a resposta foi "uns 50 reais, tá bom!".
- Filha, acho que 50 reais é muita coisa. Fica pesado pra ajudar. Você não tem que tentar resolver tudo sozinha, o ideal é cada pessoa ajudar com um pouco.
- Mas pai - disse a pequena quase indignada - você não sabe! São pessoas carentes, eles precisam e não tem dinheiro para comprar esses leites que são caros! - era um argumento inapelável, papai não teria como escapar.
Ele pensou; entre a vontade de adentrar o caminho mais fácil, agradando a filha e se orgulhando de sua preocupação social ou ensinar o valor das coisas. Decidiu o que para ele era o certo.
- Tudo bem, acho que é você quem tem realmente que decidir isso já que o valor sairá da sua mesada...
Ambos sabiam que ela tinha em suas economias um pouco mais do que a quantia pedida. Ela pensou, cara de tristeza, mas decidiu.
- Tá bom, pode ser dez reais, então.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Gratidão

Entre normas e regras internas criadas seguimos nossos dias, agindo de forma quase automática. Sobre esmolas havia criado um roteiro que me guiava, admirando quem o fazia mas tentando ajudar de outras formas. Já havia visto adultos explorando crianças e recolhendo o dinheiro que pediam na rua.
Aquela era uma fria noite de junho e com este conceito intrínseco esperava minha vez na fila do mercado. Numa mão uma garrafa de vinho, na outra salgados e na cabeça o pensamento em ajeitar as coisas em casa para receber amigos minutos depois.
- Tio, você pode comprar este pão pra mim? - me perguntou um menino de seus 12 anos.
Seus trajes surrados indicavam que dormia na rua. Usava uma blusa fina de moletom para o frio que fazia e exibia um saco de pães na mão.
- Não tenho, meu amigo. - Respondi de forma maquinal, quase friamente.
O garoto se virou como já acostumado àquela resposta e se dirigiu a um senhor da fila ao lado, recebendo mais uma negativa.
"Espere! - pensei - Ele me pediu para comprar pão, não dinheiro".
Enquanto ele andava meio sem destino após um terceiro não o chamei. "Amigão, deixa que eu passo o pão pra você".
- Obrigado! É oito e quarenta. - disse como que preocupado se não seria muito caro.
Aliviado por ter conseguido "resgata-lo" vi na frente do caixa prateleiras repletas de doces de todas as cores. Perguntei se não queria pegar um. Ao me perguntar qual, respondi o que toda criança sonharia ouvir: "pode escolher".
Viu os valores, pensou e perguntou:
- Em vez do doce, posso pegar um refrigerante?
É claro que podia. Outra pessoa passasse aqueles pãezinhos e talvez minha consciência pesaria de não ter ajudado. Disparou para o corredor de bebidas e voltou feliz com uma coca de 2 litros.
- É seis e cinquenta, pode ser?
Ao passar no caixa retomou:
- O meu é oito e quarenta do pão e seis e cinquenta da coca. E o seu? - disse apontando para a garrafa de vinho.
Disse que não lembrava ao certo. E não lembrava mesmo, mas também estava sem jeito de dizer o valor daquela garrafa que, apesar de não ser um vinho caro, era muito mais do que o lanche que alimentaria algumas pessoas de sua família aquela noite.
- É engraçado, as vezes as pessoas nem sabe quanto custa as coisas... - disse entre divertido e pensativo.
Nos despedimos. Ele seguiu feliz para a rua com seu irmão que o esperava junto ao caixa. Entrei no carro e o conforto do interior, longe do vento frio que fazia lá fora, me envolveu. Saindo do estacionamento vi na calçada os dois irmãos, abrindo o saco de pães com o provável irmão mais velho, que estava sentado envolto em um fino cobertor cinza. A noite seria mais agradável para aqueles três. Assim como também seria a minha, envolto aos amigos.
Ao seguir em diante senti uma gratidão imensa. Não tivesse resgatado a oportunidade naquele supermercado poderia ter visto uma cena diferente naquela calçada.
E poucas vezes um vinho foi tão gostoso quanto o daquela noite.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Olhar de paz

Ele atendia um senhor muito simples, que dizia ser morador de rua.
- Na verdade costumo dormir em albergue, na rua só quando não consigo vaga. 
Pelo sotaque ligeiramente marcado acabou descobrindo que ele havia nascido no Líbano e veio ao Brasil depois da guerra que devastou o país nos anos 80. 
- Doutor, quem vê guerra quer paz. O senhor não imagina o que é ver alguém levando corpos de pessoas no carrinho de mão...
Ele realmente não imaginava. E mesmo tentando sabia que não chegaria perto de entender a avalanche que uma imagem daquela ocasiona no interior de um ser humano.
Lembrou das recentes imagens da guerra que ocorre na Síria, das fotos das crianças machucadas. Automaticamente pensou nas mazelas de seu país, que de tão grande ainda era imensuravelmente menores do que conversava com aquele humilde senhor.
Entendeu o sorriso sereno e limpo de um homem que dizia morar na rua e mesmo assim seu olhar transmitia paz.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Um lugar no tempo e no espaço

Ele estava em um bar, do sertão, ouvindo dois amigos conversando sobre um acidente fatal ocorrido ali vinte anos antes. 
Um homem havia caído de uma cadeira sobre a pecheira que carregava, provocando um imenso corte na perna que sangrou até levá-lo à morte. 
- Mas isso aconteceu por falta de sabedoria! Se alguém soubesse, era só amarrar um pano em volta, bem forte, que poderia até ter arrancado a perna que dava tempo de chegar ao socorro. - disse um deles.
Vinte anos depois dessa conversa, ela surgiu em sua mente, fresca como se tivesse sido ontem e necessária como o remédio que salvaria sua vida. Um descuido enquanto operava uma serra de marcenaria fez com que caísse sobre a mesa e um corte que quase atingiu o osso de seu braço fez com que seu sangue espirrasse ao longe. 
Como se fosse automático, rasgou sua camisa e amarrou a tira fortemente antes do corte, o que estancou a hemorragia. 
Eram três da tarde e após passar em dois hospitais o médico decidiu levá-lo até o Hospital das Clínicas, onde foi operado. 
A cirurgia ocorreu apenas à uma da manhã do dia seguinte e após acordar da anestesia o cirurgião o explicava da dificuldade de reconstrução dos nervos e o religamento dos vasos sanguíneos. 
"O senhor teveve sorte e sabedoria por ter estancado tão bem o sangramento, do contrário não estaria aqui agora", ouviu do médico aquelas palavras que ficariam gravadas em sua memória. 
Assim como aquelas ouvidas vinte anos atrás, de um acontecimento de mais vinte anos antes, em um lugar longe no tempo e no espaço, mas que salvaram sua vida. 

quinta-feira, 10 de março de 2016

Sobre voltar a enxergar

Muitas vezes um médico se encontra frente a uma difícil decisão, aquela não seria diferente. Dona Maria já havia sentido mais de noventa primaveras aquecerem sua pele, porém já fazia vinte delas que não mais enxergava suas cores. A catarata avançada a cegara e ela sentiu naquele profissional sua última esperança de voltar a enxergar em seu fim de vida.
- Doutor, já passei em muitos outros médicos e ninguém quer me operar por eu estar com a idade avançada. Mas eu quero tanto! Sinto que minha hora está chegando, não conheço o rosto de meus bisnetos. Gostaria de rever meus filhos, irmãos...
Entendia perfeitamente seus colegas. Levar uma paciente com mais de 90 anos para a mesa de cirurgia sempre é um risco grande. Um organismo já debilitado pode não resistir à anestesia ou ao stress cirúrgico. Comentou com ela e toda a família sobre todos os riscos possíveis, mas achou justo o desejo sincero de uma senhora em voltar a ver seus entes queridos.
A cirurgia foi um sucesso! Um misto de alegria, por ter devolvido a visão a alguém, com o alívio da paciente ter suportado a intervenção, o envolveu.
No acompanhamento pós-operatório, já no terceiro dia pós cirúrgico, a filha comentava ao lado da senhora a alegria de toda a família, compartilhando a emoção da "bisa" em rever a todos.
- Virou uma peregrinação de parentes em casa! Todo dia tem gente diferente para ela ver. Já tem parente vindo do norte. Fazia tempo que a família não se reunia assim!
E os dias seguintes transcorreram assim. Parentes vieram do sertão para revê-la, e ela, para vê-los. No décimo dia, Maria descansou. Como se esperasse apenas a alegria de poder ver novamente o rosto dos seus para fazer sua passagem, fechou definitivamente seus olhos.
Emocionado, o doutor ouvia o agradecimento sincero da filha e os relatos alegres dos últimos dias.
A família havia dividido a cirurgia em quatro pagamentos.
- Está tudo certo. Não precisam se preocupar com as outras parcelas. - disse segurando a emoção.
Não podia existir maior pagamento do que ter ajudado com sua intervenção àquela simpática senhora a ter seus últimos dias inundados de amor e da visão de sua família.

domingo, 25 de outubro de 2015

O jeitinho

Sábado, 24 de outubro de 2015, ele estava com a esposa na fila de um restaurante que havia aberto perto de sua casa. Pela proximidade da inauguração ainda havia boa concorrência para entrar no local e uma enorme fila se estendia a sua frente, para retirar uma senha e entrar em uma fila de espera.
"Já imaginávamos", pensou resignado, e assim se passaram mais de vinte minutos para dar seu nome à garota que organizava a espera.
Enquanto o último casal a sua frente passava seus dados, observou uma jovem, de não mais que vinte e cinco anos, aproveitando a pequena confusão de pessoas em volta, se juntar ao seu lado. Assim que o casal saiu ela se adiantou perguntou à funcionária:
- A espera está muito longa?
- Em torno de quarenta minutos, gostaria de esperar? - respondeu a hostess, sem imaginar que não se tratava de alguém fora da fila. Quando a moça resolveu deixar seu nome na lista, ele decidiu que, daquela vez, não deixaria passar.
- Tudo bem, mas você não estava na fila, não é?
Olhando assustada e não imaginando que alguém recriminaria seu gesto de ultrapassar a todos que pacientemente esperavam sua vez, gaguejou e disse para a funcionária que a olhava assustada:
- Não, só vim fazer uma pergunta, meu namorado está lá atrás na fila... - disse constrangida, disfarçando o indisfarçável, visto que passava seus dados para a lista de espera.
- Mil desculpas, não havia percebido que ela não estava na fila! - se desculpou a funcionária sinceramente e ele a tranquilizou, não havia o menor problema.
E realmente não haveria. O problema que poderia ocorrer estava envergonhado de sua atitude, ao ponto de não mais ficar na fila.
Enquanto jantava pensou no número de pessoas que recriminam corrupção no governo, em empresas, mas quando encontram uma possibilidade buscam levar vantagem ilegal sobre os outros.
Decidiu não mais pensar sobre aquele ato, ou o jantar não teria o mesmo sabor. Mas tinha a certeza de não mais observar uma corrupção sob seus olhos sem se manifestar.

domingo, 19 de julho de 2015

Filho de Tupãberapa

Não haviam muitas tribos isoladas no país. Na verdade, nos dedos de uma, ou no máximo, duas mãos, ainda descobriríamos um grupo de seres humanos completamente isolados de outros de sua espécie. Porque um brasileiro, hoje, está tão próximo de outro homem, quanto um chinês.
Mas tribos de índios brasileiros que se mantém na mesma etapa evolutiva desde que Cabral pisou nestas terras, há pouquíssimo, em mais de 500 anos.
"Nossa, mas quinhentos anos é muito tempo!", já pensou, lembrando daquela amiga que sempre julgava tudo pelo status quo do pensamento corrente.
- Você tá louca?!! Enquanto esses caras andavam pelados pelas ruas daqui da cidade, outros estavam estudando música clássica na escola no Velho Continente! E sabia que eles ainda andam pelados?!!! - diria tão diretamente quanto um verdugo em frente ao muro de fuzilamento.
Por tudo isso, se sentia um privilegiado em conversar com aquele jovem.
O outro, à sua frente, também se sentia um "escolhido". Por ser o filho mais velho o pajé - algo na atualidade comparável a ser filho do príncipe Charles, da Inglaterra (e aqui, um outro parênteses - pensou -, uma adolescente do interior do sertão do Piauí, conhece os pormenores da vida deste príncipe e de sua família real inglesa...).
Ele não fora "o escolhido". O índio sabia de sua colocação em sua época na terra. Por estar ali, deveria agradecer à luz de Tupãberaba. Por ter nascido naquela tribo, por ser o filho mais velho do soberano dos seus. E sabia também da brutal responsabilidade daquela posição.
Estava ali, naquela reunião de homem-branco, por causa de uma ong que cuidou da saúde de sua tribo e começou um trabalho de parceria por lá.
Pensando em tudo isso, o rapaz da cidade grande, decidiu tentar estabelecer o maior diálogo possível - claro, com a ajuda de um intérprete - com seu "semelhante".
- É um enorme prazer conhece-lo! - disse o outro em um tupi-guarani difícil de assimilar mesmo ao experiente intérprete.
- Meu amigo, você nem imagina quanto estou feliz em estar aqui...
E ali conversaram, sobre tantos assuntos quanto poderia imaginar. Porém, marcou muito quando o jovem riu, quando ouviu sobre o cotidiano de sua gente. Era difícil entender esse negócio de segunda, terça..., enfim!
Só poderia ser coisa de Jurupari, pegar cinco dias sagrados, como parte de sete, os transformando em tristeza, em troca de dois que seriam felizes, assim como os sete deveriam ser.
Se desculpou com o novo conhecido pelo riso que deu. E ele percebeu ainda que o outro também sorria como seus amigos.
Percebeu também, que algo não andava bem com sua sociedade. Não era apenas uma crítica de alguém que sentava num bar e tomava 10 chopps em sua frente, e discorrias sobre possibilidades e correntes humanistas. O rapaz em sua frente vivia sete sexta-feiras por semana, aclamada por dez entre dez amigos seus como o melhor dia de todos!
- Trabalhar é bom, comemorar é bom, Por quê dividir essas coisas? - ele não soube responder.
Não sabia se conseguiria deixar as coisas que aprendeu em sua sociedade, mas tinha certeza que a partir daquele dia, procuraria ser uma coisa simples: apenas um ser humano melhor.
E sua meta dali para frente era apenas ser melhor do que ontem.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Crônicas de um brasileiro nos Estados Unidos - Contrastes


Era a segunda vez que visitava os Estados Unidos. Da primeira, se surpreendeu mesmo antes da aterrisagem. 

Quando decolou à noite de Guarulhos, em São Paulo, como sempre fazia, olhou para as luzes das casas e ruas que iam se distanciando abaixo de si. Curioso notou a disposição desses pontos brilhantes, irregulares, espalhados como se fossem sementes jogadas ao acaso por um lavrador descuidado. 
Ao se aproximar do destino, espantado, fitou as luzes que se aproximavam abaixo. Eram de uma regularidade que não conhecia. Formavam quadrados perfeitos, brilhando em uma ordem exata, denunciando o que deveria ser um crescimento planejado e consciente. 
Achou estranho sentir aquele contraste como um pequeno incômodo surgindo do fundo de seu peito. Ainda sentiria muito essa sensação, e o avião ainda não tinha tocado o solo. 
Desta vez a surpresa não viria tão cedo, mas quase. 
Visitava um amigo que morava em Portland, do outro lado americano, necessitando um segundo vôo no país. 
Diferente do primeiro, este vôo interno era composto praticamente por cidadãos locais e assim em mais 4 horas estava pousando em seu destino. 
Como acontece em qualquer lugar - quando o avião para - pessoas levantaram e pegaram suas malas no bagageiro. Mas o que viu em seguida o deixou espantado. As pessoas da primeira fila saíram, e só então as da segunda se adiantaram. As que estavam na terceira se levantaram em seguida e, pacientemente, pegaram suas malas de mão e seguiram em diante. 
Ele estava na penúltima fila e viu aquele desembarque calmo, orquestrado, de uma educação intrínseca que, mais do que chocava, emocionava. 
Se emocionou porque lembrava do "salve-se quem puder" quando as portas de um avião abriam em seu país. 
Quando chegou sua vez teve vontade de agradecer às pessoas da última fila por esperá-lo sair, mas se segurou. Lembrou que ninguém agradecia a quem esperava, pois aquilo era o certo, e o certo não é um agrado, é uma obrigação. 
A surpresa desta vez não havia ocorrido antes do avião tocar o solo, mas surgiu antes mesmo de que saísse da aeronave. 
E assim ele saiu, pensativo para uma cultura que era mais nova que a sua, mas estava a muitos e muitos anos na frente em questão de cidadania e educação. 

sábado, 21 de março de 2015

Conceitos

Pelos caminhos que vamos traçando fiz amigos verdadeiros em extremos, de uma simplicidade de sala de chão batido de terra ou de um brilho de porcelanato que ofusca a visão. 
Nesse convívio mudei alguns conceitos que ouvi durante a vida. Um deles: "o dinheiro não trás felicidade".
Bobagem. O que trás, ou não, a felicidade é o grau de bondade que há no coração da pessoa e isto está longe de estar ligado à posição social ou a oportunidades. 
E vou mais além: nem está ligado à educação que as pessoas exaltam, que é a escola de qualidade. Já vimos adolescentes ricos, que viajaram o mundo, falavam várias línguas e colocaram fogo em um índio porque pensavam se tratar de um mendingo(!). 
A educação de casa sim, ajuda a moldar um coração bom. 
Tampouco, como outro ditado prega: "o dinheiro deturpa o ser humano". Pessoas boas nascem no mesmo tanto entre ricos e pobres. Aquele corrupto que desviou milhões ou o empresário tirano e desonesto são o espelho exato daquele garoto que nasceu na favela e em vez de procurar um trabalho prefere as facilidades de tráfico. Alguém dúvida que, nascessem em papéis trocados, desempenhariam seus papéis da mesma forma?
Uma pessoa infeliz nunca estará satisfeita com o tanto que tem, sempre colocará a alegria no próximo passo a dar, a cada dia.  
A felicidade escolherá para amiga aquele que viaja para Paris ou aquele que em seu chinelo velho de dedo senta na calçada de terra para conversar com o vizinho e olhar as crianças brincando. 
Para isso, basta ter um bom coração. Simples assim.