terça-feira, 9 de setembro de 2008

Tropa de elite: sucesso e tortura (por Fernando Martins)

Tropa de Elite foi sucesso de público e até ganhou prêmio internacional. O protoganista do filme virou herói nacional. Na Europa, pode-se ver a propaganda do filme brasileiro nos ônibus e nos metrôs. Tudo isso à primeira vista, parece glamouroso para o nosso país. Porém, uma reflexão se faz necessária.
Analisando o filme mais atentamente, percebe-se que há elementos contidos nele, que não foram discutidos ou percebidos por nossa sociedade. Além da narrativa que relata a corrupção da polícia, o consumo de drogas pela classe média e a guerra causada pelo tráfico, também nos é apresentada uma prática terrível, hedionda, e inconcebível para a maioria dos seres humanos: a tortura.
A tortura já foi objeto de várias obras na história do cinema. Desde a tortura perpetrada por assassinos psicopatas, passando pelos crimes de guerra, indo até a tortura exposta em filmes como Lutero, baseado na história da igreja católica apostólica romana, escrita com tinta de sangue.
A novidade que traz o filme brasileiro é a forma com que este apresenta a tortura. Esta prática que bem poderia ser eleita como a mais vil, mais repugnante, mais covarde e a mais sombria prática humana, é encarada no filme, como um meio de estabelecer a justiça e fazer triunfar a ordem. Certamente até Maquiavel, um dos primeiros teóricos do Estado Moderno, se espantaria em ver até onde estenderam a interpretação de sua velha máxima:“os fins justificam os meios”.
É uma pena que novamente a grande mídia e boa parte do público, tenham valorizado mais o lado Rambo ou Hollywodiano do filme, do que condenado uma prática hedionda, que já deveria ter sido extinta há muitos anos de nossa civilização. A tortura não educa, não transforma, não repara dano algum, ao contrário, no máximo reduzirá sua vítima a um cadáver ou transformará seu algoz num monstro maior.
Além de lamentarmos o modo com que o filme apresentou a tortura, legitimando-a a partir de seu uso por representantes da justiça e da ordem de nosso país, devemos esperar que a bandeira da tortura não seja hasteada nos salões de Hollywood, mas que seja posta sobre o caixão da crueldade humana e enterrada, deixando em sua lápide, uma mensagem àqueles que ainda anseiam por uma sociedade mais justa, mais sensata, menos desigual e mais sensível ao sofrimento alheio.

Fernando Martins é engenheiro e brasileiro

domingo, 7 de setembro de 2008

"Diário de Bordo": Canudos - seu Henrique

Em Canudos conhecemos seu Henrique. Um senhor de 94 anos, que nasceu nos anos pós-guerra e é praticamente o único morador da comunidade que vive quase nas mesmas condições em que os habitantes daquela época viviam.
Sua casa - que sobrevive bravamente ao passar do tempo - é feita de barro sobre uma estrutura de galhos finos entrelaçados, do mesmo modo que eram levantadas no final do século XIX. Apenas uma parte mais nova - um pequeno cômodo que construiu na entrada - foi levantada com tijolos de barro queimado.
- Tem muita gente de fora que vem até aqui e diz que é pra eu não derrubar essa casa nunca, pelo amor de Deus! - disse, deu risada e continuou - Mas eu digo que não vou derrubar não. Que vou morrer aqui.
Seu pai, ainda garoto, participou da guerra. Tinha 14 anos. Estava na batalha final e mesmo recebendo um tiro na perna conseguiu escapar.
- Depois que ele tomou uma bala coseguiu fugir, ajudaram a levar ele por trás para longe, antes de acabarem com tudo por aqui.
Como muitos dos sobreviventes, viveu um tempo longe e retornou para Canudos, ajudando a reerguer a comunidade.
Alguns meses após o fim da guerra a imagem era desoladora. Os soldados haviam incendiado tudo para que não sobrasse nada para reavivar a memória do local. A muitos kilômetros dali, era possível se ver uma tenebrosa nuvem escura sobre a região, como se anunciasse a tragédia ocorrida recentemente. Se aproximando um pouco era possível se distinguir o que a formava: milhares de urubus. O próprio cheiro dizia-se insuportável. Podemos imaginar o que as primeiras pessoas tiveram que passar para repovoar sua terra.
Depois que seu pai retornou para a região seu Henrique nasceu, em 1914.
Sentados no pequenos quintal, passamos um bom tempo ali, conversando e ouvindo suas histórias. Por alguns instantes parecia que éramos transportados para o começo do século passado. O banquinho de tronco, a casa de barro, as cabras andando e balançando seus sinos de metal.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A legalização das drogas - por Pedro Paulo

Aproveitando o espaço cedido pelo meu amigo Wolber aqui neste blog, eu acho que devíamos discutir sobre assuntos mais polêmicos. Concordando, ou não, poderemos chegar a um senso comum ou pelo menos exercitar nosso raciocínio.
Começando essa série de temas queria falar sobre as drogas. Esse assunto que é tabu em qualquer meio e aquece os ânimos onde quer que apareça.
Sei que minha opinião não é lá muito popular, mas quem sabe eu me explico bem ou alguém me convence do contrário. (acho difícil, mas vamos lá) Portanto as pessoas de coração fraco ou que não gostam de emoções fortes podem sair da sala.
De sopetão: sou favorável à legalização das drogas! "Ai, o que é isso! Deve ser um drogado!" algumas menininhas podem pensar e já respondo: não. Tudo bem que vez ou outra gosto de dar uma ligeira relaxada com algo suave, se é que me entendem, mas além de ser muito de vez em quando, nem dá pra me considerar como um lesado.
"Ok Pedro, mas porque então você é a favor da legalização??"
Tudo bem querido leitor, já respondo sua pergunta. Primeiro porque eu quero ter a liberdade de saber o que é bom ou não pra mim. Só isso. Antes dos 18 devia (na verdade devo até hoje, por respeito) satisfação aos meus pais, que sim, deviam me guiar dizendo o que era ou não bom para mim. Agora, quem é o estado para dizer: "Não rapaz, isso não é bom para você, vai te fazer mal, não use senão eu te prendo!"??
Ele deve sim me dizer que eu não devo prejudicar os outros e punir os que fazem isso, com toda certeza, senão tudo viraria uma anarquia só. Agora não me venha dizer que eu não posso usar porque fará mal a mim. Daqui a pouco não me deixará usar desodorante barato porque pode espantar as mulheres e futuramente diminuir minha probabilidade de casar! (tudo bem, sei que exagerei, mas me entenderam, não?)
Em segundo lugar, creio que a legalização diminuirá drasticamente a violência. O tráfico existe porque as drogas são proibidas e recebem enormes quantias de dinheiro.
Terceiro: A cerveja, o cigarro. Tudo droga. Porque eles são liberados e um simples baseadinho não? Pra mim não tem diferença fumar um ou tomar cinco chopps em um bar.
"Ah Pedro, agora já chega! Como não tem diferença? O cara fica chapado!"
Ué meu amigo, e quantos não vemos trançando as pernas ao sair de um bar. O problema é quem exagera. Tudo em exagero é ruim! Pra isso tem a lei seca e pode ter a lei sem fumaça. É só não dirigirmos depois e tudo bem.
Podia continuar listando aqui muitos outros tópicos, mas acho que estes já dizem por si só.
Mais uma polêmica: não acho que seja correto ficar jogando a culpa toda nas costas do usuário. Ele tem a sua parcela de culpa? Claro que tem. Mas tão grande quanto a dos homens que poderiam melhorar esse país e não melhoram! É fácil fazer propaganda e mostrar que um baseado comprado vira bala na arma do bandido. Eu poderia fazer uma que uma assinatura não dada por homem para legalizar as drogas manda para vala milhares de adolescentes. Mas preferia mostrar que uma assinatura num banco da Suiça vira um monte de mortes nas filas dos hospitais e desempregados sobre as pontes do nosso país.
Sei que estou sendo um pouco agressivo e peço desculpas se pareci arrogante, não era minha intenção. Mas agradeço ao Wolber o espaço para poder jogar todas essas palavras que me ficavam presas na garganta. Estou mais aliviado!
Até mais.

Pedro Paulo é administrador, tem 32 anos

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

"Diário de Bordo" : Canudos - Monte Santo

Dia seguinte, como era de praxe, acordei e matei mais dois pernilongos MacGyvers que misteriosamente entravam em meu mosquiteiro.
Nesta manhã seguimos para Bendengó com a missão de comprar telhas transparentes que melhorassem a iluminação das duas salas de aula e da biblioteca. Os fortes ventos da região fazem as janelas ficarem fechadas por grande parte do tempo e as fracas lâmpadas - penduradas no teto por um longo fio - não dão conta de iluminar as salas.
Lá também fizemos o orçamento para a futura (e breve!) novidade do Instituto para a comunidade: um posto de saúde. Nesta noite seria afirmada mais uma parceria com os moradores. Até dezembro será construída uma casa que possuirá consultórios médico e odontológico e abrigará os voluntários que trabalharão ali.
Aqui já fica um convite aos meus amigos dentistas que quiserem conhecer uma região maravilhosa e ainda realizar um bonito trabalho social. Poderá trabalhar durante uma semana atendendo a população, se hospedar na sede do IBS e ainda fazer grandes amigos.
Voltamos com as telhas que rapidamente foram instaladas nas 3 salas, o que melhorou muito a iluminação.
Pudemos então almoçar e pegar o carro para conhecer (mais uma vez, pelo menos eu conheceria...) a cidade de Monte Santo. Ali há uma igreja famosa, que recebe romeiros da Bahia inteira. Se localiza no topo de uma enorme montanha e podemos vê-la de longe e de qualquer parte da cidade. Ganhou sua fama quando, pouco antes de fundar o Arraial de Canudos, Antônio Conselheiro a reformou com seus seguidores.
Seguimos para lá eu, Luis, Cristiano, Marluce, Damiana e o Quinha - os quatro se apertando atrás do pequeno celtinha que alugamos em Salvador.
Como estava muito calor compramos algumas garrafas de água e nos encaminhamos para os infindáveis dagraus, menos a Marluce que grávida de alguns meses preferiu não se esforçar tanto.
Logo nos primeiros degraus vi algo se mexendo no canto do caminho; levei um susto: uma cobra coral!
Tirei a foto e fiquei um pouco preocupado, já que voltaríamos no finalzinho da tarde e a luz já teria ido embora. "Vai que a gente pise numa cobra na volta!" O medo continuaria até o final da descida (ainda mais que ninguém havia levado uma lanterna. Nesse sinal o celular ajudou um bocado...).
A subida é bem cansativa, mas vale muito à pena. A cada trecho percorrido olhamos para a cidade menorzinha, lá embaixo. A escadaria de pedra leva até, mais ou menos, metade do morro, o restante é uma estradinha que segue serpenteando até o topo, onde está a linda Igreja de Monte Santo.
No final da escadaria o Luis se lembrou da foto que levava para seu Manoel, vigia que passa dias inteiros lá em cima, cuidando de tudo. Ele a havia esquecido no carro. Desceu tudo de novo para ir até o carro e nos alcançar novamente. Parecia piada...
Nessa hora um cachorrinho começou a nos seguir. Fiel, como se fosse nosso andava e respondia a nossos chamados, bem curioso. Parece que estava procurando companheiros para o passeio.
Lá em cima a vista compensa todo o sacrifício; e pensar que tem velhinhas que sobem tudo aquilo de joelhos, carregando pesados apetrechos e crianças no colo. O que não é o poder da fé.
O Luis entregou a foto que tirou meses antes do seu manoel, um tiozinho sertanejo que qualquer posição que fique parece ótima para uma foto Se está na janela a mão está no queixo e o olhar no horizonte, se está sentado numa pedra as mãos abraçam o joelho e o olhar se perde no infinito. Gente finíssima, nos convidou para visitar sua casa numa próxima vez para comer uma galinha caipira: quase fomos naquela hora mesmo!!
Assim que presenciamos o lindo pôr-do-sol nos despedimos da igreja mágica de Monte Santo e retornamos pelo mesmo caminho de pedras que nos levou até lá em cima. Desta vez, sem topar com cobra alguma...

terça-feira, 26 de agosto de 2008

"Diário de Bordo": Canudos - E o barquinho vai...

Nossa sexta seria tranqüila pela manhã, eu conheceria a biblioteca construída pelo IBS, veríamos alguns materiais de reforma e poderíamos fazer um esperado passeio de canoa. Assim que acordei tive uma frustração: vi dois pernilongos por dentro do meu mosquiteiro. Ele não tinha furo algum, muito provavelmente os dois já estavam lá dentro quando eu deitei, o que me fez parecer um idiota tirando um barato dos outros famintos do lado de fora na noite anterior. Sarei minha pseudo-raiva esmagando a dupla dinâmica. O café da manhã seguiu implacável, como sempre, e nós saímos rolando, como sempre. A biblioteca, que nos esperava, foi construída pelo IBS, junto com os moradores, ao lado da escola. Ficou muito bonita, bem abastecida com livros e equipada com uma televisão. Após a visitarmos e checarmos os materiais que compraríamos mais tarde seguimos com nossos amigos para o passeio de canoa, aproveitando o sol da manhã.
O plano que eu e o Luis fizemos era seguir de barco até a região onde está a cidade antiga. Daríamos um mergulho, sem nenhum equipamento mesmo, para tentar enxergar algum resquício da igreja ou muro de alguma constução. O único “apetrecho” que eu levava era um solitário e surrado óculos de natação, que não serviu para nada além de fazer a festa das crianças, que adoravam colocá-lo e pedir para tirarmos fotos.
Chegamos no local, mas não conseguimos enxergar nada. Ali deveria ter uns 7 metros de profundidade e nosso medo de meter a cara em algum tronco ou resto de muro fazia não descermos tão à vontade.
Seguimos então na canoa sabiamente guiada pelo Cristiano, que remava com "know how", para uma ilhota onde havia um marco, simbolizando a área da cidade inundada. Eu e o Luis íamos numa ponta com as máquinas tirando muitas fotos e o Jackson - com sua cueca-sunga - e Quinha na outra, mergulhando a toda hora, o que fazia balançar a pequena canoa e espirrar água nas nossas máquinas.
Atracamos o barquinho na ilhota e fomos recebido por um enorme sapão, que indiferente à nossa chegada continuou parado ao lado da canoa. Talvez ele pensasse:"Vou ficar quieto aqui e quem sabe esses manés passam e vão embora...". Pensou errado, logo o Luis o pegou para "brincar" e a antítese de príncipe seguiu no barco conosco na volta com uma cara mal humorada de quem não queria fazer passeio algum.
Dali navegamos até o Parque Estadual de Canudos, região onde houve os combates entre os sertanejos e o exército republicano. Pela represa se chega a uma região mais preservada do parque, onde não aparecem muitos turistas. Ali se pode encontrar muitos vestígios da batalha ocorrida em 1886-1887. Restos de casas, balas, cartuchos de fuzil, porcelanas quebradas que juntas formam pratos antigos, enfim, muitos objetos que nos transportam até a época da guerra. Parece que podemos sentir a angústia do pobre - e corajoso! - povo massacrado pela intolerância e ignorância da incipiente república brasileira.
Cartucho de fuzil, um dos muitos artefatos espalhados pelo parque de Canudos





Ainda dentro do Parque Jackson me apresentou o fruto do mandacarú. Sempre havia visto nas viagens aquele fruto vermelho preso na espinhosa planta do sertão, porém não sabia que podíamos comê-la e mesmo depois de saber nem imaginava que seria tão gostosa. Tudo bem, o aspecto não é lá tão atrativo e mesmo sua consistência meio pegajosa não chama muita atenção. Porém é muito gostosa! Tem algo de crocante enquanto mastigamos e é levemente adocicada. Olhando de perto lembra - visualmente, claro - um sushi, aquele arroz com gergelim preto. Vale a pena experimentar!
Mais tarde, pra fechar um ótimo dia, só mesmo um lual no bar da Madalena. Ali, com nossos amigos ficamos o começo da fresca noite. Embalados ao som do violão e aos petiscos frescos retirados do açude, uma noite perfeita.

Com minha máquina, mesmo com pouquíssima luz, consegui filmar o Cristiano tocando uma música que eu havia conhecido no ano anterior e era louco pra aprender. O vídeo segue aqui...

"Diário de Bordo": Canudos - O dia seguinte

Acordamos cedo na primeira manhã; eram 7 horas. O sol começava a despontar brilhante no céu, porém o tempo ainda estava um pouco frio, bem característico daquela região próxima à represa: frio de noite e de manhã e muito calor durante o dia.
Como tínhamos acabado de chegar de São Paulo – onde o tempo também não estava quente – a manhã estava muito agradável. Para tomar um bom banho descemos os cerca de 50 metros que separam o quintal da Madalena até o limpo e bonito açude de Cocorobó.
Um senhor estava de pé e de braços cruzados em frente as calmas águas, ao lado de 5 canoas que balançavam pacientemente amarradas a um toco encravado na terra. O cumprimentei e ele respondeu com um amável sorriso. Seu nome era Vicente, tinha uma casinha simples, bem próxima à represa e era pescador.
Àquela hora da manhã já havia pescado e voltado. Disse que algumas vezes sai com sua canoa antes das 5 da manhã.
- Mas esses dias não estão bons pra pescar, não. Além de estar frio o vento tá batendo muito as águas, os peixes somem. – me contou.
Naquelas águas existem vários tipos de peixes. Além deles, o camarão de água doce, em abundância por ali, também enche as redes dos pescadores. Eu o experimentaria mais tarde numa deliciosa farofa que a Madalena faria especialmente por eu nunca ter comido os bichinhos.
Banho tomado, subimos de volta para o café da manhã. “Meu Deus, desse jeito vou me acabar aqui!”, pensei no momento em que vi a farta mesa que nossa amiga preparou à nossa frente, com pão francês, sovado, queijo, manteiga de garrafa, cuz cuz, ovo frito, café, leite em pó... Tudo o que adoramos. Comemos como se fosse a última vez.
Quase “rolando” seguimos para a pequena escola, onde as crianças nos esperavam para um exame clínico onde verificaríamos a quantidade de cáries e qualidade da escovação. Eu estava muito empolgado com a implantação deste trabalho, o mais importante planejado nestes anos de IBS.
O intuito é capacitar alguns voluntários locais com todas as informações necessárias para que os pais possam criar seus filhos longe das cáries. Esses voluntários visitarão primeiro as casas das mulheres grávidas, depois das mães com filhos pequenos e assim por diante, com uma apostila de prevenção e kits com escova e creme dental.
A idéia será retornar a cada ano para verificar uma melhora no índice de cáries das crianças menores de 5 anos, algo plausível numa comunidade pequena como aquela, onde há crianças com dentes completamente destruídos pela falta de escovação.
Após o almoço fizemos essa capacitação, onde cinco pessoas se interessaram em contribuir com o projeto. No meio da tarde conseguimos um tempo para descer até o açude. Devia estar mais de 30 graus e o calor (aliado à beleza das águas azuis de várias tonalidades da enorme represa) convidava a um mergulho.
Como não levamos o odontoportátil (cadeira de dentista que levamos na van e que funciona em qualquer tomada como se fosse um consultório completo, com motores, sugador e podemos fazer restaurações; quase tudo o que fazemos num consultório) pude conhecer bem a região desta vez. Quando temos a possibilidade de restaurar dentes, tirar a dor, enfim, atender as pessoas da região, é muito difícil ter tempo para visitar alguns locais. Desta vez juntamos nossos amigos Cristiano, Jackson e Quinha e preparamos um roteiro para conhecer Canudos – bem, pelo menos eu conheceria, todos ali já eram veteranos – nas horas vagas.
Descemos até a represa. A água estava muito boa, na temperatura ideal para umas braçadas. Me lembrei da história do Luis, que na primeira vez que mergulhou naquelas águas teve alguma reação alérgica, daquelas de se ficar todo inchado. Por alguns anos ficou com receio de entrar de novo. “deve ser algo do povo do Conselheiro”, brincavam. Porém no ano passado entramos com ele no começo da noite, no fim de um dia de trabalho. Mas foi nesse ano ele fez as pazes com o local numa “conversa” franca com o açude e hoje entra sem medo.
De noite jantaríamos uma deliciosa galinha caipira, a mesma que Madalena estava depenando na panela quando acordei de manhã. Fiquei com pena – sem trocadilhos – da galinha na hora, mas tenho que admitir que de noite nem me lembrei com a fome e com o tempero gostoso da pobrezinha...
No dia seguinte iríamos para Bendengó – cidade a alguns quilômetros da comunidade – comprar telhas para a biblioteca e fazer um orçamento para uma futura construção, plano que discutiríamos no sábado com os moradores.
Deitei na cama carinhosamente arrumada pela Madalena e, com cuidado, fechei o mosquiteiro sob o colchão; haviam muitos pernilongos, muitos mesmo. Podíamos até ouvi-los cantar sua assustadora sinfonia. Mas para minha alegria podia rir da cara deles por ver que paravam a poucos centímetros de seu alvo. Não seria comigo que matariam sua fome; e, pronto para dormir, imaginei uma risada maligna.

domingo, 24 de agosto de 2008

E se vão as Olimpíadas

Pois é, mais uma Olimpíada se foi. Independente da campanha "male male" do nosso país o evento é emocionante e apresenta histórias de vida impressionantes.
Tudo bem, a mídia fica completamente entorpecida com o clima lúdico e muitos escândalos somem das manchetes, mas também somos filhos de Deus e temos direito de torcer ser felizes de vez em quando.
Histórias como a da brasileira que ganhou medalha de bronze no judô são lições e exemplo para todos nós, e o modo como as jogadoras do futebol feminino brasileiro jogaram e, infelizmente, perderam, nos enchem de orgulho mesmo em face à derrota. Uma raça e empenho que nos faz pensar que se os homens da seleção jogassem com tamanha garra teríamos um time imbatível no masculino!
Com o encerramento do evento começamos a ouvir as muitas críticas quanto a má campanha do Brasil. "Deveríamos ter mais incentivos" ou "Falta apoio" saltam por quaisquer canais por onde passemos.
Realmente precisamos mesmo. Não é ser ufanista - no melhor (ou pior...) estilo "Galvão Bueno" -, mas o brasileiro é um povo que realmente é bom no que faz. Não sei se pela miscigenação histórica, pela ginga nata, ótima desenvoltura e simpatia, vários outros motivos que poderíamos listar, temos ótimos atletas no que nos empenhamos a fazer.
Um exemplo é a ginástica artística. Tudo bem que ainda não decolamos ali também, mas em questão de 15 anos atrás o país era nulo nessa área. Me lembro do nome de Luíza Parente, que solitária tentava levar o nome do país nas competições dominadas por um mundo inteiro antes do nosso. Em questão de alguns anos, incentivo financeiro nos treinos, instalações, um ótimo técnico da Europa Oriental e surgiram muitas estrelas. Nível de campeões mundiais como a Daiane, o Diego ou a Jade.
É uma pena que não aproveitamos muitas ondas que aparecem com toda uma chance de fazer algo decolar, como o tênis, com o Guga. Um gênio surgiu, se tornou número um, passou e com ele passou também o tênis. Temos muito ainda que aprender.
Se o país der incentivo ao esporte o Brasil estará em breve disputando as primeiras posições no ranking de medalhas? Não tenho a menor dúvida, a própria China é um exemplo disso.
Porém não devemos esquecer que antes de incentivo ao esporte precisamos MUITO MAIS de incentivo à educação, à saúde, à cultura e aí sim, ao esporte. E antes de ter um país primeiro do ranking teremos um país campeão em cidadania.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Diário de Bordo: Canudos - Primeiro dia

São Paulo ficou para trás. Já se passava das 20h quando seguimos, eu, Luis e Damiana (professora da comunidade que aproveitou nossa carona) pela estrada que liga Salvador à Feira de Santana. Lá pegaríamos outra que nos levaria a Canudos. Um total de 400 km, deixados para trás em 5 horas e meia devido aos trechos esburacados de uma boa parte do caminho.
Canudos Velho é a comunidade que restou na região do famoso conflito: a Guerra de Canudos. Após a destruição total do antigo Arraial (que era chamado por Antônio Conselheiro de Bello Monte) alguns sobreviventes retornaram à região e reergueram a cidade.
Após algumas décadas - a guerra acabou em 1897 - o governo resolveu criar uma represa, bem em cima da cidade reconstruída, inundando toda a antiga cidade e sua história, talvez como se uma gigantesca borracha apagasse o trágico e desastroso ato da antiga República. Uma nova Canudos foi construída a cerca de 20 km dali e hoje possui mais de 20 mil habitantes - quase o mesmo número que possuía o Arraial do Conselheiro, só que em 1897 isso significava ser a segunda maior cidade da Bahia, perdendo apenas para Salvador.
Porém, na parte mais alta da antiga comunidade, Canudos Velho guarda ainda um pouco de sua história, do Parque Nacional, onde houve o conflito e podemos encontrar vestígios reais da batalha, e de seu povo, a maioria descendentes de personagens e sobreviventes da guerra.
Ali fizemos grandes amigos - eu em 2007 o Luis a muito mais tempo: em 2000 - que nos recebem sempre de braços abertos. Mesmo chegando no começo da madrugada Madalena - dona da casa e de um simpático bar vizinho de parede - estava nos esperando com um abraço bem apertado.
Pelo cansaço da viagem iríamos logo dormir, nâo sem antes escovar os dentes, afinal de contas fomos até lá para implantar um projeto de saúde bucal e eu tinha que dar o exemplo...
Madalena nos contou que a bomba, que trás água da represa até a parte alta da cidade, estava quebrada, por isso não haveria água nas torneiras e chuveiros. Avisados, pegamos uma caneca de alumínio na pequena e aconchegante cozinha e a enchemos num enorme galão de plástico (que lembra aqueles barris que assistíamos no antigo desenho do pica pau quando ele queria descer as cataratas) que fica do lado de fora. Naquele instante pode-se sentir o primeiro arrepio, uma ótima sensação do choque cultural que temos: onde em São Paulo eu escovaria os dentes num quintal de terra sob um céu forrado de estrelas, olhando ao fundo a escura represa, assoprando um vento fresco e constante?
Antes de dormir ainda fiz o "xixi da madruga"; como não tinha água no banheiro a dez passos do meu solitário escovódromo encontrei um matinho amigo para "regar".
Assim estava pronto para descansar, certo de que o dia seguinte seria longo e proveitoso.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

"Diário de bordo": Canudos

A guerra de Canudos. Desde de minhas primeiras aulas de história conheci, superficialmente, esse fato. Depois de muitos e muitos anos pude conhecer o local pela primeira vez e, empolgado, devorei um livro de um historiador que contava todos os detalhes desse embate que acabou em 1896 (se bem me lembro).
A região onde ocorreu a guerra foi inundada por um açude, o de Cocorobó. Em dias de estiagem ainda são visíveis os restos da igreja nova (a última construída por Antônio Conselheiro), nascendo no meio das águas como se pudesse brotar novamente e nos relembrar os fatos ocorridos.
Uma Nova Canudos surgiu, a uns 20 Km do local, cidade com mais de 20 mil habitantes. Porém, em volta da represa - onde seria a parte mais alta da antiga cidade - ainda persiste uma comunidade: a Canudos Velha, lugar encantador e que respira história.
Hoje estamos no caminho para essa querida comunidade, realizar um trabalho. Na minha área é o mais importante que já fiz e se chamará: Sorria Canudos. Também veremos a biblioteca instalada pelo IBS (Instituto Brasil Solidário) a pouquíssimo tempo.
Aqui, depois de nossa volta, colocarei um diário de bordo dessa viagem, misturado com o pouco de história que eu conheço e "causos" da região. Voltaremos domingo (ou melhor, segunda de manhã) na esperança que tenha dado tudo certo.
Um grande abraço e até lá!
Wolber Campos

terça-feira, 29 de julho de 2008

Tudo pela educação

Mateiros é uma cidade localizada no coração do Jalapão, região abençoada pela natureza, que fica no Tocantins, entre a Bahia, Piauí e Maranhão. Lá, nós do Instituto Brasil Solidário fizemos um trabalho em 2007.
É uma pequena cidade - deve ter em torno de 2000 habitantes, contando com toda a zona rural – e guarda peculiaridades das pequenas cidades de interior. A duzentos metros da escola havia um rio onde podíamos nos banhar – e refrescar o intenso calor da região – durante o dia e servia de palco para um revigorante lual durante a noite.
Depois de um longo dia de trabalho combinamos com amigos uma roda de violão naquele lugar. Ali havia uma frondosa árvore que cobria grande parte de um espaço onde troncos deitados pelo chão nos serviam de bancos.
Para se chegar até o local levávamos lanternas, já que poucas ruas da cidade possuem iluminação e a noite sem lua tornava a caminhada difícil sem a ajuda de pelo menos a luz de um celular aberto.
Sob a copa da grande árvore, que ouvia alegremente o som do violão, ficávamos impressionados com o número de estrelas que havia no céu. Eram muitas e a ausência da lua as fazia brilhar com ainda mais nitidez. Bastava um olhar atento de, no máximo, cinco minutos e víamos – boquiabertos – enormes estrelas cadentes cruzando a noite escura.
Para alguns de nós era a primeira vez que víamos um céu tão limpo e cheio de estrelas daquela forma. Deitávamos na própria grama, olhando para cima, contando quantas estrelas cadentes mergulhavam sobre nós.
A fogueira aquecia o clima ligeiramente frio, comum na região àquela época do ano, e ao som de um bom violão ficávamos ali, como que hipnotizados pelo espetáculo da natureza.
No dia seguinte trabalharíamos na mesma cidade, porém desta vez em uma zona rural. O bairro se chamava Galhão e se estendia ao longo da estrada que deixava Mateiros em direção à Bahia e Piauí.
A pequena escola, que descansa preguiçosamente na margem direita da pista, possui apenas uma sala de aula, onde estudam em torno de 20 crianças, dos 6 aos 10 anos. Isso gera ainda mais dificuldades para o jovem professor Fabiano, de 25 anos, que precisa dar aula ao mesmo tempo para 3 séries diferentes.
Do outro lado da estrada há uma casa bem simples que, assim como a escola é cercada pelo mato e árvores. As duas assistem solitárias o passar dos dias pela calada estradinha de terra. Durante todo o dia em que atendemos ali passaram apenas dois carros levantando poeira à sua frente – um deles foi o que nos buscou de noite.
Quando estávamos descarregando todo material para o atendimento o Trilha – labrador do Luis, presidente do IBS, que viaja muito conosco - entrou em uma das 3 salas que existem na escola e saiu com um ursinho de pelúcia na boca. O surrado urso o acompanhou por um bom tempo. Foi assim que descobrimos a área de brinquedos das crianças. Em um canto de uma pequena e escura sala haviam poucos e velhos brinquedos, a maioria quebrados.
Na segunda oportunidade em que passamos por ali o Manolo (grande amigo e parceiro nos trabalhos) deixou dois enormes sacos de brinquedos novos para os pequenos - não tivemos tempo de vê-los recebendo, mas devem ter se animado bastante.
A história dessas crianças corta o coração. Todos moram a quilômetros de distância da escola e acordam muito cedo, ainda durante a madrugada, para chegar na hora certa à aula. Quando não há merenda são liberados antes, para voltarem e almoçar em casa, fato que vem ocorrendo com muita freqüência, segundo o professor.
Neste dia em que trabalharíamos naquela comunidade o motorista da prefeitura que nos levou passou em uma mercearia e comprou bolachas, leite e pães: depois de muitos dias os alunos teriam um lanche novamente.
- É de cortar o coração. Alguns alunos quando não tem merenda voltam para casa e também não tem comida. Acabam almoçando farinha e mais nada. – me contou Fabiano com um ar triste.
Geralmente essas famílias vivem da agricultura de subsistência, que nem sempre os provém com tudo o que necessitam.
Ao acabar a aula a maioria dos alunos, que seria atendida depois, voltou para casa para retornar à tarde. Saíram todos com o uniforme da escola, bem usados, porém limpos. Quando voltavam geralmente estavam usando bermudas muito surradas, furadas, camisetas rasgadas e às vezes até sem elas – modo dos pais pouparem a roupa do dia a dia.
Quando o Fabiano fez o pedido de roupas usadas para as crianças atendemos prontamente. Seriam deixadas junto com os brinquedos do Manolo.
O trabalho seguiu intenso durante o dia. As crianças, como o esperado, apresentavam uma condição muito ruim dos dentes. Tanto que foi um dos dias em que mais trabalhamos em nosso pequeno consultório, montado na sala de aula, durante toda a viagem.
No final do dia ainda haveria uma sessão de cinema. Levamos uma grande tela e um projetor especial que não perde em nada para muitos cinemas de algumas cidades. Este já estava sendo montado em frente à casinha simples do outro lado, ao ar livre.
Após atender a todos os alunos da sala, atendi o professor Fabiano, que mora na escola, em uma das 3 salas que existem ali. Ele só volta para Mateiros de quinze em quinze dias.
Perguntei a ele como era morar em uma região tão parada e longe de Mateiros – que já é uma cidade muito pequena.
- Ah, não é fácil, fico um pouco sozinho. Não tem muita coisa para fazer. Depois da aula eu estendo a rede, leio algum livro... – respondeu.
Não devia ser fácil mesmo. Ainda bem que encontramos pessoas como o Fabiano, que se desdobram e não medem sacrifícios para continuar levando a educação às nossas crianças. Mesmo que tenha que ensinar 3 séries ao mesmo tempo. Mesmo que tenha que abdicar de sua vida social a maior parte de seus dias. Tudo para tentar melhorar o futuro dessas crianças. Tudo pela educação.
Acabei de atendê-lo quando a noite estrelada do limpo céu do Galhão já ia avançando. Pela janela podia ver a tela montada brilhando e passando o desenho “Carros” para uma platéia pequena e atenta. Nenhum daqueles garotos, nem mesmo os adultos ali presentes, já tinham assistido a um cinema. Olhos bem abertos, sorrisos largos. Olhavam atentamente ao filme, do mesmo modo que nós olhávamos o céu no lual da noite anterior. Realmente tanto eles quanto nós havíamos visto ali uma maravilha pela primeira vez, e que, sem dúvida, estaria para o resto da vida gravada na memória de todos nós. Na deles um desenho colorido numa tela branca, na nossa pontos brilhantes numa tela negra.

domingo, 13 de julho de 2008

A chave interna (por Wolber Campos)

Meu "caminho da roça" de manhã quando vou ao trabalho é pela Marginal do Rio Pinheiros. Isso mesmo, o "limpo e cheiroso" rio que cruza grande parte de São Paulo.
Um dia o cenário estava especialmente bonito. O sol, que havia nascido não há muito tempo, estava imponente no céu azul e limpo (que, infelizmente, em geral tem uma cor acinzentada bem forte no horizonte, devido à poluição). Seu reflexo rebatia deslizando sobre a superfície calma do rio e iluminava a favela no topo do pequeno morro do outro lado da marginal.
Tudo estava tão bonito que mal conseguíamos perceber que o famoso rio paulista funciona como um esgoto ao céu aberto, beleza que até enganava nossos sentidos camuflando o mal-cheiro característico da região.
No topo daquele morro um casebre bem simples, de madeira empilhada, me chamou a atenção. Não devia ter mais do que 20 metros quadrados. Suas paredes eram feitas com uma simples - e fina - folha de madeira, daquelas que nos dá a impressão que seria perigoso espirrar ao seu lado. Porém durante as manhãs ela deveria ter uma vista previlegiada, daquelas em que, ao abrir a janela e fitar o sol refletindo no rio numa limpa manhã, pode-se esquecer por alguns minutos todos os problemas. A falta de dinheiro, de trabalho, muitas vezes de comida... Por segundos tudo vai embora, deixando apenas aquela bonita imagem gravada na memória.
Pensei no porquê de nossa desigualdade social. Num mundo evoluído, onde todos os homens pensassem em conviver em harmonia, esquecendo o egoísmo e pensando mais no bem coletivo do que no próprio, aquela paisagem ganharia contornos ainda mais maravilhosos. Em primeiro lugar o rio seria limpíssimo, pois industriais nunca aceitariam jogar seus detritos e poluir um rio lindo como aquele, diminuiriam seus lucros e tratariam seus dejetos antes de dar a eles um outro fim. Os esgotos teriam também outra saída, já que os honestos políticos deste mundo teriam dinheiro de sobra para tratá-lo. A poluição também não contornaria nossos horizontes com uma moldura cinza pois carros elétricos - que não poluem - estariam aos montes por nossas arborizadas ruas.
Então, aquela pequena casinha lá no topo do morro, seria uma das mais previlegiadas do mundo. Ao abrir sua janela de manhã, observaria o mesmo sol iluminando e refletindo, só que agora, num mundo completamente diferente. Crianças estariam nadando nas águas limpas ali embaixo, pessoas estariam correndo nas pistas de cooper que entrelaçava alegres quiosques nas margens do renovado Rio Pinheiros.
Aquele então seria um lugar concorrido para se morar. No entanto é um casebre, uma simples casinha de madeira tão comum pelas favelas do nosso Brasil.
Uma pergunta ficava me atormentando depois de voltar por essa rápida viagem por um mundo tão perfeito e acordar novamente na poluída Marginal: o que falta para a humanidade acordar e criar esse mundo?
E a resposta estava mais clara do que as águas do rio daquele Brasil utópico. Não precisaríamos esperar um governante salvador que mudaria todo um jeito de viver de uma população. Nem sonhar com um mártir que moveria multidões e renovaria a importância do amor ao próximo e de viver em paz com nossos semelhantes. Nenhuma aparição surpreendente ou mirabolante. Tudo o que precisaríamos é muito mais simples e está ao alcance de todos nós, sem excessão. Basta mudar uma chave interna - e imaginária, é claro - que nos faria agir corretamente sempre. Ética, essa é a palavra. Se todos os homens resolvessem, no mesmo instante, girar essa chave e usar a ética em TODOS os momentos de sua vida, esse mundo perfeito saltaria aos nossos olhos muito mais rápido do que imaginamos.
Com a ética presente em todos os atos dos homens nossos políticos não desviariam dinheiro e com a corrupção extinta sobraria MUITO para se investir em educação, saude, saneamento básico, o que diminuiria completamente nossa desigualdade social. Todos os homens seriam muito mais "irmãos" e não aceitariam o sofrimento alheio ou grandes necessidades. O meio ambiente seria perfeito e o lob do petróleo não seguraria o desenvolvimento de carros elétricos, combístível mais barato e que não agrediria o planeta.
E o mais curioso é que este passaporte para um mundo maravilhoso está ao alcance de cada um. E isso não é novo, não fui eu quem chegou a essa conclusão agora, não ouvi de algum amigo a alguns anos. Tudo isso foi dito a 2000 mil anos atrás, só que poucos ouviram. E hoje muitos escutam, mas não entendem. Quem sabe um dia...

sábado, 5 de julho de 2008

Olha a cobra!! (por Wolber Campos)

A riqueza do nosso Brasil espanta. Principalmente a riqueza natural, tão exuberante e abundante que muitas vezes transborda para dentro das estradas que cruzam o seu sertão.

Não é raro observar às margens da estrada em que viajamos animais silvestres, raposas, preás e sobrevoando o céu azul araras (inclusive as azuis!), tucanos...

Uma vez, enquanto seguíamos distraídos pela Belém-Brasília um veadinho (no bom sentido...) saiu de dentro da mata e correu (pulando) ao lado do carro. Enquanto eu pensava em fazer uma piada com o Leandro (que dirigia o outro carro) ele foi mais rápido e gritou pelo rário:

- Wolber, você viu que ele estava gritando o seu nome e dizendo: "me leva com você!!!"... - disse e deu uma gargalhada.

Minha piadinha sobre o animal pedir o telefone dele ficou na ponta da língua mas as risadas e a alegria de ter visto um animal bonito como aquele a deixou de lado.

Certa noite, em uma estrada no Tocantins enquanto seguíamos até Palmas, Manolo, nosso amigo que seguia ao volante, gritou:

- Olha a cobra! - disse desviando o carro para não passar com as rodas por cima do enorme bicho enrolado no meio da estrada.

Ela nem se mexeu, o que nos levou a imaginar que já havia sido atropelada. Como era tarde e a estrada estava completamente vazia ( e escura) fizemos um rápido retorno e voltamos para ver o animal.

Realmente espantava. Era uma cascavel enorme (pelo menos para nós da cidade grande. O Pedrão - que nasceu na Paraíba - disse que aquela era uma criança perto das outras de lá!) e realmente havia sido atropelada. Pelo tamanho (e números de elos) do guizo devia ter em torno de doze anos.

O João Victor e o Válter resolveram enfrentar o medo (e as futuras piadas sobre: pegar a cobra...) e levantaram a cascavel para uma foto. O Víctor Pinduca correu para sair eternizado ali também, ao melhor estilo: "Mamãe, olha onde eu tô!".

Após a fotografia o pobre "cadáver" foi levado para o mato na beira da estrada. O guizo já havia sido retirado com um rápido golpe de facão do Luis Salvatore (dizem que dá sorte).















Na foto acima: João Victor na esquerda, Válter à direita e Victor Pinduca ao centro. Os três com um enorme sorriso no rosto... Não sei se hoje ainda sonham com o enorme animal que por um tempo estiveram nas mãos. Pela alegria na foto, se sonharem não será um pesadelo...

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Justiça em terra de cegos (por Wolber Campos)

Não é de hoje que ouvimos falar do sistema de cotas para as universidades públicas, sejam elas raciais ou sociais. O assunto é sempre polêmico e causa acalorados debates em quaisquer setores por onde é comentado.
É inegável que a maioria dos alunos das instituições públicas superiores possuem um poder aquisitivo mais alto e teriam sim condições de pagar uma faculdade privada. O fato é facilmente explicado pela superioridade de ensino dos colégios particulares frente ao pífio conteúdo dos ensinos básicos estaduais e municipais.
Porém, a pior saída seria abrir as portas das faculdades públicas a alunos que, embora tenham direito de nelas estudarem, entrariam completamente despreparados com o baixo nível de ensino das escolas públicas.
Se hoje, por exemplo, a USP é uma universidade de ponta, com alto reconhecimento nacional e internacional, não é apenas porque possui professores sensacionais ou grande investimento governamental, mas principalmente porque ali só entram alunos completamente preparados, que tiveram que passar por uma dificílima seleção (que é a Fuvest) e desse modo os mestres poderão acelerar o aprendizado com seus afiados alunos.
(Longe imaginar que alunos de escolas particulares seriam superiores aos de escolas públicas, eles apenas tiveram uma oportunidade de um ensino muito melhor, que os deixou mais preparados.)
Com tudo isso, ocorrendo a entrada de uma parte de alunos afiados e outra – completamente – despreparados, o ensino não mais poderá seguir seu ritmo natural. Os professores não conseguirão cobrar a mesma eficiência dos dois grupos e, como não se pode dar duas aulas ao mesmo tempo, o ensino começaria a ser nivelado por baixo, na velocidade dos mais vagarosos. Com certeza, desse modo, veríamos o começo do declínio das Instituições públicas no Brasil, um de nossos poucos (se não for o único) orgulhos governamentais.
Não se deve facilitar a entrada de quem estudou em escolas públicas, seria fazer “justiça em terra de cego: furar o olho de quem tem”, se deve sim melhorar o ensino das escolas públicas. Como? Melhorando o salário dos professores cessando assim as greves que atrasam todo um cronograma de ensino, se investindo nas escolas, melhorando aparelhagens e estruturas, enfim, todos sabem o que é necessário para isso, só falta uma coisa: vontade política.
Enquanto isso vemos debates intermináveis, torcendo para que não aconteça com o ensino superior o que aconteceu com as escolas públicas de primeiro e segundo graus, que eram um exemplo de ensino nos anos 60 e 70 e hoje aprovam crianças que mal sabem ler ou escrever.

sábado, 28 de junho de 2008

A gratidão (por Wolber Campos)

Muitas vezes vivemos dentro de normas, algumas criadas por nós mesmos, outras pela sociedade ou formadores de opinião e assim, seguimos nosso dia a dia imerso nesse mar de indicações que nos guiam sem que sequer notemos.
Porém em muitos casos nos esquecemos de que somos seres humanos e devemos ser maleáveis, nos adequando ao bom senso em inúmeras ocasiões.
Certa fria noite do mês de junho, estava no supermercado comprando distraído alguns petiscos e um vinho para levar à casa de um casal de amigos.
- Tio, você pode comprar este pão pra mim, por favor?
Era um menino de rua, ou um menino que morava na rua (já que não gosto muito deste termo, parece pejorativo). Devia ter seus 11 ou 12 anos, calça e blusa de moletom bem surrados e finos para o frio que estava fazendo. Nas mãos trazia um saquinho com pães franceses da padaria do mercado.
- Não tenho, meu amigo.
Respondi friamente e me virei para continuar a procurar o salgadinho mais saboroso para apreciar o bom vinho que estava comprando, na companhia de grandes amigos. A resposta saiu pronta, não por indiferença ou maldade, apenas porque há tempos me condicionei que não é correto dar esmolas. Dinheiro em farol: quase nunca, sempre procuro dar algo que o garoto precise, talvez até um doce ou uma bolacha (que o meu lado dentista não me escute)...
“Espere aí”, pensei, “ele queria um pãozinho, não dinheiro...”. Fiquei com um pouco de remorso e vi o garoto no fim do corredor recebendo mais um não de uma senhora. Peguei o salgadinho e o pensamento voou entre normas, certos e errados. O estabelecimento com certeza não devia concordar com um garoto pedindo a seus clientes que pagassem sua conta, estaria incomodando-os. Por outro lado era apenas um menino que deveria estar com fome, que outra coisa faria para saciar a sua necessidade mais básica?
Me dirigi à fila do caixa, incomodado por não ter ajudado o pequeno e a uns 5 metros o vi recebendo mais um não de um senhor. Então caminhou meio sem destino com seu solitário saquinho de pão nas mãos.
- Ei amigão, me dá o saquinho que eu passo para você.
Pedi a ele com um estranho sentimento de alívio (estranho e egoísta, pois se outra pessoa pagasse sua conta eu me sentiria um lixo!).
- Obrigado, “é” três reais e cinquenta.
Eu disse que tudo bem. Peguei seu – agora não mais solitário – saquinho de pães e vi nas prateleiras à minha frente uma grande quantidade de doces, chicletes, todos coloridos e chamando a atenção.
- Pega um doce também! - disse, mais uma vez espezinhando meu lado dentista.
Ele abriu um sorriso e deu um pulo na direção dos doces. Me perguntou qual poderia pegar e eu disse o que sonharia em ouvir quando era criança: “pode escolher qualquer um!”.
Olhou um, outro, pensou e disparou:
- Será que em vez do doce eu poderia pegar um refrigerante?
“Claro”, respondi e ele saiu rapidamente para a seção das bebidas, voltando com um refri de 2 litros na mão.
- “É” dois e quarenta, pode ser?
Disse que sim e felizes, começamos a conversar. Me contou que olhava carros na rua, mas por ser uma segunda-feira o movimento estava muito fraco, por isso não havia conseguido dinheiro para seu almejado pãozinho.
- Mas já teve noite que tirei até 100 reais. Uma dona que ficou feliz porque eu fiquei até as 6 da manhã olhando o carro dela, sozinha me deu 20 reais!
Chegou nossa vez no caixa, antes ele ainda fez a conta: "O meu é R$ 3,50 do pão e R$ 2,40 do refri... E o seu?", disse apontando para a garrafa de vinho.
Eu não me lembrava, disse que era algo em torno de 14 reais, “não sei ao certo”. Ele deu uma risada e soltou:
- É engraçado, às vezes as pessoas nem sabem quanto custa as coisas...
Disse talvez pensando como deveria ser bom não se preocupar com esses “detalhes”. Nesse momento agradeci a Deus por ter conseguido tudo o que tenho. Por poder comprar algo e não me preocupar se o total ultrapassará o que tenho. Por ter um lar.
Seu irmão o estava esperando na saída do caixa, devia ser um ou dois anos mais velho que ele e me ajudou a empacotar minhas pequenas compras. Ainda levou uma bronca do pequeno quando o saquinho virou de lado:
- Cuidado! Isso aí é garrafa e quebra!
Agradeci a ajuda e ele me agradeceu as compras. Me encaminhei então ao estacionamento para pegar o carro e me encolhi dentro do casaco; era uma das noites mais frias do ano. Me lembrei do moletom fino do pequeno, senti pena.
Entrei no carro, ali dentro estava uma delícia, longe daquele vento frio e constante do lado de fora e ao passar na frente do supermercado vi o garoto com seu irmão na calçada se abaixando ao lado de um outro, mais velho, de seus 16 anos que se sentava enrolado a um fino cobertor cinza. Um deles com o feliz saquinho de pães na mão, outro com o alegre refrigerante nas suas. Iriam dividir tudo ali, espantar a fome, espantar o frio, simplesmente fazer um lanche entre amigos, algo que eu também faria dali a pouco tempo, só que em outras condições. Me senti um pouco envergonhado por isso, como se de repente ter dinheiro passasse a ser vergonhoso.
O sentimento foi sendo substituído pela alegria de poder ajudar alguns garotos, mesmo que de uma forma superficial e paliativa. Pensei em como me sentiria mal, muito mal mesmo, em passar de carro no mesmo local e ver o pequeno se abaixando da mesma forma ao lado do amigo coberto, só que dessa vez sem o saquinho de pães.
“Obrigado!”, me lembrei da voz do garoto me agradecendo. Porém naquele momento ninguém era mais grato do que eu. Agradeci novamente a Deus pela alegria que sentia.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Crônicas de um brasileiro (por Wolber Campos)

Olá Pessoal!
Esta é a estréia do Blog: Crônicas de um brasileiro. Sim, o blog é meu, porém eu não sou o brasileiro: todos nós somos o brasileiro.
A idéia do blog nasceu em meio a um trabalho no sertão. Como dentista voluntário do Instituto Brasil Solidário costumo viajar muito para o inteiror do Brasil e lá (todos nós) acabamos conhecendo muitas histórias emocionantes, bonitas, sofridas, alegres, sábias... Histórias que acabaram virando crônicas de um futuro livro.
Porém, em nosso cotidiano, também encontramos muitas histórias, que estão em nossa volta, tropeçando em nossos pés, mas em nossa habitual correria acabamos as deixando escapar, ilesas. Basta uma ligeira olhada novamente para descobrí-las.
É disso que trataremos neste blog: crônicas de nosso cotidiano, do cotidiano do brasileiro. Histórias minhas, de amigos ou de amigos anônimos. Crônicas que se embrenham na política, artes, esportes, cultura, sem nunca deixar de ser o principal: histórias do cidadão brasileiro.

Crônicas serão muito bem-vindas no e-mail: dr.wolber@gmail.com