Uma das coisas que me ficaram impregnadas pelas andanças no sertão, foi o amor ao forró. Ao forró pé-de-serra, como dizem por lá, principalmente por Luiz Gonzaga.
Esse ícone da música brasileira tem minha admiração por vários fatores. Primeiro, claro, o musical. Sua criatividade, melodias, letras e a habilidade com a sanfona, instrumento que deveria ser esculpido a ouro, pela beleza e capacidade de soar um som tipícamente brasileiro, quase cheirando à caatinga molhada em épocas de chuva.
Outro ponto de minha admiração é seu orgulho de ser sertanejo e cantar a vida dos nordestinos, seja sofrida - como "Asa Branca" - seja no feliz contato com a natureza - como a "Estrada de Canindé" - entre tantas e tantas histórias.
É muito comum um paciente entrar em meu consultório e meu rádio estar ao som do velho Gonzaga; um forrozão "lascado"! Alguns dão risada e estranham que eu goste de forró. Outros gostam.
Marcos sorriu. Um sorriso de nostalgia, como quem lembra um gosto puro de infância.
- Oh, meu amigo, você gosta do Gonzagão, então? - me perguntou.
Nordestino, veio para São Paulo há algumas décadas. Mas até os 15 anos, morou em Juazeiro no Ceará.
- Foi lá que conheci Luiz Gonzaga, no começo dos anos 80. Ele vinha para nossa cidade toda terça, com Patativa do Assaré, e eu ganhava uns trocados como engraxate e tive o prazer de engraxar os sapatos do homem.
Na primeira vez, velho Luiz gostou de Marcos e disse: "Moleque, venha engraxar meu sapato na terça que vem que te trago um saco de laranja do meu sítio!". Soltou com a voz inconfundível de trovão.
E foi assim, na outra semana o menino terminou o serviço e levou contente um saco de laranjas para casa.
- Um dia, ele me levou na F-1000 dele para a sua casa, no Exú. Engraxei os 60 pares de sapato. Muitos que ele usava nos shows. Olha que honra! - disse com um grande sorriso de felicidade.
Ficamos conversando ainda por um tempo, lembrando de curiosidades, do prazer e orgulho de ter engraxado os sapatos do Rei do Baião.
Que inveja boa eu fiquei!
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
domingo, 31 de outubro de 2010
Tráfico de água
A seca. Exposta desde os livros de história do Brasil nas escolas, ainda hoje é um problema no sertão. A solução poderia manar, assim como a água brota de poços artesianos em locais áridos, não fosse os interesses políticos escusos e desejo em manter a miséria, de uma das pragas mais antigas e presentes de nosso país: o coronelismo.
Em uma cidade do interior seco do Brasil, meses atrás, a seca vinha de forma intensa. A época de chuvas havia passado e isto significava esperar por mais um ano pela sonhada água. O nível das cisternas (reservatório ligado aos telhados das casas para armazenar a água das chuvas) estava no fim, e os caminhões pipa se esforçavam em manter água nas escolas e comunidades mais afastadas.
Luis, fotógrafo, visitou o açude da região, onde o nível baixava cada vez mais e as mulheres sertanejas buscavam a água barrenta para o sustento de sua família. Latas d´água na cabeça, andavam, muitas vezes, mais de 5 quilômetros, equilibrando 10, 15, 20 ou mais, litros de peso sobre o velho pano enrolado sobre os sofridos cabelos.
Enquanto retratava essa dura realidade, alguns caminhões pipa passaram, despejando água no maltratado açude. O motorista de um deles parou e veio em sua direção. Seu Raimundo, era um homem de meia idade, olhar duro, mas sereno, caminhou até Luis e lhe disse, ao pé de um morro onde estava.
- Por que você está tirando fotos? É de alguma revista ou jornal? - perguntou sério, porém sem agressividade.
Luis disse que não, estava apenas retratando o dia a dia das sertanejas e sua luta pela água.
Ele disse que não havia problemas, mas pediu que apagasse qualquer foto que tivesse saído os caminhões pipa.
- Sei que estamos fazendo algo errado, essa água é ilegal, buscamos no município vizinho. Mas não temos água para abastecer a cidade e a situação está perigosa para toda a população.
Explicou que, durante a noite, saíam escondidos e enchiam seus tanques no açude de outra cidade, despejando o conteúdo no seu, quase seco.
Não havia problema, apagou as fotos onde haviam caminhões despejando a água e pensou no certo e errado. A luta pela vida, o que fazer? Uma população toda pode morrer sem água, bem inestimável à vida. Sem dinheiro para comprar e, mesmo se houvesse, municípios vizinhos também se preocupavam com seus níveis.
O tráfico, ali, era uma necessidade. Vida ou morte.
Em uma cidade do interior seco do Brasil, meses atrás, a seca vinha de forma intensa. A época de chuvas havia passado e isto significava esperar por mais um ano pela sonhada água. O nível das cisternas (reservatório ligado aos telhados das casas para armazenar a água das chuvas) estava no fim, e os caminhões pipa se esforçavam em manter água nas escolas e comunidades mais afastadas.
Luis, fotógrafo, visitou o açude da região, onde o nível baixava cada vez mais e as mulheres sertanejas buscavam a água barrenta para o sustento de sua família. Latas d´água na cabeça, andavam, muitas vezes, mais de 5 quilômetros, equilibrando 10, 15, 20 ou mais, litros de peso sobre o velho pano enrolado sobre os sofridos cabelos.
Enquanto retratava essa dura realidade, alguns caminhões pipa passaram, despejando água no maltratado açude. O motorista de um deles parou e veio em sua direção. Seu Raimundo, era um homem de meia idade, olhar duro, mas sereno, caminhou até Luis e lhe disse, ao pé de um morro onde estava.
- Por que você está tirando fotos? É de alguma revista ou jornal? - perguntou sério, porém sem agressividade.
Luis disse que não, estava apenas retratando o dia a dia das sertanejas e sua luta pela água.
Ele disse que não havia problemas, mas pediu que apagasse qualquer foto que tivesse saído os caminhões pipa.
- Sei que estamos fazendo algo errado, essa água é ilegal, buscamos no município vizinho. Mas não temos água para abastecer a cidade e a situação está perigosa para toda a população.
Explicou que, durante a noite, saíam escondidos e enchiam seus tanques no açude de outra cidade, despejando o conteúdo no seu, quase seco.
Não havia problema, apagou as fotos onde haviam caminhões despejando a água e pensou no certo e errado. A luta pela vida, o que fazer? Uma população toda pode morrer sem água, bem inestimável à vida. Sem dinheiro para comprar e, mesmo se houvesse, municípios vizinhos também se preocupavam com seus níveis.
O tráfico, ali, era uma necessidade. Vida ou morte.
Volta
Queridos amigos! Estou de volta.
Trabalhamos durante duas semanas no Maranhão (Balsas e Nova Iorque), Piauí (São Raimundo Nonato) e Ceará (Crateús). A véspera de viagem foi tão corrida, que não pude avisar a ausência que seguiria neste blog.
Novas histórias foram encontradas, pessoas conhecidas, amigos reencontrados. Aos poucos tudo será dividido com vocês.
Senti saudades.
Enorme abraço a todos!!
Wolber Campos
Trabalhamos durante duas semanas no Maranhão (Balsas e Nova Iorque), Piauí (São Raimundo Nonato) e Ceará (Crateús). A véspera de viagem foi tão corrida, que não pude avisar a ausência que seguiria neste blog.
Novas histórias foram encontradas, pessoas conhecidas, amigos reencontrados. Aos poucos tudo será dividido com vocês.
Senti saudades.
Enorme abraço a todos!!
Wolber Campos
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Imagens do Brasil: Irmão Sol, Irmã Lua
Estávamos no final de um trabalho, na querida cidade de Cabaceiras-PB. Quase como um prêmio, fomos visitar as lindas pedras do Pai Mateus, uma área que contém pedras enormes, redondas, maciças, ocas, espalhadas sobre uma gigantesca laje, também de pedra. Lugar maravilhoso, onde foi filmado "O auto da compadecida".
O pôr-do-sol estava incrível, e nós, sentados embaixo de toneladas esculpidas por milhões e milhões de anos pelo vento, o fitávamos.
Luis, presidente do IBS e fotógrafo, estava com a máquina e tirou uma foto da lua, que estava acima de nossas cabeças naquele fim de tarde. Usando uma técnica, prendeu a imagem e tirou, ao lado, a foto do sol. Irmão Sol e irmã Lua, estavam no mesmo céu, no mesmo instante, e pelas lentes da máquina se eternizaram na mesma fotografia.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
A parteira
Podemos até dizer que é uma das profissões mais antigas do mundo. No Brasil, ainda temos algumas que resistem aos tempos modernos. Porém, infelizmente, sua atuação vem, pouco a pouco, se esvaindo. Nossa geração, pode ser a última que ainda vê essas corajosas mulheres em ação.
Hoje, mesmo lugares pequenos e afastados, possuem um posto de saúde ao qual recorrer e programas de incentivo ao exame pré-natal, estimulam o parto com acompanhamento médico.
O exame pré-natal é imprescindível e deve ser realizado. Para atrair mulheres locais há um plano do poder público, onde todas as mães que fizerem todos os exames ganham, ao nascer da criança, um "bônus enxoval", de cerca de 1500 reais. O efeito colateral é uma explosão demográfica, onde uma quantia dessa, perto dos 200 reais mensais do Bolsa Família, incentiva mães a fazerem filhos todos os anos.
- Hoje diminuiu muito a quantidade de pessoas que nos procuram para fazer partos, por causa do bônus. Mas, mesmo quando faço o parto em casa, sigo com a mãe até o hospital, assino os papéis, e ela pode ganhar o dinheiro da mesma forma. - nos conta dona Maria das Neves, 59 anos, parteira desde os 16.
Entrou na profissão sem escolha, tendo que fazer o parto da própria mãe.
- Imagine eu, 16 anos, matuta de tudo, e minha mãe falando "filha, me ajuda, não me deixa morrer". Não tinha nem como pensar.
E foi assim, a mãe que já havia tido muitos filhos, foi dizendo o que ela faria e, graças a Deus, tudo deu certo.
Haviam outras duas parteiras na região e quando uma estava doente e a outra viajando as pessoas diziam "chama a das Neves, que é corajosa e faz". E assim se tornou uma ótima parteira.
Hoje, já perdeu a conta de quantos partos fez. Mas lembra muito bem dos mais difíceis, como quando o bebê está colado no útero.
- Aí meu filho, a gente tem que usar a inteligência, né?! Colocamos a mão lá dentro e vamos, com cuidado, descolando o bebê da parede do útero. Do mesmo jeito que fazemos quando ele tá fora de posição, vamos arrumando até ele se ajeitar, lá dentro... - diz com uma sabedoria e tranquilidade impressionante.
Assim como dona Isabel, 70 anos, também do interior de Pernambuco. A última vez que "pegou menino", como falam, faz apenas 3 meses.
- Diminuiu, mas vez ou outra ainda chamam a gente pra fazer. - diz em sua simplicidade cativante.
Há 10 anos atrás, tinha muito mais trabalho, 6 ou mais partos por mês. Teve vezes que vinha de um e já a chamavam para fazer outro. Hoje já faz parto dos "netos", filhos de homens e mulheres que já nasceram por suas mãos e fazem questão de que seus filhos nasçam da mesma forma: pelas mãos abençoadas de quem nasceu com um dom de Deus para auxiliar milhares de mães por este sertão adentro.
Uma informal entrevista com dona Isabel, em sua casa, no sertão do Pernambuco. 24/09/2010
Hoje, mesmo lugares pequenos e afastados, possuem um posto de saúde ao qual recorrer e programas de incentivo ao exame pré-natal, estimulam o parto com acompanhamento médico.
O exame pré-natal é imprescindível e deve ser realizado. Para atrair mulheres locais há um plano do poder público, onde todas as mães que fizerem todos os exames ganham, ao nascer da criança, um "bônus enxoval", de cerca de 1500 reais. O efeito colateral é uma explosão demográfica, onde uma quantia dessa, perto dos 200 reais mensais do Bolsa Família, incentiva mães a fazerem filhos todos os anos.
- Hoje diminuiu muito a quantidade de pessoas que nos procuram para fazer partos, por causa do bônus. Mas, mesmo quando faço o parto em casa, sigo com a mãe até o hospital, assino os papéis, e ela pode ganhar o dinheiro da mesma forma. - nos conta dona Maria das Neves, 59 anos, parteira desde os 16.
Entrou na profissão sem escolha, tendo que fazer o parto da própria mãe.
- Imagine eu, 16 anos, matuta de tudo, e minha mãe falando "filha, me ajuda, não me deixa morrer". Não tinha nem como pensar.
E foi assim, a mãe que já havia tido muitos filhos, foi dizendo o que ela faria e, graças a Deus, tudo deu certo.
Haviam outras duas parteiras na região e quando uma estava doente e a outra viajando as pessoas diziam "chama a das Neves, que é corajosa e faz". E assim se tornou uma ótima parteira.
Hoje, já perdeu a conta de quantos partos fez. Mas lembra muito bem dos mais difíceis, como quando o bebê está colado no útero.
- Aí meu filho, a gente tem que usar a inteligência, né?! Colocamos a mão lá dentro e vamos, com cuidado, descolando o bebê da parede do útero. Do mesmo jeito que fazemos quando ele tá fora de posição, vamos arrumando até ele se ajeitar, lá dentro... - diz com uma sabedoria e tranquilidade impressionante.
Assim como dona Isabel, 70 anos, também do interior de Pernambuco. A última vez que "pegou menino", como falam, faz apenas 3 meses.
- Diminuiu, mas vez ou outra ainda chamam a gente pra fazer. - diz em sua simplicidade cativante.
Há 10 anos atrás, tinha muito mais trabalho, 6 ou mais partos por mês. Teve vezes que vinha de um e já a chamavam para fazer outro. Hoje já faz parto dos "netos", filhos de homens e mulheres que já nasceram por suas mãos e fazem questão de que seus filhos nasçam da mesma forma: pelas mãos abençoadas de quem nasceu com um dom de Deus para auxiliar milhares de mães por este sertão adentro.
Uma informal entrevista com dona Isabel, em sua casa, no sertão do Pernambuco. 24/09/2010
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Máquinas do tempo
Sempre gostei de história. Quando criança, sonhava em ter uma máquina do tempo, igual àquela do filme "De volta para o futuro". Um dos livros que mais gostei de ler foi "Operação Cavalo de Tróia", onde o autor (J.J. Benítez) escreve sobre um ex-militar americano - que não é o Euller - que haveria participado de uma operação, onde a Nasa construíra uma dessas máquinas, que o levara até o ano em que Cristo foi crucificado.
Mal sabia eu que, já adulto, conheceria verdadeiras máquinas do tempo. E são muitas, estão por todos os lados, podem até nos esbarrar na calçada cheia de uma tarde de sábado.
Há quase duas semanas, conversei com uma delas. Seu José Tiburcio, tem 92 anos, e mora em Manari, no sertão do Pernambuco. Foi boiadeiro dos bons, a maior parte de sua vida, e era autoridade na época do conorelismo: comissário.
Começou a "correr no mato", como diz, atrás de bois, aos 15 anos de idade.
Seu José ouve muito pouco e não enxerga muito bem. Não anda há 8 anos.
- Desde 2 de novembro de 2002, me lembro bem... - diz com sua voz rouca e fraca.
Mas tem uma boa memória, lembra fatos e histórias de sua juventude que nos conta como se um filme fosse passando à nossa frente. E foi assim que nos contou. Aqueles olhos, os mesmos que nos fitavam agora, olharam para Lampião e seu bando, na época do cangaço.
- Era Virgulino o nome dele. Ele que juntava os cabras pra roubar por aqui. - conta, olhos vidrados no passado, com uma simplicidade, e a liberdade de quem fala de um conhecido, que chega a nos arrepiar.
Quando jovem, certa vez, estava voltando para casa, quando o alertaram que Lampião e seus cangaceiros estavam na casa de seu tio Florêncio. Vinham atrás de dinheiro e traziam Mané Perna, sanfoneiro local para tocar. Lá, ordenaram que o tio deixasse as moças dançarem com seus homens, "com todo respeito!", nas palavras do rei do cangaço. E a festa foi longe.
José, ao saber que estavam por perto, correu para o mato e escondeu sua arma num umbuzeiro, com medo que o bando a roubasse; sua primeira e querida pistola. Voltou à estrada para sua casa, protegendo a família de uma possível visita de Lampião.
Respirou aliviado ao chegar e ver sua casa a salvo. Ainda não sabia, naquele momento, que estava vivendo um capítulo da mais pura história do nosso Brasil.
Mal sabia eu que, já adulto, conheceria verdadeiras máquinas do tempo. E são muitas, estão por todos os lados, podem até nos esbarrar na calçada cheia de uma tarde de sábado.
Há quase duas semanas, conversei com uma delas. Seu José Tiburcio, tem 92 anos, e mora em Manari, no sertão do Pernambuco. Foi boiadeiro dos bons, a maior parte de sua vida, e era autoridade na época do conorelismo: comissário.
Começou a "correr no mato", como diz, atrás de bois, aos 15 anos de idade.
Seu José ouve muito pouco e não enxerga muito bem. Não anda há 8 anos.
- Desde 2 de novembro de 2002, me lembro bem... - diz com sua voz rouca e fraca.
Mas tem uma boa memória, lembra fatos e histórias de sua juventude que nos conta como se um filme fosse passando à nossa frente. E foi assim que nos contou. Aqueles olhos, os mesmos que nos fitavam agora, olharam para Lampião e seu bando, na época do cangaço.
- Era Virgulino o nome dele. Ele que juntava os cabras pra roubar por aqui. - conta, olhos vidrados no passado, com uma simplicidade, e a liberdade de quem fala de um conhecido, que chega a nos arrepiar.
Quando jovem, certa vez, estava voltando para casa, quando o alertaram que Lampião e seus cangaceiros estavam na casa de seu tio Florêncio. Vinham atrás de dinheiro e traziam Mané Perna, sanfoneiro local para tocar. Lá, ordenaram que o tio deixasse as moças dançarem com seus homens, "com todo respeito!", nas palavras do rei do cangaço. E a festa foi longe.
José, ao saber que estavam por perto, correu para o mato e escondeu sua arma num umbuzeiro, com medo que o bando a roubasse; sua primeira e querida pistola. Voltou à estrada para sua casa, protegendo a família de uma possível visita de Lampião.
Respirou aliviado ao chegar e ver sua casa a salvo. Ainda não sabia, naquele momento, que estava vivendo um capítulo da mais pura história do nosso Brasil.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Bonzinho só "toma na cabeça"?
Pergunta que não cala. Muitas vezes me pego pensando sobre isso. No final dessa viagem tive uma dura lição.
Sempre faço questão de cumprimentar com um sorriso, perguntar o nome das pessoas que me atendem, enfim, não importa se estou ali para ser atendido ou não, tento fazer o trabalho do outro ser mais agradável, pois gosto que façam isso comigo. Infelizmente, muitos não enxergam assim.
No final do trabalho, tive a oportunidade de tirar alguns dias de descanso. Ficaria em uma pousada, Wanderson - amigo e dentista que viajou comigo - ficaria com sua namorada, na casa ao lado.
Wilson, o dono, me recebeu bem, apresentou a pousada, e assinamos a estadia, até quinta-feira.
Segunda, meu primeiro dia inteiro no local, voltei de uma longa trilha, bem cansado - e muito feliz! - quando ele me disse:
- Ah, viu, você vai ter que sair na quarta, depois do café. Houve um problema com a reserva. Mas vou ver se consigo alguma outra pousada pra você. Tá difícil... - disse como se eu não tivesse outra alternativa.
Estava cansado, não pensei muito, e deixei meu lado "sussas" falar na minha frente, antes que eu o calasse:
- Sério Wilson? Que pena. Bom, vou descansar, depois a gente vê o que faz. - disse e fui para o quarto.
Na cama comecei a pensar o que teria acontecido, se tudo estava certo até quinta. Tinha ouvido falar de algumas pessoas que pensam muito em dinheiro e dão certas "mancadas". Era muito provável que ele havia recebido uma proposta de duas pessoas, onde ganharia mais, visto que eu estava sozinho num quarto de casal.
Dia seguinte resolvi parar de ser bobo (ou bonzinho, visto que, infelizente, essas palavras se misturam nos dias atuais, por causa de tantos malandros e aproveitadores). Fui até o dono e perguntei:
- Wilson, queria saber por que você mudou a palavra do que havíamos combinado no domingo? - disse sério, e meu sorriso de bonzinho, ou de bobo, como queiram, havia sumido. Tentei lembrar de alguns filmes onde alguns caras faziam cara de mal e acho que me saí bem, pois ele gaguejou e respondeu:
- Veja bem, não é que eu mudei, houve um problema na reserva, marcaram duas juntas, inclusive, o rapaz será mandado embora... - e continuou se explicando e se enrolando.
- Tudo bem, acontece. E você concorda que eu não tenho nada a ver com isso, certo? - perguntei, quase exultante em fazer papel de bravo. - Agora como fazemos? Tenho um blog, que colocarei um diário dessa viagem, lido por mais de 4000 pessoas (eu sei, menti, são mais de 4000 visitas, mas achei que teria mais resultado assim) e o que você imagina que eu direi sobre sua pousada?
- Eu sei, pode falar mal a vontade, quanto quiser. Não tenho nem o que falar. - disse, já nervoso.
Dei por encerrada a conversa, chateado por sair de onde já estava, e ficar longe de meus amigos. Mas fiz minha parte.
Dia seguinte, no café da manhã, Wilson me chamou:
- Viu, consegui arrumar aquele probleminha. A mulher que viria não poderá vir. Pode ficar tranquilo até quinta.
Fiquei entre feliz e chateado ao mesmo tempo. Fosse eu "gente boa", compreensível, estaria em outro lugar, praticamente expulso da pousada. Como fui "casca grossa", o dono fez questão em me ajudar e resolver o problema.
Que inversão de valores!
Estou um pouco desanimado, não queria que fosse assim. Espero estar errado. Mas há alguns casos em que ser simpático pode não ser uma boa alternativa.
Sempre faço questão de cumprimentar com um sorriso, perguntar o nome das pessoas que me atendem, enfim, não importa se estou ali para ser atendido ou não, tento fazer o trabalho do outro ser mais agradável, pois gosto que façam isso comigo. Infelizmente, muitos não enxergam assim.
No final do trabalho, tive a oportunidade de tirar alguns dias de descanso. Ficaria em uma pousada, Wanderson - amigo e dentista que viajou comigo - ficaria com sua namorada, na casa ao lado.
Wilson, o dono, me recebeu bem, apresentou a pousada, e assinamos a estadia, até quinta-feira.
Segunda, meu primeiro dia inteiro no local, voltei de uma longa trilha, bem cansado - e muito feliz! - quando ele me disse:
- Ah, viu, você vai ter que sair na quarta, depois do café. Houve um problema com a reserva. Mas vou ver se consigo alguma outra pousada pra você. Tá difícil... - disse como se eu não tivesse outra alternativa.
Estava cansado, não pensei muito, e deixei meu lado "sussas" falar na minha frente, antes que eu o calasse:
- Sério Wilson? Que pena. Bom, vou descansar, depois a gente vê o que faz. - disse e fui para o quarto.
Na cama comecei a pensar o que teria acontecido, se tudo estava certo até quinta. Tinha ouvido falar de algumas pessoas que pensam muito em dinheiro e dão certas "mancadas". Era muito provável que ele havia recebido uma proposta de duas pessoas, onde ganharia mais, visto que eu estava sozinho num quarto de casal.
Dia seguinte resolvi parar de ser bobo (ou bonzinho, visto que, infelizente, essas palavras se misturam nos dias atuais, por causa de tantos malandros e aproveitadores). Fui até o dono e perguntei:
- Wilson, queria saber por que você mudou a palavra do que havíamos combinado no domingo? - disse sério, e meu sorriso de bonzinho, ou de bobo, como queiram, havia sumido. Tentei lembrar de alguns filmes onde alguns caras faziam cara de mal e acho que me saí bem, pois ele gaguejou e respondeu:
- Veja bem, não é que eu mudei, houve um problema na reserva, marcaram duas juntas, inclusive, o rapaz será mandado embora... - e continuou se explicando e se enrolando.
- Tudo bem, acontece. E você concorda que eu não tenho nada a ver com isso, certo? - perguntei, quase exultante em fazer papel de bravo. - Agora como fazemos? Tenho um blog, que colocarei um diário dessa viagem, lido por mais de 4000 pessoas (eu sei, menti, são mais de 4000 visitas, mas achei que teria mais resultado assim) e o que você imagina que eu direi sobre sua pousada?
- Eu sei, pode falar mal a vontade, quanto quiser. Não tenho nem o que falar. - disse, já nervoso.
Dei por encerrada a conversa, chateado por sair de onde já estava, e ficar longe de meus amigos. Mas fiz minha parte.
Dia seguinte, no café da manhã, Wilson me chamou:
- Viu, consegui arrumar aquele probleminha. A mulher que viria não poderá vir. Pode ficar tranquilo até quinta.
Fiquei entre feliz e chateado ao mesmo tempo. Fosse eu "gente boa", compreensível, estaria em outro lugar, praticamente expulso da pousada. Como fui "casca grossa", o dono fez questão em me ajudar e resolver o problema.
Que inversão de valores!
Estou um pouco desanimado, não queria que fosse assim. Espero estar errado. Mas há alguns casos em que ser simpático pode não ser uma boa alternativa.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Dinheiro fácil
Quando se faz um trabalho social, tem-se uma reputação a zelar. Deve-se tomar extremos cuidado com exemplos e conselhos. Muitas pessoas acabam depositando sobre você grande fé e confiança e, mesmo em meio a alguma brincadeira e bagunça, a essência deve ser boa.
Certa vez, na cidade de Palmas-TO, acabamos o trabalho na escola e combinamos um luau com alunos e amigos. Não sabíamos, mas a 20 minutos da escola, havia uma cachoeira, não muito grande, mas muito bela, em torno de 1,80m, que caía suavemente sobre um pequeno lago, tocando aquela suave e intensa música da natureza.
Luis, a descobriu na saída fotográfica que faz com seus alunos, na oficina em que ensina a arte da fotografia digital. Um pequeno exemplo do quanto essa capacitação mexe a vida dos adolescentes das escolas são garotos que encaram a fotografia como profissão, como é o caso de Givanilson, da cidade de Balsas-MA, que trabalha em uma empresa tirando fotos de eventos e casamentos, ou da Joyce e Suedivaldo, que melhoram a cada dia suas técnicas e já possuem seus blogs fotográficos.
Durante a tarde, Luis conheceu o lindo local e, automaticamente, pensou no violão de noite. Conversou com o "tiozinho" dono do simples bar que ficava ao pé da cachoeira que garantiu: "Então eu espero vocês com o bar aberto de noite. Pode ficar tranquilo que estarei por aqui!!".
Quando chegamos à noite o bar estava fechado. Chamamos, batemos palmas, assoviamos, oramos. Em vão, nem sinal do homem, que àquela hora devia estar curtindo seu "fogo".
"Não é possível, não trouxemos nada, água, cerveja, ou refrigerante", pensamos naquele breu do centro do Brasil. Até que um amigo falou:
- Olhem só, sempre há alguma falha a ser encontrada... cresci abrindo casas para brincar, conheço possiveis formas de abrir algo... - disse checando as grades e cadeados que lacravam o boteco de madeira rústica. Até que de repente “trec”, uma grade se mexeu. Estava aberta! Comentamos com os amigos locais que iríamos entrar como amigo do dono, anotar tudo e deixar o dinheiro depois. Assim, um de nós entrou, pegou as latinhas e fomos para o luau. Seguimos, assim, o procedimento noite afora.
A lua seguia alta, iluminando apenas o suficiente, completando a chama trêmula da fogueira ao pé de uma grande árvore.
No final contamos as latinhas e imaginamos quanto seria se ele cobrasse caro. 3 reais cada uma? Daria uns 36 reais, cobrando caro. Deixamos um bilhete, pedindo mil desculpas por entrar no bar sem ele estar presente, informando o que tomamos, e um dinheiro em cima: 50 reais.
No dia seguinte, o homem deve ter pensado: "Foi o dinheiro mais fácil que já ganhei...".
P.S.: Esterei em viagem até a terça feira, 28/09. Abraço a todos!
Certa vez, na cidade de Palmas-TO, acabamos o trabalho na escola e combinamos um luau com alunos e amigos. Não sabíamos, mas a 20 minutos da escola, havia uma cachoeira, não muito grande, mas muito bela, em torno de 1,80m, que caía suavemente sobre um pequeno lago, tocando aquela suave e intensa música da natureza.
Luis, a descobriu na saída fotográfica que faz com seus alunos, na oficina em que ensina a arte da fotografia digital. Um pequeno exemplo do quanto essa capacitação mexe a vida dos adolescentes das escolas são garotos que encaram a fotografia como profissão, como é o caso de Givanilson, da cidade de Balsas-MA, que trabalha em uma empresa tirando fotos de eventos e casamentos, ou da Joyce e Suedivaldo, que melhoram a cada dia suas técnicas e já possuem seus blogs fotográficos.
Durante a tarde, Luis conheceu o lindo local e, automaticamente, pensou no violão de noite. Conversou com o "tiozinho" dono do simples bar que ficava ao pé da cachoeira que garantiu: "Então eu espero vocês com o bar aberto de noite. Pode ficar tranquilo que estarei por aqui!!".
Quando chegamos à noite o bar estava fechado. Chamamos, batemos palmas, assoviamos, oramos. Em vão, nem sinal do homem, que àquela hora devia estar curtindo seu "fogo".
"Não é possível, não trouxemos nada, água, cerveja, ou refrigerante", pensamos naquele breu do centro do Brasil. Até que um amigo falou:
- Olhem só, sempre há alguma falha a ser encontrada... cresci abrindo casas para brincar, conheço possiveis formas de abrir algo... - disse checando as grades e cadeados que lacravam o boteco de madeira rústica. Até que de repente “trec”, uma grade se mexeu. Estava aberta! Comentamos com os amigos locais que iríamos entrar como amigo do dono, anotar tudo e deixar o dinheiro depois. Assim, um de nós entrou, pegou as latinhas e fomos para o luau. Seguimos, assim, o procedimento noite afora.
A lua seguia alta, iluminando apenas o suficiente, completando a chama trêmula da fogueira ao pé de uma grande árvore.
No final contamos as latinhas e imaginamos quanto seria se ele cobrasse caro. 3 reais cada uma? Daria uns 36 reais, cobrando caro. Deixamos um bilhete, pedindo mil desculpas por entrar no bar sem ele estar presente, informando o que tomamos, e um dinheiro em cima: 50 reais.
No dia seguinte, o homem deve ter pensado: "Foi o dinheiro mais fácil que já ganhei...".
P.S.: Esterei em viagem até a terça feira, 28/09. Abraço a todos!
domingo, 19 de setembro de 2010
Um dia de atendimento
Que imagem temos quando pensamos em um dentista? Um consultório sóbrio, sério. Um profissional que chegará de branco para atender em uma sala, a sós. Medo. Infelizmente, não são boas as nossas primeiras impressões.
Tentamos fazer diferente. A idéia é montar um consultório dentro da sala de aula de escolas no sertão brasileiro, então por que não dar às crianças uma outra imagem? De que o dentista pode brincar com a crinçada enquanto atende, dar risada com elas, jogar água para acabar com a bagunça, pegar o violão durante alguns minutos do dia. Já ouvimos muitas crianças dizendo que morriam de medo e resolveram passar ali, serem atendidas dentro da sala de aula.
Não se trata de um texto narcisista, de modo algum. É apenas uma amostra de como os dentistas do Instituto trabalham. A idéia, também, é ter as crianças próximas, olhando, aprendendo porque o dente do amiguinho está com aquele buraco enorme - como o seu - e o que ela precisa fazer para não ter esse problema nunca mais.
É completamente agradável, são muitas as vezes que crianças ficam o dia inteiro ali, ao meu lado, brincando, aprendendo, cantando. Não é à toa que trabalho muito mais tempo que em meu consultório, em São Paulo, mas me canso muito menos. Ou melhor, não me canso.
A professora que filmava não enquadrou muito bem... :) Mas dá para ter uma idéia.
Atendimento na querida escola do Pé do Morro, em São Raimundo Nonato-PI.
Tentamos fazer diferente. A idéia é montar um consultório dentro da sala de aula de escolas no sertão brasileiro, então por que não dar às crianças uma outra imagem? De que o dentista pode brincar com a crinçada enquanto atende, dar risada com elas, jogar água para acabar com a bagunça, pegar o violão durante alguns minutos do dia. Já ouvimos muitas crianças dizendo que morriam de medo e resolveram passar ali, serem atendidas dentro da sala de aula.
Não se trata de um texto narcisista, de modo algum. É apenas uma amostra de como os dentistas do Instituto trabalham. A idéia, também, é ter as crianças próximas, olhando, aprendendo porque o dente do amiguinho está com aquele buraco enorme - como o seu - e o que ela precisa fazer para não ter esse problema nunca mais.
É completamente agradável, são muitas as vezes que crianças ficam o dia inteiro ali, ao meu lado, brincando, aprendendo, cantando. Não é à toa que trabalho muito mais tempo que em meu consultório, em São Paulo, mas me canso muito menos. Ou melhor, não me canso.
A professora que filmava não enquadrou muito bem... :) Mas dá para ter uma idéia.
Atendimento na querida escola do Pé do Morro, em São Raimundo Nonato-PI.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
A cerveja ideal
Não. Não sou nenhum "mestre cervejeiro". Tampouco algum pinguço que vive "enchendo a cara" (melhor deixar claro, não é?). Mas gosto de uma boa cervejinha e acho que hoje descobri a cerveja ideal. Bem, hoje não, pois estou no consultório, antes das 9 da manhã, e isso, imediatamente, desmentiria minha afirmação antes dos parênteses acima. Mas sim, nos últimos meses.
Ao contrário do que muitos pensam, o lugar onde encontramos as pessoas que mais sabem gelar uma cerveja é no sertão. "Nossa, mas um lugar quente e que gela bem a cerveja? Não é um paradoxo?". Não, gelam daquele jeito que você pega a garrafa, acha que vai estar "empedrada" e ela sai, tinindo!
E não estou falando de barzinhos, com mais aparatos. Quando há uma festa na escola, ou na casa de alguém, lá estão elas, no freezer ou geladeira, esbranquiçadinhas.
Um grande amigo, o Nado da Cia de Inventos, usa uma expressão bacana para a garrafa que fica branquinha, com uma fina camada de gelo em sua superfície: "canela de pedreiro", em alusão ao trabalhador que fica com o cal da obra sobre sua canela.
No sertão é assim, em muitos botecos, ou em casas, nos servem as "canelinhas de pedreiro".
Abaixo, deixei uma foto de duas que retiramos da geladeira num jantar, na querida escola de Poço das Trincheiras-AL. Aquela noite, incrível, todas as garrafas estavam assim, sem congelar a cerveja dentro. Como eles fazem isso? Não sei. Sabedoria sertaneja.
Uma pena que eu não tenha tirado uma foto da mais perfeita que já tomei em minha vida. Estávamos na casa de uma simpática senhora, que nos deu um maravilhoso jantar, em Poço Redondo-SE. Luis perguntou se podia pegar uma cerveja.
- Vá lá na geladeira, meu filho... - respondeu amavelmente.
Ele voltou com os olhos arregalados.
- Dá uma olhada nessa garrafa! - me disse mostrando a cerveja que trazia.
Ela estava com uma pedra de gelo grande, de ciama abaixo, em uma metade. Linda. Colocamos no copo, não estava congelada, mas tinha pequeninos flocos de gelo no líquido amarelo ouro, que dava uma sensação única. Foi assim até o último gole.
Me senti, exatamente, como um apreciador de vinho, que senta com um amigo em uma vinícola e prova aquela garrafa única de vinho, da melhor safra que tem. Sabe que como aquela, dificilmente experimentará outra. Tomamos até o fim, silêncio quebrado apenas para rápidos comentários de como aquilo estava sensacional.
Terminamos felizes, sabendo que será difícil encontrar outra igual, por toda a vida.

Imagem das duas canelas - direita e esquerda - de pedreiro
Ao contrário do que muitos pensam, o lugar onde encontramos as pessoas que mais sabem gelar uma cerveja é no sertão. "Nossa, mas um lugar quente e que gela bem a cerveja? Não é um paradoxo?". Não, gelam daquele jeito que você pega a garrafa, acha que vai estar "empedrada" e ela sai, tinindo!
E não estou falando de barzinhos, com mais aparatos. Quando há uma festa na escola, ou na casa de alguém, lá estão elas, no freezer ou geladeira, esbranquiçadinhas.
Um grande amigo, o Nado da Cia de Inventos, usa uma expressão bacana para a garrafa que fica branquinha, com uma fina camada de gelo em sua superfície: "canela de pedreiro", em alusão ao trabalhador que fica com o cal da obra sobre sua canela.
No sertão é assim, em muitos botecos, ou em casas, nos servem as "canelinhas de pedreiro".
Abaixo, deixei uma foto de duas que retiramos da geladeira num jantar, na querida escola de Poço das Trincheiras-AL. Aquela noite, incrível, todas as garrafas estavam assim, sem congelar a cerveja dentro. Como eles fazem isso? Não sei. Sabedoria sertaneja.
Uma pena que eu não tenha tirado uma foto da mais perfeita que já tomei em minha vida. Estávamos na casa de uma simpática senhora, que nos deu um maravilhoso jantar, em Poço Redondo-SE. Luis perguntou se podia pegar uma cerveja.
- Vá lá na geladeira, meu filho... - respondeu amavelmente.
Ele voltou com os olhos arregalados.
- Dá uma olhada nessa garrafa! - me disse mostrando a cerveja que trazia.
Ela estava com uma pedra de gelo grande, de ciama abaixo, em uma metade. Linda. Colocamos no copo, não estava congelada, mas tinha pequeninos flocos de gelo no líquido amarelo ouro, que dava uma sensação única. Foi assim até o último gole.
Me senti, exatamente, como um apreciador de vinho, que senta com um amigo em uma vinícola e prova aquela garrafa única de vinho, da melhor safra que tem. Sabe que como aquela, dificilmente experimentará outra. Tomamos até o fim, silêncio quebrado apenas para rápidos comentários de como aquilo estava sensacional.
Terminamos felizes, sabendo que será difícil encontrar outra igual, por toda a vida.

Imagem das duas canelas - direita e esquerda - de pedreiro
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Um dia no sertão
Em agosto, como comentei em algumas postagens, trabalhamos no Ceará, na cidade de Crateús. O trabalho aconteceria na comunidade de Pocinhos, um assentamento sem-terra, muito organizado e bem feito, na zona rural.
Ali, todos vivem em harmonia e, logo na primeira vista, pode-se ver que é um lugar diferenciado. Os moradores que ganharam o direito de viver nas terras, não se tornam donos das casas.
- Aqui a pessoa mora, mas a casa é da comunidade. Se um dia ela quiser sair, deixa a chave e nós damos a casa a outra pessoa que precise. - nos comentou o líder comunitário.
Isso é muito salutar, visto que são conhecidos muitos casos de pessoas que vivem na cidade, alugam suas casas e vão para um assentamento. Ao ganhar a terra, a vendem para terceiros.
Antes, para chegar até o local, pegamos uma estrada típica do sertão: de terra, entre a caatinga.

Fomos recebidos calorosamente, mesmo na hora avançada em que chegamos (em torno da meia noite), professores e moradores nos esperavam com um delicioso jantar.
Porém, mesmo com a fome apertando e cansaço, a primeira coisa que todos nós reparamos foi na casa que nos abrigaria. Uma casa branca, grande, espaçosa e com várias redes dispostas para cada um dos voluntários, dentro das quais havia um lençol e um travesseiro. Assim, a apelidamos carinhosamente de "Casas das Redes".

Jantamos, nos despedimos, fizemos ainda um ótimo sonzinho no violão. Haviam 3 deles na equipe. Os dois médicos oftalmos (Bruno e Filipe) também tocavam e o som embalou o sono de toda a turma.
O dia amanheceu, e dormíamos em paz. Poucas horas que revigoram mais do que as muitas que durmo em São paulo.

Ao acordarmos, tivemos mais uma grata surpresa: à frente da casa, uns 50 metros, havia um grande açude, que nos enviava uma suave brisa na manhã do sertão.
Após um reforçado café da manhã, seguimos para a escola onde fomos recebidos por muitas crianças com bexigas e versos carinhosos para os amigos visitantes.

O trabalho fluiu muito bem, a sensação da equipe, de dever cumprido, brilhava nos olhos de cada um, visto que era a última cidade em que trabalharíamos. Fizemos novos amigos e uma festa nos aguardava. Não precisaríamos de mais nada. Nada mesmo. Ainda assim, Deus nos presenteou com um lindo pôr-do-sol. Novamente, nós é quem agradecíamos...
Ali, todos vivem em harmonia e, logo na primeira vista, pode-se ver que é um lugar diferenciado. Os moradores que ganharam o direito de viver nas terras, não se tornam donos das casas.
- Aqui a pessoa mora, mas a casa é da comunidade. Se um dia ela quiser sair, deixa a chave e nós damos a casa a outra pessoa que precise. - nos comentou o líder comunitário.
Isso é muito salutar, visto que são conhecidos muitos casos de pessoas que vivem na cidade, alugam suas casas e vão para um assentamento. Ao ganhar a terra, a vendem para terceiros.
Antes, para chegar até o local, pegamos uma estrada típica do sertão: de terra, entre a caatinga.
Fomos recebidos calorosamente, mesmo na hora avançada em que chegamos (em torno da meia noite), professores e moradores nos esperavam com um delicioso jantar.
Porém, mesmo com a fome apertando e cansaço, a primeira coisa que todos nós reparamos foi na casa que nos abrigaria. Uma casa branca, grande, espaçosa e com várias redes dispostas para cada um dos voluntários, dentro das quais havia um lençol e um travesseiro. Assim, a apelidamos carinhosamente de "Casas das Redes".
Jantamos, nos despedimos, fizemos ainda um ótimo sonzinho no violão. Haviam 3 deles na equipe. Os dois médicos oftalmos (Bruno e Filipe) também tocavam e o som embalou o sono de toda a turma.
O dia amanheceu, e dormíamos em paz. Poucas horas que revigoram mais do que as muitas que durmo em São paulo.
Ao acordarmos, tivemos mais uma grata surpresa: à frente da casa, uns 50 metros, havia um grande açude, que nos enviava uma suave brisa na manhã do sertão.
Após um reforçado café da manhã, seguimos para a escola onde fomos recebidos por muitas crianças com bexigas e versos carinhosos para os amigos visitantes.
O trabalho fluiu muito bem, a sensação da equipe, de dever cumprido, brilhava nos olhos de cada um, visto que era a última cidade em que trabalharíamos. Fizemos novos amigos e uma festa nos aguardava. Não precisaríamos de mais nada. Nada mesmo. Ainda assim, Deus nos presenteou com um lindo pôr-do-sol. Novamente, nós é quem agradecíamos...
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Quer saber como tirar o cheiro de cocô do carro? Pergunte-me como. (O cocô 2 - a revanche / continuação da última postagem)
"Como vai sair esse cheiro do carro?", eu me perguntava, quase suando frio.
Primeira coisa a fazer: checar o tamanho do estrago. Paramos em um posto de gasolina e desci para olhar o quanto tinha pisado. Resultado: muito. Então pedi para meu sobrinho descer e avaliá-lo também. Foi aí que, ao atestar que ele também tinha pisado - em cheio! -, ouvi um lamento do outro lado do veículo. A Ju estava vendo o banco e uma mancha morrom característica. Rezei para não ser, pedi a todos os santos que conhecia por um milagre, até cheirei pra mostrar que tinha fé neles. Mas era.
Um dia, exagerei sem querer em um perfume doce, o que deixou minha esposa com dor de cabeça e enjôo. Resolvi brincar para amenizar a situação:
- A gente pode pegar aquele meu perfume e jogar no carro pra disfarçar o cheiro... -disse com um sorrisinho amarelo.
O tiro saiu pela culatra, ela disse que preferia o cheiro do cocô.
O frentista, muito gente boa, se compadeceu ao ver nossa cara de "fiz merda" ou melhor, de "pisei na merda" e a cara de brava da Ju e lavou a sola de nosso tênis. Eu e o Luquinhas esperamos descalços ali ao lado.
A Ju teve uma ótima idéia, na loja de conveniência do próprio posto, e comprou aqueles lenços umidecidos cheirosos. Aqueles de limpar a bunda de nenêm. Não limparia a bunda de um, mas o produto higienizado seria o mesmo.
Bingo! os paninhos limparam tudo, tanto os tapetes, pisados por mim, quanto o banco, pisado pelo Lucas, e ainda deixou um cheirinho de bosque e não da palavra semelhante a essa.
Resultado: pisou no cocô de cachorro = posto de gasolina, água na sola e lenços umidecidos no estrago.
Primeira coisa a fazer: checar o tamanho do estrago. Paramos em um posto de gasolina e desci para olhar o quanto tinha pisado. Resultado: muito. Então pedi para meu sobrinho descer e avaliá-lo também. Foi aí que, ao atestar que ele também tinha pisado - em cheio! -, ouvi um lamento do outro lado do veículo. A Ju estava vendo o banco e uma mancha morrom característica. Rezei para não ser, pedi a todos os santos que conhecia por um milagre, até cheirei pra mostrar que tinha fé neles. Mas era.
Um dia, exagerei sem querer em um perfume doce, o que deixou minha esposa com dor de cabeça e enjôo. Resolvi brincar para amenizar a situação:
- A gente pode pegar aquele meu perfume e jogar no carro pra disfarçar o cheiro... -disse com um sorrisinho amarelo.
O tiro saiu pela culatra, ela disse que preferia o cheiro do cocô.
O frentista, muito gente boa, se compadeceu ao ver nossa cara de "fiz merda" ou melhor, de "pisei na merda" e a cara de brava da Ju e lavou a sola de nosso tênis. Eu e o Luquinhas esperamos descalços ali ao lado.
A Ju teve uma ótima idéia, na loja de conveniência do próprio posto, e comprou aqueles lenços umidecidos cheirosos. Aqueles de limpar a bunda de nenêm. Não limparia a bunda de um, mas o produto higienizado seria o mesmo.
Bingo! os paninhos limparam tudo, tanto os tapetes, pisados por mim, quanto o banco, pisado pelo Lucas, e ainda deixou um cheirinho de bosque e não da palavra semelhante a essa.
Resultado: pisou no cocô de cachorro = posto de gasolina, água na sola e lenços umidecidos no estrago.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
O cocô
Ah, o cheiro de carro novo! Que delícia! Se um fabricante conseguisse engarrafar a essência e vendê-lo como aqueles perfumes de carro, ficaria mais rico ainda.
Imagine que você comprou aquele bonito carro, novinho, com esse cheirinho. E que você está com ele a pouco mais de uma semana. Entraria nele, sentiria o aroma e aquela suave alegria de quem ralou muito para trocar de veículo.
Imagine que, num feriado, você leve o sobrinho pra passear e, no fim do dia, seu marido e seu sobrinho, antes de entrar no carro, pisem, em cheio, num cocô de cachorro e não percebam.
- Luquinhas, você fez pum? - seria a primeira pergunta a fazer, negada pelo sobrinho.
Pergunta que seria repetida ao marido, que também negaria veementemente.
Mas não pare de imaginar. Imagine ainda que seu sobrinho tem a péssima mania de colocar o pé no banco quando vai se sentar...
Imaginou?
Bom, alguém tem idéia de como tirar cheiro de cocô de cachorro do carro e voltar àquele cheirinho de carro novo?
Imagine que você comprou aquele bonito carro, novinho, com esse cheirinho. E que você está com ele a pouco mais de uma semana. Entraria nele, sentiria o aroma e aquela suave alegria de quem ralou muito para trocar de veículo.
Imagine que, num feriado, você leve o sobrinho pra passear e, no fim do dia, seu marido e seu sobrinho, antes de entrar no carro, pisem, em cheio, num cocô de cachorro e não percebam.
- Luquinhas, você fez pum? - seria a primeira pergunta a fazer, negada pelo sobrinho.
Pergunta que seria repetida ao marido, que também negaria veementemente.
Mas não pare de imaginar. Imagine ainda que seu sobrinho tem a péssima mania de colocar o pé no banco quando vai se sentar...
Imaginou?
Bom, alguém tem idéia de como tirar cheiro de cocô de cachorro do carro e voltar àquele cheirinho de carro novo?
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Boa ação ou...
Uma amiga internauta, Pétala, disse em um comentário, sobre o atendimento na área da saúde. Realmente, há uma necessidade enorme dos profissionais dessa área tratarem os pacientes da melhor forma possível, fazendo com que se sintam especiais.
Esse seria o básico, o primeiro passo de todo atendimento por um profissional da saúde: cumprimentar a pessoa, saber que antes de uma doença, uma cárie, um problema, temos ali em nossa frente um semelhante que precisa de atenção.
Infelizmente, nos dias atuais, muitas pessoas se esquecem disso e, quando um profissional faz o básico, aquilo que é seu primeiro dever, parece que é algo diferenciado.
Quantas vezes agradecemos muito a uma pessoa uma ajuda, elogiamos e nos impressionamos. "Que cara bacana!". Porém, se a mesma pessoa não se oferece para ajudar quando precisamos, passa direto, achamos o maior absurdo do mundo. Ajudar, tratar bem o próximo, é sempre nosso primeiro dever.
Lembrei-me disso pois ontem, enquanto saíamos de manhã para o trabalho, passei em frente a um hospital que existe na rua de casa. Uma mãe tentava, com muita dificuldade, subir a cadeira de rodas em que a filha estava por uma pequena rampa, que disfarçava um degrau.
- Precisa de ajuda? - perguntei, e a mulher prontamente me deixou subir a pesada cadeira de rodas.
Me agradeceu com um sorriso e segui adiante. Juliana, minha esposa, me disse:
- Já fez sua boa ação de hoje!
Ao que respondi:
- Minha boa ação não, minha obrigação.
Esse seria o básico, o primeiro passo de todo atendimento por um profissional da saúde: cumprimentar a pessoa, saber que antes de uma doença, uma cárie, um problema, temos ali em nossa frente um semelhante que precisa de atenção.
Infelizmente, nos dias atuais, muitas pessoas se esquecem disso e, quando um profissional faz o básico, aquilo que é seu primeiro dever, parece que é algo diferenciado.
Quantas vezes agradecemos muito a uma pessoa uma ajuda, elogiamos e nos impressionamos. "Que cara bacana!". Porém, se a mesma pessoa não se oferece para ajudar quando precisamos, passa direto, achamos o maior absurdo do mundo. Ajudar, tratar bem o próximo, é sempre nosso primeiro dever.
Lembrei-me disso pois ontem, enquanto saíamos de manhã para o trabalho, passei em frente a um hospital que existe na rua de casa. Uma mãe tentava, com muita dificuldade, subir a cadeira de rodas em que a filha estava por uma pequena rampa, que disfarçava um degrau.
- Precisa de ajuda? - perguntei, e a mulher prontamente me deixou subir a pesada cadeira de rodas.
Me agradeceu com um sorriso e segui adiante. Juliana, minha esposa, me disse:
- Já fez sua boa ação de hoje!
Ao que respondi:
- Minha boa ação não, minha obrigação.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Imagens do Brasil: crianças
Começarei no blog hoje a idéia dada por um grande amigo, Rafael Beolchi. Por ser apaixonado pelo nosso país, ele "devorou" as fotos que estão na lateral, que seguem o mesmo nome desta postagem.
- Por que você não fala sobre elas, as circunstâncias em que foram tiradas, histórias...
Boa idéia Beolchi! E a cada uma que retirar, para virar história, colocarei uma nova lá embaixo.
Espero que gostem!
Um grande abraço!
Wolber Campos

Se há algo que emociona, é a inocência de uma criança. Por fazermos trabalhos em escolas, o contato com elas é intenso. A amizade também.
No sertão, elas tem um carinho diferente. É um carinho mais intenso, espontâneo, carente, sôfrego.
São várias as situações em que, quando chegamos, nos avançam, umas quatro ou cinco (ou mais!), e nos abraçam, seguindo dessa forma enquanto andamos até a escola, num fundo musical de risadas e palavras de saudade.
Ainda guardam aquela saudosa infância, perdida na cidade grande, onde brincar na rua de terra, jogar futebol com golzinhos de pedra na rua, empinar pipas, nadar em rios e açudes, faz parte de uma deliciosa rotina depois das aulas.
Não admira que se tornem, futuramente, adultos de paz. Os mesmos que nos abrem as portas de suas casas com todo carinho e hospitalidade.
A velha e boa "hospitalidade sertaneja" começa desde cedo.
* Foto de Luis Salvatore
- Por que você não fala sobre elas, as circunstâncias em que foram tiradas, histórias...
Boa idéia Beolchi! E a cada uma que retirar, para virar história, colocarei uma nova lá embaixo.
Espero que gostem!
Um grande abraço!
Wolber Campos

Se há algo que emociona, é a inocência de uma criança. Por fazermos trabalhos em escolas, o contato com elas é intenso. A amizade também.
No sertão, elas tem um carinho diferente. É um carinho mais intenso, espontâneo, carente, sôfrego.
São várias as situações em que, quando chegamos, nos avançam, umas quatro ou cinco (ou mais!), e nos abraçam, seguindo dessa forma enquanto andamos até a escola, num fundo musical de risadas e palavras de saudade.
Ainda guardam aquela saudosa infância, perdida na cidade grande, onde brincar na rua de terra, jogar futebol com golzinhos de pedra na rua, empinar pipas, nadar em rios e açudes, faz parte de uma deliciosa rotina depois das aulas.
Não admira que se tornem, futuramente, adultos de paz. Os mesmos que nos abrem as portas de suas casas com todo carinho e hospitalidade.
A velha e boa "hospitalidade sertaneja" começa desde cedo.
* Foto de Luis Salvatore
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