quarta-feira, 10 de junho de 2020
Máscaras e sobrevivência
"Que diacho tá acontecendo?".
No princípio até se questionou se o estavam sacaneando, uma forma de reclamar de seu cheiro sem terem que olhar em seus olhos. Afinal, olhar nos olhos é uma coisa que um morador de rua se desabitua. Mas as viu aparecendo também dentro de ônibus que passavam apressados pela rua movimentava onde vivia.
"Pois é, estamos passando uma pandemia. Um vírus que está se espalhando pelo mundo todo!", lhe disse uma senhora simpática que vez ou outra lhe deixava algum petisco. Dormir na frente de um supermercado é estratégico.
Se você passa a morar na rua tem que desenvolver algumas estratégias de sobrevivência. Alimentação é uma delas. Banheiro outra. Ali naquela região deu sorte, fez amizade com trabalhadores, alguns taxistas no ponto da frente e o dono do bar da esquina onde teve a bênção de usar o banheiro. Dá para imaginar o valor de se usar uma privada quando já sofreu para encontrar um lugar o mínimo escondido para aliviar suas necessidades, agachado em um lugar público e sem ter com o que se limpar?
Alguns como ele - não costumava usar a palavra "amigos" - não tinham a mesma sorte.
"Na rua você não tem amigo", dizia. "Cada um tenta sobreviver como pode e se você tá no caminho da sobrevivência do outro é melhor correr...".
Tentou durante um tempo dormir em albergues. Desistiu. O clima que encontrava por lá era horrível! Primeira noite, roubaram seu cobertor; depois, dividir espaço com outros que vivem suas dores e loucuras não lhe pareceu uma boa idéia. Preferiu a rua, mesmo no frio. Pelo menos fazia o que queria e não dava satisfação a ninguém.
Essa era sua vida, seu cotidiano, que se alterava naquele momento com o desfile de máscaras ao seu redor.
"Você tem que tomar cuidado! Esse vírus é muito perigoso!" - disse outra senhora, olhos bondosos, mas que tinha aquele traço de dó que ele tanto detestava. Porém aprendeu a separar isso. Tudo ficava mais leve se focasse no aspecto bondoso da pessoa e não na dó vergonhosa que recebia.
Olhou para a máscara depois que ela foi embora. Colocou no rosto, mais para sentir como era usar uma. Mais para, pelo menos num instante, se sentir parte da sociedade. Por um instante se sentiu um cidadão, junto aos demais. Enfim compartilhava algo com os outros à sua volta, mesmo que fosse o medo de uma doença.
O medo. Tirou depressa a máscara, como acordando de um sonho que parecia bom mas o poderia levar ao precipício. Havia levado um bom tempo para criar a casca em sua alma que o protegia naquele duro cotidiano, não podia correr o risco de quebrá-la.
Já tinha comido coisas do lixo não seria qualquer vírus que iria baqueá-lo.
Morrer? Tinha coisas mais importantes para pensar naquele momento, como onde conseguiria comer naquele dia.
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
Empatia: uma viagem de paulistas ao Maranhão
- Vamos para o Maranhão para um intercâmbio, realizar um projeto social! - comentava aos familiares com todo orgulho que seu jovem e bondoso coração deixava transbordar.
A imagem que formava em sua mente sobre a carência local e a chance de ajudar os jovens de lá a enchia de compaixão e idealismo. E nessa atmosfera inebriante embarcou para a outra ponta de seu país.
O primeiro dia surgiu, belo e brilhante como costumam nascer os dias no nordeste brasileiro. A chegada à escola, onde trabalharia ao lado de seus amigos ministrando oficinas diversas (dança, pinturas de rosto, esporte, ciências, bijuterias, entre outras) aos alunos locais, apresentou a primeira surpresa: aqueles garotos eram diferentes do que poderia imaginar. Não apresentavam a carência entristecedora, aparência frágil ou tristeza alguma. Muito pelo contrário, o sorriso fácil, o alto astral, a alegria que a alma exalava os fazia vibrar na mesma sintonia que sua turma.
- De repente percebi que não cabia olhar aquelas crianças - que tinham tão pouco em relação ao que temos - com dó, mas sim com empatia, vendo como temos coisas em comum! Somos todos seres humanos, brasileiros, com muito mais em comum do que diferenças. - Confidenciou a um dos amigos que coordenava o projeto.
Realmente, aquela experiência, tão longe de casa, revirava sua visão interna de Brasil, de mundo. Mesmo a de todos seus amigos. Em uma turma onde normalmente há uma certa hierarquia entre alunos do primeiro, segundo e terceiro ano, aquela atmosfera colocava a todos numa horizontalidade que desnudava qualquer conceito ou pré-conceito.
Ali, no último dia de trabalho num pátio de escola do interior do Maranhão, viu os amigos brincarem com uma bola de vôlei em uma imensa roda com os alunos locais e os coordenadores da equipe. Todos unidos, sem diferenças de classe social, localidades ou idade. A alegria vibrava em cada um naquele pátio numa sintonia que estava muito, mas muito além de qualquer conceito. Formavam uma grande família.
Por um instante seu espírito vislumbrou um pouco do sentido da vida e uma lágrima escorreu de seus olhos abençoando aquele momento.
segunda-feira, 16 de abril de 2018
Sobre o valor e valores
- Pai! Pai! Me dá dinheiro para eu levar na escola?! Eles estão arrecadando para ajudar a comprar leite para famílias carentes!
O Pai se felicitava por dentro ao ver que ali se mostrava um coração preocupado com pessoas e com o mundo em que vive. Perguntou quanto ela levaria e se surpreendeu quando a resposta foi "uns 50 reais, tá bom!".
- Filha, acho que 50 reais é muita coisa. Fica pesado pra ajudar. Você não tem que tentar resolver tudo sozinha, o ideal é cada pessoa ajudar com um pouco.
- Mas pai - disse a pequena quase indignada - você não sabe! São pessoas carentes, eles precisam e não tem dinheiro para comprar esses leites que são caros! - era um argumento inapelável, papai não teria como escapar.
Ele pensou; entre a vontade de adentrar o caminho mais fácil, agradando a filha e se orgulhando de sua preocupação social ou ensinar o valor das coisas. Decidiu o que para ele era o certo.
- Tudo bem, acho que é você quem tem realmente que decidir isso já que o valor sairá da sua mesada...
Ambos sabiam que ela tinha em suas economias um pouco mais do que a quantia pedida. Ela pensou, cara de tristeza, mas decidiu.
- Tá bom, pode ser dez reais, então.
quarta-feira, 4 de abril de 2018
Gratidão
Aquela era uma fria noite de junho e com este conceito intrínseco esperava minha vez na fila do mercado. Numa mão uma garrafa de vinho, na outra salgados e na cabeça o pensamento em ajeitar as coisas em casa para receber amigos minutos depois.
- Tio, você pode comprar este pão pra mim? - me perguntou um menino de seus 12 anos.
Seus trajes surrados indicavam que dormia na rua. Usava uma blusa fina de moletom para o frio que fazia e exibia um saco de pães na mão.
- Não tenho, meu amigo. - Respondi de forma maquinal, quase friamente.
O garoto se virou como já acostumado àquela resposta e se dirigiu a um senhor da fila ao lado, recebendo mais uma negativa.
"Espere! - pensei - Ele me pediu para comprar pão, não dinheiro".
Enquanto ele andava meio sem destino após um terceiro não o chamei. "Amigão, deixa que eu passo o pão pra você".
- Obrigado! É oito e quarenta. - disse como que preocupado se não seria muito caro.
Aliviado por ter conseguido "resgata-lo" vi na frente do caixa prateleiras repletas de doces de todas as cores. Perguntei se não queria pegar um. Ao me perguntar qual, respondi o que toda criança sonharia ouvir: "pode escolher".
Viu os valores, pensou e perguntou:
- Em vez do doce, posso pegar um refrigerante?
É claro que podia. Outra pessoa passasse aqueles pãezinhos e talvez minha consciência pesaria de não ter ajudado. Disparou para o corredor de bebidas e voltou feliz com uma coca de 2 litros.
- É seis e cinquenta, pode ser?
Ao passar no caixa retomou:
- O meu é oito e quarenta do pão e seis e cinquenta da coca. E o seu? - disse apontando para a garrafa de vinho.
Disse que não lembrava ao certo. E não lembrava mesmo, mas também estava sem jeito de dizer o valor daquela garrafa que, apesar de não ser um vinho caro, era muito mais do que o lanche que alimentaria algumas pessoas de sua família aquela noite.
- É engraçado, as vezes as pessoas nem sabe quanto custa as coisas... - disse entre divertido e pensativo.
Nos despedimos. Ele seguiu feliz para a rua com seu irmão que o esperava junto ao caixa. Entrei no carro e o conforto do interior, longe do vento frio que fazia lá fora, me envolveu. Saindo do estacionamento vi na calçada os dois irmãos, abrindo o saco de pães com o provável irmão mais velho, que estava sentado envolto em um fino cobertor cinza. A noite seria mais agradável para aqueles três. Assim como também seria a minha, envolto aos amigos.
Ao seguir em diante senti uma gratidão imensa. Não tivesse resgatado a oportunidade naquele supermercado poderia ter visto uma cena diferente naquela calçada.
E poucas vezes um vinho foi tão gostoso quanto o daquela noite.
sexta-feira, 23 de março de 2018
Olhar de paz
quarta-feira, 20 de abril de 2016
Um lugar no tempo e no espaço
quinta-feira, 10 de março de 2016
Sobre voltar a enxergar
- Doutor, já passei em muitos outros médicos e ninguém quer me operar por eu estar com a idade avançada. Mas eu quero tanto! Sinto que minha hora está chegando, não conheço o rosto de meus bisnetos. Gostaria de rever meus filhos, irmãos...
Entendia perfeitamente seus colegas. Levar uma paciente com mais de 90 anos para a mesa de cirurgia sempre é um risco grande. Um organismo já debilitado pode não resistir à anestesia ou ao stress cirúrgico. Comentou com ela e toda a família sobre todos os riscos possíveis, mas achou justo o desejo sincero de uma senhora em voltar a ver seus entes queridos.
A cirurgia foi um sucesso! Um misto de alegria, por ter devolvido a visão a alguém, com o alívio da paciente ter suportado a intervenção, o envolveu.
No acompanhamento pós-operatório, já no terceiro dia pós cirúrgico, a filha comentava ao lado da senhora a alegria de toda a família, compartilhando a emoção da "bisa" em rever a todos.
- Virou uma peregrinação de parentes em casa! Todo dia tem gente diferente para ela ver. Já tem parente vindo do norte. Fazia tempo que a família não se reunia assim!
E os dias seguintes transcorreram assim. Parentes vieram do sertão para revê-la, e ela, para vê-los. No décimo dia, Maria descansou. Como se esperasse apenas a alegria de poder ver novamente o rosto dos seus para fazer sua passagem, fechou definitivamente seus olhos.
Emocionado, o doutor ouvia o agradecimento sincero da filha e os relatos alegres dos últimos dias.
A família havia dividido a cirurgia em quatro pagamentos.
- Está tudo certo. Não precisam se preocupar com as outras parcelas. - disse segurando a emoção.
Não podia existir maior pagamento do que ter ajudado com sua intervenção àquela simpática senhora a ter seus últimos dias inundados de amor e da visão de sua família.
domingo, 25 de outubro de 2015
O jeitinho
"Já imaginávamos", pensou resignado, e assim se passaram mais de vinte minutos para dar seu nome à garota que organizava a espera.
Enquanto o último casal a sua frente passava seus dados, observou uma jovem, de não mais que vinte e cinco anos, aproveitando a pequena confusão de pessoas em volta, se juntar ao seu lado. Assim que o casal saiu ela se adiantou perguntou à funcionária:
- A espera está muito longa?
- Em torno de quarenta minutos, gostaria de esperar? - respondeu a hostess, sem imaginar que não se tratava de alguém fora da fila. Quando a moça resolveu deixar seu nome na lista, ele decidiu que, daquela vez, não deixaria passar.
- Tudo bem, mas você não estava na fila, não é?
Olhando assustada e não imaginando que alguém recriminaria seu gesto de ultrapassar a todos que pacientemente esperavam sua vez, gaguejou e disse para a funcionária que a olhava assustada:
- Não, só vim fazer uma pergunta, meu namorado está lá atrás na fila... - disse constrangida, disfarçando o indisfarçável, visto que passava seus dados para a lista de espera.
- Mil desculpas, não havia percebido que ela não estava na fila! - se desculpou a funcionária sinceramente e ele a tranquilizou, não havia o menor problema.
E realmente não haveria. O problema que poderia ocorrer estava envergonhado de sua atitude, ao ponto de não mais ficar na fila.
Enquanto jantava pensou no número de pessoas que recriminam corrupção no governo, em empresas, mas quando encontram uma possibilidade buscam levar vantagem ilegal sobre os outros.
Decidiu não mais pensar sobre aquele ato, ou o jantar não teria o mesmo sabor. Mas tinha a certeza de não mais observar uma corrupção sob seus olhos sem se manifestar.
domingo, 19 de julho de 2015
Filho de Tupãberapa
Mas tribos de índios brasileiros que se mantém na mesma etapa evolutiva desde que Cabral pisou nestas terras, há pouquíssimo, em mais de 500 anos.
"Nossa, mas quinhentos anos é muito tempo!", já pensou, lembrando daquela amiga que sempre julgava tudo pelo status quo do pensamento corrente.
- Você tá louca?!! Enquanto esses caras andavam pelados pelas ruas daqui da cidade, outros estavam estudando música clássica na escola no Velho Continente! E sabia que eles ainda andam pelados?!!! - diria tão diretamente quanto um verdugo em frente ao muro de fuzilamento.
Por tudo isso, se sentia um privilegiado em conversar com aquele jovem.
O outro, à sua frente, também se sentia um "escolhido". Por ser o filho mais velho o pajé - algo na atualidade comparável a ser filho do príncipe Charles, da Inglaterra (e aqui, um outro parênteses - pensou -, uma adolescente do interior do sertão do Piauí, conhece os pormenores da vida deste príncipe e de sua família real inglesa...).
Ele não fora "o escolhido". O índio sabia de sua colocação em sua época na terra. Por estar ali, deveria agradecer à luz de Tupãberaba. Por ter nascido naquela tribo, por ser o filho mais velho do soberano dos seus. E sabia também da brutal responsabilidade daquela posição.
Estava ali, naquela reunião de homem-branco, por causa de uma ong que cuidou da saúde de sua tribo e começou um trabalho de parceria por lá.
Pensando em tudo isso, o rapaz da cidade grande, decidiu tentar estabelecer o maior diálogo possível - claro, com a ajuda de um intérprete - com seu "semelhante".
- É um enorme prazer conhece-lo! - disse o outro em um tupi-guarani difícil de assimilar mesmo ao experiente intérprete.
- Meu amigo, você nem imagina quanto estou feliz em estar aqui...
E ali conversaram, sobre tantos assuntos quanto poderia imaginar. Porém, marcou muito quando o jovem riu, quando ouviu sobre o cotidiano de sua gente. Era difícil entender esse negócio de segunda, terça..., enfim!
Só poderia ser coisa de Jurupari, pegar cinco dias sagrados, como parte de sete, os transformando em tristeza, em troca de dois que seriam felizes, assim como os sete deveriam ser.
Se desculpou com o novo conhecido pelo riso que deu. E ele percebeu ainda que o outro também sorria como seus amigos.
Percebeu também, que algo não andava bem com sua sociedade. Não era apenas uma crítica de alguém que sentava num bar e tomava 10 chopps em sua frente, e discorrias sobre possibilidades e correntes humanistas. O rapaz em sua frente vivia sete sexta-feiras por semana, aclamada por dez entre dez amigos seus como o melhor dia de todos!
- Trabalhar é bom, comemorar é bom, Por quê dividir essas coisas? - ele não soube responder.
Não sabia se conseguiria deixar as coisas que aprendeu em sua sociedade, mas tinha certeza que a partir daquele dia, procuraria ser uma coisa simples: apenas um ser humano melhor.
E sua meta dali para frente era apenas ser melhor do que ontem.
quarta-feira, 20 de maio de 2015
Crônicas de um brasileiro nos Estados Unidos - Contrastes
sábado, 21 de março de 2015
Conceitos
domingo, 8 de março de 2015
Mundo ideal
João havia adentrado uma conversa daquelas despretensiosas em que se discorre sobre o clima ou como estão caros os produtos. O senhor com quem trocava impressões tinha um papo fácil e interessante. Brincou com sua filha, deram risada juntos, e firmaram a amizade que sabiam ter fim em alguns minutos, numa translúcida honestidade onde ao sair do estabelecimento não trocariam contatos, talvez nunca mais se encontrariam, mas eram gratos um ao outro por simplesmente terem compartilhado aquele instante.
"Um abraço" dito e João seguiu com as compras e sua alegre filha, saltitante da altura de seus quatro anos de idade, em meio às filas de carros que se espremiam pelo estacionamento naquele agitado fim de semana em sua cidade.
Atravessando a última rua do local, um carro virou com certa velocidade, todavia em hábil tempo para que pedestre e motorista se olhassem e se reconhecessem. Poucos minutos atrás, haviam sido amigos. Tempo também para que ambos pudesses escolher, o primeiro recuar um passo, o segundo parar e dar passagem à pequena família.
Neste instante, que pareceu durar o eterno tempo de todas as conjecturas possíveis João refletiu. Fosse um mundo ideal, sua preferência seria incontestável. Porém, sabia há tempos que vivia em um lugar dramaticamente distante deste mundo e jamais arriscaria sua vida - muito menos a de seu maior tesouro! - esperando o bom senso no semelhante, tão escasso pelas ruas como a água nos reservatórios de sua cidade.
Recuou, no mesmo instante em que o adversário acelerou. Se espantou de ser "no mesmo instante", pois o motorista contou que ele não confiaria na bondade alheia e retrocederia. Do contrário...
Do caso contrário João não queria pensar. Apertou a mão de sua pequenina com o mesmo aperto que sentia em seu coração; pelo risco que ela sofreu. Pela tristeza em saber que sua amada filha não vivia em um mundo ideal.
domingo, 1 de março de 2015
A Pedagogia do Horror (parte II): a inadequação dos contos de fadas na Educação Infantil (por Fernando Martins)
No dia 10 de fevereiro de 2015, o Canal Brasil, de TV por assinatura, veiculou o programa “No Divã do Dr. Kurtzman”, em que foi entrevistado o cantor, músico e compositor brasileiro Zeca Baleiro. O músico contou que, quando criança, ouvia histórias do folclore regional em que os ciganos figuravam como sequestradores de crianças. Um dia, foi a uma festa com um amigo que resolveu pregar-lhe uma peça. Combinou com um cigano, que atendia em uma das barracas do evento, que ao passar próximo da barraca apontaria para o cigano e diria ao menino: “O cigano irá te pegar!”. A ignorância ou a crueldade da ação não parou por aqui. O cigano, incorporando o personagem da trama, corre atrás do menino dizendo que iria pegá-lo. Resultado: o menino Zeca Baleiro corre desesperadamente, sem parar, até a sua casa e se refugia debaixo de sua cama. O músico finaliza seu testemunho dizendo que aquele episódio ficou marcado em sua mente como uma espécie de trauma. Certamente poderíamos coletar diversos outros testemunhos semelhantes ao de Zeca Baleiro, em que crianças são vítimas destas histórias.
O importante a ser observado é o fato de que histórias como estas continuam a ser transmitidas não somente na cultura popular, mas nos ambientes formais de Educação Infantil, ou seja, nas escolas públicas e privadas de nosso país. Estas histórias possuem o mesmo eixo central do enredo dos contos de fadas.
Se estas histórias, como os contos de fadas, fossem contadas na Idade Média europeia, não seria muito difícil entender a razão pela qual elas eram contadas às crianças, uma vez que estas narrativas representavam exatamente o mundo tenebroso daquele espaço e tempo histórico, conforme já nos descreveu o historiador Robert Darnton.
O mais espantoso é saber que no Brasil do século XXI, estas histórias sejam ministradas como conteúdo de sala de aula para crianças na Educação Infantil. Parece não haver, por parte dos educadores, pesquisadores e dos responsáveis pela elaboração dos documentos regulatórios da política educacional promovida pelo Ministério da Educação, nenhuma discussão séria e aprofundada sobre a adequação ou inadequação destes conteúdos para nossas crianças. Parece que os educadores de um modo geral ficam anestesiados diante destas narrativas e não conseguem perceber o quanto de crueldade, de medo, de terror e de horror estas narrativas podem incutir nas crianças. Ou será que devemos desprezar e desconsiderar os diversos testemunhos existentes de crianças, de pais, de adultos, como o testemunho de Zeca Baleiro, que clamam em alta voz sobre os malefícios destas histórias na psique das crianças?
Se analisarmos os estereótipos dos personagens que são recorrentemente encontrados nos contos de fadas, chegaremos a conclusão de que a bruxa é a personagem mais terrível e mais temível dos contos de fadas. A bruxa frequentemente exerce o papel de sequestradora e devoradora de crianças, assim como os personagens das narrativas sobre os ciganos. A pesquisadora de literatura folclórica da Universidade de Harvard, Maria Tatar, em seu livro “The Hard Facts of the Grimm’s Fairy Tales”, alerta que, para muitos adultos, ler as edições originais dos contos dos irmãos Grimm pode ser uma experiência reveladora diante das descrições de assassinatos, mutilações, canibalismo, infanticídio e incesto que preenchem as páginas destas “bed time stories”. Eu ainda acrescentaria que não somente nas edições originais dos irmãos Grimm encontramos essas terríveis descrições, mas encontramo-las em várias edições utilizadas pelas escolas de educação infantil.
Diante destes fatos, cabem algumas perguntas:
Até quando nós (pais, educadores, pedagogos, pesquisadores da área de educação) aceitaremos estas narrativas que amedrontam e apavoram as crianças, como se fossem um conteúdo útil e benéfico?
Até quando nos manteremos anestesiados diante de narrativas que promovem o medo e o terror em pequeninos seres humanos que mal ainda conseguem se alimentar por si próprios?
Até quando nossa incapacidade de reflexão nos manterá como perpetuadores de um discurso obsoleto, anacrônico e totalmente deslocado de nosso tempo e contexto histórico?
Até quando reproduziremos nas salas de aula o ensino dos vícios e do medo, em vez de ensinarmos as virtudes?
É urgente que todos os atores (pais, pedagogos, pesquisadores e educadores em geral) deste importante e nobre processo que se chama Educação Infantil sejam mais ativos e mais participativos. A passividade é a posição mais cômoda, mas ela é incapaz de melhorar o nosso mundo. É urgente que os conteúdos de literatura para crianças sejam revistos e atualizados e que se proponham soluções pedagógicas atuais. Os contos de fadas e narrativas semelhantes não representam estas soluções. O tempo da ministração da literatura é um tempo rico e valioso na Educação Infantil para ser desperdiçado com conteúdos inadequados como são os contos de fadas. Existe uma miríade de novas e boas propostas de literatura infantil. Resta aos educadores o trabalho de selecioná-las com critérios bem definidos e fundamentados, levando em conta que a criança é um ser em desenvolvimento e que necessita de orientação e informação adequadas para se tornar um adulto emocionalmente equilibrado e cognitivamente bem formado. Educar é criar as condições para que este pequeno ser em desenvolvimento se torne um adulto capaz de gerenciar a própria vida e capaz de transformar o nosso mundo em um mundo melhor. Para que logremos êxito nesta nobre missão, precisamos constantemente questionar os discursos vigentes, a fim de identificarmos suas inadequações e propormos sua superação.
* O autor é bacharel em Letras pelo Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (USP) e mestre pelo programa de Filologia e Língua Portuguesa da USP.
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Tudo pelo social
Sem dúvida, numa grande nação o social é o mais importante. O bem estar do fator humano deve estar à frente de outros interesses, mas o populismo e atitudes simplistas fazem parecer que o melhor meio de melhorar o social é apenas o atingindo diretamente, fechando os olhos para tudo o que há em volta.
Focar a melhora de uma nação meramente olhando somente para esta área funciona como estar em um carro na direção de um abismo, onde o objetivo é alcançar o outro lado, simplesmente acelerando o veículo e não pensando em construir uma ponte.
E aqui falo o que pode soar um paradoxo para 51% de nosso país: melhorar o social é melhorar a economia e incentivar empreendedores que gerarão empregos.
É sabido: muito melhor para um brasileiro ganhar 700 reais por mês, se sentindo útil trabalhando, do que ganhar 350 de uma bolsa sem nada produzir. Isto é claro como água e qualquer cidadão de bem concorda. Agora, pensar que aumentar o número de beneficiários não é uma roleta russa é devaneio.
A economia indo mal, mais desemprego, mais Bolsa Família. E dois e dois não são quatro? A conta não fechará, pois menos produzirão para mais receber.
Não precisamos inventar a roda a cada geração, cresçamos com os exemplos e aprendizados. A Venezuela focou em atitudes extremamente populistas, xingou os Estados Unidos publicamente, esqueceu o termo "economia global", se fechou e criou bolsas de todos os tipos. As empresas fecharam e o número de beneficiários para as bolsas aumentou drasticamente. Hoje, num ambiente em que o petróleo (sua principal fonte de renda) se desvalorizou está vivendo uma crise interna terrível. Não há produtos básicos e o cidadão que quer comprar um papel higiênico, por exemplo, tem que registrar seu CPF para não comprar mais que um produto e deixar o outro sem. Há alguma dúvida de que estão à beira de um caos social?
Espero de todo o coração que possamos alterar nosso caminho, pois o carro está cada vez mais acelerado. E não estamos vendo nenhum material para construir ponte alguma perto do buraco.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Roberto Carlos e suas emoções...
Ganhou o ingresso e com prazer se dirigiu ao show com sua esposa. Para a grata surpresa dos dois, seu amigo havia lhe dado o melhor lugar: a primeira mesa da primeira fila!
- Amor, meu joelho está encostando no palco onde o Roberto irá cantar! - ela brincou eufórica.
O espetáculo passou rápido. Mesmo para quem não é fã do grande Roberto Carlos não há como negar o poder e carisma que aquele homem tem. Inebriado naquele clima já se imaginava agarrando uma das rosas que, conhecidamente, o rei lançava aos fãs no fim de cada apresentação. "Será meu troféu!", pensou.
Chegou a hora. Começou a música "Jesus Cristo", sempre a saideira. Algo estranho começou a acontecer. Sentiu como se o chão se movesse. Eram senhoras que se arrastavam entre as mesas, vindo das profundezas da plateia e se esgueiravam entre as primeiras filas, como veteranas de guerra que rememoravam os antigos embates nas trincheiras.
Sua mesa começou a se mover. Se preocupou, nem tanto pela sua saúde, mas pelos planos de pegar uma rosa do Roberto.
"Jeeeeeesus Cristo eu estou aqui!" cantava o rei, indicando o fim do show e "Bum!" as senhorinhas se levantaram como que combinadas, quase virando as mesas em frente ao palco, transformando ali como uma pista dos shows de rock que já tinha cansado de ir.
Obrigado a se levantar começou a sentir encontrões de senhoras troncudas que se acotovelavam em busca do melhor lugar para avançar sobre as esperadas rosas que seriam lançadas. Conseguir uma das flores virou questão de honra!
Pensou em dar o troco na mesma moeda, mas mal podia acertar aquele exército de tiazinhas que mais pareciam uma tropa de butijõezinhos lhe atacando. Teria gargalhado com a situação, mas tinha que manter o foco e cuidar de sua vida ao mesmo tempo.
Um rodie se aproximou de Roberto Carlos com um buquê enorme e deu uma a ele. As senhorinhas foram ao delírio. Ele aproximou-a de seus lábios, sem a beijar e a lançou. Se sentiu dentro da carga de um caminhão da Liquigaz passando pelas ruas de Carapicuíba.
Em segundos Roberto ia pegando uma rosa atrás da outra, fazendo um movimento como se beijasse, mais para uma benzida, e a atirando para suas fãs ensandecidas. Tentou, tentou, tentou... Não conseguiu agarrar nenhuma.
Na saída comentou com sua esposa:
- Inacreditável! Já peguei palheta no show do Metállica e do Pantera. Mas uma rosa no do Robertão é tarefa impossível!
Olhou para o lado, havia uma banca com "rosas do Roberto Carlos". Em sua frustração pensou em comprar uma. Mas a semelhança a uma peixaria ao lado de um rio no Pantanal o fez mudar de ideia. Além do mais, dez reais por uma rosa, que nem vinha direto das mãos do rei...
Deu a partida no carro, apesar de tudo feliz, pensado: "se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi...".