sexta-feira, 18 de junho de 2010

Darwin

Hoje vejo com todo sentido do mundo - e beleza - a teoria da evolução das espécies, de Darwin. Não é apenas sobre fatos complicados durante os milênios, ou pensamentos complexos sobre DNA e mutações. Alguns fatos são explicados com uma simplicidade tal, que nos faz sorrir ao entendê-los, como uma criança que tem sua curiosidade saciada em torno dos 5 ou 7 anos.
Muitos casos hoje se explicam como uma simples história: imagine uma tribo onde só existam homens enormes, com mais de 2 metros de altura. Pode-se entender que naquela região, os homens que eram mais altos tinham mais facilidade em colher alimentos que ali só davam em árvores mais altas. Isso, por si só, não extinguiria os mais baixinhos, mas eles teriam mais dificuldades. As próprias mulheres da tribo, poderiam se sentir mais seguras ao lado de homens que dariam mais proteção e facilidade em conseguir alimentos. Com isso os grandalhões teriam mais facilidades em conseguir uma parceira e assim transmitiriam muito mais os seus genes do que os pobres baixinhos solitários. Simples assim.
Alguns animais, geralmente, possuem cores fortes e berrantes para manter seus predadores distantes. É uma forma de dizer "olha, sou um bicho venenoso", recado entendido por outros animais. É o caso de rãs venenosas, taturanas e a cobra coral. A coral verdadeira possui cores fortes e é muito venenosa. Ela avisa que é perigosa - com suas cores -, e é! A cobra coral falsa é uma evolução da verdadeira. Possui cores ainda mais berrantes e chamativas e, com isso, espanta mais ainda seus possíveis predadores, como se fosse ainda mais venenosa. Como é muito menos incomodada, não precisava de seu veneno, que com o tempo foi sumindo, sua glândula atrofiou. Hoje ela não é venenosa. Não precisa ser perigosa, apenas avisa com mais veemência que é. Isso que é marketing bem feito!
O ser humano, com seu cérebro altamente desenvolvido (como diz o documentário "Ilha das Flores") desenvolveu até artimanhas para se manter longe de encrencas. Quantos não são esses bichos bem coloridos, que, sem pensar, já sentimos nojo, repulsa? Esse nojo, o cérebro usa para nos afastar de futuros problemas.
O mais impressionante é que, em nosso casos, além da evolução natural, nosso cérebro ainda pensa e trabalha incessantemente para nos preservar a cada dia mais.
O curioso é que ele precisa aprender a se defender de outros cérebros perigosos. E assim a evolução segue seu curso.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Patriotismo

Hoje foi jogo da seleção. Antes do início da partida, vi uma comoção na rua em torno de nosso país, como vemos poucas vezes. Em toda minha vida, conto nos dedos as vezes que vi uma população estar ligada em torno de algo em comum. A morte e enterro de Senna foi uma, outras copas outra. Porém, são raras as situações.
Como um brasileiro que ama o seu país, torço para que isso possa ocorrer muitas e muitas vezes. Se o patriotismo fosse algo sempre presente na vida dos brasileiros, talvez estivéssemos próximos de um grande desenvolvimento. Se políticos fossem patriotas, torcessem de verdade para seu país, não numa baboseira (que infelizmente, ou felizmente, eu adoro!) que é o futebol, mas para o seu sucesso e desenvolvimento, não haveria corrupção desenfreada, e sobraria dinheiro para se investir em educação, ou saúde, enfim, para o bem de nossa população.
Torçamos então por nossa seleção, pelo hexacampeonato, para que esse clima de patriotismo entre na alma de cada brasileiro, principalmente dos que regem nossas leis e nos dirigem.
Amém.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A notícia (por Carlos Fonseca)

Por vezes na vida passamos por momentos de surpresa e admiração. Durante as semanas que estive participando da campanha do câncer bucal pude ter a grata sensação de interagir com centenas de idosos, classificados como todo e qualquer cidadão acima de 60 anos de idade.
Pude perceber, durante aquele longo dia de sábado trabalhado, e após analisar 137 pacientes, o que significa ter completado 60, 70 ou até 80 aniversários; todos aqueles pacientes, respeitando as particularidades, trazem algo em comum, que se traduz numa palavra: velocidade. Parece brincadeira e até sarcasmo, mas esta foi a minha sensação. Toda a hiperatividade de uma criança, ou de um adolescente, se resume a uma maneira lenta de encarar a vida; talvez um artifício para que possam ver e interpretar cada acontecimento com mais precisão, afinal muitos deles me surpreenderam com a lucidez e a rapidez de raciocínio, principalmente em suas histórias.
Um deles era o seu Chico, senhor de 81 anos, pele queimada do sol, mãos calejadas do trabalho, camisa desabotoada e um sorriso contagiante, por parte desdentado, mas sincero e amigo. Entrou acompanhado de seu genro, pois parecia ter dificuldade em se comunicar, e logo dei início a uma série de perguntas para analisar e investigar eventuais anormalidades no paciente.
- O Sr. Chico tem alguma lesão na boca de que esteja reclamando? – perguntei.
- Ele tem um “caroço” na língua, nem consegue mais colocar a dentadura. – explicou o genro.
Observei curioso a língua do paciente e logo percebi o tamanho do problema. E quando digo tamanho, também me refiro ao tamanho da lesão e certamente a gravidade do caso.
- Quantos anos o Sr. fumou seu Chico? – perguntei.
Com dificuldade me fez entender que fumou durante 40 anos, e a pelo menos 20 não colocava um cigarro na boca. Pois bem, seu Chico foi submetido a uma biópsia para verificarmos do que se tratava aquele estranho crescimento em sua língua, e uma semana depois constatou-se o que eu de fato já imaginava: câncer de boca.
Talvez este seja o momento mais difícil para um profissional da saúde, comunicar aos familiares e ao paciente de que é portador de uma doença grave, de prognóstico duvidoso, e convencê-los da necessidade de seguir restritamente a todo tratamento e acreditar numa, muitas vezes duvidosa, melhora ou até cura.
Observando casos como este me faz cada vez mais levantar questionamentos com relação ao cigarro. Não vou ser moralista, já fui adolescente e entendo as aventuras, abusos e imprudências que cometemos; talvez aquela pequena mente cheia de dúvidas e inexperiência não consiga avaliar e quantificar o problema de se aventurar num vício tão perigoso.
Naquele instante, junto a todos os familiares fui breve, e pude ver nos olhos do seu Chico seu olhar adolescente, e talvez o imenso arrependimento logo que lhe dei a temida notícia.

Carlos Fonseca é dentista, tem 26 anos

sábado, 12 de junho de 2010

"Com muita humildade"

Já comentei em outros textos que a virtude que mais admiro é a humildade. Ela é tão perfeita, que não precisa ser divulgada, muito pelo contrário. Quando é anunciada, geralmente é simulada.
Hoje, vi na TV uma entrevista do jogador brasileiro, se não me engano, Felipe Melo. Considerado bruto e, em muitos casos, violento, ele admitiu:
- Com humildade, eu reconheço que entro duro em muitos casos, mas pretendo melhorar...
Foi um comentário quase perfeito. O problema é que, quando se se trata de humildade, o não perfeito é igual a um erro grosseiro. A pessoa que realmente é humilde nunca fala isso. Se admitir humilde é um sofisma e mesmo que fosse uma verdade, a afirmação desmentiria e transformaria o outrora humilde em egocêntrico.
A pessoa que realmente é humilde, de forma alguma, admitiria isso. Se envergonharia de ser elogiada.
O jogador brasileiro mostrou uma grandeza de espírito em admitir um erro, para o mundo inteiro. Se não tivesse se intitulado "muito humilde", com certeza todos nós o intitularíamos.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A cidade grande

Quando saímos a trabalho pelo sertão do Brasil, costumamos ficar, na maioria das vezes, mais de vinte dias fora de casa. Quase um mês convivendo em pequenas comunidades, com suas belas culturas, fazendo amizades, aprendendo com a sabedoria sertaneja, nos divertindo com as crianças, enfim, tirando completamente nossa cabeça daquela correria que estamos acostumados em nosso dia-a-dia.
O trabalho é feito em escolas, que recebem a população local, em peso. O som das crianças brincando - fato corriqueiro a cada dia de projeto - é música para nossos ouvidos. Quer coisa mais alegre do que risadas, gritos de pega-pega e brincadeiras?
Por essas e outras, a volta para a cidade grande é sempre um baque. Levamos alguns dias até nos adaptarmos à dura realidade. Cruzar com uma pessoa na rua e não olhar em seus olhos e perguntar "tudo bem?". No sertão todos te cumprimentam, mesmo quando não se conhecem, há uma educação generalizada, faz parte da cultura. Em São Paulo se eu andar na rua e cumprimentar uma pessoa podem ocorrer duas coisas: 1 - se for um homem pensará: "esse é veado!". 2 - Se for uma mulher: "xavequeiro!".
Outra coisa que sentimos falta é a alegria das crianças. Minha infância, apesar de ter sido em São paulo, ainda foi em rua de terra, jogando bola com golzinhos de pedra e brincando com um monte de amigos. Bem parecido com as pequenas cidades que visitamos. Porém, hoje em dia, as crianças estão mais estáticas em frente ao vídeo-game, TV e computador; a violência e os carros já não permitem tanta liberdade.
Luis Salvatore sempre disse que sua rua é muito fria, apesar de ter pouco movimento de carros e até ser consideravelmente arborizada, é um silêncio total. Lugar daqueles em que as crianças, provavelmente, ficam na frente das TVs. Um dia ele ouviu, vindo da rua, aquele som que estamos acostumados a ouvir nas escolas: crianças brincando de pega-pega. Eram risadas, umas chamando as outras, se divertiam. Ele se impressionou, "será possível nesta rua?", pensou. Foi para a janela feliz e, realmente, eram crianças de rua, que brincavam. Quase fechou os olhos e ficou curtindo.
De repente, algo monstruoso o tirou de seu "transe". Sua vizinha abriu a janela e gritou, com todo o ar que pode retirar de seus pulmões:
- Calem a boca!!! Que barulheira é essa, molecada!!! Vão embora!!! Chega!!! - berrava numa altura, e de um jeito, que mostrava seu total descontrole.
Como por um susto as crianças ficaram em silêncio e foram embora. E Luis nunca mais ouviu um dos sons que mais gosta, em frente sua casa.

Saudade

Domingo fui ao aeroporto receber a Ju, minha esposa, que voltava de uma viagem internacional à trabalho. O saguão de chegada de vôos internacionais é, disparado, o local que mais transborda emoção de um aeroporto. Isso porque quem viaja ao exterior, geralmente, fica fora por mais tempo. Além disso, ao cruzar a fronteira, a saudade sempre é mais inquietante, dolorosa, enfim, pleonasticamente saudosa! Mais até do que viagens mais longas em territórios nacionais.
Enquanto aguardava, observava as pessoas que, como eu, esperavam um ente querido. Famílias, amigos, pessoas de todas as idades, conversavam e olhavam ansiosas para a porta automática que, minuto a minuto, se abria, liberando a passagem de algum viajante empurrando seu carrinho repleto de malas.
A porta se abre: Aparece um rapaz, de seus 18 anos, vestido com um "chamativo" casaco verde amarelo, usado pelos brasileiros que sentem orgulho em mostrar as cores de sua pátria no exterior. Ao meu lado uma mãe dá dois pulos e acena com ambos os braços. "Alex! Alex!", chama e corre em direção ao, agora, sorridente garoto, junto a uma irmãzinha mais nova. Os três se abraçam, emocionados.
A porta se abre: Sai por ela um homem de seus 30 anos, olhar de quem procurava alguém entre tantas pessoas. "Fêeeeee!!", diz uma mulher que corre em sua direção junto a uma linda menininha que grita "tiiiiiiiiiiioooooooo!!!". E os três se encontram num abraço bem apertado. Essa cena, particularmente, me deixou mais tocado. Pelo fato de eu ser um tio coruja de três sobrinhos, facilmente estava colocado no meio daquele abraço.
E outros sorrisos se seguiram, abraços, beijos. Pessoas que saíam juntas, conversando sobre a viagem e novidades. Tudo isso fazia do saguão um lugar leve e feliz, mesmo estando em um frio aeroporto e abarrotado de gente. A alegria envolvia tudo isso.
De repente a porta se abriu e eu tive que parar de observar as emoções em volta. Era hora de matar a minha saudade.

sábado, 5 de junho de 2010

Bandeirinhas

Essa semana, chegando ao trabalho, vi uma cena que me trouxe um cheiro de infância. Como meu consultório fica em um bairro mais distante do centro, as ruas ainda tem aquelas gostosas características de cidade pequena de interior, apesar de ter seus comércios e mercadinhos pululando cada dia mais.
Dirigia o carro para mais um dia de trabalho e quando virei em minha rua, ela estava repleta de bandeirinhas do Brasil, que cruzavam a cruzavam de um poste a outro, balançando suas cores verde-amarelas sob o céu azul. Em frente às casas e lojas, dançavam uma infinidade de tiras de plástico com as cores de nossa seleção. O asfalto, que quase sempre me chamava a atenção apenas por seus buracos, agora estava pintado com a bonita bandeira do país.
Ah, a época de Copa do Mundo. Me desculpem aos que não gostam de futebol, que pregam contra o "ópio do povo" e tudo mais. Também não me sinto confortável quando sei que políticos, acusações e escândalos são suprimidos pela notícia de que o artilheiro francês está com diarréia, mas o campeonato mundial é inexplicável. O frio na barriga sentido em dia de jogo, a emoção da partida, alegria triunfal ou decepção avassaladora após os 45 minutos do segundo tempo... Confesso que me sinto emocionado até em um jogo da Inglaterra contra a Turquia.
E sinto tudo isso desde criança, aliás, desde que me lembro de assistir a uma Copa do Mundo, em 1986. Não sei se é algo passado de pai para filho, ou se os exemplos nos jogam nesse devaneio. Não sei. E pra quê saber? Naquela copa e na seguinte o Brasil não foi longe e mesmo assim eu me paralisava só de ouvir a música que a TV fez para a competição.
Por tudo isso, tive essa agradável sensação de nostalgia ao ver a rua toda enfeitada, como em minha infância e como fazia tempo que não via.
Esse sabor é um dos melhores que temos. Aproveito esse mês para relembrar, completamente saudosista. O Brasil ganhe ou não, o que importa é que já estou feliz.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Bolsa Família

A coisa que mais gosto no trabalho que o Instituto Brasil Solidário faz, é que está muito longe, mas muito mesmo, de ser assistencialista. Pra falar a verdade, dizer que o IBS faz um trabalho social no interior do Brasil, até, em definições atuais, seria uma visão equivocada. Podemos dizer que é feito um PDS (programa de desenvolvimento sustentável). A coisa mais difícil é o trabalho levar cestas básicas, só não digo impossível porque em poucas vezes há alguma doação de uma empresa ou piloto de rally e, já que estão nas mãos, as cestas são levadas e geralmente entregues em escolas, para evitar qualquer tipo de confusão.
Digo isso, pois outro dia li sobre o Programa Bolsa Família do governo. Me espanta pessoas o elogiarem ou dizer que é preciso. Não sou nenhum conhecedor da vida e do sertão brasileiro, mas fui para lá algumas vezes e posso dizer o que eu vejo. Independente de haverem cidades extremamente pobres ou de difícil aesso, essa história de fome e seca, não é exata como é pintada. Há fome? Há seca? Sim, longe de eu dizer o contrário. Mas são fatos, muitas vezes, pontuais, assim como há uma fome, milhares de vezes, e repito: milhares de vezes!, mais mesquinha em São Paulo ou no Rio de Janeiro, onde ela é acompanhada por miséria e pessoas procuram seus alimentos no lixão.
No sertão não há miseráveis como os há em grandes centros brasileiros. É uma gente humilde em grande parte sim, mas feliz e trabalhadora. Mesmo sem emprego geralmente buscam uma terrinha para plantar. A velha indústria da seca está viva como nunca. Ela e a fome exalam dos discursos políticos em vésperas de eleição e, ainda hoje, elegem presidentes.
O Bolsa Família é um programa extritamente assistencialista. Apesar de, à primeira vista, parecer algo positivo (uma renda aos desempregados e pobres), é uma chaga na pela brasileira.
Luiz Gonzaga cantava, na época de Juscelino Kubitschek, uma música que clamava contra o sentimento de pena e doações que os nordestinos recebiam após uma grande seca que prejudicou suas plantações. Dizia em uma parte: "E doutor, uma esmola a um homem que é são ou lhe mata de vergonha, ou vicia o cidadão". O Bolsa Família é exatamente isso, UMA ESMOLA. Dita assim, em letras maiúsculas. Com a diferença que hoje, em muitos casos, a letra da musica poderia ser mudada para "deixa o homem sem-vergonha e vicia o cidadão". Claro que também não sou obtuso a ponto de dizer que é sempre assim, longe disso, há pessoas que realmente são necessitadas e levam suas vidas com essa "mesada". Assim como eu posso chegar sobre o viaduto do chá e jogar lá embaixo um monte de notas de cem reais. Uma ou outra, acertará em cheio a mão de um necessitado que realmente necessite muito, mas em troca de quantas notas caídas em vão? Ouvimos muitos comerciantes locais e fazendeiros dizerem que não conseguem registrar seus trabalhadores, pois ninguém quer perder o Bolsa Família. Ouvimos outras histórias de pessoas que se acomodam e nunca mais querem saber de trabalhar, muitas vezes usando o seu ganho para a bebida. Outra mazela é o fato deste programa dar uma quantia a mais para o número de filhos que uma pessoa tem. O rsultado?: aumento populacional.
Enfim, muitos podem achá-lo necessário, mas a roda do progresso, empurrada pelo futuro, mostrará, lá na frente, que gastamos um dinheiro enorme com algo que não serviu para mais nada além de dar votos. Uma "dinheirama" que, aplicada na estrutura de regiões necessitadas, poderia dar um ótimo resultado em pouco tempo.
Assistencialismo não resolve o problema. É como enxugar uma sala com a torneira aberta. Não é muito mais fácil ir direto à causa do problema? Deve-se apenas dar dois passos a mais e fechá-la com a mão.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Histórias d(n)o Lixo: O mendigo (por Valter Lima / Wolber Campos)

Na Central de Triagem do Lixo, era mais uma normal manhã, e os trabalhadores seguiam separando o material reciclável dos orgânicos. Até que ouviram alguns resmungos entre os sacos que caíam na esteira. Preocupado, o primeiro homem apertou o botão que cessava o movimento e uma cena bizarra surgiu diante de seus olhos: uma forma humana se levantava em meio a trapos, papéis e todo o lixo, gemendo.
- Ei... O que vocês estão fazendo comigo? - perguntou, sem ao menos saber onde estava ou para quem estava perguntando.
"Meu Deus, quem será que jogou um mendigo no lixo?", pensou um dos trabalhadores. Apesar da cena assustadora, a turma não sabia se ria ou se se espantava. Acabaram rindo.
Com algumas informações do pobre homem, Valter decifrou o mistério.

Numa rua de São Paulo, o mendigo andava trôpego. Havia tomado algumas cachaças para espantar o frio - e pra ficar "doidão" mesmo. Já não mais aguentaria andar em breve, o sono deixava seus olhos praticamente fechados. Viu na esquina um daqueles enormes conteiners de lixo e pensou: "deve estar quentinho la dentro". O ultimo esforço que conseguiu fazer foi subir em uma caixa, que estava ao lado, e se jogar tampa à dentro. Fechou-a e desejou para si mesmo: "Boa noite".
Algumas horas depois, se aproximou um caminhão de lixo gaiola - aqueles que esvaziam os conteiners pela cidade. Numa discussão acalorada sobre o futebol do fim de semana, o motorista e o ajudante desceram. O primeiro, automaticamente, engatou as hastes do caminhão na enorme caixa de lata, checou se a tampa estava liberada e pressionou o botão no caminhão que iniciava a subida do lixo. Distraído se esqueceu de olhar no interior do conteiner e o lixo - e, diga-se de passagem, o mendigo - foi jogado dentro da gaiola, no alto do caminhão.

Na área de triagem os homens ainda se divertiam com a história. Valter ligou em seguida para a assistência social da prefeitura que levou o homem embora.
Realmente, no lixo a gente encontra cada coisa...

segunda-feira, 31 de maio de 2010

"Homem de Deus!"

Severino era caminhoneiro de uma grande empresa. Pernambucano "arretado", metido a machão, não perdia oportunidade de contar aos colegas suas inúmeras histórias de coragem e "brabeza".
Era conhecido por sua constante introdução aos assuntos: "Homem de Deus, você precisa ver..." e falava sobre o que faria na situação de algum injustiçado. Seria uma pancadaria só!
Como motorista profissional, ficava muito estressado no trânsito. Era comentário geral dos ajudantes que viajavam ao seu lado, seus xingamentos e ameaças, mas sempre dentro da própria cabine, sem que alguém o escutasse.
Certo dia, Severino parou no farol vermelho e um carro, acelerando, passou ao seu lado tentando "furar" o semáforo. O cabra macho não pensou duas vezes, para apreensão do ajudante que ia ao seu lado, colocou a cabeça para fora e gritou:
- Filho da puuuuuuuuuuuuta!!
O carro parou automaticamente. Acendeu a luz de ré e voltou, bem ao lado de severino. A porta se abriu, desceu um homem muito alto, desses "bombados" por excesso de academia, apontou o dedo para o motorista que permanecia impassível, fitando o interlocutor.
- O que você falou???? - disse quase gritando e com cara raivosa.
"Ai meu Deus, agora o Severino pega a peixeira e seja lá o que Deus quiser!", pensou o ajudante.
Ele calmamente soltou:
- Homem de Deus, eu falei: "olha o farol"... - disse baixinho, quase com ternura.
Severino virou piada na empresa, dizem que saiu dias depois por não aguentar a zombaria sobre sua recente história.
Hoje ninguém sabe seu paradeiro, mas todos imaginam que seus contos de "brabeza" devem ter minguado.

sábado, 29 de maio de 2010

A outra educação

Sempre que posso repito em textos o que acredito: que o segredo de toda melhora e desenvolvimento do Brasil está na educação. Posso dizer que em ambas, se é que realmente existe mais do que uma.
Digo isso porque ontem à noite vi um exemplo recorrente da outra educação, não aquela que depende de escolas, professores capacitados, incentivo do estado. Não, um problema que cabe mais à educação dada em casa e até mesmo à índole da pessoa.
Mas retorno à noite de ontem - antes que comece a "viajar" e esqueça o simples fato ocorrido - onde andava pela calçada, próximo de casa, perto das 9 horas da noite. Um cidadão em seu carro, parado no farol, deu uma última mordida num lanche e jogou todo o resto pela janela, na rua. Fui "bonzinho" agora, dizendo que era um resto. Na verdade se tratava de um grande pedaço de pão com "sei lá o quê", uma salsicha talvez. Pouco importa, logo se tornava um amontoado de comida no chão.
Ainda agora me pergunto: O que faz uma pessoa, simplesmente, jogar um lixo assim no chão, em frente a todos? E não é uma falta de educação que escolhe classe social. Vejo com frequência carros novos - e caros! - abrindo seus vidros e atirando para fora latas de refrigerante, papéis de bala e uma infinidade de objetos.
Em Minas Gerais conheci o dono de uma pousada, uma figura, andou por vários países de mochila mesmo. Conta a história de quando passeava pelas ruas de Toronto, no Canadá. Comprou um chocolate e andava observando as fachadas da cidade e, sem perceber, jogou o papel no chão.
- Moço, um cara fortão veio por trás e me deu um tapa no pescoço. Tão forte que eu sinto até hoje! - disse passando a mão na nuca.
E já fazia muitos anos. O homem apontou o papel no chão e disse algo que ele não entendeu, mas o significado saberia qual era, mesmo se fosse dito em coreano. Algo como "pega e jogo no lixo seu porco!!!".
- Depois desse dia eu nunca mais joguei um papelzinho de bala, que seja, na rua. Guardo no bolso e jogo no lixo de casa.
Lembrando da cena de ontem, acho que um cara mais esquentado - e muito mais forte... - poderia fazer a diferença na vida de um motorista "porco".

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Uma "vezinha" só

Era uma segunda comum, em uma cidade do interior do Maranhão. Havíamos feito amigos ali, que se juntaram à nossa rodinha de violão. Música vai, música vem, papo vai, papo vem e a fome também veio. Olhamos em volta - estávamos numa praça - e não havia um barzinho aberto.
- Tem só o posto lá em cima, mas é uma boa andada até lá. - nos disse um amigo local.
Como a fome era grande - e não estávamos com pressa - fomos para o único posto aberto na cidade. Se não fosse o único que havia ali. Seguimos andando e conversando e os dois quilômetros passaram rápido.
Chegando no local, uma cena nos chamou a atenção (pelo menos para nós, que éramos de fora): um segurança com uma grande arma (imagino que era uma 12, entendo pouco de armas) nas mãos, andando de um lado para o outro, olhar atento. Nos fitou e deve ter imaginado que não tínhamos cara de marginais. Pelo menos eu esperava por isso...
Entrei com os amigos e o Luis ficou conversando com nosso "Rambo sertanejo". Ele disse que o posto já havia sido assaltado inúmeras vezes, então o dono o contratou para "vigiar e mandar bala no vagabundo que se engraçasse por ali de novo".
Enquanto contava a história, o vigia, mostrava a arma e fazia pose de macho.
- Mas e aí, já deu alguns tirinhos com a arma? - perguntou curioso o Luis.
Ele balançou a cabeça e respondeu humildemente:
- Já. Mas acertar mesmo foi só uma vezinha...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Crônicas de um brasileiro, ex-soldado americano: O salto noturno (por Euller Fernandes / Wolber Campos)

Euller havia entrado "de cabeça" no exército americano. Realmente, o treino era forçado ao extremo, tanto fisicamente como psicologicamente. Várias vezes ouvia seus superiores falarem que "nenhum treinamento conseguiria reproduzir o terror de balas zunindo próximas ao seu ouvido, ou companheiros caindo feridos ao seu lado num campo de batalha".
Seu próximo exercício levaria isso ao extremo. "Se não chega próximo ao campo de batalha deve chegar bem perto", pensou.
Já havia saltado algumas vezes de paraquedas e, apesar de morrer de medo a cada novo salto, já sabia o que esperar. Mas o próximo pulo seria um desafio perigoso. Estavam sobrevoando o canal do Panamá, de madrugada, e o salto noturno deveria ocorrer em um mar infestado de tubarões. O risco seria menor se acertassem o alvo: um círculo formado por alguns navios norte-americanos, onde soldados estavam com suas armas apontadas para as águas, iluminada por holofotes, atirando ao primeiro sinal de tubarões. Se caíssem fora do círculo, londe da iluminação... Que Deus os protegessem.
"Espero que os pulos anteriores tenham servido para alguma coisa", pensou. Afinal de contas, pular de centenas de metros sobre o oceano escuro, com vento e guiar um paraquedas até um pequeno círculo num mar com tubarões não era das missões mais simples.
Como das outras vezes, "Blam!!", a porta se abriu e o conhecido barulho ensurdecedor voltou aos seus ouvidos, porém desta vez, não enxergava mais nada porta à fora. Apenas um breu total!
Os primeiros foram saltando. Estava tão preocupado que esqueceu de olhar para o rosto dos companheiros e ver se estavam apavorados também. Mas é claro que estavam. Tinha certeza que dessa vez sua cueca camuflada não escaparia ilesa...
"Be prepared! Gooooooo!!", só conseguiu escutar quando estava bem ao lado do capitão. Antes de saltar ainda teve tempo de olhar o mar escuro embaixo, tão escuro que se confundia com o céu da noite negra à sua frente. Ali, muito embaixo, observava um anel minúsculo luminoso, formado pelos navios de guerra dos Estados Unidos. Se conseguisse fixar a atenção nisso, até o acharia bonito. "É lá que tenho que acertar" e saltou.
O silêncio conhecido ressurgiu, mas a preocupação em acertar o tal círculo lá embaixo não deixou que a conhecida paz o acompanhasse.
Foi caindo, vagarosamente, guiando seu paraquedas sobre os navios, que ficavam cada vez mais próximos. Ia acompanhando seus companheiros que desciam sob e sobre ele.
O coração batia cada vez mais forte, estava se aproximando dos barcos e, maravilha!, bem no centro do círculo.
Caiu de uma vez dentro d´água, afundou um pouco e se livrou das amarras do paraquedas - havia um grande risco de se emaranhar nas cordas e se afogar. Mas ali o medo dos tubarões era maior e rapidamente subiu em um barco.
Tremia de emoção ao sair da água. Sentia euforia e até vontade de chorar por ter conseguido e olhando os companheiros, sentia essa mesma emoção em cada um deles.
Não errou o alvo e não havia sido comido por tubarões. Saía do teste mais forte, sentiu vontade de ter um bandeirinha do Brasil e correr em volta do navio. Pensou "não, vai que eles me empurrassem no mar de novo...".

sábado, 22 de maio de 2010

Escravidão

É incrível pensar que há pouco tempo atrás - cento e poucos anos! - a humanidade aceitava a escravidão como algo possível. "Calma lá Wolber, até hoje ainda existe trabalho escravo em muitos lugares do próprio Brasil". Eu sei, mas digo escravidão como instituição, aceita por muitos países.
Como um homem podia comprar um semelhante, como se fosse um animal, trancafiá-lo numa senzala e forçá-lo a trabalhos duros, recebendo apenas comida em troca? No livro 1808, de Laurentino Gomes, há o relato do diplomata inglês Henry Chamberlain, que observou como era a compra de um escravo na época:
"Quando uma pessoa quer comprar um escravo, ela visita vários depósitos (...) até encontrar aquele que lhe agrada. Ao ser chamado, o escravo é apalpado em várias partes do corpo, exatamente como se faz quando se compra um boi no mercado. Ele é obrigado a andar, correr, a esticar os seus braços e pernas bruscamente, a falar, a mostrar a língua e os dentes. Essa é a forma considerada correta para avaliar a idade e julgar a saúde do escravo."
Desde criança, quando ouvia as histórias dos traficantes de escravos, pensava que se arriscavam, guerreavam na África com tribos e os aprisionavam. Imaginava que deviam ser pessoas ruins, porém deveriam ser guerreiros corajosos para conseguir esse fim.
Hoje, aprendendo um pouco mais sobre o assunto, vi que nem isso podemos elogiar nesses homens. Sua coragem se resume a atravessar o Atlântico e voltar, pois na África eles compravam os escravos já presos, na maioria das vezes por próprios africanos. Eram países praticamente tribais, que viviam em guerra entre si. Os perdedores se tornavam escravos, vendidos aos traficantes portugueses e destinados ao Brasil.
Não aceito, nesse caso, o comentário de "se colocar na época em que aconteceu o fato" e suavisar a barbárie que foi esse período obscuro de nossa história. Já naquele tempo haviam muitas pessoas contra a escravidão, abolicionistas que lutavam pelo fim daquela vergonha. Pessoas que não só estavam inseridas no tempo, mas que tentavam melhorar as condições de seu país.
Bom saber que hoje a escravidão é um mal extirpado de nosso mundo. O ser humano pode sonhar em melhorar um pouco como ser vivo à partir do momento que começa a respeitar, pelo menos um pouco mais, o seu semelhante.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Histórias d(n)o Lixo: O CD (por Valter Lima / Wolber Campos)

Eles moravam juntos há algum tempo. Já tinham brigado outras vezes, mas naquele instante tinham uma certeza: era a última vez.
Ele saiu de casa, cabeça quente, pensando em nunca mais voltar. Ela ficou em casa, cabeça mais quente ainda, querendo eliminar qualquer lembrança. Juntou tudo que dele havia em casa, ternos, tênis e sapatos, relógios, livros e até a sua amada coleção de CDs. Não queria nenhum vestígio. Colocou tudo em sacos de lixo e jogou fora.
No dia seguinte, cabeças mais tranquilas, pensaram que haviam se precipitado. Independente de qualquer problema, sabiam que se amavam e queriam viver um ao lado do outro.
Ele ligou, ela atendeu feliz e fizeram as pazes. "Estou indo até aí!".
Chegou em casa, se abraçaram e trocaram juras de amor. Ao se sentar, ela disse encabulada:
- Amor, só tem um probleminha... - pausa, respira e continua - Eu joguei todas as suas coisas no lixo.
"TODAS???", é meu amigo, todas.

Valter estava sentado em sua mesa, checando uma papelada que havia chegado, quando tocou o telefone. "Alô".
- Bom dia, não sei se você pode me ajudar. Na verdade já contei essa história para várias pessoas, que me deram outros telefones, até que cheguei ao seu. Ontem tive um desentendimento com minha namorada... - e contou todos os detalhes de sua inusitada história.
- Bom, os caminhões que recolhem os lixos da sua região os trazem para essa central e como passam de manhã, devem estar chegando a qualquer momento, se ainda não chegaram. - respondeu Valter.
Disse ainda que avisaria aos separadores que guardassem quaisquer objetos que pudessem ser os relatados pelo rapaz e que ele poderia comparecer ali para tentar achá-los.
Pouco mais tarde, Valter estava em sua sala, ouvindo um CD do Pink Floyd, quando batem à porta.
- Bom dia, você é o Valter? - perguntou educado e com certo nervosismo na voz, com a confirmação da pergunta continuou - Prazer. Vocês encontraram alguma coisa?
Se encaminharam então para uma área onde havia um punhado de objetos separados. Ali o rapaz, contente, foi encontrando várias de suas coisas. Foi separando tudo e juntou em um grande monte, erguendo ao lado uma pilha de CDs - sua amada coleção.
- Aliás, este do Pink Floyd que eu estou ouvindo estava no lixo também, deve ser seu. - disse pegando a caixa e se dirigindo para o som.
Era dele, mas o rapaz não o quis, estava muito feliz em ter achado grande parte do que procurava. Fazia questão que o companheiro aceitasse o presente. Pegou seus pertences, contente, e foi embora.
Hoje, nas viagens, Valter pode colocar no som do carro um CD do pink Floyd, que além de ter belas canções ainda tem uma boa história pra contar.