quinta-feira, 1 de julho de 2010

Por que as pessoas trabalham doentes? (por Graziela Souza)

Tenho algumas teorias sobre esse assunto:

1º Falta de amor próprio: Afinal qualquer tipo de indisposição, é uma forma do corpo falar que não está bem, está precisando de atenção, seja ela qual for, física ou psiquica(que é a pior);

2º Auto flagelação: Jesus Cristo foi único e sua ação foi para salvar o mundo do pecado, não é o caso do doente, afinal nem a sua própria vida ele está poupando;

3º Carência: Ficar sozinho em casa? Doente? Com quem vou conversar, almoçar?;

4º Egocentrismo: Imagina de forma alguma vou ficar em casa, tenho 5 reuniões das 08:00 as 10:00 e uma as 10:10 pra definir qual o tipo de letra que vou usar na próxima apresentação em ppt.que farei para o meu chefe, para levar ao chefe dele que apresentará para o nosso vice presidente que fica lá sei onde e que por sua vez vai apresentar para algum C(Chef) da área Internacional...

E o MEU telefone, vai ficar tocando e ninguém vai poder atender, afinal ele está na MINHA mesa.
Emails, emails, emails e mais emails invadirão MINHA Caixa de Entrada e MEU computador vai travar porque não há mais espaço no HD de 850.000 terabytes.
E a reunião que eu tenho toda semana com o meu principal fornecedor, aquele que só fala "NÃO" pra tudo o que peço...
Não, decididamente não, de jeito nenhum...vou trabalhar.
Descubro a cabeça, tento respirar o ar que não consegue entrar nos pulmões porque estou totalmente entupida, e me levanto.
Ao colocar os pés no chão, sinto um calafrio que vai da unha do dedinho do pé até o último fio de cabelo e um choque no calcanhar porque já ultrapassou a sensação de dor.
Mas pior que ser você o doente, é ficar do lado de um doente.
Acho isso uma falta de respeito, falta até mesmo de educação, afinal ninguém é obrigado a ficar doente por tabela.
Que tal uma Campanha, podemos até usar um modelo existente.
"Se beber, não dirija". "Se ficar doente, não saia de casa".

Graziela Souza é administradora, tem 32 anos

terça-feira, 29 de junho de 2010

Crônicas de um brasileiro, ex-soldado americano: O índio (por Euler Fernandes / Wolber Campos)

Era noite de domingo e dia seguinte, mais precisamente às 4 da manhã, estaria de pé para mais um dia de trabalho duro no exército. Deitado em sua cama, como de costume, Euler mudava os canais à procura de algum programa interessante. Num deles, viu um documentário sobre os índios americanos. Caçadores afirmavam que viam espíritos dessa antiga população na floresta. Pensou em mudar o canal, não gostava dessa história de espíritos, mas o assunto era interessante.
Tinha uma explicação científica por ter medo de espíritos:
- Algo vivo, a gente tem como matar para se defender, agora algo morto não tem! O que vou fazer se vier um espírito? Matar de novo? - conclui.
Mas agora era um soldado do exército mais poderoso do mundo, tinha que, pelo menos, enfrentar seus temores. Assistiu até o fim.
O documentário mostrava a entrevista de caçadores e uma dramatização. Descreviam que ao se esconderem nas árvores, ouviam aquele conhecido grito indígena: "Uuuulululululululululuulu!!!". Tremendo de medo, viam depois um índio, vestido com suas roupas e penas na cabeça, tão nítidos como nós, porém, brilhantes, como se emanacem luz.
Morreu de medo, mas só desligou a TV quando o programa terminou. Naquela noite, dormiu de luz acesa.
Dia seguinte, viajaram para a floresta, na Carolina do Norte. Já havia dormido naquelas matas e, para falar a verdade, dormia até quando montava guarda. No começo da noite um amigo começou a vigília, ele seria o próximo. Até lá, como todos faziam, armou sua improvisada barraca - estendendo a pesada capa de chuva sobre 4 estacas no chão - e dormindo abraçado ao seu fuzil. Nem a chuva, que caía incessantemente, atrapalharia seu sono.
Mais tarde acordou sendo chacoalhado, demorou para despertar, mas se sentou num susto. Era seu colega, dizendo que sua hora de ficar de guarda havia chegado. A adrenalina do susto baixou e, sonolento, se levantou. "Que preguiça!". Levantou do jeito que estava, já entrando sob a capa de chuva e seguiu andando para o posto - um buraco mais além na floresta.
"Tlililililililililim", ouviu um barulho atrás de si. Parou na hora, assustado. A primeira coisa que veio à sua cabeça foi a imagem do índio, ainda viva em sua memória como se tivesse acabado de desligar a TV naquele momento. Não era um "Uuuulululululululululuulu!!!", era mais fino e um "Tlililililililililim", mas vai saber se era um índio meio esquisito... Torceu para ser sua imaginação e voltou a andar.
"Tlililililim", dessa vez parou na hora e se voltou para trás apontando o fuzil em todas as direções. Sentiu vontade de disparar balas para todo o lado, no estilo Rambo, xingando de todos os nomes aquele índio maldito, mas se controlou. Tentou se acalmar, se virou, respirou fundo e foi andando.
"Tlililililililililim", continuou o barulho o seguindo. Ele andava mais rápido e, incrível, o som vinha atrás, na mesma velocidade. Começou a correr e era como se o índio corresse logo atrás, quase em seu pescoço.
"Ahaahhhhhhhhhhh!!" gritou internamente, para que seus companheiros não se assustassem também e pluft! se atirou de uma vez no buraco que iria montar a guarda. O som cessou assim que entrou na vala. respirava ofegante, segurando seu fuzil e olhando para todos os lados, temendo ver a luz do índio americano.
Geralmente dormia quando montava guarda, encostado na parede. Aquela noite ficou acordado, olhos arregalados, atento a cada estalar de galho, ou pequeno barulho, algo comum numa floresta.
Veio o amanhecer e a luz do sol é acompanhada dessa mágica, espanta todos os medos e faz nossos calafrios noturnos parecerem bobos. Se espreguiçou e pulou fora de seu buraco. Estava "quebrado" por não ter descansado. Deu um passo em direção ao acampamento e "Tlililililim", agora olhou para trás e deu mais um passo. "Tlililililim", batiam as quatro estacas de metal de sua capa de chuva, as mesmas que esqueceu de guardar no bolso ao se levantar "bêbado de sono" para montar a guarda.
Lembrou da noite mal dormida, guardou as estacas no bolso e teve vontade de chorar de raiva do índio americano.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O sobrevivente

Eu sou um sobrevivente. "Nossa, mas como ele se acha!", pode pensar o leitor, porém, os fatos descritos a seguir são incisivos, me transformaram em uma pessoa que quase volta do além.
O mundo de hoje se tornou muito, mas muito mais seguro. Antigamente, nós estávamos expostos a uma gama de males que colocavam nossas vidas em risco. Hoje esses males foram espantados pela tecnologia e avanços da medicina.
Me lembro, ainda pequeno, quando eu, criança inocente, almocei e em seguida tomei banho. Ah, criançada de hoje em dia! Com o avanço tecnológico, comer e tomar banho depois é uma coisa simples que não causa mal algum. Há 20 anos atrás era um risco seríssimo de morte! Minha mãe me deu uma bronca e eu esperei com angústia os minutos seguintes enquanto escutava o toque fúnebre como uma música de fundo em meus ouvidos. Para o espanto geral, eu sobrevivi.
Pouco depois já havia esquecido do risco passado anteriormente. Criança é fogo, come de tudo durante a tarde interminável que tem depois da escola de manhã. Hoje olho para trás e lembro que achava pouco ter uma tarde inteira livre depois de uma manhã de estudos. Uma tarde livre, hoje em dia, seria uma eternidade, acho que construiria uma nave espacial. Bom, volto às tardes de criança, num belo dia em que minha falta de inteligência me fez comer uma manga e poucos minutos depois tomar um copo cheio de leite com Nescau. Mal sabia eu da tenebrosa equação: Manga + Leite = Morte Certa. Dessa vez porém, não ouvi a música sinistra, não havia ninguém por perto para me dizer que a morte estava próxima. Quando escutei dias mais tarde que isso era um perigo, só pensei em uma coisa: "meu Deus, escapei de mais uma!".
Meu próximo risco, foi na adolescência. Trabalhava eu no Mc Donald´s e, como qualquer funcionário, tinha direito a comer um lanche por dia. Pois bem, na sexta-feira santa, estranhava que muitas pessoas pediam lanche que continha carne vermelha. "Mas não se pode comer carne vermelha nesse dia...", eu pensava, mas tinha que vender, então vendia. MInha avó já havia me avisado várias vezes, "se comer carne vermelha na sexta-feira santa, você vira lobsomem". Ali eu tinha consciência, sabia do mal que poderia me causar, mas resolvi desafiar o perigo e comi um Big Mac. Nem pensei que nesses dias de lua cheia, poderia estar coberto de pêlos, em cima do telhado e uivando sob a luz do luar. Nada, continuo um ser humano normal.
Já quebrei espelhos, alguns deles, e pimba: não tive 7 anos de azar! Mais uma escapada fulminante do lado escuro da força.
É claro, já caí da rede e levei vários pontos na cabeça, caí de uma caixa d´água, meti a testa na quina da TV e etc, mas isso não é nada. Uma mãe e um pronto-socorro davam conta facilmente, perigo mesmo foram esses fatos anteriores.
Diante de tudo isso, só posso me considerar um sobrevivente. As crianças de hoje nem imaginam, vivem num mundo seguro, embaixo de tanta tecnologia avançada. A própria internet e suas explicações científicas espantaram inúmeros riscos de vida que nos cercavam na infância.
Viver a 20 anos atrás era um eterno perigo.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Reggae

São Luís do Maranhão é a capital brasileira do reggae. A cidade respira o ritmo e amigos meus que já foram para lá - eu infelizmente ainda não fui -, dizem que existem várias radiolas, barzinhos que tocam esse tipo de música e lançam suas bandas e cantores.
É comum ouvir músicas internacionais, muito conhecidas, e trazidas para o ritmo com perfeição. Eu tenho várias num cd e, para ser sincero, a maioria - pra não dizer todas - fica muito melhor nas regravações.
Me perguntava de onde vem essa disseminação que o reggae conseguiu em São Luís, como sementes boas espalhadas num solo fértil.
Acabei de atender um paciente, o Weberson. Eu estava ouvindo Bob Marley quando ele entrou na sala e durante o tratamento falou:
- Ótimo gosto musical, hein?
Descobri que também gostava de reggae, já tinha ido à São Luis e comentando sobre a cidade me respondeu a origem da cultura musical de lá. Nos anos 30 e 40, as rádios locais pegavam algumas transimssões de rádios da Jamaica, que fica mais ao norte e as ondas alcançavam a cidade. A população começou a beber na mesma fonte que Bob Marley bebeu desde que nasceu. Então não teve jeito: o que é bom fica mesmo.
Assim como o velho Bob, que mesmo anos após sua morte ele ainda continua cantando em meu aparelho de som.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Contraste

O contraste social está sempre em nossas vistas. Em São Paulo, vemos inúmeros moradores de rua deitados em frente a prédios luxuosos. No bairro do Morumbi, condomínios enormes fazem divisa com grandes favelas. Porém é em pequenas cidades do sertão que essas diferenças são ainda mais marcantes.
Em abril, num deslocamento no estado de Minas Gerais, paramos para descansar em uma pequena cidade. Saímos com a turma para jantar e fomos conhecer o único lugar aberto da cidade: um clube que naquele dia teria músicas em um telão e um dj, tocando o sucesso regional brasileiro (Anjo Azul, Djavu, bandas no estilo da Calypso).
O local era tão simples, que não nasceu ainda a idéia de conscientização do lixo, ou alguma educação nesse sentido. Todos bebiam sua lata de cerveja e a jogavam no chão. Nós mesmos, quando tomamos as nossas, procuramos em vão, algum lixo solitário. Tivemos que jogá-las no chão, assim como todo mundo.
Naquele local pudemos perceber a diferença de classes nitidamente. A maioria eram jovens muito simples, vestidos com camisetas surradas, porém limpinhas e passadas, o que denunciava serem suas roupas de sair. O boné e a calça jeans completavam o visual. O público geral, contrastava com algumas caminhonetes importadas estacionadas na porta do clube. Eram de alguns filhos de fazendeiros da região. A diferença social ali era muito mais gritante: alguns poucos rapazes, filhos de fazendeiros milionários e muitos outros bem pobres, filhos de lavradores.
Fui pegar mais uma latinha de cerveja, havia uma fila e um pequeno bate-boca. Me aproximei e alguns garotos pediam para a pessoa do bar uma cerveja de graça, dizendo algo como "depois a gente acerta, estou sem dinheiro". A latinha custava dois reais.
Voltei ao encontro de meus amigos e, incidentemente, esbarrei num cara, derrubando um pouco de sua bebida.
- Putz, mil desculpas, meu amigo. - pedi.
Ele me estendeu a mão, me cumprimentou e deu um ligeiro abraço. Percebi que tinha um estilo diferente da imensa maioria. Vestia uma camiseta nova e chamativa, calça da moda e uma enorme corrente no pescoço, imaginei ser de prata. Estava acompanhado de um amigo troncudo, que vestia uma roupa semelhante à sua e me olhou feio enquanto eu conversava com o "playboizinho gente boa".
Me despedi e comecei a entender: muito provavelmente o outro era um guarda-costas disfarçado, fingindo estar se divertindo com um amigo, para não constrangê-lo em ir a um lugar escoltado. Mas bastasse um desentendimento e ele cobriria algum infeliz de porrada.
Uns de guarda-costas, outros implorando dois reais, tudo ali, embaixo do mesmo teto, ouvindo o mesmo som.
O mais cruel da discrepância social do interior, é que em uma cidade grande um filho muito pobre, tem mais chance de trabalhar, por exemplo, em uma lanchonete, subir de cargo, acabar virando gerente e melhorar muito sua condição. Em lugares muito pequenos, geralmente, o filho do fazendeiro milionário se tornará fazendeiro milionário, e o do lavrador pobre já tem sua sina escrita.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Darwin

Hoje vejo com todo sentido do mundo - e beleza - a teoria da evolução das espécies, de Darwin. Não é apenas sobre fatos complicados durante os milênios, ou pensamentos complexos sobre DNA e mutações. Alguns fatos são explicados com uma simplicidade tal, que nos faz sorrir ao entendê-los, como uma criança que tem sua curiosidade saciada em torno dos 5 ou 7 anos.
Muitos casos hoje se explicam como uma simples história: imagine uma tribo onde só existam homens enormes, com mais de 2 metros de altura. Pode-se entender que naquela região, os homens que eram mais altos tinham mais facilidade em colher alimentos que ali só davam em árvores mais altas. Isso, por si só, não extinguiria os mais baixinhos, mas eles teriam mais dificuldades. As próprias mulheres da tribo, poderiam se sentir mais seguras ao lado de homens que dariam mais proteção e facilidade em conseguir alimentos. Com isso os grandalhões teriam mais facilidades em conseguir uma parceira e assim transmitiriam muito mais os seus genes do que os pobres baixinhos solitários. Simples assim.
Alguns animais, geralmente, possuem cores fortes e berrantes para manter seus predadores distantes. É uma forma de dizer "olha, sou um bicho venenoso", recado entendido por outros animais. É o caso de rãs venenosas, taturanas e a cobra coral. A coral verdadeira possui cores fortes e é muito venenosa. Ela avisa que é perigosa - com suas cores -, e é! A cobra coral falsa é uma evolução da verdadeira. Possui cores ainda mais berrantes e chamativas e, com isso, espanta mais ainda seus possíveis predadores, como se fosse ainda mais venenosa. Como é muito menos incomodada, não precisava de seu veneno, que com o tempo foi sumindo, sua glândula atrofiou. Hoje ela não é venenosa. Não precisa ser perigosa, apenas avisa com mais veemência que é. Isso que é marketing bem feito!
O ser humano, com seu cérebro altamente desenvolvido (como diz o documentário "Ilha das Flores") desenvolveu até artimanhas para se manter longe de encrencas. Quantos não são esses bichos bem coloridos, que, sem pensar, já sentimos nojo, repulsa? Esse nojo, o cérebro usa para nos afastar de futuros problemas.
O mais impressionante é que, em nosso casos, além da evolução natural, nosso cérebro ainda pensa e trabalha incessantemente para nos preservar a cada dia mais.
O curioso é que ele precisa aprender a se defender de outros cérebros perigosos. E assim a evolução segue seu curso.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Patriotismo

Hoje foi jogo da seleção. Antes do início da partida, vi uma comoção na rua em torno de nosso país, como vemos poucas vezes. Em toda minha vida, conto nos dedos as vezes que vi uma população estar ligada em torno de algo em comum. A morte e enterro de Senna foi uma, outras copas outra. Porém, são raras as situações.
Como um brasileiro que ama o seu país, torço para que isso possa ocorrer muitas e muitas vezes. Se o patriotismo fosse algo sempre presente na vida dos brasileiros, talvez estivéssemos próximos de um grande desenvolvimento. Se políticos fossem patriotas, torcessem de verdade para seu país, não numa baboseira (que infelizmente, ou felizmente, eu adoro!) que é o futebol, mas para o seu sucesso e desenvolvimento, não haveria corrupção desenfreada, e sobraria dinheiro para se investir em educação, ou saúde, enfim, para o bem de nossa população.
Torçamos então por nossa seleção, pelo hexacampeonato, para que esse clima de patriotismo entre na alma de cada brasileiro, principalmente dos que regem nossas leis e nos dirigem.
Amém.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A notícia (por Carlos Fonseca)

Por vezes na vida passamos por momentos de surpresa e admiração. Durante as semanas que estive participando da campanha do câncer bucal pude ter a grata sensação de interagir com centenas de idosos, classificados como todo e qualquer cidadão acima de 60 anos de idade.
Pude perceber, durante aquele longo dia de sábado trabalhado, e após analisar 137 pacientes, o que significa ter completado 60, 70 ou até 80 aniversários; todos aqueles pacientes, respeitando as particularidades, trazem algo em comum, que se traduz numa palavra: velocidade. Parece brincadeira e até sarcasmo, mas esta foi a minha sensação. Toda a hiperatividade de uma criança, ou de um adolescente, se resume a uma maneira lenta de encarar a vida; talvez um artifício para que possam ver e interpretar cada acontecimento com mais precisão, afinal muitos deles me surpreenderam com a lucidez e a rapidez de raciocínio, principalmente em suas histórias.
Um deles era o seu Chico, senhor de 81 anos, pele queimada do sol, mãos calejadas do trabalho, camisa desabotoada e um sorriso contagiante, por parte desdentado, mas sincero e amigo. Entrou acompanhado de seu genro, pois parecia ter dificuldade em se comunicar, e logo dei início a uma série de perguntas para analisar e investigar eventuais anormalidades no paciente.
- O Sr. Chico tem alguma lesão na boca de que esteja reclamando? – perguntei.
- Ele tem um “caroço” na língua, nem consegue mais colocar a dentadura. – explicou o genro.
Observei curioso a língua do paciente e logo percebi o tamanho do problema. E quando digo tamanho, também me refiro ao tamanho da lesão e certamente a gravidade do caso.
- Quantos anos o Sr. fumou seu Chico? – perguntei.
Com dificuldade me fez entender que fumou durante 40 anos, e a pelo menos 20 não colocava um cigarro na boca. Pois bem, seu Chico foi submetido a uma biópsia para verificarmos do que se tratava aquele estranho crescimento em sua língua, e uma semana depois constatou-se o que eu de fato já imaginava: câncer de boca.
Talvez este seja o momento mais difícil para um profissional da saúde, comunicar aos familiares e ao paciente de que é portador de uma doença grave, de prognóstico duvidoso, e convencê-los da necessidade de seguir restritamente a todo tratamento e acreditar numa, muitas vezes duvidosa, melhora ou até cura.
Observando casos como este me faz cada vez mais levantar questionamentos com relação ao cigarro. Não vou ser moralista, já fui adolescente e entendo as aventuras, abusos e imprudências que cometemos; talvez aquela pequena mente cheia de dúvidas e inexperiência não consiga avaliar e quantificar o problema de se aventurar num vício tão perigoso.
Naquele instante, junto a todos os familiares fui breve, e pude ver nos olhos do seu Chico seu olhar adolescente, e talvez o imenso arrependimento logo que lhe dei a temida notícia.

Carlos Fonseca é dentista, tem 26 anos

sábado, 12 de junho de 2010

"Com muita humildade"

Já comentei em outros textos que a virtude que mais admiro é a humildade. Ela é tão perfeita, que não precisa ser divulgada, muito pelo contrário. Quando é anunciada, geralmente é simulada.
Hoje, vi na TV uma entrevista do jogador brasileiro, se não me engano, Felipe Melo. Considerado bruto e, em muitos casos, violento, ele admitiu:
- Com humildade, eu reconheço que entro duro em muitos casos, mas pretendo melhorar...
Foi um comentário quase perfeito. O problema é que, quando se se trata de humildade, o não perfeito é igual a um erro grosseiro. A pessoa que realmente é humilde nunca fala isso. Se admitir humilde é um sofisma e mesmo que fosse uma verdade, a afirmação desmentiria e transformaria o outrora humilde em egocêntrico.
A pessoa que realmente é humilde, de forma alguma, admitiria isso. Se envergonharia de ser elogiada.
O jogador brasileiro mostrou uma grandeza de espírito em admitir um erro, para o mundo inteiro. Se não tivesse se intitulado "muito humilde", com certeza todos nós o intitularíamos.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A cidade grande

Quando saímos a trabalho pelo sertão do Brasil, costumamos ficar, na maioria das vezes, mais de vinte dias fora de casa. Quase um mês convivendo em pequenas comunidades, com suas belas culturas, fazendo amizades, aprendendo com a sabedoria sertaneja, nos divertindo com as crianças, enfim, tirando completamente nossa cabeça daquela correria que estamos acostumados em nosso dia-a-dia.
O trabalho é feito em escolas, que recebem a população local, em peso. O som das crianças brincando - fato corriqueiro a cada dia de projeto - é música para nossos ouvidos. Quer coisa mais alegre do que risadas, gritos de pega-pega e brincadeiras?
Por essas e outras, a volta para a cidade grande é sempre um baque. Levamos alguns dias até nos adaptarmos à dura realidade. Cruzar com uma pessoa na rua e não olhar em seus olhos e perguntar "tudo bem?". No sertão todos te cumprimentam, mesmo quando não se conhecem, há uma educação generalizada, faz parte da cultura. Em São Paulo se eu andar na rua e cumprimentar uma pessoa podem ocorrer duas coisas: 1 - se for um homem pensará: "esse é veado!". 2 - Se for uma mulher: "xavequeiro!".
Outra coisa que sentimos falta é a alegria das crianças. Minha infância, apesar de ter sido em São paulo, ainda foi em rua de terra, jogando bola com golzinhos de pedra e brincando com um monte de amigos. Bem parecido com as pequenas cidades que visitamos. Porém, hoje em dia, as crianças estão mais estáticas em frente ao vídeo-game, TV e computador; a violência e os carros já não permitem tanta liberdade.
Luis Salvatore sempre disse que sua rua é muito fria, apesar de ter pouco movimento de carros e até ser consideravelmente arborizada, é um silêncio total. Lugar daqueles em que as crianças, provavelmente, ficam na frente das TVs. Um dia ele ouviu, vindo da rua, aquele som que estamos acostumados a ouvir nas escolas: crianças brincando de pega-pega. Eram risadas, umas chamando as outras, se divertiam. Ele se impressionou, "será possível nesta rua?", pensou. Foi para a janela feliz e, realmente, eram crianças de rua, que brincavam. Quase fechou os olhos e ficou curtindo.
De repente, algo monstruoso o tirou de seu "transe". Sua vizinha abriu a janela e gritou, com todo o ar que pode retirar de seus pulmões:
- Calem a boca!!! Que barulheira é essa, molecada!!! Vão embora!!! Chega!!! - berrava numa altura, e de um jeito, que mostrava seu total descontrole.
Como por um susto as crianças ficaram em silêncio e foram embora. E Luis nunca mais ouviu um dos sons que mais gosta, em frente sua casa.

Saudade

Domingo fui ao aeroporto receber a Ju, minha esposa, que voltava de uma viagem internacional à trabalho. O saguão de chegada de vôos internacionais é, disparado, o local que mais transborda emoção de um aeroporto. Isso porque quem viaja ao exterior, geralmente, fica fora por mais tempo. Além disso, ao cruzar a fronteira, a saudade sempre é mais inquietante, dolorosa, enfim, pleonasticamente saudosa! Mais até do que viagens mais longas em territórios nacionais.
Enquanto aguardava, observava as pessoas que, como eu, esperavam um ente querido. Famílias, amigos, pessoas de todas as idades, conversavam e olhavam ansiosas para a porta automática que, minuto a minuto, se abria, liberando a passagem de algum viajante empurrando seu carrinho repleto de malas.
A porta se abre: Aparece um rapaz, de seus 18 anos, vestido com um "chamativo" casaco verde amarelo, usado pelos brasileiros que sentem orgulho em mostrar as cores de sua pátria no exterior. Ao meu lado uma mãe dá dois pulos e acena com ambos os braços. "Alex! Alex!", chama e corre em direção ao, agora, sorridente garoto, junto a uma irmãzinha mais nova. Os três se abraçam, emocionados.
A porta se abre: Sai por ela um homem de seus 30 anos, olhar de quem procurava alguém entre tantas pessoas. "Fêeeeee!!", diz uma mulher que corre em sua direção junto a uma linda menininha que grita "tiiiiiiiiiiioooooooo!!!". E os três se encontram num abraço bem apertado. Essa cena, particularmente, me deixou mais tocado. Pelo fato de eu ser um tio coruja de três sobrinhos, facilmente estava colocado no meio daquele abraço.
E outros sorrisos se seguiram, abraços, beijos. Pessoas que saíam juntas, conversando sobre a viagem e novidades. Tudo isso fazia do saguão um lugar leve e feliz, mesmo estando em um frio aeroporto e abarrotado de gente. A alegria envolvia tudo isso.
De repente a porta se abriu e eu tive que parar de observar as emoções em volta. Era hora de matar a minha saudade.

sábado, 5 de junho de 2010

Bandeirinhas

Essa semana, chegando ao trabalho, vi uma cena que me trouxe um cheiro de infância. Como meu consultório fica em um bairro mais distante do centro, as ruas ainda tem aquelas gostosas características de cidade pequena de interior, apesar de ter seus comércios e mercadinhos pululando cada dia mais.
Dirigia o carro para mais um dia de trabalho e quando virei em minha rua, ela estava repleta de bandeirinhas do Brasil, que cruzavam a cruzavam de um poste a outro, balançando suas cores verde-amarelas sob o céu azul. Em frente às casas e lojas, dançavam uma infinidade de tiras de plástico com as cores de nossa seleção. O asfalto, que quase sempre me chamava a atenção apenas por seus buracos, agora estava pintado com a bonita bandeira do país.
Ah, a época de Copa do Mundo. Me desculpem aos que não gostam de futebol, que pregam contra o "ópio do povo" e tudo mais. Também não me sinto confortável quando sei que políticos, acusações e escândalos são suprimidos pela notícia de que o artilheiro francês está com diarréia, mas o campeonato mundial é inexplicável. O frio na barriga sentido em dia de jogo, a emoção da partida, alegria triunfal ou decepção avassaladora após os 45 minutos do segundo tempo... Confesso que me sinto emocionado até em um jogo da Inglaterra contra a Turquia.
E sinto tudo isso desde criança, aliás, desde que me lembro de assistir a uma Copa do Mundo, em 1986. Não sei se é algo passado de pai para filho, ou se os exemplos nos jogam nesse devaneio. Não sei. E pra quê saber? Naquela copa e na seguinte o Brasil não foi longe e mesmo assim eu me paralisava só de ouvir a música que a TV fez para a competição.
Por tudo isso, tive essa agradável sensação de nostalgia ao ver a rua toda enfeitada, como em minha infância e como fazia tempo que não via.
Esse sabor é um dos melhores que temos. Aproveito esse mês para relembrar, completamente saudosista. O Brasil ganhe ou não, o que importa é que já estou feliz.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Bolsa Família

A coisa que mais gosto no trabalho que o Instituto Brasil Solidário faz, é que está muito longe, mas muito mesmo, de ser assistencialista. Pra falar a verdade, dizer que o IBS faz um trabalho social no interior do Brasil, até, em definições atuais, seria uma visão equivocada. Podemos dizer que é feito um PDS (programa de desenvolvimento sustentável). A coisa mais difícil é o trabalho levar cestas básicas, só não digo impossível porque em poucas vezes há alguma doação de uma empresa ou piloto de rally e, já que estão nas mãos, as cestas são levadas e geralmente entregues em escolas, para evitar qualquer tipo de confusão.
Digo isso, pois outro dia li sobre o Programa Bolsa Família do governo. Me espanta pessoas o elogiarem ou dizer que é preciso. Não sou nenhum conhecedor da vida e do sertão brasileiro, mas fui para lá algumas vezes e posso dizer o que eu vejo. Independente de haverem cidades extremamente pobres ou de difícil aesso, essa história de fome e seca, não é exata como é pintada. Há fome? Há seca? Sim, longe de eu dizer o contrário. Mas são fatos, muitas vezes, pontuais, assim como há uma fome, milhares de vezes, e repito: milhares de vezes!, mais mesquinha em São Paulo ou no Rio de Janeiro, onde ela é acompanhada por miséria e pessoas procuram seus alimentos no lixão.
No sertão não há miseráveis como os há em grandes centros brasileiros. É uma gente humilde em grande parte sim, mas feliz e trabalhadora. Mesmo sem emprego geralmente buscam uma terrinha para plantar. A velha indústria da seca está viva como nunca. Ela e a fome exalam dos discursos políticos em vésperas de eleição e, ainda hoje, elegem presidentes.
O Bolsa Família é um programa extritamente assistencialista. Apesar de, à primeira vista, parecer algo positivo (uma renda aos desempregados e pobres), é uma chaga na pela brasileira.
Luiz Gonzaga cantava, na época de Juscelino Kubitschek, uma música que clamava contra o sentimento de pena e doações que os nordestinos recebiam após uma grande seca que prejudicou suas plantações. Dizia em uma parte: "E doutor, uma esmola a um homem que é são ou lhe mata de vergonha, ou vicia o cidadão". O Bolsa Família é exatamente isso, UMA ESMOLA. Dita assim, em letras maiúsculas. Com a diferença que hoje, em muitos casos, a letra da musica poderia ser mudada para "deixa o homem sem-vergonha e vicia o cidadão". Claro que também não sou obtuso a ponto de dizer que é sempre assim, longe disso, há pessoas que realmente são necessitadas e levam suas vidas com essa "mesada". Assim como eu posso chegar sobre o viaduto do chá e jogar lá embaixo um monte de notas de cem reais. Uma ou outra, acertará em cheio a mão de um necessitado que realmente necessite muito, mas em troca de quantas notas caídas em vão? Ouvimos muitos comerciantes locais e fazendeiros dizerem que não conseguem registrar seus trabalhadores, pois ninguém quer perder o Bolsa Família. Ouvimos outras histórias de pessoas que se acomodam e nunca mais querem saber de trabalhar, muitas vezes usando o seu ganho para a bebida. Outra mazela é o fato deste programa dar uma quantia a mais para o número de filhos que uma pessoa tem. O rsultado?: aumento populacional.
Enfim, muitos podem achá-lo necessário, mas a roda do progresso, empurrada pelo futuro, mostrará, lá na frente, que gastamos um dinheiro enorme com algo que não serviu para mais nada além de dar votos. Uma "dinheirama" que, aplicada na estrutura de regiões necessitadas, poderia dar um ótimo resultado em pouco tempo.
Assistencialismo não resolve o problema. É como enxugar uma sala com a torneira aberta. Não é muito mais fácil ir direto à causa do problema? Deve-se apenas dar dois passos a mais e fechá-la com a mão.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Histórias d(n)o Lixo: O mendigo (por Valter Lima / Wolber Campos)

Na Central de Triagem do Lixo, era mais uma normal manhã, e os trabalhadores seguiam separando o material reciclável dos orgânicos. Até que ouviram alguns resmungos entre os sacos que caíam na esteira. Preocupado, o primeiro homem apertou o botão que cessava o movimento e uma cena bizarra surgiu diante de seus olhos: uma forma humana se levantava em meio a trapos, papéis e todo o lixo, gemendo.
- Ei... O que vocês estão fazendo comigo? - perguntou, sem ao menos saber onde estava ou para quem estava perguntando.
"Meu Deus, quem será que jogou um mendigo no lixo?", pensou um dos trabalhadores. Apesar da cena assustadora, a turma não sabia se ria ou se se espantava. Acabaram rindo.
Com algumas informações do pobre homem, Valter decifrou o mistério.

Numa rua de São Paulo, o mendigo andava trôpego. Havia tomado algumas cachaças para espantar o frio - e pra ficar "doidão" mesmo. Já não mais aguentaria andar em breve, o sono deixava seus olhos praticamente fechados. Viu na esquina um daqueles enormes conteiners de lixo e pensou: "deve estar quentinho la dentro". O ultimo esforço que conseguiu fazer foi subir em uma caixa, que estava ao lado, e se jogar tampa à dentro. Fechou-a e desejou para si mesmo: "Boa noite".
Algumas horas depois, se aproximou um caminhão de lixo gaiola - aqueles que esvaziam os conteiners pela cidade. Numa discussão acalorada sobre o futebol do fim de semana, o motorista e o ajudante desceram. O primeiro, automaticamente, engatou as hastes do caminhão na enorme caixa de lata, checou se a tampa estava liberada e pressionou o botão no caminhão que iniciava a subida do lixo. Distraído se esqueceu de olhar no interior do conteiner e o lixo - e, diga-se de passagem, o mendigo - foi jogado dentro da gaiola, no alto do caminhão.

Na área de triagem os homens ainda se divertiam com a história. Valter ligou em seguida para a assistência social da prefeitura que levou o homem embora.
Realmente, no lixo a gente encontra cada coisa...

segunda-feira, 31 de maio de 2010

"Homem de Deus!"

Severino era caminhoneiro de uma grande empresa. Pernambucano "arretado", metido a machão, não perdia oportunidade de contar aos colegas suas inúmeras histórias de coragem e "brabeza".
Era conhecido por sua constante introdução aos assuntos: "Homem de Deus, você precisa ver..." e falava sobre o que faria na situação de algum injustiçado. Seria uma pancadaria só!
Como motorista profissional, ficava muito estressado no trânsito. Era comentário geral dos ajudantes que viajavam ao seu lado, seus xingamentos e ameaças, mas sempre dentro da própria cabine, sem que alguém o escutasse.
Certo dia, Severino parou no farol vermelho e um carro, acelerando, passou ao seu lado tentando "furar" o semáforo. O cabra macho não pensou duas vezes, para apreensão do ajudante que ia ao seu lado, colocou a cabeça para fora e gritou:
- Filho da puuuuuuuuuuuuta!!
O carro parou automaticamente. Acendeu a luz de ré e voltou, bem ao lado de severino. A porta se abriu, desceu um homem muito alto, desses "bombados" por excesso de academia, apontou o dedo para o motorista que permanecia impassível, fitando o interlocutor.
- O que você falou???? - disse quase gritando e com cara raivosa.
"Ai meu Deus, agora o Severino pega a peixeira e seja lá o que Deus quiser!", pensou o ajudante.
Ele calmamente soltou:
- Homem de Deus, eu falei: "olha o farol"... - disse baixinho, quase com ternura.
Severino virou piada na empresa, dizem que saiu dias depois por não aguentar a zombaria sobre sua recente história.
Hoje ninguém sabe seu paradeiro, mas todos imaginam que seus contos de "brabeza" devem ter minguado.