domingo, 15 de maio de 2011

Banco

Numa cidade do interior do estado de São Paulo, Itapetininga, os moradores mais velhos se lembram nostálgicos do tempo em que a modernidade passou a chegar em sua terra. De todas, a mais curiosa - e engraçada - foi a época em que o serviço financeiro, os bancos, começaram a se popularizar.
Pode-se imaginar, para pessoas simples, em toda a humildade que o interior lhes envolvia, o que era confiar todo seu dinheiro, ganho em sua lida de cada dia, a um estranho, que havia construído uma grande casa e dizia que tomaria conta de sua fortuna.

Havia um senhor idoso, que todo dia se encaminhava ao caixa, retirava todo seu dinheiro, o contava na frente do atendente, o olhando com cara desconfiada, como quem diz "estou esperto, viu?", para ver se todo seu dinheiro estava ali mesmo. Conferindo que ali estava toda a quantia que havia deixado no dia anterior, a depositava novamente, dizendo "até amanhã". Seguia para casa tranqüilo, sabendo que, pelo menos a ele, aqueles homens não enganariam.

Um morador, faria uma compra grande, então se encaminhou para o banco, para retirar seus 15 mil reais (em moedas atuais). O gerente lhe disse que era uma grande quantia, que ele esperasse "alguns minutos, que o carro-forte chegaria em pouco tempo com o dinheiro". Ele se inflamou, sabia desde o primeiro instante que estava sendo enganado. Aquilo não ficaria assim, faria um escândalo para que todos pudessem ouvir. Encheu os pulmões e bradou:
- Ladrões!!! Eu sabia!!! Meu dinheiro estava aqui dentro, deixei aqui com vocês e vocês o levaram daqui!! Quero o meu dinheiroooo!!!!

Um velhinho, já tinha imaginado o banco como a melhor invenção da modernidade. Ficou fascinado com a vantagem de depositar um dinheiro ali e ter um talão de cheques, aquelas folhas maravilhosas que, com sua assinatura, seria aceita como dinheiro em qualquer lugar. O usava em todos es estabelecimentos. Ia almoçar, ao pedir a conta, tirava o talão de seu bolso e fazia o ritual mágico que havia se habituado: abria o talão na mesa, postava a caneta sobre a folha de cheque e a deslizava sorrindo.
Não poupava em lugar algum, saía com todos os amigos para um jantar. Na hora de pagar, não deixava ninguém ajudar com a despesa.
- Podem deixar, eu tenho um cheque! - dizia, abrindo o talão sobre a mesa, postando a caneta sobre a folha e a deslizando, sorrindo.
Fez isso com toda paixão e orgulho por algumas semanas, sempre ávido para pagar tudo a todos. O gerente do banco, preocupado com o número de cheques que chegavam, chamou o velhinho para uma conversa.
- Senhor, percebemos aqui que está chegando um grande número de cheques a serem debitados em sua conta. E o valor já superou seu limite. Sua conta está no negativo e o senhor está nos devendo 2.500 reais...
- Quanto? - perguntou calmamente o velhinho, ouvindo novamente o valor de sua dívida.
Não pensou duas vezes, tirou o talão de seu bolso, postou a caneta sobre a folha de cheque e a deslizou sorrindo, escrevendo "dois mil e quinhentos reais".

Fatos verídicos colhidos em forma de documentário pelo cinegrafista Vítor Pinduca

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A manga

Conhecer o interior do Brasil é sempre enriquecedor, seja por admirar nossas variadas culturas, participar do cotidiano de outras regiões, ouvir o sotaque "puxado" das pessoas, ou mesmo viver por uns dias em uma realidade tão diferente da cidade grande. 
Estávamos sentados, certa noite, numa mesa de bar, dessas de alumínio, tão comuns por botecos de norte a Sul do nosso país. Porém ali, tudo era diferente. Acima de nossas cabeças estava uma frondosa e enorme mangueira, aos nossos pés  o chão de terra, acima da árvore, as estrelas, que iluminavam o céu límpido que nos observava naquela bela noite. Um cenário que faria a mais pura inveja a qualquer barzinho da Vila Olímpia ou da Vila Madalena. 
O papo seguia muito animado, quando de repente foi cortado com um grande barulho:
- Bam!!
Um susto, mas nada grave. Uma manga despencou de lá de cima, no alto da árvore, sobre a mesa de alumínio. Demos muitas risadas, era uma cena, no mínimo, inusitada. 
Bem lá no fundo, entre sorrisos, agradecíamos a Deus. Primeiro, por ter oportunidade de presenciar uma cena dessas. Segundo, por estarmos embaixo de um pé de manga e não de um de jaca.  

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Misturas

O Pará é uma linda terra. Há fartura, seja de chuva, de peixes, plantações. O povo, mesmo quando em situação bem humilde, vive bem e feliz. Pessoas simpáticas, receptivas e festeiras.
Trabalhamos na cidade de Primavera, a menos de 200 km de Belém. Fomos recebidos por um animado carro de som e uma carreata com fogos de artifício, sempre ao som do Melody, ritmo bem característico da região, com suas músicas com a velocidade acelerada, deixando as vozes bem "fininhas".



Numa festa, no fim dos trabalhos, com um som de discoteca no porta-malas de um carro, o rapaz falava: "Olha meus amigos, este é o som de nossa cultura aqui no Pará", fazendo questão que conhecêssemos tanto as músicas dançantes, quanto as regionais e folclóricas, como o carimbó.
Grande parte da população daquela região tem traços indígenas, espalhando pelas ruas a beleza da mistura, tão presente no povo brasileiro.





Há também moradores com características de outros estados, como o Ceará e o Maranhão, devido à grande migração de sertanejos na época áurea da borracha.
No fim do trabalho, conversando com um professor, com seus traços mestiços, ele me definiu:
- Meu amigo, aqui temos muita mistura, por isso deu esse povo bonito. As mulheres são lindas. Esse negócio dos europeus se juntando aos índios e negros, deu muito certo. Mas a cria com essas mulheres daqui é melhor com alguém de fora da região, aí o filho sai lindo! Se juntar eu com uma mestiça, não sai filho bonito não. Se eu tiver um filho com uma paulista, já sai bonitinho, um moreninho, de olhinho meio puxado, olho claro, cabelo enrolado...
Curiosa teoria. Assim como outro paraense completou a definição:
- Essa mistura ficou muito boa. Mas a melhor empresa de todas, é a que dá da mistura do italiano com a índia! - disse sorrindo.
Se a moda pega, haja europeus empreendedores se mudando para nossa região norte...

domingo, 10 de abril de 2011

Raposa

Neste domingo, 10 de abril, Estamos numa van alugada saindo de Belém do Pará rumo à cidade de Primavera. Trabalharemos esta semana, implantando um projeto em parceria com a empresa Votorantin.
Na cidade não há sinal de celular e provavelmente dó conseguirei dar notícias no blog depois de sexta, quando voltamos para São Paulo.
Foi a primeira vez que vi Belém, e a imagem dos braços do Rio Amazonas chegando ao lado do aeroporto me deu uma doce alegria. Era um sonho antigo conhecer a região amazônica.
O avião estava tocando o solo e diminuindo a velocidade e enquanto olhávamos as arvores altas da floresta que chegava perto de uma 200 metros da pista, meu amigo Manolo apontou: "olha lá!". Uma rapozinha seguia andando em direção à floresta.
Logo no primeiro momento, já fomos bem recebidos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Doutora Brasileira: 50 reais

Conversando com os dentistas da Marinha, colegas de trabalho na região amazônica, a doutora percebia uma certa tristeza. Para pessoas que querem fazer a diferença, é difícil aceitar que, em muitos casos, não há como mudar a situação das pessoas que ajuda.
O trabalho odontológico consistia em sua maioria em curetagem dos dentes (remoção da cárie com um instrumento manual) e colocação de uma restauração provisória.
A parte de prevenção, com palestras, era pouco absorvida. A extrema dificuldade financeira das populações ribeirinhas tornava difícil a aplicação de normas simples, como a escovação após todas as refeições e o uso de uma escova por pessoa.
Naquela manhã, um casal sentou à sua frente com uma criança. Uma mãe que aparentava estar próximo aos quarenta anos, pela dureza de suas feições e pele castigada pelo sol, porém com 23 anos. Baixinhos. Os ribeirinhos são, em sua quase totalidade, de estatura baixa. Ao fazer as perguntas básicas sobre a estrutura da família, colheu os seguintes dados: um casal, seis filhos, renda familiar = 50 reais por mês.
Com cinquenta reais por mês, como imaginar que um pai gastará dinheiro com 8 escovas e creme dental para sua família? Já será difícil conseguir comida para completar a refeição dos peixes que pesca para sua sobrevivência.
O Brasil e seus constrastes. Há regiões em que é comum se gastar 50 reais em um jantar, num restaurante simples. Em outras, famílias sobrevivem por um mês inteiro com este valor.
Uma região com famílias esquecidas, soltas por sua própria sorte, à márgem da sociedade. Da mesma forma que sobrevivem às margens dos rios da Amazônia.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Politicagem

Poucas palavras me embrulham mais o estômago do que esta. Para quem faz trabalho social e, com frequência, mantém contato com políticos, não é fácil lidar com muitas dessas situações que aparecem.
Há prefeitos que apoiam, gostam do projeto e, realmente, se empenham em ajudar. Por mais incrível que possa parecer, para nós brasileiros, que estamos acostumados a imaginar políticos com chifres e tridentes. Sempre me preocupo em não generalizar, e também devo escrever quando recebemos algum apoio do poder público. Há pessoas boas e ruins em qualquer esfera, nesta não é diferente.
Mas semana passada tivemos mais um exemplo da parte triste da política brasileira. Realizamos em Lençóis, na Bahia, o Primeiro Encontro Amigos do Planeta na Escola. Uma semana de seminário, onde as dez escolas em que trabalhamos nos dois últimos anos, levaram apresentações onde demonstravam como os trabalhos que implantamos seguem em cada região.
Foi um sucesso. Em torno de cinco integrantes de cada município, viajaram de vários estados brasileiros (Minas, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Maranhão, Piauí e Ceará), num percurso que chegava, em alguns casos, a mais de 1000 quilômetros!
Um grupo de educadores subiu no palco. A diretora da escola agradeceu a todos e contou sobre a dificuldade em chegar até ali. Com os olhos cheios de lágrimas, disse que o prefeito negou o veículo que as levaria ao encontro, dias antes da viagem. Não entendiam o motivo, correram atrás, tentaram de todas as formas, mas ganhavam apenas um lacônico "não". Até que uma pessoa de dentro da prefeitura, lhe disse:
- Olha, não diga a ninguém que eu te falei, mas se você quiser ir, troque a equipe.
Tudo começou a se explicar, as outras professoras eram de outro partido.
- Como eu vou trocar a equipe se elas tocaram esse projeto comigo? - retrucou.
Politicagem. Uma das maiores chagas que afetam nosso país, acabava de atingir uma equipe que havia realizado um ótimo trabalho para os alunos de sua escola.
A diretora conseguiu o apoio do presidente da câmara de vereadores e um veículo foi emprestado para levar a equipe.
Contando essa história, as lágrimas não resistiram e rolaram. À sua frente, muitos educadores, uns passaram algo parecido, outros não, mas todos as aplaudiam, solidários por sua luta.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Duelo espiritual

Deus é um só. Ponto. Admitindo-se que há um criador de tudo e de todos, automaticamente temos que concordar que apenas um Deus criou a todos nós. Não existe um para os brasileiros, outro para os muçulmanos e um terceiro para os judeus.
Há vários caminhos para um mesmo destino. Devemos ter diversas religiões, pois cada pessoa se encaixa melhor em uma determinada crença, compreendendo assim melhor o caminho para atingir seu objetivo.
Por este motivo, sempre me incomodou ver pessoas que tentam mudar a religião de outras, dizendo que esta está errada, que a sua é melhor, e por aí vai. E muitas vezes, essas diferenças chegam, até mesmo, a um conflito.
Em uma pequena comunidade, do interior da Paraíba, chegamos a uma linda e arborizada praça. Mas algo estava estranho. Um barulho terrível, o que me espantava, era observar todas as pessoas que se espalhavam por ali conversavam como se aquilo tudo fosse imperceptível. Estavam acostumados àquela cena.
Aproximando-me, pude ver uma cantoria saindo por altas caixas de som, de dentro de uma igreja católica, permeada por sermões de um empolgado padre. Do outro lado da praça, uma igreja evangélica exibia um enorme amplificador, voltado para fora de suas paredes, - mais precisamente em direção à outra casa de Deus - onde um pastor gritava agressivo as palavras de Deus.
- Já faz um bom tempo que aqui é assim. Quando era só uma igreja era mais calmo, mas a outra abriu e começou a falar mais alto. Agora é um gritando mais do que o outro, tentando buscar fiéis. - comentou um amigo local.
Nessa competição louca, muitos preferem nem entrar nas igrejas.
Deus deve pensar: "só pela forma como tentam pregar minha palavra, já mostra que dela nada entenderam...".

quinta-feira, 10 de março de 2011

Doutora brasileira: animais silvestres

A lancha seguia à frente do navio da Marinha brasileira. Estavam no rio Xingu, no estado do Pará, e navegavam rumo a uma comunidade que necessitava de atendimentos médicos.
Saíram para um afluente menor, adentrando ainda mais para o interior do estado. Naquela região, não há muita floresta acompanhando as margens do rio. O Pará é muito mais desmatado do que o Amazonas e poucas árvores ficam nas proximidades.
O grande navio aguardava onde o afluente desaguava no rio Xingu, era necessário ver se a profundidade era suficiente para uma grande embarcação. O sinal foi dado e a enorme embarcação pode navegar com sua calma peculiar.
A lancha seguia, agora rapidamente, e mais à frente observaram algo estranho: três pequenas embarcações, emparelhadas, próximo à margem direita. Era algo estranho. A lancha diminuiu a "marcha". Ao se aproximarem das embarcações viram do que se tratava. Homens passavam de um barco a outro gaiolas, repletas de animais silvestres. Ali, em sua frente, estava escancarado o tráfico de animais da fauna amazônica brasileira.
Quando perceberam que a lancha que se aproximava era da Marinha, como se fosse combinado, todos os homens pararam, gaiolas suspensas, feito estátuas. Movimentavam apenas os olhos, que acompanhavam a lancha que passava, vagarosamente; exalando o medo de serem pegos em flagrante.
O grande navio veio em seguida. O comandante deveria decidir, agir, ou comunicar o fato. Aquele era um navio médico, com pouquíssimo armamento, militares, em sua maioria, formados por médicos, dentistas e profissionais da saúde. Havia a chance de um conflito, e traficantes desse porte, geralmente, estão sempre armados.
Pelo rádio, o comandando comunicou à Polícia Federal, dando todas as coordenadas do local e a cena que estavam presenciando. Não poderia colocar em risco toda uma equipe e uma embarcação médica.
O tráfico de animais silvestres é o terceiro maior comércio ilegal do mundo, perde apenas para o tráfico de drogas e o de armas. Estima-se que a cada dez animais capturados, apenas um chega vivo ao destino. A crueldade desses criminosos chega ao ponto de furarem os olhos de aves para que não cantem ao ver a luz do sol, denunciando seu cativeiro, ou mesmo de anestesiar todos para chegarem silenciosos aos consumidores, que acabam compactuando com essa crueldade. Tão grave quanto comprar um aparelho de som roubado.
A doutora seguiu para a comunidade. Durante todo o dia de atendimento, aquela imagem não saía de sua cabeça. Sabia que aquilo existia, já tinha ouvido muito sobre isso, mas ver, com seus próprios olhos, era muito diferente.
Não sabia se a PF conseguiu chegar ao local. Não sabia como acalmar seu apertado coração que não conseguia esquecer aquela cena. Ainda hoje não sabe.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Cenas de uma recepção

Nossa porta de entrada para o Vale do Jequitinhonha, no último trabalho realizado em fevereiro foi a linda cidade de Diamantina, com seus casarões antigos e igrejas coloniais.



Chegamos à cidade de madrugada, após a aventura da viagem de ida. Na manhã seguinte, conseguimos conhecer um pouco o local. Andamos por suas belas ruas calçadas por enormes pedras, visitamos a casa da Chica da Silva, e vimos até uma famosa fofoqueira, olhando curiosa os acontecimentos pela sua janela.























Após o almoço, sguimos para a pequena comunidade de Cachoeira do Norte, nosso primeiro destino de trabalho. Fomos recebidos de forma extremamente calorosa, com palmas e cantos dos moradores.



Uma pequena roda se formou e nos falaram de uma apresentação de um dos folclores mais tradicionais de nosso país: a folia de reis. Homens e mulheres, de todas as idades cantavam ao som dos violões e instrumentos de percussão. Aquele coro tradicional, com vozes de homens entoando uma música enriquecida por vozes femininas bem agudas, de moças e senhoras.



Após algumas músicas, foi formada uma imensa roda, crianças e adolescentes se uniram e começaram a entoar músicas reginais, uma deliciosa Folia de Reis.



E claro, nós entramos na dança...



A noite caia e a festa parecia ir longe, para nossa alegria. O cenário era lindo, a pequena igreja da praça, olhava para as alegres pessoas que dançavam e cantavam ao som do violão.



E contentes, passamos a ver adolescentes e senhoras de seus 70 anos, pulando e dançando, com um vigor invejável, e deixando a boa mensagem de que a cultura vai sobrevivendo, sendo passada para as outras gerações.



E no fim da festa, ainda assistimos ao show de percussão, dado pelos nossos amigos. E ali estava ela, com seu pandeiro. Que felicidade saber que, no dia seguinte, eu teria oportunidade de retribuir um pouco dessa maravilhosa recepção.

















Abaixo um pouco da nossa feliz roda de folia de reis.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Rotinas

Meus amigos. Voltamos e esta segunda-feira, voltei ao consultório. Saio de uma rotina, entro em outra. Realidades tão antagônicas, conflitantes, e, ao mesmo tempo, complementares.
Fazer um trabalho social, viajar por alguns dias, doar o pouco que aprendeu - e desenvolveu - em favor de outras pessoas, é participar de um mundo novo. Um mundo que se imaginaria ideal, onde aquele papel ($) que tanto distancia a humanidade de seus verdadeiros propósitos, quase perde o sentido.
Os mundos se complementam, pois neste lado, é necessário correr atrás do trabalho, para melhorar a vida da família, para se especializar e melhorar cada vez mais profissionamente e, aí sim, doar esta melhora para outros menos necessitados.
Pode parecer demagogismo, numa época em que estamos cansados de tantos discursos políticos, tão vazios como uma bexiga furada. Porém, quem já foi uma vez pode afirmar: a cada trabalho, sentimos mais a necessidade de doar cada vez mais.
Em cinco cidades eu e o Wanderson, fizemos 220 próteses. O número é grande e nos deixa orgulhosos e felizes, ainda mais quando cada unidade deste número é um "seu João", "seu Raimundo", uma "dona Maria", pessoas, a grande maioria, a mais de 10 anos, sem nenhum dente na boca e sem nunca ter usado uma prótese.
Rogério e Glaucia, outros dois dentistas, atenderam em torno de 200 pessoas entre adultos e crianças, sempre com o auxílio e lideraça do Manolo. Válter, ambientalista, ensinou ao lado de Pedrão, João Victor, Fernando e Erik como montar uma horta comunitária, arborizar, montar viveiros e fazer coleta seletiva, além de reciclar papéis e até água, para várias comunidades. Tudo registrado, com extrema competência, pelo grande cinegrafista-editor Vitor Pinduca.
Bernardo, da Companhia de Inventos, levou a parte da cultura com maestria, ministrando oficinas de teatros de sombra e bonecos para aliar o ensino com a arte, além de uma apresentação de um teatro de marionetes que empolga dos 8 aos 80 anos.
Ana Elisa Salvatore, esteve a frente do do projeto, que terminou com todo sucesso esperado.
Diante de tudo isso, de uma convivência durante duas semanas com uma família que escolhemos para ter ao lado, a volta tem de ser feliz. No reencontro com as pessoas amadas, com a querida família, com a caminha e o travesseiro próprio, a bateria, independente do cansaço, está completamente recarregada.
Como disse, sabiamente, meu grande amigo-irmão Bernardo:
- É muito especial essa turma que podemos fazer parte. No dia a dia temos que carregar esta alegria e vontade de fazermos tudo com o coração aberto e verdadeiro.
Tem como não encarar uma segunda com o sorriso aberto? Eu acho que não.

Obrigado a todos queridos amigos que passaram por aqui nestes dias em que estive tão ausente da blogosfera. Obrigado pelos comentários e desculpem a falta de tempo de visitar cada blog de amigos que tanto prezo. Senti falta.

Enorme abraço a todos!

Wolber Campos

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O que comemos

Olá amigos, estamos, neste momento, na van, voltando para casa. 
A última cidade em que trabalhamos foi Capivari, uma pequena e aconchegante comunidade, onde há apenas uma rua mais larga com  suas lindas humildes casas. 
Na penúltima noite, estávamos jantando na casa de Flanciene e Renato, onde fomos muito bem recebidos e acomodados, uma deliciosa galinha caipira. 
Tenho parentes em Minas Gerais, e desde criança, percebia a grande diferença naquela ave, pega no quintal e levada minutos depois para a mesa e aquela congelada, que pegamos dentro de um saco no supermercado, sabe-se lá a quanto tempo nesta condição. 
Renato fez uma colocação interessante:
- Olha seu moço, eu não entendo esse negócio de criação na cidade. Aqui a gente cria um frango, dando boa comida, tratando bem dos bichinhos, e ele leva meses pra ficar bom. A gente mata ele só depois de uns oito meses. Estes criados em granja, para a cidade grande, em 45 dias, as vezes até antes, já estão prontos pro abate. 
Dura realidade, pois é sabido que, em grandes produções, os frangos ficam desde o nascimento sob luz intensa, o que o faz ficar acordado praticamente o tempo todo, comendo e crescendo. Unido isto à ração com hormônios que comem, há o crescimento exagerado. 
Outro exemplo é nosso famoso chester de natal, um frango "anabolizado". E para a crescente demanda no fim do ano, a produção segue a todo o vapor. Abatem e congelam, assim no natal haverá um grande estoque. 
Pelo menos o interior ainda guarda alguns hábitos saudáveis. 
Pensando nisso, saboreei com mais gosto ainda a deliciosa galinha caipira que estava a minha frente.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Um ligeiro sorriso

Ela entrou na sala tímida, trazida pelas mãos da coordenadora da escola. Olhava para o chão e tivemos dificuldade para que abrisse a boca para que a examinássemos. 
Tem 15 anos, e lhe faltam os dois incisivos superiores (os dentes da frente). Fala muito pouco e raras vezes olha para quem fala olhando nos olhos. Se esboça um ligeiro sorriso, logo a mão cobre sua boca. 
Assim Wanderson, dentista que faz a parte de próteses do nosso trabalho, decidiu que faria uma peça provisória no mesmo dia, para que ela usasse até maio, quando retornaremos com a definitiva. 
No dia seguinte à moldagem ela voltou, tímida como de costume, tão calada que mal podíamos decifrar a ansiedade por trás de sua já enraizada proteção. 
Wanderson, emocionado como sempre num caso como este, colocou a peça. A garota, em um segundo, voltou a ter os dentes da frente. 
- Agora vocês tem que convencê-la a voltar para a escola, faz um ano e meio que ela abandonou os estudos. - disse a coordenadora, olhos cheios de lágrimas. 
- E sabemos porquê ela saiu da escola, não é? - eu disse, em alusão à perda de seus dentes. 
A coordenadora começou a chorar  de emoção e saiu da sala, sem conseguir falar. 
Olhei para a jovem, agora usando sua nova prótese, segurando um espelho. Agora ela abriu um ligeiro sorriso, rápido, quase imperceptível, e voltou à antiga timidez, que só a abandonará com  o tempo, assim como trejeitos de não abrir a boca ou levar a mão à sua frente quando fala. 
Um pequeno sorriso, inversamente proporcional à alegria que dois dentistas ali sentiam. 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A troca

Que recepção! Chegamos na comunidade de Cachoeira do Norte, no município de Chapada do Norte. Descemos dos carros recebidos por uma grande parte dos moradores, cantando musicas locais de recepção a visitantes e batendo palmas. 
Depois dos cumprimentos, nos disseram que veríamos apresentações de um grupo regional de folia de reis. E assim uma banda formada por dois violões, percussão e muitas vozes, com as mulheres cantando nos tons mais altos, típicos das sertanejas do nosso país, começou a interpretar várias cantigas regionais. Estávamos recebendo cultura "na veia". 
O que nos deixava felizes era ver no grupo um bom número de adolescente e até crianças, dançando e curtindo com fervor a folia. Em muitos lugares onde vamos, uma tristeza dos mais velhos é que os jovens não de interessam mais por sua tradição, trazendo o medo de que a cultura se perca. Ali era diferente. 
Uma senhora me chamou a atenção. Estava com um alegre e saltitante pandeiro em sua mão. Com seus 60 anos, Sorria, dançava e tocava seu pandeiro com felicidade singular. Batia o instrumento com a mão e as vezes ate com o cotovelo. Que alegria. 
Dia seguinte, na fila de atendimento ela estava lá, sorridente, como no dia anterior. E assim ela se sentou em minha cadeira, olhou em meus olhos e disse "obrigado". 
Ali, eu teria a oportunidade de retribuir a linda apresentação cultural que ela havia participado. Para nós. Feliz, eu disse:
- Eu que lhe agradeço! 

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Pobres cavalos

Estamos saindo de Diamantina, rumo a nossa primeira cidade do Vale do Jequitinhonha, Chapada do Norte. Pelo que ouvimos, é muito provável que não terá sinal de celular, o que deve restringir a comunicação por estes primeiros dias.
Ontem de noite, a chegada foi uma aventura. A falta de placas na estrada - indicando Diamantina - fez com que passássemos a entrada por 140 km, tendo que voltar a mesma distância até o lugar correto. Em vez de chegar as 23h, chegamos às 3:15h da madrugada. As vezes acontece.
Assim que fizemos o retorno na estrada, a caminhonete se adiantou e a van seguiu uns 800 metros atrás, dirigida por Valter com Fernando ao seu lado. Um carro vinha na direção contrária e, logo após cruzar com a caminhonete, se movimentou bruscamente. Fernando viu algo apagar os faróis e alertou:
- Valter, acho que eles pegaram algo! Diminua.
O carro diminuiu e foi para o acostamento. Passamos ao seu lado e e motorista estava saindo, confuso e nervoso, de um carro muito avariado na frente. Vimos que as pessoas estavam bem e seguimos vagarosamente, atentos a qualquer coisa que pudesse estar sobre a estrada. Algo apareceu estirado sobre a pista, dois montes. No meio dela, um cavalo esta estirado, pegando as duas pistas. Outro caído no acostamento, apenas a traseira entrando no lado esquerdo.
O carro os atropelou, em boa velocidade, tendo a grande sorte de ter acertado cada um deles com uma lanterna, o que arrebentou apenas a frente do seu carro. Pegasse de frente e o animal seria jogado contra seu para-brisa, vindo para dentro do carro. Graças a Deus, o desfecho foi diferente.
Passamos assustados, mas agradecidos por nao ter acontecido nada de grave com o outro carro e por termos chegado tarde, mas termos chegado bem.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Mais uma

Olá amigos! Nada como a tecnologia. Escrevo este texto dentro da van do Instituto Brasil Solidário, enquanto viajamos para mais um trabalho. 
Faremos o projeto "Sorriso Solidário" no Vale do Jequitinhonha - próximo da divisa entre Minas e Bahia -, onde trabalharemos em 5 municípios nas próximas duas semanas. 
Tentarei fazer uma espécie de diário durante esses dias, postando histórias, novidades ou mesmo contando sobre nosso dia. 
Peço desculpas antecipadamente por eventuais erros de digitação ou pressa na hora de escrever. Na verdade, espero até que eu encontre sinal de internet por aquelas bandas. 
Seguimos em dois veículos, puxando duas carretinhas cheias ao máximo de sua capacidade, com todos os equipamentos, incluindo 3 cadeiras de dentista portáteis. Um Deles é uma caminhonete e o outro é uma van, onde vão 8 pessoas, onde escrevo tendo ao meu lado esquerdo o Vítor Pinduca (cinegrafista e editor), dormindo assustadoramente de boca aberta, e ao meu lado direito a Ana Elisa (coordenadora do IBS), arrumando o lay out da minha palestra. 
É sempre uma felicidade retomar para um trabalho. A saudade das pessoas queridas aperta, mas é abrandada pelo bem que o projeto nos faz e pelos grandes amigos de estrada. 
E é desta estrada que me despeço de vocês. Em breve trarei notícias. 
Um grande abraço a todos!

Wolber Campos