Na equipe do Instituto em que viajamos está o Vitor Pinduca, cinegrafista que faz a parte da inclusão digital e oficina de Rádio e TV do projeto.
Antes de chegarmos na próxima cidade - Marari, no Pernambuco - ele comentava com Érik (parceiro de viagem) sobre o trabalho que estava fazendo no mestrado. Era algo como a comunicação verbal. Há muitas comunidades do interior do Brasil onde as notícias chegam por vias diferentes. Não há muito acesso ao jornal e notícias locais chegam às vezes por um comerciante que veio da cidade vizinha, de um caminhoneiro que passou por uma ponte quebrada, essas coisas.
Demoramos para chegar na pequena comunidade, o caminho era difícil e nos perdemos algumas vezes. Perto das 22h paramos em uma praça onde um som tocava alto e um grande número de jovens tomavam seus "drinks" encostados nos carros ou bancos espalhados por ali.
Paramos a caminhonete - toda adesivada, bem colorida e com fotos - e perguntamos a um rapaz onde ficava a comunidade que estávamos procurando.
- O que? Nossa, que carrão bacana! Oceis são da onde? Por um acaso são do caminhão do Gugu, é?? - nos disparou o jovem antes até mesmo de acabar de ouvir nossa pergunta.
Rimos. O Luis, que estava ao volante, resolveu entrar na brincadeira (que para o jovem não era) e disse que sim, estávamos levando o caminhão para o Dequinha, que nos esperava lá.
Rapidamente o rapaz juntou seus amigos em volta do carro e virou a maior festa. Luis disse que era brincadeira, contou quem éramos de verdade e que precisávamos chegar lá rapidamente. Eles, sempre desconfiando que éramos realmente a equipe do Gugu, disseram que nos guiariam de moto até o local. Perfeito para nós que estávamos cansados àquela altura da noite.
Próximo ao nosso destino o caminhão precisou fazer uma volta maior e os rapazes foram embora, visto que demoraríamos mais um pouco. Agradecemos muito e nos despedimos. Rapaziada nota 10.
Depois da espera o caminhão nos alcançou e chegamos à pequena comunidade. Já era tarde e quase todas as casas estavam fechadas. Um silêncio só.
De repente, no escuro que seguia à nossa frente vimos um vulto, um grande vulto, vindo no meio da rua, em nossa direção. Era uma moça, bem gordinha - bem mesmo - e uma amiga, ambas chapadíssimas e enquanto se aproximavam a ouvimos gritando e gesticulando excessivamente.
Naquele clima de interior, quase meia noite, tudo fechado, era algo um tanto bizarro de acreditar, mas a gordinha, gritando, começou a bater as mãos no capô da caminhonete e, ao pararmos, se aproximou da janela do passageiro, onde o Vitor estava sentado. Só ali conseguimos entender o que dizia:
- Vocês são do Gugu!!! Eu sei, eu sei! Cadê ele?? Moço, eu sou a maior fã do Gugu - não duvidávamos disso...- eu preciso ver ele. Cadê? Eu vou com vocês!!
Abriu a porta e com uma mão - sem exagero! - tirou o pobre e surpreso Vitor de dentro do carro, se jogando ali em seguida.
Eu, no banco de trás, não sabia se gargalhava ou se chorava de medo. Mas na dúvida, dei muita risada.
Foi uma bagunça daquelas, nos seguiu até a praça aos gritos, acordando a todos na cidade, subindo na escada que leva ao teto da nossa van, no quadriciclo que a caminhonete puxava. Quase se jogou dentro do carro.
No dia seguinte muitas pessoas da cidade vieram nos pedir desculpas pela inusitada recepção (mal sabendo o quanto nós havíamos nos divertido). E entre os amigos Vitor não acreditava que poderia ter dado um exemplo melhor e mais rápido ao Érik sobre sua tese de mestrado.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
terça-feira, 14 de julho de 2009
Heróis (por Carol Máxima)
No texto de 18 de junho, "O círculo da vida", contei a história de uma professora - e grande amiga - do interior do Maranhão.
A Carol escreveu um comentário tão legal que mereceu ser colocado aqui como texto. Segue abaixo.
Wolber Campos
'dispensa comentários'
Esta história - claramente real , me faz lembrar que Pedro Bial costuma se dirigir aos seus 'Brothers' chamando-os de 'heróis'; toda vez que ouço isso me questiono quanto à banalização deste termo - sim, porque sendo o sistema como é, os queridos e íntimos 'Brothers' do Brasil são nacionalmente reconhecidos tal qual os nomeou Bial: 'heróis'.
Afinal, o que significa ser Herói?
Acredito que Ser Herói não é ter super-poder - mas também está muito longe de ser apenas 'sobrevivente' em um reality show onde se passa o dia entre intrigas, mordomias, nenhuma privacidade e total falta de conteúdo.
Já me disseram que um Herói é aquele que faz o que tem que ser feito quando precisa ser feito. CONCORDEI. Mas logo me questionei: ’Ok, e daí?! Como é isso?!’
Ao longo do tempo consultei meus conceitos e um monte de outras fontes.
Misturei e organizei tudo, e o ‘como’ ficou assim..:
Ser Herói é ser como a protagonista desta história... É ir além das expectativas do mundo ou mesmo das próprias, é doar seu tempo, ombros, braços, talentos, atenção, energia e até mesmo os sonhos a quem quer que necessite - independente de holofotes, prêmios e aprovações.
Seguir um Sonho... O Sonho de ser Alguém para ajudar alguém a também ser Alguém.
Quantos Heróis 'anônimos' existem neste mundo? Quantos homens e mulheres lutaram por este Sonho?
Pessoas 'comuns' que lutaram para adquirir diplomas, títulos, estabilidade, conforto... Simplesmente para então alcançar seus Sonhos reais... Conquistar sorrisos, semear saúde, distribuir esperança, fortalecer a confiança e a auto-confiança!
Pessoas comuns que dedicam todo o seu tempo ou parte dele ao próximo, ensinando-o, tratando seus dentes, curando suas enfermidades, respeitando-o, dando-lhe asas aos sonhos...
Se um BBB for reconhecido como 'herói', o que serão aqueles que dedicam a vida inteira a uma empreitada como a desta professora? O que serão estes médicos, professores, dentistas, contadores de histórias, empresários, artistas, ambientalistas e sonhadores apaixonados que passam parte de suas vidas como voluntários percorrendo aldeias e cidades carentes, maltratadas, devastadas ou simplesmente esquecidas ao redor do mundo?
A evolução é indispensável, mas a inversão de valores trazida por esta ‘onda’ chega a ser insuportável.
Assim, há pontos aos quais me entrego (sim, necessito de energia, tecnologia, inovação) – mas também há os que não tolero - como a banalização de conceitos, termos e princípios.
NÃO, não enxergo outra denominação que não 'Heróis Humanos'.
Humanos por terem sido capazes de sonhar com a possibilidade de fazer outros também sonharem e Heróis por terem sido capazes de perseguir e alcançar estes sonhos - os seus e daqueles que lhes cruzarem o caminho.
Aos 'Heróis Humanos', todo o meu Respeito e Admiração.
Wolber, por favor, aplauda também por mim a entrega deste diploma!
Carol Máxima
A Carol escreveu um comentário tão legal que mereceu ser colocado aqui como texto. Segue abaixo.
Wolber Campos
'dispensa comentários'
Esta história - claramente real , me faz lembrar que Pedro Bial costuma se dirigir aos seus 'Brothers' chamando-os de 'heróis'; toda vez que ouço isso me questiono quanto à banalização deste termo - sim, porque sendo o sistema como é, os queridos e íntimos 'Brothers' do Brasil são nacionalmente reconhecidos tal qual os nomeou Bial: 'heróis'.
Afinal, o que significa ser Herói?
Acredito que Ser Herói não é ter super-poder - mas também está muito longe de ser apenas 'sobrevivente' em um reality show onde se passa o dia entre intrigas, mordomias, nenhuma privacidade e total falta de conteúdo.
Já me disseram que um Herói é aquele que faz o que tem que ser feito quando precisa ser feito. CONCORDEI. Mas logo me questionei: ’Ok, e daí?! Como é isso?!’
Ao longo do tempo consultei meus conceitos e um monte de outras fontes.
Misturei e organizei tudo, e o ‘como’ ficou assim..:
Ser Herói é ser como a protagonista desta história... É ir além das expectativas do mundo ou mesmo das próprias, é doar seu tempo, ombros, braços, talentos, atenção, energia e até mesmo os sonhos a quem quer que necessite - independente de holofotes, prêmios e aprovações.
Seguir um Sonho... O Sonho de ser Alguém para ajudar alguém a também ser Alguém.
Quantos Heróis 'anônimos' existem neste mundo? Quantos homens e mulheres lutaram por este Sonho?
Pessoas 'comuns' que lutaram para adquirir diplomas, títulos, estabilidade, conforto... Simplesmente para então alcançar seus Sonhos reais... Conquistar sorrisos, semear saúde, distribuir esperança, fortalecer a confiança e a auto-confiança!
Pessoas comuns que dedicam todo o seu tempo ou parte dele ao próximo, ensinando-o, tratando seus dentes, curando suas enfermidades, respeitando-o, dando-lhe asas aos sonhos...
Se um BBB for reconhecido como 'herói', o que serão aqueles que dedicam a vida inteira a uma empreitada como a desta professora? O que serão estes médicos, professores, dentistas, contadores de histórias, empresários, artistas, ambientalistas e sonhadores apaixonados que passam parte de suas vidas como voluntários percorrendo aldeias e cidades carentes, maltratadas, devastadas ou simplesmente esquecidas ao redor do mundo?
A evolução é indispensável, mas a inversão de valores trazida por esta ‘onda’ chega a ser insuportável.
Assim, há pontos aos quais me entrego (sim, necessito de energia, tecnologia, inovação) – mas também há os que não tolero - como a banalização de conceitos, termos e princípios.
NÃO, não enxergo outra denominação que não 'Heróis Humanos'.
Humanos por terem sido capazes de sonhar com a possibilidade de fazer outros também sonharem e Heróis por terem sido capazes de perseguir e alcançar estes sonhos - os seus e daqueles que lhes cruzarem o caminho.
Aos 'Heróis Humanos', todo o meu Respeito e Admiração.
Wolber, por favor, aplauda também por mim a entrega deste diploma!
Carol Máxima
sábado, 11 de julho de 2009
O mundo novo
Criança é sempre uma alegria. Ainda me lembro quando recebi a notícia de que meu irmão mais novo havia engravidado a namorada – e o namoro já estava quase acabando. Depois daquele susto, das preocupações, do término do relacionamento, logo meu sobrinho estava correndo pra lá e para cá e já tinha se tornado a alegria da casa.
Hoje ele tem 6 anos e está aprendendo a ler. É gostoso observar a curiosidade com que tenta decifrar as palavras e frases espalhadas por toda a cidade. É um mundo novo que se abre diante dos pequenos e atentos olhos e podemos ver a alegria que as crianças sentem em poder compartilhar as letras conosco.
Daí podemos ver a importância da alfabetização dos adultos. Um analfabeto - mesmo um semi-alfabetizado – vive num mundo estranho, se afogando num “mar” de sinais complicados esparramado sobre tudo o que vê.
Imagino-me vivendo na China, sem fazer idéia do que significam aqueles mandarins curiosos. Uma sensação de impotência para conviver bem num lugar que não é o meu.
Um adulto que aprende a ler suas primeiras letras é algo totalmente emocionante. Uma criança tem um mundo se descortinando à sua frente, porém tudo está se abrindo, várias informações e conhecimentos que se somam de uma vez só. O analfabeto já passou muitos anos num mundo desconhecido, misterioso e, de repente, tudo se abre, se torna claro. Aqueles símbolos outrora estranhos passam a fazer sentido e uma enxurrada de informações pode ser absorvida.
Ler o nome do creme dental, saber o que diz a manchete do jornal, decifrar uma propaganda na parede de uma rua, ler uma placa de trânsito. De repente tudo passa a fazer sentido.
Uma pessoa, depois de adulta, começa enfim a pensar que também faz parte deste mundo.
Hoje ele tem 6 anos e está aprendendo a ler. É gostoso observar a curiosidade com que tenta decifrar as palavras e frases espalhadas por toda a cidade. É um mundo novo que se abre diante dos pequenos e atentos olhos e podemos ver a alegria que as crianças sentem em poder compartilhar as letras conosco.
Daí podemos ver a importância da alfabetização dos adultos. Um analfabeto - mesmo um semi-alfabetizado – vive num mundo estranho, se afogando num “mar” de sinais complicados esparramado sobre tudo o que vê.
Imagino-me vivendo na China, sem fazer idéia do que significam aqueles mandarins curiosos. Uma sensação de impotência para conviver bem num lugar que não é o meu.
Um adulto que aprende a ler suas primeiras letras é algo totalmente emocionante. Uma criança tem um mundo se descortinando à sua frente, porém tudo está se abrindo, várias informações e conhecimentos que se somam de uma vez só. O analfabeto já passou muitos anos num mundo desconhecido, misterioso e, de repente, tudo se abre, se torna claro. Aqueles símbolos outrora estranhos passam a fazer sentido e uma enxurrada de informações pode ser absorvida.
Ler o nome do creme dental, saber o que diz a manchete do jornal, decifrar uma propaganda na parede de uma rua, ler uma placa de trânsito. De repente tudo passa a fazer sentido.
Uma pessoa, depois de adulta, começa enfim a pensar que também faz parte deste mundo.
domingo, 5 de julho de 2009
Motivação
Dia 10 de junho eu operei meu joelho direito. Pra ser mais específico ainda: o ligamento cruzado anterior (LCA). Graças a Deus a recuperação está ótima, semana passada já havia abandonado as muletas e quase não manco...
Chegou a época das sessões de fisioterapia, excelente e necessária para uma boa recuperação mas não vou mentir, dói um pouco, em algumas horas até muito. Mas paradoxalmente é uma dor boa, que você sai das sessões já andando melhor e a cada dia movimentando mais ainda o joelho.
Na sexta-feira, depois de uma tranquila parte de alongamentos e exercícios de fortalecimento muscular chegou a hora tão temida: a de dobrar o joelho. Primeiro a mulher já me disse uma frase que soa estranho e temida para qualquer homem:
- Vai, vira de bruço...
Barriga pra baixo, perna direita (a operada) ligeiramente dobrada pra cima ela começou a movimentá-la e dobrar bem de leve, me pedindo para que eu a relaxasse. De repente a dobrou, fazendo uma grande pressão.
Mas doeu... Do tipo que você aperta os dentes e poderia espremer uma laranja sem descascar facilmente se a tivesse nas mãos. Quando me contraí, segurando o grito pelo único motivo da vergonha das outras pessoas que estavam na sala, ela me disse simplesmente:
- Não, relaxa, vamos lá - disse enquanto aumentava a pressão.
Na hora ainda pensei: "mas como é que alguém consegue relaxar enquanto sente uma dor dessas, criatura?".
Quando ela soltou a perna e eu comecei a dar gargalhadas involuntárias (não sei se pelo prazer de acabar aquela série ou de nervosismo). Ainda me disse uma gracinha, fazendo uma analogia pra eu lembrar dos meus pacientes que sentiam dor.
- Mas pelo menos eu anestesio eles antes de mexer - respondi mais alto do que eu gostaria, mas me lembrando que ainda teriam mais duas séries, ponderação era algo impensável para mim.
Me lembrei daquele filme "O virgem de 40 anos", em uma cena que ele vai depilar o peito e a dor é tão grande que ele, involuntariamente, começa a xingar a depiladora. Perguntei à moça se alguém já a havia xingado depois de alguma série sem querer, só para extravasar. Como ela me respondeu negativamente me concentrei pra não ser a primeira pessoa a passar aquela vergonha.
Quando começou a segunda vez ela - uma ótima profissional e gente boa também - me contou uma pequena história:
- Eu sei que não é fácil. E você ainda imagina um outro paciente que eu tenho que perdeu a perna direita num acidente de moto, a esquerda quebrou em quatro lugares diferentes. Eu tenho que dobrá-la, assim como estou fazendo com você, mas ele ainda não tem a outra para apoio.
Quando ela dobrou essa vez eu não soltei um mínimo gemido e ainda pensei: "pode apertar o quanto puder...".
Chegou a época das sessões de fisioterapia, excelente e necessária para uma boa recuperação mas não vou mentir, dói um pouco, em algumas horas até muito. Mas paradoxalmente é uma dor boa, que você sai das sessões já andando melhor e a cada dia movimentando mais ainda o joelho.
Na sexta-feira, depois de uma tranquila parte de alongamentos e exercícios de fortalecimento muscular chegou a hora tão temida: a de dobrar o joelho. Primeiro a mulher já me disse uma frase que soa estranho e temida para qualquer homem:
- Vai, vira de bruço...
Barriga pra baixo, perna direita (a operada) ligeiramente dobrada pra cima ela começou a movimentá-la e dobrar bem de leve, me pedindo para que eu a relaxasse. De repente a dobrou, fazendo uma grande pressão.
Mas doeu... Do tipo que você aperta os dentes e poderia espremer uma laranja sem descascar facilmente se a tivesse nas mãos. Quando me contraí, segurando o grito pelo único motivo da vergonha das outras pessoas que estavam na sala, ela me disse simplesmente:
- Não, relaxa, vamos lá - disse enquanto aumentava a pressão.
Na hora ainda pensei: "mas como é que alguém consegue relaxar enquanto sente uma dor dessas, criatura?".
Quando ela soltou a perna e eu comecei a dar gargalhadas involuntárias (não sei se pelo prazer de acabar aquela série ou de nervosismo). Ainda me disse uma gracinha, fazendo uma analogia pra eu lembrar dos meus pacientes que sentiam dor.
- Mas pelo menos eu anestesio eles antes de mexer - respondi mais alto do que eu gostaria, mas me lembrando que ainda teriam mais duas séries, ponderação era algo impensável para mim.
Me lembrei daquele filme "O virgem de 40 anos", em uma cena que ele vai depilar o peito e a dor é tão grande que ele, involuntariamente, começa a xingar a depiladora. Perguntei à moça se alguém já a havia xingado depois de alguma série sem querer, só para extravasar. Como ela me respondeu negativamente me concentrei pra não ser a primeira pessoa a passar aquela vergonha.
Quando começou a segunda vez ela - uma ótima profissional e gente boa também - me contou uma pequena história:
- Eu sei que não é fácil. E você ainda imagina um outro paciente que eu tenho que perdeu a perna direita num acidente de moto, a esquerda quebrou em quatro lugares diferentes. Eu tenho que dobrá-la, assim como estou fazendo com você, mas ele ainda não tem a outra para apoio.
Quando ela dobrou essa vez eu não soltei um mínimo gemido e ainda pensei: "pode apertar o quanto puder...".
sexta-feira, 26 de junho de 2009
1 ano!!!
Pois é amigos, hoje este blog completa um ano de existência, mas com um corpinho de 6 meses...
Agradeço a todos que perderam alguns minutos por essas páginas durante este tempo. Espero que estejam se sentindo tão a vontade como eu me sinto escrevendo aqui.
E que venham muitos e muitos outros anos...
Grande abraço!!
Wolber Campos
Agradeço a todos que perderam alguns minutos por essas páginas durante este tempo. Espero que estejam se sentindo tão a vontade como eu me sinto escrevendo aqui.
E que venham muitos e muitos outros anos...
Grande abraço!!
Wolber Campos
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Apenas mais um domingo de futebol
Aquele seria um dia de fim de semana igual aos demais. Porém, naquele ensolarado domingo, ele estava mais feliz do que o habitual: era dia de jogo. Sempre sentia um friozinho na barriga nesses dias, aquela felicidade que não conseguia explicar.
E como um simples jogo de futebol consegue fazer isso? Porque consegue dissipar preocupações, problemas, o faz se esquecer da dura rotina de office boy, do chato do patrão... Nada mais tinha importância naquele dia, apenas o seu time do coração. E como é democrático, essa mesma empolgação envolve desde o operário ao presidente da empresa (até o da República!).
Vestindo a camisa de seu time, pegou o ônibus e seguiu para o estádio com dois amigos. O Assunto, claro: a grande final.
De repente ouviu alguém, dois bancos a frente, mesma camisa que a sua, xingar violentamente alguém pela janela. Metade do corpo para fora, derramava os palavrões sobre um acanhado carro onde estava duas pessoas com a camisa do time adversário.
Quando outros passageiros uniformisados repetiram o gesto ele não pensou duas vezes: com seus amigos gritou até que sua garganta doesse os maiores impropérios na direção do, agora amedrontado, torcedor adversário.
Ele que sempre teve um ar mais pacato até se surpreendeu com sua atitude, achou graça e sentou novamente com os amigos, comentando entre risos a cara de medo do pobre motorista.
Hora do jogo, alegria, raiva, apreensão, sentimentos vão e vem numa mistura de sensações indiscritível. Tudo culminando com a vitória do seu time. Seria um dia perfeito, não fosse o começo de uma confusão entre as torcidas.
Gritos, tumulto, o alambrado no chão, as duas torcidas agora se degladiavam no gramado. O palco, outrora de um simples jogo de futebol, se tornava um embate entre duas equipes furiosas.
Ele não pensou duas vezes e junto aos seus amigos desceu as arquibancadas para se juntar aos torcedores do seu time que corriam risco diante daqueles horríveis adversários. Mal sabia que na cabeça dos outros que desciam os degraus da torcida adversária se passava o mesmo pensamento.
Fosse algo no Oriente Médio, Faixa de Gaza, onde há uma história de ódio entre povos diferentes, judeus e palestinos, pessoas que aprendem a odiar seus semelhantes de outra pátria desde criança ainda acharíamos uma explicação. Não justa, mas seria uma explicação. Ali lutavam jovens, furiosamente com pedaços de pau, pedras e um ódio mortal, simplesmente porque o outro a sua frente estava usando uma camiseta de outro time. Nada mais nada menos.
E foi assim que outro office boy, que também lutava diariamente por seu salário no fim do mês se aproximou. Outro jovem que, se trabalhasse na mesma repartição, poderia ser facilmente seu amigo. Tinha um enorme pedaço de pau nas mãos, e num momento de distração desferiu-o em sua cabeça.
Dias depois ele faleceu. Sua mãe não entendia, ninguém entendia. Era pra ser apenas mais um domingo de futebol.
E como um simples jogo de futebol consegue fazer isso? Porque consegue dissipar preocupações, problemas, o faz se esquecer da dura rotina de office boy, do chato do patrão... Nada mais tinha importância naquele dia, apenas o seu time do coração. E como é democrático, essa mesma empolgação envolve desde o operário ao presidente da empresa (até o da República!).
Vestindo a camisa de seu time, pegou o ônibus e seguiu para o estádio com dois amigos. O Assunto, claro: a grande final.
De repente ouviu alguém, dois bancos a frente, mesma camisa que a sua, xingar violentamente alguém pela janela. Metade do corpo para fora, derramava os palavrões sobre um acanhado carro onde estava duas pessoas com a camisa do time adversário.
Quando outros passageiros uniformisados repetiram o gesto ele não pensou duas vezes: com seus amigos gritou até que sua garganta doesse os maiores impropérios na direção do, agora amedrontado, torcedor adversário.
Ele que sempre teve um ar mais pacato até se surpreendeu com sua atitude, achou graça e sentou novamente com os amigos, comentando entre risos a cara de medo do pobre motorista.
Hora do jogo, alegria, raiva, apreensão, sentimentos vão e vem numa mistura de sensações indiscritível. Tudo culminando com a vitória do seu time. Seria um dia perfeito, não fosse o começo de uma confusão entre as torcidas.
Gritos, tumulto, o alambrado no chão, as duas torcidas agora se degladiavam no gramado. O palco, outrora de um simples jogo de futebol, se tornava um embate entre duas equipes furiosas.
Ele não pensou duas vezes e junto aos seus amigos desceu as arquibancadas para se juntar aos torcedores do seu time que corriam risco diante daqueles horríveis adversários. Mal sabia que na cabeça dos outros que desciam os degraus da torcida adversária se passava o mesmo pensamento.
Fosse algo no Oriente Médio, Faixa de Gaza, onde há uma história de ódio entre povos diferentes, judeus e palestinos, pessoas que aprendem a odiar seus semelhantes de outra pátria desde criança ainda acharíamos uma explicação. Não justa, mas seria uma explicação. Ali lutavam jovens, furiosamente com pedaços de pau, pedras e um ódio mortal, simplesmente porque o outro a sua frente estava usando uma camiseta de outro time. Nada mais nada menos.
E foi assim que outro office boy, que também lutava diariamente por seu salário no fim do mês se aproximou. Outro jovem que, se trabalhasse na mesma repartição, poderia ser facilmente seu amigo. Tinha um enorme pedaço de pau nas mãos, e num momento de distração desferiu-o em sua cabeça.
Dias depois ele faleceu. Sua mãe não entendia, ninguém entendia. Era pra ser apenas mais um domingo de futebol.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Círculo da vida
Se um dia eu fosse buscar um exemplo, se tivesse que achar alguém para admirar, eu caminharia para o sertão do Maranhão. Mas ali, não me contentaria apenas em chegar a uma pequena cidade, adentraria mais, até a zona rural. Ainda assim, não ficaria na área mais povoada, seguiria por uma estradinha de terra, muito bonita, completamente arborizada, que permeando por entre árvores dos dois lados me fizessem observar pequenas plantações de arroz e milho por trás delas.
Esse caminho me levaria a uma simples e bonita casa, em um sítio, onde a luz elétrica ainda não chegou.
Para nós, que viemos de uma cidade grande e estamos cansados de tanta poluição (do ar, sonora, visual...), é um lugar delicioso em que a ausência de energia apenas aumenta sua beleza bucólica. Mas os moradores sonham com seu advento. Tarefas simples se tornam complicadas em seu dia a dia: conservar alimentos, ter uma televisão, estudar à noite...
“Tomamos sempre muito cuidado com a quantidade de comida a ser feita; não pode sobrar nada, senão temos que jogar para as galinhas...” – dizem por ali.
Nessa casa vive uma feliz família, típica do sertão, onde o pai cuida de suas roças e a mãe das tarefas do lar. Apesar de não terem conseguido seguir com os estudos esses exemplares pais fazem questão dos filhos irem à escola e que concluam os seus. Fato que não é tão comum como pensamos.
“O pai de uma professora daqui da escola não queria que ela estudasse, dizia que mulher tinha é que tomar conta da casa. Ela teve que estudar contra a vontade dele, chegando em casa e ainda dando conta de todos os afazeres domésticos.” – conta uma colega.
A primeira filha já está prestes a se formar na faculdade de letras. Sempre estudiosa seguiu com o magistrado e se tornou uma jovem professora, lecionando na escola de seu bairro. É daquelas pessoas que tem um forte senso de justiça e se incomoda com a falta de atitude alheia para melhorar a vida de seus alunos ou da comunidade em que vive.
Hoje nos conta, emocionada, as dificuldades que passou para entrar na faculdade. Depois de trabalhar durante o dia e ajudar nos afazeres de casa acendia uma vela ao lado de sua cama, para poder estudar para o vestibular.
Certa noite sua mãe se emocionou ao ver a filha cansada dormindo, livro aberto sobre o peito, cabeça pendendo para o lado, deixando os cabelos muito próximo à chama da vela que se consumia vagarosamente, iluminando o quarto com sua fraca luz.
Para chegar à escola em que estudou – e que hoje é professora – seguia uma trilha em meio às árvores, onde se atravessa até um pequeno riacho, caminho que seus irmãos usam atualmente.
Cansaço? Nem pensar, a única parte difícil do trajeto é se proteger das mutucas, inseto que tem uma picada muito forte e habita grande parte do trajeto.
“Nada que uns galhos colhidos pelo caminho não ajudem a espantar.” – dizem seus irmãos batendo com os arbustos nas pernas e costas enquanto andam.
A alguns meses de sua formatura sonha em melhorar a vida de seus alunos, de quem cuida com o carinho de uma mãe que quer o melhor para seus filhos. Sabe que as dificuldades pelas quais passou apenas a deixaram mais preparada para isso e com mais vontade de vencer na vida.
E aguardando o grande dia de pegar o diploma continua rodando o ciclo da vida, ensinando “seus” pequenos, sentados nas mesmas cadeiras em que há alguns anos atrás ela mesma aprendia a ler.
E nesse dia nós estaremos lá, ao lado dela.
Esse caminho me levaria a uma simples e bonita casa, em um sítio, onde a luz elétrica ainda não chegou.
Para nós, que viemos de uma cidade grande e estamos cansados de tanta poluição (do ar, sonora, visual...), é um lugar delicioso em que a ausência de energia apenas aumenta sua beleza bucólica. Mas os moradores sonham com seu advento. Tarefas simples se tornam complicadas em seu dia a dia: conservar alimentos, ter uma televisão, estudar à noite...
“Tomamos sempre muito cuidado com a quantidade de comida a ser feita; não pode sobrar nada, senão temos que jogar para as galinhas...” – dizem por ali.
Nessa casa vive uma feliz família, típica do sertão, onde o pai cuida de suas roças e a mãe das tarefas do lar. Apesar de não terem conseguido seguir com os estudos esses exemplares pais fazem questão dos filhos irem à escola e que concluam os seus. Fato que não é tão comum como pensamos.
“O pai de uma professora daqui da escola não queria que ela estudasse, dizia que mulher tinha é que tomar conta da casa. Ela teve que estudar contra a vontade dele, chegando em casa e ainda dando conta de todos os afazeres domésticos.” – conta uma colega.
A primeira filha já está prestes a se formar na faculdade de letras. Sempre estudiosa seguiu com o magistrado e se tornou uma jovem professora, lecionando na escola de seu bairro. É daquelas pessoas que tem um forte senso de justiça e se incomoda com a falta de atitude alheia para melhorar a vida de seus alunos ou da comunidade em que vive.
Hoje nos conta, emocionada, as dificuldades que passou para entrar na faculdade. Depois de trabalhar durante o dia e ajudar nos afazeres de casa acendia uma vela ao lado de sua cama, para poder estudar para o vestibular.
Certa noite sua mãe se emocionou ao ver a filha cansada dormindo, livro aberto sobre o peito, cabeça pendendo para o lado, deixando os cabelos muito próximo à chama da vela que se consumia vagarosamente, iluminando o quarto com sua fraca luz.
Para chegar à escola em que estudou – e que hoje é professora – seguia uma trilha em meio às árvores, onde se atravessa até um pequeno riacho, caminho que seus irmãos usam atualmente.
Cansaço? Nem pensar, a única parte difícil do trajeto é se proteger das mutucas, inseto que tem uma picada muito forte e habita grande parte do trajeto.
“Nada que uns galhos colhidos pelo caminho não ajudem a espantar.” – dizem seus irmãos batendo com os arbustos nas pernas e costas enquanto andam.
A alguns meses de sua formatura sonha em melhorar a vida de seus alunos, de quem cuida com o carinho de uma mãe que quer o melhor para seus filhos. Sabe que as dificuldades pelas quais passou apenas a deixaram mais preparada para isso e com mais vontade de vencer na vida.
E aguardando o grande dia de pegar o diploma continua rodando o ciclo da vida, ensinando “seus” pequenos, sentados nas mesmas cadeiras em que há alguns anos atrás ela mesma aprendia a ler.
E nesse dia nós estaremos lá, ao lado dela.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Nem tudo é o que parece
O vídeo abaixo mostra a travessia da ponte que nos separava da cidade de Poço das Trincheiras, que fica no sertão de Alagoas. Um lugar daqueles bem característicos, que também poderia ser cenário de muitos filmes que se passam no sertão nordestino (disse “também” porque a última cidade em que trabalhamos foi Cabaceiras – PB, onde foi gravado “O auto da compadecida” e mais de 20 outros filmes). A pequena comunidade se situa entre um grande – e lindo!- monte e um rio, bem caudaloso nessa época de muitas chuvas, mas que em grande parte do ano fica seco.
Nessa região as chuvas não causaram tanta destruição como em outras partes do nordeste neste ano, mas muitas barragens tiveram que abrir algumas comportas e o aumento dos rios impediu a ligação entre alguns locais deixando muitos alunos sem poder ir às aulas ou trabalhadores aos seus serviços.
Desse modo sabíamos que haveria grande chance de dormir na comunidade se o rio subisse um pouco mais, por isso já nos preparamos com alguma muda de roupa.
No final deste primeiro dia encontrei com meus amigos na praça. O calor estava enorme e uma cervejinha gelada parecia uma miragem depois de um dia de trabalho. Ao pegar meu copo no pequeno bar no meio da praça – que me lembrava um trailer – o rapaz me perguntou:
- Algum de vocês toca violão?
Geralmente nos consideramos garimpeiros de locais para se fazer um lual. Como é difícil conseguirmos tempo para visitar as bonitas cidades por onde passamos durante o dia é de noite que temos chance de ir para alguma cachoeira, rio, ou qualquer lugar onde o contato com a natureza seja uma dádiva para nós que vivemos em meio a tantos prédios e cimento.
Eu disse que tocava um pouco e o ouvi respondendo que então pegaria um violão para eu tocar com a “rapaziada” ali do lado.
Olhei e vi a “rapaziada” tão “alta” que pareciam estar flutuando ao lado do bar. Pensei na furada em que poderia estar me metendo. Já tive situações em que toquei com uma galera completamente “breaca” e não é fácil. Geralmente pedem músicas que você não sabe, reclamam brincando que não toca nada, não curtem as poucas que você tenta tocar... Enfim, olhei para meu copo de cerveja geladinho e pensei como faria para continuar apenas na companhia agradável dele.
Sentei por 2 minutos e ouvi:
- Ô! Olha aqui! – era o rapaz de dentro do bar, erguendo triunfante um violão, como se fosse um troféu.
Eu, em minha involução, disse aos amigos que tocaria apenas músicas em inglês e de rock, esperando que eles não curtissem e me liberassem rapidamente. Se tocasse um “Raul Seixas” ou um “Legião Urbana” estaria perdido: só sairia de lá depois das 5 da manhã!
No meio da grande roda que ali havia peguei o instrumento, me sentei e os adverti das poucas músicas e do único estilo que conhecia. Para minha surpresa todos sorrindo, completamente simpáticos, disseram para eu mandar bala, queriam apenas me ver tocar.
Comecei com “Plush”, música dos Stone Temple Pilots e dei risada quando todos acompanhavam com palmas e um no meio cantarolava letras enroladas, mas que mostrava que conhecia a música. Terminei – surpreso! – diante de palmas. Comecei a mudar minha opinião e continuei com “Black” do Pearl Jam, incrivelmente mais um sucesso de audiência. O pessoal era tão gente boa que fiquei com vergonha do conceito que tinha feito antes.
Um homem que estava por ali e tocava com eles antes de eu chegar me pediu para deixá-lo tocar uma música, o que prontamente atendi. Disse que tocaria uma que ele mesmo havia composto e começou. Foi uma música tão bonita que chegou a emocionar, mesmo, sem exagero. Música com originalidade e qualidade, que não só não perde nada para músicos de sucesso que estão por aí como é melhor do que a grande maioria de coisas que o rádio nos empurra ouvido a dentro.
Tocou mais umas 3 músicas próprias e ficamos – eu e alguns amigos da turma que ajudavam a encher a roda naquele momento – impressionados com o som. Newton, deve ter em torno de 40 anos, mais um talento por esse Brasil a fora.
Tudo estava tão agradável que quando me passou o violão toquei Raul e Legião, que tanto me pediam, desmascarando a mentira deslavada que contei no começo. A noite iria longe, ainda mais quando nos apresentaram Doca, um sanfoneiro gente boníssima que trouxe, além da sua amada sanfona, um triângulo e uma zabumba e o forró começou muito animado.
E a noite realmente foi longe; dormimos pouco e acordamos cedo para o trabalho na escola. Mas um daqueles dias em que não acordamos nem um pouco cansados, pensando: “Que noite!”
Nessa região as chuvas não causaram tanta destruição como em outras partes do nordeste neste ano, mas muitas barragens tiveram que abrir algumas comportas e o aumento dos rios impediu a ligação entre alguns locais deixando muitos alunos sem poder ir às aulas ou trabalhadores aos seus serviços.
Desse modo sabíamos que haveria grande chance de dormir na comunidade se o rio subisse um pouco mais, por isso já nos preparamos com alguma muda de roupa.
No final deste primeiro dia encontrei com meus amigos na praça. O calor estava enorme e uma cervejinha gelada parecia uma miragem depois de um dia de trabalho. Ao pegar meu copo no pequeno bar no meio da praça – que me lembrava um trailer – o rapaz me perguntou:
- Algum de vocês toca violão?
Geralmente nos consideramos garimpeiros de locais para se fazer um lual. Como é difícil conseguirmos tempo para visitar as bonitas cidades por onde passamos durante o dia é de noite que temos chance de ir para alguma cachoeira, rio, ou qualquer lugar onde o contato com a natureza seja uma dádiva para nós que vivemos em meio a tantos prédios e cimento.
Eu disse que tocava um pouco e o ouvi respondendo que então pegaria um violão para eu tocar com a “rapaziada” ali do lado.
Olhei e vi a “rapaziada” tão “alta” que pareciam estar flutuando ao lado do bar. Pensei na furada em que poderia estar me metendo. Já tive situações em que toquei com uma galera completamente “breaca” e não é fácil. Geralmente pedem músicas que você não sabe, reclamam brincando que não toca nada, não curtem as poucas que você tenta tocar... Enfim, olhei para meu copo de cerveja geladinho e pensei como faria para continuar apenas na companhia agradável dele.
Sentei por 2 minutos e ouvi:
- Ô! Olha aqui! – era o rapaz de dentro do bar, erguendo triunfante um violão, como se fosse um troféu.
Eu, em minha involução, disse aos amigos que tocaria apenas músicas em inglês e de rock, esperando que eles não curtissem e me liberassem rapidamente. Se tocasse um “Raul Seixas” ou um “Legião Urbana” estaria perdido: só sairia de lá depois das 5 da manhã!
No meio da grande roda que ali havia peguei o instrumento, me sentei e os adverti das poucas músicas e do único estilo que conhecia. Para minha surpresa todos sorrindo, completamente simpáticos, disseram para eu mandar bala, queriam apenas me ver tocar.
Comecei com “Plush”, música dos Stone Temple Pilots e dei risada quando todos acompanhavam com palmas e um no meio cantarolava letras enroladas, mas que mostrava que conhecia a música. Terminei – surpreso! – diante de palmas. Comecei a mudar minha opinião e continuei com “Black” do Pearl Jam, incrivelmente mais um sucesso de audiência. O pessoal era tão gente boa que fiquei com vergonha do conceito que tinha feito antes.
Um homem que estava por ali e tocava com eles antes de eu chegar me pediu para deixá-lo tocar uma música, o que prontamente atendi. Disse que tocaria uma que ele mesmo havia composto e começou. Foi uma música tão bonita que chegou a emocionar, mesmo, sem exagero. Música com originalidade e qualidade, que não só não perde nada para músicos de sucesso que estão por aí como é melhor do que a grande maioria de coisas que o rádio nos empurra ouvido a dentro.
Tocou mais umas 3 músicas próprias e ficamos – eu e alguns amigos da turma que ajudavam a encher a roda naquele momento – impressionados com o som. Newton, deve ter em torno de 40 anos, mais um talento por esse Brasil a fora.
Tudo estava tão agradável que quando me passou o violão toquei Raul e Legião, que tanto me pediam, desmascarando a mentira deslavada que contei no começo. A noite iria longe, ainda mais quando nos apresentaram Doca, um sanfoneiro gente boníssima que trouxe, além da sua amada sanfona, um triângulo e uma zabumba e o forró começou muito animado.
E a noite realmente foi longe; dormimos pouco e acordamos cedo para o trabalho na escola. Mas um daqueles dias em que não acordamos nem um pouco cansados, pensando: “Que noite!”
quinta-feira, 4 de junho de 2009
A ponte
Segue o vídeo dessa última viagem de maio da travessia de uma ponte inundada, rumo à escola em Poço das Trincheiras - AL. Antes que alguém ache um absurdo os garotos sobre o quadriciclo na carretinha que rebocávamos, não precisam se preocupar. O rio não era tão profundo e caso a água levasse o equipamento eles só levariam um banho...
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Políticos...
Numa das cidades em que trabalhamos tive uma dura lição. Às vezes, devido a tantas coisas que vemos por aí, ou em notícias, nos achamos "macacos velhos", descolados. Cansei de ver prefeitos luxuosos, saindo de suas "Hi-Luxes" ao lado de bairros se desmanchando de tão carentes.
Numa cerimônia de abertura dos trabalhos o prefeito discursou. Num tom pausado e sincero o bondoso velhinho (que para ajudar ainda me lembrava Papai Noel) discorreu sobre a alegria da cidade receber pessoas que vinham de longe pensando em realmente ajudar as pessoas. Prosseguiu comentando sobre dificuldades que a cidade passava e como estaria disposto a nos ajudar para melhorar a vida dos sofridos cidadãos.
Por um momento pensei: "Poxa, esse prefeito parece que realmente tem boas intenções". Me pareceu diferente de quase todos que já havia visto e imaginei que falar com ele sobre o plano de saúde bucal que estávamos implantando nas escolas seria muito interessante. Um prefeito facilmente o espalharia por todas as escolas municipais e poderia diminuir o número de crianças com dor de dente, filas nos postos de saúde, gastos com materiais odontológicos ali, enfim, comecei a imaginar um futuro sorrindo em dentes brilhantes de garotos felizes na cidade utópica em que estávamos.
Discurso acabado, sob as palmas de um grande público, o prefeito se aproximou e nos cumprimentou, um por um, perguntando nosso nome, com um franco e bondoso sorriso no rosto, o que só me confirmou minhas impressões.
Após o último cumprimento, enquanto todos se levantavam e seguiam aos seus postos para iniciar o primeiro dia de trabalho na cidade, me coloquei ao seu lado e, pacientemente, o esperei acabar de conversar com o diretor da escola.
- Senhor prefeito, poderia falar um pouco com o senhor? - perguntei feliz já esperando um bom papo.
Comentei sobre o sucesso do trabalho em outras cidades, que escolas haviam diminuído muito o número de crianças que faltavam às aulas por motivo de dor de dente, isso em apenas um ano de implantação de uma escovação diária, do quanto isso diminuiria gastos e filas nos postos de saúde...
Enquanto eu falava percebi que seus olhos iam ficando distantes, como se estivessem procurando alguém em volta, não dando muita importância ao que eu dizia. Não leio pensamentos, mas quase podia ouvi-lo pensando: "Como me livro desse chato...". Uma sensação horrível começou a me invadir. Me sentia um idiota, falando praticamente sozinho, até que ele mesmo aliviou minha agonia ao me interromper:
- Escuta, você conhece o doutor Francisco?
Disse que não (como se fosse possível conhecer um dentista numa cidade do sertão em que nunca havia estado antes).
- Você pode conversar com ele sobre isso.
Me pediu licença e saiu, jogando acenos simpáticos aos que acenavam para ele.
Me sentindo um garotinho enganado na peça mais antiga do mundo fui para a minha sala atender, jurando nunca, mas nunca mais, ser enganado por um político novamente!
Numa cerimônia de abertura dos trabalhos o prefeito discursou. Num tom pausado e sincero o bondoso velhinho (que para ajudar ainda me lembrava Papai Noel) discorreu sobre a alegria da cidade receber pessoas que vinham de longe pensando em realmente ajudar as pessoas. Prosseguiu comentando sobre dificuldades que a cidade passava e como estaria disposto a nos ajudar para melhorar a vida dos sofridos cidadãos.
Por um momento pensei: "Poxa, esse prefeito parece que realmente tem boas intenções". Me pareceu diferente de quase todos que já havia visto e imaginei que falar com ele sobre o plano de saúde bucal que estávamos implantando nas escolas seria muito interessante. Um prefeito facilmente o espalharia por todas as escolas municipais e poderia diminuir o número de crianças com dor de dente, filas nos postos de saúde, gastos com materiais odontológicos ali, enfim, comecei a imaginar um futuro sorrindo em dentes brilhantes de garotos felizes na cidade utópica em que estávamos.
Discurso acabado, sob as palmas de um grande público, o prefeito se aproximou e nos cumprimentou, um por um, perguntando nosso nome, com um franco e bondoso sorriso no rosto, o que só me confirmou minhas impressões.
Após o último cumprimento, enquanto todos se levantavam e seguiam aos seus postos para iniciar o primeiro dia de trabalho na cidade, me coloquei ao seu lado e, pacientemente, o esperei acabar de conversar com o diretor da escola.
- Senhor prefeito, poderia falar um pouco com o senhor? - perguntei feliz já esperando um bom papo.
Comentei sobre o sucesso do trabalho em outras cidades, que escolas haviam diminuído muito o número de crianças que faltavam às aulas por motivo de dor de dente, isso em apenas um ano de implantação de uma escovação diária, do quanto isso diminuiria gastos e filas nos postos de saúde...
Enquanto eu falava percebi que seus olhos iam ficando distantes, como se estivessem procurando alguém em volta, não dando muita importância ao que eu dizia. Não leio pensamentos, mas quase podia ouvi-lo pensando: "Como me livro desse chato...". Uma sensação horrível começou a me invadir. Me sentia um idiota, falando praticamente sozinho, até que ele mesmo aliviou minha agonia ao me interromper:
- Escuta, você conhece o doutor Francisco?
Disse que não (como se fosse possível conhecer um dentista numa cidade do sertão em que nunca havia estado antes).
- Você pode conversar com ele sobre isso.
Me pediu licença e saiu, jogando acenos simpáticos aos que acenavam para ele.
Me sentindo um garotinho enganado na peça mais antiga do mundo fui para a minha sala atender, jurando nunca, mas nunca mais, ser enganado por um político novamente!
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Nova empreitada
É isso aí amigos!
O Instituto Brasil Solidário fechou uma sólida parceria com as Casas Bahia, empresa que nos ajuda a muitos anos. Agora o IBS realiza os trabalhos no sertão junto aos Amigos do Planeta, braço social da empresa.
Serão dois anos de trabalhos nos moldes que já vem sendo realizados por cidades do nordeste brasileiro e a primeira etapa se inicia agora, dia 02/05/2009.
Serão 7 cidades nesta etapa, partindo do norte de Minas e terminando na Paraíba. Fazem parte do programa escolas das cidades de Jaíba (MG), Iraquara (BA), Bendegó (BA), Poço Redondo (SE), Poço das Trincheiras (AL), Manari (PE) e Cabaceiras (PB).
Serão 22 dias e traremos mais notícias assim que voltarmos.
Quem quiser pode acompanhar notícias colocadas on-line pelos alunos e professores das aulas de inclusão digital pelo blog: http://www.brasilsolidario.org.br/blogamigosdoplaneta
Grande abraço e até a volta!
Wolber Campos
O Instituto Brasil Solidário fechou uma sólida parceria com as Casas Bahia, empresa que nos ajuda a muitos anos. Agora o IBS realiza os trabalhos no sertão junto aos Amigos do Planeta, braço social da empresa.
Serão dois anos de trabalhos nos moldes que já vem sendo realizados por cidades do nordeste brasileiro e a primeira etapa se inicia agora, dia 02/05/2009.
Serão 7 cidades nesta etapa, partindo do norte de Minas e terminando na Paraíba. Fazem parte do programa escolas das cidades de Jaíba (MG), Iraquara (BA), Bendegó (BA), Poço Redondo (SE), Poço das Trincheiras (AL), Manari (PE) e Cabaceiras (PB).
Serão 22 dias e traremos mais notícias assim que voltarmos.
Quem quiser pode acompanhar notícias colocadas on-line pelos alunos e professores das aulas de inclusão digital pelo blog: http://www.brasilsolidario.org.br/blogamigosdoplaneta
Grande abraço e até a volta!
Wolber Campos
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Terras
Nos últimos dias voltaram aos noticiários cenas sobre o MST (Movimento dos Sem Terra) onde os integrantes, portando muitas armas de fogo, tentavam invadir uma propriedade, o que gerou uma troca de tiros com seguranças digna de um filme de guerra.
Quando assisti a essas lamentáveis imagens me perguntei o que aconteceu com aquela velha máxima que ouvia quando era criança: "divisão agrária dos latifúndios improdutivos para trabalhadores rurais que os tornariam produtivos, melhorando a condição de sua família e do país"?
Uma invasão que necessite armas, trocas de tiros com seguranças e caseiros aflitos soa mais como um assalto do que qualquer outra coisa!
É uma pena que algo comece com um bonito ideal e, de repente, ao crescer começa a tomar atitudes equivocadas e muitas vezes agrupar pessoas com interesses excusos.
Já realizamos um trabalho social em um assentamento Sem Terra, em Goiânia, em 2006. Ali tivemos um maior contato com os moradores e com parte da realidade das pessoas. Algumas histórias nos deixavam surpresos. Há pessoas que alugam suas casas na cidade e se unem ao movimento, visando ganhar mais um terreno e aumentar o patrimônio. Outros, após conseguir a terra assentada a vendem ou arrendam.
Não devemos generalizar, há pessoas honestas e trabalhadores que realmente necessitam de uma terra e querem trabalhá-la da melhor forma, mas não há como negar que a cada dia mais se juntam pessoas desonestas que levam o movimento cada vez mais para o buraco. Pessoas que visam levar vantagem, se beneficiar do dinheiro público. Coisas que inflam seus discursos quando criticam os políticos que tanto envergonham o nosso país.
Quando assisti a essas lamentáveis imagens me perguntei o que aconteceu com aquela velha máxima que ouvia quando era criança: "divisão agrária dos latifúndios improdutivos para trabalhadores rurais que os tornariam produtivos, melhorando a condição de sua família e do país"?
Uma invasão que necessite armas, trocas de tiros com seguranças e caseiros aflitos soa mais como um assalto do que qualquer outra coisa!
É uma pena que algo comece com um bonito ideal e, de repente, ao crescer começa a tomar atitudes equivocadas e muitas vezes agrupar pessoas com interesses excusos.
Já realizamos um trabalho social em um assentamento Sem Terra, em Goiânia, em 2006. Ali tivemos um maior contato com os moradores e com parte da realidade das pessoas. Algumas histórias nos deixavam surpresos. Há pessoas que alugam suas casas na cidade e se unem ao movimento, visando ganhar mais um terreno e aumentar o patrimônio. Outros, após conseguir a terra assentada a vendem ou arrendam.
Não devemos generalizar, há pessoas honestas e trabalhadores que realmente necessitam de uma terra e querem trabalhá-la da melhor forma, mas não há como negar que a cada dia mais se juntam pessoas desonestas que levam o movimento cada vez mais para o buraco. Pessoas que visam levar vantagem, se beneficiar do dinheiro público. Coisas que inflam seus discursos quando criticam os políticos que tanto envergonham o nosso país.
domingo, 19 de abril de 2009
A crônica da minha vida (até agora...)
Todos nós temos aquela história, aquele texto, que lemos e nos toca no mesmo instante. Que não resistimos em relê-lo logo em seguida. Que consegue até nos emocionar profundamente.
Este fim de semana eu li a minha. Uma crônica do Rubem Braga que tive a certeza, quando acabei de ler, que foi a história mais bonita e bem escrita que conheci em toda minha vida. Tem o toque de beleza, de engraçada, de emocionante que todo autor gostaria de colocar em suas linhas. Pra mim é perfeita. E gostaria de dividir com vocês.
Meu Ideal Seria Escrever... (por Rubem Braga)
Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".
E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.
Este fim de semana eu li a minha. Uma crônica do Rubem Braga que tive a certeza, quando acabei de ler, que foi a história mais bonita e bem escrita que conheci em toda minha vida. Tem o toque de beleza, de engraçada, de emocionante que todo autor gostaria de colocar em suas linhas. Pra mim é perfeita. E gostaria de dividir com vocês.
Meu Ideal Seria Escrever... (por Rubem Braga)
Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".
E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
O sexo dos anjos
O ser humano, por natureza, gosta de uma discussão. Claro, de preferência pacífica (se bem que há muitas pessoas que parecem sentir prazer em um bate boca). Desde os primórdios da história, seja numa conversa entre dois amigos ou em discussões acaloradas por grandes grupos, um dos principais passatempos do homem foi o diálogo. Ainda bem, pois assim evoluímos ao patamar onde estamos, socialmente e intelectualmente.
Porém quantas não são as vezes em que nos pegamos em discussões sem fim e, o pior, sem sentido? Como insanos nos esquecemos de olhar o ponto principal e inebriados pelo calor de uma conversa passamos a enxergá-la como uma queda de braços ao invés de vê-la como um diálogo pacífico para se chegar a um ponto comum.
Futebol, política, ciúmes. Fatos que muitas vezes tocam nosso cérebro em seu ponto mais obscuro e carnal, despertando paixões adormecidas que muitas vezes gostaríamos de esquecer. Paixões que muitas vezes despertam como aquele calafrio que sobe pela espinha até o couro cabeludo. Acontece que, muitas vezes, este mesmo calafrio lacra nossos ouvidos e faz a pessoa focar um único objetivo: pensar na resposta fulminante, inapelável e destrutiva, que colocará abaixo seu adversário.
Geralmente essas discussões são nulas pois cada um dos ouvintes (se é que podemos chamá-los assim...) não está prestando atenção ao discurso do outro, pensa apenas no que responderá para rebater suas afirmações. E assim o antigo propósito do diálogo perde sua função. Não há mais o interesse em aumentar suas experiências e intelecto, apenas o de fazer vencer o seu ponto de vista. Deixam de existir os companheiros de conversa e passam a se enfrentar os adversários do assunto.
Mas quando olhamos de outro ponto, bem de cima, de onde a humanidade pode ser vista como um todo, onde o planeta se pareça bem pequenino e a humanidade menor ainda, vemos quanto tempo é perdido com discussões tolas, passionais, teimosias. A vida é tão mais do que isso. Olhando lá de cima ela é tão maior, o propósito do ser humano é tão mais importante que até conflitos que nos parecem mais complexos e importante como a briga entre judeus e palestinos ou o terror entre árabes e americanos se tornam sem sentido algum.
Se o objetivo da vida é algo como construir um prédio, muitas vezes pessoas perdem tempo discutindo se as maçanetas das portas serão prateadas ou brancas. E assim o primeiro tijolo nunca é colocado.
Porém quantas não são as vezes em que nos pegamos em discussões sem fim e, o pior, sem sentido? Como insanos nos esquecemos de olhar o ponto principal e inebriados pelo calor de uma conversa passamos a enxergá-la como uma queda de braços ao invés de vê-la como um diálogo pacífico para se chegar a um ponto comum.
Futebol, política, ciúmes. Fatos que muitas vezes tocam nosso cérebro em seu ponto mais obscuro e carnal, despertando paixões adormecidas que muitas vezes gostaríamos de esquecer. Paixões que muitas vezes despertam como aquele calafrio que sobe pela espinha até o couro cabeludo. Acontece que, muitas vezes, este mesmo calafrio lacra nossos ouvidos e faz a pessoa focar um único objetivo: pensar na resposta fulminante, inapelável e destrutiva, que colocará abaixo seu adversário.
Geralmente essas discussões são nulas pois cada um dos ouvintes (se é que podemos chamá-los assim...) não está prestando atenção ao discurso do outro, pensa apenas no que responderá para rebater suas afirmações. E assim o antigo propósito do diálogo perde sua função. Não há mais o interesse em aumentar suas experiências e intelecto, apenas o de fazer vencer o seu ponto de vista. Deixam de existir os companheiros de conversa e passam a se enfrentar os adversários do assunto.
Mas quando olhamos de outro ponto, bem de cima, de onde a humanidade pode ser vista como um todo, onde o planeta se pareça bem pequenino e a humanidade menor ainda, vemos quanto tempo é perdido com discussões tolas, passionais, teimosias. A vida é tão mais do que isso. Olhando lá de cima ela é tão maior, o propósito do ser humano é tão mais importante que até conflitos que nos parecem mais complexos e importante como a briga entre judeus e palestinos ou o terror entre árabes e americanos se tornam sem sentido algum.
Se o objetivo da vida é algo como construir um prédio, muitas vezes pessoas perdem tempo discutindo se as maçanetas das portas serão prateadas ou brancas. E assim o primeiro tijolo nunca é colocado.
terça-feira, 7 de abril de 2009
O Sul
Sul, sudeste, sertão. Quando se trata de carência, mudam-se as paisagens, mas o brasileiro sofrido é o mesmo.
Em andanças pelo interior pudemos observar isso.
Num trabalho na comunidade de Vargem do Braço, muito próxima à Florianópolis, levamos atendimento odontológico aos moradores dessa zona rural. Na fila pais traziam seus filhos, lourinhos, olhos azuis, bem característicos da descendência alemã, tão presente no local. Ao examiná-los víamos dentes “acabados”, cáries enormes, muitos para extrair. Idênticos a muitos que víamos no interior do sertão, muito longe de uma cidade grande.
Ali, naquela região do sul do Brasil estavam pessoas sofridas, roupas surradas, mãos calejadas; registros de seu duro dia-a-dia regando a terra com seu suor.
Pais, mães e até filhos pequenos ajudam na labuta diária. Dura, suada, sofrida, debaixo de um sol não tão quente, mas que brilha sobre nobres brasileiros assim como o que ilumina seus irmãos nordestinos.
Em andanças pelo interior pudemos observar isso.
Num trabalho na comunidade de Vargem do Braço, muito próxima à Florianópolis, levamos atendimento odontológico aos moradores dessa zona rural. Na fila pais traziam seus filhos, lourinhos, olhos azuis, bem característicos da descendência alemã, tão presente no local. Ao examiná-los víamos dentes “acabados”, cáries enormes, muitos para extrair. Idênticos a muitos que víamos no interior do sertão, muito longe de uma cidade grande.
Ali, naquela região do sul do Brasil estavam pessoas sofridas, roupas surradas, mãos calejadas; registros de seu duro dia-a-dia regando a terra com seu suor.
Pais, mães e até filhos pequenos ajudam na labuta diária. Dura, suada, sofrida, debaixo de um sol não tão quente, mas que brilha sobre nobres brasileiros assim como o que ilumina seus irmãos nordestinos.
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