domingo, 29 de janeiro de 2012

A secretária

Ela tinha acabado de assumir a secretaria de Educação de sua cidade quando a conhecemos. Passou por enormes dificuldades. No meio político, não é fácil entrar com ideais, vontade e honestidade. Em uma incrível inversão de valores, temos a impressão que as pessoas honestas, com boas intenções, são perseguidas. Com ela foi assim.
Nasceu em uma família simples e seu sonho foi sempre seguir o caminho da educação. E assim, depois de alguns anos na área, recebeu o convite para ser a secretária de educação de Iraquara, cidade do interior da Bahia, que possui em torno de 22 mil habitantes.
Assim que assumiu, procurou fazer uma revolução no ensino local, desagrando algumas pessoas; logo passou a receber perseguição política.
- No começo, eu tinha que levaá-la e buscá-la todo dia. Ela recebia até ameaças. - me disse Sissi, motorista da prefeitura.
Uma de suas primeiras ações foi resolver um daqueles problemas que vem se arrastando durante anos. Uma das escolas da prefeitura dava enormes prejuízos e levava recursos que poderiam melhorar a situação de muitas outras. Procurou o governo do estado e resolveu fazer uma parceria, assim ela receberia recursos maiores e melhoraria consideravelmente seu ensino. Deu certo, porém os adversários políticos enxergaram uma boa brecha. Dias depois um carro de som, pago por alguns vereadores, passava pelas ruas da comunidade dizendo que a "senhora Simone" pretendia fechar escolas e acabar com a educação do município, junto a outras mentiras.
Pessoas de seu próprio convívio profissional faziam intrigas, diziam que ela "queria apenas aparecer, se mostrar" com seus atos em favor da educação.
Pensou em desistir algumas vezes, quando a tristeza apertava demais, porém seguiu em frente. Seu sonho era maior que isso.
Foi nessa época que chegamos à cidade com o projeto de desenvolvimento sustentável na escola. Foi uma agradável coincidência (se é que elas existem); nós precisávamos dela e ela de nós. Um projeto que leve mais de mil livros e estantes para formar uma nova biblioteca na escola, computadores, internet, rádio-escola, oficinas de arte, ações de meio ambiente e saúde, é sempre bem recebido pelo poder público. Não raro aparecem políticos dos mais diversos níveis para discursar e tirar fotos. E assim Simone tinha um grande trunfo: poderia realizar as melhorias que sugeríamos - e que tanto sonhava -, sem a oposição ferrenha que vinha sofrendo.
O trabalho que realizamos em uma escola, rapidamente foi multiplicado para todas as escolas da cidade. Hoje cada uma delas - mais de 30 - foram reformadas ou estão em reforma. Todas com escovação diária, escovódromo, horta comunitária, bibliotecas, aulas de capoeira... Se transformaram em um local onde as crianças querem ficar.
Para isso, devo salientar, recebeu o importante apoio apoio do prefeito Edimário, comprometido com a educação.
Como é difícil elogiar um prefeito, sem que pareça interesse. Quem visita este blog acompanha que, até hoje, praticamente todas minhas menções a políticos foram críticas ferrenhas. Mas, graças a Deus, há luz no fim do túnel. Até aqui conhecemos poucos, mas bom políticos que se diferem muito dos demais. Gestores que se empenham em gerir com responsabilidade e foco na educação de seu povo. Assim como Edimário, em Iraquara, conhecemos Zé Carlos em Irecê, que junto com a secretária de educação local, Margô, também desempenham um trabalho bonito nas escolas da cidade. Em Primavera, no Pará, conhecemos a jovem prefeita Cleuma, que também luta com garra para melhorar sua cidade.
Enfim, é bom terminar um texto elogiando políticos. A sensação é de que temos, sim, um futuro promissor. Há gente boa, com ideais e vontade de melhorar nosso país. E nós, precisamos discernir essas pessoas e fazer com que virem maioria, deixando de lado os velhos "coronéis" e sua política senil. O povo está, aos poucos, começando a tomar consciência disso.
Observamos isso com as "Simones", "Margôs", e sua turma que começa a aparecer neste meio, incomodando os amantes da velha anarquia política que ainda existe por aqui.
Como diz a própria Simone: "Não vou desistir!"
Todo o Brasil agradece, minha amiga!

sábado, 7 de janeiro de 2012

Surpresa chinesa

Não era a primeira vez que ele estava visitando a China. Aliás, já havia pisado várias vezes naquele diferente país de costumes tão distintos de seu querido Brasil. Seu trabalho tornou a visita ao outro lado do mundo algo rotineiro, mas aquela vez era um pouco diferente, um amigo o havia acompanhado para dividir essa experiência e aqueles não eram dias costumeiros de solidão.
Se divertia com o amigo, que não falava o inglês, quem diria entender algo em chinês. E assim que o avião pousou, deu o primeiro conselho:
- Olha, é um país muito diferente, com uma culinária excêntrica e estranha. Não pergunte muito sobre a comida. Se não sabe o que é, coma. Pode ser que goste e pode ser positivo não ficar sabendo...
Explicou que nas primeiras vezes sentiu dificuldades com a comida, mas atualmente já experimentou muitas coisas, até espetinhos de gafanhoto e baratas, que lá são tratadas e limpas, diferentes das nojentas baratas de esgoto que estamos acostumados a ver.
Uma noite visitaram um lindo restaurante, daqueles mais tradicionais e com aparência de caro. Alguns pratos foram sendo servidos e o amigo foi comendo, lembrando o primeiro conselho recebido quando tocou o solo chinês. Um "enroladinho", que lembrava um charuto árabe, chamou a atenção dele, pelo sabor e boa aparência. Com a fome que estava, o visitante comeu vários.
- Nossa, esse aqui é uma delícia, hein?! O que será que é? - perguntou.
O garçon estava próximo e ele perguntou sobre o prato. Deu risada quando soube e indagou ao amigo:
- Você tem certeza que quer saber?
O outro hesitou, mas resolveu satisfazer sua curiosidade.
- Ele disse que é carne de cachorro, que é muito boa e temperada com capricho...
O amigo sorriu amarelo, mas estava dançando conforme a música. Como diria um conhecido seu: "já está no inferno? Abrace o diabo!". Perguntou no que era enrolado; se em repolho, folha de uva...
Ele perguntou ao garçom, novamente deu risada e repetiu "você tem certeza mesmo que quer saber?".
- O Garçom falou que é enrolado em pele de cachorro curtida, que é uma iguaria aqui, muito fino...
O amigo deu risada, o que poderia fazer? Mas, no fundo, pensou que alguns conselhos são bons de serem seguidos...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O cachorro manco

Ele sempre gostou de animais. Não foi surpresa quando se apaixonou por aquela filhotinha de labrador, cor de chocolate. "É essa!", pensou. Assim levou a pequena cadelinha para casa.
Os meses foram passando, e ela crescia rápido, como os cachorros de sua raça e, um ano depois, já estava grande. Postura imponente e pelo impecável. Muito bem cuidada, era o orgulho de sua família.
Gostava da brincadeira de se referirem a ele como pai de sua chocolate. Era como se fosse. Cuidava, alimentava, passeava, brincava, ensinava... Assim o carinho mútuo ia crescendo.
Alguns meses mais, e a natureza visitou sua casa, lembrando que animal algum escapa de suas leis. O cio chegou para a jovem chocolate. Nunca é fácil para um pai aceitar que sua filha se inicie na vida sexual. Mesmo que essa seja uma cadela. E assim, chocolate começou a desejar os machos de sua espécie.
Mas ele percebeu que sua "princesa" tinha uma vontade maior de iniciar sua vida mundana. Para seu desgosto, queria dar para qualquer cachorro que se apresentasse. Uma manhã, deu risada quando um pincher, ridículo de tão pequeno, se aproximou, se engraçando para ela. Se assustou quando a viu arrastar a barriga no chão, abrir as pernas, fazendo de tudo para facilitar o incrédulo baixinho a realizar suas mais loucas fantasias sexuais.
"Ah, não!! esse pirralho não vai comer minha cachorra!!", pensou e afastou o minúsculo cãozinho, o deixando na mão, ou melhor, na pata...
Para seu desgosto o cio de sua chocolate durava muito, mais de duas semanas, e na frente de sua casa, uma matilha se formava. Era como se houvesse uma placa: "aqui mora uma vagabunda". E para piorar, ela dava a impressão que queria dar pra todos, ao mesmo tempo. "orgulho do pai", pensava, e saía para espantar aquele monte de cachorros sedentos da frente de sua porta.
Mas o que mais o irritava, era aquele cachorro manco. Todos fugiam, se escondiam. Mas o manco logo voltava, só ele, desafiando o pai protetor. Encarando, como quem dizia: "vou comer sim!". Tinha uma perna atrofiada, mancava completamente, mas se achava bonito o bastante para traçar uma bela labradora.
Foram vários dias, espantava todos, mas o cachorro manco o ameaçava, como quem enfrentava alguém a ponto de atacar a qualquer momento.
Uma manhã daquelas, difíceis no trabalho, stress, cabeça cheia, e um monte de cachorros latindo, fazendo uma algazarra do lado de fora. Parecia que entendia o que queriam dizer: "Ô coroa, libera a belezura aí pra gente dar um xamêgo nela!".
Todos temos nosso dia de fúria. O dele foi aquele. Dificuldade em se concentrar, problemas, trabalho acumulado, latidos; saiu como um raio de casa, liberando toda raiva, gritando com os cachorros e espantando a todos, mas em seguida, o cachorro manco voltou, o desafiando.
- Não, meu amigo, hoje você escolheu o dia errado! - disse como para si mesmo e correu em direção ao adversário.
Ploft! O chutou, com toda a raiva do mundo, como se fosse uma bola de futebol americano rumo a sua alta trave. O Cachorro subiu, e subiu. Por um momento, quase sorriu de raiva. Olhou para o lado e viu seu Manoel. Um português, seu cliente, um homem sofisticado, culto, poeta. Daqueles que o convidava a se sentar na mesa do restaurante para degustar um bom vinho. Não sabia se dava uma risadinha sem graça ou se chorava.
- Estais nervoso, hã? - perguntou o português.
- Ô, seu Manoel... Pois é. Esse cachorro... - não havia como dar explicações. Nem com todo tempo do mundo conseguiria explicar cada tijolo de história que o levou àquele momento. E depois de uma atitude daquela, provavelmente, seu Manoel nem daria ouvidos.
Foi para casa triste. Abriu a porta de sua casa e deixou sua cadela sair. Para a alegria de todos os cachorros do bairro.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Essências

No Pará, recebemos a ajuda de George, um dentista que trabalha na cidade de Quatipuru, pela prefeitura e foi liberado para nos ajudar durante os três dias de trabalho que teríamos na escola local.
Muitas vezes recebemos o apoio das prefeituras, que nos ajudam com o auxílio de funcionários do posto de saúde e odontólogos (como os dentistas são conhecidos em muitas regiões do interior).
Desde o começo, George "arregaçou" as mangas e se mostrou muito disposto em ajudar no que fosse preciso.
- Infelizmente não trouxemos outra cadeira de dentista, George... - eu disse, imaginando que ele pudesse preferir auxiliar.
- Não precisa, atendo nas cadeiras da sala de aula mesmo. Já fiz muito isso na época da faculdade. - respondeu prontamente.
E foi assim, durante aqueles dias. Quando eu saía para dar palestras, ele assumia a cadeira portátil, mais confortável para se trabalhar, e quando voltava, fazia questão de continuar em suas desconfortáveis cadeiras comuns, numa humildade de coração comovedora.
Em outro estado, eu estava montando o equipamento quando adentrou a sala a secretária de saúde.
- Olha, trouxemos pra você o dentista da cidade e duas auxiliares.
"Nossa, desse jeito fico mal acostumado", pensei, ainda lembrando da ajuda do amigo paraense.
Acabei a montagem, fomos para as apresentações das crianças, palavras do prefeito, da diretora da escola, do Luis, presidente do Instituto, e fomos para a sala. O dentista estava esperando.
- Olha, trouxemos outra cadeira de dentista, se quiser podemos montá-la agora, pra você começar a ajudar nos atendimentos. - eu disse. George tinha, realmente, nos deixado mal acostumados...
Argumentou que preferia olhar primeiro, ver nosso estilo de trabalho e depois atenderia com o maior prazer.
Atendi duas crianças, uma auxiliar ajudou com os materiais, outra com as fichas e a fila e o dentista observou tudo. Quando ia chamar a terceira, observei os três arrumando suas coisas e se preparando para sair.
- Wolber, Hoje temos que sair cedo, mas amanhã viremos passar o dia inteiro com vocês, viu? Parabéns pelo lindo trabalho que vocês fazem! - disse e saíram.
Curiosamente a secretária de saúde já havia saído cinco minutos antes.
Nos dias seguintes a cena se repetiu. O dentista, no último dia, foi sincero. Assumiu que estava ali para não receber falta e o lado bom de "trabalhar" no feriado - aquela quinta era feriado - era que poderia tirar a sexta de folga.
A profissão era a mesma, a habilidade, talvez, também fosse, mas havia um abismo gigantesco que separava aqueles dois dentistas de cidades diferentes. A essência. Algo interior, primordial no ser humano e que define uma série de outros comportamentos que temos, como caráter, bondade, vontade.
George me enviou um e-mail, dias depois que voltei para São Paulo:

"(...)Durante a viagem de volta para Belém vim refletindo sobre os 2 dias de muito trabalho que tivemos (minha coluna ainda dói) e sobre vocês do Instituto. Como é bom saber que em um país de desigualdades, egoísmo e desamor ao próximo, como o nosso, ainda existem pessoas como vocês que vem de longe, deixam seus trabalhos e o conforto de suas casas para ajudar pessoas necessitadas, essas desconhecidas, e tudo isso em troca de um sorriso, um abraço ou um obrigado que tenho certeza que vale muito mais do que qualquer dinheiro.
(...) Eu sei que vocês plantaram a semente em Quatipuru e tenham a certeza que do que depender de mim vai continuar, vou cobrar e fazer acontecer o que vocês deixaram para aquela população que tanto precisa."

Ler o e-mail fez tudo valer à pena.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Lutas

No último texto, publiquei sobre a alma social de muitos brasileiros, que lutam desde tempos atrás para melhorar nosso país.
Margô, é secretária de educação da cidade de Irecê, na Bahia e sua história me chamou a atenção. Leonel, amigo sempre presente neste blog, chamou a atenção, em um comentário, pertinente sobre a visão comunista da época.
Eu já imaginava a visão que ela tinha nos idos dos 70, mas em outro comentário ela ratificou essa impressão.
Segue abaixo o texto enviado.


Olá querido Wolber,

Gostei imensamente do teu relato. Muito obrigada amigo, pelo honroso texto!
A sensação é de que estou compondo de fato uma história de superação. (E estamos, né?) O que foi por mim, vivenciado na década de 70 e parte dos anos 80, contribuíram sim, para uma abertura política de longo prazo, mas sabemos o quanto ainda falta para sermos de fato reconhecidos como cidadãos plenos neste imenso País.
Como te disse anteriormente, a ação do IBS, é muito especial pois transgride a ideia do assistencialismo e reúne ingredientes que protagonizam a tão sonhada ação cidadã. Eu sou fã número um deste trabalho.
Obrigada Leonel pelo contributo à minha experiência, mas é preciso lembrar que o contexto que víviamos, não permitia ainda pensar no comunismo como uma ditadura de esquerda. Sei muito bem o que ocorreu na Rússia, Albânia, China, etc. Nós jovens brasileiros que compunhamos o Movimento Estudantil, lutávamos por ações que estavam muito distantes da construção de um país comunista; Queríamos Liberdade de Expressão, votar para presidente, governador, ler obras de cunho sócio-político, trazer novas perspectivas para a população brasileira que estava em situação de miséria, superlativamente maior da que ainda testemunhamos.
Mas respondendo ao teu questionamento, eu saí do partido, justamente por não concordar com o governo totalitário que foi implantado nos países do leste Europeu, e outros que se intitulavam comunistas. Entrei muito jovem, como o Wolber registrou, no entanto a maturidade, me impulsionou a questionar a nossa militância, a linha ideológica stalinista, e maoista...etc. E aí eu "desertei" aos 26 anos... Já mãe de dois filhos, já era uma mulher que podia se expressar livremente independente de qualquer orientação partidária.
Não me arrependo, não consigo enxergar outra ação que não fosse aquela, no período que em víviamos. Ou partia para uma atitude revolucionária, de enfrentamento, correndo riscos terríveis, ou seríamos cordeiros do Regime Militar. (Fui indiciada na Lei da Segurança Nacional, privada de sair de Salvador durante dois anos, e vigiada constantemente, de forma constragedora, mas valeu a pena!).
Hoje eu não sou filiada a partido algum. Costumo dizer que tenho uma ação libertária e não partidária...rs.
Conheci o Rondon. A minha cidade tb recebeu os jovens do Mackenzie, com o lema "Integrar para não entregar"... Mas sou mais o IBS, rsss. Conversaremos mais por aqui, e espero que a desconfiança que o relato do Wolber te causou, em relação a minha pessoa, seja analisada pela lente do contexto histórico. Afinal, quem sabia de fato, que existia o "Paredón" na Cuba Castrista? Longe de bajular Fidel, Mao, ou quem quer que seja, nós queríamos nos ver livres dos nossos inimigos mais próximos, ACM, FIGUEIREDO, DELFIM NETO, TORTURAS, EXONERAÇÕES FORÇADAS, EXÍLIOS, DESEMPREGO, PANCADAS NA RUA, ETC, ETC.
Pois, pois.
Wolber, seu BlOG, é muito interessante, vou tentar me fazer mais presente neste espaço.

Mais uma vez obrigada, e um grande abraço saudoso da amiga...

Margô. ( Meu codinome é Raposa vermelha...rs)

Margô é Secretária de Educação da cidade de Irecê, na Bahia

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Alma social

Essa viagem me levou a meditar bastante sobre o que fazemos e o porquê fazemos. 
Em Irecê, fomos recebidos por Margô, a secretaria de educação local, que há muito tenta levar o Instituto Brasil Solidário para sua cidade. Organizou uma linda recepção com orquestra, apresentações e festas. Nos sentimos em casa. 
Dado momento ela me disse que era nossa fã, do nosso jeito de ser e de lutar para melhorar o Brasil. 
Durante a conversa, ela contou sua história de vida, que nos anos 70 foi a pessoa mais jovem a se filiar ao PC do B, aos 16 anos. 
- Queria ajudar o meu país, lutar contra o autoritarismo. Sabia até fazer coquetel molotov, aliás, sei até hoje. - disse e deu uma risada. 
Contou histórias daquela difícil época em que nosso país vivia sobre uma ditadura que sufocava os direitos do cidadão, censurava qualquer forma de expressão que fosse contrária à sua visão, torturava e matava. 
Naquele momento, percebi que o orgulho que ela sentia de cada um de nós, era, sem que percebesse, uma empatia perfeita. Se identificava conosco, simplesmente porque se estivesse em nossa geração, estaria viajando ao nosso lado. Assim como nós, se vivêssemos nos anos 60 e 70, muito provavelmente, estaríamos lutando contra a ditadura. 
Naquela época, não havia como pensar em fazer um trabalho social, melhorar as comunidades carentes. Havia um problema muito maior impelindo os brasileiros com espírito social a lutar contra. 
Hoje, graças a Deus - e a esses corajosos brasileiros que organizaram passeatas, reivindicaram e até pegaram em armas - estamos livres desse mal. 
O Brasil tem liberdade de expressão a cada cidadão, podemos bradar sem medo. Os problemas são outros, que empurram os brasileiros dessa geração a colocá-lo mais um degrau acima, onde haja educação de qualidade a todos, sem pobreza, com saúde, que cuide do seu meio ambiente e tenha mais igualdade entre sua população. 
O que me faz ser fã da Margô e seus amigos. Pois nossa luta atual traz algumas dificuldades como o tempo na estrada, que acompanha tanta saudade de casa e da família, como tempos difíceis nos relacionamentos de cada voluntário com suas parceiras, ou a dificuldade em conciliar o trabalho, tempo de portas fechadas e dinheiro que não entra. 
A luta, algumas décadas atrás, trazia o medo de ser preso, torturado, de perder a vida. Digna de uma coragem sem tamanho. 
Brasileiros voluntários, questionadores, militantes ou soldados de esquerda; pessoas que ajudaram a construir a história. 
Como me disse a Margô:
- Na frase do sábio Bertolt Brecht: "são os anônimos, na coletividade, que fazem os grandes acontecimentos".

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Um bate-papo

Depois de quase um mês na estrada, estamos de volta. Foram semanas de trabalho no sertão, emendadas com o casamento de um grande amigo no nordeste.
Desculpem a ausência por tanto tempo neste blog, a volta é ainda mais corrida quando adentro o consultório. Sensações antagônicas se misturam, pois, apesar do trabalho social ser algo leve e estimulante para a mente, as longas viagens e seqüências de atendimentos diários não descansam o corpo.
Dessa vez o casório do grande parceiro de trabalho, e amigo, Vanderson, ajudou ao descanso ser completo. Baterias recarregadas, é retomar a rotina no trabalho e no blog.
Breve virão os textos.

Um grande abraço!

Wolber Campos

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Saída de São Jorge

Acabamos o trabalho em Alto Paraíso, Goiás, na linda comunidade de São Jorge, porta de entrada da Chapada dos Veadeiros. 
O local é envolto em energia, por isso recebe muitos esotéricos e grupos alternativos, o que confere um clima paz e amor daqueles em que é fácil de sentir bem. 
Essa noite tocamos violão em um pizza bar, o Canela D'Ema, característico, todo envolto no assunto de ufologia. Há bonecos de ETs do tamanho de uma pessoa, recebendo os clientes na porta com uma lata de cerveja na mão, olhando pela janela ou descendo de rapel do teto. 
Partimos dessa agradável cidade às 6 da manhã desta segunda, rumo à Irecê, na Bahia, mais de 1100 quilômetros de deslocamento. Devemos chegar no fim do dia, descarregaremos todo o material, cadeira de dentista, livros da biblioteca, computadores, oficinas e descansaremos. 
Amanhã continuaremos o trabalho na segunda cidade desta fase do projeto. Uma nova cidade, novas historias. 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O retorno

Esse foi um ano tão corrido, que a palavra retorno pode ser usada agora, quando estamos retornando para o sertão, não só quando voltamos para São Paulo.
Hoje partimos de São Paulo rumo a Goiânia, as 7 da manhã. O horário de saída seria as 6, porém João Victor dormiu no ônibus e acordou vários pontos depois do escritório, onde estávamos esperando. Chegou sonado, e ainda teve que escutar brincadeiras de todos.
Chegaremos de noite na capital goiana, e amanhã seguiremos para Alto Paraíso, cidade esotérica e bela.
Na Van e na pick up vão amigos que estão juntos desde 2004, quando comecei, outros desde 2007 e alguns novos voluntários.
Porém não importa se é retorno, ou de é a primeira viagem, o brilho nos olhos é o mesmo.
Tentarei postar durante o trabalho.

Grande abraço a todos!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Carro de pobre

Ele sairia com a namorada e o irmão. Na última hora, o cunhado pediu uma carona. "É claro, te deixo em casa!", disse solícito. Os quatro entraram em seu velho carro e seguiram animados como sempre, dando risadas.
O cunhado tinha amizade e apreço por ele e, com liberdade, brincava com seu carro, chamando-o "carro de pobre". O jovem crescera em um ambiente mais abastado, amigos com muito dinheiro, acostumado ao luxo, porém a brincadeira era sem maldade, na ingenuidade de quem ainda não aprendeu que chamar alguém pobre de pobre pode ser a mesma situação de chamar alguém feio de feio.
O dono nem ligava, achava graça, e ele mesmo gozava de seu querido carro velho.
Era "carro de pobre" pra cá, "carro de pobre" pra lá, até que se aproximaram da casa do rapaz.
- É a próxima rua á direita, mas pode parar na esquina - disse o cunhado.
- Imagina, eu te levo até em casa. - respondeu.
O cunhado disse que não havia problema, não precisava sair do caminho, não teria que andar muito. Mas àquela hora da noite o amigo fazia questão de deixá-lo em frente sua casa.
Ao abrir a porta para descer, o cunhado comentou:
- Pôxa, meus amigos sempre me deixam lá em cima, na esquina.
Ele prontamente respondeu:
- É que este é um carro de pobre, e carro de pobre sempre leva os amigos onde eles precisam, desvie o que precisar, seja onde for.
O silêncio que ficou no carro foi quebrado no momento seguinte por uma gargalhada geral. O único que não deu risada foi o cunhado.
- Podia ter dormido sem essa... - disse baixinho. E seguiu para casa pensativo.

domingo, 2 de outubro de 2011

O mergulho

Somos apaixonados pelo nosso país. Mergulhar nas diferentes culturas, nos envolver com as diversidades de costumes, sotaques, hábitos, paisagens, nos faz parecer meninos abrindo presentes na noite de natal. Cada viagem parece ser a primeira, não importando quantos anos fazemos isso, ou qual a idade do voluntário.
Estávamos em uma festa, em uma cidade do interior, com um som tocado por um DJ. Caixas enormes, uma altura digna de ser ouvida do outro lado da pequena cidade. O povo local apinhado, dançava o ritmo peculiar daquela região. À equipe, naquela cidade, havia se juntado José, um conhecido chef de cozinha de um importante hotel de São Paulo. Ele faria um trabalho com as merendeiras e ainda pesquisaria sobre a culinária local. Carinhosamente recebeu o apelido de "merendólogo".
Nós dançávamos, curtíamos, de uma forma intensa. Mal parecia que cada um ali, tinha trabalhado tanto, dormido pouco, feito viagens longas em estradas ruins há mais de duas semanas. Ele havia mergulhado de uma vez, em uma locomotiva que viajava a todo vapor e a toda velocidade, por dias seguidos, com jovens sedentos em conhecer e viver.
A certa altura, Luis, coordenador do Instituto, chamou José para lhe mostrar algo. O levou para o fundo do terreno, sob o céu estrelado, no bonito lugar onde ocorria a festa. Todo terreno era cercado por um muro de bambus e atrás do palco havia uma parede de palha. José viu, que aquele simples tapume, fazia o papel de um banheiro. Homens, mulheres, faziam suas necessidades ali, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Sem cuidados com higiene ou privacidade.
- Zé, a gente está aqui para mudar coisas como essa. Passamos semanas na estrada, vendo situações que nos chocam. Crianças que choram e perdem aulas por causa de dentes completamente destruídos, a educação em um caos, descaso com o meio ambiente com lixos esparramados sobre terrenos ao lado das escolas, pessoas vivendo em lugares com esgoto ao céu aberto e doenças infestando toda uma população, enquanto muitos políticos andam de carro importado. Um amontoado de emoções e sentimentos que ficam presos no peito de cada um, seja do dentista que tenta mudar algo e vê centenas de crianças que não terá tempo para atender, seja do educador que tenta mudar a história de uma comunidade e esbarra na falta de interesse de muitos poderosos da região.
"Quando temos a oportunidade de conhecer, jogar tudo pra fora, é nessa hora que expulsamos tudo daqui de dentro - disse batendo a mão no peito -. Por isso entramos em um lugar como esse e cantamos, dançamos, como se fosse o último dia de nossas vidas. Por isso um toca violão por 3 ou 4 horas seguidas em um dia, o outro incorpora um DJ até o dia amanhecer."
José entendeu. Voltaram para a roda de amigos e cada sorriso, de cada voluntário, fez mais sentido depois daquela conversa.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O presente

Ela entrou na sala com um semblante sério. Uma senhora velhinha, com a pele castigada pelo sol. Na mão, trazia uma prótese embrulhada em um guardanapo. Em meio à correria dos atendimentos, eu ainda encaixava alguns pacientes para ajustes das próteses que nós entregamos em junho.
Assim que terminei o atendimento de uma criança a chamei e perguntei como havia ficado a peça.
- Eu nem usei! Ficou muito grande aqui na frente, machucou muito. Muito ruim. - disse de forma seca.
A primeira coisa que me veio, foi algo ruim. Como se fosse ficar bravo, pela senhora não ter que reclamar com tanta veemência, visto que é normal ter que fazer alguns ajustes na prótese e, ainda por cima, aquela havia sido doada, com muito carinho.
"Calma, não julgue antes de solucionar o problema...", me veio à cabeça. Logo espantei aquele nervosismo inicial e pedi que ela sentasse. Disse que era normal ter que ajustar a prótese e que faríamos o possível para deixá-la boa.
Vi que, realmente, a parte da frente estava alta, o que seria bom deixar para aumentar a retenção, mas que se ela não se acostumava, era ideal diminuir o tamanho.
Desgastei com carinho, experimentei, tirei mais um pouco.
- Nossa, agora tá muito boa! - disse, abrindo um ligeiro e tímido sorriso.
- Dona Maria, se sentir algo incomodar, ainda estou aqui amanhã o dia inteiro, e no terceiro dia, só pela manhã. Pode voltar que eu dou um jeito. - eu disse, e ela saiu contente com a peça ajustada.
No terceiro dia, após o almoço, estava desmontando toda a aparelhagem, guardando os materiais, limpando as caixas. Olhei para a porta, a vi do lado de fora, olhando como se quisesse me dizer algo.
"Pedi que ela viesse até hoje de manhã se precisasse, agora já guardei tudo...", pensei.
Olhou para mim e fez um sinal com o dedo, para que eu me aproximasse. Larguei os materiais e me dirigi até ela. Seu semblante era sério, mas o olhar sereno. Percebi que era o mesmo olhar do primeiro dia, mas eu não havia percebido. A aparência séria e o modo ríspido de descrever o problema da prótese, não era por ser uma pessoa dura, ou mal agradecida, apenas alguém que cresceu em um lar mais sério e lacônico e não aprendeu a falar de forma polida ou suave.
- Tudo bem, dona Maria?
- Você me desculpa que eu não entrei na sala agora, mas eu tava com vergonha, porque não sabia se você gostava disso. Mas eu trouxe esses abacates que deram lá em casa pra você e para seu amigo - o Manolo, que trabalha comigo -. Se não gostar não tem problema não.
Aquilo me emocionou, ainda mostrou a netinha, de seus 7 anos, que segurava um saco menor, com dois abacates. "Ela quis trazer de presente pro senhor também", me disse, e a menina me entregou também o saquinho dela.
Eu disse que adorava abacate, que misturava com açúcar e ainda gotejava limão, e ficava uma delícia.
Ela deu o mesmo tímido sorriso, só que dessa vez ele durou mais tempo, e saiu feliz, como saiu depois que a prótese havia sido ajustada.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Estrada

Chegamos ontem de noite em Primavera, nossa ultima cidade da viagem. Aqui, trabalharemos para a Votorantim, implantando  projeto, nos mesmos moldes, num trabalho paralelo ao que fazemos com as Casas Bahia, o Amigos do Planeta na Escola. 
Primavera fica apenas a 13 km de Quatipuru, resolvi seguir, antes da turma, com o quadriciclo. A noite já havia caído, então, segui pela bela estrada de terra que divide as duas cidades. 
Durante o dia, podemos ver alguns balneários beirando a estrada, seus belos lagos, geralmente cercados com palhoças ou quiosques. 
Mas à noite o charme é outro. cercada por mangues e belas árvores pelos dois lados, a estrada seguia escura, iluminada apenas pelo farol do quadri, deixando a moldura das copas dividindo o claro e estrelado céu. 
Aos poucos as árvores diminuíram, e abriam certos espaços na beira da pista, onde surgiam pequenas casas. Diminuí a velocidade. Eram casas de barro, com suas portas de entrada totalmente abertas. Dentro de todas, uma televisão iluminava a penumbra, exibindo a novela das 7. 
No meio do caminho, não havia como resistir: parei e desliguei o farol. O céu estava repleto de estrelas e com uma definição incrível! A Via Láctea estava clara como uma nuvem, de infiltrando entre as brilhantes estrelas. 
Agradeci a Deus, e segui adiante, para Primavera, mais um local onde nos sentimos em casa. 

sábado, 17 de setembro de 2011

Chilitos

Estávamos descarregando uma doação destinada a outra escola do Ceará. Um calor literal do sertão. O suor escorria e gotejava no chão de terra. 
Depois de descer as pesadas caixas de livros, chegou a hora dos computadores. As caixas eram cheias com pequenos cilindros de isopor, que amorteciam qualquer sacolejo que pudesse prejudicar as frágeis peças. Nos balanços do caminhão, que saiu de São Paulo até aquela região, uma das caixas abriu o suficiente para derrubar alguns cilindros do isopor azul no chão de terra, na frente da escola. Continuamos a descarregar tudo; depois limparíamos a bagunça. 
Trabalho feito, conversávamos com alguns professores, quando uma criança, aluno da escola, que acompanhava curioso a movimentação, chegou e disse. 
- Mas é ruim esse chilitos, hein?! Comi 5, mas tem um gosto ruim. 
Outro ainda estava com um na mão, pronto para comer, quando alguém da equipe falou:
- Não come isso não, não é Cheetos, é isopor!
O menino sem pestanejar enfiou na boca, mastigando e falando:
- Tem problema não...
Rapidamente limpamos antes que outras crianças viessem para os "petiscos".
Na saída pensamos em falar com o patrocinador, para trocar os cilindros de isopor por alguma outra coisa que não parecesse um Chilitos. 

domingo, 11 de setembro de 2011

Livre arbítrio

Queridos amigos, muito obrigado!!
Essa demonstração de carinho e confiança me trás paz e certeza que o caminho segue, sempre sua trajetória correta.
Estamo em Crateús, terra querida também do Ceará. Visitamos duas escolas em que trabalhamos nos anos anteriores e agora estamos saindo da construção do galpão da futura central de reciclagem da cidade, que o IBS está contribuindo financeiramente.
Tamboril foi uma cidade incrível! A cada viagem continuamos nos surpreendendo com nosso Brasil, mesmo após tantos anos na estrada. Para se chegar à comunidade do Açudinho, subimos uma grande serra que apresenta características muito peculiares para a região. Uma pessoa desavisada que olhasse em volta, poderia pensar que estava em Minas Gerais. Vários montes e montanhas, verdinhos, cercam a comunidade. O calor intenso durante o dia, é seguido por uma fria noite, digna de usar blusas de frio.
Estava na praça, com uma turma muito bacana de amigos. Uns eram professores e outros alunos da escola. E o assunto passou a ser os jovens que saem de lá para São Paulo.
- O problema é que num lugar tão pequeno a gente não tem oportunidades. Nós também temos nossos sonhos, queríamos correr atrás das coisas que gostaríamos de ter. - nos disse Mailson.
- Olha, vou te dizer o outro lado que eu escuto, me sinto na obrigação. Muitos saem de um lugar lindo, como o que vocês moram, chegam em São Paulo e tem uma rotina ingrata. Moram longe de seus empregos, perdem uma hora e meia para ir trabalhar, mais uma e meia para voltar, em um ônibus lotado. Três horas por dia, perdida. Muitas vezes não tem tempo pra se divertir, em um lugar onde podem ganhar mais, mas gastam muito mais também. Não sobra tudo o que imaginam. - eu disse.
Ele pensou, balançou a cabeça e respondeu:
- Olha, se tem uma coisa que todo mundo aqui tem de sobra, é vontade de trabalhar. Pense num pessoal que tem coragem.
Aquilo me ensinou mais uma coisa: a realidade pode ser diferente olhada pelo ponto de vista de cada um. E todos, sem exceção, tem o direito de tentar. Errar ou acertar, é uma outra história, mas tentar, é um direito divino que Deus deu como nosso livre arbítrio.
Continuamos com o violãozinho na praça, e a viagem estava apenas começando.