segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sobre devolver sorrisos

Acabamos o trabalho e estamos no caminho de casa. Paramos a alguns minutos atrás em um posto na estrada que liga Iraquara a Feira de Santana. A rotina de descer, ir ao banheiro, comer algo. Minha fome era de um sorvete e peguei um Magnun, daqueles grandes de chocolate.
Conversava e dava risada com os amigos em frente a adesivos engraçados e irônicos. Apareceu em minha frente uma menininha, daquelas bem carentes, roupinha suja e cabelo bem desgrenhado. Com cara triste e humilde me pediu:
- Tio, você pode comprar um desse pra mim? - disse e apontou para meu sorvete.
Eu tinha pego o último, mas haviam outros grandes e variados na geladeira. Dei 5 reais a ela e disse para escolher um ali.
Alguns segundos depois, voltou com um corneto na mão, com um sorriso enorme na boca, e me mostrou:
- Tio, olha o que eu consegui pegar! - e levantou o sorvete como a um troféu.
Ainda me disse antes de se virar e abrir seu prêmio:
- Muito obrigado, tio, que Deus o abençoe! - e abriu mais uma vez o grande sorriso que me deu ao mostrar o sorvete.
Neste projeto meus amigos brincam que eu devolvo sorrisos quando faço restaurações estéticas com materiais de qualidade. Hoje eu precisei apenas de um sorvete.

sábado, 23 de junho de 2012

Diário de um trabalho social - parte 5

Sábado, 23 de junho de 2012

Hoje damos seqüência ao projeto na cidade de Palmeiras, na Bahia. Uma cidade histórica que remete aos tempos áureos de garimpo na região.
Estamos na época de São João, e as bandeirinhas espalhadas pela cidade dão o charme na fachadas coloridas das casas.
Começo o ultimo dia de atendimentos, já que amanhã estaremos em Iraquara, inaugurando a Biblioteca Municipal Luis Eduardo Salvatore (que ganhou o nome do presidente do IBS).
Já fica a sensação de dever cumprido e de final de trabalho.


quarta-feira, 20 de junho de 2012

Diário de um trabalho social - parte 4

Quarta-feira, 20 de junho de 2012

Estamos deixando Irecê, cidade onde o trabalho foi incrível!
Agora na van, com destinos à Palmeiras, também na Bahia.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Diário de um trabalho social - parte 3

Sexta, 15 de junho de 2012

Estamos novamente na estrada. Terminamos ontem o trabalho na vila de São Jorge, em Alto Paraíso, Goiás e estamos mos encaminhando para Irecê, na Bahia. Ali, chegaremos e já montaremos o auditório para o seminário de amanhã.
Serão 1.100 km até lá, por isso, mas uma vez saímos as 5:20 da manhã.
Acabamos de almoçar em um restaurante de estrada, na cidade de Luis Eduardo Magalhães, BA.
Ontem, em nossa despedida da charmosa e linda vila, fomos presenteados com um pôr-do-sol fantástico!
Um grande abraço!

domingo, 10 de junho de 2012

Diário de um trabalho social - parte 2

Domingo, 10 de junho de 2012

Enfim, chegamos em Alto Paraíso. Aqui faremos nesta segunda o seminário no auditório da cidade para todas as escolas do município.
Nesta manhã, rodamos os últimos quilômetros que faltavam e montamos, ainda cedo toda a aparelhagem no local.
Alto Paraíso é a porta de entrada para a Chapada dos Veadeiros e antes do almoço conseguimos um tempo para visitar um mirante, que fica a caminho de São Jorge.
Subimos no teto da van para uma boa visão e um barulho característico champanha atenção: duas araras vermelhas passaram voando sobre nós, a uma certa distância e sumiram nos buritis que se erguiam imponentes no horizonte. Não conseguimos tirar uma boa foto das lindas aves.
Desci e andei na direção dos buritis, que surpresa! Duas outras araras (elas sempre voam em casal), estas canindés, vermelha, azul e amarela, vinham voando na minha direção. Pensei em fotografar, mas achei melhor filmar. Elas vieram num vôo rasante, bem perto, e enquadrei cada movimento na máquina, dando um zoom quando se afastavam e o retirando quando elas se aproximavam. Durante quase 2 minutos fiz imagens que me deixaram muito feliz! Das mais bonitas que já captei, pensei.
Como ir da euforia para a decepção? Quando fui rever as imagens na câmera vi que não tinha acionado o botão. No final, quando as araras sumiram no horizonte e apertei o botão pensando em desligá-la, ela começou a filmar, mostrando uma cena sem nexo de uma caminhada para voltar ao carro.
Bom, ao menos ficaram muito bem gravadas na memória, como um presente, poder ver o vôo de duas araras livres na natureza, a pouquíssimos metros de minha cabeça.

sábado, 9 de junho de 2012

Diário de um trabalho social

Sábado, 9 de junho de 2012

Estamos na estrada, para mais uma viagem. Nesta etapa trabalharemos no projeto Amigos do Planeta na Escola nas cidades de São Jorge (GO), Irecê (BA) e Palmeiras (BA).
Nos encontramos hoje em frente ao escritório do IBS às 5 da manhã. O deslocamento é grande, em torno de 1.300 km.
"Cair da cama" as 4 da madrugada também se explica por nossa São Paulo. Sair perto das 7 horas pode significar perder uma hora parados no trânsito, tempo precioso quando se está noite adentro tentando chegar ao destino.
Nossa cidade também tem suas curiosidades. Saímos completamente agasalhados pelo frio, em torno de 12 graus, e céu encoberto e duas horas mais tarde na estrada, debaixo de um sol intenso começamos a passar calor.
Agora acabamos de cruzar a divisa de São Paulo-Minas Gerais, sentido Uberaba (na foto da estrada, a baixada é o rio Grande, divisa dos dois estados).
Estamos na estrada, às 12:18h, daqui a 100km devemos parar em Uberlândia para almoçar.
Um ótimo fim de semana a todos!

Grande abraço!

domingo, 3 de junho de 2012

Crônicas de um jogo de futebol

Uma noite, um jogo de futebol, um estádio cheio. Histórias que tem muito a ensinar sobre nós mesmos.

No dia 10 de maio, o Santos recebeu o time Bolívar (Bolívia) para uma partida em casa. Foi uma bela resposta. Na partida de ida, na semana anterior, os bolivianos deram um péssimo exemplo de como receber um adversário. Xingamentos, agressividade fora e dentro de campo, objetos jogados contra os jogadores - incluindo uma maçã arremessada da arquibancada direto no rosto do jogador Neymar.
Neste jogo de volta, na Vila Belmiro, o sentimento de revanche era grande, porém o "troco" foi todo dentro de campo - e das regras. O Santos venceu por 8 a 0. Via-se uma gana nos olhos de cada jogador do time brasileiro, para fazer mais gols, não para jogadas mais duras como alguns esperavam.
Certa altura, em torno dos 6 tentos para o time brasileiro, um jogador boliviano foi até o zagueiro Edu Drascena e pediu para "aliviar um pouco" e não fazer mais gols.
Na torcida uma grande faixa exibia uma frase em espanhol "aqui a resposta é dentro de campo".

O futebol tem certos aspectos difíceis de se entender. Um esporte maravilhoso, emocionante, mas que provoca atitudes incompreensíveis de muitas pessoas. É mais fácil de entender uma luta entre judeus e palestinos, uma violência sem razão, mas com motivos seculares de embates e uma diferença histórica em suas raízes.
Aqui, dois jovens do mesmo poder aquisitivo, da mesma cidade, se fossem trabalhar no mesmo local, provavelmente, seriam grandes amigos, mas num determinado dia, os dois acabam indo a um jogo de lados diferentes. Um decidiu que torcia para um time, o segundo preferia outro. Pessoas com a mesma cultura, mas decidiram que gostam de camisas de cores diferentes. Um acaba matando o outro por isso.
Seres humanos, modificados pela emoção, mas sempre agindo, exteriorizando sua essência. Certo ou errado, nunca se deve culpar a emoção do momento, ou o álcool ingerido, por atitudes tomadas. Só jogamos para fora o que está ali dentro, bem quieto, esperando um pequeno descuido para sair.
Eu estava no portão de entrada, aguardando meu irmão, quando ouvi um barulho de vaias e gritos, olhei e vi um grupo de torcedores bolivianos, perdidos, e passando no meio de toda torcida do Santos que esperava para entrar no portão principal. Dois guardas ao meu lado correram para proteger e levar os amedrontados visitantes para o lugar correto. Um homem de seus 40 anos, olhou para mim e falou:
- Pra que proteger, deixa esses índios tomarem porrada!
Ele não falou brincando.

Minutos depois um homem comia um cachorro-quente. Acabou, enrolou o papel nas mãos e o atirou para o lado, no meio da rua. Alguns metros dali, outro terminou sua cerveja, abaixou e, carinhosamente, colocou a latinha no chão, e saiu. Qual dos dois era pior? O segundo, pois tinha mais consciência a ponto de tentar esconder o que realmente era: um "porco".

É fato o problema que enfrentam os jogadores brasileiros quando jogam em cidades com altitude extrema. A baixa concentração de oxigênio preocupa inclusive danos a saúde geral de qualquer indivíduo, fazer intenso exercício num ambiente tão hostil. Os times destes próprios países costumam jogar ao nível do mar, deixando a altitude apenas como arma para prejudicar jogadores que não estão acostumados com ela.
Comprovando isso, o time que perdeu de 2 a 1 na Bolívia, ganhou de 8 a 0 em casa, com uma facilidade que parecia um jogo de profissionais contra crianças.

Humildade.
Ainda sobre o tema da altitude, é incrível como certas pessoas públicas acham que podem dar suas declarações emocionais, parciais, e não pensar com a razão, visto que comentários podem se voltar contra eles mesmos.
Maradona, depois de um jogo onde a seleção brasileira perdeu para um desses times que jogam na altitude, deu uma entrevista ácida, dizendo que a altitude não influenciava em nada o resultado do jogo. Qualquer jogador que já atuou nestas condições saberia que não prejudica em nada o rendimento, e outras baboseiras de seu costume nas entrevistas.
Algumas semanas depois, a seleção argentina (da qual era técnico) perdeu de maneira vexaminosa para a seleção da Bolívia, na altitude. 6 a 1. E ele não podia explicar com a verdadeira causa do desastre, que seria o motivo óbvio. Assumiu que seu time jogou mal e procurou explicações alternativas, muito piores que a verdade, que não podia usar por ter sido garoto-propaganda das cidades de altitude quando a Fifa quis impedir jogos nestas condições.
Nada como um dia após o outro...

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Escassez

Esse é o nosso Brasil: terra dos contrastes. Das favelas na grande cidade, crescendo aos pés de luxosos condomínios. Dos ricos empresários com cultura de sobra, fechando sua janela ao pedinte que lhe estende a mão no farol. Da colossal arrecadação de impostos e do miserável retorno dos benefícios à sua população.
O último texto mostrou nosso espanto pela fartura de peixes em uma comunidade de pescadores do Pará. Porém uma solitária fartura. O peixe é o alimento em abundância, mas há carência de muitas outras coisas. Tão surpresos quanto observamos os peixes que sobravam, visitamos a escola de palafita da comunidade. E não, não era por ser de palafita - o que dava até uma beleza ao local, assim como belas casas da comunidade, erguidas pelas hastes de madeira que as afastam da maré alta -, mas pela continuidade do ensino.
Eram três salas, repletas de lindas crianças. Olhos brilhando ao fitar os kits escolares que ganhavam. Dei uma rápida palestra, olhei seus dentes. A maioria com cáries enormes! Dentes perdidos esperavam por uma extração. Quem faria se para ir a um dentista seria necessário um barco e muito tempo até o destino? A primeira escassez que notamos foi essa: saúde.
Idagamos sobre a educação, ali os alunos estudam apenas até a quarta série. Depois, somente pegando o barco-escola de madrugada até a outra cidade (algo que vimos também na comunidade de pescadores de Paraty-Mirim-RJ). São poucos os que seguem essa rotina. A grande maioria dos alunos não mais são chamados assim. Tornam-se pescadores como seus pais, avós... E nao é problema o fato da profissão, digna e bela como qualquer outra, mas sim o fato de não haver uma alternativa. De crianças não terem chance de sonhar com outros horizontes, mesmo que fosse apenas continuar estudando. Apenas?
Se o acesso à educação, saúde, inclusão social, para brasileiros que vivem com poucos recursos em uma cidade maior não é fácil, o que dizer dos que vivem em uma comunidade mais isolada?
Fizemos uma confraternização com as crianças e adultos na praia, sob uma bela palhoça. Tocamos violão, fizemos um belo churrasco. Eles cantavam, brincavam. As crianças comiam e sorriam. Notamos, com curiosidade, que elas preferiam muito mais a farinha que tínhamos do que o peixe assado, onde observamos o excesso de um em relação ao outro.
Num belo pôr de sol percebi que a fartura de peixes na região não era solitária como disse no começo do texto. Era acompanhada da maior fartura que um povo pode alcançar, e, acredito, a mais rica de todas as outras: a de felicidade.







                                               Fotos: Luis Salvatore

terça-feira, 1 de maio de 2012

Fartura

Voltamos este fim de semana de uma viagem de 20 dias desde o sertão do Ceará, até as praias do Pará, cercadas pelos vermelhos pássaros guarás e seus imponentes búfalos. Nos últimos dias conhecemos uma comunidade de pescadores, onde se chega apenas pelo mar. Um barco-escola nos levou até lá.
Uma escola de madeira - assim como as casas de palafita, espalhadas pela rua principal de areia branca - nos aguardava com suas três classes repletas de alunos para receberem kits escolares com cadernos, livros, lápis e canetas; além, é claro, do material de higiene bucal: escova e creme dental. Depois de uma conversa com os alunos, um delicioso almoço com peixe frito e camarão, junto ao arroz com farinha, fomos conhecer o curral dos pescadores.
A uma boa caminhada da escola chegamos à praia, que é regida pela maré e define a sobrevivência das dezenas de famílias da comunidade. Uma característica do recortado litoral da região é na maré baixa a areia se secar, deixando barcos no chão e plantas à mostra e, nas horas seguintes, a cheia adentrar em poucos minutos preenchendo tudo novamente, deixando algum desavisado que esteja na praia, isolado, precisando voltar a nado para a região das casas (ou dormindo em alguma charmosa palhoça próxima ao mar).
Cada dia a maré seca uma hora mais cedo e os pescadores sabem exatamente o momento de se encaminhar ao curral e retirar sua sobrevivência do mar. Ele é formado por altas madeiras enfileiradas no sentido em que a maré é puxada e segue até as duas últimas traves, onde uma rede de pesca recebe os peixes que seguem este caminho. Entre as madeiras laterais não há redes, o que nos levava a pensar "por que os peixes não desviavam pelas laterais?".
- Quando a maré passa pelas madeiras faz um barulho (turbilhonamento) que incomoda os bichos, então eles se afastam das bordas e seguem para o centro, onde tem a rede. - explicou um pescador mais experiente.
Quando chegamos ao local, os pescadores já cortavam a rede - que seria amarrada mais tarde novamente - e retiravam os peixes para os enormes baldes que traziam. A quantidade era incrível! e impressionava o número de peixes deixados de lado. As pessoas colocavam em seus cestos exemplares enormes, de mais de um metro de comprimento. Outros pouco menores, que em São Paulo chamariam a atenção em uma feira livre pelo tamanho e beleza, eram jogados na areia e fariam a festa de cachorros e urubus que, assim como os moradores, também sabiam a hora exata de se encaminharem para o local.
Na rede, jazia uma enorme arraia, de aproximadamente um metro e meio e não seria levada. Já havíamos experimentado a carne deste animal, muito saborosa e com uma consistência que permeia entre a carne de peixe e a de gado. Pedimos a um garoto que a preparasse para nós. Ficamos surpresos ao observar que não é um peixe apreciado por eles, que reclamam de seu duro "couro" que deixa a faca cega.
Voltamos para a comunidade. Pescadores com baldes e cestos cheios que alimentarão suas famílias e ainda venderão o excedente para as cidades vizinhas. Nós, surpreendidos pela imensa fartura que existe no litoral norte brasileiro.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Vídeo: Bibliotecas no Maranhão

Em março viajamos para o Maranhão, na cidade de Barreirinhas, em um fim de semana (de quinta a domingo). Lá verificamos a entrega das 23 bibliotecas doadas pela parceria Instituto Brasil Solidário e Casas Bahia (o projeto Amigos do Planeta na Escola), e entregamos as placas que tanto dão orgulho aos gestores de cada uma delas. Além disso, fizemos o levantamento da sala de um posto de saúde na comunidade de Atins, onde doaremos um consultório odontológico, especialidade tão carente naquela região.
Escolas pequenas, inseridas em uma zona rural de difícil acesso, onde apenas carros especiais passam os atoleiros de areia e regiões extremamente alagadas.
É incrível quanta coisa vivemos nestes pouquíssimos dias; paisagens maravilhosas, histórias de vida, sorrisos de crianças, animais selvagens, aprendizados sobre a cultura local e o cotidiano de trabalho do nosso povo.
Algo que seria impossível descrever em palavras neste texto. Como dizem que uma imagem vale mais que mil delas, tentei condensar tudo em 15 minutos de vídeo.
E ainda falta! Mas dá pra dar o gostinho...

quinta-feira, 22 de março de 2012

"Haja minino!"

Ainda há no Brasil lugares onde as pessoas tem 8, 10, 13 filhos. Nos dias atuais, no sertão, a média de descendentes diminuiu, mas ainda vemos pais muito animados. Em todo lugar que passamos há crianças e mais crianças.
Estivemos em uma casa, de seus 20 metros quadrados - se chegasse a tanto -, com paredes de ripas de madeira e teto feito de palhas entrelaçadas, ao lado da escola que o IBS, em parceria com as Casas Bahia, está construindo na comunidade. Um jovem casal vive ali com seus 5 filhos e, enquanto as obras continuam, um parente que ajuda a levantar a sonhada escola se mudou temporariamente para lá, com sua esposa e mais 5 filhos.
Entramos para conhecer; curioso imaginar como 14 pessoas vivem ali dentro.
- Ah, na hora da comida é uma bagunça danada! Criança correndo por todo lado! - disse a avó, que mora em frente, dando uma divertida risada.
De noite, as redes são penduradas pelos 3 cômodos da casa de chão batido. A única cama - de casal - fica no quarto e Luis se divertiu vendo várias redes penduradas em direções diferentes, sobre e em volta dela.
- Mas me diz uma coisa: como que dá pra fazer tanto "minino" com tanta gente em volta??? - perguntou entre risadas para a mãe, que suspeita estar esperando mais um.
Ela riu envergonhada, pensou, mas não deixou de responder:
- Ah, a gente faz meio devagarzinho... - risos por todo lado.
Já na mesma cidade, Jaciria, que trabalha na secretaria de educação de Barreirinhas e nos acompanha no projeto, é a filha mais nova de 13 irmãos (dois já falecidos). Seu pai morreu quando ela tinha apenas 7 meses de idade.
Em nossa base de Canudos, na Bahia, as vezes tem tanta criança ao nosso redor que brincamos que um dia abriremos o chuveiro para tomar banho e não cairá água, descerá uma criança sobre nossos braços.
Porém, hoje, há uma história mais triste por trás do alto número de natalidade: políticas populistas. Ouvimos histórias de mulheres que engravidam pensando no benefício em dinheiro que receberão no nascimento do filho.
- Uma mulher que conheço queria comprar uma moto, engravidou e comprou depois que o bebê nasceu. Outra já mobiliou a casa a cada filho que teve. As crianças mal comem direito, mas a casa tá cheia de móveis - ouvimos.
Uma triste realidade que contrasta com uma época em que ter vários filhos era uma regra, a casa cheia: uma alegria. Assim como nossa amiga arrematou:
- E todos me dizem que meu pai só parou nos 13 filhos porque morreu, senão continuava!
Quem duvida?

quarta-feira, 14 de março de 2012

Opostos

Nem sempre os opostos se atraem. Em muitos casos, na verdade, se repelem.
No ano passado, quando trabalhamos em Barreirinhas - linda cidade do Maranhão - conhecemos um bar que ficava em uma palafita, sobre o lindo rio Preguiças. O local nos remetia às memórias das mais belas fotos de algum bar desse estilo em outras partes do mundo.
Um salão amplo, telhado de palha, sem paredes. Aliás, não tinha motivos para se ter paredes; a visão se dava para o rio que refletia as luzes amarelas dos postes que iluminavam a passagem de areia entre o rio e uma linda duna, presente no centro da cidade.
Como não podia deixar de ser, naquela noite, havia uma radiola - uma parede montada com caixas enormes de som, operadas por um DJ - que rolava o ritmo dominante da região norte do Maranhão: o reggae.
Foi uma noite muito agradável, onde aquela paisagem maravilhosa se misturava ao leve som que surgiu na Jamaica e chegou pelas ondas do rádio àquelas terras desde meados do século XX.
Assim, quando retornamos na última visita para entregar as bibliotecas, tínhamos a esperança de rever o lugar em nossa primeira noite. Em uma triste surpresa o bar estava fechado. Há boatos que se tornará um restaurante.
Resolvemos conhecer outro lcal, onde haveria o show de um músico (um vocalista e um tecladista). O espaço estava cheio, em um pátio cercado por muros escuros. Curioso que não foi esta diferença visual que nos chocou, mas sim o estilo musical.
Música é algo maravilhoso e falar contra um som diferente do que você gosta seria intolerância pura, porém o estilo que assustava era das composições. Músicas que falavam sobre sexo, bebidas, de uma forma agressiva, até depreciando as mulheres, algo triste, por baixo do jeito alegre de ser cantado.
Tínhamos a lembrança de uma noite linda, em contato com a natureza, debaixo do som do reggae, com músicas que falam de paz, amor, Deus, crianças e natureza. Estávamos ali, ouvindo sobre "pegar a mulher de jeito, atarracar...".
Sem preconceito musical, mas em estágio evolutivo, estávamos naquela noite um passo atrás de onde já estivemos.
Vendo as fotos, lembramos com carinho daquele lugar. Bar ou restaurante, sempre estará na memória como um estágio a alcançar.






sábado, 25 de fevereiro de 2012

O boi do João Rita

Curioso como nomes e apelidos acabam se incorporando às pessoas e se transformam em uma marca, um som, algo que, dito mais tarde, mal pensamos no que significa, já remetemos a imagem do objeto em questão.
Imagine que você faça parte de uma banda. Tudo pronto para seu início, músicas feitas, grupo coeso; mas falta um nome. Alguém lhe pede uma sugestão, e você, sem titubear, dispara:
- Que tal "Os Paralamas do Sucesso"?
Dá para imaginar a reação dos amigos em volta? Paralamas, como de um carro, mas do sucesso? O que tem a ver. Seria uma boa definição para uma "idéia de jerico". No entanto, alguém deu a idéia, incrivelmente outras pessoas aceitaram, o nome se incorporou a uma banda de excelente qualidade e hoje, quando falamos Paralamas do Sucesso, ninguém pensa no medonho nome. Aliás, não imagino um outro nome para dar à banda. Não teria um melhor. Quando vou a um show dos Paralamas, a palavra é suave como uma bela música tocada pelo Hebert Viana.
Uma de minhas mais longínquas lembranças, quando era muito pequeno, era, bem cedinho, mamar uma mamadeira deitado no sofá da sala, preparada pela minha mãe ou pela querida avó. Quando terminava todo o leite, minha vó sempre dizia:
- Ooo boi do João Rita! - terminava com um lindo sorriso, daqueles que só as avós sabem dar.
Esse slogam acompanhava qualquer um dos meus irmãos, ou primos que mamavam suas suculentas mamadeiras e "boi do João Rita" soava como uma palavra só, que já significava que a criança havia mamado tudo, com fervor.
Muitos anos mais tarde, ouvi minha vó chamando um primo ainda bebê de nosso velho apelido e um gostoso saudosismo me invadiu. Já estava crescido e a curiosidade apareceu.
- Vó, por que boi do João Rita?
Ela respondeu:
Quando eu era pequena, lá no interior de Minas, nós morávamos em uma fazenda. O dono da fazenda do lado se chamava João Rita e tinha uma boa boiada. No meio dela tinha um boi muito safado, que mamava em todas as vacas. Mal deixava leite para os bezerros se eles não o separassem. Por isso criança que mama muito é igual ao boi do João Rita.
Como é bom dar uma risada pura, tão verdadeira como aquelas lembranças de tempos de criança. Depois de tantos anos, tudo fez sentido. Admirei mais ainda minha vó pela criatividade e por tornar um apelido tão gostoso de ouvir. Com certeza, quando tiver um filho e der uma mamadeira para ele, esse será o novo Boi do João Rita.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O sorriso

Era uma estrada do sertão de Pernambuco. Andávamos devagar, pelos buracos e, ao mesmo tempo, admirando a bela paisagem da caatinga que mostrava suas folhagens verdes pela chuva que vinha abençoando a região nas últimas semanas.
Metros à frente, uma menininha esperava para atravessar a rua. Puxava uma cabra e uma ovelha por duas cordinhas e exibia um semblante de paz. Paramos para que ela atravessasse. Ela sorriu tímida e agradeceu. A cena foi de uma pureza, dessas que envolvem o sertão do Brasil, que lhe pedi:
- Posso tirar uma foto sua?
Ela sorriu envergonhada e disse que sim, quase fazendo uma pose junto aos seus animaizinhos. Tirei. Agradeci com um sorriso sincero. Ela sorriu, me agradeceu - como se precisasse - e terminou a travessia da estradinha.
Do outro lado, abriu uma porteira de madeira e aguardou passarmos a sua frente. Acenei e disse um novo obrigado. Ela abriu um sorriso lindo, acenou efusivamente com a mão, com um carinho tamanho, e um agradecimento, e uma emoção, como se fôssemos alguém da família, que não via a muito tempo.
Um sorriso tão sincero, tão puro, que me marcou para o resto da vida.

domingo, 29 de janeiro de 2012

A secretária

Ela tinha acabado de assumir a secretaria de Educação de sua cidade quando a conhecemos. Passou por enormes dificuldades. No meio político, não é fácil entrar com ideais, vontade e honestidade. Em uma incrível inversão de valores, temos a impressão que as pessoas honestas, com boas intenções, são perseguidas. Com ela foi assim.
Nasceu em uma família simples e seu sonho foi sempre seguir o caminho da educação. E assim, depois de alguns anos na área, recebeu o convite para ser a secretária de educação de Iraquara, cidade do interior da Bahia, que possui em torno de 22 mil habitantes.
Assim que assumiu, procurou fazer uma revolução no ensino local, desagrando algumas pessoas; logo passou a receber perseguição política.
- No começo, eu tinha que levaá-la e buscá-la todo dia. Ela recebia até ameaças. - me disse Sissi, motorista da prefeitura.
Uma de suas primeiras ações foi resolver um daqueles problemas que vem se arrastando durante anos. Uma das escolas da prefeitura dava enormes prejuízos e levava recursos que poderiam melhorar a situação de muitas outras. Procurou o governo do estado e resolveu fazer uma parceria, assim ela receberia recursos maiores e melhoraria consideravelmente seu ensino. Deu certo, porém os adversários políticos enxergaram uma boa brecha. Dias depois um carro de som, pago por alguns vereadores, passava pelas ruas da comunidade dizendo que a "senhora Simone" pretendia fechar escolas e acabar com a educação do município, junto a outras mentiras.
Pessoas de seu próprio convívio profissional faziam intrigas, diziam que ela "queria apenas aparecer, se mostrar" com seus atos em favor da educação.
Pensou em desistir algumas vezes, quando a tristeza apertava demais, porém seguiu em frente. Seu sonho era maior que isso.
Foi nessa época que chegamos à cidade com o projeto de desenvolvimento sustentável na escola. Foi uma agradável coincidência (se é que elas existem); nós precisávamos dela e ela de nós. Um projeto que leve mais de mil livros e estantes para formar uma nova biblioteca na escola, computadores, internet, rádio-escola, oficinas de arte, ações de meio ambiente e saúde, é sempre bem recebido pelo poder público. Não raro aparecem políticos dos mais diversos níveis para discursar e tirar fotos. E assim Simone tinha um grande trunfo: poderia realizar as melhorias que sugeríamos - e que tanto sonhava -, sem a oposição ferrenha que vinha sofrendo.
O trabalho que realizamos em uma escola, rapidamente foi multiplicado para todas as escolas da cidade. Hoje cada uma delas - mais de 30 - foram reformadas ou estão em reforma. Todas com escovação diária, escovódromo, horta comunitária, bibliotecas, aulas de capoeira... Se transformaram em um local onde as crianças querem ficar.
Para isso, devo salientar, recebeu o importante apoio apoio do prefeito Edimário, comprometido com a educação.
Como é difícil elogiar um prefeito, sem que pareça interesse. Quem visita este blog acompanha que, até hoje, praticamente todas minhas menções a políticos foram críticas ferrenhas. Mas, graças a Deus, há luz no fim do túnel. Até aqui conhecemos poucos, mas bom políticos que se diferem muito dos demais. Gestores que se empenham em gerir com responsabilidade e foco na educação de seu povo. Assim como Edimário, em Iraquara, conhecemos Zé Carlos em Irecê, que junto com a secretária de educação local, Margô, também desempenham um trabalho bonito nas escolas da cidade. Em Primavera, no Pará, conhecemos a jovem prefeita Cleuma, que também luta com garra para melhorar sua cidade.
Enfim, é bom terminar um texto elogiando políticos. A sensação é de que temos, sim, um futuro promissor. Há gente boa, com ideais e vontade de melhorar nosso país. E nós, precisamos discernir essas pessoas e fazer com que virem maioria, deixando de lado os velhos "coronéis" e sua política senil. O povo está, aos poucos, começando a tomar consciência disso.
Observamos isso com as "Simones", "Margôs", e sua turma que começa a aparecer neste meio, incomodando os amantes da velha anarquia política que ainda existe por aqui.
Como diz a própria Simone: "Não vou desistir!"
Todo o Brasil agradece, minha amiga!