segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Chico "Diabinho" (por João Victor Macul)

Chico andava cambaleando, trançando as pernas por aí. Cheirava à pinga, um bêbado. Conheciam seus hábitos, suas fraquezas, vícios contínuos, retratos de impureza. Todo dia um trago ou dois, ou três ou mil. Sua fama de fala mole e sem aparente sentido levou ao povo a apelidá-lo de ¨diabinho¨.
Por quanto tempo ele acreditou, ou acredita, nesse apelido de valor tão pejorativo, ninguém sabe. Nem ele mesmo. Aliás, não sabe ler nem contar. Não sabe quantos anos tem. Sabe apenas que é de 6 de maio de 1966.
Numa noite de sexta feira, Francisco, estava caído, embriagado. Dormia no chão. Num bar próximo, havia um grupo de pessoas que tinham vindo de outra cidade, conversando, tocando violão e cantando. Chico ¨Diabinho¨ levantou-se e foi andando, meio torto, seguindo, talvez, a música. Ao se aproximar do bar, as pessoas pararam de cantar e convidaram Chico a sentar-se. ¨Diabinho¨ estranhou tal fato, afinal de contas, a maioria o destratava. Ignoravam-no, no máximo riam quando ele balbuciava coisas sem aparente sentido.
- Boa noite. – disse um amigo desconhecido.
- Boa... – disse Chico.
- Como é seu nome?
- Meu nome é Diabinho..
- Não, o seu nome não é esse, esse é o seu apelido, quero saber qual é o seu nome...
Chico calou-se diante da pergunta, não sabia o que responder. Por muito tempo ele foi apenas Diabinho. Os amigos da roda, porém, não desistiram de saber o nome daquela figura esquálida. Tocaram uma música, e Chico batia palmas animadamente e tentava cantar. Após a música cada pessoa que estava na roda se apresentou dizendo o nome completo. O amigo desconhecido, que agora já era conhecido, continuou:
- Viu. Cada um tem um nome aqui, queremos saber o seu... – Disse Luis Salvatore, com uma voz calma.
Nesse momento, os efeitos do álcool pareciam ter diminuído. Chico procurava, silenciosamente na memória, a resposta para tal pergunta. Pequenas perguntas podem levar a grandes respostas. De repente, uma onda de identidade o atingiu. Chico levantou-se e disse bem baixinho:

- Meu nome é Francisco de Assis Gomes da Silva...

Disse mais uma vez, agora um pouco mais alto:

- Meu nome é Francisco de Assis Gomes da Silva!

E agora quase gritando, mas com um tom de confiança que deixou perplexo os que já o conheciam, mas nunca o tinham visto tão sóbrio:

- Meu nome é Francisco de Assis Gomes da Silva!!!

Francisco havia ficado submerso, preso no mundo de ¨Diabinho¨, o moribundo, por, provavelmente, muitos anos. E apesar de o sentido de seu verdadeiro nome, ainda não propiciar a ele um encontro com o seu verdadeiro ser, pode ter sido esse o começo de seu reencontro com a vida.
Ninguém na cidade sabia o verdadeiro nome de ¨Diabinho¨, mas quem viu a cena, soube que o sujeito tinha um nome. Mas, mais que isso, o sujeito tinha guardado dentro de si sua identidade. Pois a mesma lucidez que o fez recordar o próprio nome, poderia ajudá-lo a recordar-se de quem é.
Talvez hoje, Francisco esteja lúcido, vivendo no mundo, trabalhando para viver e procurando mais respostas. Talvez, simplesmente tenha parado de beber e esteja trabalhando numa loja de calçados. Ou talvez, tenha voltado a beber e se enfiado no mundo de ¨Diabinho¨ de novo.
Seja qual for a alternativa, uma coisa é certa: Francisco de Assis Gomes da Silva sabe que possui algo mais que um sórdido apelido, ou mesmo um nome. Pode, ainda que por hora, ter se esquecido disso, por causa da bebida, da vida, e etc. Mas será sempre um ser humano.
Coisas simples como uma conversa, um abraço, uma flor ou 5 minutos de atenção, podem ter efeitos surpreendentes na vida de quem recebe, e de quem dá também.
Procuramos sempre uma ¨luz no fim do túnel¨, e nos esquecemos de que nós SOMOS essa luz. Podemos encontrar lugares de paz dentro de nós, a todo o momento. E quanto mais deixarmos que nossa luz brilhe, mais poderemos servir de holofote para àqueles que vêm atrás.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A história de Del

Em algum texto atrás eu disse que contaria a história do Del, um menino da cidade de Nova Iorque, no Maranhão. Isso mesmo, a cidade se chama Nova Iorque. Todos devem imaginar a quantidade de piadas (sem a mínima graça, diga-se de passagem) que surgem por ser homônima da famosa cidade americana: "Putz, esqueci o passaporte!", essa uma das mais comuns, geralmente quando passávamos a divisa, "Xiii, o Pinduca vai ser barrado na fronteira...", sobre nosso amigo barbudo e com um volumoso nariz lembrando Bin Laden. Bom, antes que o assunto se perca para nunca mais voltar, vamos falar de nosso pequeno amigo de lá. Delino é um garotinho pequeno, franzino, com 9 anos e muito inteligente. Nasceu com alguma síndrome que, nas pouquíssimas vezes em que foi a um médico, nunca diagnosticaram. Ela causa problemas como ausência de glândulas na pele, que provoca grande ressecamento: "A gente morria de dó, as vezes o bracinho dele estava tão ressecado que até rachava", nos disse uma professora. Possui um cabelo bem ralinho e, no que compete a minha área, além da ausência de muitos dentes possuía os quatro dentes da frente pontudos, como o canino. Assim que o conheci me propus a transformar os dois centrais, acrescentando resina e os deixando mais quadrados. Ele disse que queria e apareceu na sala da escola - onde montamos a cadeira de dentista - meio desconfiado. Sua professora me disse em particular que ele era muito inteligente, um dos mais espertos da escola, algo que eu comprovaria logo depois. Levamos alguns brindes para as crianças, entre eles uma réplica do antigo Pirocóptero (aquela hélice que se encaixa num canudo de plástico e voa alto quando o giramos. Antigamente vinha de brinde nas garrafas de Toddy). A sala estava repleta de crianças que faziam a maior festa enquanto eu terminava de arrumar a sala. Manolo (companheiro de equipe) pegou a hélice e o canudo separados e o fechou na mão perguntando: "A criança que souber o que é isso ganha o presente!". Passou de uma em uma, que olhavam e balançavam negativamente a cabeça. Ao passar na frente do Del ele olhou com um sorriso para o Manolo e disse: "Eu sei o que é isso. Você cloca essa parte junto com a outra e roda pra ele sair voando." Disse com uma calma como se já tivesse visto alguma vez o brinquedo. No final do dia dormiríamos na própria comunidade em que estávamos e de noite começou um animado luau em que até bem tarde ficamos cantando ao som do velho Raulzito (violão de estimação da turma), a única criança que ficou até o fim, bem quietinho, ouvindo com atenção atrás de um contido sorriso, era o Del. No dia seguinte, chegamos à escola as 8 da manhã. Segundo a professoara ele estava lá desde as 7! Assim que me viu correu até mim, me deu um abraço, olhou nos meus olhos e disse: "você toca e canta muito bem!". Dei risada e agradeci, perguntando se ele gostava de ouvir violão. Ele respondeu que sim e nesse momento decidi: na outra visita que faríamos levaria um violão de presente para ele. Ao aoltar para São Paulo não foi difícil organizar entre os amigos uma "vaquinha" para um bom violão, capa, cordas sobressalentes, revistinhas de teoria, enfim, tudo que um garoto inteligente como o Del - e com sensibilidade para a música - precisaria para começar a tocar. Assim que voltamos à cidade eu estava ansioso; o embrulho para presente estava do jeito que eu adoraria ganhar quando era criança. Chegamos tarde da noite e ele estava ainda acordado para nos esperar. Me abraçou e me segurei para não falar antes do tempo na surpresa que o aguardava. Uma professora me disse momentos depois: "Tadinho do Del, não sei se você sabe, mas o pai dele morreu faz 10 dias hoje. Ele ficou tão tristinho...". Senti um nó na garganta e, ao mesmo tempo, pensei que o presente vinha no momento certo. Na despedida, na hora dos agradecimentos e das premiações para a escola e professores resolvemos presentear também o Del. Um momento muito feliz, ele mal sabia o que falar e o Bruno - nosso amnigo músico - já começou uma rápida aula para ele. Quando pediu para que ele repetisse, o pequeno, muito sincero, disse: "eu prefiro não tocar nada por enquanto, ainda faz pouco tempo que meu pai morreu.". Pela simplicidade de nosso pequeno amigo e de sua família ainda não consegui contactá-lo, mas amigos da cidade dizem que ele está adorando e seguindo adiante com o instrumento. Fevereiro teremos a oportunidade de reencontrá-lo numa nova etapa do trabalho em Nova Iorque. Segundo o combinado, Del tocará uma música conosco, talvez à beira de uma fogueira, como no dia em que ele ouvia, alegremente, seus novos amigos tocando o instrumento que sonhava em ter um dia.

No vídeo Del conversa comigo na primeira viagem, no dia seguinte à roda de violão.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Riquezas

Em uma cidade, no sertão brasileiro, seguíamos com o trabalho social. Uma correria louca, fila enorme, várias crianças, muitos adultos; todos esperando, pacientemente, o momento de seu atendimento.
Seria impossível, mesmo sonhar, atender a todos. Mesmo assim não me sentia à vontade ao ver aquela senhora que esperou 40 minutos, uma hora - talvez até mais-, se sentar na cadeira e apenas ouvir pequenas e rápidas orientações de higiene bucal e um “mil desculpas, mas infelizmente não conseguiremos fazer o tratamento longo de que você precisa...”. Surpresa mesmo é vê-la abrindo um enorme sorriso, envolvendo minhas mãos com suas duas, olhando em meus olhos e dizendo:
- Imagina, meu filho. Eu agradeço de coração vocês terem vindo aqui, fazer tanta coisa boa pra esse povo que precisa tanto. Deus abençoe a todos vocês, muito obrigado!
Muitas vezes recebemos agradecimentos assim vindo de dois olhos marejados.

Certo dia uma senhora parou ao meu lado com sua filha e esperou até que eu acabasse de atender. Tinha seus 60 anos, cabelos brancos que desciam por ambos os lados de sua face e um sorriso puro. Sua filha, que tinha 30 anos e possuía síndrome de down, usava óculos novos, daqueles bem grossos, que deixam os olhos pequeninos.
Com enorme simpatia me pediu para que eu atendesse a moça, que sofria muito com dores e não conseguia atendimento no posto de saúde.
Assim que se sentou na cadeira vi que tinha cáries muito grandes, já haviam chegado ao canal. Outro dente necessitava extração, infelizmente tudo que eu não poderia fazer ali.
Expliquei tudo o que deveria ser feito e o porquê eu não poderia fazer.
- Mas vou dar um encaminhamento para o posto de saúde explicando tudo e pedindo para que seja feito o tratamento. Desculpe não poder ajudar mais que isso... – disse meio sem jeito.
Ela abriu um enorme sorriso e me agradeceu muito:
- Magina doutor, isso já é uma felicidade imensa, o senhor nem imagina. Eu já estive tão feliz hoje com os óculos que ela recebeu que nem precisaria mais de nada. 30 anos tropeçando nas coisas, sem enxergar direito e agora ela vê tudo! Esse papel então só completa a minha alegria.

Por esses motivos nunca deixava de conversar com alguém quando saía da sala, mesmo que estivesse muito atrasado. Muitas vezes uma simples conversa de dois minutos em um corredor é algo que faz um bem enorme para as pessoas e para nós.
Senhoras – bem velhinhas – me paravam e contavam a história de suas vidas, de como Deus havia sido bom com elas, dizendo coisas sobre a história da cidade... Riqueza imensa.

O que é mais importante para uma pessoa? Uma restauração, uns óculos ou um atendimento médico? Não sei, mas uma coisa é certa: a atenção e o carinho estão entre as coisas mais importantes que alguém precisa. Principalmente em relação à população sertaneja, que já é tão carente de tantos outras quesitos, isso é essencial.
Levamos muitas coisas para o trabalho por estas cidades, mas o mais importante é o que levamos dentro de nós mesmos – atenção e carinho - e o melhor: isso é algo que nunca acaba. Pelo contrário, aumentamos muito com o que recebemos de lá. Se há algo que não falta no sertão é o amor ao próximo. Isso eles tem em excesso e supre todas as outras coisas que lhes faltam.
E nós, que pensávamos em doar algo, voltamos de lá completamente ricos.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Mão de Deus

Os desígnios de Deus. Muitos podem não acreditar nisso. Eu mesmo não acredito em um destino que está escrito, completamente definido para cada um de nós. Dessa forma não teríamos mérito algum em conseguir algo ou nenhum erro em cometer crimes: estaríamos apenas seguindo um texto escrito pelas mão divinas.
Porém acredito que a vida possa ser como uma estrada em que vamos seguindo adiante, cada um na sua. A minha passou por uma faculdade de odontologia. O livre arbítrio poderia me fazer mudar para outra, temos nossas escolhas.
O fato é que muitas vezes encontramos situações em que Ele parece nos indicar algo a fazer, de forma tão clara que sentimos a Sua presença. Somos usados – no ótimo sentido - apenas como um instrumento para algum plano maior. E como prêmio: a realização, uma enorme alegria.
Mateiros, uma cidade bem pequena no interior do Tocantins – coração do Jalapão -, nos presenteou com uma dessas situações.
Para chegarmos até a cidade tínhamos um dia inteiro de viagem pela frente, já que a estrada, apesar de muito bonita: de terra, vegetação numa mistura de caatinga e cerrado e animais silvestres, possui trechos bem ruins, com atoleiros.
Foi num desses que o nosso caminhão (ou melhor, o que as Casas Bahia nos empresta para o trabalho) atolou feio. Pás e enxadas, que eram usadas para fazer hortas, trabalhavam incessantemente para tirar o enorme veículo do que parecia ser uma piscina de terra fofa.
Uma das maiores motivações para a pressa era a vontade de conhecer a Cachoeira da Formiga – que possui uma água num tom azul forte, tingida pela natureza -, que fica a uns 40 km de Mateiros, já que chegaríamos cedo e não haveria trabalho naquela tarde.
Depois de uma hora entre suor, terra vermelha tingindo nossas roupas e corpos e tentativas inúteis conseguimos desatola-lo. Íamos direto à cachoeira, mas decidimos entrar na cidade para comer algo rápido e amansar a fome. Neide – nossa amiga da cidade que estava conosco - nos indicou uma lanchonete, que para o nosso “desespero”estava fechada.
Um homem vinha descendo a rua rapidamente e ela lhe perguntou se sabia onde estava o dono do bar.
Ele com uma aparência desesperada não conseguiu responder, apenas disse que estava procurando alguém que pudesse ajudar seu filho que estava brincando com uma corda na boca, presa a um pedaço de pau e ao pisar na madeira teve seus quatro dentes de baixo arrancados. Estes ainda estavam na gengiva, como se estivessem apontando para o horizonte. Disse que estava no posto de saúde num estado lamentável, com a boca sangrando muito e chorando sem parar. E para agravar a situação, a única dentista da pequena cidade estava de férias e não havia outro na cidade.
- Onde ele está? Eu sou dentista e posso ajudar! – disse, sentindo o arrepio de uma daquelas situações críticas.
- Tá lá no posto de saúde. – respondeu apontando para o final da rua.
Perguntei há quanto tempo o acidente havia ocorrido, torcendo para que tivesse sido há pouco. Na realidade a cada minuto que passa a chance de se ter um sucesso no reimplante dentário diminui. Até meia hora é excelente, quarenta minutos ainda há uma boa chance de sucesso. À partir de uma hora as chances vão se tornando mínimas.
- Deve fazer uns vinte minutos. – respondeu o desesperado pai, para minha alegria.
Corremos então para o posto. A pressa - e ansiedade para atendê-lo - era tão grande que só mais tarde comecei a me dar conta: como tudo tinha dado tão certo para que pudéssemos ajudar o garoto!
Uns podem chamar de coincidência, outros de providência divina. Independente de darmos um nome, o fato é que sentimos que há algo maior nos olhando e podemos até sentir Sua presença.
O garoto poderia ter sofrido o trauma qualquer dia desse mês em que a dentista do posto estava de férias, mas aconteceu justo no primeiro dos dois dias em que ficaríamos na cidade. Não só o dia, mas o mais importante: o momento. Se tivesse ocorrido tudo pela manhã não adiantaria muito reimplantar os dentes. Assim, o fato de o caminhão ter atolado nos fez chegar ao tempo exato. Perdemos em torno de uma hora naquele sufoco todo e quando chegamos à cidade ele havia acabado de chegar ao posto de saúde. Não tivéssemos perdido todo aquele tempo na estrada, àquela altura estaríamos na cachoeira, alguns quilômetros da cidade e, provavelmente, eles nem saberiam.
Voltando ao Posto de Saúde: eu, completamente imundo. Minha roupa num vermelho bem escuro, quase marrom, chinelo de dedo, cabelo ruivo de terra... Uma belezura!
Quando saltei do carro, ao longe, já ouvia o angustiante choro. Até me impressionei ao ver o garoto. Realmente, como o pai havia dito, os dentes de baixo apontavam o horizonte, muito sangue em volta e as mulheres do posto, junto com a mãe, com caras de desespero, sem saber o que fazer.
Fui direto ao banheiro. Lavei as mãos, até o cotovelo, e pareceu que um novo antebraço surgia diante dos meus olhos. Nunca em toda minha vida atendi alguém num estado daquele. Minha havaiana deixava pegadas pelo consultório e a única coisa limpa que estava usando eram as luvas e a máscara. Ah, claro, meus antebraços novos também.
Perguntei se estava tudo funcionando para a auxiliar que me ajudava a arrumar os materiais.
- Não, está com um problema de vazamento naquela garrafinha – era o filtro de ar.
O compressor funcionava, mas o ar não vinha para cadeira.
Foi triste ouvir isso. Precisaria muito usar o ar do compressor. Principalmente para o sugador e para o jato de água. Bom, pelo menos a cadeira subia e descia. Já facilitava um pouco.
Pedi então para chamarem o Manolo, meu braço direito e esquerdo durante os trabalhos. Ele é um cara que já fez de tudo na vida. Tem uma maleta de ferramentas que faz milagres. Várias vezes que já tive problemas com algum equipamento durante as viagens lá vinha o Manolo e sua maleta. Sempre arrumava tudo, o que nos fez chamá-lo de Magaywer – personagem de uma série dos anos 80 que com um clips e alguns chicletes concertava uma jamanta.
Não podia esperar o conserto. Na verdade nem sabia se o filtro tinha conserto. Então comecei a atender da maneira que podia, sem o sugador, sem o jato de ar ou de água enquanto meu amigo se lançava ao filtro de ar preso na parede do posto.
Com certa dificuldade consegui anestesiar o nervoso – com razão – garoto e reimplantar seus dentes permanentes. Um era decíduo (dente de leite) e não seria necessário.
- Pronto! Tá consertado! – disse meu companheiro enquanto eu também finalizava o atendimento.
Liguei o sugador e ele estava funcionando normalmente. Não precisaria mais dele, mas era ótimo deixar tudo funcionando bem para os próximos pacientes.
Saí da sala parecendo que havia sido atropelado pelo caminhão do Pedro. Todo sujo – assim como entrei – e cara de acabado. Geralmente quando se tem esses casos mais complicados a pessoa doa muita energia para atender e ainda acalmar a criança.
Mas estava feliz. Muito feliz por ter ajudado uma pessoa que estava em uma situação tão difícil. Pensava em como ele ficaria, com os dentes naquela posição – horizontal -, gengiva inflamada... Quem o anestesiaria para mexer ali? Quanto tempo ele ficaria com os dentes daquele jeito até extraí-los em outra cidade? Foi aí que comecei a me dar conta de como tudo tinha ocorrido perfeitamente para o ajudarmos.
Entramos todos no carro depois de recebermos muitos agradecimentos da mãe e das moças do posto. O melhor e maior pagamento que poderíamos ter. Ver – e ouvir - a auxiliar dizer “muito obrigada” com os olhos cheios de lágrimas e desejando que Deus nos ajudasse muito, é algo que não tem preço, nos deixava emocionados.
Era fim de tarde, ainda restava um pouco de sol no lindo céu de Mateiros. Enfim iríamos para a Cachoeira da Formiga. Me encostei no banco do carro enquanto o Manolo dava a partida. Todos estavam em silêncio, como se estivessem, aos poucos, absorvendo as muitas emoções vividas durante aquele dia.
Olhando pela janela o céu completamente azul, sem nuvens, sentia aquela sensação de felicidade plena. Observando meus amigos percebi que todos estavam compartilhando o mesmo sentimento. E num carro que parecia flutuar pegamos a estrada de terra que seguia até a cachoeira da Formiga.

sábado, 27 de dezembro de 2008

"Feliz Natal!"

Neste Natal, relembrei uma época em que o significado desta data era outro, completamente diferente. Na verdade, penso que era o verdadeiro significado e que, durante os anos, ele foi se perdendo, desaparecendo enquanto o tempo ia passando.
Senti saudade daquela sensação de plena felicidade quando passava, no banco de trás do carro, e avistava as alegres luzes enfeitando as casas e estabelecimentos comerciais. Não era só por se aproximar o dia em que eu ganharia presentes, a alegria brotava em meu peito simplesmente por ser o tempo de lembrar o nascimento de Jesus, por serem dias em que o ser humano é inconscientemente mais caloroso e preocupado com o próximo. Mesmo sem entender isso com minha pouca sabedoria de criança, o puro sentimento atingia diretamente meu pequeno coração.
A nostalgia foi me atingindo de um jeito que resolvi tentar a sentir aquela "magia" novamente. No banco de trás do carro, como a muitos anos não fazia, olhei pelo vidro traseiro, diretamente para os motoristas que vinham logo atrás. Senti como se estivesse dando um simples "tchau" pela janela e festejando quando o motorista, um desconhecido, sorriu e correspondeu ao meu aceno.
Em seguida uma senhora, com "pinta" de séria chegou bem pertinho e, sem exitar, com a língua para fora, fiz uma careta. Quase gargalhei quando a velhinha fez uma careta ainda mais feia do que a minha!
Tudo aquilo voltou a me dar a plena sensação de felicidade, que eu não sentia desde que era criança e que, mal sabia, me fazia uma falta enorme.
Passamos uma casa enorme, toda enfeitada com luzes e bolas coloridas de natal. Não conseguiria explicar a alegria que invadiu meu peito de criança, simplesmente por me lembrar que era natal, algo que já sabia antes de olhar para aquela casa...
Um homem passou ao lado de minha janela aberta e sem medo gritei: "Feliz Natal!". O amigo desconhecido acenou e respondeu: "Feliz Natal, meu filho!"
Tudo era muito gostoso e nesse momento senti pena de todos aqueles adultos que não mais sentiam essa alegria pura. Que se esqueceram do real significado do Natal. Que muitas vezes passam por lugares lindos e iluminados e não sentem aquel frio na barriga que me embreagava naquela hora.
Pensando nisso me senti feliz em ser criança, mesmo que por poucos minutos, novamente, e me fiz uma promessa: nem que seja por pouquíssimo tempo, sempre que dezembro chegar, deixarei aquele pequeno garoto renascer e me ensinar algo que nós nunca deveríamos esquecer.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

"A lenda de Lampião"

Num trabalho em Mossoró - RN conhecemos o escritor de cordel Nildo da Pedra Branca. Lá, ele nos presenteou com a declamação de uma das suas histórias: "O dia em que conheci Lampião". Bruno, nosso amigo músico o apresenta e faz o fundo musical. O vídeo segue abaixo, fantástico!

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Borboletas

O casulo balança, ligeiramente, para um lado e para o outro. Movimentos que mostram os primeiros desejos da borboleta de sair para sua nova vida. Esforço necessário para que o pequeno ser vivo ganhe força e resistência para enfrentar todos os desafios de sua existência. Se tentássemos ajudar, abrindo as fortes paredes para que a borboleta saísse com maior facilidade, acabaríamos criando um ser frágil e que não teria forças suficientes para os futuros obstáculos que viriam.
Se comparássemos essa história com a de um pequeno bebê nascido em 1994, poderíamos dizer que envolveram o seu casulo com ainda mais algumas camadas.
Minaçu, no sertão de Goiás, é uma cidade que possui um alto índice de abandono de crianças pelos pais. Entre outros motivos há um grande número de mulheres que são levadas para tentar a sorte na Europa, em empregos duvidosos. Assim os pequenos acabam sendo criados pelos avós, ou tios.
O destino de Jenifer seguiu linhas parecidas. Sua vida foi difícil desde suas primeiras horas, nascida de uma gravidez não desejada. Logo aos 3 dias de idade foi abandonada pela própria mãe num vaso sanitário de um banheiro público. Não fosse seu tio a encontrar a tempo a dantesca cena teria um trágico desfecho.
Seu tios a criaram com muito carinho, tanto que até hoje os chama de pais.
Desde esse trauma até os dois anos passou por muitas doenças que a afligiram, principalmente a amigdalite.
- Minha infância foi muito difícil, sofri bastante com essas doenças, mas Deus me deu mais uma chance e estou aproveitando o máximo possível! – costuma dizer, sempre analisando o lado bom de tudo.
Por volta dos 7 anos seus pais começaram a notar o gosto que a pequena apresentava para cantar. Mas diferente dele, admirador de música caipira e dela que aprecia o gospel, Jenifer gostava de cantar músicas em inglês, mesmo não entendendo nada das letras.
Foi assim que decidiram levá-la, aos 8 anos, ao primeiro festival de música. Teve ali sua colocação mais discreta até hoje: um sexto lugar.
- Nessa época não conhecíamos as regras e ela não foi muito arrumada. Eles dão pontos pra roupa também! – lamenta a tia/mãe.
Depois deste festival, só vieram sucessos: venceu todos os outros concursos que disputou. Uma voz linda e afinada, um timbre suave e um grande carisma deram grande vantagem nas disputas.
De todos os concursos que ganhou guarda um deles com um carinho especial. Em 2005, aos 11 anos cantou uma música bem animada da Avrill Lavigne.
- Nesse dia eu não fiquei nem um pouco nervosa. Eu dançava, pulava, batia palma, na maior animação. E todo mundo correspondia, pulavam e dançavam. Esse eu nunca vou esquecer, até chorei de tanta felicidade. – lembra emocionada.
Seu maior sonho é se tornar uma cantora profissional. Talento para isso ela tem, mas também sabe que, infelizmente, hoje em dia não depende apenas disso. Porém se não conseguir sonha também em ser médica. Adoraria poder salvar a vida de outras pessoas.
Pelo que já conseguiu ultrapassar até aqui, quem pode duvidar? Quem sabe o destino não colocou as dificuldades em sua vida justamente para que ela pudesse se sair delas mais forte. Como uma borboleta, consiga passar pelos obstáculos para alçar vôos cada vez mais altos.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O gringo

Hoje cheguei tarde do trabalho. Senti saudade de um tempo em que as preocupações eram bem menores: provas, trabalhos da faculdade, treinos...
Junto à turma de amigos, um de nossos passatempos nessa época, era ir ao Select (loja de conveniência do posto Shell) jogar papo fora e comer o enorme "dog", com direito a cheddar e molho chilli.
Numa dessas noites o João - ele mesmo, o João Arantes, cronista desse blog - nos contou uma história:
"Sabe aquela situação em que você não sabe se fez a coisa certa ou não? Pois é, semana passada estava indo à casa de um amigo meu estudar e em frente ao seu prédio um homem, de seus 40 anos, terno e gravata, cabelos compridos num rabo de cavalo, me perguntou: ´do you speak english?´. Respondi o meu ´yeah, so so´ e ele, com cara de desespero me contou a sua história. Seria americano, professor da Unicamp (Iuniquemp, em seu inglês perfeito) e estava na Avenida Paulista quando foi assaltado. Levaram tudo, seu lap top, relógio e carteira com todos os documentos. A única coisa que pedia eram 30 reais para poder pegar um ônibus (comêtcha, em seu sotaque) de volta à Campinas.
Bom, na hora fiquei meio baqueado, sem saber o que fazer. Me comovi com tudo o que disse, porém vocês sabem, né?! Há tantos malandros por aí... Fiz o que minha consciência mandou: dei os 25 reais que tinha no bolso. Meus amigos da facul disseram que eu viagei, que caí no conto do vigário e tal. Se era verdade ou não eu não sei, mas estou tranquilo comigo mesmo."
Dissemos que estava certo, que era muito difícil julgar e tal. E só para mencionar, isso aconteceu em uma época em que 25 reais, para nós, fazia falta.
Tempos depois - em torno de uns 6 meses - estávamos nós, de volta ao Select, devorando os mesmos cachorros-quentes, com os mesmos molhos furiosos em cima. Como sempre conversávamos e ríamos bastante e foi assim, com sorriso no rosto que saímos da loja. Estávamos em 4 amigos e eu ia à frente. Antes de entrar no carro ouvi uma voz vinda da calçada:
- Hey, do you speak english?
Longe de lembrar da, agora antiga, história do João respondi o meu "so so", como se sua resposta ainda estivesse implantada em meu subconsciente.
Quando o homem começou a se aproximar e já ia balbuciando algo num inglês perfeito, João ao meu lado ficou pálido e apenas disse:
- Meu Deus, eu não acredito. - assim mesmo, sem exclamação, não por falta de vontade de usar o temido sinal gráfico, mas provavelmente por falta de força perante a surpresa que o abocanhava.
- É o cara. Vocês lembram da história?...
Nesse momento a lembrança surgiu e todos ficamos atônitos, sem saber que reação tomar. Fôssemos uma turma de playboyzinhos e o gringo malandro correria sério risco de ser espancado.
- Cara, por que você faz isso? - foi a única coisa que um João incrédulo ao nosso lado conseguiu dizer.
O gringo, agora branco de susto também por perceber o risco que corria, disse algo como apenas estar procurando a embaixada dos Estados Unidos - que antigamente ficava ali perto - e se mandou.
Ainda falamos a ele que é por causa de pessoas assim que deixamos de ajudar outras que realmente necessitam. Mas de que adiantaria. O melhor a fazer era consolar nosso decepcionado amigo.
Chegamos a uma conclusão: O João havia feito a coisa certa na hora. Agir diferente seria seguir contra uma vontade nobre de ajudar, algo que devemos sempre exercitar e nunca evitar. Um dia, em nosso país, hão de mudar as inversões de valores que hoje existem, onde o malandro, o esperto, quem tira vantagem, é visto como o sagaz e quem agiu honestamente, deixou de levar vantagem passa por tolo.
Nessa história toda havia apenas um tolo, um coitado, uma pessoa a quem devemos ter pena: um pobre diabo que passa seus dias tentando ganhar alguns trocados enganando pessoas honestas.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

"Brasil, um país de todos." (por João Arantes)

Recebi em casa ontem a noite, um grupo de amigos para uma reuniãozinha despretensiosa de final de semana. Dentre eles, havia um casal que eu conhecia muito pouco; que acabou vindo à minha casa atendendo a um convite indireto de um amigo.

Enfim, em conversa com esse meu novo amigo, fiquei sabendo como o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) tinha sido largado pelas autoridades tucanas (PSDB) - ele havia trabalhado lá como engenheiro havia 10 anos. Segundo ele, foi promovido uma redução paulatina e gradual no orçamento da Instituição em questão - teria iniciado com o governador Mário Covas e levadas a cabo pelos governadores Geraldo Alckmin e José Serra. Ainda, segundo meu recente amigo, o que ultimamente teria dado um fôlego nesses últimos dois anos ao IPT, seria um projeto da Petrobrás fomentado pelo presidente Lula, que empossou o IPT na condução deste.

Coloquei no parágrafo acima, tudo o que sei a respeito do IPT. Não sei quão a reclamação desse meu novo amigo é procedente, quão o IPT é eficiente, o que motivou a redução do seu orçamento, até que ponto nosso presidente Lula foi feliz e autruísta com essa medida, mas enfim, essa história toda me remete a um outro ponto: massificação e qualidade.

Massificar significa perder qualidade! Ponto. É fato, infelizmente ou felizmente.

A geladeira da vovó durava uma vida inteira, em compensação, muito poucos possuíam uma igual. A minha geladeira que tem por volta de cinco anos, vem com instruções sobre a forma como devo jogá-la fora (desconectando-se a porta para que alguma criança brincando na rua não se tranque dentro dela enquanto a mesma fica aguardando o lixeiro na calçada).

O colégio estadual Fernão Dias Pais (por acaso o mantenedor desse blog é ex-aluno de lá) era referência de ensino de qualidade na geração dos meus pais; em compensação a população rural brasileira naquela época era incomparavelmente maior - quantos analfabetos por aluno que se formava custavam aquele ensino de qualidade?

Portanto temos aqui uma grande questão: quanto deve-se perder em qualidade em nome do aumento do acesso a uma determinada facilidade? Embora hoje em dia a geladeira dure muito menos se comparado às antigas, provavelmente encontraremos esses aparelhos em favelas. Se hoje o ensino provido por uma por uma escola pública fique muito aquém do que é exigido em um vestibular de uma faculdade de primeira linha, provavelmente o índice de analfabetismo seja menor que o do período do "colégio público de qualidade".

Agora, independentemente do culpado, o Brasil tem um problema grave: a dificuldade em se massificar o acesso às facilidades! Massificou-se o sistema de saúde por meio do SUS, e ele entrou em colapso! O poder econômico do brasileiro aumentou em uma década para cá: ficou ao alcance de mais pessoas viajar de avião e comprar um carro: caos aéreo e índices recordes de trânsito.

Voltando à saúde: não cumpre aqui debater se há poucos recursos ou se são suficientes, mas é óbvio que existe um problema grave de gestão. Hoje em dia, quem não possui meios para pagar um plano de saúde, fica refém do SUS. Logo de início, esse cidadão já tem um problema tão simples quanto dramático: tempo de espera para realizar consultas e exames. Quando esse cidadão (esse que só pode recorrer ao SUS) cai doente, ou quando precisa de uma consulta, bate na porta dos postos de saúde. Vai lá para marcar uma consulta médica, obter um diagnóstico que pode ou não exigir um ou mais exames. O mais comum é que, no posto de saúde, comuniquem a ele que deve voltar em 30 ou 40 dias para aí então marcar a tal data da consulta! Quando conseguir, talvez terá que esperar mais outros 30 dias. Trata-se de uma situação abominável. Se vocês, assim como eu que até uns dias atrás não tinha noção que era assim que a coisa funcionava, vão perguntar de imediato: mas e aí? Afinal o pobre coitado precisa de atendimento médico!

Aí acontecem várias coisas: o paciente se automedica, fica sem assistência e se cura, fica sem assistência e a doença piora, vai para um município vizinho onde o atendimento é um pouco melhor e, o mais comum, vai para um hospital. O hospital não foi feito para atender a consultas e exames. Hospital é lugar de emergência, cirurgia e internação. Os exames ali feitos são com essas finalidades. Ainda assim, o hospital não pode negar atendimento. Resultado: uma consulta que iria durar uns 20 minutos em um posto de saúde, dura 5 minutos em um hospital. O paciente sai, pelo menos, com uma receita e a crença de que foi atendido. O hospital deixa de cumprir sua função básica.

A crise aérea: uma pena que a resolução da crise aérea tenha sido por meio do aumento de passagens. Absolutamente lamentável. Já que não é possível atender mais gente, já que não temos capacidade gerencial, técnica, operacional de fazer com que o sistema funcione incorporando mais consumidores, a solução é muito simples: reduza-se o número de passageiros! Levando-se em conta que em um passado recente houve dois graves acidentes aéreos e comparando-se nosso tráfego de aeronaves aos tráfegos europeus e norte-americanos, pelo menos a mim fica explícita a dantesca incompetência gerencial desse governo para o setor de transportes aéreos! Sei que o jato da Gol pode ter sido abatido pelo Legacy por uma série de causas técnicas como o Tcas desligado e etc. Assim como sei que o jato da TAM pode ter caído porque estava chovendo, a pista não tinha grooving, etc etc etc... mas fato é: no primeiro caso houve um problema sim de infra-estrutura de controle do tráfego aéreo. Já no segundo, é sabido desde a época que fiz engenharia a quase 10 anos atrás, que o aeroporto de Congonhas em São Paulo deixou há muito tempo de operar dentro dos limites de segurança devido a alta demanda.

Índices recordes de trânsito: acho que dos três exemplos, esse é o mais visível, o mais presente em nossos cotidianos. A solução? Transporte público. E a grande culpa do governo aqui é na falta de investimentos sérios nesses transportes coletivos e em segurança. Isso fica evidente quando você tem a oportunidade de, em um país desenvolvido, pegar um metro as 22hs e flagrar um casal retornando de um jantar de gala. No Brasil, transporte público é coisa de quem não tem outra alternativa. Uma parcela insignificante da população recorre ao transporte público se tem outro meio de se locomover. O pouco serviço que existe não atende a demanda, os veículos são sujos, operam em condições precárias de segurança, isso tudo para não falar da insegurança pública que os ronda!

No caso do IPT, que comentei no início desse texto: estamos falando aqui de um dos poucos centros de tecnologia com reconhecimento internacional desse país. Este não estaria padecendo de algum tipo de massificação? Estaria aí vindo alguma solução desastrada para uma das poucas empresas nacionais que não vende apenas "commodities"?

Bom isso tudo é para evidenciar a dificuldade do Brasil em massificar, popularizar o acesso a bens e serviços. Sempre que são minimamente feitos, trazem consigo um efeito colateral brutal: perda de qualidade.

Para atender a essas e muitas outras demandas populares, é necessário muito mais que boa intenção, é preciso gestão séria - a palavra séria aqui vai muito além do "trabalhar duro" - vai mais no sentido de "trabalhar pelo todo", de "ser mais comprometido com a comunidade, principalmente quando para isso seja necessário abrir mão de vantagens localizadas", significa aprovar um projeto de lei porque o mesmo será benéfico para a sociedade, e não porque ele vai dar fama e crédito ao partido "A" ou "B". O Congresso Nacional, o Senado e o próprio Poder Executivo deveriam trabalhar de forma mais alinhada com a sociedade e menos atenta a aprovações condicionadas a cargos em ministérios e autarquias públicas.

Do nosso lado, cabe exigirmos mais; sermos mais incomodados, inconformados com essa situação que embora venha mostrando sinais de que está rumando a administrações cada vez mais sérias, caminha a passos de tartaruga.

Do contrário, o título desse texto que é o slogan da atual gestão presidencial, para refletir a realidade do nosso país por mais tempo ainda deveria ser mudado para: "Brasil, um país para poucos."

É isso aí pessoal, até mais.

João Arantes é engenheiro, tem 31 anos.

domingo, 23 de novembro de 2008

Luau na Van

Nas viagens a trabalho pelo sertão uma das coisas que reforçamos sempre é a amizade. Entre as cidades: grandes deslocamentos, muitos buracos, cansaço por um dia agitado de trabalho. Tudo passa despercebido quando estamos entre amigos de verdade. Um dos itens que nunca podem faltar é o violão, sempre pronto pra alegrar qualquer momento. Não interessa se está afinadíssimo, nem se as vozes estão roucas ou fora do tom, o que importa é a diversão!


domingo, 9 de novembro de 2008

Ele Voltará!

Domingo de sol. Entro no carro e, automaticamente ligo o som. Minha rádio preferida, ainda, é a Kiss fm, uma das poucas que toca apenas rock. Como é voltada para os clássicos costuma nos presentear com músicas mais antigas. Porém, aproveitando-se do filão de órfãos da 89 fm, a ex-rádio rock - que além de ser assassinada por algum aficionado por música black e eletrônica teve sua pobre carcaça usurpada para tal fim – iniciou uma programação com músicas mais recentes.
Não sou um simples saudosista... Ou melhor, admito: sou um simples saudosista! O que queria dizer é que não o sou pura e simplesmente, sem motivos, apenas por discordância burra e teimosa, como um tiozinho que teima que sua opinião é a melhor saída. Creio que tenho meus motivos.
Sou um amante do “bom e velho rock and roll” ( alguém já ouviu uma frase que tenha se encaixado melhor para um estilo musical do que esta que as aspas encerram?!) e como tal choro por dentro, diariamente pela sua recente morte. Basta observamos que não há, infelizmente, novidades ou lançamentos que mereçam nossos ouvidos hoje em dia.
A diferença de criatividade e mesmo de esforço para a composição nos dias atuais é um absurdo! Penso que a criação musical deve ser arte, tem a obrigação de tentar ser uma obra prima. A música é arte.
Podemos olhar para os Beatles (para os que não gostem deles podem escolher outra banda dos anos 60 ou 70), suas composições eram geniais. Uma música chega a ser tão completa que nos passa a idéia de perfeição, como se não fosse possível acrescentar mais nada, algo como: impossível torná-la mais bela. Deviam passar horas debruçados sobre a criação, “uterina” ainda, de um companheiro; imaginando arranjos, acrescentando instrumentos, tendo todo o trabalho e preocupação de torná-la uma música perfeita, a música, uma obra prima.
Naquele tempo eles lançavam um álbum com 12 ou 14, músicas absurdas – no bom sentido. Discos que pareciam ser coletâneas, já que praticamente todas eram ótimas e viraram sucesso. No ano seguinte lançavam outro, totalmente diferente, mais canções únicas. Alguns meses depois chegava um novo às lojas.
Hoje vemos bandas grandes e boas, que ainda nos fazem respirar um pouco, nesta falta de oxigênio musical que nos sufoca, como U2 e Pearl Jam por exemplo, que lançam um novo CD. Escutamos, até gostamos. Mas é inegável que das 12 ou 14 músicas, duas ou três são muito boas, se tornarão clássicos. O resto, geralmente tapa os buracos do álbum. Após este lançamento, podemos esperar mais uns 4 ou 5 anos para o próximo.
A diferença entre as músicas de ontem para hoje me parece como a cruel diferença entre algo bonito e uma obra de arte. Algo como o belo desenho de um amigo e uma pintura de Michaelângelo.
Porém há uma luz no fim do túnel e não é a de um trem que num insano ritmo de tecno passará por cima dos pobres órfãos do rock e seus iPods solitários. Como quem espera a volta do messias, esperamos ansiosos pelo breve renascimento do rock and roll. E o obstreta divino da música prevê esse renascimento para 2010.
O fato é mais simples de se explicar do que procurar a conjunção dos astros ou números cabalísticos. O rock se firmou, nos moldes eternos como é hoje, nos anos 60. Porém nos 70 algo grandioso aconteceu. O número de bandas (boas) que apareceram foi fantástico o que deu conta de algo tão fatídico como o fim dos Beatles. Outras lançaram suas obras mais importantes como The Who, Led Zeppelin, Queen, Deep Purple, enfim, a criatividade transbordava em uma das épocas mais loucas (no bom sentido, novamente) da história.
No começo dos 80 o rock entrou em queda. Apesar de bandas que continuaram com sua bandeira hasteada, como o Police, e outras que já nasciam clássicas, como o U2, é inegável sua decadência nesta década.
Porém – graças a Deus sempre existe um “porém” do bem... – no começo dos anos 90 houve um ressurgimento. Como uma Fênix, se levantando com sua guitarra nas mãos, ótimas bandas nasceram. Living Colour, Nirvana, Alice in Chains, Pearl Jam, Red Hot, Stone Temple Pilots e muitas outras deram uma cara mais moderna, mas sem nunca se esquecer do velho “punch” do rock e nos devolveram a alegria de ligar o rádio e ouvir uma seqüência de músicas novas, lançamentos que enchiam nossos sedentos ouvidos como um bálsamo a curar as feridas provocadas por tanta tranqueira que entravam por ali.
Depois desta nova década de abundância criativa os anos 2000 chegaram com nova queda sonora. Os deuses musicais abaixaram os volumes de seus amplifidadores cósmicos novamente, como uma necessária pausa de uma década para brotar suas idéias nas mentes dos pobres mortais aqui embaixo.
Faltam dois anos, mal posso esperar! Sorrindo deixo a rádio de lado e coloco um CD do Who no som do carro, feliz, como um pai que aguarda ansioso o nascimento de seu próximo filho.

A volta

Olá amigos! Voltei.
A volta de uma dessas viagens é sempre de adaptação, afinal de contas, é quase um mês fora de casa, vivendo numa rotina completamente diferente à que estamos acostumados. Lá, depois dos primeiros dias de trabalho não temos mais noção de que dia da semana estamos, já que sabado, domingo ou feriado é a mesma coisa.
Tudo ocorreu muito bem por lá, muito mesmo. A cada dia ficamos mais impressionados com o crescimento do projeto.
Agora é arregaçar as mangas e trabalhar pra pagar as contas atrasadas e recuperar o tempo GANHO (este tempo nunca seria perdido...).
Com o tempo postarei algumas histórias do sertão, por enquanto deixarei uma que escrevi antes de viajar...

Abraço a todos!
Wolber Campos

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Amor de mãe

Poucas coisas estão mais enraizadas ao senso popular. O amor materno é algo instintivo, inexplicável e completamente necessário para o desenvolvimento humano e da sociedade. O que seria de nós sem este carinho universal? Como lidaríamos com uma vida sem este bálsamo diário?
Um garoto de quinze anos pode tentar responder a essas perguntas. Seu nome é Jackson. A comunidade de Canudos, na Bahia, é seu lar. Lidar com o abandono é sua sina, seu duro cotidiano.
As regras costumam ter suas exceções e não é fato raro, ou novidade, observarmos mães que maltratam seus filhos ou que cedo os abandonam. O que torna a história de Jackson diferente é quando isso aconteceu.
Sua infância, como a de muitos garotos sertanejos, não foi fácil. Foram muitos os dias em que passou fome com seus três irmãos devido às dificuldades financeiras da família. Se alimentavam apenas uma ou duas vezes por dia. Havia ocasiões em que tomavam leite de manhã e agüentavam até de noite para poder comer algo.
- Mesmo assim não era ruim não, a gente tava “tudo” junto e vivia feliz, uns cuidando dos outros. – diz, com o sorriso de quem se lembra de uma coisa boa.
O pai esteve ausente durante toda sua vida. De vez em quando o encontra pelas ruas e, respeitoso, sempre o cumprimenta pedindo “bênção”, mas a relação “pai e filho” sempre acaba por aí.
- Pra falar a verdade, se meu pai morresse eu não ficaria muito triste, de chorar, não. Eu nunca tive contato com ele mesmo. Agora se minha mãe morresse aí eu ficaria triste. Apesar de tudo que ela me fez não sinto raiva dela. Sinto falta.
Sua vida começou a mudar quando a mãe conheceu Antônio. Desde o começo percebeu que o novo namorado dela não se preocupava em ser agradável, nem com ele nem com seus irmãos. Muito pelo contrário: perdeu a conta de quantas vezes o homem foi grosso ou os maltratou. Porém, com Jackson, era ainda pior, se tornava até agressivo.
Mas o que fazer, se era a escolha dela...
Tudo começou a piorar quando ela decidiu morar com Antônio. No princípio os quatro filhos foram juntos. Porém em uma casa estranha e com um padrasto agressivo - que demonstrava não estar nem um pouco feliz com a presença dos filhos de sua amaziada - logo perceberam que a vida não lhes reservava flores nos próximos dias.
O padrasto arrumava qualquer motivo para poder brigar com o rapaz e quando não havia, inventava alguns:
- Ele começou a dizer que eu fumava maconha. “Magina”, nunca fui dessas coisas. Mas ele espalhava isso pra todo mundo.
Com o tempo a agressividade foi aumentando. Várias vezes, ao chegar tarde da escola, o portão da casa estava trancado. Jackson tocava a campainha mas ninguém lhe abria a porta. Sabia que todos estavam lá dentro, mas não davam sinal algum. Só não dormia ali, na calçada, em frente ao portão, porque a vizinha se compadecia e o convidava pra passar a noite em sua casa.
Sua tristeza aumentava cada dia mais ao perceber que a mãe não ficava do seu lado. Acompanhanva passiva o sofrimento do filho.
Tudo seguiu na mesma triste rotina até o dia em que em outra discussão infundada o padrasto o expulsou de casa. De tudo o que sentia naquele momento, o que mais doía era olhar sua mãe e perceber que ela não tomava partido. Consentindo, ela ali, quieta, também o expulsava de casa. Jackson, aos 11 anos, era abandonado por sua mãe.
Sem rumo, ou algo a fazer, voltou para Canudos Velho, onde conhecidos poderiam ajudá-lo.
Raimundo, um pedreiro de aparência séria, mas de coração mole, resolveu abrigá-lo em sua casa, junto aos seus outros dois filhos. E lá o rapaz ficou por alguns meses.
Eduardo, um homem bondoso, dono de um bar num bairro mais afastado dali, se emocionou com sua história e o convidou para morar com ele. Jackson, nas primeiras vezes agradeceu e recusou. Maior era o medo de ser rejeitado pela terceira vez, depois do pai e da mãe. Como um pequeno gato, que fica arisco e mais distante depois de ser muito maltratado, ele se manteve um pouco afastado de tudo.
Mas o tempo, que tudo cura, foi passando e a alegria habitual foi voltando ao seu grande e maltratado coração. Aceitou o convite de Eduardo e foi morar em uma nova casa, desejando agora começar vida nova, deixando para trás todas aquelas dificuldades e tristezas ultrapassadas.
- Não vou me revoltar com tudo isso. Sei que não vai me ajudar em nada, muito pelo contrário.
Hoje Jackson sonha. Com uma vida nova, com o carinho de uma família, com um futuro mais amigável. Sonha também com um video-game, com óculos escuros bonitos como os de um amigo seu de São Paulo, com uma bicicleta. Sonhos que, grandes ou pequenos, vibram em seu peito com o mesmo valor.
Nota-se isso em seu sorriso aberto sobre sua nova bicicleta. Ele e o amigo Quinha ganharam uma cada um do Instituto Brasil Solidário pela ajuda que sempre prestam quando o IBS está na região.
Vento em sua face, a música do pneu empurrando o asfalto sob si, os olhos no horizonte. Segue firme pela estrada de Canudos Velho, pedalando adiante, como quem segue buscando o seu futuro. Na esperança de que ele seja tão bonito quanto aquele belo pôr-do-sol que se esparrama à sua frente.

O pé na estrada

Olá amigos!
Nesta semana, quarta-feira (dia 8 de outubro), parto em viagem novamente pelo sertão com o IBS. Chegaremos em Goiânia, onde trabalharemos na quinta e sexta e de lá seguimos para Uruaçu (GO), Paranã, Ponte Alta, Palmas (TO), Balsas, Nova Iorque (MA), São Raimundo (PI), Crateus (CE), Mossoró e Natal (RN).
Ficaremos um mês na estrada, por isso o blog poderá ficar um tempo sem atualização, para a tristeza de seus mais de dois leitores assíduos (tudo bem, eu admito: eu sou um desses dois...) rs
Porém tentarei postar algumas fotos e a história do Del pelo caminho.
Delino é um garoto de Nova Iorque, no Maranhão. Conheci a história difícil dele e aqui em São Paulo, quando voltei, organizamos uma vaquinha para comprar um violão, um afinador, jogo de cordas e bag para dar a ele de presente. Como é um garoto super inteligente (e é mesmo!) deve aprender fácil. Quem sabe futuramente não temos um ótimo violeiro por aquelas bandas?! Imagino que ele ficará maluco com o presente, vamos ver...
Posto em seguida uma última história antes da viagem, a de Jackson, nosso amigo de Canudos.
Amigos, ótimos dias a vocês!! Até a volta!

Grande abraço!
Wolber Campos

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O olhar

Para quem gosta de arte, qualquer tipo dela, é sempe um prazer ver uma imagem clicada pelo olhar do artista.
Tirei muitas fotos do arco-íris da história anterior. Mas nada como a visão do fotógrafo profissional.
O Luis aproveitou tudo aquilo que eu disse: sobre as crianças, as brincadeiras com as bexigas, o arco-íris, a represa, e condensou em um clique. Uma imagem que exprime tudo o que eu não consegui nas muitas palavras esparramadas logo abaixo.
Arte pura!

Foto: Luis Salvatore