segunda-feira, 13 de abril de 2009

O sexo dos anjos

O ser humano, por natureza, gosta de uma discussão. Claro, de preferência pacífica (se bem que há muitas pessoas que parecem sentir prazer em um bate boca). Desde os primórdios da história, seja numa conversa entre dois amigos ou em discussões acaloradas por grandes grupos, um dos principais passatempos do homem foi o diálogo. Ainda bem, pois assim evoluímos ao patamar onde estamos, socialmente e intelectualmente.
Porém quantas não são as vezes em que nos pegamos em discussões sem fim e, o pior, sem sentido? Como insanos nos esquecemos de olhar o ponto principal e inebriados pelo calor de uma conversa passamos a enxergá-la como uma queda de braços ao invés de vê-la como um diálogo pacífico para se chegar a um ponto comum.
Futebol, política, ciúmes. Fatos que muitas vezes tocam nosso cérebro em seu ponto mais obscuro e carnal, despertando paixões adormecidas que muitas vezes gostaríamos de esquecer. Paixões que muitas vezes despertam como aquele calafrio que sobe pela espinha até o couro cabeludo. Acontece que, muitas vezes, este mesmo calafrio lacra nossos ouvidos e faz a pessoa focar um único objetivo: pensar na resposta fulminante, inapelável e destrutiva, que colocará abaixo seu adversário.
Geralmente essas discussões são nulas pois cada um dos ouvintes (se é que podemos chamá-los assim...) não está prestando atenção ao discurso do outro, pensa apenas no que responderá para rebater suas afirmações. E assim o antigo propósito do diálogo perde sua função. Não há mais o interesse em aumentar suas experiências e intelecto, apenas o de fazer vencer o seu ponto de vista. Deixam de existir os companheiros de conversa e passam a se enfrentar os adversários do assunto.
Mas quando olhamos de outro ponto, bem de cima, de onde a humanidade pode ser vista como um todo, onde o planeta se pareça bem pequenino e a humanidade menor ainda, vemos quanto tempo é perdido com discussões tolas, passionais, teimosias. A vida é tão mais do que isso. Olhando lá de cima ela é tão maior, o propósito do ser humano é tão mais importante que até conflitos que nos parecem mais complexos e importante como a briga entre judeus e palestinos ou o terror entre árabes e americanos se tornam sem sentido algum.
Se o objetivo da vida é algo como construir um prédio, muitas vezes pessoas perdem tempo discutindo se as maçanetas das portas serão prateadas ou brancas. E assim o primeiro tijolo nunca é colocado.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O Sul

Sul, sudeste, sertão. Quando se trata de carência, mudam-se as paisagens, mas o brasileiro sofrido é o mesmo.
Em andanças pelo interior pudemos observar isso.
Num trabalho na comunidade de Vargem do Braço, muito próxima à Florianópolis, levamos atendimento odontológico aos moradores dessa zona rural. Na fila pais traziam seus filhos, lourinhos, olhos azuis, bem característicos da descendência alemã, tão presente no local. Ao examiná-los víamos dentes “acabados”, cáries enormes, muitos para extrair. Idênticos a muitos que víamos no interior do sertão, muito longe de uma cidade grande.
Ali, naquela região do sul do Brasil estavam pessoas sofridas, roupas surradas, mãos calejadas; registros de seu duro dia-a-dia regando a terra com seu suor.
Pais, mães e até filhos pequenos ajudam na labuta diária. Dura, suada, sofrida, debaixo de um sol não tão quente, mas que brilha sobre nobres brasileiros assim como o que ilumina seus irmãos nordestinos.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Something

No concerto em homenagem ao ex-beatle George Harisson uma maravilhosa versão da - na minha opinião - música mais bonita que ele compôs: Something. Paul começa ao estilo havaiano e ninguém menos que Eric Clapton segue em alto nível. De arrepiar!!

sábado, 21 de março de 2009

O amor

Todo dia ele era o mesmo atencioso e apaixonado namorado. Cuidava de sua amada com um carinho difícil de presenciarmos hoje em dia. Pela manhã passava creme em seus ondulados e maltratados cabelos, vagarosamente, pra ter certeza que espalharia perfeitamente e os deixariam mais bonitos.
De noite, deitava-se ao seu lado completamente solícito, aquecendo-a das noites frias daquelas semanas. Suas mãos acariciavam o braço de sua pequena, até que o sono o impedisse de continuar com seus abnegados cuidados.
Outro dia podia-se ver a barriga de sua companheira crescida, já de uns 4 meses. O futuro pai, agora, passava a mão ali, com todo o cuidado, como se já sentisse nos próprios dedos o filho querido. Pelo seu sorriso percebe-se que não pensa muito no futuro da criança. Será áspero? Terá muitas privações? Pouco importa. Quantas crianças hoje em dia tem um pai que ama seus filhos com todas as suas forças?
Sua história poderia passar despercebida em meio a tantos casais apaixonados pela cidade. Afinal de contas – e graças a Deus! – o amor ainda está por toda parte. Seja em ricos ou pobres, cultos ou ignorantes, jovens ou velhos, o amor é o sentimento mais democrático que temos. A única necessidade para tê-lo é estarmos vivos. E pobre daqueles que não o tem, seja pela família ou por amigos...
O que chama a atenção em sua história é o local onde moram. Não por ser em Pinheiros, bairro de classe média de São Paulo ou pela rua, a Mourato Coelho, uma das mais movimentadas da noite paulistana e nem por ser na frente de um grande supermercado 24 horas. Mas sim pelo fato de sua cama de casal – dois finos papéis de papelão – ficar na calçada, embaixo da janela de vidro onde pessoas adentram a noite fazendo suas compras.
São jovens moradores de rua. Não sabem sobre seu futuro, não imaginam como será o de seu filho. Apenas sabem que se amam.

quarta-feira, 11 de março de 2009

A mão

Bastião é canhoto, mesma mão que há muitos anos, com um corte acidental, perdeu o movimento de alguns dedos. Talvez por isso toque melhor, ou não, se supera mais ainda pra ser o músico que é sem todo movimento possível.
Não importa, perguntas ou respostas perdem o sentido quando ouvimos uma música tocada com o coração. A mão é o de menos...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Bastião

Um homem bom, daqueles que em apenas dois minutos de conversa percebemos a pureza de seu coração. Assim é Bastião. O conhecemos no ano passado, em Crateús, interior do Ceará.
Semana passada tivemos o prazer de reencontrá-lo, como sempre, com um largo sorriso estampado no rosto e seu alegre pandeiro nas mãos. Instrumento que, aliás, toca como poucos. Aprendeu praticamente tudo de ouvido e deixou nosso amigo Bruno (músico da equipe) tão impressionado que este o presenteou com nosso pandeiro: um profissional, que levamos em todas as viagens.
Numa noite, após um dia de trabalho na escola, juntamos os amigos para uma rodinha de música. Sentando-se ao meu lado puxou de uma sacola um pequeno saco jeans, que abriu com todo carinho e retirou de dentro o novo pandeiro, como quem descobre seu querido filho. Acompanhando o som da viola e do triângulo, Bastião tocava seu instrumento com empolgação, e um improvisado e alegre forró surgia ecoando por toda a escola.
Ao cair da noite, como havíamos prometido, o levamos em casa. A escola fica na zona rural de Crateús, e dali iríamos mais alguns quilômetros adentro para chegar na comunidade onde morava.
Após andar 200 metros no carro, Luis - que estava na direção - parou e disparou:
- Bastião, você sabe que nada é de graça, nao é? A gente vai te dar uma carona, mas tem um preço... E nós achamos que será muito caro.
Ele deu risada e logo entendeu que seria muito barato para ele ir tocando até o fim da viagem. Para nós seria a carona mais abastada da história!
Eu imaginava que ele iria tocando alguns ritmos solados, despretenciosamente, quando ele começou a tocar "Trem das onze". A música - praticamente um hino da música brasileira - foi recebida com entusiasmo por todos na van em que estávamos e a cada nova canção eu me impressionava mais, não só por sua habilidade no pandeiro, mas também pelo seu jeito original de cantar. Além do mais era incrível a afnação de sua voz e a noção musical que possuía.
Tudo estava tão agradável que nem a estrada de terra em péssimas condições, cheia de atoleiros - causados pelas chuvas constantes daquela época do ano - atrapalhava.
Chegamos em sua comunidade. Era uma região pitoresca. Várias casas parecidas, com a fachada grande, assim como muitas casas do interior do Brasil, porém o que as diferenciava era o grande número de bois e vacas em sua frente. Talvez por falta de espaço para criá-los num curral cada casa possuía em frente sua porta 4, 5 ou até 10 gados, todos já descansando, bem quietos, naquela hora da noite.
Ao chegarmos na frente da casa de nosso amigo, pedimos, com toda sinceridade, uma última música, sutilmente negada por ele por estar tarde e a mulher poder brigar. Insistimos, dizendo que não teria problema (como se soubéssemos...), ela não ligaria.
- Rapaz, a mulher é brava! - disse rindo.
E tocou uma última música, a que mais havíamos gostado: "O xote da morena".
Estávamos muito feizes, tudo tinha sido realmente muito especial, dormiríamos muito bem, até que...
"Toc, toc, toc!!" - Alguém batia no vidro da van.
abrimos a porta e antes que qualquer pessoa pudesse dizer algo a mulher em pé foi disparando na direção de Bastião:
- Mas que pouca vergonha! É um vagabundo mesmo! Você nao tem vergonha nessa cara não, Bastião?! A essa hora da noite vadiando pela rua? É um irresponsável mesmo!!
A mulher disse exatamente essas palavras, na frente de todos e para um acanhado Bastião que descia do carro meio constrangido e se despedindo rapidamente de todos nós, que completamente atônitos e tristes víamos aquela cena.
Um talento. Um homem bom, daqueles que em apenas dois minutos de conversa percebemos a pureza de seu coração. Pena que sua mulher pode passar a vida inteira ao seu lado e nunca perceber isso.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Mais uma etapa...

É, mais uma viagem se inicia. Uns dirão: Já??? Outros: Eeee vida boa, vai curtir, né?! Alguns até poderão comentar: Vai pasear, hein?!
Só quem vai sabe a pauleira de trabalho que é. Geralmente dormindo pouco, trabalhando muito e mal conhecendo os lugares por onde se passa. E, mesmo assim, posso dizer: é uma das melhores coisas do mundo!!
Mais uma vez este blog - que é tão corrido que mal temos tempo de acompanhar suas atualizações... - ficará alguns dias (15, pra ser mais exato) sem um novo texto. Porém, estarei no sertão colhendo muitos outros textos para ele.
Fiquem com Deus, sucesso na vida e muita paz!!

Grande abraço!!
Wolber Campos

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Capitalismo X Socialismo

Há um bom tempo vinha me questionando sobre o socialismo. Por um lado gostava daquela pureza de pensamento: igualdade a todos, corrigir as injustiças do capitalismo, distribuir a renda, enfim, tornar o mundo mais perfeito.
Por outro, algo me incomodava, ou melhor, muitos aspectos me incomodavam. Primeiro: será que seria justo igualar todos? Sabemos que existem pessoas com muita vontade de melhorar e trabalhar para ter uma vida mais confortável com sua família. Outros já são preguiçosos, não se importam muito com trabalho e adorariam viver às custas de alguém. Seria justo igualar esses dois cidadãos? Recompensar da mesma forma ambos, independente de suas diferenças em contribuição para a sociedade?
Segundo (e não por último, pois listaria outras questões aqui...): vendo documentários sobre a extinta União Soviética, achava o socialismo muito pior do que a ditadura brasileira. Ali a opressão era muito maior. Liberdade era algo inexistente, seja de expressão ou mesmo para comprar algo simples como um disco.
Recebi hoje um e-mail de meu amigo Diogo Salles, chargista do JT, que traduziu tudo o que eu gostaria de dizer e não sabia como. É de um texto do Ferreira Gullar, que saiu na Folha. Vale a pena a leitura.

A ganância do bem
Ferreira Gullar, na Folha

Hoje em dia, quando os apressados falam do fim do capitalismo, eu, na minha condição de "especialista em ideias gerais" (Otto Lara Resende), lembro que isso dificilmente acontecerá pelo simples fato de que o capitalismo, ao contrário do socialismo, não foi inventado por ninguém.

Não praticaria a blasfêmia de afirmar que foi criado por Deus, conquanto há quem garanta que o foi pelo Diabo. Como sou pouco afeito a questões teológicas, prefiro acreditar que ele nasceu espontaneamente do processo econômico, ao longo do tempo.

Costumo dizer que o capitalismo é quase como um fenômeno natural e, de fato, parece-me ter da natureza a vitalidade, a amoralidade e o esbanjamento perdulário, dizendo melhor: cria sem cessar e, com a mesma naturalidade, destrói o que criou.

Por exemplo, a natureza faz nascer milhões de seres e, de repente, inunda tudo e mata quase todos. Mas, ao fazê-lo, gera outras vidas. E parece dizer: "Que se danem", como faz e diz o capitalismo, mantidas as devidas proporções.

Já o socialismo foi inventado pelos homens, para corrigir o capitalismo, para introduzir nele a justiça. Os inventores do socialismo, em face da ferocidade do capitalismo nascente, em meados do século 19, sonharam com uma sociedade em que todos teriam os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. Entendiam que a chamada democracia burguesa era, na verdade, uma ditadura da burguesia e que deveria ser substituída pela ditadura do proletariado.

Seria esta uma ditadura justa porque exercida, não pelos que usufruem do trabalho alheio e, sim, pelos que trabalham e produzem a riqueza da sociedade. O resultado final dessa revolução seria a criação da sociedade sem classes. É verdade que ninguém nunca soube o que seria essa sociedade e nem Karl Marx, o seu inventor, chegou a defini-la.

Como se sabe, na segunda década do século 20, a revolução socialista deixou de ser mero sonho para se tornar realidade, assustando os capitalistas e levando-os a atender muitas das reivindicações dos trabalhadores. Quatro décadas depois, boa parte da Europa e da Ásia vivia sob regime socialista. No entanto, antes que o século terminasse, o socialismo real desmoronou, para o espanto, sobretudo, das pessoas que nele viam o futuro da humanidade.

Ao contrário do que muitos temiam, não foram os exércitos capitalistas que o derrotaram, não foram foguetes norte-americanos com bombas nucleares que deram fim ao poder do Kremlin. Não, na verdade, ele foi liquidado por uma espécie de colapso interno fulminante, que não foi militar, mas econômico. O socialismo perdeu a disputa econômica com o capitalismo.

Em visita à Ucrânia, em 1972, ouvi um dirigente do partido comunista ucraniano dizer que tudo o que aquela república soviética produzia se devia à ação do partido, o verdadeiro motor de sua economia. Pois essa afirmação talvez explique o fracasso do socialismo: como poderia meia dúzia de burocratas fazer funcionar a economia de um país?

E explica também por que o capitalismo não morre e por que não foi preciso inventá-lo: vive da ambição de cada um, da iniciativa de cada pessoa que quer melhorar de vida, produzir, vender, comprar, revender, lucrar, enriquecer, sem que ninguém a obrigue a isso, muito pelo contrário.

Em lugar de um comitê dirigente que determine o que deve ser feito, no capitalismo milhões fazem o que conseguem fazer, atendendo às necessidades do possível comprador, no afã de ganhar dinheiro. Isso explica a vitalidade do regime e, ao mesmo tempo, muitas vezes, o vale-tudo para alcançar o lucro máximo.

O planejamento socialista, se evitava o desperdício, inibia a produção, o que resultava em outro tipo de desperdício, sendo o maior de todos, o dos talentos empreendedores que não encontravam campo para se realizar. Uma visão equivocada do capitalismo ignorava o papel fundamental do empresário, cujo investimento em ideias e dinheiro gera empregos e riqueza.

Se o socialismo nasceu do que há de melhor no ser humano -o senso de justiça e a fraternidade-, o capitalismo, se não surgiu do que há de pior em nós, é, não obstante, a cada momento, movido por ele, ou seja, pela ganância sem limites e sem escrúpulos. No entanto, essa ganância é que o faz gerador de riqueza.

Admitindo-se como verdade que o capitalismo não morrerá -mesmo porque as crises, em vez de matá-lo, o renovam-, a solução é encontrar um meio de torná-lo bom, incutindo-lhe a "ganância do bem". Isso, bem entendido, se o Diabo deixar.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Chico "Diabinho" (por João Victor Macul)

Chico andava cambaleando, trançando as pernas por aí. Cheirava à pinga, um bêbado. Conheciam seus hábitos, suas fraquezas, vícios contínuos, retratos de impureza. Todo dia um trago ou dois, ou três ou mil. Sua fama de fala mole e sem aparente sentido levou ao povo a apelidá-lo de ¨diabinho¨.
Por quanto tempo ele acreditou, ou acredita, nesse apelido de valor tão pejorativo, ninguém sabe. Nem ele mesmo. Aliás, não sabe ler nem contar. Não sabe quantos anos tem. Sabe apenas que é de 6 de maio de 1966.
Numa noite de sexta feira, Francisco, estava caído, embriagado. Dormia no chão. Num bar próximo, havia um grupo de pessoas que tinham vindo de outra cidade, conversando, tocando violão e cantando. Chico ¨Diabinho¨ levantou-se e foi andando, meio torto, seguindo, talvez, a música. Ao se aproximar do bar, as pessoas pararam de cantar e convidaram Chico a sentar-se. ¨Diabinho¨ estranhou tal fato, afinal de contas, a maioria o destratava. Ignoravam-no, no máximo riam quando ele balbuciava coisas sem aparente sentido.
- Boa noite. – disse um amigo desconhecido.
- Boa... – disse Chico.
- Como é seu nome?
- Meu nome é Diabinho..
- Não, o seu nome não é esse, esse é o seu apelido, quero saber qual é o seu nome...
Chico calou-se diante da pergunta, não sabia o que responder. Por muito tempo ele foi apenas Diabinho. Os amigos da roda, porém, não desistiram de saber o nome daquela figura esquálida. Tocaram uma música, e Chico batia palmas animadamente e tentava cantar. Após a música cada pessoa que estava na roda se apresentou dizendo o nome completo. O amigo desconhecido, que agora já era conhecido, continuou:
- Viu. Cada um tem um nome aqui, queremos saber o seu... – Disse Luis Salvatore, com uma voz calma.
Nesse momento, os efeitos do álcool pareciam ter diminuído. Chico procurava, silenciosamente na memória, a resposta para tal pergunta. Pequenas perguntas podem levar a grandes respostas. De repente, uma onda de identidade o atingiu. Chico levantou-se e disse bem baixinho:

- Meu nome é Francisco de Assis Gomes da Silva...

Disse mais uma vez, agora um pouco mais alto:

- Meu nome é Francisco de Assis Gomes da Silva!

E agora quase gritando, mas com um tom de confiança que deixou perplexo os que já o conheciam, mas nunca o tinham visto tão sóbrio:

- Meu nome é Francisco de Assis Gomes da Silva!!!

Francisco havia ficado submerso, preso no mundo de ¨Diabinho¨, o moribundo, por, provavelmente, muitos anos. E apesar de o sentido de seu verdadeiro nome, ainda não propiciar a ele um encontro com o seu verdadeiro ser, pode ter sido esse o começo de seu reencontro com a vida.
Ninguém na cidade sabia o verdadeiro nome de ¨Diabinho¨, mas quem viu a cena, soube que o sujeito tinha um nome. Mas, mais que isso, o sujeito tinha guardado dentro de si sua identidade. Pois a mesma lucidez que o fez recordar o próprio nome, poderia ajudá-lo a recordar-se de quem é.
Talvez hoje, Francisco esteja lúcido, vivendo no mundo, trabalhando para viver e procurando mais respostas. Talvez, simplesmente tenha parado de beber e esteja trabalhando numa loja de calçados. Ou talvez, tenha voltado a beber e se enfiado no mundo de ¨Diabinho¨ de novo.
Seja qual for a alternativa, uma coisa é certa: Francisco de Assis Gomes da Silva sabe que possui algo mais que um sórdido apelido, ou mesmo um nome. Pode, ainda que por hora, ter se esquecido disso, por causa da bebida, da vida, e etc. Mas será sempre um ser humano.
Coisas simples como uma conversa, um abraço, uma flor ou 5 minutos de atenção, podem ter efeitos surpreendentes na vida de quem recebe, e de quem dá também.
Procuramos sempre uma ¨luz no fim do túnel¨, e nos esquecemos de que nós SOMOS essa luz. Podemos encontrar lugares de paz dentro de nós, a todo o momento. E quanto mais deixarmos que nossa luz brilhe, mais poderemos servir de holofote para àqueles que vêm atrás.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A história de Del

Em algum texto atrás eu disse que contaria a história do Del, um menino da cidade de Nova Iorque, no Maranhão. Isso mesmo, a cidade se chama Nova Iorque. Todos devem imaginar a quantidade de piadas (sem a mínima graça, diga-se de passagem) que surgem por ser homônima da famosa cidade americana: "Putz, esqueci o passaporte!", essa uma das mais comuns, geralmente quando passávamos a divisa, "Xiii, o Pinduca vai ser barrado na fronteira...", sobre nosso amigo barbudo e com um volumoso nariz lembrando Bin Laden. Bom, antes que o assunto se perca para nunca mais voltar, vamos falar de nosso pequeno amigo de lá. Delino é um garotinho pequeno, franzino, com 9 anos e muito inteligente. Nasceu com alguma síndrome que, nas pouquíssimas vezes em que foi a um médico, nunca diagnosticaram. Ela causa problemas como ausência de glândulas na pele, que provoca grande ressecamento: "A gente morria de dó, as vezes o bracinho dele estava tão ressecado que até rachava", nos disse uma professora. Possui um cabelo bem ralinho e, no que compete a minha área, além da ausência de muitos dentes possuía os quatro dentes da frente pontudos, como o canino. Assim que o conheci me propus a transformar os dois centrais, acrescentando resina e os deixando mais quadrados. Ele disse que queria e apareceu na sala da escola - onde montamos a cadeira de dentista - meio desconfiado. Sua professora me disse em particular que ele era muito inteligente, um dos mais espertos da escola, algo que eu comprovaria logo depois. Levamos alguns brindes para as crianças, entre eles uma réplica do antigo Pirocóptero (aquela hélice que se encaixa num canudo de plástico e voa alto quando o giramos. Antigamente vinha de brinde nas garrafas de Toddy). A sala estava repleta de crianças que faziam a maior festa enquanto eu terminava de arrumar a sala. Manolo (companheiro de equipe) pegou a hélice e o canudo separados e o fechou na mão perguntando: "A criança que souber o que é isso ganha o presente!". Passou de uma em uma, que olhavam e balançavam negativamente a cabeça. Ao passar na frente do Del ele olhou com um sorriso para o Manolo e disse: "Eu sei o que é isso. Você cloca essa parte junto com a outra e roda pra ele sair voando." Disse com uma calma como se já tivesse visto alguma vez o brinquedo. No final do dia dormiríamos na própria comunidade em que estávamos e de noite começou um animado luau em que até bem tarde ficamos cantando ao som do velho Raulzito (violão de estimação da turma), a única criança que ficou até o fim, bem quietinho, ouvindo com atenção atrás de um contido sorriso, era o Del. No dia seguinte, chegamos à escola as 8 da manhã. Segundo a professoara ele estava lá desde as 7! Assim que me viu correu até mim, me deu um abraço, olhou nos meus olhos e disse: "você toca e canta muito bem!". Dei risada e agradeci, perguntando se ele gostava de ouvir violão. Ele respondeu que sim e nesse momento decidi: na outra visita que faríamos levaria um violão de presente para ele. Ao aoltar para São Paulo não foi difícil organizar entre os amigos uma "vaquinha" para um bom violão, capa, cordas sobressalentes, revistinhas de teoria, enfim, tudo que um garoto inteligente como o Del - e com sensibilidade para a música - precisaria para começar a tocar. Assim que voltamos à cidade eu estava ansioso; o embrulho para presente estava do jeito que eu adoraria ganhar quando era criança. Chegamos tarde da noite e ele estava ainda acordado para nos esperar. Me abraçou e me segurei para não falar antes do tempo na surpresa que o aguardava. Uma professora me disse momentos depois: "Tadinho do Del, não sei se você sabe, mas o pai dele morreu faz 10 dias hoje. Ele ficou tão tristinho...". Senti um nó na garganta e, ao mesmo tempo, pensei que o presente vinha no momento certo. Na despedida, na hora dos agradecimentos e das premiações para a escola e professores resolvemos presentear também o Del. Um momento muito feliz, ele mal sabia o que falar e o Bruno - nosso amnigo músico - já começou uma rápida aula para ele. Quando pediu para que ele repetisse, o pequeno, muito sincero, disse: "eu prefiro não tocar nada por enquanto, ainda faz pouco tempo que meu pai morreu.". Pela simplicidade de nosso pequeno amigo e de sua família ainda não consegui contactá-lo, mas amigos da cidade dizem que ele está adorando e seguindo adiante com o instrumento. Fevereiro teremos a oportunidade de reencontrá-lo numa nova etapa do trabalho em Nova Iorque. Segundo o combinado, Del tocará uma música conosco, talvez à beira de uma fogueira, como no dia em que ele ouvia, alegremente, seus novos amigos tocando o instrumento que sonhava em ter um dia.

No vídeo Del conversa comigo na primeira viagem, no dia seguinte à roda de violão.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Riquezas

Em uma cidade, no sertão brasileiro, seguíamos com o trabalho social. Uma correria louca, fila enorme, várias crianças, muitos adultos; todos esperando, pacientemente, o momento de seu atendimento.
Seria impossível, mesmo sonhar, atender a todos. Mesmo assim não me sentia à vontade ao ver aquela senhora que esperou 40 minutos, uma hora - talvez até mais-, se sentar na cadeira e apenas ouvir pequenas e rápidas orientações de higiene bucal e um “mil desculpas, mas infelizmente não conseguiremos fazer o tratamento longo de que você precisa...”. Surpresa mesmo é vê-la abrindo um enorme sorriso, envolvendo minhas mãos com suas duas, olhando em meus olhos e dizendo:
- Imagina, meu filho. Eu agradeço de coração vocês terem vindo aqui, fazer tanta coisa boa pra esse povo que precisa tanto. Deus abençoe a todos vocês, muito obrigado!
Muitas vezes recebemos agradecimentos assim vindo de dois olhos marejados.

Certo dia uma senhora parou ao meu lado com sua filha e esperou até que eu acabasse de atender. Tinha seus 60 anos, cabelos brancos que desciam por ambos os lados de sua face e um sorriso puro. Sua filha, que tinha 30 anos e possuía síndrome de down, usava óculos novos, daqueles bem grossos, que deixam os olhos pequeninos.
Com enorme simpatia me pediu para que eu atendesse a moça, que sofria muito com dores e não conseguia atendimento no posto de saúde.
Assim que se sentou na cadeira vi que tinha cáries muito grandes, já haviam chegado ao canal. Outro dente necessitava extração, infelizmente tudo que eu não poderia fazer ali.
Expliquei tudo o que deveria ser feito e o porquê eu não poderia fazer.
- Mas vou dar um encaminhamento para o posto de saúde explicando tudo e pedindo para que seja feito o tratamento. Desculpe não poder ajudar mais que isso... – disse meio sem jeito.
Ela abriu um enorme sorriso e me agradeceu muito:
- Magina doutor, isso já é uma felicidade imensa, o senhor nem imagina. Eu já estive tão feliz hoje com os óculos que ela recebeu que nem precisaria mais de nada. 30 anos tropeçando nas coisas, sem enxergar direito e agora ela vê tudo! Esse papel então só completa a minha alegria.

Por esses motivos nunca deixava de conversar com alguém quando saía da sala, mesmo que estivesse muito atrasado. Muitas vezes uma simples conversa de dois minutos em um corredor é algo que faz um bem enorme para as pessoas e para nós.
Senhoras – bem velhinhas – me paravam e contavam a história de suas vidas, de como Deus havia sido bom com elas, dizendo coisas sobre a história da cidade... Riqueza imensa.

O que é mais importante para uma pessoa? Uma restauração, uns óculos ou um atendimento médico? Não sei, mas uma coisa é certa: a atenção e o carinho estão entre as coisas mais importantes que alguém precisa. Principalmente em relação à população sertaneja, que já é tão carente de tantos outras quesitos, isso é essencial.
Levamos muitas coisas para o trabalho por estas cidades, mas o mais importante é o que levamos dentro de nós mesmos – atenção e carinho - e o melhor: isso é algo que nunca acaba. Pelo contrário, aumentamos muito com o que recebemos de lá. Se há algo que não falta no sertão é o amor ao próximo. Isso eles tem em excesso e supre todas as outras coisas que lhes faltam.
E nós, que pensávamos em doar algo, voltamos de lá completamente ricos.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Mão de Deus

Os desígnios de Deus. Muitos podem não acreditar nisso. Eu mesmo não acredito em um destino que está escrito, completamente definido para cada um de nós. Dessa forma não teríamos mérito algum em conseguir algo ou nenhum erro em cometer crimes: estaríamos apenas seguindo um texto escrito pelas mão divinas.
Porém acredito que a vida possa ser como uma estrada em que vamos seguindo adiante, cada um na sua. A minha passou por uma faculdade de odontologia. O livre arbítrio poderia me fazer mudar para outra, temos nossas escolhas.
O fato é que muitas vezes encontramos situações em que Ele parece nos indicar algo a fazer, de forma tão clara que sentimos a Sua presença. Somos usados – no ótimo sentido - apenas como um instrumento para algum plano maior. E como prêmio: a realização, uma enorme alegria.
Mateiros, uma cidade bem pequena no interior do Tocantins – coração do Jalapão -, nos presenteou com uma dessas situações.
Para chegarmos até a cidade tínhamos um dia inteiro de viagem pela frente, já que a estrada, apesar de muito bonita: de terra, vegetação numa mistura de caatinga e cerrado e animais silvestres, possui trechos bem ruins, com atoleiros.
Foi num desses que o nosso caminhão (ou melhor, o que as Casas Bahia nos empresta para o trabalho) atolou feio. Pás e enxadas, que eram usadas para fazer hortas, trabalhavam incessantemente para tirar o enorme veículo do que parecia ser uma piscina de terra fofa.
Uma das maiores motivações para a pressa era a vontade de conhecer a Cachoeira da Formiga – que possui uma água num tom azul forte, tingida pela natureza -, que fica a uns 40 km de Mateiros, já que chegaríamos cedo e não haveria trabalho naquela tarde.
Depois de uma hora entre suor, terra vermelha tingindo nossas roupas e corpos e tentativas inúteis conseguimos desatola-lo. Íamos direto à cachoeira, mas decidimos entrar na cidade para comer algo rápido e amansar a fome. Neide – nossa amiga da cidade que estava conosco - nos indicou uma lanchonete, que para o nosso “desespero”estava fechada.
Um homem vinha descendo a rua rapidamente e ela lhe perguntou se sabia onde estava o dono do bar.
Ele com uma aparência desesperada não conseguiu responder, apenas disse que estava procurando alguém que pudesse ajudar seu filho que estava brincando com uma corda na boca, presa a um pedaço de pau e ao pisar na madeira teve seus quatro dentes de baixo arrancados. Estes ainda estavam na gengiva, como se estivessem apontando para o horizonte. Disse que estava no posto de saúde num estado lamentável, com a boca sangrando muito e chorando sem parar. E para agravar a situação, a única dentista da pequena cidade estava de férias e não havia outro na cidade.
- Onde ele está? Eu sou dentista e posso ajudar! – disse, sentindo o arrepio de uma daquelas situações críticas.
- Tá lá no posto de saúde. – respondeu apontando para o final da rua.
Perguntei há quanto tempo o acidente havia ocorrido, torcendo para que tivesse sido há pouco. Na realidade a cada minuto que passa a chance de se ter um sucesso no reimplante dentário diminui. Até meia hora é excelente, quarenta minutos ainda há uma boa chance de sucesso. À partir de uma hora as chances vão se tornando mínimas.
- Deve fazer uns vinte minutos. – respondeu o desesperado pai, para minha alegria.
Corremos então para o posto. A pressa - e ansiedade para atendê-lo - era tão grande que só mais tarde comecei a me dar conta: como tudo tinha dado tão certo para que pudéssemos ajudar o garoto!
Uns podem chamar de coincidência, outros de providência divina. Independente de darmos um nome, o fato é que sentimos que há algo maior nos olhando e podemos até sentir Sua presença.
O garoto poderia ter sofrido o trauma qualquer dia desse mês em que a dentista do posto estava de férias, mas aconteceu justo no primeiro dos dois dias em que ficaríamos na cidade. Não só o dia, mas o mais importante: o momento. Se tivesse ocorrido tudo pela manhã não adiantaria muito reimplantar os dentes. Assim, o fato de o caminhão ter atolado nos fez chegar ao tempo exato. Perdemos em torno de uma hora naquele sufoco todo e quando chegamos à cidade ele havia acabado de chegar ao posto de saúde. Não tivéssemos perdido todo aquele tempo na estrada, àquela altura estaríamos na cachoeira, alguns quilômetros da cidade e, provavelmente, eles nem saberiam.
Voltando ao Posto de Saúde: eu, completamente imundo. Minha roupa num vermelho bem escuro, quase marrom, chinelo de dedo, cabelo ruivo de terra... Uma belezura!
Quando saltei do carro, ao longe, já ouvia o angustiante choro. Até me impressionei ao ver o garoto. Realmente, como o pai havia dito, os dentes de baixo apontavam o horizonte, muito sangue em volta e as mulheres do posto, junto com a mãe, com caras de desespero, sem saber o que fazer.
Fui direto ao banheiro. Lavei as mãos, até o cotovelo, e pareceu que um novo antebraço surgia diante dos meus olhos. Nunca em toda minha vida atendi alguém num estado daquele. Minha havaiana deixava pegadas pelo consultório e a única coisa limpa que estava usando eram as luvas e a máscara. Ah, claro, meus antebraços novos também.
Perguntei se estava tudo funcionando para a auxiliar que me ajudava a arrumar os materiais.
- Não, está com um problema de vazamento naquela garrafinha – era o filtro de ar.
O compressor funcionava, mas o ar não vinha para cadeira.
Foi triste ouvir isso. Precisaria muito usar o ar do compressor. Principalmente para o sugador e para o jato de água. Bom, pelo menos a cadeira subia e descia. Já facilitava um pouco.
Pedi então para chamarem o Manolo, meu braço direito e esquerdo durante os trabalhos. Ele é um cara que já fez de tudo na vida. Tem uma maleta de ferramentas que faz milagres. Várias vezes que já tive problemas com algum equipamento durante as viagens lá vinha o Manolo e sua maleta. Sempre arrumava tudo, o que nos fez chamá-lo de Magaywer – personagem de uma série dos anos 80 que com um clips e alguns chicletes concertava uma jamanta.
Não podia esperar o conserto. Na verdade nem sabia se o filtro tinha conserto. Então comecei a atender da maneira que podia, sem o sugador, sem o jato de ar ou de água enquanto meu amigo se lançava ao filtro de ar preso na parede do posto.
Com certa dificuldade consegui anestesiar o nervoso – com razão – garoto e reimplantar seus dentes permanentes. Um era decíduo (dente de leite) e não seria necessário.
- Pronto! Tá consertado! – disse meu companheiro enquanto eu também finalizava o atendimento.
Liguei o sugador e ele estava funcionando normalmente. Não precisaria mais dele, mas era ótimo deixar tudo funcionando bem para os próximos pacientes.
Saí da sala parecendo que havia sido atropelado pelo caminhão do Pedro. Todo sujo – assim como entrei – e cara de acabado. Geralmente quando se tem esses casos mais complicados a pessoa doa muita energia para atender e ainda acalmar a criança.
Mas estava feliz. Muito feliz por ter ajudado uma pessoa que estava em uma situação tão difícil. Pensava em como ele ficaria, com os dentes naquela posição – horizontal -, gengiva inflamada... Quem o anestesiaria para mexer ali? Quanto tempo ele ficaria com os dentes daquele jeito até extraí-los em outra cidade? Foi aí que comecei a me dar conta de como tudo tinha ocorrido perfeitamente para o ajudarmos.
Entramos todos no carro depois de recebermos muitos agradecimentos da mãe e das moças do posto. O melhor e maior pagamento que poderíamos ter. Ver – e ouvir - a auxiliar dizer “muito obrigada” com os olhos cheios de lágrimas e desejando que Deus nos ajudasse muito, é algo que não tem preço, nos deixava emocionados.
Era fim de tarde, ainda restava um pouco de sol no lindo céu de Mateiros. Enfim iríamos para a Cachoeira da Formiga. Me encostei no banco do carro enquanto o Manolo dava a partida. Todos estavam em silêncio, como se estivessem, aos poucos, absorvendo as muitas emoções vividas durante aquele dia.
Olhando pela janela o céu completamente azul, sem nuvens, sentia aquela sensação de felicidade plena. Observando meus amigos percebi que todos estavam compartilhando o mesmo sentimento. E num carro que parecia flutuar pegamos a estrada de terra que seguia até a cachoeira da Formiga.

sábado, 27 de dezembro de 2008

"Feliz Natal!"

Neste Natal, relembrei uma época em que o significado desta data era outro, completamente diferente. Na verdade, penso que era o verdadeiro significado e que, durante os anos, ele foi se perdendo, desaparecendo enquanto o tempo ia passando.
Senti saudade daquela sensação de plena felicidade quando passava, no banco de trás do carro, e avistava as alegres luzes enfeitando as casas e estabelecimentos comerciais. Não era só por se aproximar o dia em que eu ganharia presentes, a alegria brotava em meu peito simplesmente por ser o tempo de lembrar o nascimento de Jesus, por serem dias em que o ser humano é inconscientemente mais caloroso e preocupado com o próximo. Mesmo sem entender isso com minha pouca sabedoria de criança, o puro sentimento atingia diretamente meu pequeno coração.
A nostalgia foi me atingindo de um jeito que resolvi tentar a sentir aquela "magia" novamente. No banco de trás do carro, como a muitos anos não fazia, olhei pelo vidro traseiro, diretamente para os motoristas que vinham logo atrás. Senti como se estivesse dando um simples "tchau" pela janela e festejando quando o motorista, um desconhecido, sorriu e correspondeu ao meu aceno.
Em seguida uma senhora, com "pinta" de séria chegou bem pertinho e, sem exitar, com a língua para fora, fiz uma careta. Quase gargalhei quando a velhinha fez uma careta ainda mais feia do que a minha!
Tudo aquilo voltou a me dar a plena sensação de felicidade, que eu não sentia desde que era criança e que, mal sabia, me fazia uma falta enorme.
Passamos uma casa enorme, toda enfeitada com luzes e bolas coloridas de natal. Não conseguiria explicar a alegria que invadiu meu peito de criança, simplesmente por me lembrar que era natal, algo que já sabia antes de olhar para aquela casa...
Um homem passou ao lado de minha janela aberta e sem medo gritei: "Feliz Natal!". O amigo desconhecido acenou e respondeu: "Feliz Natal, meu filho!"
Tudo era muito gostoso e nesse momento senti pena de todos aqueles adultos que não mais sentiam essa alegria pura. Que se esqueceram do real significado do Natal. Que muitas vezes passam por lugares lindos e iluminados e não sentem aquel frio na barriga que me embreagava naquela hora.
Pensando nisso me senti feliz em ser criança, mesmo que por poucos minutos, novamente, e me fiz uma promessa: nem que seja por pouquíssimo tempo, sempre que dezembro chegar, deixarei aquele pequeno garoto renascer e me ensinar algo que nós nunca deveríamos esquecer.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

"A lenda de Lampião"

Num trabalho em Mossoró - RN conhecemos o escritor de cordel Nildo da Pedra Branca. Lá, ele nos presenteou com a declamação de uma das suas histórias: "O dia em que conheci Lampião". Bruno, nosso amigo músico o apresenta e faz o fundo musical. O vídeo segue abaixo, fantástico!

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Borboletas

O casulo balança, ligeiramente, para um lado e para o outro. Movimentos que mostram os primeiros desejos da borboleta de sair para sua nova vida. Esforço necessário para que o pequeno ser vivo ganhe força e resistência para enfrentar todos os desafios de sua existência. Se tentássemos ajudar, abrindo as fortes paredes para que a borboleta saísse com maior facilidade, acabaríamos criando um ser frágil e que não teria forças suficientes para os futuros obstáculos que viriam.
Se comparássemos essa história com a de um pequeno bebê nascido em 1994, poderíamos dizer que envolveram o seu casulo com ainda mais algumas camadas.
Minaçu, no sertão de Goiás, é uma cidade que possui um alto índice de abandono de crianças pelos pais. Entre outros motivos há um grande número de mulheres que são levadas para tentar a sorte na Europa, em empregos duvidosos. Assim os pequenos acabam sendo criados pelos avós, ou tios.
O destino de Jenifer seguiu linhas parecidas. Sua vida foi difícil desde suas primeiras horas, nascida de uma gravidez não desejada. Logo aos 3 dias de idade foi abandonada pela própria mãe num vaso sanitário de um banheiro público. Não fosse seu tio a encontrar a tempo a dantesca cena teria um trágico desfecho.
Seu tios a criaram com muito carinho, tanto que até hoje os chama de pais.
Desde esse trauma até os dois anos passou por muitas doenças que a afligiram, principalmente a amigdalite.
- Minha infância foi muito difícil, sofri bastante com essas doenças, mas Deus me deu mais uma chance e estou aproveitando o máximo possível! – costuma dizer, sempre analisando o lado bom de tudo.
Por volta dos 7 anos seus pais começaram a notar o gosto que a pequena apresentava para cantar. Mas diferente dele, admirador de música caipira e dela que aprecia o gospel, Jenifer gostava de cantar músicas em inglês, mesmo não entendendo nada das letras.
Foi assim que decidiram levá-la, aos 8 anos, ao primeiro festival de música. Teve ali sua colocação mais discreta até hoje: um sexto lugar.
- Nessa época não conhecíamos as regras e ela não foi muito arrumada. Eles dão pontos pra roupa também! – lamenta a tia/mãe.
Depois deste festival, só vieram sucessos: venceu todos os outros concursos que disputou. Uma voz linda e afinada, um timbre suave e um grande carisma deram grande vantagem nas disputas.
De todos os concursos que ganhou guarda um deles com um carinho especial. Em 2005, aos 11 anos cantou uma música bem animada da Avrill Lavigne.
- Nesse dia eu não fiquei nem um pouco nervosa. Eu dançava, pulava, batia palma, na maior animação. E todo mundo correspondia, pulavam e dançavam. Esse eu nunca vou esquecer, até chorei de tanta felicidade. – lembra emocionada.
Seu maior sonho é se tornar uma cantora profissional. Talento para isso ela tem, mas também sabe que, infelizmente, hoje em dia não depende apenas disso. Porém se não conseguir sonha também em ser médica. Adoraria poder salvar a vida de outras pessoas.
Pelo que já conseguiu ultrapassar até aqui, quem pode duvidar? Quem sabe o destino não colocou as dificuldades em sua vida justamente para que ela pudesse se sair delas mais forte. Como uma borboleta, consiga passar pelos obstáculos para alçar vôos cada vez mais altos.