Seu Zazu é um senhor do sertão. Um típico sábio do interior do nosso país. Um homem maduro, em suas palavras "mais pra acolá do que pra cá, mas que ainda quebra o côco".
O passatempo preferido de Zazu é matutar. Matuta sobre a vida, sobre tudo.
Fosse um europeu ou americano, seria definido como um pensador. Assim como, fosse a Serra da Capivara - no Piauí - uma região da América do Norte, toda a teoria de ocupação do nosso continente já haveria mudado. Mas como um bom filho do solo brasileiro, ele não liga. Não precisa de rótulos. A sabedoria e a verdade são muito maiores que isso.
Apenas enrola seu fumo na humilde palha de milho e matuta, matuta...
sábado, 2 de janeiro de 2010
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
O segredo do sucesso
Todo fim de ano é aquela alegria, pessoas contentes pelos feriados, festa de Reveillon, tudo trazendo a bonita esperança de um ano melhor.
Aliás, um gênio a pessoa que inventou o "Ano Novo". Este ser iluminado renovou a esperança da humanidade. Não importa o quanto o ano foi difícil ou ruim, sempre temos aquela imagem de que virá um novinho em folha para começarmos a escrever, do "zero", e essa renovação de ânimo faz, com toda certeza, que o ano seguinte seja melhor.
Não à toa, é época das promessas para o ano vindouro: "serei uma pessoa melhor", "vou comer menos", "não vou puxar as trancinhas da menina chata que senta do meu lado na escola", enfim, são inúmeras.
Se alguém me pedisse uma dica para sua evolução em 2010 eu daria o segredo do sucesso. Sim, esse ano eu descobri o segredo do sucesso. Simples assim. Não que eu já me considere uma pessoa de sucesso - estou buscando o meu -, mas já sei o caminho.
Alguns podem reclamar "como você se acha sabichão!", ou sapatear dizendo "humpft! Ele se acha!". Quem discordar, tem esse humilde espaço para esbravejar - o que eu acho difícil, e já explico o porquê.
Não tirei essa conclusão trancado em meu quarto, meditando - apesar disso ser uma ótima coisa a se fazer - ou filosofando sobre qual o segredo do sucesso. Percebi observando a maioria dos meus amigos que, hoje, estão se dando bem em suas carreiras ou outras pessoas que progrediram muito em suas vidas. Todas elas, sem exceção, possuem um ponto em comum: dão o máximo de si para fazerem bem o que lhes é confiado. Não importa o serviço que presta, se é grande ou pequeno, onde trabalha, o patrão que tem, etc. Todos que fazem bem feito o que tem que fazer no dia a dia, vão tendo cada vez mais sucesso na vida. É fato!
Já ouvi reclamações do tipo "não sou reconhecido", ou "meu chefe é um crápula!". Nessas ocasiões é comum - e aceitavelmente humano - a pessoa desanimar, passar a fazer um serviço "meia-boca", enfim, ir levando a vida, sem se esforçar, para receber seu salário no fim do mês até que ache algum emprego melhor. Triste engano.
Quando mais novo (como o tempo passa, a cada dia mais uso essa expressão...) trabalhei no McDonald´s, assim, me familiarizo sempre aos funcionários quando vou até lá. Sabem quantos atendentes me olham no olho quando eu chego, abrem um sorriso e perguntam se está tudo bem, realmente interessados em saber o que perguntam? Raros. E quando encontro essa cena, penso comigo mesmo "caramba, que carinha gente boa!".
A partir desses pensamentos me seguiam outros. É curioso eu me surpreender com um atendimento muito simpático e um sorriso amigo, quando, na verdade, isso deveria ser uma obrigação. A empresa o paga - bem ou mal, não importa - para isso.
Mesmo em casos de não se ter perspectivas futuras na empresa, um chefe que não valoriza, não ser completamente profissional é "dar um tiro nó pé". Do mesmo jeito que eu me surpreendo ao ser bem atendido no Mc, um empresário pode pensar o mesmo e fazer uma proposta de emprego. Isso em qualquer lugar.
O que falta hoje em dia - é uma raridade! - são pessoas que não importando se devem vender um produto, limpar o chão, fazer um sanduíche, qualquer coisa, procuram fazer algo muito bem feito. Pode não ser o melhor profissional, mas será o melhor profissional que pode.
Este é o segredo do sucesso: independente do quanto ganha, ou para quem trabalha, se isto lhe é confiado, faça com o maior amor e carinho possível, alguém reconhecerá. E mesmo que ninguém reconhecesse, você saberia que fez bem feito. Já é o suficiente.
Aliás, um gênio a pessoa que inventou o "Ano Novo". Este ser iluminado renovou a esperança da humanidade. Não importa o quanto o ano foi difícil ou ruim, sempre temos aquela imagem de que virá um novinho em folha para começarmos a escrever, do "zero", e essa renovação de ânimo faz, com toda certeza, que o ano seguinte seja melhor.
Não à toa, é época das promessas para o ano vindouro: "serei uma pessoa melhor", "vou comer menos", "não vou puxar as trancinhas da menina chata que senta do meu lado na escola", enfim, são inúmeras.
Se alguém me pedisse uma dica para sua evolução em 2010 eu daria o segredo do sucesso. Sim, esse ano eu descobri o segredo do sucesso. Simples assim. Não que eu já me considere uma pessoa de sucesso - estou buscando o meu -, mas já sei o caminho.
Alguns podem reclamar "como você se acha sabichão!", ou sapatear dizendo "humpft! Ele se acha!". Quem discordar, tem esse humilde espaço para esbravejar - o que eu acho difícil, e já explico o porquê.
Não tirei essa conclusão trancado em meu quarto, meditando - apesar disso ser uma ótima coisa a se fazer - ou filosofando sobre qual o segredo do sucesso. Percebi observando a maioria dos meus amigos que, hoje, estão se dando bem em suas carreiras ou outras pessoas que progrediram muito em suas vidas. Todas elas, sem exceção, possuem um ponto em comum: dão o máximo de si para fazerem bem o que lhes é confiado. Não importa o serviço que presta, se é grande ou pequeno, onde trabalha, o patrão que tem, etc. Todos que fazem bem feito o que tem que fazer no dia a dia, vão tendo cada vez mais sucesso na vida. É fato!
Já ouvi reclamações do tipo "não sou reconhecido", ou "meu chefe é um crápula!". Nessas ocasiões é comum - e aceitavelmente humano - a pessoa desanimar, passar a fazer um serviço "meia-boca", enfim, ir levando a vida, sem se esforçar, para receber seu salário no fim do mês até que ache algum emprego melhor. Triste engano.
Quando mais novo (como o tempo passa, a cada dia mais uso essa expressão...) trabalhei no McDonald´s, assim, me familiarizo sempre aos funcionários quando vou até lá. Sabem quantos atendentes me olham no olho quando eu chego, abrem um sorriso e perguntam se está tudo bem, realmente interessados em saber o que perguntam? Raros. E quando encontro essa cena, penso comigo mesmo "caramba, que carinha gente boa!".
A partir desses pensamentos me seguiam outros. É curioso eu me surpreender com um atendimento muito simpático e um sorriso amigo, quando, na verdade, isso deveria ser uma obrigação. A empresa o paga - bem ou mal, não importa - para isso.
Mesmo em casos de não se ter perspectivas futuras na empresa, um chefe que não valoriza, não ser completamente profissional é "dar um tiro nó pé". Do mesmo jeito que eu me surpreendo ao ser bem atendido no Mc, um empresário pode pensar o mesmo e fazer uma proposta de emprego. Isso em qualquer lugar.
O que falta hoje em dia - é uma raridade! - são pessoas que não importando se devem vender um produto, limpar o chão, fazer um sanduíche, qualquer coisa, procuram fazer algo muito bem feito. Pode não ser o melhor profissional, mas será o melhor profissional que pode.
Este é o segredo do sucesso: independente do quanto ganha, ou para quem trabalha, se isto lhe é confiado, faça com o maior amor e carinho possível, alguém reconhecerá. E mesmo que ninguém reconhecesse, você saberia que fez bem feito. Já é o suficiente.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Trio em Poço Redondo-SE
Há aquelas vezes em que queremos muito bater uma foto ou fazer uma filmagem e aparece a mensagem na câmera: bateria acabando. Que desespero! Conversamos com ela, pedimos, numa vã esperança de que ela nos ouça e, mais difícil, obedeça.
Em Poço das Trincheiras passei por isso novamente. Estávamos num bar, ouvindo um trio tocando um forró de primeira, quando resolvi filmar uma música que gostamos muito, do Luiz Gonzaga.
Curioso como mudam as regiões, gostos musicais, mas as atitudes das pessoas parecem as mesmas. Aqui pelo sudeste estamos muito acostumados a ouvir a brincadeira "toca Raul" numa roda de violão. Geralmente, porque muitos fãs ardorosos do cantor pediam uma música atrás da outra quando a viola chorava. Uma pena, eu adoro Raul e é triste ouvir piadas jocosas sobre um grande artista.
Me espantei ao ouvir algo semelhante, em Sergipe, em relação a uma música do Luiz Gonzaga: Samarica Parteira. Entre uma música e outra uns gritavam: "toca Samarica parteira!" e risos.
Até que uma aniversariante da noite foi até o microfone indignada e pediu aquela música, de verdade, dizendo que achava triste que as pessoas dali não davam "valor às coisas da terra".
Então, o sanfoneiro - muito bom, por sinal - disse: "Olha, alguns podem reclamar, mas se aqui, pelo menos uma pessoa gostar, eu já me dou por satisfeito essa noite!".
Nem preciso dizer que muitas pessoas adoraram, nós e muitos da própria cidade.
Segue o vídeo, até onde a bateria aguentou...
Em Poço das Trincheiras passei por isso novamente. Estávamos num bar, ouvindo um trio tocando um forró de primeira, quando resolvi filmar uma música que gostamos muito, do Luiz Gonzaga.
Curioso como mudam as regiões, gostos musicais, mas as atitudes das pessoas parecem as mesmas. Aqui pelo sudeste estamos muito acostumados a ouvir a brincadeira "toca Raul" numa roda de violão. Geralmente, porque muitos fãs ardorosos do cantor pediam uma música atrás da outra quando a viola chorava. Uma pena, eu adoro Raul e é triste ouvir piadas jocosas sobre um grande artista.
Me espantei ao ouvir algo semelhante, em Sergipe, em relação a uma música do Luiz Gonzaga: Samarica Parteira. Entre uma música e outra uns gritavam: "toca Samarica parteira!" e risos.
Até que uma aniversariante da noite foi até o microfone indignada e pediu aquela música, de verdade, dizendo que achava triste que as pessoas dali não davam "valor às coisas da terra".
Então, o sanfoneiro - muito bom, por sinal - disse: "Olha, alguns podem reclamar, mas se aqui, pelo menos uma pessoa gostar, eu já me dou por satisfeito essa noite!".
Nem preciso dizer que muitas pessoas adoraram, nós e muitos da própria cidade.
Segue o vídeo, até onde a bateria aguentou...
domingo, 20 de dezembro de 2009
A docência, um sonho concretizado (Sonhos, medos e realizações de uma professora do Maranhão) - por Janilde Fernandes
Tudo começou em 2002, vestibular para pedagogia, aprovação... Muitas expectativas, vontade de aprender e um certo medo de não me encontrar e não me sentir realizada.
Na faculdade pude conhecer algumas teorias, entender a evolução da educação e, em muitas aulas, haviam "discussões", pois algumas alunas já eram professoras e sempre diziam que a realidade na sala de aula era muito difícil. Quando ouvia isso confesso que aquele medo de início aumentava.
Lembro como hoje da minha primeira aula (era estágio da faculdade), passei horas e horas pensando em cada detalhe e, quando entrei na sala, aquele friozinho na barriga foi inevitável. Este foi meu primeiro contato com os alunos e naquele momento tive a certeza que aquele era o meu mundo.
Passaram-se alguns meses após a conclusão do curso de pedagogia, fiz um concurso, fui aprovada e, a partir daí, o meu sonho de ser professora se concretizava.
Como dizem, no inicio tudo são flores, e de fato foi. Cheguei cheia de sonhos, com uma vontade enorme de colocar em prática todas as teorias aprendidas, mas logo percebi as grandes dificuldades - aquelas que escutava de minhas amigas na época de faculdade, bateu-me um desespero e uma angústia.
Quantas vezes ouvi de algumas colegas (que já tinham anos de sala de aula) "não sonha tão alto, a realidade é muito dura"...
Só que sempre tive esperança e acreditava que eu podia fazer diferente. Não era justo comigo e com meus alunos aceitar essa realidade e foi com essa vontade que nunca desisti.
As dificuldades existem (salários baixos, falta de recursos, ausência da família...), é uma verdade, mas quando queremos algo verdadeiramente ele se realiza.
Se me perguntarem: vale a pena ser professora? Claro que vale. E muito! Os desafios são diários, mas a felicidade em saber que seu aluno aprendeu com você e que você também aprendeu com ele não tem preço.
Janilde é professora de Balsas, interior do Maranhão
Na faculdade pude conhecer algumas teorias, entender a evolução da educação e, em muitas aulas, haviam "discussões", pois algumas alunas já eram professoras e sempre diziam que a realidade na sala de aula era muito difícil. Quando ouvia isso confesso que aquele medo de início aumentava.
Lembro como hoje da minha primeira aula (era estágio da faculdade), passei horas e horas pensando em cada detalhe e, quando entrei na sala, aquele friozinho na barriga foi inevitável. Este foi meu primeiro contato com os alunos e naquele momento tive a certeza que aquele era o meu mundo.
Passaram-se alguns meses após a conclusão do curso de pedagogia, fiz um concurso, fui aprovada e, a partir daí, o meu sonho de ser professora se concretizava.
Como dizem, no inicio tudo são flores, e de fato foi. Cheguei cheia de sonhos, com uma vontade enorme de colocar em prática todas as teorias aprendidas, mas logo percebi as grandes dificuldades - aquelas que escutava de minhas amigas na época de faculdade, bateu-me um desespero e uma angústia.
Quantas vezes ouvi de algumas colegas (que já tinham anos de sala de aula) "não sonha tão alto, a realidade é muito dura"...
Só que sempre tive esperança e acreditava que eu podia fazer diferente. Não era justo comigo e com meus alunos aceitar essa realidade e foi com essa vontade que nunca desisti.
As dificuldades existem (salários baixos, falta de recursos, ausência da família...), é uma verdade, mas quando queremos algo verdadeiramente ele se realiza.
Se me perguntarem: vale a pena ser professora? Claro que vale. E muito! Os desafios são diários, mas a felicidade em saber que seu aluno aprendeu com você e que você também aprendeu com ele não tem preço.
Janilde é professora de Balsas, interior do Maranhão
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Maria e João
Maria mudou-se com seu marido, João, para um bairro mais afastado. Moravam antes no quintal de seu pai e seu esposo, um dia, chegou com a notícia: "Comprei um terreno!".
Assim que viu o local, se assustou. "Meu Deus, aqui é só mato!", pensou, olhando as poucas casas que haviam na região em meio a uma vegetação rasteira e sem cuidado.
João - que trabalhava como pedreiro - construiu o primeiro lar do casal: dois cômodos e um banheiro; e assim que as paredes ganharam o reboco e o chão o cimento queimado, puderam se mudar para a nova casa.
No princípio, aquela dificuldade em se adaptar. "Parece que aqui não tem nada", pensava enquanto andava um bom tempo para buscar agua na bica que havia no bairro, já que água encanada, esgoto e luz elétrica era algo impensado na região. A maioria das vezes era João quem buscava a água, com baldes amarrados em seu carrinho de mão.
Alguns vizinhos, mais sortudos, conseguiram achar o precioso líquido perfurando poços ao lado de suas casas. "Nós perfuramos alguns buracos e nada...", lamentava.
Com a permissão do vizinho, nos meses seguintes, João fez uma ligação com canos por baixo da terra de seu poço até sua casa. Assim, diminuíram as andanças diárias até a bica.
Mudaram com uma filha de 2 anos e logo Maria engravidou. Pouco depois que o bebê nasceu: engravidou de novo.
"Um dos maiores sacrifícios era andar até o Posto de Saúde, em meio ao mato, com um bebê de 6 meses no colo, puxando uma filha de 3 anos pela mão e uma barriga grande pesando!"
O tempo foi passando. Entre sustos e risadas com o grande número de sapos que povoavam o local, João foi colocando azulejos na cozinha, melhorando as paredes da casa, aumentando mais um cômodo ao lado. A vida foi passando e as crianças crescendo, como qualquer outra família feliz brasileira.
Maria ainda mora na mesma casa, hoje, um gostoso sobrado.
Onde? Algum lugar remoto do Brasil? Interior do Maranhão? Do Piauí?
Não, mora na Grande São Paulo, em Carapicuíba, e a história se passou a 26 anos atrás. Ela é minha paciente e onde eu tenho consultório - hoje uma rua movimentada, asfaltada, onde carros, caminhões e ônibus ferozes disputam palmo a palmo o espaço sob enormes postes e fios de alta tensão - era um dos caminhos de terra por onde ela passava a pouquíssimos anos atrás carregando suas três filhas, rumo a uma antiga bica d´agua.
Assim que viu o local, se assustou. "Meu Deus, aqui é só mato!", pensou, olhando as poucas casas que haviam na região em meio a uma vegetação rasteira e sem cuidado.
João - que trabalhava como pedreiro - construiu o primeiro lar do casal: dois cômodos e um banheiro; e assim que as paredes ganharam o reboco e o chão o cimento queimado, puderam se mudar para a nova casa.
No princípio, aquela dificuldade em se adaptar. "Parece que aqui não tem nada", pensava enquanto andava um bom tempo para buscar agua na bica que havia no bairro, já que água encanada, esgoto e luz elétrica era algo impensado na região. A maioria das vezes era João quem buscava a água, com baldes amarrados em seu carrinho de mão.
Alguns vizinhos, mais sortudos, conseguiram achar o precioso líquido perfurando poços ao lado de suas casas. "Nós perfuramos alguns buracos e nada...", lamentava.
Com a permissão do vizinho, nos meses seguintes, João fez uma ligação com canos por baixo da terra de seu poço até sua casa. Assim, diminuíram as andanças diárias até a bica.
Mudaram com uma filha de 2 anos e logo Maria engravidou. Pouco depois que o bebê nasceu: engravidou de novo.
"Um dos maiores sacrifícios era andar até o Posto de Saúde, em meio ao mato, com um bebê de 6 meses no colo, puxando uma filha de 3 anos pela mão e uma barriga grande pesando!"
O tempo foi passando. Entre sustos e risadas com o grande número de sapos que povoavam o local, João foi colocando azulejos na cozinha, melhorando as paredes da casa, aumentando mais um cômodo ao lado. A vida foi passando e as crianças crescendo, como qualquer outra família feliz brasileira.
Maria ainda mora na mesma casa, hoje, um gostoso sobrado.
Onde? Algum lugar remoto do Brasil? Interior do Maranhão? Do Piauí?
Não, mora na Grande São Paulo, em Carapicuíba, e a história se passou a 26 anos atrás. Ela é minha paciente e onde eu tenho consultório - hoje uma rua movimentada, asfaltada, onde carros, caminhões e ônibus ferozes disputam palmo a palmo o espaço sob enormes postes e fios de alta tensão - era um dos caminhos de terra por onde ela passava a pouquíssimos anos atrás carregando suas três filhas, rumo a uma antiga bica d´agua.
domingo, 13 de dezembro de 2009
Uma noite no teatro
Uma das atrações mais esperadas pelas crianças nas escolas em que passamos é o Teatro de Marionetes. Apresentado pela Cia de Inventos (Bernardo e Renata, Tiradentes-MG), com a ajuda do Leandro no som e do Luis no microfone, é a atração que, geralmente, fecha os trabalhos.
Os bonecos parecem ter vida, puxados pelos fios nas mãos do Bernardo. O tipo de programa que, como muitos desenhos da Disney, empolga tanto as crianças como os adultos.
Nesse espetáculo eles fazem o enterro de um boneco. Uma cena "triste" e macabra. HUAAAAAAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!
Os bonecos parecem ter vida, puxados pelos fios nas mãos do Bernardo. O tipo de programa que, como muitos desenhos da Disney, empolga tanto as crianças como os adultos.
Nesse espetáculo eles fazem o enterro de um boneco. Uma cena "triste" e macabra. HUAAAAAAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Questões básicas - por (Sabrina Bonfim)
Realmente o texto da Janilde é ótimo, fez um comentario que é a realidade...o trabalho é muito mais que prestar atendimentos em saúde. Isso mexe com outras questões tão básicas que normalmente acabam passando batido na correria diária.
Quando retornamos de viagem em setembro, participei da Special Olympics Brasil (que por incrível que pareça é um evento muito maior que as Para-Olimpiadas e ninguém conhece), me ví em situações bem difíceis, sem saber bem como lidar com esse perfil de paciente: não são deficientes físicos, são deficientes intelectuais (Sd Down, Paralisia cerebral, sindromes diversas que causam atraso de desenvolvimento, entre outros casos) e são atletas de várias modalidades!
Se você visse o rendimento deles no esporte, é incrível! Normalmente imaginamos que esse grupo é completamente excluido da sociedade, que poucos tem atividades, apenas nas entidades como as APAEs por exemplo, aí dentro do Parque São Jorge vejo que o Corinthians patrocina um time de futebol com esses meninos, e isso dificilmente tem cobertura da midia ou incentivo de empresas privadas/patrocinio.
Foi um atendimento bem diferenciado e com apoio de outras especialidades como a odonto e ortopedia!
Essas experiencias nos engrandecem, mas ainda assim prefiro esquecer de tudo aqui em SP, fazer as malas, dormir nas casinhas simples da comunidade, conhecer os "potós", acordar com aquele sol lindo as 5:00 da manhã, poder trabalhar o dia todo com uma comunidade tão diferente e ao mesmo tempo tão próxima de nós, que demostram carinho e satisfação com nossa visita... apesar da bagunça em que tranformamos a cidade...e o melhor....dançar e tomar uma cervejinha a noite, sem grandes preocupações, voltar para casa com muita história pra contar e já pensando"Quando será a próxima?"
Quando retornamos de viagem em setembro, participei da Special Olympics Brasil (que por incrível que pareça é um evento muito maior que as Para-Olimpiadas e ninguém conhece), me ví em situações bem difíceis, sem saber bem como lidar com esse perfil de paciente: não são deficientes físicos, são deficientes intelectuais (Sd Down, Paralisia cerebral, sindromes diversas que causam atraso de desenvolvimento, entre outros casos) e são atletas de várias modalidades!
Se você visse o rendimento deles no esporte, é incrível! Normalmente imaginamos que esse grupo é completamente excluido da sociedade, que poucos tem atividades, apenas nas entidades como as APAEs por exemplo, aí dentro do Parque São Jorge vejo que o Corinthians patrocina um time de futebol com esses meninos, e isso dificilmente tem cobertura da midia ou incentivo de empresas privadas/patrocinio.
Foi um atendimento bem diferenciado e com apoio de outras especialidades como a odonto e ortopedia!
Essas experiencias nos engrandecem, mas ainda assim prefiro esquecer de tudo aqui em SP, fazer as malas, dormir nas casinhas simples da comunidade, conhecer os "potós", acordar com aquele sol lindo as 5:00 da manhã, poder trabalhar o dia todo com uma comunidade tão diferente e ao mesmo tempo tão próxima de nós, que demostram carinho e satisfação com nossa visita... apesar da bagunça em que tranformamos a cidade...e o melhor....dançar e tomar uma cervejinha a noite, sem grandes preocupações, voltar para casa com muita história pra contar e já pensando"Quando será a próxima?"
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
O dia mundial contra a corrupção
Estava vindo para o trabalho no carro, hoje de manhã, e ouvi na CBN (rádio de notícias daqui de São Paulo) sobre o "Dia mundial contra a corrupção".
É triste mas, infelizmente, realmente é preciso que este dia seja criado. A honestidade, a ética, são coisas tão básicas - e tão necessárias para o convívio em sociedade - que deveriam ser inerentes ao homem. Mas não é.
Um dia da luta contra a corrupção, a princípio, me soa como a velha história do "dia das mães" ou "dos pais": nem deveriam existir, pois devem ser todos os dias.
Essa nova data no calendário, mostra o quanto ainda estamos atrasados nessa luta; ainda nem tínhamos um dia por ano dedicado a se pensar seriamente no assunto.
Indo um pouco mais a fundo, cheguei a uma conclusão (que muitos podem discordar): a única arma para combater a corrupção é a educação.
Alguns podem dizer: "temos que vigiar mais os atos dos governantes". Para mim isso é automático. Um país onde a educação é boa, gera uma população mais participativa e automaticamente observará mais os assuntos que importam para sua vida.
Outros retrucarão: "na verdade temos que aumentar a punição!". Pra mim, isso está englobado à educação. Um povo culto, cobrará mais e exigirá que os corruptos sejam punidos.
Não é estranho o interesse em manter nossa educação do jeito que está. Já dizia a letra de um reggae - muito bom - do Natiruts: "sabedoria do povo daqui, é o medo dos homens de lá..."
É triste mas, infelizmente, realmente é preciso que este dia seja criado. A honestidade, a ética, são coisas tão básicas - e tão necessárias para o convívio em sociedade - que deveriam ser inerentes ao homem. Mas não é.
Um dia da luta contra a corrupção, a princípio, me soa como a velha história do "dia das mães" ou "dos pais": nem deveriam existir, pois devem ser todos os dias.
Essa nova data no calendário, mostra o quanto ainda estamos atrasados nessa luta; ainda nem tínhamos um dia por ano dedicado a se pensar seriamente no assunto.
Indo um pouco mais a fundo, cheguei a uma conclusão (que muitos podem discordar): a única arma para combater a corrupção é a educação.
Alguns podem dizer: "temos que vigiar mais os atos dos governantes". Para mim isso é automático. Um país onde a educação é boa, gera uma população mais participativa e automaticamente observará mais os assuntos que importam para sua vida.
Outros retrucarão: "na verdade temos que aumentar a punição!". Pra mim, isso está englobado à educação. Um povo culto, cobrará mais e exigirá que os corruptos sejam punidos.
Não é estranho o interesse em manter nossa educação do jeito que está. Já dizia a letra de um reggae - muito bom - do Natiruts: "sabedoria do povo daqui, é o medo dos homens de lá..."
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Um dia após o outro
No dia 10 de junho operei meu joelho. Depois de passar quase 3 anos com o ligamento semi-rompido, o torci novamente em fevereiro, no meio de uma viagem, em São Raimundo Nonato-PI.
Estávamos no meio do trabalho e ainda atenderia no dia seguinte, na mesma cidade, e mais três dias em Crateús-CE. Não conseguia apoiar o pé no chão e para onde quer que fosse precisava chamar meus amigos para me carregarem. Um sufoco!
Voltei para São Paulo, operei o ligamento e usei muletas por vinte dias. Segundo meu médico - um ótimo médico, por sinal - a recuperação total dependeria do quanto eu me empenhasse nos exercícios de recuperação: fisioterapia e depois musculação.
E este é o motivo de minha felicidade atual! Ontem, dia 7 de dezembro, foi o primeiro dia em que voltei a correr. Não foram nem 5 minutos, porém o bastante para ver que o joelho está bem recuperado.
Pois é, na vida as coisas são assim: pode acontecer uma torção forte, pode até surgir uma operação no caminho, mas sempre, depois, vem uma recuperação, que faz uma simples corrida ser gostosa como eu nunca tinha sentido antes.
Estávamos no meio do trabalho e ainda atenderia no dia seguinte, na mesma cidade, e mais três dias em Crateús-CE. Não conseguia apoiar o pé no chão e para onde quer que fosse precisava chamar meus amigos para me carregarem. Um sufoco!
Voltei para São Paulo, operei o ligamento e usei muletas por vinte dias. Segundo meu médico - um ótimo médico, por sinal - a recuperação total dependeria do quanto eu me empenhasse nos exercícios de recuperação: fisioterapia e depois musculação.
E este é o motivo de minha felicidade atual! Ontem, dia 7 de dezembro, foi o primeiro dia em que voltei a correr. Não foram nem 5 minutos, porém o bastante para ver que o joelho está bem recuperado.
Pois é, na vida as coisas são assim: pode acontecer uma torção forte, pode até surgir uma operação no caminho, mas sempre, depois, vem uma recuperação, que faz uma simples corrida ser gostosa como eu nunca tinha sentido antes.
domingo, 6 de dezembro de 2009
O carro de boi
Já havia visto um carro de boi, porém foi a primeira vez que ouvi seu canto. Cada um possui o seu jeito de cantar. Quando o constroem, colocam uma peça em seu eixo que produz um som característico. Há até competições entre os diversos sons dos carros. Ao longe, pode-se ouvir quando o sertanejo volta de sua lida diária.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Esperança (por Janilde Fernandes)
Recebi um texto de Janilde, uma professora de Balsas, no Maranhão, que nos conheceu nesta última viagem.
Geralmente não posto textos que falem de mim, sem falsa modéstia alguma, porém achei o texto tão bonito que resolvi postá-lo.
Fala de um estilo de trabalhar de todo um grupo de amigos que fazem no sertão um trabalho com o coração.
Wolber Campos
Um certo dia fiquei sabendo que havia um grupo de pessoas que viajavam Brasil a fora destribuindo não apenas coisas materias(importantes para melhorar a apredizangem dos alunos), mas principalmente ESPERANÇA. Eram os AMIGOS DO PLANETA.
Logo de inicio fiquei encantada com o trabalho que desenvolviam.
Quando fui informada que eles visitariam a nossa cidade fiquei ansiosa em encontra-los.
O dia chegou, acordei cedo e fui para a escola onde desenvolveriam os trabalhos, quando cheguei fiquei um pouco perdida, um entra e sai de salas, muitas oficinas, resolvi passar em todas, queria conhecer tudo.
Quando entrei em uma sala vi um rapaz , sabia que era o destista pq estava cuidando dos dentes das crianças (não sabia nem o seu nome), mas algo chamou minha atenção, tantas crianças ao seu redor, achei que estavam incomodando-o e fiquei sabendo por uma amiga que ele preferia que elas ficassem perto dele.
Juro que fiquei impressionada, estática com aquilo que ouvi, geralmente se quer silêncio e onde tem criança ja se sabe, barulho, agitação...
No caminho para casa fui com aquilo que vi em meu pensamento, foi um momento de reflexão, pois sou professora e muitas vezes me falta a paciência.
No segundo dia de oficina passei na sala onde estava o dentista, agora já sabia o seu nome WOLBER, e a cena do dia anterior se repetia, achei simplesmente lindo.
Acabou! chegou a hora de dizer adeus e isso já eram mais de oito horas da noite, sai daquela escola bem diferente do que entrei, vontade de fazer diferente, de ser mais paciente e principalmente a ESPERANÇA, voltou a fazer parte da minha vida.
O que dizer então a você Wolber que me mostrou que tudo vale a pena e que a esperança nunca deve acabar. Um obrigada é pouco, então MUITO OBRIGADA, MUITO OBRIGADA...
VOCÊ É ESPECIAL!
Geralmente não posto textos que falem de mim, sem falsa modéstia alguma, porém achei o texto tão bonito que resolvi postá-lo.
Fala de um estilo de trabalhar de todo um grupo de amigos que fazem no sertão um trabalho com o coração.
Wolber Campos
Um certo dia fiquei sabendo que havia um grupo de pessoas que viajavam Brasil a fora destribuindo não apenas coisas materias(importantes para melhorar a apredizangem dos alunos), mas principalmente ESPERANÇA. Eram os AMIGOS DO PLANETA.
Logo de inicio fiquei encantada com o trabalho que desenvolviam.
Quando fui informada que eles visitariam a nossa cidade fiquei ansiosa em encontra-los.
O dia chegou, acordei cedo e fui para a escola onde desenvolveriam os trabalhos, quando cheguei fiquei um pouco perdida, um entra e sai de salas, muitas oficinas, resolvi passar em todas, queria conhecer tudo.
Quando entrei em uma sala vi um rapaz , sabia que era o destista pq estava cuidando dos dentes das crianças (não sabia nem o seu nome), mas algo chamou minha atenção, tantas crianças ao seu redor, achei que estavam incomodando-o e fiquei sabendo por uma amiga que ele preferia que elas ficassem perto dele.
Juro que fiquei impressionada, estática com aquilo que ouvi, geralmente se quer silêncio e onde tem criança ja se sabe, barulho, agitação...
No caminho para casa fui com aquilo que vi em meu pensamento, foi um momento de reflexão, pois sou professora e muitas vezes me falta a paciência.
No segundo dia de oficina passei na sala onde estava o dentista, agora já sabia o seu nome WOLBER, e a cena do dia anterior se repetia, achei simplesmente lindo.
Acabou! chegou a hora de dizer adeus e isso já eram mais de oito horas da noite, sai daquela escola bem diferente do que entrei, vontade de fazer diferente, de ser mais paciente e principalmente a ESPERANÇA, voltou a fazer parte da minha vida.
O que dizer então a você Wolber que me mostrou que tudo vale a pena e que a esperança nunca deve acabar. Um obrigada é pouco, então MUITO OBRIGADA, MUITO OBRIGADA...
VOCÊ É ESPECIAL!
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
O futuro professor
Roberto e Jamis andavam pela praça de sua cidade, no sertão do Maranhão. Era uma noite de segunda-feira e, àquela hora da noite, os poucos bares já estavam fechando. Porém o som de um violão vindo de um canto chamou sua atenção.
Naquele banco, com uma garrafa de cerveja ao lado, estavam dois caras tocando e cantando. Com toda a certeza, eram de fora. Resolveram parar para ouvir.
Música vai, música vem. Papo vai, papo vem. Rapidamente fizeram amizade e depois que o barzinho da praça fechou resolveram seguir até um posto, onde achariam alguns petiscos para comer e continuar a prosa.
Os dois forasteiros adoravam conversar com pessoas da região, fazer amizades e engataram uma animada conversa enquanto caminhavam. Quando o assunto chegou no futebol, Roberto se mostrou um grande conhecedor. Não só de seu time, como de todo o campeonato brasileiro e até sobre o Santos, time de um dos rapazes de São Paulo. Este ficou impressionado com o conhecimento futebolístico de Roberto e - erroneamente - pensou que aquela cultura toda poderia ser focada em algo mais produtivo. Ainda aprenderia muito naquela noite...
Ao passarem em frente a uma igreja Roberto soltou:
- Aqui nessa cidade o que mais tem é Igreja e bar. Mas sou um pouco decepcionado com a religião, sabe. A Igreja fez muita coisa errada na história. Se você pegar Galileu, por exemplo, que teve que renegar tudo o que tinha descoberto (que a terra gira em torno do sol) e foi preso por causa disso, a Inquisição, as fogueiras...
Os forasteiros ouviam aquilo impressionados e o santista ficou feliz em ter queimado a língua, ou melhor, o pensamento...
Ficaram sabendo que Roberto tinha parado de estudar para trabalhar, mas voltou este ano para terminar os estudos e realizar seu sonho: ser professor de história.
Jamis, que ouvia a tudo com atenção, acabou de tomar sua garrafa de refrigerante e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, a jogou num terreno baldio ao lado.
Os dois paulistas pararam e explicaram que aquilo não era legal. Que eles tinham uma cidade linda, com cachoeiras e natureza abundante. O pior que poderiam fazer é deixar que sua cidade ficasse tão feia e suja como uma cidade grande.
- Não leve a mal, é que trabalhamos com isso em escolas, conscientizando as pessoas para a reciclagem do lixo e melhorar o meio ambiente. - completou o outro.
Jamis não só entendeu como, àquela hora da noite, passou a procurar no meio do mato aquela garrafa perdida e quando a achou ergueu-a triunfante, como se fosse um troféu. Andou ainda muitos metros com a garrafa suja nas mãos e quando encontrou um lixo a colocou dentro, dizendo:
- Agora sim ela está no lugar certo!
Para alegria de todos e fechar a noite com "chave de ouro" Roberto finalizou sua aula:
- Pois é, como dizia Lavousier: "na natureza nada se cria e nada se perde: tudo se transforma."
Naquele banco, com uma garrafa de cerveja ao lado, estavam dois caras tocando e cantando. Com toda a certeza, eram de fora. Resolveram parar para ouvir.
Música vai, música vem. Papo vai, papo vem. Rapidamente fizeram amizade e depois que o barzinho da praça fechou resolveram seguir até um posto, onde achariam alguns petiscos para comer e continuar a prosa.
Os dois forasteiros adoravam conversar com pessoas da região, fazer amizades e engataram uma animada conversa enquanto caminhavam. Quando o assunto chegou no futebol, Roberto se mostrou um grande conhecedor. Não só de seu time, como de todo o campeonato brasileiro e até sobre o Santos, time de um dos rapazes de São Paulo. Este ficou impressionado com o conhecimento futebolístico de Roberto e - erroneamente - pensou que aquela cultura toda poderia ser focada em algo mais produtivo. Ainda aprenderia muito naquela noite...
Ao passarem em frente a uma igreja Roberto soltou:
- Aqui nessa cidade o que mais tem é Igreja e bar. Mas sou um pouco decepcionado com a religião, sabe. A Igreja fez muita coisa errada na história. Se você pegar Galileu, por exemplo, que teve que renegar tudo o que tinha descoberto (que a terra gira em torno do sol) e foi preso por causa disso, a Inquisição, as fogueiras...
Os forasteiros ouviam aquilo impressionados e o santista ficou feliz em ter queimado a língua, ou melhor, o pensamento...
Ficaram sabendo que Roberto tinha parado de estudar para trabalhar, mas voltou este ano para terminar os estudos e realizar seu sonho: ser professor de história.
Jamis, que ouvia a tudo com atenção, acabou de tomar sua garrafa de refrigerante e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, a jogou num terreno baldio ao lado.
Os dois paulistas pararam e explicaram que aquilo não era legal. Que eles tinham uma cidade linda, com cachoeiras e natureza abundante. O pior que poderiam fazer é deixar que sua cidade ficasse tão feia e suja como uma cidade grande.
- Não leve a mal, é que trabalhamos com isso em escolas, conscientizando as pessoas para a reciclagem do lixo e melhorar o meio ambiente. - completou o outro.
Jamis não só entendeu como, àquela hora da noite, passou a procurar no meio do mato aquela garrafa perdida e quando a achou ergueu-a triunfante, como se fosse um troféu. Andou ainda muitos metros com a garrafa suja nas mãos e quando encontrou um lixo a colocou dentro, dizendo:
- Agora sim ela está no lugar certo!
Para alegria de todos e fechar a noite com "chave de ouro" Roberto finalizou sua aula:
- Pois é, como dizia Lavousier: "na natureza nada se cria e nada se perde: tudo se transforma."
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
A primeira impressão
Ainda bem que a primeira impressão não é a que fica. Uma boa segunda visita pode facilmente fazer sumir aquela imagem ruim que tínhamos. Tenho grandes amigos hoje que, ao conhecer, não pensei que o seriam.
Minha primeira estada no Maranhão, no ano de 2004, foi assim. Já sabia sobre as mazelas locais, miséria, pobre educação, a infeliz presença - forte até hoje! - do coronelismo, mas imaginava que os trabalhos correriam como em outras comunidades carentes. Não ocorreram.
À primeira vista tudo ocorria normalmente: muitas pessoas nos aguardando em frente à escola, crianças correndo ao lado do carro, escola muito simples enfeitada. Porém, assim que desci do carro e me preparava para ajudar a descarregar o caminhão, percebi que algo poderia dar errado. Em minha frente estavam três mulheres, daquelas bem mal-tratadas pela labuta ao sol. Mulheres que não podemos nem arriscar "chutar" sua idade; muitas vezes nos surpreendemos ao imaginar moças, na casa dos vinte anos, como se estivessem perto dos quarenta.
Uma, que estava pouco mais a frente, olhou para mim e disparou:
- Cadê as cestas básica?
Se há algo que não gostamos de associar ao nosso trabalho é "entrega de cestas básicas". Este é o maior exemplo do assistencialismo e, por mais que muitos possam me criticar, é algo que não muda a realidade da pessoa e ainda por cima sempre gera problemas na hora da distribuição.
Disse que não existiam cestas a serem distribuídas, que o trabalho seria diferente, com atendimentos médicos e odontológicos, oficinas e... -
- Ah. eu não quero nem saber! Quero a minha cesta básica! - disse me cortando.
Imaginei que aquele poderia não ser um bom dia.
Naquela época de atendimentos ainda não tínhamos o Odontoportátil, que possibilita fazer restaurações mais completas, e fazíamos apenas um procedimento rápido de curetagem das cáries, portanto o número de atendimentos era enorme e as filas idem. Logo após o almoço um amigo entrou na sala dizendo: "Wolber, pode parar com os atendimentos. Tá dando a maior confusão lá fora!"
O número de pessoas era tão grande que tivemos que distribuir senhas, do contrário não conseguiríamos ir embora aquele dia e essa distribuição estava gerando um pequeno tumulto.
Sai da sala e a escola parecia um caos. Fui ajudar a distrair as pessoas que se apinhavam em frente à sala usada como farmácia - os medicamentos doados eram distribuídos conforme a receita de nossos médicos-.
"Adesivos?", perguntei para o Erik que deu uma risada como quem diz "É o que temos...".
Peguei os adesivos, cético de que conseguiria tirar todo aquele pessoal da frente da sala.
- Quem quer adesivo? - gritei.
Adultos, jovens e crianças me olharam e começaram a caminhar em minha direção. Eu, inocente, feliz que o plano tinha dado tão certo, os levei para o outro canto do pátio.
Desgrudava um pequeno adesivo do Instituto e o colava na esta de uma criança, outro do Palmeirinha (piloto do Rally que nos apoia) e dava a um adulto, mais um para um adolescente e assim seguia, tentando ser cada vez mais rápido.
Mas não tão rápido quanto o número de pessoas que apareciam, vendo que algo estava sendo distribuído ali e vinham tentar ganhar o que quer que fosse, mesmo sendo um pequeno pedaço de papel colorido que em breve perderia sua cola e viraria lixo.
Minha preocupação aumentou demasiadamente quando havia tanta gente que começaram a empurrar, me espremendo contra a parede. E ao meu lado haviam muitas crianças. Era assustador.
Quando vi que meus gritos de calma e pedidos de organização não faziam o menor efeito e as crianças estavam prestes a se machucar gritei:
- Chega, acabou!! Não tem mais adesivos!! Vocês não vêem que aqui tem crianças se machucando? - estava tão nervoso que nem pensei no perigo de brigar com aquele sem-número de pessoas afoitas.
Me dirigi para alguma sala para deixar os "sonhados" adesivos e a turba me seguia, como se não acreditassem que eu realmente pararia a distribuição.
Deixei os maços de adesivos numa sala fechada e todos se dispersaram.
Foi um dia atípico de trabalho. Um dia assustador. Que nos deixou ainda mais desanimados com o poder público, por existir uma situação como aquela.
Ainda bem que anos mais tarde conheceríamos Nova Iorque e Balsas no Maranhão. Cidades em que temos grandes amigos até hoje, o que nos faz sempre sentir saudades de voltar para lá.
Minha primeira estada no Maranhão, no ano de 2004, foi assim. Já sabia sobre as mazelas locais, miséria, pobre educação, a infeliz presença - forte até hoje! - do coronelismo, mas imaginava que os trabalhos correriam como em outras comunidades carentes. Não ocorreram.
À primeira vista tudo ocorria normalmente: muitas pessoas nos aguardando em frente à escola, crianças correndo ao lado do carro, escola muito simples enfeitada. Porém, assim que desci do carro e me preparava para ajudar a descarregar o caminhão, percebi que algo poderia dar errado. Em minha frente estavam três mulheres, daquelas bem mal-tratadas pela labuta ao sol. Mulheres que não podemos nem arriscar "chutar" sua idade; muitas vezes nos surpreendemos ao imaginar moças, na casa dos vinte anos, como se estivessem perto dos quarenta.
Uma, que estava pouco mais a frente, olhou para mim e disparou:
- Cadê as cestas básica?
Se há algo que não gostamos de associar ao nosso trabalho é "entrega de cestas básicas". Este é o maior exemplo do assistencialismo e, por mais que muitos possam me criticar, é algo que não muda a realidade da pessoa e ainda por cima sempre gera problemas na hora da distribuição.
Disse que não existiam cestas a serem distribuídas, que o trabalho seria diferente, com atendimentos médicos e odontológicos, oficinas e... -
- Ah. eu não quero nem saber! Quero a minha cesta básica! - disse me cortando.
Imaginei que aquele poderia não ser um bom dia.
Naquela época de atendimentos ainda não tínhamos o Odontoportátil, que possibilita fazer restaurações mais completas, e fazíamos apenas um procedimento rápido de curetagem das cáries, portanto o número de atendimentos era enorme e as filas idem. Logo após o almoço um amigo entrou na sala dizendo: "Wolber, pode parar com os atendimentos. Tá dando a maior confusão lá fora!"
O número de pessoas era tão grande que tivemos que distribuir senhas, do contrário não conseguiríamos ir embora aquele dia e essa distribuição estava gerando um pequeno tumulto.
Sai da sala e a escola parecia um caos. Fui ajudar a distrair as pessoas que se apinhavam em frente à sala usada como farmácia - os medicamentos doados eram distribuídos conforme a receita de nossos médicos-.
"Adesivos?", perguntei para o Erik que deu uma risada como quem diz "É o que temos...".
Peguei os adesivos, cético de que conseguiria tirar todo aquele pessoal da frente da sala.
- Quem quer adesivo? - gritei.
Adultos, jovens e crianças me olharam e começaram a caminhar em minha direção. Eu, inocente, feliz que o plano tinha dado tão certo, os levei para o outro canto do pátio.
Desgrudava um pequeno adesivo do Instituto e o colava na esta de uma criança, outro do Palmeirinha (piloto do Rally que nos apoia) e dava a um adulto, mais um para um adolescente e assim seguia, tentando ser cada vez mais rápido.
Mas não tão rápido quanto o número de pessoas que apareciam, vendo que algo estava sendo distribuído ali e vinham tentar ganhar o que quer que fosse, mesmo sendo um pequeno pedaço de papel colorido que em breve perderia sua cola e viraria lixo.
Minha preocupação aumentou demasiadamente quando havia tanta gente que começaram a empurrar, me espremendo contra a parede. E ao meu lado haviam muitas crianças. Era assustador.
Quando vi que meus gritos de calma e pedidos de organização não faziam o menor efeito e as crianças estavam prestes a se machucar gritei:
- Chega, acabou!! Não tem mais adesivos!! Vocês não vêem que aqui tem crianças se machucando? - estava tão nervoso que nem pensei no perigo de brigar com aquele sem-número de pessoas afoitas.
Me dirigi para alguma sala para deixar os "sonhados" adesivos e a turba me seguia, como se não acreditassem que eu realmente pararia a distribuição.
Deixei os maços de adesivos numa sala fechada e todos se dispersaram.
Foi um dia atípico de trabalho. Um dia assustador. Que nos deixou ainda mais desanimados com o poder público, por existir uma situação como aquela.
Ainda bem que anos mais tarde conheceríamos Nova Iorque e Balsas no Maranhão. Cidades em que temos grandes amigos até hoje, o que nos faz sempre sentir saudades de voltar para lá.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
A fé
Ela ia andando com seu rosário entre os dedos, balbuciando algo inaudível (pelo menos para os outros mortais). Já havia esquecido a dor de seu pesado fardo; apenas orava, apreciando a calma e ternura que aquelas palavras, como um bálsamo, acariciavam sua mente atribulada.
Outros a observavam de longe. Céticos. Quase ateus (eu disse "quase") comentavam entre si a inutilidade daquela cena. Mais prudente seria arregaçar as mangas, esbravejar, tentar resolver no braço e no grito aquela situação.
Mas a calma senhora nem os notava. Nem precisava. Certo ou errado, não importava. Sua prece já havia cumprido o doce objetivo de lhe acalmar o coração.
Anjos a escutaram? Deus? O poder da mente? O que importa a resposta?
Os céticos é que se preocupem com isso.
Outros a observavam de longe. Céticos. Quase ateus (eu disse "quase") comentavam entre si a inutilidade daquela cena. Mais prudente seria arregaçar as mangas, esbravejar, tentar resolver no braço e no grito aquela situação.
Mas a calma senhora nem os notava. Nem precisava. Certo ou errado, não importava. Sua prece já havia cumprido o doce objetivo de lhe acalmar o coração.
Anjos a escutaram? Deus? O poder da mente? O que importa a resposta?
Os céticos é que se preocupem com isso.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
O sertanejo
Na volta para Crateús, uma cidade onde nos sentimos em casa, reencontramos um amigo especial. Escrevi sobre Bastião duas vezes ("Bastião" e "A mão") e ficamos, realmente, muito felizes ao vê-lo adentrando a escola. Estava acompanhado de seus dois itens inseparáveis: o pandeiro e o sorriso.
Entre abraços, conversas e - é claro - músicas, fiquei sabendo um pouco mais sobre sua vida e, consequentemente, a de muitos moradores do sertão.
Para um morador de uma cidade grande, tão costumado com a correria e stress que inconscientemente - e inconsequentemente - nos empurram atrás de uns trocados todos os dias de nossas vidas, não pensava ainda na força da agricultura de subsistência.
Bastião é assim: vive cuidando de sua roça. "Todo dia, meu amigo, desde os oito anos de idade!", diz orgulhoso. Planta milho, feijão e verduras, o excedente troca com os vizinhos. Tudo apenas para consumo próprio e de sua família. Não ganha um real, vai trocando o que lhe sobra.
Seus dois filhos - hoje adolescentes - já o ajudam na lida diária.
- Graças a Deus tenho dois filhos de ouro, que gostam de me ajudar e hoje já posso descansar um pouco mais.
Cria seus poucos gados num curral atrás de sua casa. Mas também não tem pretensões de aumentar a criação para vendê-los. Para quê? O que tem já é muito para seu sustento e de sua família. E com esse estilo de vida se tornou um excelente pandeirista e ostenta um puro e sincero sorriso.
Entre abraços, conversas e - é claro - músicas, fiquei sabendo um pouco mais sobre sua vida e, consequentemente, a de muitos moradores do sertão.
Para um morador de uma cidade grande, tão costumado com a correria e stress que inconscientemente - e inconsequentemente - nos empurram atrás de uns trocados todos os dias de nossas vidas, não pensava ainda na força da agricultura de subsistência.
Bastião é assim: vive cuidando de sua roça. "Todo dia, meu amigo, desde os oito anos de idade!", diz orgulhoso. Planta milho, feijão e verduras, o excedente troca com os vizinhos. Tudo apenas para consumo próprio e de sua família. Não ganha um real, vai trocando o que lhe sobra.
Seus dois filhos - hoje adolescentes - já o ajudam na lida diária.
- Graças a Deus tenho dois filhos de ouro, que gostam de me ajudar e hoje já posso descansar um pouco mais.
Cria seus poucos gados num curral atrás de sua casa. Mas também não tem pretensões de aumentar a criação para vendê-los. Para quê? O que tem já é muito para seu sustento e de sua família. E com esse estilo de vida se tornou um excelente pandeirista e ostenta um puro e sincero sorriso.
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