segunda-feira, 19 de abril de 2010

Seu Zazu - A música

"O que fazer para retomar a harmonia perdida? Como a humanidade pode se unir, novamente, e evoluir em paz?", Zazu pensava inquieto.
Na verdade, o homem saiu da harmonia com o semelhante porque encontrou diferenças entre ele. Seu cérebro desenvolvido começou a buscar diferenças tão minunciosas, que fechou nossos olhos para nossas semelhanças inquestionáveis. Passou a ver que temos cor diferente, olhos, culturas, idiomas e religiões, e deixamos de ver a maior verdade de todas: somos o mesmo animal, mesma espécie, tudo. Somos, realmente, irmãos!
Culturas diferentes se chocam até hoje, guerras, ódio, separação.
A única solução é unir todos esses irmãos novamente, relembrarmos que somos uma família só, independente se esta é do Brasil ou aquela da China.
Mas como atingir a todos se as culturas são tão diferentes e falamos diversas línguas?
Simples, usando uma mesma língua universal, para todos nos entendermos e relembrarmos nossa ligação.
Mas como criar um idioma único, um "Euro" linguístico que nos faça comunicar perfeitamente entre povos distantes? Seria utópico.
Mas não é utópico e não dará trabalho algum, porque esse idioma já existe e sempre existiu. É a música!
E ouvindo os deliciosos acordes daquela sanfona, junto ao gostoso choro de uma viola, Zazu sorriu. Sabendo que aquilo seria entendido mesmo por uma tribo indígena da parte mais distante de nosso planeta.

Seu Zazu - O grande dia

A música. Responsável por tantos momentos de alegria e prazer que, muitas vezes, nem percebemos. Zazu percebeu e sua vida nunca mais foi a mesma.
Certo dia ele se deliciava ouvindo dois tocadores, daqueles típicos do sertão do Brasil, um com uma sanfona e outro com uma viola caipira de 10 cordas. A harmonia perfeita, beleza da melodia, a junção com a natureza o levou a tal estágio que praticamente entrou em transe. Aquele instante mudou para sempre sua vida. Foi o momento em que descobriu tudo, o real significado do universo, pela música.
Assim como a música, o universo é uma harmonia perfeita, tudo se relacionando de uma forma exata: planetas, estrelas, meteoros, cometas, tudo convivendo em harmonia, como um acorde bem tocado.
E foi assim que ele percebeu o porquê do homem ser infeliz. Nós não convivemos em harmonia com nosso semelhante e tudo que sai da harmonia, destoa. Saímos do tom da "música universal", assim como uma corda desafinada que não encaixa no acorde das outras.
Qualquer pessoa, por mais que não entenda de música, goste ou não, percebe quando uma nota é tocada errada por um artista. Isso porque aquela nota saiu da harmonia. Exatamente por isso, a humanidade paga o preço até hoje por ter destoado da natureza: guerras, fome, miséria, violência, ganância, egoísmo, indiferença, ódio, preconceito e tantos outros problemas que nos ferem como uma arma afiada. Pagamos o preço por termos saído da harmonia do universo. Somos uma corda desafinada na grande sinfonia universal! E só voltaremos a ser felizes quando voltarmos à harmonia perdida, com nosso semelhante e, assim, com o universo. Estamos tao perto e tão longe...
Foi aquele o momento em que Zazu virou um sábio.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Jaíba

Agora, entrando com mais tempo, posso escrever um pouco mais sobre a viagem.
Estamos em Sergipe, cidade de Poço Redondo. Nesse instante estou numa lan house. Pelo menos há computadores e acesso à internet, porque pelo calor que faz aqui e o tanto que estou suando poderia pensar que era uma sauna...
É engraçado, atrás da menina que toma conta da sala há uma porta de madeira, daquelas que sobem do chão apenas até a metade da altura do batente e de tempo em tempo começa a cantoria de alguns porcos vindo dali. Algo, no mínimo, exótico.
O trabalho aqui segue, como sempre, grande. Uma criançada bem animada fica o tempo todo em volta da cadeira de dentista que montamos na sala de aula.
Antes de Iraquara, nossa primeira cidade foi Jaíba, localizada no norte de Minas Gerais. (Num parênteses, peço até desculpas a amigos de outras cidades que ainda não comentei, a correria está enorme e é difícil entrar na internet, portanto vou escrevendo algo rápido de onde me encontro e lembrando cenas das cidades e amigos que deixamos a pouco tempo) Lá fizemos grandes amigos que sempre procuraram nos fazer sentir em casa, em cada detalhe: desde a comida - muito gostosa - feita com todo carinho, até a preocupação em cuidar de nossa hospedagem em uma pousada aconchegante.
Na última noite organizaram uma festa sensacional, em um barzinho com dj e uma banda de alunos tocando no maior estilo banda do sertão.
A viagem já começou assim, com a primeira cidade deixando muita saudade...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Parachoque do Tales

Tales é publicitário, trabalha com as Casas Bahia e está viajando conosco. Tem um blog muito bacana onde está fazendo um diário excelente sobre nossa viagem. Para quem quiser conferir um pouco mais - do que as raras vezes que eu consigo publicar - pode acessar: http://parachoquedotales.wordpress.com

Grande abraço!!
Wolber Campos

No começo da viagem

Ufa! Até que enfim consigo postar algo nessa viagem!
Estamos em Iraquara, na Chapada Diamantina-BA. Lugar onde tudo funciona. A escola dá super certo, professores motivados, equipe sensacional, secretária de educação com real interesse em ajudar.
Além de tudo isso, do trabalho dar ótimos resultados, estamos em um dos lugares mais bonitos do nosso Brasil. Hoje, eu Valter, Tales e Kemel, acordamos as 5 e meia da manhã e partimos para uma trilha, a da Pedra do Una.
Como tínhamos que trabalhar as 8 da manhã, foi o tempo de chegar, tirar fotos, entrar na água (perfeita!) e voltar.
Mesmo assim pudemos recarregar as baterias para um dia de trabalho. E hoje ainda dormiremos na Pratinha, uma gruta muito bonita que é aqui perto.
Próxima cidade: Canudos. Lugar de tantas e tantas histórias...

quarta-feira, 24 de março de 2010

À paisana

Neste sábado, dia 27 de março, estaremos partimos novamente para o sertão. Serão mais de 20 dias na estrada e tentarei postar algo de lá (se bem que é difícil...).
Voltar às cidadezinhas do interior do Brasil é sempre um grande prazer. De tudo o que vemos, sentimos, aprendemos e conhecemos por lá, o calor humano do povo é, realmente, o sentimento mais forte. Sempre nos acerta em cheio.
Em nossa última viagem - novembro de 2009 -, no Ceará, sentimos a alegria de observar que isso se dá não somente pelo fato de fazer um trabalho social ou ser reconhecido pelo uniforme que usa. O calor humano é forte e intenso, independente de qualquer coisa.
No final de um dia de trabalho, no meio de semana, procuramos um barzinho para refrescar a quente lua que brilhava sobre a cidade.
- Vixe! Aqui "num" tem bar perto hoje não. Vocês só vão encontrar láaaaaaa pra perto da estrada. - nos disse um camarada.
Como o calor - e a sede! - era grande, pegamos o carro e fomos até o bar. Por coincidência eu, Luis e o Válter estávamos com camisetas normais, à paisana. Estamos acostumados a ter sempre um sorriso aberto e reconhecimento com o uniforme do IBS, já que a população conhece e apoia muito o trabalho social que fazemos. Chegamos no lugar assim, como forasteiros.
Tomamos nossa cervejinha e fizemos amizade com uma turma que também estava ali, ouvindo o sonzinho que tocava ao estilo de "Moleca 100 vergonha". Pessoal bacana, nos perguntaram de onde éramos. Respondemos de São Paulo, sem mencionar o trabalho que fazíamos e continuamos um bom papo, como se todos já nos conhecêssemos.
O Lugar era uma pintura, tinha até um vendedor de balas e chocolates, segurando sua bandejinha apoiada na barriga e em um laço em volta de seu pescoço, no melhor estilo "vendedor de doce de cinema nos anos 60".
No final de uma agradável noite, na hora de ir embora, Ronaldo, um de nossos novos amigos falou:
- Espera um pouco! - e saiu correndo para dentro do bar, onde sua simpática mãe era garçonete. Voltou com uma câmera fotográfica.
Nós quatro tiramos a foto com aquela triste impressão de que nunca mais o veríamos.
Dia seguinte, Luis, que ia para a escola de quadriciclo, passou em frente ao bar da noite anterior, viu Ronaldo e parou para cumprimentá-lo. Ele, muito feliz, acenou e o chamou. Ao chegar perto, pegou algo no bolso e disse:
- Olha só como ficou linda!
Era a foto que tínhamos tirado na noite anterior. Ronaldo já a havia revelado e mostrava orgulhoso, fato que deixou o Luis - e nós posteriormente - emocionado.
Na noite seguinte fomos a um outro barzinho, indicado por Ronaldo. Ali, sua mãe estava de folga e se sentou conosco. Um pouco mais tarde ela me abraçou e disse:
- Olha, sabe que quando vocês voltarem aqui de novo, quero que fiquem na minha casa! Considero vocês como filhos já! - falou com os olhos marejados.
Atestamos ali que não é só o trabalho social que abre as portas no sertão. Elas sempre estiveram abertas.

terça-feira, 23 de março de 2010

"Brincadeiras" de criança

Em menos de duas semanas, observei duas situações parecidas com adolescentes. Algo mais próximo da agressão, do que da brincadeira.
Na viagem de lua-de-mel, em um lugar estranho, esperava, pacientemente na loja de um shopping, que a Ju escolhesse alguns apetrechos para comprar. Todo homem que já passou por isso (e basta ter uma mulher ao lado para passar) sabe que é um ótimo exercício de paciência e sabedoria. Usamos praticamente técnicas orientais de meditação e contemplação para esperar a esposa, com um sorriso no rosto. Porém o cansaço bateu e resolvi sentar em um banco, na frente da loja.
Tenho o costume de sempre olhar o lugar onde sentarei, para ver se não está sujo, ou se há algo no local. E havia algo. Uma tachinha. Aliás, este diminutivo nem cabia ao prego que estava sobre o banco, apontando para uma indefesa bunda que ali sentasse. Graças a Deus não foi a minha! E assim que eu retirei a tacha (desisti do diminutivo, era um prego em forma de tachinha, de mais de um centímetro) não seria a de ninguém.
Olhei em volta e não vi ninguém suspeito, algum garoto ou marmanjo olhando de lado e vendo quando alguém se machucaria em sua "brincadeira". Nada.
Joguei o prego no lixo e voltei para a loja assustado, o cansaço até havia passado. Minha bunda até doía, pensando no tamanho do prego que quase a espetou.
Enquanto contava a história para a Ju, vi três moleques, adolescentes, olhando no banco, procurando seu prego. Olhavam no chão, em volta, em vão. Fiquei irado, vontade de meter bronca, a maior lição de moral - e adiantaria? Não sei -, mas estava em um lugar estranho, com pessoas estranhas e achei melhor não arranjar encrenca.
De volta à São Paulo, também em um shopping - o Eldorado - estava no segundo andar esperando o elevador, quando vi no terceiro um garoto, de seus 14 anos. Olhou para o térreo, mãos no parapeito, movimentou a cabeça para trás, para frente e "CUSP!", cuspiu lá embaixo, onde várias pessoas subiam pela escada rolante. Ainda olhou por um tempo, para ver em quem tinha acertado e saiu, antes que eu pudesse falar qualquer coisa do andar de baixo.
Entrei no elevador, ainda abismado com a cena, a porta se fechou e ele subiu. Ao abrir novamente, entraram dois garotos, um deles, o autor da cusparada. Ali não resisti:
- Cara, vê se não faz mais isso! Cuspir na cabeça dos outros?
- Pegou em você?!! - me perguntou assustado, como quem esperava receber uma bofetada.
Eu disse que não, mas poderia ter caído, ou numa pessoa que ainda trabalharia o dia inteiro, ou numa mãe com seu bebê de colo.
O outro garoto deu-lhe um "esporro", que não acreditava que ele tinha feito aquilo.
O que fazer? Dar um corretivo? Lição de moral? Conversar? Eu acho que uma conversa, na boa, resolve mais que um safanão.
Na verdade, é torcer para que esses adolescentes não virem adultos piores ainda.

domingo, 21 de março de 2010

Auto-julgamento

Hoje fiquei um pouco furioso comigo. Enquanto escrevo estas palavras fico em uma briga e decepção comigo mesmo.
Hoje cheguei de um delicioso churrasco na casa de um casal amigo. Levei o violão como companheiro e como pedido dos amigos.
Para expressar o quanto fico bravo comigo mesmo, volto alguns meses atrás.
Há vários meses, voltando de algum passeio do dia-a-dia, trouxe meu violão nas mãos. Ao deixar o carro no estacionamento, o porteiro do local me disse empolgado: “Oh, doutor! O senhor toca um violãozinho também?!”. Disse-me e comentou que gostava de rock and rol, e citou algumas bandas de que eu gostava muito, completando: “qualquer dia desses eu queria muito que você tocasse um pouco comigo aqui, para deixar a noite mais alegre!”.
Assim, a partir daquele dia, ele me cumprimenta como “doutor cantor”, mesmo sem saber do quão pouco eu toco, ou canto, mas pelo simples fato de eu retirar o carro vestido de branco e algum dia tê-lo guardado com um violão nas mãos.
Não foram poucos os dias em que eu, voltando de alguma saída com os amigos, cheguei ao estacionamento com o violão na mão e cansado, com vontade de chegar logo em casa. Meu amigo do estacionamento, humilde como sempre, me falava a cada vez: “Oh, doutor cantor! Qualquer dia toque um pouquinho aqui. Só duas musiquinhas, pra noite ficar mais alegre!”. Sempre com um enorme sorriso no rosto e sem exigir eu tocasse naquele momento.
Faz umas duas semanas, senti falta desse amigo. Não estava mais no estacionamento. “Deve ter saído, ou ter sido mandado embora”, pensei. Uma pena, pois hoje em dia, é cada vez mais difícil de se encontrar um funcionário que, além de cumprir sua função, está sempre de bem com a vida e com um puro sorriso em seu rosto. Assim era o Dias, sempre feliz e bem disposto. Um exemplo!
Hoje, depois de um longo tempo, eu o revi. Novamente ele abriu o portão do estacionamento.
- Oh meu amigo! Você voltou! – eu disse, sinceramente feliz em revê-lo.
Ele, humilde como sempre, sorriu e abriu a porta para que eu entrasse. Tranquei o carro e peguei o violão que havia levado ao churrasco e fui ao seu encontro, curioso em saber o motivo de seu afastamento.
- Meu amigo, nem te falo! Eu quase morri! Fiquei internado esses dias. Deu um problema lá em casa, o proprietário queria a casa e arranjou uma confusão. Eu fui conversar com ele e ele pensou que eu fosse brigar, alguma coisa assim, e me recebeu me “metralhando”. Me deu seis tiros! Dois me acertaram, um me varou aqui – disse e me mostrou um machucado pequeno, por onde tinha penetrado uma das balas e ultrapassado pelas costas – e o outro entrou aqui na barriga. Essa bala ainda está alojada, o médico achou perigoso retirar.
Dias é um homem sincero, alegre, sempre de bem com a vida. Tenho certeza absoluta de que ele nunca arranjaria confusão com o homem que disparou os tiros, tentando matá-lo. Mesmo assim, quase morreu.
Por isso hoje, escrevo tão bravo comigo mesmo. Fiquei muito feliz em revê-lo. Mais feliz ainda, por saber que estava vivo, depois de saber da história. Mesmo assim estava com o violão nas mãos e não toquei nenhuma música para ele. Disse a mesma ladainha de sempre: “Dias, assim que der,a gente faz um sonzinho aqui”. Ele, feliz como sempre, me disse que ficaria muito feliz com isso.
Por muito pouco eu poderia não ter essa oportunidade. E fui embora como das outras vezes, dizendo a mesma coisa que das outras vezes. Hoje eu perdi uma grande oportunidade.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ilha das Flores

Pessoal, estréia hoje no blog a parceria com o site "Porta Curtas", que exibe curtas nacionais.
De início vou disponibilizar o documentário "Ilha das Flores". É um clássico genial, feito no final dos anos 80, forte, inteligente e atual como nunca.
Espero que gostem.

Grande abraço!
Wolber Campos



segunda-feira, 15 de março de 2010

Glauco

Ouvir no fim de semana a notícia da morte do cartunista Glauco me deixou triste. Cresci vendo seus livros e tirinhas no jornal e foi assim que se tornou um dos maiores cartunistas brasileiros.
Sua morte dá início a um debate sobre o assassino: loucura, crueldade, drogas e, enfim, a religião do Santo Daime. Já há pessoas falando sobre o famoso chá, o quanto pode deturpar pensamentos e por aí vai.
É sempre a mesma coisa. Quando vamos parar de procurar algo material que possa prejudicar e desviar a atenção do real motivo principal: a maldade humana?
O álcool prejudica raciocínio, drogas podem alterar a percepção, tudo isso é sabido. Mas o ponto determinante é a índole da pessoa.
Este fim de semana um homicida dirigiu seu carro pela estrada Raposo Tavares por mais de 20 quilômetros (!), até bater de frente com o carro de uma família. O policial conseguiu salvar a filha, que ia no banco de trás, mas o fogo consumiu o veículo com seus pais. O assassino continua vivo e internado e foi comprovado que estava alcoolizado. Só falta falarem que a culpa foi da bebida.
Como um grande amigo, João Paulo, disse sabiamente: "O cara já era um homicida! Duvido que qualquer um de nós nessa mesa, faria algo parecido, dirigiríamos em alta velocidade na contra-mão. podemos beber o quanto for, estar quase desacordado e não faríamos isso".
Infelizmente a lei tem, sim, que nivelar por baixo. Muitas pessoas de bem, se beberem, dirigiriam bem devagar, se preocupando em não causar mal a si mesmo, muito menos a outras pessoas. O problema é que há outras que bebem e aceleram mais ainda do que quando estavam normais.
Nunca experimentei o Santo Daime e pouco sei sobre a doutrina. Mas deixemos tudo isso de lado. O único problema é que o cara era um assassino. Sempre foi e um dia poderia acabar como acabou. Pena que Glauco estava em seu caminho.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Arquitetura da balada de alto risco

Todos já ouvimos falar numa balada “risca-faca”. O nome remonta à antiguidade de nosso Brasil, onde festividades acabavam entre brigas e os polidos cavalheiros retiravam seus facões, peixeiras - ou qualquer coisa que furasse – e raspavam rapidamente no chão, produzindo abundantes faíscas. (pelo menos eu imagino isso...)
Hoje em dia temos em mente aquele boteco, com um som alto de forró-brega tocando, sujeitos de “cara fechada” jogando bilhar sobre uma velha mesa e moças dançando entre rapazes de bigodinho por fazer e cerveja na mão.
Adriano, um paciente e amigo, estudante de direito, se disse assíduo freqüentador desses locais. “Gosto de emoções fortes”, diz entre risadas.
Foi ele quem me deu a interessantíssima descrição de “como se dar bem numa balada risca-faca”. Inteligente e observador, deu toda a seqüência que se deve seguir para, não só se dar bem num lugar desses, como, principalmente, sair ileso de lá.
- Estava numa cidade do interior de São Paulo, dessas bem pobrezinhas, e saí com mais dois amigos para o único bar que estaria aberto àquela hora, no meio da semana. – disse e descreveu a cena do boteco que imaginamos pouco atrás.
“Sentamos, humildes, numa mesa e ficamos observando. Cara, me deu uma vontade de jogar sinuca. Meu amigo quase surtou! Perguntou se eu queria morrer. Nessa hora, você tem que estudar o lugar. Tem que ser como um general: observar cada peça do tabuleiro e agir, conscientemente e sem pressa. Não sabia se estava mais a fim de jogar sinuca ou dançar com a morena mais linda – e perigosa! – daquele bar. Então, listei os passos a serem dados:”

“1 – Humildade
Primeiro, é humildade. Nada de chegar falando alto ou dando risada. Sem “botar banca”, ainda mais em lugar desconhecido. Sente e tome sua gelada.
2 – Contato com as pessoas certas
Você tem que saber quem são os formadores de opinião do local, o dono, o garçom ou garçonete, músicos. Saber quem é quem.
Vi que tinha um alemão alto, que dançava com todas as meninas, davam risada com ele, conhecia todo mundo. Fui até lá e puxei papo; cara gente fina! Segui para frente da banda que tocava música brega e vi que entre as músicas um cara pedia canções e dava algumas ordens. “É o dono”, pensei, e fiz amizade com ele também.
3 – Aguardar
Voltei para a mesa e me juntei aos amigos. “Daqui a pouco é nossa vez na sinuca”. Em poucos minutos o alemão, que eu havia falado da vontade de jogar um bilharzinho, veio me puxar pela mão para a gente jogar.
4 – Curtir sem moderação e com respeito
Enquanto estava jogando não acreditei: meu amigo que tinha falado com o alemão da morena, estava dançando com ela! Ele a tirou do meio da roda dos bigodinhos e a colocou na mão do meu chapa.
No fim da música ela veio jogar bilhar conosco.
Foi a noite perfeita!”.

No fim, havia dado tudo certo. Tinham se divertido muito, jogado seu bilhar, feito amizades e ainda dançado com a melhor mulher do lugar.
Se eu acredito? Não sei. Mas quem quiser pode procurar a balada risca-faca mais próxima e fazer a experiência. Boa sorte e que Deus o proteja!

quarta-feira, 10 de março de 2010

Caridade

De volta ao blog, depois de uma semana de descanso.
Após o casório, aproveitamos um ótimo presente do seu Sérgio (meu sogro) e viajamos para a lua-de-mel. Seria uma viagem longa - cerca de 9 horas e meia num avião. Eu adoro longas viagens, a Ju, nem tanto, mas estaríamos ali, lado a lado e passaria rápido.
A primeira surpresa veio ainda em frente à empresa aérea: "sinto, mas não temos mais lugares um ao lado do outro...".
Tentamos argumentar, falamos sobre a lua-de-mel, enfim, tudo o que podíamos, mas não adiantou. "Tudo bem, é só pedir a quem se sentará ao meu lado para trocar de lugar", pensei. Quem separaria um casal recém-casado por mais de nove horas de viagem?
Nesse episódio entendi mais a respeito da palavra "caridade", em seu sentido profundo. Caridade não é o que muitos pensam, dar uma esmola a um necessitado, ajudar uma velhinha com problemas ou dar aquela força a uma pessoa que passa dificuldades. Podemos fazer caridade até a um rico empresário, ajudando-o após alguma dificuldade grande, basta ajudar de coração.
A caridade não olha a questão do ajudado, mas sim o coração e a vontade de quem ajuda.
Quando sentamos nas poltronas, esperando os passageiros que estariam ao meu lado e ao da Ju, eu imaginava ser fácil conseguir a troca. Chegou o primeiro - ao lado dela -, me levantei e, educadamente, expliquei a história, que havíamos casado no dia anterior, das nove horas e meia de viagem sendo recém-casados; a novela toda. Ele, com uma cara indiferente, perguntou onde eu estava sentado, o que apontei na fileira ao lado: uma poltrona do meio.
- Alí? Me desculpe, mas é muito desconfortável viajar no meio. - disse e se sentou ante a um casal incrédulo.
Tentei a última alternativa, a mulher que já havia se sentado ao lado do meu lugar.
- No meio? Não, desculpe. - disse após eu terminar a história.
Não digo que viajar no meio seja, realmente, a mesma coisa que estar na ponta. Nem queria me convencer disso. O que me espantou, foi a dificuldade em conseguir encontrar uma pessoa, em duas tentativas, que, simplesmente, quisessem ajudar, serem simpáticas, serem caridosas. E o fato de pedirem desculpas, mostra que sabiam a falta de bondade que tinham naquele momento.
Ali, duas pessoas perderam uma boa chance de fazer uma caridade. Não imoporta o motivo, caridade não tem tamanho.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O mundo dos humildes

Poucas coisas me emocionam tanto como uma pessoa muito, muito humilde. Mas não é muito humilde, no sentido de muito pobre, ou (apenas) de muito sofrida. É muito, muito humilde, endendeu?
E não é que me emociona no sentido triste da palavra. Me emociona no sentido bonito, daquele que, se por um acaso, seus lábios não sorrirem incontrolavelmente, seu coração sorrirá o sorriso mais aberto de todos.
A emoção da tristeza, me levaria a pensar algo do tipo "tadinho, como eu queria que ele melhorasse de vida". A emoção bonita, aquela que só os muito, muito humildes me provocam, já me leva a pensar "incrível, invejo esse homem".
Que estranho é invejar uma pessoa bem humilde, que não possui quase nada de dinheiro e quase não tem bens. Pois é, mais uma arte dos muito, muito humildes.
Eles nos ensinam, nos mostram como ser felizes, tem uma sabedoria fantástica e podem dar aula sobre o tema mais procurado de todos os tempos pela humanidade: como ser feliz. E o mais curioso, é que todo mundo quer ser feliz, mas pouquíssimas pessoas perguntam como para a pessoa certa. Passam a vida numa correria incessante, fazem cursos, competem, mudam de empregos e nada.
Os poucos que descobrem essa fonte de sabedoria, se espantam, pois os muito, muito humildes ensinam sem saber e quando os elogiamos, quase morrem de vergonha: "onde já se viu, doutor, quem sou eu...". E nos deixam mais envergonhados em ver o quanto estamos, ainda, longe daquela evolução toda.
Eles estão por todos os lados, graças a Deus. Falta só prestarmos mais atenção.
Engana-se quem pensa que basta nascer pobre para ser muito, muito humilde. Existem muitos pobres que são tão esnobes quanto os maiores magnatas do nosso país, só não tem o dinheiro deles.
Para ser uma pessoa muito, muito humilde, é preciso nascer assim ou lutar muito, querer, muito, melhorar como pessoa. Abdicar, não do dinheiro ou posses, mas abdicar de algo maior que isso: o ego.
Uma pessoa muito, muito humilde tem ego também. Só que ele é perfeito. É humilde.
Da próxima vez que cruzar com uma pessoa muito, muito humilde, não perca a oportunidade, converse com ela, aprenda e depois segure em suas mãos e agradeça. E quando a pessoa se envergonhar, ficar vermelha e sem-graça por você tê-la elogiado, apenas sinta aquela sensação boa, que sentimos quando nosso coração abre um enorme sorriso.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Clarice Lispector

Li um texto da Clarice Lispector daqueles que dá vontade de reler em seguida.

O medo da eternidade (por Clarice Lispector)

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
- Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.
- Não acaba nunca, e pronto.
Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta. Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? – Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.
- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
- Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
- Acabou-se o docinho. E agora?
- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito. Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar. Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
- Olha só o que me aconteceu! – Disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
- Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A evolução

Estou lendo um ótimo livro para quem gosta de história: 1808, de Laurentino Gomes. Ele trata da vinda da coroa portuguesa (nosso príncipe regente, rainha e a maior parte da nobreza) para o Brasil, fugindo de Napoleão Bonaparte.
Olhando para trás, é difícil de acreditar que tudo aquilo se passou a apenas 200 anos. Duzentos anos é algo mínimo se pensarmos em história, muito próximo. Nesse curto período tínhamos um rei do outro lado do oceano, que partiu com sua família e realeza, para cá em dezenas de navios e demoraram para tanto quase dois meses.
Dois meses! Em pensar que hoje o mesmo trajeto gasta apenas algumas horas de avião.
A humanidade vem, nas últimas décadas, seguindo uma velocidade vertiginosa de evolução. Se olharmos o desenvolvimento da época em que Cristo começava sua caminhada, há 2000 anos atrás, até o ano 1800, não observamos um salto notável em questão de desenvolvimento. Agora se estudarmos o "vôo" que a humanidade deu só neste último século, de 1900 para hoje, é algo extraordinário!
Um exemplo dessa avalanche de desenvolvimento: Em 1906, Santos Dumont recebeu um prêmio em Paris por ser o primeiro homem que conseguiu fazer um veículo, mais pesado do que o ar, se manter por alguns segundos voando alguns metros sobre o chão. Pouquíssimos anos mais tarde, em 1914, na Primeira Guerra Mundial, aviões já sobrevoavam seu inimigos e despejavam bombas e tiros sobre eles.
Apenas algumas décadas mais tarde, em 1969, os Estados Unidos conseguiam mandar o homem para a Lua.
Hoje, televisão, internet, celular, são coisas completamente adaptadas às nossas vidas, ao ponto de parecer que sempre existiram. Eu, que tenho 32 anos, passei minha adolecência sem imaginar que esses dois últimos existiriam um dia.
Outro exemplo é a famosa banda Mamonas Assassinas, infelizmente com sua história interrompida por um trágico acidente em 1996. Sua história é tão recente que parece ontem que assistíamos suas apresentações ao vivo nos programas de televisão. Mal podemos acreditar que seus integrantes não tinham celular ou e-mail. Esses acessórios estavam engatinhando neste ano.
E até hoje a evolução segue acelerada, seja em São Paulo, seja em pequeninas cidades do sertão, com suas lan-houses abarrotadas de jovens.
Onde vamos parar? Sinceramente eu não sei. Seria ótimo que a humanidade utilizasse toda essa nova tecnologia para o bem do ser humano, evoluindo a medicina para vivermos melhor, ou a agricultura para solucionar os problemas de fome espalhados pelo mundo.
Infelizmente, até agora, vimos o conrário. O que mais impulsionou a evolução foi a competição entre as nações, a guerra. Os aviões se desenvolveram tão rápido para jogar bombas nos oponentes, a Guerra Fria entre EUA e URSS colocou o homem no espaço e a medicina sempre seguiu o ritmo para curar os feridos em batalhas.
Sonhemos com um mundo onde a evolução espiritual acompanhará a material.