quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A luz

No interior do Maranhão, mais precisamente na cidade de Nova Iorque, há uma professorinha. Uma esforçada professorinha - já retratada aqui em outras histórias - que muito lutou para se formar.
Quando a conhecemos, ainda era professora da escola da pequena comunidade onde mora e, assim, abriu as portas da sua casa para que parte da equipe se instalasse durante os trabalhos. Foi assim que conhecemos nossa família maranhense, além dela, um painho e mainha, e mais três irmãozinhos mais novos.
A casa ficava num sítio, distante alguns quilômetros da comunidade, por uma estrada de terra que, saindo do sertão, adentra por entre árvores verdes, buritis e algumas plantações. Não havia luz. Energia elétrica era um sonho distante, o que me fazia pensar "como o suco podia estar gelado no café da manhã, que nos preparavam as 6:30h, se não havia geladeira?". O segredo era nosso irmãozinho Bruno, que antes das 6 horas partia em sua moto para buscar gelo no vizinho. A velha hospitalidade sertaneja.
Um lugar onde nos sentimos em casa, onde há uma seresta na viola de noite, onde podemos tomar banho ao ar livre, olhando para as estrelas e ouvindo os animais na mata. Enfim, onde vivemos como uma típica família do sertão brasileiro. Uma típica família feliz.
2010 foi um ano de mudanças para nossa professorinha Régea. Trabalhou pela primeira vez conosco, em várias escolas do sertão, e se adaptou ao trabalho como se sempre fizesse parte dele. No fim do ano se tornou diretora de sua querida escola. Nada mais justo.
Nos primeiros dias deste ano, tocou meu celular. Era ela, do Maranhão.
- Irmãozinho, você não imagina a surpresa que tenho para te contar! - disse com felicidade.
"Virou prefeita?", brinquei. Com a força de vontade que tem, não seria impossível. Mas ela contou: a energia havia chegado em sua casa!
Demorou muito, muito mesmo. Mas veio. Ficamos contentes por nossa querida família maranhense, mas os lembramos de um antigo trato: a energia pode chegar, mas quando voltarmos para a casa, todas as luzes deverão estar apagadas e o nostalgico lampeãozinho deve estar aceso, para nos lembrar do gosto gostoso daquele nosso pedacinho de sertão.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Doutora brasileira: as flechas

Ela estava trabalhando em Manaus quando falaram:
- Doutora, o navio vai seguir viagem rapidamente para atender a umas tribos indígenas bem isoladas, próximas à fronteira.
A Funai havia entrado em contato com a Marinha e pedido um auxílio urgente. Muitos índios estavam morrendo por alguma doença e a situação piorava a cada dia. Um navio foi preparado para a longa travessia e os médicos embarcaram para a operação.
Foram em torno de 10 dias de viagem até chegar ao local. Saíram de Manaus pelo rio Solimões, adentrando em seguida no rio Içá, na região da tríplice fronteira (Brasil, Colômbia e Peru). Já próximo à Colômbia, subiam por um afluente para o norte. Na tripulação, além dos médicos e militares, seguiam membros da Funai e representantes das comunidades indígenas.
A região pode ser considerada o coração da Amazônia; o local mais distante da ação destruidora do homem branco, seja do lado do Brasil ou da Colômbia. Por este motivo ainda é o berço de tribos que vivem em total isolamento, onde raríssimos integrantes falam o português.
Ao se aproximar de uma das isoladas tribos, os tripulantes ouviram: "toc". Um barulho seco, como se o navio tivesse batido em um galho. Acharam estranho e de repente: "toc, toc toc!", o ruído se repetia agora mais vezes. Quando um deles descobriu a causa e comentou a um oficial.
- Senhor, estamos sendo recebido por flechas!
Era difícil de acreditar, nos dias atuais, ser recebido por flechas de índios, mas estava acontecendo e um dos representantes indígenas a bordo precisou sair ao convés, gesticulando e gritando para que eles soubessem que aquele navio vinha em missão de paz.
Em algumas tribos, outra dificuldade: não aceitavam o tratamento dos homens brancos, queriam ser curados apenas pelo pajé. Porém a morte rondava cada dia mais a muitos homens, mulheres e crianças e assim, acabaram aceitando.
- É sinal claro de malária, mas no navio temos um teste rápido, usando uma gota de sangue, para termos a certeza - comentou a doutora.
Assim diagnosticaram que era esta doença que vinha matando tantos índios. Mas o exame não seria tão fácil. Crianças e mulheres, muitas vezes em pior estado, tinham que esperar. Os homens, quase sempre, devem ser atendidos antes. E apenas as duas médicas poderiam atender as mulheres em algumas aldeias, visto que um homem de fora não poderia tocar em nenhuma mulher da tribo.
Após a luta para fazer o atendimento, como dizer que um remédio deve ser tomado de 8 em 8 horas para alguém que muitas vezes não sabe o que é um relógio?
- Olha, você tem que engolir esta bolinha assim que o sol nascer, outra antes de comer, quando o sol estiver alto, uma quando ele estiver se pondo e uma antes de dormir. - explicava a doutora para um índio traduzir ao doente.
Ficaram mais de duas semanas atendendo a várias tribos e voltaram felizes por terem ajudado, mas com algumas dúvidas. Será que deu certo? Será que eles tomaram a medicação - que salva e realmente cura a malária - corretamente?
Não sabiam. Sabiam apenas da felicidade de ter feito a sua parte.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Uma criança feliz - por Carlos Fonseca

“E foi naquele momento que senti um calafrio. Corrente, corda, martelo ou bambu? Não importa, maínha não teria a mínima chance de impedi-lo. Agora ela acredita quando digo que nunca desejei passar o fim de semana na sua companhia, e não me reprime mais por tê-lo xingado. No começo não entendia o que estava acontecendo, estava sendo punida mas não sabia qual teria sido a razão para tal violência”.

Quantos mil anos foram necessários para a evolução humana? Por que razão até os dias de hoje algumas pessoas imitam os mais primitivos instintos animais? Esta dura realidade retrata o dia-a-dia familiar de milhares de pessoas em todo o mundo. Olhar nos olhos de uma criança e sentir o medo, a tristeza, o desânimo; de fato lhe roubaram o que é mais admirável em uma criança: a inocência.
E foi numa manhã próxima do natal que estive numa casa que abriga crianças que foram retiradas de seus lares após sofrerem algum tipo de violência, entre as mais comuns está a violência sexual. Fui convidado a participar das comemorações de final de ano, e tive o prazer de conversar um pouco sobre a paixão de minha vida: odontologia.
Cada olhar atento, cada expressão de surpresa e admiração me deixava mais empolgado e feliz por estar ali. Em cada criança uma trágica história, um trauma para eternidade; meu dever, fazê-los esquecer de tudo aquilo, e transmitir um pouco de alegria e descontração, aprendendo e rindo para seguir em frente. Pode parecer um trabalho de “formiguinha”, pois bem, me orgulho em dizer que existem muitas espalhadas pelo mundo, e sua pequena contribuição certamente favorecerá para uma melhora significativa na vida de muitas pessoas.
Estava sentado no sofá, com mais 20 amigos voluntários, assistindo a uma apresentação das crianças, e um menino se aproximou e me abraçou. Olhei para ele e perguntei em pensamento: - Por que uma criança tão indefesa como essa merece passar por tudo isso? Por que eu tive uma infância tão feliz ao lado de meus pais e aquele menino carregava tantas marcas de violência e rejeição?. Inesperadamente ele mesmo sorriu e me respondeu:
- Não se preocupe tio, eu sou feliz!
E foi naquele momento que senti um calafrio...

Carlos Fonseca é dentista, 27, e realiza projetos sociais. Uma vez por ano também viaja ao sertão com o Projeto Bandeira Científica, ligado à USP

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Doutora brasileira

A faculdade de medicina passou, ela estava no final do sexto ano quando decidiu juntar duas paixões: ajudar o próximo e conhecer a maior floresta tropical do mundo. A Marinha do Brasil seria o passaporte para a concretização de seu sonho.
O amor pela natureza a segue desde sempre. Consegue apreciar um bonito luar mesmo em meio aos arranha-céus da cidade grande. A amazônia era um grande sonho que se uniria a outros, de trilhas e chapadas que conhecia pelo Brasil.
Já havia ouvido falar da população ribeirinha e da carência dessas pessoas que viviam pela floresta, nas margens dos rios. Gostaria, sinceramente, de ajudar a melhorar suas vidas.
Assim ingressou nas forças armadas brasileiras e desembarcou em Manaus, como tenente da Marinha. Durante aquele ano trabalhava intercalando cerca de dois meses em terra, na cidade de Manaus - atendendo aos parentes dos militares -, e um mês viajando pelos rios da amazônia; Negro, Solimões, Amazonas e outros afluentes.
Em sua primeira viagem conheceu a população ribeirinha do rio Solimões. Um choque! As condições eram ainda mais precárias do que pensava. "Eles vivem com o mínimo necessário à sobrevivência!", constatou.
Possuem pequenas criações, mas o que precisam para sobreviver retiram do rio. Vivem da pesca, pegando os peixes na hora das refeições. Algumas vezes os comercializam. Também tem pequenas roças de mandioca, feijão e pimenta. A base alimentar é peixe com farinha de mandioca, produzida por eles mesmos.
- Sofrem de inúmeras doenças, principalmente de pele e intestinais, relacionadas à péssima higiene em que vivem, sem saneamento básico algum. Todo esgoto produzido é despejado diretamente no rio e toda mudança que tentamos implantar são simplesmente esquecidas logo depois que falamos - lamenta.
Tentou convencê-los de que, se o rio corre em uma direção, devem pegar a água usada para higiene pessoal e de objetos antes das casas, assim como as plantações, e a criação de porcos deve vir depois delas. Voltavam alguns meses mais tarde e tudo estava como antes, tomavam banho nas águas que passavam pelos chiqueiros flutuantes.
"Não será fácil...", pensou.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O novo ano

Em 2004 fiz meu primeiro trabalho social. Eram 10 cidades em 10 dias. Uma intensidade enorme de histórias, novos amigos e experiências que nos faziam misturar tudo. Na sétima cidade, já não lembrava mais se a escola que tinha o professor X era a segunda ou a terceira.
"começarei a fazer um diário de bordo para não misturar as histórias e fatos", decidi.
Assim, toda noite, passei a anotar tudo o que se passava durante o dia. Meus amigos roncavam e eu ali, num quarto no sertão anotava, pingando de sono, nosso dia a dia. .
O blog veio como uma necessidade de extravazar essas histórias, acumuladas em tantas folhas de papéis amarrotadas. Quando comecei a escrevê-lo, mal imaginava onde estava me embrenhando. Termos como "blogosfera", "blogueiros", "posts", me eram tão estranhos como um livro de física quântica.
Hoje, pouco mais de dois anos depois de meu início neste novo mundo, me senti de tal forma impregnado nele, como ele em mim. Como aquele novo amigo, que conhece há poucos anos, mas acha que esteve junto a você desde que se conhece por gente. Aqui fiz amigos fiéis e queridos como muitos que estão ao meu lado desde sempre. Pessoas que conheci apenas "on line" mas que você cônegos saber se está bem ou não no dia aquela postagem, ou até sofrer junto quando percebe que terminou um relacionamento.
Amigos que entram durante seu dia de trabalho, só para ver o que você escreveu. Que olharam em seu face book que você postou um texto novo e livraram alguns minutos de seu dia para você.
Neste último dia do ano, gostaria de agradecer a cada amigo, ou mesmo simples leitor, que entrou neste humilde blog e cedeu um pouquinho de seu tempo a ler o pouco que escrevo. Um desejo de que todos possam ter um ano maravilhoso. Lembrando que um mundo só é realmente maravilhoso quando é maravilhoso para todos. E que em 2011 cada um possa melhorar mais ainda sua vida e a de seus semelhantes. Essa é minha meta de ano novo. E o que desejo para cada um de vocês.
Um ótimo 2011 para todos!!

Wolber campos

sábado, 11 de dezembro de 2010

A casa na mata

No fim de semana passado, viajamos para Paraty Mirim, uma comunidade pequena, habitada em sua maioria por pescadores, que fica em torno de 15 quilômetros da cidade de Paraty.
Encerramos um trabalho que durou um ano, onde atendemos na escola, no posto de saúde e no centrinho, próximo à praia.
Com o intuito de ficarmos mais próximos, alugamos a casa da da filha de uma moradora local, que fica encravada na mata atlântica. Para se chegar até ela era necessário atravessar uma ponte, bem feita, bonita, que balançava a cada passo, sobre o rio, de águas barrentas pela chuva que caía naqueles dias, que seguia para desaguar no mar.



Na madrugada de sexta-feira, quando chegamos (em torno das 3 da manhã), era grande a escuridão, e algumas lanternas nos ajudavam a enxergar algo. A atenção devia ser grande, pois o peso das malas, compras e equipamentos dificultavam atravessar o balançar da ponte.
A sensação de estar integrado com a mata, a mesma que portugueses descobriram há séculos atrás, era incrível. Paraty Mirim, foi o primeiro ponto que eles encontraram, transferindo a cidade décadas mais tarde para onde ela se localiza nos dias atuais.
O convívio com a natureza, a reunião com amigos após os trabalhos, um churrasquinho, violão e cantoria, são ingredientes que inflam com tal energia, que dia seguinte não há como não realizar um bom trabalho.


O vídeo mostra a travessia da ponte e "nossa" casa na mata:

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Almir

Almir é o mecânico chefe de uma concessionária de carros importados. Numa viagem em que acompanhava seu chefe com amigos, dividiu o quarto com Bernardo. Ao entrarem na simples pousada em que passariam a noite, encontraram apenas uma cama e um colchão encostado ao lado.
- Almir, pode deixar que eu durmo no colchão. - disse Bernardo, humilde como sempre.
- Imagina, seu Nado, pode deixar que eu durmo no chão. O senhor nem imagina onde eu já dormi... - respondeu o amigo, lhe contando sua história.
Nasceu e morou toda sua juventude no pantanal matogrossense. Era um matuto, na acepção da palavra. Muitas vezes, dormia ao relento, sobre a grama, embaixo de uma árvore. "E aquilo, pra mim, era a melhor coisa do mundo!", exclama saudoso.
Em seu último emprego no Pantanal, tomava conta de uma grande fazenda. A casa grande, ficava sobre altas palafitas, pois na época das águas, tudo se alagava e o único caminho era sair de barco pela porta de entrada. Os donos, sempre saiam nesse período, esperando o tempo de seca para retornarem à sua casa. Mas não podiam deixar o imóvel sozinho; a coisa mais comum quando as águas subiam, eram saqueadores levarem tudo o que os donos deixavam para trás. Essa era a principal função de Almir, estocar provisão para os quatro meses em que tudo estaria inundado e ficar, em suas palavras, "armado até os dentes", para não deixar ninguém se aproximar.
- Seu Nado, eu mal dormia de noite, pois os bandidos vinham nessa hora, com o motor do barco desligado para não chamar atenção, e matariam quem tivesse tomando conta, só para roubar tudo mais tranquilos.
Almir continuou contando histórias sobre m Brasil conhecido por poucos, onde a lei é muito diferente. Onde a vida, acaba valendo pouco quando a sede de bandidos é insaciável.
Hoje, é feliz com sua nova profissão, que o ajudou a ganhar um bom dinheiro e o afastou de tantos perigos e noites mal-dormidas. Mas ainda sente muita falta de suas noites dormidas sob uma frondosa árvore iluminada pelo luar do pantanal.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Faça o que eu digo...

Jennifer é australiana, aventureira nata, viaja o mundo dando palestras sobre saúde, principalmente DSTs. Desembarcou no Peru como turista, depois de passar um mês em várias regiões na África, assoladas por doenças sexualmente transmissíveis; locais onde a aids é a pior epidemia, afetando a maioria da população .
Em seu bom coração, não podia entender como pessoas podiam brincar assim com sua vida. Em muitos países desenvolvidos, conversava com adolescentes grávidas, crianças que terão outras crianças:
- E gravidez, nem é o maior perigo que você passa por não usar preservativo. Imagine pegar uma doença venérea, que pode prejudicar o bebê, ou até levar à sua morte, como a aids ou sífilis... Homens “bonitinhos” podem ter doenças terríveis! – sempre alertava.
Pablo é um descendente de peruanos. De seus pais, herdou o amor pela segunda pátria e o sonho de conhecer um dos paraísos da humanidade: Machu Pitchu. Foi assim que, quando completou a maioridade, pegou sua mochila e viajou rumo à sua aventura solitária. Sempre se encantou por trabalhos sociais. Por isso, quando conheceu Jennifer, no mesmo grupo que subiria o lendário monte, logo se encantou.
Desde as primeiras frases, ataram uma amizade profunda e verdadeira. Se identificaram e permaneceram juntos em cada passeio. Trocaram experiências e ambos, tendo feito trabalhos sociais em diferentes partes do mundo, acabaram tendo uma admiração profunda, um ao outro.
Após conhecerem tudo sobre o mágico local, a história, a vida local dos acestrais incas, tinham 30 minutos de descanso. Não pensaram duas vezes, o amor, a atração, a admiração mútua, pedia momentos a sós, naquela mata que transpirava história. Uma milenar história.
Ela estendeu sua mão, ele a apertou com carinho, e caminharam juntos para a floresta. Encontraram um pequeno descampado, coberto de grama e ali seria o cenário perfeito para um momento íntimo, eterno, num ambiente histórico e mágico.
Ali, fizeram amor como os ancestrais incas, sem roupas, sem preconceitos, sem medos e sem camisinha.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Trailer do Filme "Em busca dos brasileiros"

Hoje é o lançamento do filme documentário "Em busca dos brasileiros". Para os amigos que não poderão comparecer no Espaço Unibanco (o convite continua abaixo) deixo o trailer nesta postagem.
Dá para dar um gostinho (ou deixar com mais vontade ainda de ver...).

Um grande abraço a todos e me desculpem a correria das últimas semanas que dificulta a visita a tantos amigos queridos.

Wolber Campos


terça-feira, 23 de novembro de 2010

Filme: "Em busca dos brasileiros"

Há 10 anos atrás, dois irmãos tiveram um sonho: conhecer o interior do Brasil e usar um de seus maiores prazeres (a fotografia) para mostrar o Brasil que poucos conheciam.
Foram 8 meses na Expedição Trilha Brasil, que tinha como principal objetivo realizar um levantamento cultural de nosso país. Como não poderia deixar de ser, se apaixonaram e perceberam que, diferente do que ouviam em São Paulo, a maior necessidade do sertão não era ajuda financeira, cestas básicas ou outros projetos assistencialistas e paliativos. A necessidade era melhorar as escolas, dar base para as crianças. Deviam focar na educação.
Foi assim que surgiu a idéia do Instituto Brasil Solidário e hoje o sonho virou realidade.
Horas e mais horas de filmagens daquela Expedição, viraram um documentário, que conta como tudo começou. O lançamento será no Espaço Unibanco, nesta quinta-feira, à partir das 19:30h.
O convite segue abaixo. Os amigos blogueiros e leitores que quiserem saber um pouco mais e nos conhecer pessoalmente (seria uma honra!) estão mais do que convidados. Os esperamos lá!

Um grande abraço!

Wolber Campos

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O homem mais puro do mundo

Galeguinho é um surfista de um dos lugares mais bonitos do mundo - se não for o mais bonito -. Fernando de Noronha é uma ilha paradisíaca e quando se chega nela, tem-se a impressão de que se atravessou um portal para uma outra dimensão.
Ali, até as horas parecem passar de forma diferente e os problemas da vida (ir)real, parecem se tornar pequenos, exatamente pelo contato com uma natureza tão bela. A bela sensação de proximidade de Deus.
É um desses surfistas de alma, extremamente puro de coração, daquelas pessoas que não conseguem desejar mal para ninguém. Fala de Deus e de Jesus Cristo, não como quem fala de algo inatingível e distante, mas com a simplicidade de quem fala de um amigo. Possui pouco, mas é extremamente feliz.
Todos o adoram, basta sair pelas ruas ao seu lado e todos fazem questão de cumprimentá-lo com o muito ouvido "Ô Galeguinho!", acompanhado de um sorriso, seja pelos pedreiros das construções, ou pelo rico empresário de uma das pousadas mais bonitas daquele local.
Seu emprego não poderia ter mais a sua cara. É pegador de tartarugas.
- Mas eu não pego pra caçar não, é pro pessoal do Projeto Tamar estudar, colocar as pulseiras e soltar de novo.
Algum tempo atrás, teve problemas, precisou deixar a casa onde morava e não tinha para onde ir. "Se é para morar em algum lugar, deixa eu procurar o lugar mais bonito daqui", pensou. Foi assim que morou, durante quase 6 meses em umas cavernas, com uma das vistas mais bonitas para o mar, de azul turqueza, de Noronha.
Não passou esse tempo isolado, continuava com a mesma vida que tinha, saindo com os amigos, apenas, de noite, seguia feliz para sua morada provisória - hoje vive em um trailler, doado por um amigo do continente.
Nos levou até lá onde, olhando para o incrível visual, lhe disse: "você era um cara feliz , hein meu?".
Sem pensar, me respondeu:
- Era não, eu sou feliz, brother, porque eu tenho Jesus no coração...
Quanta verdade em tanta simplicidade.
6 meses morando em uma caverna, em contato íntimo com a natureza e com Deus. tem melhor receita para ser feliz?


O vídeo mostra Galeguinho, o homem mais puro de mundo, nos apresentando sua querida caverna.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Crônica da "Lei de Gérson"

"Tudo que acontece em nossa vida, Deus coloca para que aconteça uma entre duas coisas: para aprender algo, ou para ensinar", já dizia o velho sábio do sertão, seu Zazu.
Paulo e João aprenderam isso essa semana. Depois de um bom tempo, resolveram tomar aquele bom choppinho que tomavam durante a semana. Uma das coisas boas em São Paulo é a vida noturna. Encontrar um bom chopp é a coisa mais fácil, mesmo durante a semana e, para finalizar a noite, mesmo de madrugada, há sempre uma boa padaria 24 horas, com seus lanches e refeições bem feitos.
Foi numa dessas padarias que entraram e cumprimentaram o segurança. Lancharam e pegaram uma grande fila para ir embora. Depois de um tempo, havia apenas uma pessoa a sua frente, um novo caixa abriu e disse, de forma mal humorada, "próximo". Antes que se dirigissem ao recém aberto caixa, um homem saiu de trás deles e passou na frente, "furando a fila" na "cara dura". Os amigos se olharam, comentaram o absurdo, mas resolveram não comprar briga, se apressando a ir atrás do espertalhão, antes que os outros 3 amigos que estavam com ele também passassem em sua frente.
Porém, a paciência de ambos se esgotou quando os outros passaram as comandas por cima das cabeças dos perplexos amigos e as deram para que o primeiro pagasse também. Era demais.
João comentou com a caixa que disse:
- Eu chamei 'próximo' vocês não vieram... - disse dando de ombros, tomando partido dos "espertos".
João, mais esquentado, jogou a comanda na bancada e foi saindo, "então se vira, volto para pagar quando eu quiser", sendo advertido por gritos da caixa.
- Ei você não pode sair sem pagar, segurança!
Paulo disse sobre a "Lei de Gérson" e que, infelizmente, o Brasil está como está, por atitudes como aquela, incluindo a da caixa, que tomou partido dos espertalhões.
Quando se uniu ao João, o segurança ria simpático: "Por isso temos que estar sempre atento, não tratar ninguém mal. Nunca sabemos quando pode ser um promotor público como o senhor", disse colocando a mão sobre o ombro do amigo.
"O João já se fez de promotor, meu Deus!", pensou Paulo, rindo para si mesmo.
Quando sairam, recebendo o carinho total do segurança, João explicou a situação. Quando estava saindo da padaria, o homem o segurou dizendo "vai sair sem pagar, seu porra?".
- Do que você me chamou? - perguntou João, quase explodindo, o que novamente o homem respondeu "seu porra!!".
Dependendo da situação, a lição tem de ser dada na língua que a pessoa entenda. Não adianta chegar para um pit bull, que tenha mordido alguém, passar a mão na cabeça e dizer "não morda". O que funciona é enrolar um jornal e descer a "lenha" sobre ele. Não é bonito, mas é o que funciona.
João enrolou seu jornal e disparou:
- Você sabe com quem você está falando?
- Eu sou polícia, e você! - disse, ainda agressivo o segurança.
- Eu sou promotor de justiça, e aí? O que você vai fazer? Tentar me prender, enquanto está trabalhando num lugar privado? Ou vai me xingar de novo, para que eu possa acabar com você? - disse ante a um homem, que, automaticamente, mudou seu jeito para um tom amigável.
Quando chegou, Paulo ainda completou para responder a frase que o incomodava.
- E nem é só isso, não tem que tratar agressivamente, não porque pode ser um promotor, mas simplesmente porque é um ser humano e merece respeito, seja pobre seja rico.
Foram embora, entre chateados e aliviados, por saberem estar com a razão e terem tentado ensinar algo. Se os outros não aprendessem nada, pelo menos sua parte, tinham feito.

Instituto Brasil Solidário na TV

No mês passado, trabalhamos no Maranhão, Piauí e Ceará. O pessoal do programa Good News, da Rede TV, nos acompanhou em São Raimundo Nonato-PI, berço da Serra da Capivara (palco de uma futura postagem).
O programa será exibido neste sábado, dia 13/11, às 21:55h. Será bacana para quem quer conhecer um pouco mais do trabalho que realizamos.
Nos vemos lá!

Um grande abraço!

Wolber Campos

domingo, 7 de novembro de 2010

O sanfoneiro

Figura tão típica e transcendental, assim como o vôo da Asa Branca, ou o famoso luar do sertão, é o sanfoneiro. Mas não adianta ser qualquer um. Aulas no instrumento, prática e habilidade para tocar as dezenas de teclas do difícil instrumento, ainda assim não me dariam a aura inerente deste músico. Não, o sanfoneiro, de verdade, tem que ter cheiro de sertão. Não aquele que, temperado com toda a felicidade do mundo, impregna minhas roupas surradas depois de um bom dia de trabalho naquelas terras. É um cheiro nativo, que foi absorvido assim que o primeiro choro do bebê ecoou entre céus e caatingas. É fácil conhecê-lo.
No Ceará, na querida cidade de Crateús, mês passado, pousamos em uma casa emprestada pela comunidade. Ah essa velha e maravilhosa hospitalidade sertaneja. Imagino alguém, vindo a São Paulo de outra região e nós dizendo: “Olá amigos, fiquem aqui na minha casa, aproveitem e descansem bem, vou dormir na casa de uns parentes para deixá-los tranqüilos. A geladeira está ali. Fiquem, todos vocês, à vontade”. Não, nós aqui não fazemos isso, infelizmente. Não temos tanta evolução por essas bandas. Na cidade grande, a evolução é material, lá, é espiritual. Um penhasco de diferença entre as duas.
Havia um bar ao lado da casa e, enquanto me banhava, ouvi o som de um trio, aquecendo um forrozinho que seguiu animado noite adentro.



A banda parou, era hora do violeiro assumir a sina da cantoria. Mesas postas no chão de terra ao ar livre, a lua quase cheia iluminando a noite de forma magnífica e, ao som da viola, ele chegou. Assim como o violeiro, o sanfoneiro toca por amor; não resiste a pessoas que amam uma música tocada com o coração. Chegou humilde e se sentou.



Enquanto todos se ajeitavam, quase era possível ouvir uma música de fundo:
“Não há, ó gente oh não, luar como esse do sertão...”.
A música nunca me fez tanto sentido.
- Tocamos um xotezinho? – pergunta o violeiro, e o novo parceiro responde com um puro sorriso e um aceno de cabeça. A música era um forró universitário, bem paulista. É claro que ele não conhecia, mas o puro sanfoneiro nunca, eu disse nunca, se importa com isso.
“Moreno, me convidou para dançar um xote, pegou no meu cabelo beijou meu cangote, fez meu corpo inteiro se arrepiar...”.
A música, pedida com todo carinho do mundo, começou e na introdução, o violeiro fez, com a boca, o som que a sanfona deveria fazer. Já após o primeiro refrão, Zé, o sanfoneiro, tocava com perfeição o solo outrora balbuciado pelo boquiaberto homem da viola. Mais uma noite perfeita ia chegando ao fim. Mas havia tempo para uma pergunta.
- Zé, qual foi a primeira música que você aprendeu na sanfona?
Uma música linda à luz do luar, amigos verdadeiros do lado e o cheiro de sertão saindo do fole de uma bonita sanfona. Era o encerramento perfeito para uma noite perfeita.


A primeira música: Zé, com sua sanfona, nos brinda na noite do sertão - com uma lanterna iluminando a filmagem - com a primeira música que aprendeu.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Rei do Baião

Uma das coisas que me ficaram impregnadas pelas andanças no sertão, foi o amor ao forró. Ao forró pé-de-serra, como dizem por lá, principalmente por Luiz Gonzaga.
Esse ícone da música brasileira tem minha admiração por vários fatores. Primeiro, claro, o musical. Sua criatividade, melodias, letras e a habilidade com a sanfona, instrumento que deveria ser esculpido a ouro, pela beleza e capacidade de soar um som tipícamente brasileiro, quase cheirando à caatinga molhada em épocas de chuva.
Outro ponto de minha admiração é seu orgulho de ser sertanejo e cantar a vida dos nordestinos, seja sofrida - como "Asa Branca" - seja no feliz contato com a natureza - como a "Estrada de Canindé" - entre tantas e tantas histórias.
É muito comum um paciente entrar em meu consultório e meu rádio estar ao som do velho Gonzaga; um forrozão "lascado"! Alguns dão risada e estranham que eu goste de forró. Outros gostam.
Marcos sorriu. Um sorriso de nostalgia, como quem lembra um gosto puro de infância.
- Oh, meu amigo, você gosta do Gonzagão, então? - me perguntou.
Nordestino, veio para São Paulo há algumas décadas. Mas até os 15 anos, morou em Juazeiro no Ceará.
- Foi lá que conheci Luiz Gonzaga, no começo dos anos 80. Ele vinha para nossa cidade toda terça, com Patativa do Assaré, e eu ganhava uns trocados como engraxate e tive o prazer de engraxar os sapatos do homem.
Na primeira vez, velho Luiz gostou de Marcos e disse: "Moleque, venha engraxar meu sapato na terça que vem que te trago um saco de laranja do meu sítio!". Soltou com a voz inconfundível de trovão.
E foi assim, na outra semana o menino terminou o serviço e levou contente um saco de laranjas para casa.
- Um dia, ele me levou na F-1000 dele para a sua casa, no Exú. Engraxei os 60 pares de sapato. Muitos que ele usava nos shows. Olha que honra! - disse com um grande sorriso de felicidade.
Ficamos conversando ainda por um tempo, lembrando de curiosidades, do prazer e orgulho de ter engraxado os sapatos do Rei do Baião.
Que inveja boa eu fiquei!