terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Doutora brasileira: pontos de vista

Eles estavam na lancha, se encaminhando para uma comunidade ribeirinha, localizada no alto do rio Solimões. O céu, como de costume, estava fechado. Na Amazônia, havia dias em que de manhã estava um sol forte e intenso, algumas horas depois se nublava, prestes a uma grande chuva.
O calor, também como o costume, era intenso demais. Com o ar completamente úmido, o macacão da Marinha dava a impressão de cozinhar seu corpo, onde o suor escorria constantemente, mesmo com o forte vento que batia em sua face.
A lancha viajava muito mais rápido que o navio, assim poderiam atender algumas horas até que este os alcançasse, para seguirem viagem.
Chegaram em seu local de trabalho, atracaram a embarcação na terra e subiram o imenso barranco. Era uma época mais seca e o leito do rio ficava muito mais abaixo do que a margem e subir aquelas terras barrentas era uma grande dificuldade.
A comunidade ribeirinha, geralmente, se formava em uma pequena clareira na floresta. Vinte a trinta casas, quando muito, se espalhavam, rentes à "cortina" de gigantes árvores que as envolviam.
- Incrível como a floresta se impõe sobre nós - comentou com uma colega. A sensação era, realmente, como se as enormes árvores sufocassem tudo a sua volta.
As casas de palafita estavam como de costume, com as criações de porcos, bodes e galinhas debaixo de seus assoalhos, o que trazia um cheiro característico e forte a todas elas.
Enquanto se encaminhavam para a escola, onde fariam os atendimentos, muitas crianças correram ao seu redor. Essa cena era comum a cada chegada, mas daquela vez, a empolgação era maior.
- Doutora! Doutora! Vem ver a onça!! Vem cá!! - diziam, a puxando pela mão.
Seguiu atrás delas, pressentindo algo. Quando chegou em uma pequena roda de pessoas, bem próximo à enorme cortina natural da floresta, sentiu um arrepio por todo o seu corpo. Ali, estirada na grama, estava ela: uma linda onça pintada. Enorme, como havia visto apenas pelas fotos dos livros, amarela e rajada de manchas negras. Morta.
As crianças sorriam, os adultos orgulhosos. E a doutora não conseguiu esconder sua cara de espanto e tristeza.
Em sua frente, jazia um maravilhoso animal em extinção. Percebendo a feição de decepção da médica, um homem, de seus 40 anos lhe falou:
- Doutora, isso aqui não é brincadeira não. Já fazia um tempo que a gente estava atrás dessa bicha. Umas semanas atrás, ela matou uma das nossas crianças. E esse bicho é assim, viu que aqui tinha comida pra ela e ia voltar, até pegar outra.
Começou a se dar conta. Tinha aprendido desde os livros de escola, da importância de se preservar aquele lindo animal, em extinção. Mas ali, na floresta, o ser humano era mais um animal, lutando pela sua sobrevivência. Era a onça, ou o filho.
Fácil tomar decisões e ter suas verdades atrás de uma mesa, na capital. Ter seu filho brincando ao lado de uma onça faminta, é outra coisa. É outro ponto de vista.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Camisetas

Uma camiseta pode valer muito. E não pela marca, ou tecido, mas sim pelo que representa. Usamos um uniforme, que se torna a cara da equipe. A alma. Não à toa, professores e alunos, que passam a curtir o trabalho, nos pedem esperançosos uma.
Ele devia ter seus 15 anos. Falante e carismático, levava uma vida feliz, driblando com habilidade certa deficiência mental, que o levou a atrasar alguns anos na escola.
- Seu dentista, você me dá sua camiseta? - me perguntou amável, com os olhos brilhando atrás de seus grossos óculos.
Respondi que não podia, praticamente uma resposta ensaiada por anos a fio. Desse uma camiseta a cada pessoa que me pedisse, não daria conta, nem com uma confecção própria.
A noite veio. Nossa última naquela cidade do sertão bahiano. Dia seguinte, após o almoço, viajaríamos para outra cidade. Enquanto o cinema comunitário que levávamos era exibido, alguns alunos que fizemos amizade pediram para tocarmos violão e, assim, uma animada roda se formou. Ele era o mais empolgado, cantava quase todas as músicas com rara emoção, animando a todos. A certa altura, me olhou e pediu:
- Ô meu amigo, me dá um aí, e faz um sonzinho, que vou falar umas coisinhas pra todo mundo aqui.
Dei risada. Claro que ele não queria o nota de verdade, comecei a tocar algumas notas no violão, o que o fez abrir um largo sorriso, me fazer um sinal positivo, como quem diz "é essa aí mesmo!".
E começou a falar. Seus olhos, como de costume enquanto falava, ficavam fixos no horizonte. Foram palavras tão doces e bonitas, para nós da equipe, sobre nosso trabalho, dedicação, alegria, que emocionou a todos, inclusive professores e alunos que estavam presentes.
- E por isso pessoal, nós temos que agradecer a essas pessoas, que vem de tão longe, para ajudar e fazer o bem pra gente e pra toda comunidade! - disse por fim, e pediu uma salva de palmas, prontamente atendido.
Dia seguinte aquelas imagens ainda eram fortes em nossas mentes e corações.
- Onde está ele? - perguntei para um amiguinho que estava em minha sala.
- Num veio hoje não.
Perguntei onde morava. Ficava bem perto da escola. Antes de ir embora, eu iria até a casa dele, levar uma camiseta.
Muitos ficaram sabendo. Professores, que muito me pediam uma, estavam ali, mas nenhum me questionou.
Foi curioso. Na verdade, foi bonito. Saí da escola com dezenas de pessoas me seguindo. Nunca havia sentido aquela sensação. Uns chamavam outros, e diziam que nosso pequeno amigo ganharia minha camiseta. Crianças vinham sorrindo, algumas batiam palmas, professores acompanhavam felizes.
E foi assim até sua casa. Bati na porta, ele a abriu.
- Meu amigo, você não foi à escola, eu tive que vir até aqui pra trazer o seu presente. - disse entregando-lhe a camiseta do IBS.
Seus olhos brilharam, as palavras não saíram e ele me abraçou.
De repente elas saíram, vagarosamente, de um garoto emocionado que me abraçava olhando ao longe:
- Muito obrigado!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O amanhã

Ele olhava para a casa a sua frente. Nunca se sentiu nela como o nome sugere. Casa. Não era sua, não era de sua mãe, nem nunca seria.
Era estranho olhar para ela agora. Muda, como se nenhum barulho pudesse sair daquela porta. Nem mesmo pouco tempo atrás, quando batia, na esperança que alguém ouvisse. Que alguém o deixasse entrar.
Muda, era assim que sentia aquela casa. Era como se ela dissese para ele: "muda, menino".
E foi assim que ele decidiu. Não mais ficaria ali. Pensou melancólico "por que não se sentia tão triste". Talvez porque sua mãe, que deveria ser sua mãezinha querida, não o defendia. Não o recebia, quando ele chegava de noite, após a escola, cedendo ao padrasto, que o queria longe dali.
"Adeus", disse para si mesmo, com a angústia de quem seria ouvido por ninguém, além dele. Teria uma vida nova, teria sucesso, moraria com o padrinho e buscaria seus sonhos. Já tinha uma bicicleta. Um dia teria um mp3 e nem precisaria de sua mãe ou do padrasto para conseguir. Do alto de seus 12 anos encontraria sucesso naquelas terras do sertão da Bahia.
O amanhã? Que importa. Já tinha passado fome antes, se tivesse que passar de novo, não seria novidade alguma.
O lado bom de estar saindo de casa, praticamente expulso pelo namorado da mãe, é que tudo o que conseguisse, de hoje em diante, seria lucro. É a parte positiva de se sair do zero.
Amanhã será um novo dia, de uma nova vida. De um garoto novo. Ainda tinha sua vida inteira pela frente.
E agradecendo a Deus por isso foi embora, sem olhar para trás.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O trabalho

Olá amigos!
Este é o último vídeo do projeto que o Instituto Brasil Solidário realizou em parceria com as Casas Bahia no sertão, o Amigos do Planeta na Escola.
Geralmente posto as histórias de pessoas e bastidores de nossas viagens. Aqui segue um vídeo que mostra a finalização de um trabalho de 2 anos - renovado por mais dois. A parte oficial.
Podemos ver todas as áreas de atuação e bonitas imagens do sertão, captadas pelo cinegrafista e editor Vitor Pinduca.

Um grande abraço!

Wolber Campos


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A luz

No interior do Maranhão, mais precisamente na cidade de Nova Iorque, há uma professorinha. Uma esforçada professorinha - já retratada aqui em outras histórias - que muito lutou para se formar.
Quando a conhecemos, ainda era professora da escola da pequena comunidade onde mora e, assim, abriu as portas da sua casa para que parte da equipe se instalasse durante os trabalhos. Foi assim que conhecemos nossa família maranhense, além dela, um painho e mainha, e mais três irmãozinhos mais novos.
A casa ficava num sítio, distante alguns quilômetros da comunidade, por uma estrada de terra que, saindo do sertão, adentra por entre árvores verdes, buritis e algumas plantações. Não havia luz. Energia elétrica era um sonho distante, o que me fazia pensar "como o suco podia estar gelado no café da manhã, que nos preparavam as 6:30h, se não havia geladeira?". O segredo era nosso irmãozinho Bruno, que antes das 6 horas partia em sua moto para buscar gelo no vizinho. A velha hospitalidade sertaneja.
Um lugar onde nos sentimos em casa, onde há uma seresta na viola de noite, onde podemos tomar banho ao ar livre, olhando para as estrelas e ouvindo os animais na mata. Enfim, onde vivemos como uma típica família do sertão brasileiro. Uma típica família feliz.
2010 foi um ano de mudanças para nossa professorinha Régea. Trabalhou pela primeira vez conosco, em várias escolas do sertão, e se adaptou ao trabalho como se sempre fizesse parte dele. No fim do ano se tornou diretora de sua querida escola. Nada mais justo.
Nos primeiros dias deste ano, tocou meu celular. Era ela, do Maranhão.
- Irmãozinho, você não imagina a surpresa que tenho para te contar! - disse com felicidade.
"Virou prefeita?", brinquei. Com a força de vontade que tem, não seria impossível. Mas ela contou: a energia havia chegado em sua casa!
Demorou muito, muito mesmo. Mas veio. Ficamos contentes por nossa querida família maranhense, mas os lembramos de um antigo trato: a energia pode chegar, mas quando voltarmos para a casa, todas as luzes deverão estar apagadas e o nostalgico lampeãozinho deve estar aceso, para nos lembrar do gosto gostoso daquele nosso pedacinho de sertão.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Doutora brasileira: as flechas

Ela estava trabalhando em Manaus quando falaram:
- Doutora, o navio vai seguir viagem rapidamente para atender a umas tribos indígenas bem isoladas, próximas à fronteira.
A Funai havia entrado em contato com a Marinha e pedido um auxílio urgente. Muitos índios estavam morrendo por alguma doença e a situação piorava a cada dia. Um navio foi preparado para a longa travessia e os médicos embarcaram para a operação.
Foram em torno de 10 dias de viagem até chegar ao local. Saíram de Manaus pelo rio Solimões, adentrando em seguida no rio Içá, na região da tríplice fronteira (Brasil, Colômbia e Peru). Já próximo à Colômbia, subiam por um afluente para o norte. Na tripulação, além dos médicos e militares, seguiam membros da Funai e representantes das comunidades indígenas.
A região pode ser considerada o coração da Amazônia; o local mais distante da ação destruidora do homem branco, seja do lado do Brasil ou da Colômbia. Por este motivo ainda é o berço de tribos que vivem em total isolamento, onde raríssimos integrantes falam o português.
Ao se aproximar de uma das isoladas tribos, os tripulantes ouviram: "toc". Um barulho seco, como se o navio tivesse batido em um galho. Acharam estranho e de repente: "toc, toc toc!", o ruído se repetia agora mais vezes. Quando um deles descobriu a causa e comentou a um oficial.
- Senhor, estamos sendo recebido por flechas!
Era difícil de acreditar, nos dias atuais, ser recebido por flechas de índios, mas estava acontecendo e um dos representantes indígenas a bordo precisou sair ao convés, gesticulando e gritando para que eles soubessem que aquele navio vinha em missão de paz.
Em algumas tribos, outra dificuldade: não aceitavam o tratamento dos homens brancos, queriam ser curados apenas pelo pajé. Porém a morte rondava cada dia mais a muitos homens, mulheres e crianças e assim, acabaram aceitando.
- É sinal claro de malária, mas no navio temos um teste rápido, usando uma gota de sangue, para termos a certeza - comentou a doutora.
Assim diagnosticaram que era esta doença que vinha matando tantos índios. Mas o exame não seria tão fácil. Crianças e mulheres, muitas vezes em pior estado, tinham que esperar. Os homens, quase sempre, devem ser atendidos antes. E apenas as duas médicas poderiam atender as mulheres em algumas aldeias, visto que um homem de fora não poderia tocar em nenhuma mulher da tribo.
Após a luta para fazer o atendimento, como dizer que um remédio deve ser tomado de 8 em 8 horas para alguém que muitas vezes não sabe o que é um relógio?
- Olha, você tem que engolir esta bolinha assim que o sol nascer, outra antes de comer, quando o sol estiver alto, uma quando ele estiver se pondo e uma antes de dormir. - explicava a doutora para um índio traduzir ao doente.
Ficaram mais de duas semanas atendendo a várias tribos e voltaram felizes por terem ajudado, mas com algumas dúvidas. Será que deu certo? Será que eles tomaram a medicação - que salva e realmente cura a malária - corretamente?
Não sabiam. Sabiam apenas da felicidade de ter feito a sua parte.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Uma criança feliz - por Carlos Fonseca

“E foi naquele momento que senti um calafrio. Corrente, corda, martelo ou bambu? Não importa, maínha não teria a mínima chance de impedi-lo. Agora ela acredita quando digo que nunca desejei passar o fim de semana na sua companhia, e não me reprime mais por tê-lo xingado. No começo não entendia o que estava acontecendo, estava sendo punida mas não sabia qual teria sido a razão para tal violência”.

Quantos mil anos foram necessários para a evolução humana? Por que razão até os dias de hoje algumas pessoas imitam os mais primitivos instintos animais? Esta dura realidade retrata o dia-a-dia familiar de milhares de pessoas em todo o mundo. Olhar nos olhos de uma criança e sentir o medo, a tristeza, o desânimo; de fato lhe roubaram o que é mais admirável em uma criança: a inocência.
E foi numa manhã próxima do natal que estive numa casa que abriga crianças que foram retiradas de seus lares após sofrerem algum tipo de violência, entre as mais comuns está a violência sexual. Fui convidado a participar das comemorações de final de ano, e tive o prazer de conversar um pouco sobre a paixão de minha vida: odontologia.
Cada olhar atento, cada expressão de surpresa e admiração me deixava mais empolgado e feliz por estar ali. Em cada criança uma trágica história, um trauma para eternidade; meu dever, fazê-los esquecer de tudo aquilo, e transmitir um pouco de alegria e descontração, aprendendo e rindo para seguir em frente. Pode parecer um trabalho de “formiguinha”, pois bem, me orgulho em dizer que existem muitas espalhadas pelo mundo, e sua pequena contribuição certamente favorecerá para uma melhora significativa na vida de muitas pessoas.
Estava sentado no sofá, com mais 20 amigos voluntários, assistindo a uma apresentação das crianças, e um menino se aproximou e me abraçou. Olhei para ele e perguntei em pensamento: - Por que uma criança tão indefesa como essa merece passar por tudo isso? Por que eu tive uma infância tão feliz ao lado de meus pais e aquele menino carregava tantas marcas de violência e rejeição?. Inesperadamente ele mesmo sorriu e me respondeu:
- Não se preocupe tio, eu sou feliz!
E foi naquele momento que senti um calafrio...

Carlos Fonseca é dentista, 27, e realiza projetos sociais. Uma vez por ano também viaja ao sertão com o Projeto Bandeira Científica, ligado à USP

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Doutora brasileira

A faculdade de medicina passou, ela estava no final do sexto ano quando decidiu juntar duas paixões: ajudar o próximo e conhecer a maior floresta tropical do mundo. A Marinha do Brasil seria o passaporte para a concretização de seu sonho.
O amor pela natureza a segue desde sempre. Consegue apreciar um bonito luar mesmo em meio aos arranha-céus da cidade grande. A amazônia era um grande sonho que se uniria a outros, de trilhas e chapadas que conhecia pelo Brasil.
Já havia ouvido falar da população ribeirinha e da carência dessas pessoas que viviam pela floresta, nas margens dos rios. Gostaria, sinceramente, de ajudar a melhorar suas vidas.
Assim ingressou nas forças armadas brasileiras e desembarcou em Manaus, como tenente da Marinha. Durante aquele ano trabalhava intercalando cerca de dois meses em terra, na cidade de Manaus - atendendo aos parentes dos militares -, e um mês viajando pelos rios da amazônia; Negro, Solimões, Amazonas e outros afluentes.
Em sua primeira viagem conheceu a população ribeirinha do rio Solimões. Um choque! As condições eram ainda mais precárias do que pensava. "Eles vivem com o mínimo necessário à sobrevivência!", constatou.
Possuem pequenas criações, mas o que precisam para sobreviver retiram do rio. Vivem da pesca, pegando os peixes na hora das refeições. Algumas vezes os comercializam. Também tem pequenas roças de mandioca, feijão e pimenta. A base alimentar é peixe com farinha de mandioca, produzida por eles mesmos.
- Sofrem de inúmeras doenças, principalmente de pele e intestinais, relacionadas à péssima higiene em que vivem, sem saneamento básico algum. Todo esgoto produzido é despejado diretamente no rio e toda mudança que tentamos implantar são simplesmente esquecidas logo depois que falamos - lamenta.
Tentou convencê-los de que, se o rio corre em uma direção, devem pegar a água usada para higiene pessoal e de objetos antes das casas, assim como as plantações, e a criação de porcos deve vir depois delas. Voltavam alguns meses mais tarde e tudo estava como antes, tomavam banho nas águas que passavam pelos chiqueiros flutuantes.
"Não será fácil...", pensou.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O novo ano

Em 2004 fiz meu primeiro trabalho social. Eram 10 cidades em 10 dias. Uma intensidade enorme de histórias, novos amigos e experiências que nos faziam misturar tudo. Na sétima cidade, já não lembrava mais se a escola que tinha o professor X era a segunda ou a terceira.
"começarei a fazer um diário de bordo para não misturar as histórias e fatos", decidi.
Assim, toda noite, passei a anotar tudo o que se passava durante o dia. Meus amigos roncavam e eu ali, num quarto no sertão anotava, pingando de sono, nosso dia a dia. .
O blog veio como uma necessidade de extravazar essas histórias, acumuladas em tantas folhas de papéis amarrotadas. Quando comecei a escrevê-lo, mal imaginava onde estava me embrenhando. Termos como "blogosfera", "blogueiros", "posts", me eram tão estranhos como um livro de física quântica.
Hoje, pouco mais de dois anos depois de meu início neste novo mundo, me senti de tal forma impregnado nele, como ele em mim. Como aquele novo amigo, que conhece há poucos anos, mas acha que esteve junto a você desde que se conhece por gente. Aqui fiz amigos fiéis e queridos como muitos que estão ao meu lado desde sempre. Pessoas que conheci apenas "on line" mas que você cônegos saber se está bem ou não no dia aquela postagem, ou até sofrer junto quando percebe que terminou um relacionamento.
Amigos que entram durante seu dia de trabalho, só para ver o que você escreveu. Que olharam em seu face book que você postou um texto novo e livraram alguns minutos de seu dia para você.
Neste último dia do ano, gostaria de agradecer a cada amigo, ou mesmo simples leitor, que entrou neste humilde blog e cedeu um pouquinho de seu tempo a ler o pouco que escrevo. Um desejo de que todos possam ter um ano maravilhoso. Lembrando que um mundo só é realmente maravilhoso quando é maravilhoso para todos. E que em 2011 cada um possa melhorar mais ainda sua vida e a de seus semelhantes. Essa é minha meta de ano novo. E o que desejo para cada um de vocês.
Um ótimo 2011 para todos!!

Wolber campos

sábado, 11 de dezembro de 2010

A casa na mata

No fim de semana passado, viajamos para Paraty Mirim, uma comunidade pequena, habitada em sua maioria por pescadores, que fica em torno de 15 quilômetros da cidade de Paraty.
Encerramos um trabalho que durou um ano, onde atendemos na escola, no posto de saúde e no centrinho, próximo à praia.
Com o intuito de ficarmos mais próximos, alugamos a casa da da filha de uma moradora local, que fica encravada na mata atlântica. Para se chegar até ela era necessário atravessar uma ponte, bem feita, bonita, que balançava a cada passo, sobre o rio, de águas barrentas pela chuva que caía naqueles dias, que seguia para desaguar no mar.



Na madrugada de sexta-feira, quando chegamos (em torno das 3 da manhã), era grande a escuridão, e algumas lanternas nos ajudavam a enxergar algo. A atenção devia ser grande, pois o peso das malas, compras e equipamentos dificultavam atravessar o balançar da ponte.
A sensação de estar integrado com a mata, a mesma que portugueses descobriram há séculos atrás, era incrível. Paraty Mirim, foi o primeiro ponto que eles encontraram, transferindo a cidade décadas mais tarde para onde ela se localiza nos dias atuais.
O convívio com a natureza, a reunião com amigos após os trabalhos, um churrasquinho, violão e cantoria, são ingredientes que inflam com tal energia, que dia seguinte não há como não realizar um bom trabalho.


O vídeo mostra a travessia da ponte e "nossa" casa na mata:

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Almir

Almir é o mecânico chefe de uma concessionária de carros importados. Numa viagem em que acompanhava seu chefe com amigos, dividiu o quarto com Bernardo. Ao entrarem na simples pousada em que passariam a noite, encontraram apenas uma cama e um colchão encostado ao lado.
- Almir, pode deixar que eu durmo no colchão. - disse Bernardo, humilde como sempre.
- Imagina, seu Nado, pode deixar que eu durmo no chão. O senhor nem imagina onde eu já dormi... - respondeu o amigo, lhe contando sua história.
Nasceu e morou toda sua juventude no pantanal matogrossense. Era um matuto, na acepção da palavra. Muitas vezes, dormia ao relento, sobre a grama, embaixo de uma árvore. "E aquilo, pra mim, era a melhor coisa do mundo!", exclama saudoso.
Em seu último emprego no Pantanal, tomava conta de uma grande fazenda. A casa grande, ficava sobre altas palafitas, pois na época das águas, tudo se alagava e o único caminho era sair de barco pela porta de entrada. Os donos, sempre saiam nesse período, esperando o tempo de seca para retornarem à sua casa. Mas não podiam deixar o imóvel sozinho; a coisa mais comum quando as águas subiam, eram saqueadores levarem tudo o que os donos deixavam para trás. Essa era a principal função de Almir, estocar provisão para os quatro meses em que tudo estaria inundado e ficar, em suas palavras, "armado até os dentes", para não deixar ninguém se aproximar.
- Seu Nado, eu mal dormia de noite, pois os bandidos vinham nessa hora, com o motor do barco desligado para não chamar atenção, e matariam quem tivesse tomando conta, só para roubar tudo mais tranquilos.
Almir continuou contando histórias sobre m Brasil conhecido por poucos, onde a lei é muito diferente. Onde a vida, acaba valendo pouco quando a sede de bandidos é insaciável.
Hoje, é feliz com sua nova profissão, que o ajudou a ganhar um bom dinheiro e o afastou de tantos perigos e noites mal-dormidas. Mas ainda sente muita falta de suas noites dormidas sob uma frondosa árvore iluminada pelo luar do pantanal.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Faça o que eu digo...

Jennifer é australiana, aventureira nata, viaja o mundo dando palestras sobre saúde, principalmente DSTs. Desembarcou no Peru como turista, depois de passar um mês em várias regiões na África, assoladas por doenças sexualmente transmissíveis; locais onde a aids é a pior epidemia, afetando a maioria da população .
Em seu bom coração, não podia entender como pessoas podiam brincar assim com sua vida. Em muitos países desenvolvidos, conversava com adolescentes grávidas, crianças que terão outras crianças:
- E gravidez, nem é o maior perigo que você passa por não usar preservativo. Imagine pegar uma doença venérea, que pode prejudicar o bebê, ou até levar à sua morte, como a aids ou sífilis... Homens “bonitinhos” podem ter doenças terríveis! – sempre alertava.
Pablo é um descendente de peruanos. De seus pais, herdou o amor pela segunda pátria e o sonho de conhecer um dos paraísos da humanidade: Machu Pitchu. Foi assim que, quando completou a maioridade, pegou sua mochila e viajou rumo à sua aventura solitária. Sempre se encantou por trabalhos sociais. Por isso, quando conheceu Jennifer, no mesmo grupo que subiria o lendário monte, logo se encantou.
Desde as primeiras frases, ataram uma amizade profunda e verdadeira. Se identificaram e permaneceram juntos em cada passeio. Trocaram experiências e ambos, tendo feito trabalhos sociais em diferentes partes do mundo, acabaram tendo uma admiração profunda, um ao outro.
Após conhecerem tudo sobre o mágico local, a história, a vida local dos acestrais incas, tinham 30 minutos de descanso. Não pensaram duas vezes, o amor, a atração, a admiração mútua, pedia momentos a sós, naquela mata que transpirava história. Uma milenar história.
Ela estendeu sua mão, ele a apertou com carinho, e caminharam juntos para a floresta. Encontraram um pequeno descampado, coberto de grama e ali seria o cenário perfeito para um momento íntimo, eterno, num ambiente histórico e mágico.
Ali, fizeram amor como os ancestrais incas, sem roupas, sem preconceitos, sem medos e sem camisinha.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Trailer do Filme "Em busca dos brasileiros"

Hoje é o lançamento do filme documentário "Em busca dos brasileiros". Para os amigos que não poderão comparecer no Espaço Unibanco (o convite continua abaixo) deixo o trailer nesta postagem.
Dá para dar um gostinho (ou deixar com mais vontade ainda de ver...).

Um grande abraço a todos e me desculpem a correria das últimas semanas que dificulta a visita a tantos amigos queridos.

Wolber Campos


terça-feira, 23 de novembro de 2010

Filme: "Em busca dos brasileiros"

Há 10 anos atrás, dois irmãos tiveram um sonho: conhecer o interior do Brasil e usar um de seus maiores prazeres (a fotografia) para mostrar o Brasil que poucos conheciam.
Foram 8 meses na Expedição Trilha Brasil, que tinha como principal objetivo realizar um levantamento cultural de nosso país. Como não poderia deixar de ser, se apaixonaram e perceberam que, diferente do que ouviam em São Paulo, a maior necessidade do sertão não era ajuda financeira, cestas básicas ou outros projetos assistencialistas e paliativos. A necessidade era melhorar as escolas, dar base para as crianças. Deviam focar na educação.
Foi assim que surgiu a idéia do Instituto Brasil Solidário e hoje o sonho virou realidade.
Horas e mais horas de filmagens daquela Expedição, viraram um documentário, que conta como tudo começou. O lançamento será no Espaço Unibanco, nesta quinta-feira, à partir das 19:30h.
O convite segue abaixo. Os amigos blogueiros e leitores que quiserem saber um pouco mais e nos conhecer pessoalmente (seria uma honra!) estão mais do que convidados. Os esperamos lá!

Um grande abraço!

Wolber Campos

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O homem mais puro do mundo

Galeguinho é um surfista de um dos lugares mais bonitos do mundo - se não for o mais bonito -. Fernando de Noronha é uma ilha paradisíaca e quando se chega nela, tem-se a impressão de que se atravessou um portal para uma outra dimensão.
Ali, até as horas parecem passar de forma diferente e os problemas da vida (ir)real, parecem se tornar pequenos, exatamente pelo contato com uma natureza tão bela. A bela sensação de proximidade de Deus.
É um desses surfistas de alma, extremamente puro de coração, daquelas pessoas que não conseguem desejar mal para ninguém. Fala de Deus e de Jesus Cristo, não como quem fala de algo inatingível e distante, mas com a simplicidade de quem fala de um amigo. Possui pouco, mas é extremamente feliz.
Todos o adoram, basta sair pelas ruas ao seu lado e todos fazem questão de cumprimentá-lo com o muito ouvido "Ô Galeguinho!", acompanhado de um sorriso, seja pelos pedreiros das construções, ou pelo rico empresário de uma das pousadas mais bonitas daquele local.
Seu emprego não poderia ter mais a sua cara. É pegador de tartarugas.
- Mas eu não pego pra caçar não, é pro pessoal do Projeto Tamar estudar, colocar as pulseiras e soltar de novo.
Algum tempo atrás, teve problemas, precisou deixar a casa onde morava e não tinha para onde ir. "Se é para morar em algum lugar, deixa eu procurar o lugar mais bonito daqui", pensou. Foi assim que morou, durante quase 6 meses em umas cavernas, com uma das vistas mais bonitas para o mar, de azul turqueza, de Noronha.
Não passou esse tempo isolado, continuava com a mesma vida que tinha, saindo com os amigos, apenas, de noite, seguia feliz para sua morada provisória - hoje vive em um trailler, doado por um amigo do continente.
Nos levou até lá onde, olhando para o incrível visual, lhe disse: "você era um cara feliz , hein meu?".
Sem pensar, me respondeu:
- Era não, eu sou feliz, brother, porque eu tenho Jesus no coração...
Quanta verdade em tanta simplicidade.
6 meses morando em uma caverna, em contato íntimo com a natureza e com Deus. tem melhor receita para ser feliz?


O vídeo mostra Galeguinho, o homem mais puro de mundo, nos apresentando sua querida caverna.