quinta-feira, 10 de março de 2011

Doutora brasileira: animais silvestres

A lancha seguia à frente do navio da Marinha brasileira. Estavam no rio Xingu, no estado do Pará, e navegavam rumo a uma comunidade que necessitava de atendimentos médicos.
Saíram para um afluente menor, adentrando ainda mais para o interior do estado. Naquela região, não há muita floresta acompanhando as margens do rio. O Pará é muito mais desmatado do que o Amazonas e poucas árvores ficam nas proximidades.
O grande navio aguardava onde o afluente desaguava no rio Xingu, era necessário ver se a profundidade era suficiente para uma grande embarcação. O sinal foi dado e a enorme embarcação pode navegar com sua calma peculiar.
A lancha seguia, agora rapidamente, e mais à frente observaram algo estranho: três pequenas embarcações, emparelhadas, próximo à margem direita. Era algo estranho. A lancha diminuiu a "marcha". Ao se aproximarem das embarcações viram do que se tratava. Homens passavam de um barco a outro gaiolas, repletas de animais silvestres. Ali, em sua frente, estava escancarado o tráfico de animais da fauna amazônica brasileira.
Quando perceberam que a lancha que se aproximava era da Marinha, como se fosse combinado, todos os homens pararam, gaiolas suspensas, feito estátuas. Movimentavam apenas os olhos, que acompanhavam a lancha que passava, vagarosamente; exalando o medo de serem pegos em flagrante.
O grande navio veio em seguida. O comandante deveria decidir, agir, ou comunicar o fato. Aquele era um navio médico, com pouquíssimo armamento, militares, em sua maioria, formados por médicos, dentistas e profissionais da saúde. Havia a chance de um conflito, e traficantes desse porte, geralmente, estão sempre armados.
Pelo rádio, o comandando comunicou à Polícia Federal, dando todas as coordenadas do local e a cena que estavam presenciando. Não poderia colocar em risco toda uma equipe e uma embarcação médica.
O tráfico de animais silvestres é o terceiro maior comércio ilegal do mundo, perde apenas para o tráfico de drogas e o de armas. Estima-se que a cada dez animais capturados, apenas um chega vivo ao destino. A crueldade desses criminosos chega ao ponto de furarem os olhos de aves para que não cantem ao ver a luz do sol, denunciando seu cativeiro, ou mesmo de anestesiar todos para chegarem silenciosos aos consumidores, que acabam compactuando com essa crueldade. Tão grave quanto comprar um aparelho de som roubado.
A doutora seguiu para a comunidade. Durante todo o dia de atendimento, aquela imagem não saía de sua cabeça. Sabia que aquilo existia, já tinha ouvido muito sobre isso, mas ver, com seus próprios olhos, era muito diferente.
Não sabia se a PF conseguiu chegar ao local. Não sabia como acalmar seu apertado coração que não conseguia esquecer aquela cena. Ainda hoje não sabe.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Cenas de uma recepção

Nossa porta de entrada para o Vale do Jequitinhonha, no último trabalho realizado em fevereiro foi a linda cidade de Diamantina, com seus casarões antigos e igrejas coloniais.



Chegamos à cidade de madrugada, após a aventura da viagem de ida. Na manhã seguinte, conseguimos conhecer um pouco o local. Andamos por suas belas ruas calçadas por enormes pedras, visitamos a casa da Chica da Silva, e vimos até uma famosa fofoqueira, olhando curiosa os acontecimentos pela sua janela.























Após o almoço, sguimos para a pequena comunidade de Cachoeira do Norte, nosso primeiro destino de trabalho. Fomos recebidos de forma extremamente calorosa, com palmas e cantos dos moradores.



Uma pequena roda se formou e nos falaram de uma apresentação de um dos folclores mais tradicionais de nosso país: a folia de reis. Homens e mulheres, de todas as idades cantavam ao som dos violões e instrumentos de percussão. Aquele coro tradicional, com vozes de homens entoando uma música enriquecida por vozes femininas bem agudas, de moças e senhoras.



Após algumas músicas, foi formada uma imensa roda, crianças e adolescentes se uniram e começaram a entoar músicas reginais, uma deliciosa Folia de Reis.



E claro, nós entramos na dança...



A noite caia e a festa parecia ir longe, para nossa alegria. O cenário era lindo, a pequena igreja da praça, olhava para as alegres pessoas que dançavam e cantavam ao som do violão.



E contentes, passamos a ver adolescentes e senhoras de seus 70 anos, pulando e dançando, com um vigor invejável, e deixando a boa mensagem de que a cultura vai sobrevivendo, sendo passada para as outras gerações.



E no fim da festa, ainda assistimos ao show de percussão, dado pelos nossos amigos. E ali estava ela, com seu pandeiro. Que felicidade saber que, no dia seguinte, eu teria oportunidade de retribuir um pouco dessa maravilhosa recepção.

















Abaixo um pouco da nossa feliz roda de folia de reis.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Rotinas

Meus amigos. Voltamos e esta segunda-feira, voltei ao consultório. Saio de uma rotina, entro em outra. Realidades tão antagônicas, conflitantes, e, ao mesmo tempo, complementares.
Fazer um trabalho social, viajar por alguns dias, doar o pouco que aprendeu - e desenvolveu - em favor de outras pessoas, é participar de um mundo novo. Um mundo que se imaginaria ideal, onde aquele papel ($) que tanto distancia a humanidade de seus verdadeiros propósitos, quase perde o sentido.
Os mundos se complementam, pois neste lado, é necessário correr atrás do trabalho, para melhorar a vida da família, para se especializar e melhorar cada vez mais profissionamente e, aí sim, doar esta melhora para outros menos necessitados.
Pode parecer demagogismo, numa época em que estamos cansados de tantos discursos políticos, tão vazios como uma bexiga furada. Porém, quem já foi uma vez pode afirmar: a cada trabalho, sentimos mais a necessidade de doar cada vez mais.
Em cinco cidades eu e o Wanderson, fizemos 220 próteses. O número é grande e nos deixa orgulhosos e felizes, ainda mais quando cada unidade deste número é um "seu João", "seu Raimundo", uma "dona Maria", pessoas, a grande maioria, a mais de 10 anos, sem nenhum dente na boca e sem nunca ter usado uma prótese.
Rogério e Glaucia, outros dois dentistas, atenderam em torno de 200 pessoas entre adultos e crianças, sempre com o auxílio e lideraça do Manolo. Válter, ambientalista, ensinou ao lado de Pedrão, João Victor, Fernando e Erik como montar uma horta comunitária, arborizar, montar viveiros e fazer coleta seletiva, além de reciclar papéis e até água, para várias comunidades. Tudo registrado, com extrema competência, pelo grande cinegrafista-editor Vitor Pinduca.
Bernardo, da Companhia de Inventos, levou a parte da cultura com maestria, ministrando oficinas de teatros de sombra e bonecos para aliar o ensino com a arte, além de uma apresentação de um teatro de marionetes que empolga dos 8 aos 80 anos.
Ana Elisa Salvatore, esteve a frente do do projeto, que terminou com todo sucesso esperado.
Diante de tudo isso, de uma convivência durante duas semanas com uma família que escolhemos para ter ao lado, a volta tem de ser feliz. No reencontro com as pessoas amadas, com a querida família, com a caminha e o travesseiro próprio, a bateria, independente do cansaço, está completamente recarregada.
Como disse, sabiamente, meu grande amigo-irmão Bernardo:
- É muito especial essa turma que podemos fazer parte. No dia a dia temos que carregar esta alegria e vontade de fazermos tudo com o coração aberto e verdadeiro.
Tem como não encarar uma segunda com o sorriso aberto? Eu acho que não.

Obrigado a todos queridos amigos que passaram por aqui nestes dias em que estive tão ausente da blogosfera. Obrigado pelos comentários e desculpem a falta de tempo de visitar cada blog de amigos que tanto prezo. Senti falta.

Enorme abraço a todos!

Wolber Campos

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O que comemos

Olá amigos, estamos, neste momento, na van, voltando para casa. 
A última cidade em que trabalhamos foi Capivari, uma pequena e aconchegante comunidade, onde há apenas uma rua mais larga com  suas lindas humildes casas. 
Na penúltima noite, estávamos jantando na casa de Flanciene e Renato, onde fomos muito bem recebidos e acomodados, uma deliciosa galinha caipira. 
Tenho parentes em Minas Gerais, e desde criança, percebia a grande diferença naquela ave, pega no quintal e levada minutos depois para a mesa e aquela congelada, que pegamos dentro de um saco no supermercado, sabe-se lá a quanto tempo nesta condição. 
Renato fez uma colocação interessante:
- Olha seu moço, eu não entendo esse negócio de criação na cidade. Aqui a gente cria um frango, dando boa comida, tratando bem dos bichinhos, e ele leva meses pra ficar bom. A gente mata ele só depois de uns oito meses. Estes criados em granja, para a cidade grande, em 45 dias, as vezes até antes, já estão prontos pro abate. 
Dura realidade, pois é sabido que, em grandes produções, os frangos ficam desde o nascimento sob luz intensa, o que o faz ficar acordado praticamente o tempo todo, comendo e crescendo. Unido isto à ração com hormônios que comem, há o crescimento exagerado. 
Outro exemplo é nosso famoso chester de natal, um frango "anabolizado". E para a crescente demanda no fim do ano, a produção segue a todo o vapor. Abatem e congelam, assim no natal haverá um grande estoque. 
Pelo menos o interior ainda guarda alguns hábitos saudáveis. 
Pensando nisso, saboreei com mais gosto ainda a deliciosa galinha caipira que estava a minha frente.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Um ligeiro sorriso

Ela entrou na sala tímida, trazida pelas mãos da coordenadora da escola. Olhava para o chão e tivemos dificuldade para que abrisse a boca para que a examinássemos. 
Tem 15 anos, e lhe faltam os dois incisivos superiores (os dentes da frente). Fala muito pouco e raras vezes olha para quem fala olhando nos olhos. Se esboça um ligeiro sorriso, logo a mão cobre sua boca. 
Assim Wanderson, dentista que faz a parte de próteses do nosso trabalho, decidiu que faria uma peça provisória no mesmo dia, para que ela usasse até maio, quando retornaremos com a definitiva. 
No dia seguinte à moldagem ela voltou, tímida como de costume, tão calada que mal podíamos decifrar a ansiedade por trás de sua já enraizada proteção. 
Wanderson, emocionado como sempre num caso como este, colocou a peça. A garota, em um segundo, voltou a ter os dentes da frente. 
- Agora vocês tem que convencê-la a voltar para a escola, faz um ano e meio que ela abandonou os estudos. - disse a coordenadora, olhos cheios de lágrimas. 
- E sabemos porquê ela saiu da escola, não é? - eu disse, em alusão à perda de seus dentes. 
A coordenadora começou a chorar  de emoção e saiu da sala, sem conseguir falar. 
Olhei para a jovem, agora usando sua nova prótese, segurando um espelho. Agora ela abriu um ligeiro sorriso, rápido, quase imperceptível, e voltou à antiga timidez, que só a abandonará com  o tempo, assim como trejeitos de não abrir a boca ou levar a mão à sua frente quando fala. 
Um pequeno sorriso, inversamente proporcional à alegria que dois dentistas ali sentiam. 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A troca

Que recepção! Chegamos na comunidade de Cachoeira do Norte, no município de Chapada do Norte. Descemos dos carros recebidos por uma grande parte dos moradores, cantando musicas locais de recepção a visitantes e batendo palmas. 
Depois dos cumprimentos, nos disseram que veríamos apresentações de um grupo regional de folia de reis. E assim uma banda formada por dois violões, percussão e muitas vozes, com as mulheres cantando nos tons mais altos, típicos das sertanejas do nosso país, começou a interpretar várias cantigas regionais. Estávamos recebendo cultura "na veia". 
O que nos deixava felizes era ver no grupo um bom número de adolescente e até crianças, dançando e curtindo com fervor a folia. Em muitos lugares onde vamos, uma tristeza dos mais velhos é que os jovens não de interessam mais por sua tradição, trazendo o medo de que a cultura se perca. Ali era diferente. 
Uma senhora me chamou a atenção. Estava com um alegre e saltitante pandeiro em sua mão. Com seus 60 anos, Sorria, dançava e tocava seu pandeiro com felicidade singular. Batia o instrumento com a mão e as vezes ate com o cotovelo. Que alegria. 
Dia seguinte, na fila de atendimento ela estava lá, sorridente, como no dia anterior. E assim ela se sentou em minha cadeira, olhou em meus olhos e disse "obrigado". 
Ali, eu teria a oportunidade de retribuir a linda apresentação cultural que ela havia participado. Para nós. Feliz, eu disse:
- Eu que lhe agradeço! 

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Pobres cavalos

Estamos saindo de Diamantina, rumo a nossa primeira cidade do Vale do Jequitinhonha, Chapada do Norte. Pelo que ouvimos, é muito provável que não terá sinal de celular, o que deve restringir a comunicação por estes primeiros dias.
Ontem de noite, a chegada foi uma aventura. A falta de placas na estrada - indicando Diamantina - fez com que passássemos a entrada por 140 km, tendo que voltar a mesma distância até o lugar correto. Em vez de chegar as 23h, chegamos às 3:15h da madrugada. As vezes acontece.
Assim que fizemos o retorno na estrada, a caminhonete se adiantou e a van seguiu uns 800 metros atrás, dirigida por Valter com Fernando ao seu lado. Um carro vinha na direção contrária e, logo após cruzar com a caminhonete, se movimentou bruscamente. Fernando viu algo apagar os faróis e alertou:
- Valter, acho que eles pegaram algo! Diminua.
O carro diminuiu e foi para o acostamento. Passamos ao seu lado e e motorista estava saindo, confuso e nervoso, de um carro muito avariado na frente. Vimos que as pessoas estavam bem e seguimos vagarosamente, atentos a qualquer coisa que pudesse estar sobre a estrada. Algo apareceu estirado sobre a pista, dois montes. No meio dela, um cavalo esta estirado, pegando as duas pistas. Outro caído no acostamento, apenas a traseira entrando no lado esquerdo.
O carro os atropelou, em boa velocidade, tendo a grande sorte de ter acertado cada um deles com uma lanterna, o que arrebentou apenas a frente do seu carro. Pegasse de frente e o animal seria jogado contra seu para-brisa, vindo para dentro do carro. Graças a Deus, o desfecho foi diferente.
Passamos assustados, mas agradecidos por nao ter acontecido nada de grave com o outro carro e por termos chegado tarde, mas termos chegado bem.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Mais uma

Olá amigos! Nada como a tecnologia. Escrevo este texto dentro da van do Instituto Brasil Solidário, enquanto viajamos para mais um trabalho. 
Faremos o projeto "Sorriso Solidário" no Vale do Jequitinhonha - próximo da divisa entre Minas e Bahia -, onde trabalharemos em 5 municípios nas próximas duas semanas. 
Tentarei fazer uma espécie de diário durante esses dias, postando histórias, novidades ou mesmo contando sobre nosso dia. 
Peço desculpas antecipadamente por eventuais erros de digitação ou pressa na hora de escrever. Na verdade, espero até que eu encontre sinal de internet por aquelas bandas. 
Seguimos em dois veículos, puxando duas carretinhas cheias ao máximo de sua capacidade, com todos os equipamentos, incluindo 3 cadeiras de dentista portáteis. Um Deles é uma caminhonete e o outro é uma van, onde vão 8 pessoas, onde escrevo tendo ao meu lado esquerdo o Vítor Pinduca (cinegrafista e editor), dormindo assustadoramente de boca aberta, e ao meu lado direito a Ana Elisa (coordenadora do IBS), arrumando o lay out da minha palestra. 
É sempre uma felicidade retomar para um trabalho. A saudade das pessoas queridas aperta, mas é abrandada pelo bem que o projeto nos faz e pelos grandes amigos de estrada. 
E é desta estrada que me despeço de vocês. Em breve trarei notícias. 
Um grande abraço a todos!

Wolber Campos

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Doutora brasileira: pontos de vista

Eles estavam na lancha, se encaminhando para uma comunidade ribeirinha, localizada no alto do rio Solimões. O céu, como de costume, estava fechado. Na Amazônia, havia dias em que de manhã estava um sol forte e intenso, algumas horas depois se nublava, prestes a uma grande chuva.
O calor, também como o costume, era intenso demais. Com o ar completamente úmido, o macacão da Marinha dava a impressão de cozinhar seu corpo, onde o suor escorria constantemente, mesmo com o forte vento que batia em sua face.
A lancha viajava muito mais rápido que o navio, assim poderiam atender algumas horas até que este os alcançasse, para seguirem viagem.
Chegaram em seu local de trabalho, atracaram a embarcação na terra e subiram o imenso barranco. Era uma época mais seca e o leito do rio ficava muito mais abaixo do que a margem e subir aquelas terras barrentas era uma grande dificuldade.
A comunidade ribeirinha, geralmente, se formava em uma pequena clareira na floresta. Vinte a trinta casas, quando muito, se espalhavam, rentes à "cortina" de gigantes árvores que as envolviam.
- Incrível como a floresta se impõe sobre nós - comentou com uma colega. A sensação era, realmente, como se as enormes árvores sufocassem tudo a sua volta.
As casas de palafita estavam como de costume, com as criações de porcos, bodes e galinhas debaixo de seus assoalhos, o que trazia um cheiro característico e forte a todas elas.
Enquanto se encaminhavam para a escola, onde fariam os atendimentos, muitas crianças correram ao seu redor. Essa cena era comum a cada chegada, mas daquela vez, a empolgação era maior.
- Doutora! Doutora! Vem ver a onça!! Vem cá!! - diziam, a puxando pela mão.
Seguiu atrás delas, pressentindo algo. Quando chegou em uma pequena roda de pessoas, bem próximo à enorme cortina natural da floresta, sentiu um arrepio por todo o seu corpo. Ali, estirada na grama, estava ela: uma linda onça pintada. Enorme, como havia visto apenas pelas fotos dos livros, amarela e rajada de manchas negras. Morta.
As crianças sorriam, os adultos orgulhosos. E a doutora não conseguiu esconder sua cara de espanto e tristeza.
Em sua frente, jazia um maravilhoso animal em extinção. Percebendo a feição de decepção da médica, um homem, de seus 40 anos lhe falou:
- Doutora, isso aqui não é brincadeira não. Já fazia um tempo que a gente estava atrás dessa bicha. Umas semanas atrás, ela matou uma das nossas crianças. E esse bicho é assim, viu que aqui tinha comida pra ela e ia voltar, até pegar outra.
Começou a se dar conta. Tinha aprendido desde os livros de escola, da importância de se preservar aquele lindo animal, em extinção. Mas ali, na floresta, o ser humano era mais um animal, lutando pela sua sobrevivência. Era a onça, ou o filho.
Fácil tomar decisões e ter suas verdades atrás de uma mesa, na capital. Ter seu filho brincando ao lado de uma onça faminta, é outra coisa. É outro ponto de vista.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Camisetas

Uma camiseta pode valer muito. E não pela marca, ou tecido, mas sim pelo que representa. Usamos um uniforme, que se torna a cara da equipe. A alma. Não à toa, professores e alunos, que passam a curtir o trabalho, nos pedem esperançosos uma.
Ele devia ter seus 15 anos. Falante e carismático, levava uma vida feliz, driblando com habilidade certa deficiência mental, que o levou a atrasar alguns anos na escola.
- Seu dentista, você me dá sua camiseta? - me perguntou amável, com os olhos brilhando atrás de seus grossos óculos.
Respondi que não podia, praticamente uma resposta ensaiada por anos a fio. Desse uma camiseta a cada pessoa que me pedisse, não daria conta, nem com uma confecção própria.
A noite veio. Nossa última naquela cidade do sertão bahiano. Dia seguinte, após o almoço, viajaríamos para outra cidade. Enquanto o cinema comunitário que levávamos era exibido, alguns alunos que fizemos amizade pediram para tocarmos violão e, assim, uma animada roda se formou. Ele era o mais empolgado, cantava quase todas as músicas com rara emoção, animando a todos. A certa altura, me olhou e pediu:
- Ô meu amigo, me dá um aí, e faz um sonzinho, que vou falar umas coisinhas pra todo mundo aqui.
Dei risada. Claro que ele não queria o nota de verdade, comecei a tocar algumas notas no violão, o que o fez abrir um largo sorriso, me fazer um sinal positivo, como quem diz "é essa aí mesmo!".
E começou a falar. Seus olhos, como de costume enquanto falava, ficavam fixos no horizonte. Foram palavras tão doces e bonitas, para nós da equipe, sobre nosso trabalho, dedicação, alegria, que emocionou a todos, inclusive professores e alunos que estavam presentes.
- E por isso pessoal, nós temos que agradecer a essas pessoas, que vem de tão longe, para ajudar e fazer o bem pra gente e pra toda comunidade! - disse por fim, e pediu uma salva de palmas, prontamente atendido.
Dia seguinte aquelas imagens ainda eram fortes em nossas mentes e corações.
- Onde está ele? - perguntei para um amiguinho que estava em minha sala.
- Num veio hoje não.
Perguntei onde morava. Ficava bem perto da escola. Antes de ir embora, eu iria até a casa dele, levar uma camiseta.
Muitos ficaram sabendo. Professores, que muito me pediam uma, estavam ali, mas nenhum me questionou.
Foi curioso. Na verdade, foi bonito. Saí da escola com dezenas de pessoas me seguindo. Nunca havia sentido aquela sensação. Uns chamavam outros, e diziam que nosso pequeno amigo ganharia minha camiseta. Crianças vinham sorrindo, algumas batiam palmas, professores acompanhavam felizes.
E foi assim até sua casa. Bati na porta, ele a abriu.
- Meu amigo, você não foi à escola, eu tive que vir até aqui pra trazer o seu presente. - disse entregando-lhe a camiseta do IBS.
Seus olhos brilharam, as palavras não saíram e ele me abraçou.
De repente elas saíram, vagarosamente, de um garoto emocionado que me abraçava olhando ao longe:
- Muito obrigado!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O amanhã

Ele olhava para a casa a sua frente. Nunca se sentiu nela como o nome sugere. Casa. Não era sua, não era de sua mãe, nem nunca seria.
Era estranho olhar para ela agora. Muda, como se nenhum barulho pudesse sair daquela porta. Nem mesmo pouco tempo atrás, quando batia, na esperança que alguém ouvisse. Que alguém o deixasse entrar.
Muda, era assim que sentia aquela casa. Era como se ela dissese para ele: "muda, menino".
E foi assim que ele decidiu. Não mais ficaria ali. Pensou melancólico "por que não se sentia tão triste". Talvez porque sua mãe, que deveria ser sua mãezinha querida, não o defendia. Não o recebia, quando ele chegava de noite, após a escola, cedendo ao padrasto, que o queria longe dali.
"Adeus", disse para si mesmo, com a angústia de quem seria ouvido por ninguém, além dele. Teria uma vida nova, teria sucesso, moraria com o padrinho e buscaria seus sonhos. Já tinha uma bicicleta. Um dia teria um mp3 e nem precisaria de sua mãe ou do padrasto para conseguir. Do alto de seus 12 anos encontraria sucesso naquelas terras do sertão da Bahia.
O amanhã? Que importa. Já tinha passado fome antes, se tivesse que passar de novo, não seria novidade alguma.
O lado bom de estar saindo de casa, praticamente expulso pelo namorado da mãe, é que tudo o que conseguisse, de hoje em diante, seria lucro. É a parte positiva de se sair do zero.
Amanhã será um novo dia, de uma nova vida. De um garoto novo. Ainda tinha sua vida inteira pela frente.
E agradecendo a Deus por isso foi embora, sem olhar para trás.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O trabalho

Olá amigos!
Este é o último vídeo do projeto que o Instituto Brasil Solidário realizou em parceria com as Casas Bahia no sertão, o Amigos do Planeta na Escola.
Geralmente posto as histórias de pessoas e bastidores de nossas viagens. Aqui segue um vídeo que mostra a finalização de um trabalho de 2 anos - renovado por mais dois. A parte oficial.
Podemos ver todas as áreas de atuação e bonitas imagens do sertão, captadas pelo cinegrafista e editor Vitor Pinduca.

Um grande abraço!

Wolber Campos


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A luz

No interior do Maranhão, mais precisamente na cidade de Nova Iorque, há uma professorinha. Uma esforçada professorinha - já retratada aqui em outras histórias - que muito lutou para se formar.
Quando a conhecemos, ainda era professora da escola da pequena comunidade onde mora e, assim, abriu as portas da sua casa para que parte da equipe se instalasse durante os trabalhos. Foi assim que conhecemos nossa família maranhense, além dela, um painho e mainha, e mais três irmãozinhos mais novos.
A casa ficava num sítio, distante alguns quilômetros da comunidade, por uma estrada de terra que, saindo do sertão, adentra por entre árvores verdes, buritis e algumas plantações. Não havia luz. Energia elétrica era um sonho distante, o que me fazia pensar "como o suco podia estar gelado no café da manhã, que nos preparavam as 6:30h, se não havia geladeira?". O segredo era nosso irmãozinho Bruno, que antes das 6 horas partia em sua moto para buscar gelo no vizinho. A velha hospitalidade sertaneja.
Um lugar onde nos sentimos em casa, onde há uma seresta na viola de noite, onde podemos tomar banho ao ar livre, olhando para as estrelas e ouvindo os animais na mata. Enfim, onde vivemos como uma típica família do sertão brasileiro. Uma típica família feliz.
2010 foi um ano de mudanças para nossa professorinha Régea. Trabalhou pela primeira vez conosco, em várias escolas do sertão, e se adaptou ao trabalho como se sempre fizesse parte dele. No fim do ano se tornou diretora de sua querida escola. Nada mais justo.
Nos primeiros dias deste ano, tocou meu celular. Era ela, do Maranhão.
- Irmãozinho, você não imagina a surpresa que tenho para te contar! - disse com felicidade.
"Virou prefeita?", brinquei. Com a força de vontade que tem, não seria impossível. Mas ela contou: a energia havia chegado em sua casa!
Demorou muito, muito mesmo. Mas veio. Ficamos contentes por nossa querida família maranhense, mas os lembramos de um antigo trato: a energia pode chegar, mas quando voltarmos para a casa, todas as luzes deverão estar apagadas e o nostalgico lampeãozinho deve estar aceso, para nos lembrar do gosto gostoso daquele nosso pedacinho de sertão.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Doutora brasileira: as flechas

Ela estava trabalhando em Manaus quando falaram:
- Doutora, o navio vai seguir viagem rapidamente para atender a umas tribos indígenas bem isoladas, próximas à fronteira.
A Funai havia entrado em contato com a Marinha e pedido um auxílio urgente. Muitos índios estavam morrendo por alguma doença e a situação piorava a cada dia. Um navio foi preparado para a longa travessia e os médicos embarcaram para a operação.
Foram em torno de 10 dias de viagem até chegar ao local. Saíram de Manaus pelo rio Solimões, adentrando em seguida no rio Içá, na região da tríplice fronteira (Brasil, Colômbia e Peru). Já próximo à Colômbia, subiam por um afluente para o norte. Na tripulação, além dos médicos e militares, seguiam membros da Funai e representantes das comunidades indígenas.
A região pode ser considerada o coração da Amazônia; o local mais distante da ação destruidora do homem branco, seja do lado do Brasil ou da Colômbia. Por este motivo ainda é o berço de tribos que vivem em total isolamento, onde raríssimos integrantes falam o português.
Ao se aproximar de uma das isoladas tribos, os tripulantes ouviram: "toc". Um barulho seco, como se o navio tivesse batido em um galho. Acharam estranho e de repente: "toc, toc toc!", o ruído se repetia agora mais vezes. Quando um deles descobriu a causa e comentou a um oficial.
- Senhor, estamos sendo recebido por flechas!
Era difícil de acreditar, nos dias atuais, ser recebido por flechas de índios, mas estava acontecendo e um dos representantes indígenas a bordo precisou sair ao convés, gesticulando e gritando para que eles soubessem que aquele navio vinha em missão de paz.
Em algumas tribos, outra dificuldade: não aceitavam o tratamento dos homens brancos, queriam ser curados apenas pelo pajé. Porém a morte rondava cada dia mais a muitos homens, mulheres e crianças e assim, acabaram aceitando.
- É sinal claro de malária, mas no navio temos um teste rápido, usando uma gota de sangue, para termos a certeza - comentou a doutora.
Assim diagnosticaram que era esta doença que vinha matando tantos índios. Mas o exame não seria tão fácil. Crianças e mulheres, muitas vezes em pior estado, tinham que esperar. Os homens, quase sempre, devem ser atendidos antes. E apenas as duas médicas poderiam atender as mulheres em algumas aldeias, visto que um homem de fora não poderia tocar em nenhuma mulher da tribo.
Após a luta para fazer o atendimento, como dizer que um remédio deve ser tomado de 8 em 8 horas para alguém que muitas vezes não sabe o que é um relógio?
- Olha, você tem que engolir esta bolinha assim que o sol nascer, outra antes de comer, quando o sol estiver alto, uma quando ele estiver se pondo e uma antes de dormir. - explicava a doutora para um índio traduzir ao doente.
Ficaram mais de duas semanas atendendo a várias tribos e voltaram felizes por terem ajudado, mas com algumas dúvidas. Será que deu certo? Será que eles tomaram a medicação - que salva e realmente cura a malária - corretamente?
Não sabiam. Sabiam apenas da felicidade de ter feito a sua parte.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Uma criança feliz - por Carlos Fonseca

“E foi naquele momento que senti um calafrio. Corrente, corda, martelo ou bambu? Não importa, maínha não teria a mínima chance de impedi-lo. Agora ela acredita quando digo que nunca desejei passar o fim de semana na sua companhia, e não me reprime mais por tê-lo xingado. No começo não entendia o que estava acontecendo, estava sendo punida mas não sabia qual teria sido a razão para tal violência”.

Quantos mil anos foram necessários para a evolução humana? Por que razão até os dias de hoje algumas pessoas imitam os mais primitivos instintos animais? Esta dura realidade retrata o dia-a-dia familiar de milhares de pessoas em todo o mundo. Olhar nos olhos de uma criança e sentir o medo, a tristeza, o desânimo; de fato lhe roubaram o que é mais admirável em uma criança: a inocência.
E foi numa manhã próxima do natal que estive numa casa que abriga crianças que foram retiradas de seus lares após sofrerem algum tipo de violência, entre as mais comuns está a violência sexual. Fui convidado a participar das comemorações de final de ano, e tive o prazer de conversar um pouco sobre a paixão de minha vida: odontologia.
Cada olhar atento, cada expressão de surpresa e admiração me deixava mais empolgado e feliz por estar ali. Em cada criança uma trágica história, um trauma para eternidade; meu dever, fazê-los esquecer de tudo aquilo, e transmitir um pouco de alegria e descontração, aprendendo e rindo para seguir em frente. Pode parecer um trabalho de “formiguinha”, pois bem, me orgulho em dizer que existem muitas espalhadas pelo mundo, e sua pequena contribuição certamente favorecerá para uma melhora significativa na vida de muitas pessoas.
Estava sentado no sofá, com mais 20 amigos voluntários, assistindo a uma apresentação das crianças, e um menino se aproximou e me abraçou. Olhei para ele e perguntei em pensamento: - Por que uma criança tão indefesa como essa merece passar por tudo isso? Por que eu tive uma infância tão feliz ao lado de meus pais e aquele menino carregava tantas marcas de violência e rejeição?. Inesperadamente ele mesmo sorriu e me respondeu:
- Não se preocupe tio, eu sou feliz!
E foi naquele momento que senti um calafrio...

Carlos Fonseca é dentista, 27, e realiza projetos sociais. Uma vez por ano também viaja ao sertão com o Projeto Bandeira Científica, ligado à USP