segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Carnaval

Nada mais genuinamente brasileiro do que o carnaval. Duas coisas podem salvar a vida de brasileiros em enrascadas no exterior: uma falar sobre o carnaval e outra mencionar sobre o Pelé. Cada uma dessas palavras provoca quase sempre uma reação positiva e um sorriso no ouvinte.
Há dois anos atrás resolvi desfilar em uma escola de samba, aqui em São Paulo. Como um bom amante do rock and roll não sou um grande fã de samba, mas sempre senti vontade de participar de algo tão brasileiro.
Foi emocionante. Ouvi poucas vezes o enredo da escola antes do desfile, mas quando o puxador gritou o nome da escola e a bateria começou a tocar, não houve quem não se arrepiasse.
Ao entrar na avenida, a arquibancada cheia vibrava e ali, o mais humilde dos paulistanos, cantava sob sua impecável fantasia e sentia a multidão o ovacionando.
Foram poucos minutos. O bastante para sentir toda a emoção que um sambista sente pulsando em seu peito. O bastante para sentir o que é o carnaval. O bastante para me sentir mais brasileiro.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Muros (Zazu)

Sentado na calçada, em frente sua casa, Zazu enrolava seu cigarro de palha e observava a casa nova que seu vizinho construíra. Uma bonita casa, com um grande muro na frente e um portão, que ao abrir permite a entrada de dois carros.
"Parece casa de cidade grande", pensou, com um ligeiro aperto em seu coração, imaginando se um dia o sertão de que tanto gostava se pareceria muito com os grandes centros.
Olhando aquela casa, pensou no absurdo desse detalhe: o muro. "É um absurdo termos muros, totalmente! Tê-lo em frente às nossas casas significa que temos que proteger nosso patrimônio de alguém, que queremos evitar que entrem em nossas casas quando não estamos ou até pior, nos proteger quando estamos lá dentro."
O que há com as pessoas para não respeitarem os outros? Como eu posso, simplesmente, tentar tomar algo que não me pertence? Que direito eu teria de tornar a outra pessoa infeliz, retirando aquilo que lutou tanto para conseguir?
Realmente, o muro é a personificação de todo esse absurdo. De nossa preocupação para que outros não queiram tomar o que é nosso indevidamente.
Concluiu: "prefiro as pontes, que unem, aos muros que separam...".

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Encontros e desencontros

Mulheres e homens vivem em encontros e desencontros.
Quando tem 12 anos a menina começa a deixar de lado a boneca. A brincadeira de casinha começa a ser levada mais à sério, já pensando em sua vida após o casamento. Começa a gostar dos meninos, mas não pelos da sua classe, que são terrivelmente infantis, mas por aqueles de 15 e 16, que já são mais maduros.
O menino de 12 não está nem aí, não gosta daquelas meninas chatas mesmo. Quer saber é de jogar futebol e video-game.
Aos 15 ou 16, a garota já deixa de brincar, com qualquer coisa. "Deus me livre, parecer uma menina!", afinal, já é uma mulher muito madura. Não liga pros meninos da sua sala, eles são incrivelmente infantis, mas sim para aqueles que estão se formando no colégio e entrando na faculdade. Esses sim são mais maduros.
O garoto de 15 ou 16, já começa a se interessar completamente pelas garotas de 15 ou 16, pena que elas não dão bola. Se interessa, mais ainda, por aquelas que estão quase se formando. "São gostosíssimas!", mas infelizmente, lhe dão menos bola ainda. Também se interessa por aquela professora, gata e novinha, que dá aula para o primário. "Ah, se ela me desse bola...". Acha também que, se a tiazinha que serve a merenda desse bola, ele não desperdiçaria a chance.
A mulher de 18 ou 20 anos já se interessa pelos rapazes de sua classe, apesar de achá-los ainda infantis, porém, são engraçados. Mas prefere aqueles que estão quase se formando: muito mais maduros. Aquele professor, quarentão e bonitão, que vive jogando charme em cima dela, lhe dá um friozinho na espinha, mas gosta só de provocá-lo. Gosta daquele rapaz bonzinho, bonito e já maduro, até fica com ele, mas prefere aquele cachorro, descolado, bonitão, imaturo, que a deixa louca porque fica com todo mundo.
O homem de 18 ou 20 anos se interessa muito pelas mulheres de sua classe, fica com um monte delas, mas também se interessa por algumas veteranas. Fica com elas também. Vive saindo para festas e baladas cheias de mulheres, também fica com muitas delas. Fica com todo mundo. Fica também com aquela garota de 15 ou 16 anos que se interessa muito pelos homens dos 18 ou 20 anos, que estão entrando na faculdade. Fica com as amiguinhas dela também.
A mulher perto dos 30 trabalha muito, pensa na carreira e em sucesso profissional. Cansou de rapazes galinhas e imaturos. Namorou com algum deles, sofreu um bocado. Hoje pensa: "o que viu neles?", não tinham conteúdo algum. Ah, se voltasse atrás namoraria aquele rapaz bonzinho, "que partidão!". Procura algum do mesmo tipo, mas não se acha mais homens assim hoje em dia: estão todos namorando.
O homem perto dos 30 também trabalha muito, pensa em sua carreira e em sucesso profissional. Os bonzinhos se dão bem: chegou a época em que são completamente valorizados e suas ações estão lá no alto, subindo cada vez mais. Os galinhas não entendem muito bem porque a procura por suas ações caíram tanto. Tenta virar bonzinho.
Depois dos 30, mulheres e homens finalmente se encontram. Ambos passam a se curtir mais, na mesma idade, afinal de contas, estão maduros. A partir daí, erros e acertos já não dependem mais da idade. Se unem e se tornam felizes quando conseguem enxergar que o importante é tentar amadurecer juntos, a cada dia mais, e passar os anos vendo filhos e netos continuando a mesma busca.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Beatles

Sou um grande fã dos Beatles. Conheci sua música antes mesmo de ter algum conhecimento musical significativo, aos 7 anos. Morávamos em um bairro bem residencial, daqueles em que as crianças ainda brincavam na rua - de terra -, tinham uma porção de amigos e cada época do ano tinha suas aventuras: pipa, peão, taco (que muitos conhecem como betis), isso sem contar as que corriam todos os dias do ano como o futebol no "golzinho" formado com duas pedras no chão, pega-pega, esconde-esconde e tantas outras.
Nessa época, Michael - meu irmão mais velho - já tnha 12 anos e junto a alguns amigos já vinham desenvolvendo seu gosto musical (que graças a Deus ia certeiro para o rock, e não para o pagode...). Toninho, que tinha a mesma idade, ouviu um disco, um bom e velho vinil, em sua casa e correu para mostrar aos amigos:
- Ouvi esse disco da minha irmã. Olha que legal! - e apresentou os Beatles para meu irmão e Alex, outro amigo da rua.
Os três "piraram"! Acharam aquela banda boa demais e passaram a escutar qualquer coisa que se tratasse dos Beatles.
Algo digno de nota, é que isso ocorreu em 1984. Já fazia 14 anos que os Beatles tinham acabado - bem antes de nascermos -, 4 anos que John Lennon havia sido assassinado, e o rock já não tinha mais aquela potência dos anos 70 (tirando raras excessões como Van Halen e Police).
Com isso penso na força e qualidade dessa perfeita banda. Depois de anos e mais anos, sua música conseguia despertar interesse e admiração em uma turma de 12 anos - e numa criança de 7 -, sem que ninguém a apresentasse e dissesse: ouça.
Foi questão de dias para decidirem formar um cover dos Beatles. Michael seria o John, Toninho o Paul, Alex o George e eu - que andava pra cima e pra baixo com eles - o Ringo. Claro que nosso cover se limitava a dublar os discos que rolavam nas festas e imitar as guitarras com papelões desenhados. No meu caso pegava dois gravetos, uma mesinha e estava criada a bateria. Animávamos algumas festinhas da turma.
Essa nostalgia, misturada a uma total admiração musical, fez os Beatles terem um significado todo especial pra mim e guiar todo meu gosto pela música.
Hoje vinha escutando no carro um cd deles e me ocorreu um pensamento preocupante: "será que, com os anos, essa música vai perdendo sua força?". Afinal de contas, quantas novas bandas surgiram e os anos 60 a cada década fica mais longe (me desculpem o pleonasmo).
Logo concuí que não, imagino que os Beatles serão eternos. Nós, os fãs de música, demos sorte de sermos contemporâneos desses gênios, pelo menos de suas vidas - Paul e Ringo ainda estão vivos. Uma música tão boa e criativa sobreviverá sempre. Não a toa, ainda hoje ouvimos Mozart, Beethoven ou Vivaldi, não importando se são de 1800, 1700, ou seja lá que ano for. A música clássica é eterna. O rock também.
Por isso hoje, depois de mais de 40 anos de seu fim, os Beatles estão tão fortes como antes. A cada ano são lançadas novas coletâneas, caixas de cds, regravações e a atual febre: o Rock band dos Beatles. Um jogo para video-game que está fazendo muitos novos fãs, que antes só ouviam as músicas mais conhecidas.
Com tudo isso, não duvido se um dia meus filhos formarem uma bandinha cover desses caras.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Cofrinho

Ela entrou sorridente, apesar de estar sentindo dor de dente e do rosto inchado do lado esquerdo. Sentou-se no sofá da sala de espera e pacientemente esperou que eu terminasse de atender o paciente que já estava na cadeira e outro que esperava a um bom tempo sua consulta.
Me lembrava dela, uma garota que havia passado no final do ano passado, também sentia dor no mesmo dente. Eu havia limpado, posto um medicamento e explicado a necessidade de tratar o canal, infelizmente um tratamento que não é barato.
- Você pode dividir em quantas vezes precisar, mas precisa começar em breve, antes que o medicamento perca seu efeito e o dente volte a incomodá-la. - expliquei na época.
"Porque não veio fazer o tratamento? Agora o dente voltou pior ainda...", pensei.
Muito simpática, entrou na sala e disse que não pôde tratar no fim do ano, pois estava sem dinheiro, mas agora faria, mesmo que precisasse dividir em muitas vezes, o que eu confirmei que poderia fazer.
Como da outra vez, limpei o dente e passei uma medicação para a infecção que havia inchado seu rosto.
Sentamos na mesa, onde expliquei como seria o tratamento e, ao final, ela me perguntou quanto havia sido a emergência.
- Quarenta reais.
- Ai que bom! Foi exatamente o que eu trouxe! - disse animada. - Abri meu cofrinho e juntei o dinheiro que eu tinha lá.
Até pensei que estava brincando, mas ela colocou um saquinho plástico sobre a mesa e começou a contar "um, dois, três, quatro...".
- Pronto, aqui tem trinta. - e me entregou trinta moedas de um real.
Levou mais algum tempo para contar as outras, de cinquenta, vinte e cinco e dez centavos. No fim ficou triste e disse meio envergonhada:
- Nossa, só deu 38 reais, eu tinha certeza...
Checou em seu bolso e sorriu feliz:
- Ah, tenho uma nota de dois reais! - disse e me entregou, entre alegre e aliviada. Como se eu fosse me preocupar ou ficar bravo pela falta de dois reais.
Saiu sorrindo como entrou, dessa vez sem dor, pensando que dessa vez faria o tratamento.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Desmatamento

No caminho para meu consultório, passo pela Granja Viana, um bairro muito bonito e aconchegante, pode se dizer até elegante e charmoso. Um local onde há condomínios com suas casas bonitas, vivendo em harmonia com a natureza.
Ali estão também restaurantes que nos fazem sentir como se estivéssemos no interior, algo como Monte Verde ou Campos do Jordão.
Em alguns pontos da avenida São Camilo - que corta a Granja - vê-se uma mata tropical densa ao lado da pista. Moradores da região contam orgulhosos que, em seus quintais, pequenos macacos os visitam para comer as frutas deixadas nas vasílias.
Certa manhã observei uma placa em frente a um desses pedaços de mata densa: "Breve: condomínio Alphaville Granja Viana".
Aquilo me deixou preocupado, como se previsse o que estaria para acontecer. "Onde eles levantarão um condomínio por aqui?", pensava. Não seria possível que alguém desmataria toda aquela região. Hoje em dia há uma proteção ambiental grande, principalmente dentro da cidade. Valter, um grande amigo ambientalista, me disse que "se você cortar uma árvore da sua rua, a prefeitura lhe dará uma multa enorme e ainda terá que plantar outras árvores".
Mas era possível. Difícil explicar a dor no coração que tive ao passar num sábado de manhã e observar, incrédulo, que haviam cortado todas aquelas lindas árvores que haviam ali. E olha que nem moro na Granja, imagino a dor dos vizinhos.
Esses, relatam um grande número de macacos que, assustados, entram em seus quintais, expulsos de seu lar. Imaginamos o número de animais mortos.
Passeatas de moradores ocorreram e - graças ao bom Deus! - embargaram a obra.
Hoje, alguns meses após o desmatamento, vemos um terreno completamente nu de vegetação, terra, barro e tratores parados, como cães famintos sobre um bom bife, esperando a hora de continuar sua furiosa destruição.
Não se pode, simplesmente, liberar essa construção com a desculpa do "mal estar feito, agora que já foi tudo destruído". esse mal exemplo será seguido sempre: destruímos o verde primeiro e depois, como não há o que fazer, construímos cimento em cima.
Será que algum dia isso tudo vai mudar?
Tirei algumas fotos do local.


Um dos trechos arborizados da avenida São Camilo, ainda não destruído por algum novo condomínio de luxo



Área desmatada pelo "futuro"(?) condomínio. Os tratores esperam estacionados (e ansiosos).

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

As mulinhas

Gostaria de pedir às pessoas com problemas cardíacos, que se assustam facilmente ou não suportam emoções fortes, que não prossigam a leitura das próximas linhas.
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Bom, se você desceu até aqui é porque é corajoso e não tem os problemas descritos anteriormente. Ou porque é teimoso e curioso mesmo! Bom, não digam que não avisei...
A história a seguir trata de um assunto forte, polêmico, até certo ponto engraçado, ou melhor, muito engraçado! Mas que muitos podem achar um absurdo (não que eu não ache também, é claro).
Bom, chega de papo e de enrolações, falaremos agora sobre as mulinhas safadas do sertão. O título poderia ser outro, mas em um assunto "caliente" como esse, o eufemismo cai bem.
Já havíamos, há muito, ouvido a história de que alguns garotos do interior, tem uma relação com alguns animaizinhos que, digamos assim, passa da amizade. Mas nunca havia encontrado algum que admitisse e não sentisse vergonha em tocar no assunto. Isso até conhecermos Antônio.
Hoje já está próximo aos 30 anos (e não come mais mulinhas, deixa bem claro), mas nos conta de suas zoo-aventuras sexuais de quando tinha 12 anos.
- Ah meu amigo, você imagina: um monte de moleque de doze anos, tinindo que só, sem mulher pra chegar perto, não podia prestar mesmo... - conta entre risadas.
A turma não era pequena e todos ali partilhavam do mesmo segredo. Era quase uma sociedade secreta e a história que os unia realmente fazia o silêncio ser respeitado; era questão de honra.
- Geralmente um cabra não ia sozinho, porque era preciso acalmar a mula e prender as patas da frente, para que ela ficasse abaixada assim... - disse levantando a bunda para trás e soltando uma gargalhada.
E comentou que os garotos faziam fila para saciar seu instinto carnal, que na época praticamente saía pelos poros.
Pobre mulinha, violentada. O que se passava na cabeça do pobre animal? Poderia até estar chorando... Aí, é que nos enganamos.
- Dotô, a bicha gostava. Era safada!
Segundo Antônio, a mula não só gostava como pedia mais. Todos os garotos reclamavam da mesma coisa:
- Olha, era de dar vergonha no caboclo. Você as vezes estava conversando com alguma menina e, se a bicha te visse, vinha para o seu lado, virava a bunda e ficava com a bitela - lê-se: xoxota - abrindo e fechando assim, querendo vara! - disse abrindo e fechando a mão direita - Aí era um perigo o cidadão ficar conhecido como "comedor de mula".
Era consenso entre todos os garotos: as mulinhas reconheciam seus casos amorosos, cada um deles. Não sabem se era pelo cheiro, visual, ou seja lá o que for, mas sempre que um da turma se aproximava a mula safada ficava doida. E olha que não era só uma mal-amada pela cidade.
- É, a gente variava, mas sem que uma soubesse da outra, é claro.
Pois é, ainda bem, se é como dizem, seria um perigo ocorrerem brigas de ciúmes pela cidade. Sobraria coice para todo lado...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O bicho homem (Contos de zazu)

Depois do encontro com o novo amigo, Zazu chegou em casa pensativo. Realmente o homem, cada vez mais, perde o contato com a natureza e isso o deixa mais infeliz. Fato: o homem é o animal mais infeliz de todos!
Que estranha – e triste! – conclusão. Mas é verdadeira. Alguém já viu um macaco entrar em depressão porque não encontra sua banana preferida? Ou uma vaca sofrendo porque não tem o capim verdinho como o da sua vizinha? Não, realmente os animais não dão importância a essas coisas, mas nós...
Zazu imaginava uma conversa – se fosse possível, é claro – entre o garoto que havia levado à cachoeira e um pequeno grilo que estava ali, participando do momento, sobre uma folha verde e úmida.
- Nossa, hoje volto para casa, meu último dia de férias. Amanhã volto a trabalhar... – diria triste e cabisbaixo.
O grilo olharia confuso, pensando no motivo daquela tristeza toda, se ele mesmo escolheu esse caminho. “Boa sorte”, pensaria o pequeno animal, e voltaria ao seu pedaço de paraíso, podendo aproveitá-lo hoje, amanhã, e depois, sem ao menos fazer idéia do que é uma segunda, terça, ou quarta-feira.
O sábio sertanejo pensava na arrogância do homem, um ser que se acha superior a todos os outros animais, apenas por ter o intelecto mais desenvolvido, como se, houvesse uma evolução entre as formas de vida, a espécie humana seria o último degrau a se ultrapassar.
Pobre homem, criou tantos problemas para si, vive em uma competição cruel com seu semelhante em vez de conviver em harmonia, criou cidades que esmagaram a natureza sob seu asfalto, criou a própria sociedade que vem nessa loucura, como uma roda descontrolada, fazendo com que entremos nela e nem nos perguntemos se há outro caminho. Apenas continuamos a empurrá-la...
“Claro que fizemos – e fazemos! – muitas coisas boas, mas infelizmente não aprendemos ainda a conviver em paz com tudo isso". - pensou, um tanto quanto amargurado.
É Zazu, pensar as vezes nos deixa melancólicos...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Empatia

Uma das características que acho mais importante para se cultivar é a empatia. A capacidade de se colocar na situação da outra pessoa é algo fundamental para um bom convívio, pode nos livrar de enrascadas e nos deixa mais pacientes e compreensivos.
Perto de meu consultório, sempre me indaguei o porquê das pessoas andarem pela rua e não na calçada, como o normal - e o lógico.
"Que cara folgado!", pensava ao desviar o carro de uma pessoa, que andava à beira da pista, me aproximando de outro veículo que vinha em outro sentido.
"Custa andar na calçada?", voltava a pensar, gastando energia e me tornando um ser mais e mais impaciente.
Quando não exercitamos a empatia, às vezes, a vida nos joga na mesma situação, como se dissesse "não pensou por bem, agora toma!".
Já faz um tempo que vim a primeira vez de ônibus - ainda hoje, vez em quando, venho -para o trabalho, mas aquele dia entendi o motivo. A calçada, em 90% do trajeto, é destruída. Cheia de pedaços de pedras, terra, barro, que dá medo de torcer o tornozelo ou tomoar um tropeção, além de degraus durante várias partes da subida (ou, descida, claro). Sem contar em dias de chuva, que o barro deixa a cena ainda mais bizarra!
Não há, infelizmente, como não andar pela rua, um pouco mais constante e sem tantos buracos.
Se tivesse pensado um pouco mais nos motivos daquelas pessoas em andar pela rua, talvez eu desviaria delas - a muito mais tempo - como hoje: mais tranquilo e dando maior espaço para não preocupá-las se o carro vai passar muito perto.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O banho

Já contei, algumas vezes, a história de uma grande amiga nossa do sertão do Maranhão: a professora Régea. Quando estamos a trabalho na região, para sua família, é questão de honra que "pousemos" em sua casa. Somos, de tal forma, "da família", que todos os irmãos nos tratam como "maninhos". Seus pais nos consideram filhos.
O carinho chega ao ponto de prepararem nossas camas como se fosse um hotel e em nossa última visita - na formatura da Régea -, Glorinha (uma das irmãs) havia bordado meu nome, do Vítor e do Luis, em três novas toalhas, que descansavam enroladas sobre cada cama.
Em sua casa, ainda hoje, não há energia elétrica, o que nos faz pensar no trabalho que Bruno - nosso "irmãozinho" local - tem para colocar o gelo no suco geladinho sobre a mesa, logo quando acordamos, perto das 6 horas da manhã.
O banho é de "cumbuca", com a água recém tirada do poço, que fica a alguns metros da casa. Levamos então um balde cheio para um "box" de tijolos a 4 metros do poço e, ao ar livre, tomamos um delicioso banho sob as árvores.
Filmei a retirada da água do banho no poço, infelizmente pouco se houve do que falo, não que fosse algo interessantíssimo ou imprescindível para o entendimento, mas apensa explicava o mecanismo de retirada de meu banho. Segue abaixo o vídeo, praticamente um "expert" em tirar água do poço...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Coisas de que gosto

Eu gosto mesmo é de um dia ensolarado, de calor, de céu azul, quase "de brigadeiro", porque até mesmo algumas nuvens fazem desenhos que o deixam mais bonito.
Ah, mas eu também gosto do frio, mas só um pouco - bem menos do que o dia ensolarado e quente -, só pra dar aquela vontade de entrar embaixo das cobertas com meu benzinho e ouvir ela sussurando em meu ouvido "me esquenta".
Gosto de muitas coisas, até mesmo das que, muitas vezes, acho que não gosto. Gosto, por exemplo, de um dia de muito trabalho, mas muito mesmo, até estressante, só pra chegar naquele velho barzinho e encontrar um grande amigo, pedir um choppinho bem gelado, dar um gole, olhar para o amigo-irmão e dizer: "Brother, você nem imagina que dia eu tive hoje...".
Gosto de pegar uma boa revista, novinha, assim que ela chegou na minha porta e, antes de olhar para a matéria de capa - que estou muito curioso em saber qual é - chegá-la próximo ao meu nariz e sentir aquele gostoso cheiro de "revista nova".
Gosto até de trabalhar. Mesmo que eu pense bem antes de escrever isso, mas quando penso bem, eu gosto de trabalhar. E dou graças a Deus, que eu trabalho no que gosto e chego à conclusão, neste momento, que isso é a coisa mais importante de tudo o que poderia ter profissionalmente!
E já que toquei no nome Dele, gosto de Deus. Gosto tanto que me sinto triste de pensar que há pessoas que não gostam, ou não acreditam Nele, pois mesmo que ele não existisse, acreditar Nele já torna a vida mais feliz.
Gosto de pensar positivamente. De imaginar que o ser humano tem jeito sim! De criar em minha mente a imagem de que todas as nações viverão em paz. Que um dia judeus e palestinos vão parar para pensar a insanidade de se odiar. Que, antes de tudo, eles fazem parte da mesma espécie, são o mesmo animal homem e que se existe um Deus, é o mesmo para um e para outro, então que insanidade é tentar matar o outro em nome de um mesmo criador.
Gosto de - e preciso! - imaginar que a Terra será um bom lugar para se viver em alguns anos. Que as previsões sobre colápsos climáticos estarão erradas, simplesmente porque os governantes agirão da melhor forma para melhorar as emissões de carbono do planeta.
E nisso tudo, também gosto de acreditar que os político brasileiros não mais pensarão em melhorar apenas as suas vidas e pensarão em melhorar a vida de seus semelhantes, do povo brasileiro. Não porque terão medo de uma revolução que possa acontecer pelos absurdos que aparecem dia após dia unido à pobreza de grande parte da população. Gosto de acreditar que antes disso, eles possam se dar conta que todos os brasileiros, todos nós, estamos no mesmo barco e, se ocorrer algo ruim, o barco pode afundar, não importa se você é o operário dos motores ou o capitão, afundará também.
Como Poliana, eu gosto de procurar o lado bom de tudo, mesmo que ele seja pequeno ao ponto de ser difícil de achá-lo. E isso faz a vida mais gostosa. Isso faz eu gostar mais da vida. Eu, na verdade, gosto mesmo é de viver!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Luiz Gonzaga

Este sábado fui de ônibus para o meu trabalho. Como é um pouco longe e depois que desço da condução ainda há um bocado a andar, geralmente vou de carro, mas o transporte público tem algumas boas vantagens.
Gosto de ler e é sempre muito bom sentar-se, abrir um livro e lê-lo durante toda a viagem, algo impensável quando dirijo um carro, além do trânsito intenso e gastos com combustível. Se tivéssemos um transporte público decente, quantos trabalhadores não deixariam seus carros para aproveitar esse meio.
No caminho a pé - pós-ônibus - percorro o mesmo trajeto de quando estou no carro e este sábado estava um dia, realmente, muito bonito. O céu estava bem azul, com poucas nuvens e, próximo ao consultório, há uma grande praça, bem simples, mas bonita, com uma grama bem verdinha e aparada.
Vendo este cenário, me veio à cabeça como era sábio nosso velho e querido Luiz Gonzaga. Há muito tempo conhecia sua música "Estrada de Canindé" - que aliás, gosto muito! - e entendia o que ele queria dizer, mas somente este dia, senti, exatamente o que a letra declama:

"Artomove lá nem sabe se é home ou se é muié
Quem é rico anda em burrico
Quem é pobre anda a pé
Mas o pobre vê nas estrada
O orvaio beijando as flô
Vê de perto o galo campina
Que quando canta muda de cor
Vai moiando os pés no riacho
Que água fresca, nosso Senhor
Vai oiando coisa a grané
Coisas qui, pra mode vê
O cristão tem que andá a pé
Ai, ai, que bom
Que bom, que bom que é
Uma estrada e uma cabocla
Cum a gente andando a pé
Ai, ai, que bom
Que bom, que bom que é
Uma estrada e a lua branca
No sertão de Canindé"

Haviam pessoas correndo, crianças com seus pais, mesmo bem cedo, brincando, o sol bem brilhante iluminando e grama verde em contraste com o céu azul. Coisas que, sempre ao passar apressado de carro, eu nunca havia prestado a atenção necessária.
É velho Gonzaga, agora posso dizer que te compreendo bem!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Riqueza

Ele é um dos homens mais ricos do mundo. Não, ele não saiu no ranking da revista Forbes. Tampouco trabalha com investimentos ou sabe algo sobre a bolsa de valores.
A riqueza é uma grandeza muito difícil de se mensurar. Comumente é atribuída à quantidade de dinheiro que um indivíduo possui, simples assim. Um dos significados dessa palavra é "abundância" e partindo desse ponto podemos definir um homem rico por outros valores. Nos nossos atuais dias de stress, trânsito, violência, intolerância, um dos pontos mais almejados é a qualidade de vida. Paz, sossego, amor da família, contato com a mais pura natureza, são valores enormes que qualquer homem sonha alcançar e, na maioria dos casos, ter muito dinheiro não ajuda a comprar isso. Pedro (não é o pedrinho das histórias anteriores) mora em Carolina-MA, uma cidade conhecida por suas lindas cachoeiras. São várias para se conhecer; completamente estruturadas, com lanchonetes e cobrança na entrada ou mais escondidas e pouco visitadas.
Sua casa é simples, de madeira, bem aberta, sempre recebendo o clima agradável da região em seu inteiror. Redes presas nas paredes ou nos pilares embalam suavemente o sono tranquilo de sua família. O quintal - local onde montamos um cinema na noite anterior, sob um céu estrelado - da casa não segue muito longe, pois alguns metros depois, acaba em uma enorme e linda cachoeira.
O pouco tempo em que tivemos o prazer de nos hospedarmos em sua "humilde" (e aqui, as aspas podem ser entendidas da maneira que o leitor preferir, uns podem achá-la humilde mesmo, outros podem achar a casa dos seus sonhos...) residência, ouvíamos o tempo todo o delicioso som, constante, da queda d´água.
Me lembrei daqueles objetos que colocamos em nossas casas que derramam uma água constante para dar um "ar de paz" ao local. Pedro tem uma cachoeira dos sonhos, enorme, em seu quintal que dá um "barulhinho" eterno, real e puro para sua família. Não é para qualquer um. Mas para ele é fácil: é um dos homens mais ricos do mundo mesmo.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Experiências (por Carlos Fonseca)

Estou numa enrascada, preciso expor-lhes nas próximas frases uma sensação. Diria na verdade um sentimento, um estado d´alma. É interessante essa natural dificuldade de transpor em palavras determinados acontecimentos, acho, pois que esta deve ser a razão de cada um ser detentor de suas próprias experiências, ou seja, por mais que uma pessoa tente ensinar ou mostrar uma experiência que teve, somente sente a boa sensação de lembrança, aquela nostalgia solitária e distante, quem viveu.
A experiência é sempre única, e diferente até mesmo para duas pessoas que viveram um mesmo acontecimento, mesmo porque, o importante é a maneira com a qual cada indivíduo interpreta as situações e a relação que mantém com outras experiências já vividas. Portanto, se julgamos únicas as experiências, não podemos mensurar qual delas é mais importante, ou maior, ou mesmo entre duas pessoas da mesma idade, qual delas possui maior experiência, ou experiências “mais importantes”.
Pois bem, vivi no final de 2009 uma experiência única, daquelas que quando paramos para avaliar, mal sabemos mensurar os momentos mais marcantes.
As relações que os seres humanos mantém entre si, independente da classe social ou região do mundo, são fantásticas! E é exatamente nesses momentos, longe de casa, que percebemos a grandeza e a riqueza que um singelo país pode ter. Pessoas que seguem um cotidiano completamente diferente do conturbado mundo paulistano, e que desfrutam, dentre outras coisas, de ar limpo, céu azul ou estrelado, terra produtiva avermelhada, água cristalina e pura; fauna e flora rica e natural. Mal sabem o significado de palavras como trânsito, poluição, assalto... Enfim, vivem vidas dedicadas à família e à agricultura de subsistência.
Mas não sejamos superficiais e generalistas, pois assim como toda região povoada, temos também aqueles que gozam de uma vida um tanto menos simples. Filhos de fazendeiros, empresários, comerciantes... Jovens, a grande massa da população economicamente ativa, que buscam em cidades vizinhas talvez a única grande vantagem paulistana, a formação profissional. Eu, como observador e espectador, fico fascinado em ver tamanha semelhança e ao mesmo tempo tamanha diferença para com a juventude paulista.
Todas as afirmações e questionamentos assim como a reflexão de cada acontecimento recebem seu devido valor num dado momento; em que entramos no ônibus retornando a São Paulo. Daí sim, presenciamos um confronto de sentimentos. São muitas informações transferidas num dia-a-dia alucinante, e finalizadas com uma simples despedida, um adeus que compacta tudo que foi apreendido e nos permite, individualmente, terminar estes dez dias com uma experiência única!

Carlos Fonseca é dentista, 26 anos, e faz parte do Projeto Bandeira Científica, da Universidade de São Paulo. A experiência acima, foi em sua última Expedição, em Ivinhema-MS (12 a 22/12/2009)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Dona Heloísa

Era uma senhora alta, magra, de seus 60 anos, com a força da mulher sertaneja e um sorriso sempre presente no rosto. Acompanhava a netinha, que seria atendida por mim, e como é extremamente simpática, a conversa fluiu facilmente.
A encontrei no final da tarde, na frente da escola, onde me agradeceu pelo atendimento ao seu pequeno tesouro: a neta. Continuamos a conversa, disse que hoje está aposentada e o pouco que ganha cuida da casa e da pequenina "com todo o amor do mundo".
Fiquei surpreso ao conhecer sua história. Foi professora, mas abandonou a carreira para seguir uma nova, que dava mais dinheiro: cafetina de um cabaré.
- Não acredito, Dona Heloísa. Sério? - perguntei.
- É, meu filho. Mas eu não fazia programa não, que eu não sou desavergonhada. Eu tomava conta das meninas, como uma mãe e cedia a minha casa. - contou.
E me disse como é o funcionamento de um cabaré no sertão do Brasil, algo que eu não imaginava, nem de longe, como seria.
A imagem que se tem de uma dessas casas é de uma dona que colocava as meninas para trabalhar em troca de lugar para dormir e ficava com o dinheiro do programa, dando a elas uma porcentagem do ganho.
Segundo Dona heloísa o esquema é bem diferente. Me explicou contando sua história.
Quando seus pais morreram, deixaram uma grande e espaçosa casa que ela reformou e decidiu transformar num cabaré. Ficou um lugar lindo, "uma casa bonita e espaçosa, com uma piscina grande no jardim bem cuidado", em suas palavras. Nesse grande espaço faziam até churrascos durante o dia, clientes nadavam na piscina e festas às luzes das estrelas.
- Construí vários quartinhos de dormitório, porque, você sabe, as meninas vem de longe. Não se pode ter menina da cidade numa casa dessas, dá problema. Que homem vai pular a cerca arriscando alguém da cidade contar pra todo mundo? Ligava para uma agência na capital que me mandava as meninas.
"Elas não podiam conhecer, nem fazer amizade com ninguém da cidade. Tinham uma "lei do segredo".
Fiquei surpreso! Não imaginava que havia algo tão bem organizado para esse meio. E imaginei, com tristeza, a semelhança de importar meninas como se fossem um produto.
Disse que a maioria das "raparigas" vinham da capital ou de alguma cidade grande que ficasse mais próxima de lá.
- Fiz um alojamento bem arrumadinho pra elas, assim como eram os quartos para o programa. Tudo limpinho e cheiroso, nem os hotéis daqui eram tão bem cuidadinhos!
Mas tinha também seus problemas. Grande parte das meninas "gostavam por demais de uma bebidinha" e acabavam se afundando mais e mais no vício. O único ponto positivo disso é que o bar vendia muito bem, já que os clientes pagavam muitos "drinks" para elas.
- E eram meninas bonitas, meu filho, do tipo que se você conhessece num bar, cairia feito um patinho, acharia que era a princesinha mais santa do mundo. Tinha muito frequentador que namorava com elas. Namoravam mesmo. Se uma estivesse se engraçando, tentando conquistar outro freguês, assim que chegasse "o seu" ela levantava do colo do outro num pulo e ia até lá, dar atenção especial ao "seu home".
"Quase todas saem de suas casas dizendo que vão para faculdade no interior - geralmente enfermagem - e pode ter certeza: a maioria dos pais acredita! Mesmo as pessoas, amigos, parentes... Todo mundo acha que estão fazendo faculdade em outra cidade."
Comentou que ficam por um tempo e vão embora, combinam de voltar duas, ou três vezes por ano. Muitas vezes chegam para conseguir um dinheiro rápido, quitar dívidas, não tendo a intenção de se tornarem raparigas para o resto da vida.
Concluiu, dizendo que todo o dinheiro que as meninas ganhavam eram delas. Ela dava abrigo, comida e toda estrutura da casa. Ganhava dinheiro apenas com as bebidas e o aluguel dos quartos, pago pelos fregueses.
- E dava um bom dinheiro, Dona Heloísa? - perguntei.
Ela riu.
- Ganhava melhor do que quando eu era professora...
E continuou contando histórias sobre o lugar, brigas das meninas, ciúmes, figurões da cidade...
Ríamos. Era uma senhora, sobretudo, feliz. E mais uma vez eu aprendia uma coisa nova por essas pequenas cidades do sertão