terça-feira, 18 de maio de 2010

Feijões

Em 2005, num trabalho em uma escola, acabei o almoço correndo e fui direto atender - depois escovaria os dentes. Quem já foi nesse trabalho social, sabe que a correria é grande e como a fila estava enorme, saí da cozinha para a sala de aula, onde estava montada a cadeira de dentista.
No meio da tarde, chamaram todos os voluntários para uma foto no estúdio fotográfico montado em outra sala, onde a fotógrafa Roberta ensinava às crianças a arte da fotografia digital.
Ali, coloquei o Tião (macaco de pelúcia que é o mascote da odontologia no IBS) no pescoço, abri um sorriso e "clic" a foto estava batida.
Saí de lá e, só aí, escovei meus dentes, antes de voltar ao trabalho.
Fim do dia, todos estavam se divertindo, vendo as fotos e poses engraçadas de cada um, quando a Lílian, amiga dentista da equipe, viu minha foto na tela e me perguntou: "você está com gengivite?".
Ah, "maldito" olhar detalhista que nós, dentistas, temos para o sorriso. Eu disse que não e o computador, que não deixa nada passar foi dando um "close", aumentando, aumentando minha boca e ali estava: uma casquinha de feijão, sutil, mas clara, bem sobre meu dente da frente, junto à gengiva!
Não preciso comentar as risadas e piadas que seguiram, afinal, um dentista com um feijão no dente já é uma piada por si só...
Ontem, no almoço, estava "mandando brasa" em uma feijoada no meu consultório. Chegou uma paciente para pagar e aguardou na sala de espera. Eu, ingênuo e esquecido da antiga lição, terminei o almoço e, para não deixá-la esperando por mais tempo, fui recebê-la.
Conversei, marquei outro horário, brinquei com a filha que ia colocar aparelho, rimos. Na sala de espera estava sua irmã com o filho. Ao me mostrar os dentes do pequeno chamei sua atenção, havia muitas cáries, deveria escovar melhor os dentes e tudo mais.
Foram embora. Uma luz me veio na cabeça. "Comi feijoada e ainda não escovei os dentes...". A história de 2005 veio automaticamente na memória. Corri para o espelho. Ali estavam, três casquinhas, pequenas, mas tão chamativas quanto três focas negras no meio da geleira.
E eu chamando a atenção do menino que precisava escovar melhor os dentes, com três casquinhas de feijão, pretas, nos meus.
O garoto deve ter pensado: "Olha quem fala!". Ainda bem que ficou quieto.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O Jegue

"O jegue é o animal mais taradão que existe!", nos conta Antônio, amigo paraibano, que conhece a fauna nordestina como poucos. Ele nos contou há tempos a curiosa história de suas aventuras, na adolescência, com as mulinhas sertanejas.
O reencontramos em abril e logo continuou suas histórias engraçadas e - espantem-se -verídicas.
Voltando o assunto do reino animal sertanejo, ele nos soltou a máxima que inicia esse texto. Para os que leram o texto da mulinha acalmem-se: ele não comeu um jegue. Até porque o mais lógico seria o contrário, devido à tara conhecida do animal (do jegue, não do Antônio) e isso o rapaz jura de pé junto que nunca aconteceu.
- Se tivesse acontecido eu não estaria aqui pra contar história...
Ele conta que quando o jegue quer traçar uma mula, égua, ou seja lá o que for, ninguém segura. O bicho fica louco e não descansa até saciar seu desejo.
- Pode acreditar. Eu só não entendo da pica do jegue, mas da transa dele eu entendo! - disse, engraçado como sempre.
Algo que não sabíamos é que, assim como o cachorro, a glande (o ápice do pênis, ou nas palavras de Antônio "a cabeça do pinto") do animal se incha durante o ato sexual, mas não fica presa lá dentro como no caso canino.
- A cabeça incha e se abre, parecendo um guardachuva na ponta - disse, mostrando que também entende da pica do jegue.
Sua fêmea é a jega ou jumenta, mas ele traça também, éguas, mulas e até outros jumentos mais alegrinhos. "Ja vi até jegue viado, o bicho só gostava de dar", diz nosso amigo. Seu filhote com uma égua é o "burro sangue puro", melhor do que o burro nascido entre um cavalo e uma jumenta.
- O burro puro é um animal bom demais, forte que só o capeta, e tem muito fazendeiro que paga uma fortuna por um bicho bom desses.
Disse-nos uma história que aconteceu há alguns anos na pequena cidade do interior da Paraíba, onde nasceu.
Era tarde de domingo e a praça estava cheia de gente, mocinhas e rapazes, famílias, a garotada toda. De repente passa pela rua uma égua em disparada, correndo, "quase dava pra ver o medo nos olhos da bichinha", e atrás vinha um jumento, louco pra subir em cima dela.
Alguns riam, a maioria disfarçava, meio constrangida, fingindo que não acontecia nada e torcendo para que os bichos não voltassem. Mas dava uns segundos e eles voltavam, ela fugindo de medo, ele correndo atrás, cheio de tesão. Até que ali, no meio da praça: "Vlapt!", conseguiu "atarracar" na égua. Foi um espanto geral:
- Imagina o jumentão, no meio de todo mundo, com aquela jeba enorme, subindo em cima da égua. Um monte de mocinha ficou vermelha.
Antônio Marinho, poeta paraibano, estava entre os que se divertiam com a cena. Um de seus amigos gritou: "Marinho, faça uma poesia pra esse momento!". Ele, sem titubear, encheu o peito de ar e clamou:
"Eita jumento danado
Cadê a vergonha sua?
Tanta mocinha na praça
E tu com a espada nua
Deixa de fudê no mato
E vem fudê no meio da rua!"

sábado, 15 de maio de 2010

O empecilho - Seu Zazu

Como um bom pensador, Zazu pensava. Pitando seu cigarrinho de palha e olhando o belo pôr-do-sol do sertão estava perdido em suas divagações, até que a idéia de evolução o acertou em cheio.
"Se nascemos nesse mundo, temos um objetivo. Se Deus nos colocou aqui, é porque quer que a gente melhore espiritualmente", concluiu.
Foi mais além ainda, "mesmo quem não acredita em Deus tem que concordar que viemos aqui para evoluir". É intrínseco do ser humano querer melhorar. O problema é que a maioria das pessoas foca na melhora material e esquece o principal: a espiritual.
Zazu conhecia muitos homens da cidade grande que iam até sua cidade passar férias, tirar alguns dias para descansar e colocar a cabeça no lugar. Vários lhe contavam da loucura que é viver em uma cidade grande, do trânsito caótico, violência e o estress do trabalho aliado a tudo isso. Uma vez um desses viajantes, invejando a vida tranquila e feliz que os sertanejos levavam, disse: "Seu Zazu, aqui vocês vivem, lá a gente sobrevive".
Assim percebeu que a cidade grande pode ser um empecilho à evolução espiritual. O homem entra nessa loucura, onde todos levam a vida do mesmo modo e, sem perceber, está seguindo o mesmo caminho traçado por uma população inteira, a rotina, estudo para uma faculdade, concorrência no trabalho, a esperada promoção. Quando vê a vida passou e mal teve tempo de melhorar como pessoa.
Naquela hora Zazu, ainda fitando o lindo pôr-do-sol à sua frente, agradeceu a Deus por ser um sertanejo.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Belezas

Carolina é uma linda cidade, localizada no sul do Maranhão. É bem conhecida pelo grande número de cachoeiras e paisagens bonitas que a cercam, como já mostrei nesse blog com uma filmagem na casa do seu Pedro. Um dia conhecemos um local lindo, com duas enormes quedas d água.
Pudemos conhecê-la – durante um deslocamento para o trabalho em outra cidade – em um domingo. É uma propriedade particular e, como é costume em muitos lugares assim, foi cercada pelo dono. Cada visitante paga sua entrada.
Ao descermos para as cachoeiras nos deparamos com uma estrutura levantada para receber muitas pessoas: bar, mesas, bebidas e petiscos e muita, mas muita gente. Não sei sé é algo errado comigo ou se a maioria das pessoas é assim, mas quando vejo uma beleza natural desse modo, abarrotada de gente, é como se ela perdesse um pouco a importância. Muito diferente de se pegar uma trilha, andar alguns metros e se deparar com enormes cachoeiras, desertas.
Em outra etapa, passando pelo mesmo local, retornamos a visitá-la, porém, em uma terça-feira. Ali sim, fiquei boquiaberto com aquele lugar. Não havia uma pessoa além de nós, tudo vazio. Dava pra imaginá-lo como um local virgem. Sem perceber, pude prestar atenção em cada detalhe. Era como se fosse um lugar novo para mim.
No último feriado, fui ao Ibirapuera, aqui em São Paulo. Um parque enorme, muito arborizado e bonito. Depois de muito tempo, voltei a correr e após quase “cair duro” no fim do percurso, parei para descansar em uma sombra, sentado na grama, em frente ao lago. Havia muitas pessoas e mesmo assim pude me dar conta do quanto o parque é bonito e nunca havia parado para reparar. O sol brilhava forte sobre o lago com muitos cisnes e patos, que se divertiam buscando as migalhas de pão jogadas por felizes crianças. Outras brincavam de correr pela grama, casais de namorados andavam de mãos dadas e muitas pessoas corriam, andavam ou passavam em bicicletas.
Inúmeras vezes em que fui ao Ibirapuera esse cenário estava lá, só que eu olhava sem vê-lo. Naquele momento me senti como se estivesse conhecendo o parque pela primeira vez, mesmo abarrotado de gente.
Muitas vezes exaltei as belezas das cidades por onde passo, aquele dia voltei com uma enorme vontade de exaltar uma grande beleza da minha cidade.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Crônicas de um brasileiro, ex-soldado americano (por Euller Fernandes/ Wolber Campos)

Euller é brasileiro, mas quando tinha 4 anos de idade se mudou para os Estados Unidos, acompanhando seus pais.
Viveu lá por mais de uma década, conhecendo as partes boas e ruins que um latino-americano vivencia na América.
Aos dezenove anos sentiu que sua vida estava monótona. Queria algo novo, estava cansado daquele dia-a-dia sem graça e brotava em seu peito uma enorme vontade em desbravar aquele imenso país. Tinha sede em conhecer lugares novos e de aventura. Foi então que veio a idéia de servir o Exército Americano.
- Estava completamente sem grana e queria conhecer lugares novos. O melhor jeito era entrando para o serviço militar.
Nos EUA, qualquer cidadão do mundo pode servir o exército como voluntário, basta ter o Green Card, sonho de tantos cidadãos por esse mundo a fora. Euller tinha e foi assim que ingressou como soldado americano.
Foram três anos intensos. Tantas situações fortes, pressões, que diz: “muita coisa eu nem me lembro, parece que foi um flash!”.
Outras foram tão marcantes que estão impregnadas em seu ser.
- Me lembro como se fosse ontem dos pulos de pára-quedas.
O primeiro, a gente nunca esquece. O segundo também não. O terceiro então... “Vixe!”. E por aí vai.
Lembra que naquele avião cargueiro, enorme, sentavam vários soldados novos, assim como ele. A maioria muito jovem, molecada mesmo, de seus dezoito anos. Olhavam uns para os outros. Nenhum conseguia esconder o medo, nem nos olhos, nem na face, tampouco nas pernas que tremiam. A única felicidade era notar que todos os companheiros estavam igualmente apavorados.
E o avião subia, subia, e quando pensavam que estava alto demais, ele continuava subindo. Mas um soldado americano tem que ser muito macho! Não pode vacilar. “Então vamos lá suas maricas!!! Escondam essa cara de medo e se preparem para pular!”. Deve ter dito o comandante. O medo era grande demais para se lembrar de uma simples frase. Estava muito preocupado em não deixar que seu coração pulasse pra fora da boca.
A porta se abriu e um barulho ensurdecedor adentrou o interior do avião. Mal podia ouvir o que o comandante gritava. Muitos ali devem ter borrado suas cuecas camufladas. Ele não. Pelo menos me jurou que não. Eu duvido...
- Be prepared! Gooooo!!! (Prepare-se! Váaaaaaai!!!) – gritava o comandante a cada um que saltava.
Chegou a sua vez e vlupt! Saltou. A paz reinou. E quando o pára-quedas se abriu o barulho cessou completamente. Uma intensa alegria tomou conta de seu ser. Primeiro em ver que estava vivo. Segundo, por ter engolido novamente o coração e terceiro pela adrenalina agora saciada com a paz que é estar no alto, onde apenas as aves vivem e o homem deseja estar desde os primórdios de sua existência. Agora ele estava lá, quase planando pelo céu.
Não foram mais do que alguns minutos. O bastante para enchê-lo de orgulho de si mesmo por ter se superado. Imaginou que os próximos seriam mais fáceis. Mas não seriam. E ele nem imaginava o que ainda viria pela frente...

domingo, 9 de maio de 2010

"O céu é das crianças"

A máxima expressa no título acima, dita por Jesus Cristo há dois mil anos, faz todo sentido. Em nosso último trabalho, no estado do Sergipe, ela, mais uma vez, soou para mim com veracidade estrondosa.
Já dizia alguém muito inteligente - e eu não faço idéia de onde ouvi isso - que toda generalização é burra, então não generalizo, mas as crianças são puras. O adulto, em sua maioria, é corrompido, egoísta e, muitas e muitas vezes, maldoso.
Por esse motivo, há muitos anos, parei de atender adultos nos trabalhos do sertão. Crianças nunca me deram problema algum. Muito pelo conttrário, o prazer de atendê-las é inexplicável. Em sua maioria, sentam na cadeira, abrem sua boquinha, me deixam tratar o dente que eu quiser e ao término se levantam, quase sempre sem agradecer, e eu acho a coisa mais legal do mundo. Não precisam nem dizer "obrigado" - e eu também não preciso ser agradecido e nunca espero isso -, um sorriso delas é um pagamento imenso! Quantas não passaram ali do meu lado, durante um dia inteiro, esperando pela chance dde ser atendida e, ao final de longas horas, eu (me sentindo muito mal por sinal) explicava que não conseguiria tratar de seu dentes, o tempo havia esgotado.
Sabe o que elas fazem nesse caso? Dizem que está tudo bem e vão embora sem mágoa alguma, apenas cientes de que eu realmente não tive tempo de restaurar seus dentes.
Já um adulto... Não sei porque perdemos essa paciêcia e sabedoria com os anos.
Parei de atendê-los pelos problemas que tive durante os primeiros anos. A situação das criançças, na maioria das ciidades é assustadora! Sem falar em sua carência. Mas o egoísmo dos "gente grande" não os deixa enxergar ou se comover com isso. Com fila enorme de crianças e suas bocas maltratadas como campos de guerra, me vinham professores e até diretores, dizendo "ah, você vai ter que me atender!".
Não adiantava explicar sobre carência das crianças, que eles tirariam a vaga de alunos carentes. Cansei de ouvir "mas só eu, vai...". E quando eu, perfeito idiota, abria excessão vinha outro: "ah, mas atendeu a fulana, vai ter que me atender também!". Pronto, começava a "rebelião" e se caísse nas lábias não trataria de criança alguma, só de adultos.
Em abril, em Poço Redondo-SE, veio uma professora bem vestida e disparou arrogante: "Você vai me atender hoje!".
Expliquei que não podia, "apenas as crianças" e os motivos "históricos" que me haviam levado a isso. Gastei saliva. Pra caramba! Ela, sorrindo simpaticíssima, me fazia favores enquanto eu montava a cadeira. Pegava água, trazia sacos de lixo e baldes, porque eu ia "arrumar os dentes" dela mesmo. Ia e vinha, com toda disposição do mundo, e eu explicando que agradecia de coração, mas não poderia atendê-la.
Até que comecei a trabalhar, ela quis se sentar antes da primeira garotinha da fila e eu disse sério: "já falei que não posso atender adultos, me desculpe..."
- Eu não preciso de suas desculpas, faça com ela o que quiser! - disse raivosa e saiu batendo os pés no chão, sumindo, furiosa, porta afora.
Fiquei feliz em não ter aberto excessão. Era um adulto se fingindo de "gente boa". Poderia ter caído numa "lábia" de pessoa do bem, atender uma pessoa daquela qualidade e deixar de ajudar uma criança pura.
Ufa!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Juvenal

Nos encontramos em um mundo tão louco, tanta esperteza, maldade, stress, interesses, que é comum nos perguntarmos se sempre vale a pena ser bom. Tenho uma comunidade no Orkut que se chama "bonzinho só se fóde!". Não que seja um cara bonzinho, mas em muitas situações que procurei ser já "levei na cabeça".
Juvenal sim, é uma dessas pessoas boas de coração. Seu olhar revela isso a todo instante. Fala mansa, carinhoso com todos, é daquelas pessoas que temos certeza de que não faria mal a ninguém. Tem 62 anos, mas aparenta 50, o que contrasta com a vida difícil e sofrida que tem.
Trabalhou 18 anos em uma clínica psiquiátrica, daquelas que tratam tanto de pessoas com problemas mentais como alcólatras e dependentes químicos. Entrou como ajudante de enfermagem e, competente, foi subindo até se tornar supervisor da área. Só estava abaixo da enfermeira chefe. Todos o adoravam, inclusive os pacientes.
- Eu gostava tanto de lá, tratava todos os pacientes com o maior carinho. Era até curioso, quando um ganhava alta eu ficava feliz porque ele estava curado e, ao mesmo tempo, triste porque estava saindo um amigo. - diz saudoso.
Juntou dinheiro durante todo esse tempo de trabalho e realizou um sonho: dar uma casa de presente à mãe. Comprou móveis, televisão, aparelhos de cozinha, tudo o que pôde.
- Mas cometi um erro. Coloquei a casa no nome da minha mãezinha. Eu nunca esperava que ela fosse morrer antes de mim. Quando ela morreu, meus irmãos vieram pra cima com tudo.
Juvenal tem um irmão na prisão e uma irmã que é envolvida com traficantes da região e tornou sua vida um martírio.
- Um dia cheguei em casa e ela tinha sumido com tudo: televisão, sofá, armário, todos eletrodomésticos... Deu tudo para "os nóia". Sobraram só os carnês das Casas Bahia pra eu pagar.
Após uma reformulação na clínica, Juvenal acabou perdendo o emprego. Com certa idade, não conseguiu mais voltar ao mercado de trabalho e, desempregado, teve que encontrar uma maneira de se sustentar - e aos sobrinhos, que sempre ajudou. Passou a vender dvds piratas.
- Não ganho muito, mas consigo pagar minhas continhas e ainda ajudar meus sobrinhos e os filhos deles.
Mas a irmã não o deixava em paz, querendo expulsá-lo da casa, que dizia ter direito de morar também. Um dia colocou soda cáustica na garrafa de água que ele bebia, o que provocou grande hemorragia e não o matou por muito pouco.
Essas semanas Juvenal não apareceu em meu consultório. Retornou ontem, com o dinheiro do tratamento de aparelho de seu sobrinho-neto. Me pediu mil desculpas, mas teve mais um recente problema com a irmã.
- Saí de casa para levar o Paulinho no médico e ela quebrou a janela, entrou em casa e levou tudo doutor, minha sacola com 2500 dvds e 400 reais em dinheiro. Até minhas roupas ela jogou no quintal e passou no xixi do cachorro.
A irmã deu os dvds para seu concorrente, que tenta, a todo custo, ficar em seu ponto.
- Mas eu falei "tudo bem, o diabo toma, Deus dá!". Comprei mais 600 reais, fiado, em dvds e voltei a vender. Não é que ela ligou para a polícia, disse que eu tinha roubado os filmes do meu concorrente e estava vendendo ali?!
A polícia tomou os filmes de Juvenal e os entregou ao mesmo cúmplice da irmã.
Ele não desiste. Com o mesmo olhar bondoso vai levando a vida. Não espera muita coisa, só quer ganhar seus trocadinhos para viver em paz e ajudar os sobrinhos. Faz isso tudo por eles.
Então, ser bonzinho vale a pena?
Vale, sempre vale. Juvenal nunca duvidou disso e poderá ter o orgulho de dizer, na hora em que deixar essa vida, que foi um homem de bem, independente de todas as dificuldades que passou.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A onda perfeita (por Renato Zanutto)

Em pleno feriado seis horas da manhã estou eu de pé feliz da vida, pois irei surfar, momento raro para quem trabalha como dentista em São Paulo e tem duas jóias em casa Mateus(4) e Maria Clara(1).Pego meu Fun board (meu terceiro filho como diria minha amada esposa) e sigo andando até a ponta esquerda da praia de Pernambuco ,cerca de 2km , onde as ondas são maiores e melhores que o restante da praia.
Saio da casa de minha cunhada atravesso a rua e logo vejo o pessoal na balada ainda, se divertindo em uma danceteria . Enquanto estou passando na frente as seis e trinta (AM) vejo um cara me olhando como se tivesse pensando que trouxa , onde vai a essa hora em pleno carnaval; vejo um segurança de pouca idade com um olhar misto de inveja e admiração querendo estar no meu lugar pois provavelmente aprecia o mar para surfar cedinho; e um casal apenas olhando sem pensar em nada aparentemente deviam estar muito loucos de tanta birita.
Eu passei contemplando a todos , pois é muito bom ficar na balada dançando até o amanhecer , flertar , namorar e tomar um pilequinho com os amigos e não pensar em nada apenas entrar na boa vibração de todos que estão naquele local para se divertir. Passei me admirando também pois é muito bom acordar cedo, indo praticar um esporte que é praticamente uma meditação, e de quebra com uma linda vista para o mar.
Continuo andando , chego à praia e ela está vazia , com o mar liso e o sol querendo sair de trás da ilha que fica de frente para praia. Cenário perfeito! Quando chego próximo ao canto esquerdo da praia, vejo que as ondas estão médias, com boa formação e apenas uma pessoa surfando. Vejo apenas o seu vulto, pois o sol está baixo e a onda faz sombra no surfista . Parecia um quadro aquela visão.
Me apressei e entrei no mar. Dentro da água, ao me aproximar daquela pessoa, vejo que era um senhor com mais ou menos 60 anos ,cabeludo , e um pouco fora de forma em cima de um long board. Parei minha prancha ao lado dele, que logo me disse “bom dia, a água está uma delícia, rema para frente que elas vem vindo!”.
Tentei acompanhá-lo e, quando olhei, ele já estava subindo na prancha em um movimento coordenado e contínuo ,parecia uma dança. Mesmo gordinho se mostrava ágil, repetindo sempre o mesmo movimento de subida correndo a onda até o raso sem manobras . E ao terminar cada onda gritava de felicidade.
Que incrível, vê-lo foi uma inspiração, pois ele não precisava de platéia, ou fazer grandes manobras ele apenas queria curtir o que a natureza oferecia para ele. Com certeza era um surfista de alma e um apreciador da natureza. Senti aquela inveja boa , quero ter 60 anos com toda essa vibração curtindo esses momentos como se fosse a primeira vez, seja qual for a situação.

Renato Zanutto é dentista, tem 38 anos e surfista de alma

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Maridos e esposas

Este sábado passado seria um dia cheio, no bom sentido. Era feriado de primeiro de maio, com isso, eu não trabalharia. Já a Ju, minha esposa, teria que ir à empresa na parte da manhã.
Euller e Priscila nos convidaram então para um almoço, já que as duas trabalhavam juntas e, às 16 horas, teríamos, os quatro, a festa de aniversário da filha de uma amiga em comum.
Deixei a Ju cedo no trabalho e segui até a casa deles. A idéia era jogar – ou tentar jogar... – tênis e fazer algo até que as meninas chegassem do trabalho para almoçar.
O dia estava muito bonito, bem ensolarado, céu azul e a quadra de tênis do condomínio deles, claro, cheia. Quatro pessoas ainda esperavam do lado de fora sua vez.
O que dois amigos fazem quando há um sol quente na cabeça, dia bonito e não há possibilidade de fazer um esporte?
Isso mesmo! Fomos tomar uma cervejinha bem gelada num barzinho ali dentro. Como somos bons amigos, batemos papo, demos boas risadas e depois de um tempo fomos para a casa agitar o almoço para as esposas.
Estas estavam saindo do trabalho e iam, "apenas" - e reparem bem nessas aspas -, passar numa loja e comprar o presente da filha de nossa amiga.
O almoço estava adiantado e “fuçando” nos DVDs vi uma caixa com a coleção de Rocky, o lutador, de Sylvester Stalone. Euller, como um fã, sabia de detalhes sobre todos os episódios e me explicou sobre o único que não tinha assistido: o Rock 5.
- Você vai curtir! Vamos colocar até as meninas chegarem.
Abrimos mais algumas cervejinhas e começamos assistir o filme, completamente sossegados. Certa altura, mais ou menos na metade do DVD, Euller olhou o relógio, deu um pause, e disse a verdade indubitável:
- Cara, são 15:30h e elas não chegaram. Nós estamos aqui sossegados, assistindo a um filminho, tomando uma geladinha, beliscando um salgadinho e quando chegarem ainda vamos contentes falar “oi amor!” e recebê-las com beijos. Imagine se fôssemos nós?! Elas nos esperando, cheias de fome, até as 3 e meia da tarde, com festa às 4 para ir... Iam estar com um bico desse tamanho – disse levando a mão direita bem à frente de seus lábios – e coitados de nós!!
Rimos. Era a pura verdade, mesmo as esposas, logo depois, concordaram.
Ainda as imaginamos – agora para provocar um pouco – na situação: a amiga dá a idéia “vamos comer algo?” e a outra “não, precisamos estar famintas, para ficarmos mais bravas ainda quando aqueles desleixados chegarem”, sendo prontamente elogiada pela companheira por sua astúcia.
Pois é homens, a gente sofre...

terça-feira, 4 de maio de 2010

Respeito

Domingo meu time foi campeão paulista. A pesar do sufoco sofrido, do gol do Santo André anulado, e de uma bola em nossa trave aos 43 minutos do segundo tempo, ainda sobrevivemos.
Foi um “sofrimento danado”, mas um incrível jogo para quem gosta de futebol. Mesmo perdendo, com adversário jogando muito melhor, ver os dois gols que o Neymar fez - recebendo passes de calcanhar do Robinho e de Ganso - valeu qualquer derrota sofrida. E como foi sofrida!
O único ponto negativo num domingo perfeito de final de campeonato no estádio, foi ver a atitude de torcedores da torcida organizada.
Não, eles não brigaram, não provocaram torcedores da torcida rival (e nem que quisessem encontrariam algum...), nada disso. Porém vimos ali uma enorme falta de respeito com o próximo.
Eu e Michel – meu irmão – chegamos ao estádio às 14h, duas horas antes do início da partida, para pegar um bom lugar. Mesmo assim as arquibancadas já estavam bem cheias. Escolhemos um lugarzinho com boa visão do gramado e sentamos. Muitos já estavam ao nosso lado.
Pais e filhos, casais, crianças. Bom ver o estádio com mais famílias e menos brigas.
Faltava menos de quinze minutos para começar o jogo quando vários torcedores da torcida organizada do Santos (não era a Torcida Jovem) começaram a passar na minha frente com tambores, batuques e seus uniformes.
“Pra onde eles vão?”, pensei, já que ali já estava completamente cheio. E eles sabiam disso. Dezenas de torcedores uniformizados pararam a certa altura, na frente de pessoas que estavam ali, fazia horas esperando o início da partida, e começaram a batucar, cantando suas músicas, não dando importância aos poucos que tinham coragem de dizer que eles estavam na frente.
Ao nosso lado, havia um senhor, de seus 70 anos, sozinho e que puxava papo com meu irmão. Tinha chegado antes da gente e mal entendíamos o que balbuciava, bem baixinho, mas percebíamos seu antiqüíssimo amor pelo Santos e por futebol.
Um rapaz, de seus vinte e poucos, passou por nós e parou, bem em frente ao velhinho, que nos olhava como a pedir ajuda. Michel o cutucou e calmamente disse:
- Amigo, você não vai parar na frente desse senhor, não é? Ele está aí desde a uma e meia...
Até estranhamos que ele foi “gente boa” suficiente para entender, pedir desculpas ao senhor, andar dois passos para o lado e atrapalhar outra pessoa.
Várias pessoas, as famílias que descrevi há pouco, passavam pela nossa frente, indo procurar lugar do outro lado, não imagino onde, visto que tudo estava lotado.
Uma namorada brigava com o namorado, que dizia “vamos pra outro lugar”. Pensei se ela queria que ele tomasse satisfação e enfrentasse alguns “gorilas” uniformizados que vemos em vários noticiários seu gosto por uma “briguinha”.
Não sou contra as organizadas, ou até sou, mas não é esse o fato. Sei que empurram o time, tem suas músicas que eu mesmo canto e me vejo dando pulos ridículos abraçado a pessoas que nem conheço – um papelão engraçado que o amor ao futebol nos faz passar, felizes ainda! -, mas, querem um bom lugar no estádio? Apenas cheguem mais cedo. Porque a grande maioria deles chega cedo, mas é melhor ficar tomando cerveja do lado de fora do estádio até a hora do jogo e entrar em cima da hora, usurpando os lugares de outros.
Não sou contra ninguém, apenas sou contra a falta de respeito.

sábado, 1 de maio de 2010

Sorrisos

Hoje faço 7 anos de namoro com a Ju. O tempo passa... A pouquíssimo tempo atrás, 7 anos era a metade do tempo que tinha vivido. Agora, dez anos parece que foi ontem!
Para uma surpresa, fui a uma floricultura, procurar algum arranjo de flores e uma simpática senhora me ajudava. Certo momento, entrou na pequena loja uma mulher, estilo "madame" e a cumprimentou com enorme carinho. "Oi meu amor! Que saudade de você!".
Pensei que eram grandes amigas, mas vi que era apenas uma cliente. E ainda pensei "que simpática" quando complementou:
- Olha, já mandei duas amigas aqui pra você. E é uma indicação de coração mesmo, faço com o maior gosto.
Enquanto eu olhava, indeciso em saber qual arranjo levaria, a senhora foi atender a "bondosa" mulher. Essa perguntou o preço de pequeno maço de rosa colombiana, ou algo do tipo, o que foi respondido pela senhora "15 reais".
- Quinze reais?! Nooooooooooossa, meu Deus do céu, que caro!!! Outro dia mesmo eu vim comprar aqui e eram 10 reais. Que que é isso, meu Deus. Como pode aumentar assim? Geeeeente, que coisa...
A senhora ficou completamente sem-graça e disse que sempre foi esse preço. A "madame" continuava falando em tom assombrado, como se estivesse realmente espantada com o preço que a senhora cobrava dela. Era como se estivesse sendo assaltada.
- Não é possível, como vocês podem aumentar assim? Que cooooooisa!
Até eu me senti mal pela pobre senhora que, em vão, tentava explicar que o preço sempre foi aquele. Até que desistiu:
- Mas tudo bem, eu faço 10 reais pra você, você sabe que eu sempre te ajudo quando posso.
E a mulher ainda assim continuava com sua cena de espanto e indignação.
Claro como uma cristalina água, era o teatro que a mulher fazia para conseguir um descontinho. Toda aquela "paixão" pela senhora no começo tinha apenas um objetivo: conseguir seu almejado desconto no final.
Fosse real aquele "meu amor", "indico de coração para você" e algumas outras baboseiras melosas que soltou, ela nunca agiria daquela forma, quase chamando a senhora de "bandida" por cobrar tão caro dela, uma pobre pessoa indefesa contra o vil comércio que tentava passá-la para trás.
Foi embora logo depois. Nas mãos suas parcas rosas importadas, compradas pela metade do preço. Saía com um sorriso vitorioso por ter conseguido um desconto com seu teatro e deixando para trás uma senhora, meio triste, com um sorriso sem-graça na boca.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Filhinha

Estes dias saí com um grande amigo meu, que não encontrava há algumas semanas. É um pai recente, sua filhinha está com 3 meses de idade. Comentava-me emocionado cada gesto novo, sorriso, histórias, tudo que a pequena vai fazendo a cada dia.
- É um amor inexplicável, uma saudade intensa. Me pego, às vezes, em meio à turbulência no serviço, abrindo meu celular e olhando alguma foto dela. – diz com brilho nos olhos.
Hoje, relembra com tristeza uma passagem durante a gravidez de sua esposa. E essa tristeza não é pelo fato da chance de uma síndrome acometer seu bebê. Aliás, conheci poucas pessoas fortes e com uma cabeça tão boa como esse meu amigo. O que entristece é que muitas pessoas numa dúvida como essa podem tomar decisões erradas e drásticas.
Perto do terceiro mês de gravidez, durante um exame de ultrassom, apareceu uma probabilidade, pelo tamanho da região encefálica do feto, de ela ser portadora da síndrome de down. Não era nada certo, mas um segundo exame confirmou a possibilidade.
Foi então que o médico deu ao casal a possibilidade de realizar o aborto. Graças a Deus – e ao meu casal amigo – eles descartaram qualquer chance disso acontecer.
Aprendi muito com ele, pois enquanto muitos torceriam para que fosse apenas um alarme falso, rezariam para livrar o bebê da síndrome, ele começou a estudar sobre o tema, ler artigos, casos de outros pais que tem filhos com down.
- Temos que estar preparados para o fato de que podemos ser pais de uma filha especial.
O futuro papai não se sentia no direito de torcer para que a filha não tivesse a síndrome. Que direito ele teria, se o fato fosse esse mesmo, de ter torcido para que a filha fosse diferente? Seria como renegá-la. “Deus sabe o que faz”, dizia.
Foi um alarme falso. O que entristece é saber que foi passada a possibilidade para que eles “tirassem” seu futuro tesouro. Quantos pais hoje em dia não decidiram por esse lado?
Hoje a pequenina cresce, dando a cada dia mais alegrias aos pais, que teriam por ela o mesmo amor se tivesse ou não a síndrome de down. O amor que só um pai sabe como é ter pelo filho.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Saaaaaaaaaaantooooooooos!!!

Ontem foi dia de final de campeonato. Poucas coisas são mais brasileiras do que gostar de futebol e ir à final do campeonato no estádio. Talvez algo do mesmo tamanho que falar em carnaval ou em corrupção na política.
Mas falemos de coisas boas e eu, como um bom santista, tenho motivos para isso.
Hoje me permitirei ser um ufanista pé-no-chão, se é que me permitem a antítese. O Santos de hoje é um time que me dá um orgulho imenso. Digo que, sem sombra de dúvidas, valeu a pena ser santista todo esse tempo (fim dos anos 80 e 90) de "vacas-magras". Sofri todo tipo de gozação na época em que se dá mais importância ao futebol: a infância e adolescência. Meu time era saco de pancadas de todo mundo. Haja paciência. Foi nessa época em que peguei birra do Corínthians e do São Paulo - que foi bi-campeão do mundo no começo dos 90.
Onde penso que podem me taxar de ufanista (eu mesmo não me considero, nessa caso), é o porquê penso que valeu a pena meus anos de torcida na fila de títulos.
Esse time atual do Santos, semelhante ao time de 2002 com Robinho e Diego, joga de uma maneira muito bonita, leve, alegre, com tamanha habilidade e técnica como não me lembro de ter visto nas últimas décadas.
Talvez o São paulo bi-ampeão mundial de 2002, com Raí, Muller, Silas e um bando de craques, tenha jogado num nível parecido, mas ainda assim, não me lembro de terem uma alegria contagiante na maneira de jogar e um apetite tão voraz por gols, como essa equipe atual do Peixe.
Meu orgulho futebolístico remete às inúmeras conversas que tinha com meu querido pai - o responsável pelo fato de eu ser santista - sobre o futebol das antigas. Ele foi um dos privilegiados a ver Pelé jogar (na mesma época em que outros eram privilegiados em ver os Beatles tocar. Será que eu nasci na época errada?). Sempre me comentava a maneira como o Santos dos anos 60 jogava, alegre, leve, habilidoso ao extremo e com apetite de gols... Parece algo que já escrevi?!
Pois é, esse é o motivo de meu orgulho. E por isso, este domingo, eu fui ao Pacaembú e vi meu time ganhar na primeira final do Santo André, por 3X2. E domingo que vem estarei lá. E não importa se, de repente, perder de dois ou mais gols de diferença e não for campeão. Isso é lindo do futebol: já estamos felizes apenas de ver um jogo tão bonito como foi até agora, o título, se vier, será apenas um atestado de que, é sim, possível ser campeão jogando bonito e pra frente!!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Histórias d(n)o Lixo (por Valter Lima/ Wolber Campos)

Em 1984, minha casa estava em reforma. Entre um grande entra-e-sai de pedreiros e ajudantes, minha mãe decidiu esconder suas jóias, para que não houvesse problemas com o grande número de pessoas estranhas dentro de casa.
Esvaziou sua caixinha e, para não chamar a atenção, as embrulhou em um jornal, colocando-as em cima do criado mudo, até encontrar um lugar seguro para escondê-las.
Olhando as obras, resolvendo problemas, acabou esquecendo o embrulho e só lembrou de noite. Correu sentindo um arrepio na espinha, lembrando das queridas jóias – naquela época meu pai, muito bem no emprego, sempre a presenteava com pulseiras, colares ou anéis.
Chegou em seu quarto e levou um susto: estava todo arrumado, os móveis em seus lugares e tudo completamente limpo. Correu até minha prima, que a ajudava e estava dormindo.
- Cristina, pelo amor de Deus! Você guardou minhas jóias? – perguntou preocupada.
Ela, ainda sonolenta, disse que sim. Enquanto minha mãe respirava aliviada, despertou-se completamente e perguntou: “que jóias?”.
Ela havia arrumado o quarto, juntado todos os papéis e jornais que protegiam o chão da tinta e os jogado fora, incluindo as jóias embrulhadas de minha mãe.
Assim, peças caras acabaram indo para o lixo. Imagine quantas histórias como essa existem.
- Você não acredita, vai muito dinheiro para o lixo. – comenta Valter Lima, que trabalha e dá aula na área ambiental.
Grande parceiro dos trabalhos junto ao Instituto Brasil Solidário, Valter foi, durante alguns anos, chefe da seção de triagem de uma usina de compostagem, em São Paulo. Ali era recebido o material orgânico proveniente do lixo da cidade e como vinham muitos resíduos inorgânicos, estes eram separados para futura reciclagem.
O lixo chegava diretamente dos caminhões que o despejava num compartimento receptor. De lá, ele caía em uma esteira em movimento, onde havia cerca de 40 trabalhadores para separar o material. O primeiro homem da esteira era encarregado de rasgar o saco, para que todo lixo se esparramasse na esteira, onde nos próximos metros, outros separariam o material inorgânico.
Tudo que acontecesse, qualquer fato anormal, havia um botão que o primeiro funcionário apertava e parava a esteira, chamando, logo em seguida, Valter pelo interfone.
Certo dia, quem o chamou foi o segurança:
- Está acontecendo um tumulto lá embaixo!
Valter desceu correndo e ao chegar à região da esteira a bagunça estava terminando. Perguntou o que havia acontecido e os funcionários despistavam: “foi nada não...”.
Na realidade, havia caído um saco de lixo, o primeiro homem, como de costume, o rasgou, espalhando uma enorme quantidade de dinheiro sobre a esteira. O segundo gritou: “Dinheiro!!”. Todos os outros 38 homens, espalhados nas 6 mesas de separação correram e se atiraram sobre a esteira, repleta de lixo e dinheiro.
Depois que a poeira baixou disse um funcionário que “teve gente ali que embolsou mais de 500 reais!”.
Ai, as jóias da minha mãe... Bom, pelo menos foram para quem precisava.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Urgência

Nessas viagens pelo sertão é normal termos alguns contratempos estomacais ou, pior ainda, intestinais. Tive um problema durante o trabalho em Alagoas, cidade de poço das Trincheiras. Após cada atendimento corria para o banheiro; foram mais de 8 vezes durante aquele suado dia. Mesmo assim foi um “piriri” levíssimo comparado ao “perrengue” passado em outra viagem por dois amigos da equipe.
Seus nomes foram modificados, para evitar constrangimento e piadas dos alunos por onde passarmos. Apesar da tentação de cumprir com a verdade neste blog vou resistir – ou tentar...
Sidnei costuma passar mal em todas as viagens. Pelo menos em uma ou duas cidades o vemos com cara fechada, olhos entreabertos, andando feito um zumbi pelas escolas – quase sempre em direção ao banheiro. O tempero diferente – e muitas vezes forte – o acerta em cheio e aliado com um certo stress pelo puxado trabalho que desempenha faz seu intestino (pra não dizer outra coisa) se abrir como uma torneira.
Essa última viagem, de abril de 2010, foi uma das poucas em que chegou ao fim ileso. Em outro ano, depois de um almoço em uma escola, emendado com um deslocamento longo de carro, sua barriga começou a dar sinais de que o mal estava próximo. Certa altura da estrada, a vontade de descarregar no banheiro era incontrolável. Vendo um posto de gasolina solitário na beira da estrada, gritou ao amigo que dirigia o carro:
Sidnei: Carlão, pelo amor de Deus, pare o carro!!!
Carlos: Vamos parar em outro posto, que este aí é meio caidão.
Sidnei: Maluco, você não ta entendendo! Para esse carro agora!!
Carlos vendo a cara de desespero do amigo e uma gota de suor descendo pelo lado de sua face, parou imediatamente.
Se houvesse um campeonato mundial de corrida do carro para o banheiro, duvido que alguém tirasse a medalha de ouro de Sidnei.
Ao entrar ali, o desespero era tanto, que mal percebeu o cenário desolador que o esperava: num cubículo bem pequeno, uma privada que não tinha porta a separando da pia e do mictório que estava pendurado na parede à sua frente.
“Cara, que alívio, eu praticamente urinava pelo ânus!”, relembra nostálgico.
Nisso, entravam outros no banheiro e ele naquela situação constrangedora, com um sorriso, de graça e nervoso ao mesmo tempo:
Sidnei: Opa, tudo bem?
Homem X: Opa, pode ficar à vontade aí...
Sidnei: É o jeito, né?!
A caganeira continuava como enxurrada, o suor escorrendo pela cara, e mais outro entrava.
Homem Y: Ops, pode mandar bala aí!
Sidnei (pensando): Tá mais pra mandar cachoeira, mas tudo bem...
Como é bom receber apoio moral de desconhecidos nessa hora difícil.
Em seguida entra uma terceira pessoa, esta afobada e com pressa. Era Carlos, seu amigo e companheiro de viagem.
Carlos: Sid, pelo amor de Deus, levanta daí!! – disse desesperado desabotoando a bermuda. Havia tido um primeiro (e fulminante) aviso no carro e antes de pensar, seu arco-reflexo o levou num salto para o banheiro. (se houvesse um campeonato mundial desse esporte ele ganharia medalha de prata)
Sidnei: Carlão, não dá mano, ta complicado aqui.
No desespero, Carlos abaixou bermuda e cueca numa tacada só e foi colocando a bunda no mictório da parede: faria ali mesmo!
Sensibilizado com a tocante cena, Sidnei gritou para que ele esperasse, se levantou agachado, com as calças arriadas e pernas abertas, em suas palavras “para não ficar aquela borboleta desenhada em sua traseira”.
Carlos sentou e automaticamente começou a urinar pelo ânus, como seu amigo.
Agora, Sidnei, tinha um companheiro para ajudar a cumprimentar o próximo homem que entrou, só que, dessa vez, estava numa posição pior ainda: agachado, cotovelos nas coxas, pernas abertas. Agora sim, teve vontade de rir.
Até que o sinal apitou novamente:
Sidnei: Carlão, sai, pelo amor de Deus!!
E assim seguiram trocando as posições durante mais alguns minutos. Fazendo o bonito trabalho de transformar todas as próximas dores de barriga da equipe em uma brincadeira de criança. Isso é que é trabalho social!