sábado, 31 de julho de 2010

Homem-problema

Eles estão por toda parte. Temos que torcer para não cruzar com um deles. Mas como? São tão comuns quanto procurar alguém de olhos azuis. Uma hora você vê um.
Um lugar fácil de encontrar esse "ser" é em um supermercado, ou banco, em qualquer lugar que haja uma fila e que seja necesário um mínimo de paciência. Ah, paciência é algo que ele - ou ela, deixemos bem claro - não tem.
- Ai meu Deus do céu, como é lerda... - geralmente fala alto, para todos da fila ouvirem, inclusive a pessoa que trabalha duro, durante horas, no caixa.
Quem trabalha com público, vez ou outra encontra um deles, e aí, é só rezar...
Um dia ele entrou em meu consultório. Sorriu e eu, idiota, acreditei naquele sorriso. Ainda dei sorte, ele gostou de mim. Nunca reclamou diretamente comigo, com o mundo em volta sim, mas comigo não. Pensando bem, não dei sorte, dei azar. Quando o homem-problema não gosta de você, sai de perto e azucrina outro.
Fiz uma prótese para ele. Ficou boa (modéstia à parte), mas na semana seguinte ele estava lá.
- Olha, isso tá machucando muito! Não dá pra usar não! - disse, agressivo como sempre.
Eu, ainda inocente - não sabia ainda o que era um homem-problema, muito menos que aquela criatura se tratava de um dessa espécie - ajustei a prótese e o marquei para semana seguinte. Muito antes ele estava de volta.
- Essa "chapa" não tá boa não. Tá machucando tudo! - disse e xingou o protético (pessoa que constrói a prótese no laboratório). Me elogiava - já disse que, por azar, ele gostava de mim? - e "descascava" no pobre profissional que tinha feito tudo certinho.
O pior é que eu examinava e via sua mucosa, realmente, machucada. Na verdade, não é que o HP (decidi parar de repetir "homem-problema", é muito grande e pode até atrair...) inventa essas coisas, mas ele tem a incrível capacidade de atrair problemas.
Na semana seguinte, a peça, em vez de vir na sua boca, veio em sua mão. Havia quebrado o grampo de metal. No final das contas, fiz outras duas próteses para ele e não cobrei. As três não tiveram bom ajuste. Perguntava a mim mesmo, onde eu errava. Foi quando me veio a resposta. Num dia de ajuste - devia ser o de número 452, se não me engano -, perguntei se ele estava bem.
- Bem nada! Essa semana fui ao hospital, pra me operar. Fiquei nervoso, minha pressão subiu e não puderam fazer a cirurgia. Aí piorei, fiquei mais nervoso ainda e tiveram que me internar... - e prosseguiu. Havia mais desgraças em seu relato. Mas eu não me lembro, ainda bem.
Foi ali que tudo ficou claro como água: o problema não era eu ou a prótese. Era ele! o HP atraía, e atrai, tudo para si.
Meses depois o vi embaixo da porta de outro dentista. Ele ficou completamente sem graça ao me ver.
- Ooooh, meu amigo. Eu vou passar com a Dra. Ciclana para ver outra prótese. Olha, o seu trabalho é muito bom, mas é que aquele protético...
Eu disse que ele estava certíssimo. Que eu fiz tudo o que podia e não consegui ajudá-lo, teria melhor sorte com outro profissional.
Saí sorrindo. Parecia que havia tirado um peso de toneladas sobre meus ombros. Mas fiquei com uma dó da Dra. Ciclana...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Histórias d(n)o Lixo: O eletro-imã (por Valter lima / Wolber Campos)

Na usina de compostagem em que Valter trabalhava, o intuito era separar apenas o lixo orgânico - vendido posteriormente para agricultores, por exemplo -, retirando de seu interior todo material inorgânico, passível de reciclagem.
Foi uma grande alegria, quando conseguiram instalar o sonhado eletro-imã. Este, se tratava de um imã gigante, suspenso sobre a mesa que, ligado, atraía de uma vez, quase todo material metálico misturado ao lixo, facilitando muito o trabalho dos separadores que se dividiam por toda a mesa. Assim voavam do montante tampinhas, pregos e moedas, muitas moedas. No final do dia, elas totalizavam em torno de 50 reais.
Com o novo aparelho operando, Valter começou a fazer, toda manhã, um saboroso café para todos os funcionários. Pão, leite, suco, faziam a festa de todos, criando um bom ambiente para começar o trabalho.
Para declarar tudo, e não haver problema, fez um ofício à prefeitura, comunicando sobre o dinheiro encontrado e o destino que estava sendo dado ao mesmo. Demorou quase seis meses para obter um retorno da área jurídica, que dizia "o dinheiro é público e não deve ser usado para esse fim." E, o truculento texto, encerrava ordenando que o café deveria acabar imediatamente.
Incrédulo, nosso amigo fez outro ofício, perguntando então se era possível usar o tal "fundo público" para a aquisição de alguns materiais necessários para o escritório, como impressora e fax. Mais seis meses de espera por mais uma resposta negativa. E, para piorar, não davam uma indicação do que poderia ser feito com tal dinheiro.
Valter, todos os dias, apenas juntava as moedas e colocava em tambores de metal de 200 litros, os enchendo como cofrinhos de crianças ituanas.
Após mais uma negativa da prefeitura - e de encher 8 tambores de 200 litros com moedas! -, conversou com uma amiga advogada pública.
- Olha Valter, eu trabalho há anos aqui e sei como funciona. Se eu fosse você, pegava todo esse dinheiro, depositava direto na conta da prefeitura e deixava essa história de lado. Pode acabar dando problema para você. - ela orientou.
Assim ele fez. Depois de levar 8 tambores cheios ao banco, ouvir reclamações do gerente dizendo que não aceitaria aquilo - "você tem que aceitar, é dinheiro!", disse Valter -, pôde trabalhar em paz.
A prefeitura desligou o eletro-imã, devido à burocracia, moedas continuaram a ir embora e os separadores de lixo nunca mais tiveram seu gostoso café-da-manhã.

terça-feira, 27 de julho de 2010

O macho

Tenho dois pacientes, bom, na verdade, graças a Deus, tenho mais que dois pacientes, mais o que eu queria dizer, é que entre eles, existem dois com características opostas. Um delicado e um machão.
O primeiro, homossexual assumido, é extremamente simpático, delicado e sorridente. Sensível, dá a impressão que se eu falar mais ríspido em sua direção, ele sentaria e começaria a chorar.
O segundo, daqueles machões, no melhor estilo "troglodita", é grande, para cima e para o lado - não de gordo, mas de forte -, fala pouco - e grosso -, cara sempre fechada. Bravo, dá a impressão que se eu falar mais ríspido em sua direção, ele sentaria a mão em minha cara!
O primeiro se sentou em minha cadeira e logo me disse que dispensava a anestesia. Não por medo, mas não gostava da sensação de dormência que "segue horas e horas depois da consulta". Fui removendo a cárie e, a cada momento, a broca se aproximava mais do nervo. (esse texto parece filme de terror, não?)
- Prefere que eu anestesie? Não quero que você sinta dor... - perguntei.
Ele, impassível, dizia que estava tudo bem e que poderia seguir adiante. Assim terminei uma cárie enorme, sem anestesia e, o pouco que sentiu, ele se controlou perfeitamente. Saiu sorrindo como entrou.
O segundo se sentou, poucas palavras, me disse o dente que queria restaurar e também dispensou anestesia. Meio sem graça, admitiu que morre de medo da agulha. Comecei e, ao primeiro toque, deu um pulo.
- Puta que o pariu!!! - bradou, como se um palavrão, bem colocado, disfarçasse sua pouca demonstração de coragem.
Resmungou a dor que sentiu, e só faltou coçar o saco e cuspir de lado. Continuei, e após mais um grito, um xingamento ao "motorzinho dos demônios", resolveu deixar que eu anestesiasse.
É amigos, nessa hora vemos muitos fortões se contorcerem mais que criancinhas indefesas. Como diria o Metállica: "Sad but true".
Acabei o serviço, não antes de outros sustos, que eu percebia se tratar mais de medo do que dor, pela pequena cárie removida.
Saiu como entrou, falando pouco, agora com a mão no queixo, como quem sai de uma sala de torturas.
Naquele dia o macho foi outro.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Amanhã - Terça, dia 27/07/2010

Amigos, amanhã será o lançamento do livro "Caminhos de um Brasil Solidário", com fotos e histórias do nosso país, de todas suas belas regiões. Todas são ligadas ao trabalho social que o Instituto Brasil Solidário realiza por nossas terras.
As imagens são dos fotógrafos - irmãos e coordenadores do IBS - Luis e Ana Elisa Salvatore. Vale a pena conferir!
Estaremos na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, à partir das 18:30h.
Será um prazer recebêlos lá!
O convite segue novamente abaixo.

Grande abraço!!

Wolber Campos

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Duas gotas

O que são duas gotas? Quase nada. Uma total indiferença. Imaginamos duas solitárias gotas em um copo. "Está vazio", diríamos.
Duas gotas, na maioria dos casos, passam despercebidas, como dois grãos de areia em uma praia. Porém, em um caso, a diferença é tão brutal que pode significar a linha tênue entre a vida e a morte, assim como um mísero segundo, antes ou depois, pode significar o encontro com um carro ao atravessar a rua.
Hoje, atendi Francisco. Um homem de 37 anos, simpaticíssimo, alegre, que chegou em meu consultório em sua cadeira de rodas, carregada nos braços de dois amigos que a subiram pelos muitos degraus que levam até minha sala.
Ele não anda, possui o braço esquerdo com grande limitação de movimentos e o direito com alguma dificuldade.
- E doutor, já estive muito pior. Até a cabeça era mais difícil de mexer e eu babava muito. Era um babão! - comenta e solta uma alegre risada.
O destino de Francisco o levou para essa situação por causa de duas gotas. Míseras -ou colossais - duas gotinhas que, na época certa, o faria subir as escadas do meu consultório saltitando e me cumprimentar de pé, sem limitação alguma.
Hoje, com a enorme campanha anual por todos os cantos do país, a paralisia infantil está praticamente erradicada. Nos anos 70, ainda mais na roça do interior de Minas Gerais, onde nasceu, essa não era a realidade.
Tratei dele por um bom tempo, tentando adiantar ao máximo que pudesse o tratamento, pois sei da dificuldade de locomoção e trabalho para seus amigos o carregarem escada acima. Tempo que fiquei pensando em como essas duas gotas poderiam ter mudado o destino do jovem e alegre Francisco.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Hospitalidade sertaneja

- Vocês podem pousar lá em casa essa noite!
Assim nos disse seu Nilo, um sertanejo típico, desses que usam a camisa de botões aberta, uma calça surrada e saudável que só. Não aparenta, nem de longe, a idade que tem. Apesar de ter seus setenta anos, passa facilmente por cinquenta e poucos.
Estávamos em São Raimundo Nonato, cidade do sul do Piauí, que abriga a famosa Serra da Capivara. Um lugar "mágico", patrimônio da humanidade e que exibe um conjunto fantástico de pinturas rupestres, espalhadas por seus ancestrais paredões, nítidas, como se estivessem sido pintadas há poucos anos atrás.
O hotel em que estávamos hospedados, ficava a alguns quilômetros da escola de zona rural em que trabalhamos. O bairro Pé do Morro. Ainda hoje temos amigos que nos consideram (e são considerados) da família por lá. Quando os moradores nos ofereceram suas casas para uma boa noite de sono, ficamos felizes.
Seu Nilo levou-nos - eu, Luis e Ana Elisa - para o interior de sua casa. Entramos por uma pequena porta e passamos uma sala com duas cadeiras de balanço - feitas com tiras de plástico - e um pequeno corredor, onde haviam duas entradas, uma a sala de televisão, onde uma simpática senhora, que a assistia, nos cumprimentou, e a outra seria meu quarto e do Luis.
- Vocês não "arreparem" não, a casa é de pobre. - nos pediu humildemente seu Nilo.
Dissemos que, muito pelo contrário, a casa estava linda e agradecíamos a hospitalidade. Afastamos a cortina, que funcionava como a porta, e entramos no quarto, muito limpo e bem arrumado.
"Seu Nilo preocupado em ser um quarto simples e está mil vezes mais arrumado do que o meu!", pensei.
- Vocês querem banhar? Eu busco água "proceis". - nos disse -. Só que a água tá em falta, eu pego do poço, mas é um pouco "salobra*"...
- Não tem problema nenhum, seu Nilo. - respondemos, loucos por um banho. O calor do Piauí estava violentíssimo e nosso estado fazia frente a ele.
Fui o primeiro, enquanto pendurava minha toalha no banheiro, vi seu Nilo chegando com um enorme balde de água e um pote de plástico. Na outra mão uma toalha, caso eu precisasse. Tomaria um bom banho de cumbuca, comum em muitas casas pelo sertão.
Agradeci ao nosso anfitrião, coloquei o balde no chão e vi. Não pude acreditar e comecei a dar risada sozinho. No balde, repleto de água, nadavam três peixinhos, bem pequenos. Estavam ali, traquilos, na água em que eu tomaria banho. Quando olhei o vaso sanitário, que estava ao lado, comprovei: Haviam mais dois nadando ali dentro, com a calma de quem nem imagina onde está. "Ignorance is bliss"
Tomei meu banho, sempre com muito cuidado para não pegar um peixinho na ex-caneca de leite que usava para me banhar. "Com meus cabelos enrolados, se cai um peixinho aqui só vou encontrar o fóssil décadas depois!", pensei rindo.
Acabei o banho, renovado, limpo, e saí com a toalha nas costas sorrindo como quem saiu de uma ducha relaxante de um hotel de luxo. Mas não era. Era um banho muito, mas muito mais gostoso.

*Salobra: modo como o povo sertanejo chama a água, um pouco salgada, dos poços ou lençóis freáticos

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Boa noite

Me deito mais cedo, seria bom ter uma noite mais longa. Há alguns anos atrás, lembro que saía com João Batista, amigo de infância, de segunda à segunda. Nada de baladas nervosas ou bagunça. Geralmente íamos ao Select, loja de conveniência do posto Shell, onde juntávamos nossas poucas moedas para inteirar a quantia suficiente para dois "dogs" e uma coca. Conversávamos até umas duas da manhã.
Enquanto me deito, penso "Não sei como a gente conseguia isso", pois já éramos formados e trabalhávamos tanto quanto hoje. "É a idade, meu amigo...", digo a mim mesmo.
Enquanto o sono não vem, abraço minha esposa que já dorme. Que inveja. Só não é maior do que aos sábados de manhã, quando levanto às 6 da matina para trabalhar e a observo dormindo, quentinha sob as cobertas.
Dou um beijo, viro para o lado e espero o sono chegar. Penso em utilizar técnicas milenares, para acelerar a chegada do sono. A primeira que me vem, é uma que remete aos tempos em que Davi - ele mesmo, o que matou Golias - ainda era um simples pastor. Antes de escrever seus salmos, ele ensinava aos insones da antiguidade: "Contai carneiros!".
Começo: um, dois, três, ..., no vinte paro e penso "que coisa de jerico". Pensei jerico e não Jericó. Chego à conclusão que contar carneiros mais estressa do que dá sono. Isso poderia ser algo positivo na antiguidade, estressar para cansar e fazer dormir. Para um morador de São Paulo, stress é dado na mamadeira e tempera nossos pratos, do café da manhã ao jantar.
Me lembro de outra técnica infalível: as músicas de ninar. É isso! Agora é fácil.

"Dorme nenê, que a Cuca vem pegar
Papai foi pra roça, mamãe volta já"

Paro e sento na cama. O quê? Meu Deus, nunca tinha pensado na letra dessa música assustadora! Como as pessoas querem que uma criança durma dizendo: "olha bebê, dorme tranquilo, viu? Que a Cuca vem te pegar. E fique "sossegadinho", porque você está sozinho, sacou? So-zi-nho. O papai... Xiii, tá lá na roça. E a mamãe, deve vir daqui a pouco. Mas até lá, a Cuca já deve ter te pegado e, sem o papai por aqui, a mamãe também vai pro saco."
Ainda bem que as crianças não pensam na letra da música. Quem diria que uma melodia tão bonita assim, seria de uma história tão assustadora?!
Melhor pensar em outra.

"Sai bicho feio de cima do telhado
Deixa o menino nanar sossegado"

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O sorriso

Tatiana, em um comentário da postagem anterior, falou em expor a foto de um desses sorrisos devolvidos.
Em abril, viajamos para o sertão e, em Canudos-BA, conhecemos Ismael. É um daqueles garotos, com seus quinze anos, líderes nato. Engraçado, simpático, todos o conhecem, e o adoram. Sempre disposto a ajudar, era um dos primeiros a se oferecer para descer as pesadas caixas de materiais doados à escola.
Tinha um problema, um grave problema: os dentes da frente completamente destruídos por cáries. Foi assim que o conheci enquanto atendia em uma sala de aula. Cristiano, grande amigo local e que já viajou conosco, o trouxe pelo braço, deu um tapinha em sua cabeça e falou:
- Wolber, dá uma olhada nesse safado!
Ele sorriu e de longe, eu poderia ver. Fiz questão de encaixá-lo durante os três dias em que ficamos por ali. Deixei bem claro que, mais importante do que tratar, era cuidar melhor para que isso não acontecesse de novo e, a cada dia, tínhamos mais de uma hora e meia de "Ismael" na cadeira.
Saiu de lá "só sorrisos", com a certeza de que, à partir daquele momento, cuidaria melhor de seus dentes.
Seguem suas fotos:





E apresentado por Leandro - grande amigo da equipe - com seu novo "look".

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O pagamento

Chegamos na comunidade de Paraty Mirim (Paraty-RJ) na sexta bem cedo. É um trabalho bem mais tranquilo ao que estamos acostumados no sertão, onde ao chegar na escola, encontramos dezenas de crianças e adultos nos aguardando em festa. Porém, apesar da comunidade ser pequena, o carinho com que fomos recebido dessa vez foi semelhante.
A área odontológica - sem puxar "sardinha" - sempre encontra muito trabalho. Não importa quanto seja afastada e pouco centralizada a comunidade, tratamento dentário, infelizmente, ainda é uma carência enorme de nosso país. Portanto eu e o André - amigo e colega de profissão -, trabalhamos bastante nos dois dias de atendimento.
No meio da tarde, apareceu um garoto, de seus 9 anos, Lorran, pedindo para que eu arrumasse seu dente quebrado. Tinha tomado um tombo semanas atrás e, ao bater a boca na escada, quebrou o dente da frente (incisivo superior direito, para ser mais técnico).
- Claro, aguenta um pouco que a gente já dá uma olhada nele - eu disse e ele abriu seu sorriso, mostrando o dente pela metade.
Pouco tempo depois chegou sua vez. Adoro arrumar esses dentes do sorriso. Bom, na verdade, é claro, adoro arrumar todos, mas esses da frente, abraçam muito mais do que reestabelecer uma função e evitar futuros problemas. Envolve devolver auto-estima, confiança, e até mesmo reinserção social. Uma pessoa com os dentes da frente em mal estado, geralmente, se envergonha ao sorrir, levando a mão na frente da boca nessa hora, tentando esconder os dentes com os lábios, ou mesmo virando o rosto. Por isso a importância de devolver o sorriso original.
Com Lorran foi assim. Acabamos a restauração e pude ver seus olhos brilharem quando olhou no espelho. Não foi uma restauração difícil, ou que exigisse grande habilidade do dentista. Algo normal e casual, que levou seus 40 minutos, mas que devolveu aquele brilho nos olhos do garoto. Me pergunto, já sabendo a resposta, se tem pagamento que me deixaria mais feliz.
De noite, havia uma feira cultural, onde fizeram uma confraternização conosco. Uma grande roda de viola foi armada e, como adoramos isso, nos sentamos em volta. Um dos presentes pegou o violão e tocou algumas músicas. Fiquei surpreso ao ver Lorran se aproximando dele, colocando o braço em volta de seu pescoço e cantando a música, como velhos conhecidos. Me olhava e sorria. No final da música, caminhou até mim, me cumprimentou e me disse "muito obrigado por arrumar meu dente", meio tímido, meio sorrindo e saiu.
Minutos depois, o rapaz que tocava violão, veio até mim. Era o pai de Lorran.
- Olha, não sei nem como agradecer pelo que você fez pelo meu filho, só Deus mesmo. Muito obrigado. - disse emocionado.
Me explicou então, que desde que havia caído, seu filho andava triste, o que o fez levá-lo ao dentista na cidade, porém ali, o profissional cobrou 600 reais para restaurar o dente fraturado.
- Pensei até em pedir para que ele desgastasse o do lado, para ficar na mesma altura, mas seriam 250 reais e desisti. - continuou.
Eu expliquei para que ele nunca pensasse em fazer aquilo, estragar um dente bom para parecer o outro, e respondi, sinceramente, que não foi nada de mais.
Mais uma vez me disse que não sabia como agradecer. Não percebeu que não precisaria mesmo. Aqueles minutos valiam muito, mas muito mais, do que aqueles 600 reais que o outro dentista ganharia pela restauração.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Trabalho

Hoje estamos de saída para um trabalho na comunidade de Paraty Mirim, no Rio de Janeiro. Voltaremos no domingo. É um trabalho bacana, em uma comunidade formada, em sua maioria por pescadores.
Diferente do trabalho no sertão, quando levamos muitos voluntários e muitas áreas, ali implantaremos o projeto de saúde bucal, meio ambiente e educação.
Segunda postarei novamente!

Grande abraço!

Wolber Campos

terça-feira, 6 de julho de 2010

Livro: Caminhos de um Brasil Solidário

Dia 27 de julho, terça-feira, será lançado o livro "Caminhos de um Brasil Solidário", de Luis Salvatore e Ana Elisa Salvatore, fotógrafos e diretores do Instituto Brasil Solidário. Um livro de fotos de todas as regiões do Brasil, porém, se trata mais do que retratar belas paisagens. Todos são locais onde o IBS estava atuando com o trabalho de desenvolvimento sustentável que realiza pelo país.
Fotografias que retratam lugares e cenas do povo brasileiro, tendo por trás todas suas belas histórias de luta e força. Assim, acompanha textos e experiências dos voluntários (inclusive alguns meus), nesses anos de trabalho.
O evento será na livraria Cultura, do Conjunto Nacional da Av. Paulista, à partir das 18 horas. O convite vai para todos e segue abaixo.
Ficaremos felizes com sua presença!

Grande abraço!

Wolber Campos

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Maradona

Pois é amigos, a copa do mundo, realmente, nos inflama. Eu até tentei, mas não há como não escrever sobre o Maradona.
Desde o começo de sua aparição como técnico na copa, foi uma figura única. As câmeras o procuravam, os narradores se deliciavam com suas imagens levantando a bola com categoria, durante a partida, na mão dos jogadores, seus treinos eram assistidos como filmes recém-lançados, enfim, uma celebridade.
O que me deixa abismado, é o fato desse ex-craque, ter pensado tão pouco antes de soltar suas palavras e farpas para todo lado.
Primeiro, de forma arrogante, declarava a cada entrevista coletiva, que seu time seria campeão, porque era o melhor de todos, e, além disso, tinham Messi: "o melhor jogador do mundo!". Será que não via que, dessa forma, jogava toda torcida mundial contra seu time?
Ah, e o Messi. Era Messi para cá, Messi para lá. A imprensa contou, numa entrevista de 30 minutos, o nome do jogador foi citado 37 vezes por Maradona. "A Coréia que me desculpe, mas vamos ganhar, porque temos o Messi!", concluiu.
Como não observava que poderia até provocar um mal estar entre os jogadores? Para estar numa seleção, você tem que ser um craque. Imagino os outros companheiros dizendo "poxa, ele só fala em Messi, será que ele vai ganhar o jogo sozinho?".
Pra mim, a Argentina saiu da copa por um único motivo: prepotência. Maradona os achava superiores, os jogadores podem ter acreditado. Pegaram uma Alemanha forte que passou como um rolo compressor por sua equipe. Via-se nas expressões dos jogadores um susto, como se não estivessem preparados para aquilo, não sabiam o que fazer. O que acabou por enterrar suas ambições, é que Maradona também apresentava a mesma expressão e, da mesma forma, não sabia o que fazer. Assistiu seu time tomar um gol atrás do outro, como um torcedor, esperando que o time reagisse de alguma forma. Quando precisavam de um treinador, viram que não tinham um de verdade. O ídolo era apenas um ótimo ator, brincava, carismático, atuava com malabarismos com a bola, e, o pior, é que os argentinos acreditaram que ele era técnico também.
Por tudo isso, não entendo como na recepção da seleção argentina puderam ouvir tantos gritos de "fica" para Maradona. Acho que gostaram da atuação (no sentido de atuar como ator, mesmo).
Como disseram alguns comentaristas da TV: "nós brasileiros também torcemos para que ele fique..."

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Seleção brasileira

Tem uma lição que aprendemos por esses trabalhos no sertão brasileiro: uma escola é a cara do diretor. Onde há um diretor com atitude, vontade de fazer algo acontecer, boas intenções, o trabalho social flui maravilhosamente. Assim como a cidade, é a cara do prefeito. Quando o administrador é corrupto, com interesses torpes, a cidade se arrasta na estagnação (se não entrar em decadência).
Digo isso pois, da mesma forma, um time tem a cara de seu técnico. E nossa seleção, desde o princípio, era a imagem de Dunga. Já nasceu retranqueira.
Sem ufanismo, o futebol brasileiro tem em suas origens a habilidade e excelência pelo ataque. Tivemos grandes zagueiros? Claro, mas que não ofuscavam nossos craques. Em toda a história, todos os técnicos que mudaram esse estilo inerente de jogar, obtiveram fracassos, como em 90 com Lazaroni e seu esquema com líberos.
O que entristece dessa desclassificação é atestar que tínhamos um leque de jogadores, com categoria estupenda, para brilharem nessa copa (e o Ganso é apenas o nome mais certo desse grupo).
Esse time, que hoje se desclassificou, ficará com a cara do violento jogador Felipe Melo (que já teve até um texto nesse blog exaltando sua violência), defensivo e sem brilho. Até tínhamos um Kaká e um Robinho que, solitários, davam algum respiro de lembrança do nosso verdadeiro futebol, mas se o primeiro não estava completamente inspirado, a bola não chegava no segundo e em Luis Fabiano.
Como uma previsão, isso era sabido desde a convocação: levávamos, ou melhor, o Dunga levava, um único meia de armação, que vinha de uma lesão e poderia não aguentar uma competição. E parece uma piada: não levou um único jogador para substituí-lo à altura. Tínhamos apenas volantes e mais volantes, por todos os lados!
Essa é minha opinião sobre o Dunga: é, puramente, teimoso. Quando todos clamávamos por Ganso, e até Neymar, ele batia contra, no maior estilo "sou eu é quem mando". De repente, ninguém pedisse e, talvez, ele levasse os dois. Pode ter sido uma vontade de se aproximar de nosso saudoso Felipão, que segurou a bronca para não levar Romário e calou a boca da crítica com o título mundial. Dunga só não percebeu que era muito diferente, Romário vinha de contusões, já estava quase se aposentando, e não treinava, assim como Adriano.
Ganso estava - e está! - "voando baixo", recebendo elogios de todas as torcidas e jornalistas do Brasil.
Como consequência, terá que segurar a bronca que sua teimosia causou. Sem falar em comprar briga com a imprensa e deixar sua imagem de arrogante se consolidar.
Agora é torcer, não pelo campeonato, mas para que o próximo técnico deixe o Brasil jogar como o brasileiro gosta: buscando sempre o gol primeiro, e se defendendo depois.
O Felipão está voltando para o Palmeiras... Quem sabe?

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Por que as pessoas trabalham doentes? (por Graziela Souza)

Tenho algumas teorias sobre esse assunto:

1º Falta de amor próprio: Afinal qualquer tipo de indisposição, é uma forma do corpo falar que não está bem, está precisando de atenção, seja ela qual for, física ou psiquica(que é a pior);

2º Auto flagelação: Jesus Cristo foi único e sua ação foi para salvar o mundo do pecado, não é o caso do doente, afinal nem a sua própria vida ele está poupando;

3º Carência: Ficar sozinho em casa? Doente? Com quem vou conversar, almoçar?;

4º Egocentrismo: Imagina de forma alguma vou ficar em casa, tenho 5 reuniões das 08:00 as 10:00 e uma as 10:10 pra definir qual o tipo de letra que vou usar na próxima apresentação em ppt.que farei para o meu chefe, para levar ao chefe dele que apresentará para o nosso vice presidente que fica lá sei onde e que por sua vez vai apresentar para algum C(Chef) da área Internacional...

E o MEU telefone, vai ficar tocando e ninguém vai poder atender, afinal ele está na MINHA mesa.
Emails, emails, emails e mais emails invadirão MINHA Caixa de Entrada e MEU computador vai travar porque não há mais espaço no HD de 850.000 terabytes.
E a reunião que eu tenho toda semana com o meu principal fornecedor, aquele que só fala "NÃO" pra tudo o que peço...
Não, decididamente não, de jeito nenhum...vou trabalhar.
Descubro a cabeça, tento respirar o ar que não consegue entrar nos pulmões porque estou totalmente entupida, e me levanto.
Ao colocar os pés no chão, sinto um calafrio que vai da unha do dedinho do pé até o último fio de cabelo e um choque no calcanhar porque já ultrapassou a sensação de dor.
Mas pior que ser você o doente, é ficar do lado de um doente.
Acho isso uma falta de respeito, falta até mesmo de educação, afinal ninguém é obrigado a ficar doente por tabela.
Que tal uma Campanha, podemos até usar um modelo existente.
"Se beber, não dirija". "Se ficar doente, não saia de casa".

Graziela Souza é administradora, tem 32 anos

terça-feira, 29 de junho de 2010

Crônicas de um brasileiro, ex-soldado americano: O índio (por Euler Fernandes / Wolber Campos)

Era noite de domingo e dia seguinte, mais precisamente às 4 da manhã, estaria de pé para mais um dia de trabalho duro no exército. Deitado em sua cama, como de costume, Euler mudava os canais à procura de algum programa interessante. Num deles, viu um documentário sobre os índios americanos. Caçadores afirmavam que viam espíritos dessa antiga população na floresta. Pensou em mudar o canal, não gostava dessa história de espíritos, mas o assunto era interessante.
Tinha uma explicação científica por ter medo de espíritos:
- Algo vivo, a gente tem como matar para se defender, agora algo morto não tem! O que vou fazer se vier um espírito? Matar de novo? - conclui.
Mas agora era um soldado do exército mais poderoso do mundo, tinha que, pelo menos, enfrentar seus temores. Assistiu até o fim.
O documentário mostrava a entrevista de caçadores e uma dramatização. Descreviam que ao se esconderem nas árvores, ouviam aquele conhecido grito indígena: "Uuuulululululululululuulu!!!". Tremendo de medo, viam depois um índio, vestido com suas roupas e penas na cabeça, tão nítidos como nós, porém, brilhantes, como se emanacem luz.
Morreu de medo, mas só desligou a TV quando o programa terminou. Naquela noite, dormiu de luz acesa.
Dia seguinte, viajaram para a floresta, na Carolina do Norte. Já havia dormido naquelas matas e, para falar a verdade, dormia até quando montava guarda. No começo da noite um amigo começou a vigília, ele seria o próximo. Até lá, como todos faziam, armou sua improvisada barraca - estendendo a pesada capa de chuva sobre 4 estacas no chão - e dormindo abraçado ao seu fuzil. Nem a chuva, que caía incessantemente, atrapalharia seu sono.
Mais tarde acordou sendo chacoalhado, demorou para despertar, mas se sentou num susto. Era seu colega, dizendo que sua hora de ficar de guarda havia chegado. A adrenalina do susto baixou e, sonolento, se levantou. "Que preguiça!". Levantou do jeito que estava, já entrando sob a capa de chuva e seguiu andando para o posto - um buraco mais além na floresta.
"Tlililililililililim", ouviu um barulho atrás de si. Parou na hora, assustado. A primeira coisa que veio à sua cabeça foi a imagem do índio, ainda viva em sua memória como se tivesse acabado de desligar a TV naquele momento. Não era um "Uuuulululululululululuulu!!!", era mais fino e um "Tlililililililililim", mas vai saber se era um índio meio esquisito... Torceu para ser sua imaginação e voltou a andar.
"Tlililililim", dessa vez parou na hora e se voltou para trás apontando o fuzil em todas as direções. Sentiu vontade de disparar balas para todo o lado, no estilo Rambo, xingando de todos os nomes aquele índio maldito, mas se controlou. Tentou se acalmar, se virou, respirou fundo e foi andando.
"Tlililililililililim", continuou o barulho o seguindo. Ele andava mais rápido e, incrível, o som vinha atrás, na mesma velocidade. Começou a correr e era como se o índio corresse logo atrás, quase em seu pescoço.
"Ahaahhhhhhhhhhh!!" gritou internamente, para que seus companheiros não se assustassem também e pluft! se atirou de uma vez no buraco que iria montar a guarda. O som cessou assim que entrou na vala. respirava ofegante, segurando seu fuzil e olhando para todos os lados, temendo ver a luz do índio americano.
Geralmente dormia quando montava guarda, encostado na parede. Aquela noite ficou acordado, olhos arregalados, atento a cada estalar de galho, ou pequeno barulho, algo comum numa floresta.
Veio o amanhecer e a luz do sol é acompanhada dessa mágica, espanta todos os medos e faz nossos calafrios noturnos parecerem bobos. Se espreguiçou e pulou fora de seu buraco. Estava "quebrado" por não ter descansado. Deu um passo em direção ao acampamento e "Tlililililim", agora olhou para trás e deu mais um passo. "Tlililililim", batiam as quatro estacas de metal de sua capa de chuva, as mesmas que esqueceu de guardar no bolso ao se levantar "bêbado de sono" para montar a guarda.
Lembrou da noite mal dormida, guardou as estacas no bolso e teve vontade de chorar de raiva do índio americano.