terça-feira, 12 de julho de 2011

Educação

"Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda", já dizia Paulo Freire. Nas comunidades de pescadores de Paraty, as crianças fazem um grande esforço para seguir este caminho.
Onde trabalhamos, há várias comunidades, porém as pequenas escolas que servem esta população, educam apenas até o quarto ano do primeiro grau. As crianças que avançam este patamar tem que se dirigir ao centro de Paraty.
Nosso imenso país apresenta curiosas diferenças em suas diversas regiões. Em grande centros, os alunos vão para a escola em vans. Em lugares do sertão, seguem em caminhões, os famosos paus-de-arara. Naquela região de pescadores, embarcam em barcos-escola.
Não é fácil, os barqueiros - como Ademir, do texto anterior - começam sua jornada às 4 horas da manhã, quando pegam a primeira criança e, de pier em pier, vão pegando todos os alunos, até deixá-los nas areias de Paraty Mirim, antes das 6 da manhã. Lá, pegam o ônibus que se dirige para a cidade de Paraty. Ainda assim, a rotina segue dura, a estrada de terra é precária, com muitos buracos e quando chove então...
-Tem dias em que nem conseguimos passar, atola tudo e ninguém passa. - nos disse um morador.
Na última época de chuva, as águas caíram com tal força que levaram a ponte pela qual atravessamos o rio para a casa que ficamos no último trabalho.
Seguem mais de 18 km, por mais de uma hora até seu destino. Retornam para a praia até o barco só em torno das 14 horas.
Há brasileiros que fazem um grande esforço para conseguir sua educação, sem perder seu sorriso, sem perder sua força de vontade. Acordam muito antes do primeiro raio do sol nascer, perdem muitas e muitas horas em seu trajeto para a escola. Mas jamais perdem sua esperança.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Julgamentos

Chegamos na quarta em Paraty Mirim. Ali nos aguardaria um barqueiro para nos levar até a comunidade do Mamanguá. Descarregaríamos todos os equipamentos na escola e só então seguiríamos para a pousada onde descansaríamos após cada dia de trabalho. 
Ele estava nos esperando, com cara de poucos amigos. Como sempre fazemos, puxamos conversa, comentamos sobre o trajeto e quando dissemos que esperávamos que nos levasse da escola à pousada, Ademir foi enfático:
- Não me falaram que tinha que esperar não. Era só pra deixar vocês lá e ir embora. 
Naquele momento tive um pensamento que me envergonharia logo depois: "que má vontade! Custa esperar um pouco?"
Tudo bem, depois veríamos o que fazer para chegar à pousada. 
Foi um dos trabalhos braçais mais difíceis que fizemos até hoje na história do IBS. Estamos acostumados a chegar com todo o material na escola, de caminhão, descermos os pesados equipamentos, caixas e mais caixas de livros, e carregarmos direto para as salas e bibliotecas. Desta vez, aliado ao esforço para, em três pessoas (eu, Valter e Luis), carregarmos todo equipamento na carreta e na van na tarde anterior, descarregamos tudo na areia da praia, da areia para o barco, do barco para a escola. Para nossa salvação, tivemos a ajuda do Nori, um voluntário que se juntou à equipe com um vigor invejável!
Vendo todo o esforço que fazíamos, nosso amigo barqueiro se comoveu, e passou não só a nos ajudar com todo peso, como se comprometeu a nos levar embora depois de acabado o trabalho. carregava pesadas caixas, sorria e brincava conosco.
Enquanto o pequeno barco se dirigia para a escola (um trajeto de seus 45 minutos), fiquei sabendo que Ademir fazia este percurso algumas vezes por dia. Pegava a primeira criança para levar à escola às quatro da manhã e depois as buscava em torno das 14h. Para isso acordava as 2 da manhã, todos os dias da semana. 
A pressa de Ademir passou a fazer sentido. Também a minha necessidade de conhecer as pessoas melhor antes de julgar suas atitudes.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Saco do Mamanguá

Na estrada, novamente. Desta vez não estamos rumo ao sertão e sim para Paraty-RJ, onde daremos continuidade ao projeto Remar. 
Saímos de São Paulo num frio de "bater os dentes", o que ocasionou uma cena diferente: todos "empacotados", com pesadas roupas de frio, diferente de bermudas e chinelos quando partimos para a região norte e nordeste. 
Trabalharemos em uma comunidade de pescadores, no Saco do Mamanguá e onde só é possível chegar de barco. 
Não há sinal de celular e se o orelhão não estiver funcionando estaremos sem comunicação, algo curioso nos dias atuais, perto de um grande centro, na região sudeste. 
Entre os equipamentos segue um gerador, caso tenhamos problemas com a instável energia elétrica. 
Voltaremos semana que vem. Grande abraço!

Wolber Campos

domingo, 19 de junho de 2011

Nosso Brasil - casa de barro

Hoje começo a publicação de uma nova série no blog: Nosso Brasil. Nela, além de um texto descrevendo cenas, regiões, culturas e nosso povo, virá uma imagem, seja uma breve cena ou seja um filme, colhidos por essas lindas terras.
Espero que gostem!

Casa de Barro

Difícil algo que exprima mais a imagem do sertão brasileiro do que elas. As casas de barro estão por nossos livros de escola, fotografias, e quando o assunto é a seca, habitam o imaginário do cidadão das grandes metrópoles tanto quanto o próprio sertanejo.
Já havia entrado em algumas delas e sua simplicidade pode assustar a alguém que não esteja acostumado a andar pelo interior de nosso país. Não se trata de falar em carência, ou pobreza, mas sim em cultura. Povos tem sua forma de vida e moradia e casas de barro, palafita ou palha, muitas vezes abrigam pessoas que possuem boa situação financeira para a região.




















Levantada em torno de uma ou duas semanas, guarda em suas paredes a energia das próprias mãos do dono e amigos que, juntos, a ajudaram a subir. O chão, geralmente, é de terra batida e muitas vezes a parede que divide os cômodos é um lençol ou tapume de madeira.
Jeremias deve ter em torno de 20 anos, já fez sua família, já levantou sua casa, ao lado da escola onde trabalhamos, em Primavera, no Pará. Abriu a porta de seu lar para que pudéssemos conhecê-lo. Para que muitos brasileiros pudessem ver como muitos irmãos de pátria moram em nosso sertão. Numa linda casa de barro.


quarta-feira, 15 de junho de 2011

Fim de tarde

Ontem, estava saindo do consultório, o Luis me ligou:
- Cara, escuta só esse som! - e por alguns segundos chegou ao meu ouvido o som do sertão.
Estava ele em Barreirinhas, bela cidade onde ficam os Lençóis Maranhenses. Trabalharemos lá este ano, e Luis teve uma reunião com o prefeito e secretários do local para mostrar os detalhes do projeto.
Após a reunião, fim de tarde, chegou em um barzinho, estilo "boteco beira-rio", sentou-se e pediu uma cerveja. Foi o primeiro a se sentar ali, e, para sua surpresa, alguns minutos depois começou a tocar um trio de forró pé-de-serra, daqueles da Nossa Terra (assim mesmo, com letra maiúscula). Eram mais velhos e não tinham uma zabumba, som que era tirado em uma bateria.
- Vamos dar uma zabumba pra esses caras! - me disse empolgado com a música do Luiz Gonzaga tocando ao fundo "vaaaaaaaai boiadeiro que a noite já veeem...".
Uma nostalgia invadiu meu peito. Graças a Deus, uma nostalgia nova, sendo que cenas assim ainda encontramos algumas vezes por ano nessas viagens. Mas veio aquela saudade de Brasil. De um lugar onde podemos, depois de um dia de trabalho, nos sentar em um bar e ver senhores tocando belas canções da nossa terra (aqui está em letras minúsculas, mas lembre-se que sempre serão maiúsculas em sua acepção), do mesmo modo como faziam décadas e mais décadas atrás.
Me despedi, liguei o carro e peguei o trânsito de São Paulo para chegar em casa. Dessa vez com uma música na cabeça: "...guarda o teu gado e vai pra junto do teu bem". Eu iria, mas guardaria meu carro.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Simpáticas simpatias

No começo de maio a equipe retornou ao Vale do Jequitinhonha para encerrar o projeto Sorriso Solidário. Dessa vez, enfrentaram um intenso frio e muitos começaram a ficar doentes; gripes, febre, dor de garganta.
Em uma das cidades, Valter ficou de cama, com uma forte febre e dores pelo corpo. Voltou para a casa omde estava hospedado (Receptivo Familiar) e entrou embaixo das cobertas. Estava quase dormindo quando bateram na porta.
- Pode entrar! - encontrou forças para dizer.
Entrou uma senhora, com rosto sério e um copo com água na mão.
- Me disseram que você estava passando mal. Vamos ver o que é. Vou jogar essas pedras de carvão no copo e já saberemos. - disse com um ar grave.
Lançou dentro do copo três pedras de carvão, duas desceram vagarosamente até se alojarem no fundo do copo, uma boiou. Ela fez uma cara de desaprovação e disparou:
- É mal olhado! levante-se. - ordenou.
Falou para ele andar de costas, com o copo de água na mão até a porta, sem olhar para onde estava indo, tomar um gole da água e jogar todo o conteúdo por sobre seu ombro, fora da casa, retornando à cama sem olhar para trás.
Ele, abatido demais para discutir, fez todo o combinado.
Deitou, alguns minutos depois, batem à porta novamente. Era uma outra senhora, um pouco mais velha. Disse que veio ajudar, podia curá-lo, mas ele teria que acreditar que poderia ser curado.
- Posso tirar uma de suas meias? - perguntou, a retirando do pé esquerdo assim que Valter concordou.
Saiu e volou alguns minutos depois.
- Olha, vai estar um pouco gelada, mas é para o seu bem. - disse e vestiu a meia, ensopada e gelada.
Alguns minutos mais tarde outra senhora adentrou o quarto, perguntando o que ele estava sentindo. Colocou a mão em sua testa e diagnosticou: "você está com febre!".
Valter sorriu cansado, esperando a próxima simpatia que viria, mas a senhora retirou todas as suas cobertas e ele se sentiu entrando em uma geladeira.
- Tira tudo isso, é febre e você não pode ficar se cobrindo, não. Senão não melhora! - disse e saiu.
Pinduca entrou no quarto - para o alívio de Valter que imaginou mais uma senhora com algum aparato de cirurgia nas mãos.
- Valtão, está tudo bem? Tem um monte de mulher na sala com garrafas de água com raízes, dizendo que é pra você...
Valter disse que já tinha melhorado, tremendo pegou as cobertas de volta, se cobriu e disse que só precisava descansar. Ficou feliz em saber que tanta gente se preocupava com ele, mas já estava bem de simpatias para aquele dia...

sábado, 4 de junho de 2011

A lição vem de longe

Não é de hoje que me revolta a exploração que a mídia faz sobre desastres. Um grande amigo, que trabalha em um jornal de São Paulo, me disse que no meio há profissionais que parecem urubus em busca de carniça. Após o terremoto que destruiu o Haiti, viu um editor com algumas fotos da tragédia que estampariam a primeira página no dia seguinte. Ele olhava com um sorriso e comentava "veja que lindas imagens!".
Também em relação ao povo. Os amigos que por aqui passam, sabem que sou um brasileiro de todo o coração, mas como povo, ainda temos muito o que aprender. O desastre no Japão nos trouxe muitas lições. Cabe a nós aplicá-las em nosso cotidiano.
Recebi por e-mail, de alguma alma observadora e com grande sensibilidade, 10 exemplos a serem seguidos.

Um grande abraço!

DEZ COISAS A SEREM APRENDIDAS COM O JAPÃO

1 – A CALMA
Nenhuma imagem de gente se lamentando, gritando e reclamando que “havia perdido tudo”. A tristeza por si só já bastava.
2 – A DIGNIDADE
Filas disciplinadas para água e comida. Nenhuma palavra dura e nenhum gesto de desagravo.
3 – A HABILIDADE
Arquitetos fantásticos, por exemplo. Os prédios balançaram, mas não caíram.
4 – A SOLIDARIEDADE
As pessoas compravam somente o que realmente necessitavam no momento. Assim todos poderiam comprar alguma coisa.
5 – A ORDEM
Nenhum saque a lojas. Sem buzinaço e tráfego pesado nas estradas. Apenas compreensão.
6 – O SACRIFÍCIO
Cinquenta trabalhadores ficaram para bombear água do mar para os reatores da usina de Fukushima. Como poderão ser recompensados?
7 – A TERNURA
Os restaurantes cortaram pela metade seus preços. Caixas eletrônicos deixados sem qualquer tipo de vigilância. Os fortes cuidavam dos fracos.
8 – O TREINAMENTO
Velhos e jovens, todos sabiam o que fazer e fizeram exatamente o que lhes foi ensinado.
9 – A IMPRENSA
Mostraram enorme discrição nos boletins de notícias. Nada de reportagens sensacionalistas com repórteres imbecis. Apenas calmas reportagens dos fatos.
10 – A CONSCIÊNCIA
Quando a energia acabava em uma loja, as pessoas recolocavam as mercadorias nas prateleiras e saiam calmamente.
Nenhum arrastão contra o povo, ou para roubar o comércio

Para encerrar, algumas frases de Mahatma Gandhi:

"Temos de nos tornar na mudança que queremos ver"

"Um homem não pode fazer o certo numa área da vida, enquanto está ocupado em fazer o errado em outra. A vida é um todo indivisível"

"Há riqueza bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ambição"

"O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente que há no mundo"

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Volta à Belém

Hoje chegamos em Belém do Pará. Numa equipe pequena, eu, Luis e Valter, viemos entregar as próteses moldadas em abril, participar da semana do meio ambiente em Primavera e fazer uma reunião na cidade vizinha de Quatipuru, onde trabalharemos no segundo semestre. 
Quinta-feira estaremos de volta. 

Grande abraço!

Wolber Campos

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Atitudes

João era um cara, tipicamente, esquentado. Seu temperamento era paradoxal; uma das pessoas mais carismáticas - e boas - que eu conheço, mas pisasse alguém em seu calo, era bom sair de perto.
Como somos amigos de infância, presenciei situações do tipo: um "trombadinha" (como chamávamos os malandros em nossa adolescência) passava encarando, fazendo cara de mal, como quem diz "vou assaltá-los!", e era o bastante.
- Tá olhano o quê, ô babaca! Acha que tenho medo só porque você é feio pra caramba? - dizia, indo na direção do elemento, que sempre desviava. (acho que a confiança do meu amigo é tão grande que assustava mais ainda).
Era "esquentado" contra injustiças, diga-se de passagem. Nunca arranjou encrenca em filas, ou por impaciência, mas quando via algum espertalhão, desses folgados que gostam de levar vantagem sobre os outros, já deixava o cheque com a boiada (para não sair da briga) assinado.
- Sei o quanto erro em estourar muito e sei o quanto preciso melhorar... - dizia sempre, mostrando seu caráter e preocupação em se tornar uma pessoa melhor.
Poucas semanas atrás, João saía com seu carro. No final de sua rua, embicou em uma avenida movimentada e viu um carro descendo rapidamente. Imaginou "dá tempo" - como pode acontecer com qualquer um de nós - e entrou. O carro, como de costume em São Paulo, acelerou e brecou bem perto do seu, e ,mesmo saindo mais rápido, o adversário (outro costume no trânsito de São Paulo são os carros serem adversários) acelerava e gesticulava.
Aquilo o deixava muito nervoso. "Pra quê tanto stress? O cara podia ter diminuído!", pensava. Mas parece que muitos aceleram apenas para dar motivo para justificar sua ira.
Entrou em uma rua menor à esquerda, o outro entrou atrás, "colando" em sua traseira e tentando emparelhar o carro. João tentava ter paciência, mas era muito difícil. Até um momento em que o farol fechou e o outro carro tirou para o lado e parou junto à sua janela. O homem baixou o vidro e começou a gritar, o xingando de vários nomes.
João baixou sua janela. Olhou para a pessoa tresloucada no outro veículo. Levantou sua mão e disse:
- Amigo, me desculpa! Achei que daria tempo pra entrar e acabei te fechando. Sei que tava errado. Mals aí.
Aquilo transfigurou o homem. Como da água para o vinho, seus olhos irados refletiram compaixão. João nunca tinha visto uma mudança de atitude tão drástica daquela forma.
- Opa, tudo bem. Me desculpe também. Estou atrasado, acabei estressando à toa. Foi mal! - disse, até sorrindo.
João me contou:
- Cara, incrível! Parecia que eu ia parar o carro e tomar um chopp com o cara. Ficamos quase "brothers"...
Nada como uma mudança de atitude. Pode-se ter certeza que naquele dia duas pessoas mudaram, um pouco para melhor.

domingo, 15 de maio de 2011

Banco

Numa cidade do interior do estado de São Paulo, Itapetininga, os moradores mais velhos se lembram nostálgicos do tempo em que a modernidade passou a chegar em sua terra. De todas, a mais curiosa - e engraçada - foi a época em que o serviço financeiro, os bancos, começaram a se popularizar.
Pode-se imaginar, para pessoas simples, em toda a humildade que o interior lhes envolvia, o que era confiar todo seu dinheiro, ganho em sua lida de cada dia, a um estranho, que havia construído uma grande casa e dizia que tomaria conta de sua fortuna.

Havia um senhor idoso, que todo dia se encaminhava ao caixa, retirava todo seu dinheiro, o contava na frente do atendente, o olhando com cara desconfiada, como quem diz "estou esperto, viu?", para ver se todo seu dinheiro estava ali mesmo. Conferindo que ali estava toda a quantia que havia deixado no dia anterior, a depositava novamente, dizendo "até amanhã". Seguia para casa tranqüilo, sabendo que, pelo menos a ele, aqueles homens não enganariam.

Um morador, faria uma compra grande, então se encaminhou para o banco, para retirar seus 15 mil reais (em moedas atuais). O gerente lhe disse que era uma grande quantia, que ele esperasse "alguns minutos, que o carro-forte chegaria em pouco tempo com o dinheiro". Ele se inflamou, sabia desde o primeiro instante que estava sendo enganado. Aquilo não ficaria assim, faria um escândalo para que todos pudessem ouvir. Encheu os pulmões e bradou:
- Ladrões!!! Eu sabia!!! Meu dinheiro estava aqui dentro, deixei aqui com vocês e vocês o levaram daqui!! Quero o meu dinheiroooo!!!!

Um velhinho, já tinha imaginado o banco como a melhor invenção da modernidade. Ficou fascinado com a vantagem de depositar um dinheiro ali e ter um talão de cheques, aquelas folhas maravilhosas que, com sua assinatura, seria aceita como dinheiro em qualquer lugar. O usava em todos es estabelecimentos. Ia almoçar, ao pedir a conta, tirava o talão de seu bolso e fazia o ritual mágico que havia se habituado: abria o talão na mesa, postava a caneta sobre a folha de cheque e a deslizava sorrindo.
Não poupava em lugar algum, saía com todos os amigos para um jantar. Na hora de pagar, não deixava ninguém ajudar com a despesa.
- Podem deixar, eu tenho um cheque! - dizia, abrindo o talão sobre a mesa, postando a caneta sobre a folha e a deslizando, sorrindo.
Fez isso com toda paixão e orgulho por algumas semanas, sempre ávido para pagar tudo a todos. O gerente do banco, preocupado com o número de cheques que chegavam, chamou o velhinho para uma conversa.
- Senhor, percebemos aqui que está chegando um grande número de cheques a serem debitados em sua conta. E o valor já superou seu limite. Sua conta está no negativo e o senhor está nos devendo 2.500 reais...
- Quanto? - perguntou calmamente o velhinho, ouvindo novamente o valor de sua dívida.
Não pensou duas vezes, tirou o talão de seu bolso, postou a caneta sobre a folha de cheque e a deslizou sorrindo, escrevendo "dois mil e quinhentos reais".

Fatos verídicos colhidos em forma de documentário pelo cinegrafista Vítor Pinduca

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A manga

Conhecer o interior do Brasil é sempre enriquecedor, seja por admirar nossas variadas culturas, participar do cotidiano de outras regiões, ouvir o sotaque "puxado" das pessoas, ou mesmo viver por uns dias em uma realidade tão diferente da cidade grande. 
Estávamos sentados, certa noite, numa mesa de bar, dessas de alumínio, tão comuns por botecos de norte a Sul do nosso país. Porém ali, tudo era diferente. Acima de nossas cabeças estava uma frondosa e enorme mangueira, aos nossos pés  o chão de terra, acima da árvore, as estrelas, que iluminavam o céu límpido que nos observava naquela bela noite. Um cenário que faria a mais pura inveja a qualquer barzinho da Vila Olímpia ou da Vila Madalena. 
O papo seguia muito animado, quando de repente foi cortado com um grande barulho:
- Bam!!
Um susto, mas nada grave. Uma manga despencou de lá de cima, no alto da árvore, sobre a mesa de alumínio. Demos muitas risadas, era uma cena, no mínimo, inusitada. 
Bem lá no fundo, entre sorrisos, agradecíamos a Deus. Primeiro, por ter oportunidade de presenciar uma cena dessas. Segundo, por estarmos embaixo de um pé de manga e não de um de jaca.  

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Misturas

O Pará é uma linda terra. Há fartura, seja de chuva, de peixes, plantações. O povo, mesmo quando em situação bem humilde, vive bem e feliz. Pessoas simpáticas, receptivas e festeiras.
Trabalhamos na cidade de Primavera, a menos de 200 km de Belém. Fomos recebidos por um animado carro de som e uma carreata com fogos de artifício, sempre ao som do Melody, ritmo bem característico da região, com suas músicas com a velocidade acelerada, deixando as vozes bem "fininhas".



Numa festa, no fim dos trabalhos, com um som de discoteca no porta-malas de um carro, o rapaz falava: "Olha meus amigos, este é o som de nossa cultura aqui no Pará", fazendo questão que conhecêssemos tanto as músicas dançantes, quanto as regionais e folclóricas, como o carimbó.
Grande parte da população daquela região tem traços indígenas, espalhando pelas ruas a beleza da mistura, tão presente no povo brasileiro.





Há também moradores com características de outros estados, como o Ceará e o Maranhão, devido à grande migração de sertanejos na época áurea da borracha.
No fim do trabalho, conversando com um professor, com seus traços mestiços, ele me definiu:
- Meu amigo, aqui temos muita mistura, por isso deu esse povo bonito. As mulheres são lindas. Esse negócio dos europeus se juntando aos índios e negros, deu muito certo. Mas a cria com essas mulheres daqui é melhor com alguém de fora da região, aí o filho sai lindo! Se juntar eu com uma mestiça, não sai filho bonito não. Se eu tiver um filho com uma paulista, já sai bonitinho, um moreninho, de olhinho meio puxado, olho claro, cabelo enrolado...
Curiosa teoria. Assim como outro paraense completou a definição:
- Essa mistura ficou muito boa. Mas a melhor empresa de todas, é a que dá da mistura do italiano com a índia! - disse sorrindo.
Se a moda pega, haja europeus empreendedores se mudando para nossa região norte...

domingo, 10 de abril de 2011

Raposa

Neste domingo, 10 de abril, Estamos numa van alugada saindo de Belém do Pará rumo à cidade de Primavera. Trabalharemos esta semana, implantando um projeto em parceria com a empresa Votorantin.
Na cidade não há sinal de celular e provavelmente dó conseguirei dar notícias no blog depois de sexta, quando voltamos para São Paulo.
Foi a primeira vez que vi Belém, e a imagem dos braços do Rio Amazonas chegando ao lado do aeroporto me deu uma doce alegria. Era um sonho antigo conhecer a região amazônica.
O avião estava tocando o solo e diminuindo a velocidade e enquanto olhávamos as arvores altas da floresta que chegava perto de uma 200 metros da pista, meu amigo Manolo apontou: "olha lá!". Uma rapozinha seguia andando em direção à floresta.
Logo no primeiro momento, já fomos bem recebidos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Doutora Brasileira: 50 reais

Conversando com os dentistas da Marinha, colegas de trabalho na região amazônica, a doutora percebia uma certa tristeza. Para pessoas que querem fazer a diferença, é difícil aceitar que, em muitos casos, não há como mudar a situação das pessoas que ajuda.
O trabalho odontológico consistia em sua maioria em curetagem dos dentes (remoção da cárie com um instrumento manual) e colocação de uma restauração provisória.
A parte de prevenção, com palestras, era pouco absorvida. A extrema dificuldade financeira das populações ribeirinhas tornava difícil a aplicação de normas simples, como a escovação após todas as refeições e o uso de uma escova por pessoa.
Naquela manhã, um casal sentou à sua frente com uma criança. Uma mãe que aparentava estar próximo aos quarenta anos, pela dureza de suas feições e pele castigada pelo sol, porém com 23 anos. Baixinhos. Os ribeirinhos são, em sua quase totalidade, de estatura baixa. Ao fazer as perguntas básicas sobre a estrutura da família, colheu os seguintes dados: um casal, seis filhos, renda familiar = 50 reais por mês.
Com cinquenta reais por mês, como imaginar que um pai gastará dinheiro com 8 escovas e creme dental para sua família? Já será difícil conseguir comida para completar a refeição dos peixes que pesca para sua sobrevivência.
O Brasil e seus constrastes. Há regiões em que é comum se gastar 50 reais em um jantar, num restaurante simples. Em outras, famílias sobrevivem por um mês inteiro com este valor.
Uma região com famílias esquecidas, soltas por sua própria sorte, à márgem da sociedade. Da mesma forma que sobrevivem às margens dos rios da Amazônia.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Politicagem

Poucas palavras me embrulham mais o estômago do que esta. Para quem faz trabalho social e, com frequência, mantém contato com políticos, não é fácil lidar com muitas dessas situações que aparecem.
Há prefeitos que apoiam, gostam do projeto e, realmente, se empenham em ajudar. Por mais incrível que possa parecer, para nós brasileiros, que estamos acostumados a imaginar políticos com chifres e tridentes. Sempre me preocupo em não generalizar, e também devo escrever quando recebemos algum apoio do poder público. Há pessoas boas e ruins em qualquer esfera, nesta não é diferente.
Mas semana passada tivemos mais um exemplo da parte triste da política brasileira. Realizamos em Lençóis, na Bahia, o Primeiro Encontro Amigos do Planeta na Escola. Uma semana de seminário, onde as dez escolas em que trabalhamos nos dois últimos anos, levaram apresentações onde demonstravam como os trabalhos que implantamos seguem em cada região.
Foi um sucesso. Em torno de cinco integrantes de cada município, viajaram de vários estados brasileiros (Minas, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Maranhão, Piauí e Ceará), num percurso que chegava, em alguns casos, a mais de 1000 quilômetros!
Um grupo de educadores subiu no palco. A diretora da escola agradeceu a todos e contou sobre a dificuldade em chegar até ali. Com os olhos cheios de lágrimas, disse que o prefeito negou o veículo que as levaria ao encontro, dias antes da viagem. Não entendiam o motivo, correram atrás, tentaram de todas as formas, mas ganhavam apenas um lacônico "não". Até que uma pessoa de dentro da prefeitura, lhe disse:
- Olha, não diga a ninguém que eu te falei, mas se você quiser ir, troque a equipe.
Tudo começou a se explicar, as outras professoras eram de outro partido.
- Como eu vou trocar a equipe se elas tocaram esse projeto comigo? - retrucou.
Politicagem. Uma das maiores chagas que afetam nosso país, acabava de atingir uma equipe que havia realizado um ótimo trabalho para os alunos de sua escola.
A diretora conseguiu o apoio do presidente da câmara de vereadores e um veículo foi emprestado para levar a equipe.
Contando essa história, as lágrimas não resistiram e rolaram. À sua frente, muitos educadores, uns passaram algo parecido, outros não, mas todos as aplaudiam, solidários por sua luta.