sábado, 1 de maio de 2010

Sorrisos

Hoje faço 7 anos de namoro com a Ju. O tempo passa... A pouquíssimo tempo atrás, 7 anos era a metade do tempo que tinha vivido. Agora, dez anos parece que foi ontem!
Para uma surpresa, fui a uma floricultura, procurar algum arranjo de flores e uma simpática senhora me ajudava. Certo momento, entrou na pequena loja uma mulher, estilo "madame" e a cumprimentou com enorme carinho. "Oi meu amor! Que saudade de você!".
Pensei que eram grandes amigas, mas vi que era apenas uma cliente. E ainda pensei "que simpática" quando complementou:
- Olha, já mandei duas amigas aqui pra você. E é uma indicação de coração mesmo, faço com o maior gosto.
Enquanto eu olhava, indeciso em saber qual arranjo levaria, a senhora foi atender a "bondosa" mulher. Essa perguntou o preço de pequeno maço de rosa colombiana, ou algo do tipo, o que foi respondido pela senhora "15 reais".
- Quinze reais?! Nooooooooooossa, meu Deus do céu, que caro!!! Outro dia mesmo eu vim comprar aqui e eram 10 reais. Que que é isso, meu Deus. Como pode aumentar assim? Geeeeente, que coisa...
A senhora ficou completamente sem-graça e disse que sempre foi esse preço. A "madame" continuava falando em tom assombrado, como se estivesse realmente espantada com o preço que a senhora cobrava dela. Era como se estivesse sendo assaltada.
- Não é possível, como vocês podem aumentar assim? Que cooooooisa!
Até eu me senti mal pela pobre senhora que, em vão, tentava explicar que o preço sempre foi aquele. Até que desistiu:
- Mas tudo bem, eu faço 10 reais pra você, você sabe que eu sempre te ajudo quando posso.
E a mulher ainda assim continuava com sua cena de espanto e indignação.
Claro como uma cristalina água, era o teatro que a mulher fazia para conseguir um descontinho. Toda aquela "paixão" pela senhora no começo tinha apenas um objetivo: conseguir seu almejado desconto no final.
Fosse real aquele "meu amor", "indico de coração para você" e algumas outras baboseiras melosas que soltou, ela nunca agiria daquela forma, quase chamando a senhora de "bandida" por cobrar tão caro dela, uma pobre pessoa indefesa contra o vil comércio que tentava passá-la para trás.
Foi embora logo depois. Nas mãos suas parcas rosas importadas, compradas pela metade do preço. Saía com um sorriso vitorioso por ter conseguido um desconto com seu teatro e deixando para trás uma senhora, meio triste, com um sorriso sem-graça na boca.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Filhinha

Estes dias saí com um grande amigo meu, que não encontrava há algumas semanas. É um pai recente, sua filhinha está com 3 meses de idade. Comentava-me emocionado cada gesto novo, sorriso, histórias, tudo que a pequena vai fazendo a cada dia.
- É um amor inexplicável, uma saudade intensa. Me pego, às vezes, em meio à turbulência no serviço, abrindo meu celular e olhando alguma foto dela. – diz com brilho nos olhos.
Hoje, relembra com tristeza uma passagem durante a gravidez de sua esposa. E essa tristeza não é pelo fato da chance de uma síndrome acometer seu bebê. Aliás, conheci poucas pessoas fortes e com uma cabeça tão boa como esse meu amigo. O que entristece é que muitas pessoas numa dúvida como essa podem tomar decisões erradas e drásticas.
Perto do terceiro mês de gravidez, durante um exame de ultrassom, apareceu uma probabilidade, pelo tamanho da região encefálica do feto, de ela ser portadora da síndrome de down. Não era nada certo, mas um segundo exame confirmou a possibilidade.
Foi então que o médico deu ao casal a possibilidade de realizar o aborto. Graças a Deus – e ao meu casal amigo – eles descartaram qualquer chance disso acontecer.
Aprendi muito com ele, pois enquanto muitos torceriam para que fosse apenas um alarme falso, rezariam para livrar o bebê da síndrome, ele começou a estudar sobre o tema, ler artigos, casos de outros pais que tem filhos com down.
- Temos que estar preparados para o fato de que podemos ser pais de uma filha especial.
O futuro papai não se sentia no direito de torcer para que a filha não tivesse a síndrome. Que direito ele teria, se o fato fosse esse mesmo, de ter torcido para que a filha fosse diferente? Seria como renegá-la. “Deus sabe o que faz”, dizia.
Foi um alarme falso. O que entristece é saber que foi passada a possibilidade para que eles “tirassem” seu futuro tesouro. Quantos pais hoje em dia não decidiram por esse lado?
Hoje a pequenina cresce, dando a cada dia mais alegrias aos pais, que teriam por ela o mesmo amor se tivesse ou não a síndrome de down. O amor que só um pai sabe como é ter pelo filho.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Saaaaaaaaaaantooooooooos!!!

Ontem foi dia de final de campeonato. Poucas coisas são mais brasileiras do que gostar de futebol e ir à final do campeonato no estádio. Talvez algo do mesmo tamanho que falar em carnaval ou em corrupção na política.
Mas falemos de coisas boas e eu, como um bom santista, tenho motivos para isso.
Hoje me permitirei ser um ufanista pé-no-chão, se é que me permitem a antítese. O Santos de hoje é um time que me dá um orgulho imenso. Digo que, sem sombra de dúvidas, valeu a pena ser santista todo esse tempo (fim dos anos 80 e 90) de "vacas-magras". Sofri todo tipo de gozação na época em que se dá mais importância ao futebol: a infância e adolescência. Meu time era saco de pancadas de todo mundo. Haja paciência. Foi nessa época em que peguei birra do Corínthians e do São Paulo - que foi bi-campeão do mundo no começo dos 90.
Onde penso que podem me taxar de ufanista (eu mesmo não me considero, nessa caso), é o porquê penso que valeu a pena meus anos de torcida na fila de títulos.
Esse time atual do Santos, semelhante ao time de 2002 com Robinho e Diego, joga de uma maneira muito bonita, leve, alegre, com tamanha habilidade e técnica como não me lembro de ter visto nas últimas décadas.
Talvez o São paulo bi-ampeão mundial de 2002, com Raí, Muller, Silas e um bando de craques, tenha jogado num nível parecido, mas ainda assim, não me lembro de terem uma alegria contagiante na maneira de jogar e um apetite tão voraz por gols, como essa equipe atual do Peixe.
Meu orgulho futebolístico remete às inúmeras conversas que tinha com meu querido pai - o responsável pelo fato de eu ser santista - sobre o futebol das antigas. Ele foi um dos privilegiados a ver Pelé jogar (na mesma época em que outros eram privilegiados em ver os Beatles tocar. Será que eu nasci na época errada?). Sempre me comentava a maneira como o Santos dos anos 60 jogava, alegre, leve, habilidoso ao extremo e com apetite de gols... Parece algo que já escrevi?!
Pois é, esse é o motivo de meu orgulho. E por isso, este domingo, eu fui ao Pacaembú e vi meu time ganhar na primeira final do Santo André, por 3X2. E domingo que vem estarei lá. E não importa se, de repente, perder de dois ou mais gols de diferença e não for campeão. Isso é lindo do futebol: já estamos felizes apenas de ver um jogo tão bonito como foi até agora, o título, se vier, será apenas um atestado de que, é sim, possível ser campeão jogando bonito e pra frente!!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Histórias d(n)o Lixo (por Valter Lima/ Wolber Campos)

Em 1984, minha casa estava em reforma. Entre um grande entra-e-sai de pedreiros e ajudantes, minha mãe decidiu esconder suas jóias, para que não houvesse problemas com o grande número de pessoas estranhas dentro de casa.
Esvaziou sua caixinha e, para não chamar a atenção, as embrulhou em um jornal, colocando-as em cima do criado mudo, até encontrar um lugar seguro para escondê-las.
Olhando as obras, resolvendo problemas, acabou esquecendo o embrulho e só lembrou de noite. Correu sentindo um arrepio na espinha, lembrando das queridas jóias – naquela época meu pai, muito bem no emprego, sempre a presenteava com pulseiras, colares ou anéis.
Chegou em seu quarto e levou um susto: estava todo arrumado, os móveis em seus lugares e tudo completamente limpo. Correu até minha prima, que a ajudava e estava dormindo.
- Cristina, pelo amor de Deus! Você guardou minhas jóias? – perguntou preocupada.
Ela, ainda sonolenta, disse que sim. Enquanto minha mãe respirava aliviada, despertou-se completamente e perguntou: “que jóias?”.
Ela havia arrumado o quarto, juntado todos os papéis e jornais que protegiam o chão da tinta e os jogado fora, incluindo as jóias embrulhadas de minha mãe.
Assim, peças caras acabaram indo para o lixo. Imagine quantas histórias como essa existem.
- Você não acredita, vai muito dinheiro para o lixo. – comenta Valter Lima, que trabalha e dá aula na área ambiental.
Grande parceiro dos trabalhos junto ao Instituto Brasil Solidário, Valter foi, durante alguns anos, chefe da seção de triagem de uma usina de compostagem, em São Paulo. Ali era recebido o material orgânico proveniente do lixo da cidade e como vinham muitos resíduos inorgânicos, estes eram separados para futura reciclagem.
O lixo chegava diretamente dos caminhões que o despejava num compartimento receptor. De lá, ele caía em uma esteira em movimento, onde havia cerca de 40 trabalhadores para separar o material. O primeiro homem da esteira era encarregado de rasgar o saco, para que todo lixo se esparramasse na esteira, onde nos próximos metros, outros separariam o material inorgânico.
Tudo que acontecesse, qualquer fato anormal, havia um botão que o primeiro funcionário apertava e parava a esteira, chamando, logo em seguida, Valter pelo interfone.
Certo dia, quem o chamou foi o segurança:
- Está acontecendo um tumulto lá embaixo!
Valter desceu correndo e ao chegar à região da esteira a bagunça estava terminando. Perguntou o que havia acontecido e os funcionários despistavam: “foi nada não...”.
Na realidade, havia caído um saco de lixo, o primeiro homem, como de costume, o rasgou, espalhando uma enorme quantidade de dinheiro sobre a esteira. O segundo gritou: “Dinheiro!!”. Todos os outros 38 homens, espalhados nas 6 mesas de separação correram e se atiraram sobre a esteira, repleta de lixo e dinheiro.
Depois que a poeira baixou disse um funcionário que “teve gente ali que embolsou mais de 500 reais!”.
Ai, as jóias da minha mãe... Bom, pelo menos foram para quem precisava.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Urgência

Nessas viagens pelo sertão é normal termos alguns contratempos estomacais ou, pior ainda, intestinais. Tive um problema durante o trabalho em Alagoas, cidade de poço das Trincheiras. Após cada atendimento corria para o banheiro; foram mais de 8 vezes durante aquele suado dia. Mesmo assim foi um “piriri” levíssimo comparado ao “perrengue” passado em outra viagem por dois amigos da equipe.
Seus nomes foram modificados, para evitar constrangimento e piadas dos alunos por onde passarmos. Apesar da tentação de cumprir com a verdade neste blog vou resistir – ou tentar...
Sidnei costuma passar mal em todas as viagens. Pelo menos em uma ou duas cidades o vemos com cara fechada, olhos entreabertos, andando feito um zumbi pelas escolas – quase sempre em direção ao banheiro. O tempero diferente – e muitas vezes forte – o acerta em cheio e aliado com um certo stress pelo puxado trabalho que desempenha faz seu intestino (pra não dizer outra coisa) se abrir como uma torneira.
Essa última viagem, de abril de 2010, foi uma das poucas em que chegou ao fim ileso. Em outro ano, depois de um almoço em uma escola, emendado com um deslocamento longo de carro, sua barriga começou a dar sinais de que o mal estava próximo. Certa altura da estrada, a vontade de descarregar no banheiro era incontrolável. Vendo um posto de gasolina solitário na beira da estrada, gritou ao amigo que dirigia o carro:
Sidnei: Carlão, pelo amor de Deus, pare o carro!!!
Carlos: Vamos parar em outro posto, que este aí é meio caidão.
Sidnei: Maluco, você não ta entendendo! Para esse carro agora!!
Carlos vendo a cara de desespero do amigo e uma gota de suor descendo pelo lado de sua face, parou imediatamente.
Se houvesse um campeonato mundial de corrida do carro para o banheiro, duvido que alguém tirasse a medalha de ouro de Sidnei.
Ao entrar ali, o desespero era tanto, que mal percebeu o cenário desolador que o esperava: num cubículo bem pequeno, uma privada que não tinha porta a separando da pia e do mictório que estava pendurado na parede à sua frente.
“Cara, que alívio, eu praticamente urinava pelo ânus!”, relembra nostálgico.
Nisso, entravam outros no banheiro e ele naquela situação constrangedora, com um sorriso, de graça e nervoso ao mesmo tempo:
Sidnei: Opa, tudo bem?
Homem X: Opa, pode ficar à vontade aí...
Sidnei: É o jeito, né?!
A caganeira continuava como enxurrada, o suor escorrendo pela cara, e mais outro entrava.
Homem Y: Ops, pode mandar bala aí!
Sidnei (pensando): Tá mais pra mandar cachoeira, mas tudo bem...
Como é bom receber apoio moral de desconhecidos nessa hora difícil.
Em seguida entra uma terceira pessoa, esta afobada e com pressa. Era Carlos, seu amigo e companheiro de viagem.
Carlos: Sid, pelo amor de Deus, levanta daí!! – disse desesperado desabotoando a bermuda. Havia tido um primeiro (e fulminante) aviso no carro e antes de pensar, seu arco-reflexo o levou num salto para o banheiro. (se houvesse um campeonato mundial desse esporte ele ganharia medalha de prata)
Sidnei: Carlão, não dá mano, ta complicado aqui.
No desespero, Carlos abaixou bermuda e cueca numa tacada só e foi colocando a bunda no mictório da parede: faria ali mesmo!
Sensibilizado com a tocante cena, Sidnei gritou para que ele esperasse, se levantou agachado, com as calças arriadas e pernas abertas, em suas palavras “para não ficar aquela borboleta desenhada em sua traseira”.
Carlos sentou e automaticamente começou a urinar pelo ânus, como seu amigo.
Agora, Sidnei, tinha um companheiro para ajudar a cumprimentar o próximo homem que entrou, só que, dessa vez, estava numa posição pior ainda: agachado, cotovelos nas coxas, pernas abertas. Agora sim, teve vontade de rir.
Até que o sinal apitou novamente:
Sidnei: Carlão, sai, pelo amor de Deus!!
E assim seguiram trocando as posições durante mais alguns minutos. Fazendo o bonito trabalho de transformar todas as próximas dores de barriga da equipe em uma brincadeira de criança. Isso é que é trabalho social!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Seu Zazu - A música

"O que fazer para retomar a harmonia perdida? Como a humanidade pode se unir, novamente, e evoluir em paz?", Zazu pensava inquieto.
Na verdade, o homem saiu da harmonia com o semelhante porque encontrou diferenças entre ele. Seu cérebro desenvolvido começou a buscar diferenças tão minunciosas, que fechou nossos olhos para nossas semelhanças inquestionáveis. Passou a ver que temos cor diferente, olhos, culturas, idiomas e religiões, e deixamos de ver a maior verdade de todas: somos o mesmo animal, mesma espécie, tudo. Somos, realmente, irmãos!
Culturas diferentes se chocam até hoje, guerras, ódio, separação.
A única solução é unir todos esses irmãos novamente, relembrarmos que somos uma família só, independente se esta é do Brasil ou aquela da China.
Mas como atingir a todos se as culturas são tão diferentes e falamos diversas línguas?
Simples, usando uma mesma língua universal, para todos nos entendermos e relembrarmos nossa ligação.
Mas como criar um idioma único, um "Euro" linguístico que nos faça comunicar perfeitamente entre povos distantes? Seria utópico.
Mas não é utópico e não dará trabalho algum, porque esse idioma já existe e sempre existiu. É a música!
E ouvindo os deliciosos acordes daquela sanfona, junto ao gostoso choro de uma viola, Zazu sorriu. Sabendo que aquilo seria entendido mesmo por uma tribo indígena da parte mais distante de nosso planeta.

Seu Zazu - O grande dia

A música. Responsável por tantos momentos de alegria e prazer que, muitas vezes, nem percebemos. Zazu percebeu e sua vida nunca mais foi a mesma.
Certo dia ele se deliciava ouvindo dois tocadores, daqueles típicos do sertão do Brasil, um com uma sanfona e outro com uma viola caipira de 10 cordas. A harmonia perfeita, beleza da melodia, a junção com a natureza o levou a tal estágio que praticamente entrou em transe. Aquele instante mudou para sempre sua vida. Foi o momento em que descobriu tudo, o real significado do universo, pela música.
Assim como a música, o universo é uma harmonia perfeita, tudo se relacionando de uma forma exata: planetas, estrelas, meteoros, cometas, tudo convivendo em harmonia, como um acorde bem tocado.
E foi assim que ele percebeu o porquê do homem ser infeliz. Nós não convivemos em harmonia com nosso semelhante e tudo que sai da harmonia, destoa. Saímos do tom da "música universal", assim como uma corda desafinada que não encaixa no acorde das outras.
Qualquer pessoa, por mais que não entenda de música, goste ou não, percebe quando uma nota é tocada errada por um artista. Isso porque aquela nota saiu da harmonia. Exatamente por isso, a humanidade paga o preço até hoje por ter destoado da natureza: guerras, fome, miséria, violência, ganância, egoísmo, indiferença, ódio, preconceito e tantos outros problemas que nos ferem como uma arma afiada. Pagamos o preço por termos saído da harmonia do universo. Somos uma corda desafinada na grande sinfonia universal! E só voltaremos a ser felizes quando voltarmos à harmonia perdida, com nosso semelhante e, assim, com o universo. Estamos tao perto e tão longe...
Foi aquele o momento em que Zazu virou um sábio.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Jaíba

Agora, entrando com mais tempo, posso escrever um pouco mais sobre a viagem.
Estamos em Sergipe, cidade de Poço Redondo. Nesse instante estou numa lan house. Pelo menos há computadores e acesso à internet, porque pelo calor que faz aqui e o tanto que estou suando poderia pensar que era uma sauna...
É engraçado, atrás da menina que toma conta da sala há uma porta de madeira, daquelas que sobem do chão apenas até a metade da altura do batente e de tempo em tempo começa a cantoria de alguns porcos vindo dali. Algo, no mínimo, exótico.
O trabalho aqui segue, como sempre, grande. Uma criançada bem animada fica o tempo todo em volta da cadeira de dentista que montamos na sala de aula.
Antes de Iraquara, nossa primeira cidade foi Jaíba, localizada no norte de Minas Gerais. (Num parênteses, peço até desculpas a amigos de outras cidades que ainda não comentei, a correria está enorme e é difícil entrar na internet, portanto vou escrevendo algo rápido de onde me encontro e lembrando cenas das cidades e amigos que deixamos a pouco tempo) Lá fizemos grandes amigos que sempre procuraram nos fazer sentir em casa, em cada detalhe: desde a comida - muito gostosa - feita com todo carinho, até a preocupação em cuidar de nossa hospedagem em uma pousada aconchegante.
Na última noite organizaram uma festa sensacional, em um barzinho com dj e uma banda de alunos tocando no maior estilo banda do sertão.
A viagem já começou assim, com a primeira cidade deixando muita saudade...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Parachoque do Tales

Tales é publicitário, trabalha com as Casas Bahia e está viajando conosco. Tem um blog muito bacana onde está fazendo um diário excelente sobre nossa viagem. Para quem quiser conferir um pouco mais - do que as raras vezes que eu consigo publicar - pode acessar: http://parachoquedotales.wordpress.com

Grande abraço!!
Wolber Campos

No começo da viagem

Ufa! Até que enfim consigo postar algo nessa viagem!
Estamos em Iraquara, na Chapada Diamantina-BA. Lugar onde tudo funciona. A escola dá super certo, professores motivados, equipe sensacional, secretária de educação com real interesse em ajudar.
Além de tudo isso, do trabalho dar ótimos resultados, estamos em um dos lugares mais bonitos do nosso Brasil. Hoje, eu Valter, Tales e Kemel, acordamos as 5 e meia da manhã e partimos para uma trilha, a da Pedra do Una.
Como tínhamos que trabalhar as 8 da manhã, foi o tempo de chegar, tirar fotos, entrar na água (perfeita!) e voltar.
Mesmo assim pudemos recarregar as baterias para um dia de trabalho. E hoje ainda dormiremos na Pratinha, uma gruta muito bonita que é aqui perto.
Próxima cidade: Canudos. Lugar de tantas e tantas histórias...

quarta-feira, 24 de março de 2010

À paisana

Neste sábado, dia 27 de março, estaremos partimos novamente para o sertão. Serão mais de 20 dias na estrada e tentarei postar algo de lá (se bem que é difícil...).
Voltar às cidadezinhas do interior do Brasil é sempre um grande prazer. De tudo o que vemos, sentimos, aprendemos e conhecemos por lá, o calor humano do povo é, realmente, o sentimento mais forte. Sempre nos acerta em cheio.
Em nossa última viagem - novembro de 2009 -, no Ceará, sentimos a alegria de observar que isso se dá não somente pelo fato de fazer um trabalho social ou ser reconhecido pelo uniforme que usa. O calor humano é forte e intenso, independente de qualquer coisa.
No final de um dia de trabalho, no meio de semana, procuramos um barzinho para refrescar a quente lua que brilhava sobre a cidade.
- Vixe! Aqui "num" tem bar perto hoje não. Vocês só vão encontrar láaaaaaa pra perto da estrada. - nos disse um camarada.
Como o calor - e a sede! - era grande, pegamos o carro e fomos até o bar. Por coincidência eu, Luis e o Válter estávamos com camisetas normais, à paisana. Estamos acostumados a ter sempre um sorriso aberto e reconhecimento com o uniforme do IBS, já que a população conhece e apoia muito o trabalho social que fazemos. Chegamos no lugar assim, como forasteiros.
Tomamos nossa cervejinha e fizemos amizade com uma turma que também estava ali, ouvindo o sonzinho que tocava ao estilo de "Moleca 100 vergonha". Pessoal bacana, nos perguntaram de onde éramos. Respondemos de São Paulo, sem mencionar o trabalho que fazíamos e continuamos um bom papo, como se todos já nos conhecêssemos.
O Lugar era uma pintura, tinha até um vendedor de balas e chocolates, segurando sua bandejinha apoiada na barriga e em um laço em volta de seu pescoço, no melhor estilo "vendedor de doce de cinema nos anos 60".
No final de uma agradável noite, na hora de ir embora, Ronaldo, um de nossos novos amigos falou:
- Espera um pouco! - e saiu correndo para dentro do bar, onde sua simpática mãe era garçonete. Voltou com uma câmera fotográfica.
Nós quatro tiramos a foto com aquela triste impressão de que nunca mais o veríamos.
Dia seguinte, Luis, que ia para a escola de quadriciclo, passou em frente ao bar da noite anterior, viu Ronaldo e parou para cumprimentá-lo. Ele, muito feliz, acenou e o chamou. Ao chegar perto, pegou algo no bolso e disse:
- Olha só como ficou linda!
Era a foto que tínhamos tirado na noite anterior. Ronaldo já a havia revelado e mostrava orgulhoso, fato que deixou o Luis - e nós posteriormente - emocionado.
Na noite seguinte fomos a um outro barzinho, indicado por Ronaldo. Ali, sua mãe estava de folga e se sentou conosco. Um pouco mais tarde ela me abraçou e disse:
- Olha, sabe que quando vocês voltarem aqui de novo, quero que fiquem na minha casa! Considero vocês como filhos já! - falou com os olhos marejados.
Atestamos ali que não é só o trabalho social que abre as portas no sertão. Elas sempre estiveram abertas.

terça-feira, 23 de março de 2010

"Brincadeiras" de criança

Em menos de duas semanas, observei duas situações parecidas com adolescentes. Algo mais próximo da agressão, do que da brincadeira.
Na viagem de lua-de-mel, em um lugar estranho, esperava, pacientemente na loja de um shopping, que a Ju escolhesse alguns apetrechos para comprar. Todo homem que já passou por isso (e basta ter uma mulher ao lado para passar) sabe que é um ótimo exercício de paciência e sabedoria. Usamos praticamente técnicas orientais de meditação e contemplação para esperar a esposa, com um sorriso no rosto. Porém o cansaço bateu e resolvi sentar em um banco, na frente da loja.
Tenho o costume de sempre olhar o lugar onde sentarei, para ver se não está sujo, ou se há algo no local. E havia algo. Uma tachinha. Aliás, este diminutivo nem cabia ao prego que estava sobre o banco, apontando para uma indefesa bunda que ali sentasse. Graças a Deus não foi a minha! E assim que eu retirei a tacha (desisti do diminutivo, era um prego em forma de tachinha, de mais de um centímetro) não seria a de ninguém.
Olhei em volta e não vi ninguém suspeito, algum garoto ou marmanjo olhando de lado e vendo quando alguém se machucaria em sua "brincadeira". Nada.
Joguei o prego no lixo e voltei para a loja assustado, o cansaço até havia passado. Minha bunda até doía, pensando no tamanho do prego que quase a espetou.
Enquanto contava a história para a Ju, vi três moleques, adolescentes, olhando no banco, procurando seu prego. Olhavam no chão, em volta, em vão. Fiquei irado, vontade de meter bronca, a maior lição de moral - e adiantaria? Não sei -, mas estava em um lugar estranho, com pessoas estranhas e achei melhor não arranjar encrenca.
De volta à São Paulo, também em um shopping - o Eldorado - estava no segundo andar esperando o elevador, quando vi no terceiro um garoto, de seus 14 anos. Olhou para o térreo, mãos no parapeito, movimentou a cabeça para trás, para frente e "CUSP!", cuspiu lá embaixo, onde várias pessoas subiam pela escada rolante. Ainda olhou por um tempo, para ver em quem tinha acertado e saiu, antes que eu pudesse falar qualquer coisa do andar de baixo.
Entrei no elevador, ainda abismado com a cena, a porta se fechou e ele subiu. Ao abrir novamente, entraram dois garotos, um deles, o autor da cusparada. Ali não resisti:
- Cara, vê se não faz mais isso! Cuspir na cabeça dos outros?
- Pegou em você?!! - me perguntou assustado, como quem esperava receber uma bofetada.
Eu disse que não, mas poderia ter caído, ou numa pessoa que ainda trabalharia o dia inteiro, ou numa mãe com seu bebê de colo.
O outro garoto deu-lhe um "esporro", que não acreditava que ele tinha feito aquilo.
O que fazer? Dar um corretivo? Lição de moral? Conversar? Eu acho que uma conversa, na boa, resolve mais que um safanão.
Na verdade, é torcer para que esses adolescentes não virem adultos piores ainda.

domingo, 21 de março de 2010

Auto-julgamento

Hoje fiquei um pouco furioso comigo. Enquanto escrevo estas palavras fico em uma briga e decepção comigo mesmo.
Hoje cheguei de um delicioso churrasco na casa de um casal amigo. Levei o violão como companheiro e como pedido dos amigos.
Para expressar o quanto fico bravo comigo mesmo, volto alguns meses atrás.
Há vários meses, voltando de algum passeio do dia-a-dia, trouxe meu violão nas mãos. Ao deixar o carro no estacionamento, o porteiro do local me disse empolgado: “Oh, doutor! O senhor toca um violãozinho também?!”. Disse-me e comentou que gostava de rock and rol, e citou algumas bandas de que eu gostava muito, completando: “qualquer dia desses eu queria muito que você tocasse um pouco comigo aqui, para deixar a noite mais alegre!”.
Assim, a partir daquele dia, ele me cumprimenta como “doutor cantor”, mesmo sem saber do quão pouco eu toco, ou canto, mas pelo simples fato de eu retirar o carro vestido de branco e algum dia tê-lo guardado com um violão nas mãos.
Não foram poucos os dias em que eu, voltando de alguma saída com os amigos, cheguei ao estacionamento com o violão na mão e cansado, com vontade de chegar logo em casa. Meu amigo do estacionamento, humilde como sempre, me falava a cada vez: “Oh, doutor cantor! Qualquer dia toque um pouquinho aqui. Só duas musiquinhas, pra noite ficar mais alegre!”. Sempre com um enorme sorriso no rosto e sem exigir eu tocasse naquele momento.
Faz umas duas semanas, senti falta desse amigo. Não estava mais no estacionamento. “Deve ter saído, ou ter sido mandado embora”, pensei. Uma pena, pois hoje em dia, é cada vez mais difícil de se encontrar um funcionário que, além de cumprir sua função, está sempre de bem com a vida e com um puro sorriso em seu rosto. Assim era o Dias, sempre feliz e bem disposto. Um exemplo!
Hoje, depois de um longo tempo, eu o revi. Novamente ele abriu o portão do estacionamento.
- Oh meu amigo! Você voltou! – eu disse, sinceramente feliz em revê-lo.
Ele, humilde como sempre, sorriu e abriu a porta para que eu entrasse. Tranquei o carro e peguei o violão que havia levado ao churrasco e fui ao seu encontro, curioso em saber o motivo de seu afastamento.
- Meu amigo, nem te falo! Eu quase morri! Fiquei internado esses dias. Deu um problema lá em casa, o proprietário queria a casa e arranjou uma confusão. Eu fui conversar com ele e ele pensou que eu fosse brigar, alguma coisa assim, e me recebeu me “metralhando”. Me deu seis tiros! Dois me acertaram, um me varou aqui – disse e me mostrou um machucado pequeno, por onde tinha penetrado uma das balas e ultrapassado pelas costas – e o outro entrou aqui na barriga. Essa bala ainda está alojada, o médico achou perigoso retirar.
Dias é um homem sincero, alegre, sempre de bem com a vida. Tenho certeza absoluta de que ele nunca arranjaria confusão com o homem que disparou os tiros, tentando matá-lo. Mesmo assim, quase morreu.
Por isso hoje, escrevo tão bravo comigo mesmo. Fiquei muito feliz em revê-lo. Mais feliz ainda, por saber que estava vivo, depois de saber da história. Mesmo assim estava com o violão nas mãos e não toquei nenhuma música para ele. Disse a mesma ladainha de sempre: “Dias, assim que der,a gente faz um sonzinho aqui”. Ele, feliz como sempre, me disse que ficaria muito feliz com isso.
Por muito pouco eu poderia não ter essa oportunidade. E fui embora como das outras vezes, dizendo a mesma coisa que das outras vezes. Hoje eu perdi uma grande oportunidade.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ilha das Flores

Pessoal, estréia hoje no blog a parceria com o site "Porta Curtas", que exibe curtas nacionais.
De início vou disponibilizar o documentário "Ilha das Flores". É um clássico genial, feito no final dos anos 80, forte, inteligente e atual como nunca.
Espero que gostem.

Grande abraço!
Wolber Campos



segunda-feira, 15 de março de 2010

Glauco

Ouvir no fim de semana a notícia da morte do cartunista Glauco me deixou triste. Cresci vendo seus livros e tirinhas no jornal e foi assim que se tornou um dos maiores cartunistas brasileiros.
Sua morte dá início a um debate sobre o assassino: loucura, crueldade, drogas e, enfim, a religião do Santo Daime. Já há pessoas falando sobre o famoso chá, o quanto pode deturpar pensamentos e por aí vai.
É sempre a mesma coisa. Quando vamos parar de procurar algo material que possa prejudicar e desviar a atenção do real motivo principal: a maldade humana?
O álcool prejudica raciocínio, drogas podem alterar a percepção, tudo isso é sabido. Mas o ponto determinante é a índole da pessoa.
Este fim de semana um homicida dirigiu seu carro pela estrada Raposo Tavares por mais de 20 quilômetros (!), até bater de frente com o carro de uma família. O policial conseguiu salvar a filha, que ia no banco de trás, mas o fogo consumiu o veículo com seus pais. O assassino continua vivo e internado e foi comprovado que estava alcoolizado. Só falta falarem que a culpa foi da bebida.
Como um grande amigo, João Paulo, disse sabiamente: "O cara já era um homicida! Duvido que qualquer um de nós nessa mesa, faria algo parecido, dirigiríamos em alta velocidade na contra-mão. podemos beber o quanto for, estar quase desacordado e não faríamos isso".
Infelizmente a lei tem, sim, que nivelar por baixo. Muitas pessoas de bem, se beberem, dirigiriam bem devagar, se preocupando em não causar mal a si mesmo, muito menos a outras pessoas. O problema é que há outras que bebem e aceleram mais ainda do que quando estavam normais.
Nunca experimentei o Santo Daime e pouco sei sobre a doutrina. Mas deixemos tudo isso de lado. O único problema é que o cara era um assassino. Sempre foi e um dia poderia acabar como acabou. Pena que Glauco estava em seu caminho.