quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Relembrando

O texto anterior me lembrou de outras postagens sobre o assunto. A cobra é um animal que, reamente, nos impõe grande medo.
Em viagens pelo interior do Brasil, sempre ficamos atentos, pois muito são os casos e histórias que nos são contadas de acidentes com picada de cobra, como o caso do Pedrinho.
Outra foto, foi de uma viagem que fizemos a Canudos, na Bahia. Em uma visita à vizinha cidade de Monte Santo, subimos na famosa igreja, reconstruída no século 19 por Antônio Conselheiro, que fica no Alto do Morro.
Logo na subida da enorme escadaria, nos deparamos com uma cobra coral. Ainda bem que era falsa!



Mas a mais impressionante, foi a cascavel que encontramos na estrada. Quando postei essa foto em outro blog, houve uma pessoa que nos criticou, dizendo que éramos desumanos, havíamos matado o animal.
Na verdade, não a matamos. Estávamos numa estrada, se não me engano no Tocantins, quando vimos a enorme cobra enrolada no esfalto escurecido pela negra noite que se erguia. Não havia um carro na deserta estrada, encostamos para vê-la. Estava morta, atropelada por algum carro a minutos atrás.
Se me lembro bem, a pobre cascavel tinha em torno de doze anos - número de voltas em seu guizo. A história toda está aqui.
Uma cobra extremamente venenosa. Sem perigo naquele momento, mas topar com uma dessas viva deve ser assustador.
Que nos diga Pedro, da história do primeiro link acima...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A cobra

Ela nunca pensaria em ter uma, até que lhe ofereceram. A quantia não era pouca, mas uma sucuri bebê, realmente, era algo inusitado. O vendedor, era um homem estranho, mas disse que não havia problema algum.
- É assim que é bom, criando desde pequenininha ela vai gostar de você. - disse, com um sorriso amarelo.
Levou a cobra para casa, era linda. Nunca havia sequer ficado perto de uma. "Pelo menos não é venenosa", pensou.
Os dias foram passando e a cada vez mais se afeiçoava ao animal. Começou a se sentir excêntrica ao comprar ratinhos para sua cobra comer. Parecia uma roqueira famosa, com seus hábitos estranhos. Não ligava, até gostava.
Meses se passaram e o amor pela sucuri aumentava, e era recíproco, tinha certeza. Tanto que passaram a dividir a mesma cama.
Certo dia acordou e olhou para o lado. Achou estranho. Sua cobra estava dura, esticada, bem próxima ao seu corpo. "Por que será, ela sempre dormia enroladinha?", pensou confusa. A cada dia era a mesma coisa. Cogitou perguntar a algum amigo, mas a chance de ouvir uma brincadeirinha sem graça, por acordar com uma cobra dura ao seu lado, a desencorajou...
Depois de uma semana, o fato se repetindo, foi procurar um veterinário. Ele não faria piadinhas sobre a cobra. Contou a história toda, o amor pelo animal, alimentação e o fato que se repetia toda manhã. Ele ouvia paciente e, assim que ela terminou, deu-lhe uma enorme bronca. Não podia criar um animal silvestre em casa, comprar de contrabandistas que maltratam os bichos, os trazem da mata em caixas fechadas e para cada animal vendido vivo, dezenas de outros morreram pelo caminho.
Ela ouvia em silêncio. "Preferia as piadinhas", chegou a pensar, mas logo concluiu que ele tinha total razão. E assim, o profissional completou:
- E para finalizar, te mostrando o perigo de ter um animal desses em casa, você sabe por que ela acordava daquele jeito todos os dias?
- Não senhor.
- Estava te medindo. A sucuri come algum animal quando consegue engoli-lo por inteiro. Assim que o comprimento ultrapassasse o seu, ela se enrolaria em seu corpo enquanto você dormia e te apertaria até sufocar. Depois, tentaria te engolir. Inteirinha!
Foi depois disso que decidiu deveolver seu amado animal para a mata. O medo seria maior que a saudade...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Doca

Ele chegou humilde, cara de sono e sanfona nas mãos. O conhecemos nessa noite, no sertão de Alagoas. aliás, uma noite inesquecível, onde uma simples rodinha de violão se transformou em uma apresentação do puro trio de forró nordestino.
Depois deste dia, travamos grande amizade. Doca é um sanfoneiro especial. Ainda novo, toca - e tem a voz rouca - como aqueles antigos sanfoneiros, que você percebe o amor pela música saindo pelos poros, como suor. E o que admiramos, logo de cara, é que é um jovem que tem correndo em suas veias o forró raiz.
Hoje, a nova geração, incrivelmente, conhece pouco de Luiz Gonzaga. É difícil de acreditar, mas nós, da equipe, que somos de São Paulo, conhecemos quase tudo do rei do baião e onde quer que vamos, pedimos músicas e incentivamos às pessoas a ouvirem esse estilo, que faz parte da cultura brasileira.
Quando Doca viu que gostávamos do Gonzagão, mandou uma atrás da outra, para nosso delírio. No dia seguinte, a pequena comunidade em que estávamos - o Quandu, em Poço das Trincheiras - AL - só falava no som da madrugada anterior. Pedíamos desculpas pelo grande barulho, ouvido léguas adiante.
- Que que é isso, meu filho. Mas foi bom demais, dormir ouvindo aquele sonzinho gostoso! Fazia muito tempo que não acontecia uma coisa dessas por aqui... - ouvimos frases semelhantes de várias pessoas.
Voltamos alguns meses para trabalhar ali e Doca não estava. Trabalhava, naquela época, em outra cidade. Em nossa terceira visita ele apareceu logo de manhã na escola.
- Olha, marcamos um show pra vocês na quadra, de noite! Vai ser grande o negócio! - disse contente e nós, ficamos mais ainda.
De noite choveu. A maioria dos professores desistiu de ir à quadra e a banda pensou em cancelar.
- Tá maluco?! - disse o Luis - Vamos assim mesmo. Se tem a cobertura pra banda estaremos lá!
Foi uma noite fantástica, nunca tínhamos visto um forró de sombrinhas. Nem sei se já existiu algum. Mas na quadra, vários casais dançavam embaixo de seus guarda-chuvas e a banda tocou até altas horas.
No fim da noite Doca nos disse:
- Olha, eu nem sei como agradecer. O respeito que todos tem por mim hoje, eu devo a vocês, por aquela noite. Antes, poucos davam alguma importância pra mim. Hoje todos me chamam, me cumprimentam e me convidam para todos os eventos. Muito obrigado mesmo. - disse. Os olhos cheios de lágrimas.
Como naquela noite em que o conhecemos, dia seguinte acordamos muito cedo para trabalhar, mas, lembrando das palavras de Doca, empolgados, como se tivéssemos descansado por horas e horas.


Doca, com sua amada sanfona, na noite em que a chuva caía prazerosamente sobre o sertão

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Xou da Xuxa

- Xuxa, me dá um beijo? - ela perguntou, não conseguindo esconder a felicidade em encontrar sua ídola, na última sexta-feira.
Essa frase foi ouvida, incessantemente, pela famosa "Rainha dos baixinhos" na década de 80 e 90. E ainda hoje a atinge, mesmo sem um programa diário ou exposição massiva na mídia, como há anos atrás. Isso confirma a áura de sucesso que teima em acompanhar Xuxa por toda sua vida.
O que torna ainda mais interessante, é que a "baixinha" que pediu o beijo na sexta passada - com olhos emocionados de alegria - era minha esposa, Juliana, de 30 anos de idade. Num evento da Monange, no qual foi convidada pelo trabalho, tirou fotos com a bela ex-apresentadora.
Os antigos baixinhos cresceram, mas continuam seus eternos fãs.
- Ela era tão "ícone" para a gente, que o sonho de cada garota era ser Paquita. Ninguém pensava em ser a Xuxa, ela era única, uma deusa. Queríamos ser paquitas para ficar ao lado dela. - completa Juliana, segurando orgulhosa sua foto, como um troféu.
E assim se segue. Meu sobrinho de 7 anos a adora, minha sobrinha de 5 também. Dudu, filho do Luis com a Dani, de 3 anos, é apaixonado e canta suas músicas. Penso que pelos dvds, visto que não há mais um programa na tv.
alguma pessoas vieram para brilhar. Xuxa é uma delas.

O "troféu"


Juliana, ao centro, ainda ganhou um abraço de Xuxa. "É muita emoção!" rs

sábado, 7 de agosto de 2010

MPB

Quando mais novo, lembro de assistir a alguns filmes nacionais e pensar “é por isso que muitos gringos imaginam que no Brasil não existem grandes cidades”. Pequenas casas do interior, florestas e sertão povoavam nossos filmes e mostravam ao mundo a cara de nosso país que, na época, eu imaginava errônea.
Como um morador de uma metrópole (nos moldes de uma Nova York), acreditava que São Paulo era o Brasil de verdade. Um país de cidades grandes, que também tinha seu lado interiorano. Hoje percebo como estava errado. Este é um imenso país, riquíssimo em belezas naturais, com suas casas simples, pessoas amáveis e fortes, com cara de interior, que tem seu pequeno lado megalópole, com seus arranha-céus colossais e trânsito caótico.
Assim é com a música popular brasileira. O termo que se popularizou, MPB, hoje define um estilo característico, liderado por Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e toda uma nova – e boa! – “safra” de músicos como Ana Carolina, Zeca Baleiro, Jorge Vercilo, e por aí vai. Porém, se nos atentarmos ao sentido real da palavra, a música popular brasileira definiria outro estilo.
“Popular” significa “do povo”, que está no gosto da maioria da população. Seria a música escutada e cantada pela maior parte de nossa terra. Me desculpem os fãs da MPB (me incluo neles também), mas o estilo que definimos no parágrafo anterior é escutado por uma pequena parte dos brasileiros.
Perguntemos no Piauí, por exemplo, em qualquer cidade, e é claro que eles conhecem Gilberto Gil, e podem até ter ouvido falar nessa nova geração – o que eu acho pouco provável -, mas poucos os escutam.
O que deveria ser definido como música popular brasileira seriam bandas como Djavu, Moleka 100 Vergonha, Anjo Azul e muitas outras, que lançam uma música num dia e, no mês seguinte, ela é tocada em todos os bares, cantada em festas e suas coreografias estão decoradas por todas as meninas, dos 5 anos (isso mesmo, vimos crianças novíssimas com gingado de fazer inveja a muita adolescente) até onde as “juntas” permitirem.
A cada viagem que fazemos uma nova música está “estourando”. É incrível, um botequinho toca durante horas a mesma música, no esquema “loop” do aparelho de CD. Voltamos para casa com aquele som na cabeça, meses depois, ao voltarmos, perguntamos sobre aquele som e ninguém mais quer saber dele, já há outro nas “paradas”.
Bandas que aprendemos a gostar – o que foi mais difícil para mim, amante de rock – e respeitar, que cantam, num ritmo característico que tem, bem lá no fundo, uma raiz no forró de nosso eterno Luiz Gonzaga. Fazem shows que lotam estádios inteiros e movem caravanas de várias cidades.
A nomenclatura já está definida, não mudará. Mas para mim, hoje, a música popular brasileira tem outros representantes.

sábado, 31 de julho de 2010

Homem-problema

Eles estão por toda parte. Temos que torcer para não cruzar com um deles. Mas como? São tão comuns quanto procurar alguém de olhos azuis. Uma hora você vê um.
Um lugar fácil de encontrar esse "ser" é em um supermercado, ou banco, em qualquer lugar que haja uma fila e que seja necesário um mínimo de paciência. Ah, paciência é algo que ele - ou ela, deixemos bem claro - não tem.
- Ai meu Deus do céu, como é lerda... - geralmente fala alto, para todos da fila ouvirem, inclusive a pessoa que trabalha duro, durante horas, no caixa.
Quem trabalha com público, vez ou outra encontra um deles, e aí, é só rezar...
Um dia ele entrou em meu consultório. Sorriu e eu, idiota, acreditei naquele sorriso. Ainda dei sorte, ele gostou de mim. Nunca reclamou diretamente comigo, com o mundo em volta sim, mas comigo não. Pensando bem, não dei sorte, dei azar. Quando o homem-problema não gosta de você, sai de perto e azucrina outro.
Fiz uma prótese para ele. Ficou boa (modéstia à parte), mas na semana seguinte ele estava lá.
- Olha, isso tá machucando muito! Não dá pra usar não! - disse, agressivo como sempre.
Eu, ainda inocente - não sabia ainda o que era um homem-problema, muito menos que aquela criatura se tratava de um dessa espécie - ajustei a prótese e o marquei para semana seguinte. Muito antes ele estava de volta.
- Essa "chapa" não tá boa não. Tá machucando tudo! - disse e xingou o protético (pessoa que constrói a prótese no laboratório). Me elogiava - já disse que, por azar, ele gostava de mim? - e "descascava" no pobre profissional que tinha feito tudo certinho.
O pior é que eu examinava e via sua mucosa, realmente, machucada. Na verdade, não é que o HP (decidi parar de repetir "homem-problema", é muito grande e pode até atrair...) inventa essas coisas, mas ele tem a incrível capacidade de atrair problemas.
Na semana seguinte, a peça, em vez de vir na sua boca, veio em sua mão. Havia quebrado o grampo de metal. No final das contas, fiz outras duas próteses para ele e não cobrei. As três não tiveram bom ajuste. Perguntava a mim mesmo, onde eu errava. Foi quando me veio a resposta. Num dia de ajuste - devia ser o de número 452, se não me engano -, perguntei se ele estava bem.
- Bem nada! Essa semana fui ao hospital, pra me operar. Fiquei nervoso, minha pressão subiu e não puderam fazer a cirurgia. Aí piorei, fiquei mais nervoso ainda e tiveram que me internar... - e prosseguiu. Havia mais desgraças em seu relato. Mas eu não me lembro, ainda bem.
Foi ali que tudo ficou claro como água: o problema não era eu ou a prótese. Era ele! o HP atraía, e atrai, tudo para si.
Meses depois o vi embaixo da porta de outro dentista. Ele ficou completamente sem graça ao me ver.
- Ooooh, meu amigo. Eu vou passar com a Dra. Ciclana para ver outra prótese. Olha, o seu trabalho é muito bom, mas é que aquele protético...
Eu disse que ele estava certíssimo. Que eu fiz tudo o que podia e não consegui ajudá-lo, teria melhor sorte com outro profissional.
Saí sorrindo. Parecia que havia tirado um peso de toneladas sobre meus ombros. Mas fiquei com uma dó da Dra. Ciclana...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Histórias d(n)o Lixo: O eletro-imã (por Valter lima / Wolber Campos)

Na usina de compostagem em que Valter trabalhava, o intuito era separar apenas o lixo orgânico - vendido posteriormente para agricultores, por exemplo -, retirando de seu interior todo material inorgânico, passível de reciclagem.
Foi uma grande alegria, quando conseguiram instalar o sonhado eletro-imã. Este, se tratava de um imã gigante, suspenso sobre a mesa que, ligado, atraía de uma vez, quase todo material metálico misturado ao lixo, facilitando muito o trabalho dos separadores que se dividiam por toda a mesa. Assim voavam do montante tampinhas, pregos e moedas, muitas moedas. No final do dia, elas totalizavam em torno de 50 reais.
Com o novo aparelho operando, Valter começou a fazer, toda manhã, um saboroso café para todos os funcionários. Pão, leite, suco, faziam a festa de todos, criando um bom ambiente para começar o trabalho.
Para declarar tudo, e não haver problema, fez um ofício à prefeitura, comunicando sobre o dinheiro encontrado e o destino que estava sendo dado ao mesmo. Demorou quase seis meses para obter um retorno da área jurídica, que dizia "o dinheiro é público e não deve ser usado para esse fim." E, o truculento texto, encerrava ordenando que o café deveria acabar imediatamente.
Incrédulo, nosso amigo fez outro ofício, perguntando então se era possível usar o tal "fundo público" para a aquisição de alguns materiais necessários para o escritório, como impressora e fax. Mais seis meses de espera por mais uma resposta negativa. E, para piorar, não davam uma indicação do que poderia ser feito com tal dinheiro.
Valter, todos os dias, apenas juntava as moedas e colocava em tambores de metal de 200 litros, os enchendo como cofrinhos de crianças ituanas.
Após mais uma negativa da prefeitura - e de encher 8 tambores de 200 litros com moedas! -, conversou com uma amiga advogada pública.
- Olha Valter, eu trabalho há anos aqui e sei como funciona. Se eu fosse você, pegava todo esse dinheiro, depositava direto na conta da prefeitura e deixava essa história de lado. Pode acabar dando problema para você. - ela orientou.
Assim ele fez. Depois de levar 8 tambores cheios ao banco, ouvir reclamações do gerente dizendo que não aceitaria aquilo - "você tem que aceitar, é dinheiro!", disse Valter -, pôde trabalhar em paz.
A prefeitura desligou o eletro-imã, devido à burocracia, moedas continuaram a ir embora e os separadores de lixo nunca mais tiveram seu gostoso café-da-manhã.

terça-feira, 27 de julho de 2010

O macho

Tenho dois pacientes, bom, na verdade, graças a Deus, tenho mais que dois pacientes, mais o que eu queria dizer, é que entre eles, existem dois com características opostas. Um delicado e um machão.
O primeiro, homossexual assumido, é extremamente simpático, delicado e sorridente. Sensível, dá a impressão que se eu falar mais ríspido em sua direção, ele sentaria e começaria a chorar.
O segundo, daqueles machões, no melhor estilo "troglodita", é grande, para cima e para o lado - não de gordo, mas de forte -, fala pouco - e grosso -, cara sempre fechada. Bravo, dá a impressão que se eu falar mais ríspido em sua direção, ele sentaria a mão em minha cara!
O primeiro se sentou em minha cadeira e logo me disse que dispensava a anestesia. Não por medo, mas não gostava da sensação de dormência que "segue horas e horas depois da consulta". Fui removendo a cárie e, a cada momento, a broca se aproximava mais do nervo. (esse texto parece filme de terror, não?)
- Prefere que eu anestesie? Não quero que você sinta dor... - perguntei.
Ele, impassível, dizia que estava tudo bem e que poderia seguir adiante. Assim terminei uma cárie enorme, sem anestesia e, o pouco que sentiu, ele se controlou perfeitamente. Saiu sorrindo como entrou.
O segundo se sentou, poucas palavras, me disse o dente que queria restaurar e também dispensou anestesia. Meio sem graça, admitiu que morre de medo da agulha. Comecei e, ao primeiro toque, deu um pulo.
- Puta que o pariu!!! - bradou, como se um palavrão, bem colocado, disfarçasse sua pouca demonstração de coragem.
Resmungou a dor que sentiu, e só faltou coçar o saco e cuspir de lado. Continuei, e após mais um grito, um xingamento ao "motorzinho dos demônios", resolveu deixar que eu anestesiasse.
É amigos, nessa hora vemos muitos fortões se contorcerem mais que criancinhas indefesas. Como diria o Metállica: "Sad but true".
Acabei o serviço, não antes de outros sustos, que eu percebia se tratar mais de medo do que dor, pela pequena cárie removida.
Saiu como entrou, falando pouco, agora com a mão no queixo, como quem sai de uma sala de torturas.
Naquele dia o macho foi outro.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Amanhã - Terça, dia 27/07/2010

Amigos, amanhã será o lançamento do livro "Caminhos de um Brasil Solidário", com fotos e histórias do nosso país, de todas suas belas regiões. Todas são ligadas ao trabalho social que o Instituto Brasil Solidário realiza por nossas terras.
As imagens são dos fotógrafos - irmãos e coordenadores do IBS - Luis e Ana Elisa Salvatore. Vale a pena conferir!
Estaremos na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, à partir das 18:30h.
Será um prazer recebêlos lá!
O convite segue novamente abaixo.

Grande abraço!!

Wolber Campos

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Duas gotas

O que são duas gotas? Quase nada. Uma total indiferença. Imaginamos duas solitárias gotas em um copo. "Está vazio", diríamos.
Duas gotas, na maioria dos casos, passam despercebidas, como dois grãos de areia em uma praia. Porém, em um caso, a diferença é tão brutal que pode significar a linha tênue entre a vida e a morte, assim como um mísero segundo, antes ou depois, pode significar o encontro com um carro ao atravessar a rua.
Hoje, atendi Francisco. Um homem de 37 anos, simpaticíssimo, alegre, que chegou em meu consultório em sua cadeira de rodas, carregada nos braços de dois amigos que a subiram pelos muitos degraus que levam até minha sala.
Ele não anda, possui o braço esquerdo com grande limitação de movimentos e o direito com alguma dificuldade.
- E doutor, já estive muito pior. Até a cabeça era mais difícil de mexer e eu babava muito. Era um babão! - comenta e solta uma alegre risada.
O destino de Francisco o levou para essa situação por causa de duas gotas. Míseras -ou colossais - duas gotinhas que, na época certa, o faria subir as escadas do meu consultório saltitando e me cumprimentar de pé, sem limitação alguma.
Hoje, com a enorme campanha anual por todos os cantos do país, a paralisia infantil está praticamente erradicada. Nos anos 70, ainda mais na roça do interior de Minas Gerais, onde nasceu, essa não era a realidade.
Tratei dele por um bom tempo, tentando adiantar ao máximo que pudesse o tratamento, pois sei da dificuldade de locomoção e trabalho para seus amigos o carregarem escada acima. Tempo que fiquei pensando em como essas duas gotas poderiam ter mudado o destino do jovem e alegre Francisco.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Hospitalidade sertaneja

- Vocês podem pousar lá em casa essa noite!
Assim nos disse seu Nilo, um sertanejo típico, desses que usam a camisa de botões aberta, uma calça surrada e saudável que só. Não aparenta, nem de longe, a idade que tem. Apesar de ter seus setenta anos, passa facilmente por cinquenta e poucos.
Estávamos em São Raimundo Nonato, cidade do sul do Piauí, que abriga a famosa Serra da Capivara. Um lugar "mágico", patrimônio da humanidade e que exibe um conjunto fantástico de pinturas rupestres, espalhadas por seus ancestrais paredões, nítidas, como se estivessem sido pintadas há poucos anos atrás.
O hotel em que estávamos hospedados, ficava a alguns quilômetros da escola de zona rural em que trabalhamos. O bairro Pé do Morro. Ainda hoje temos amigos que nos consideram (e são considerados) da família por lá. Quando os moradores nos ofereceram suas casas para uma boa noite de sono, ficamos felizes.
Seu Nilo levou-nos - eu, Luis e Ana Elisa - para o interior de sua casa. Entramos por uma pequena porta e passamos uma sala com duas cadeiras de balanço - feitas com tiras de plástico - e um pequeno corredor, onde haviam duas entradas, uma a sala de televisão, onde uma simpática senhora, que a assistia, nos cumprimentou, e a outra seria meu quarto e do Luis.
- Vocês não "arreparem" não, a casa é de pobre. - nos pediu humildemente seu Nilo.
Dissemos que, muito pelo contrário, a casa estava linda e agradecíamos a hospitalidade. Afastamos a cortina, que funcionava como a porta, e entramos no quarto, muito limpo e bem arrumado.
"Seu Nilo preocupado em ser um quarto simples e está mil vezes mais arrumado do que o meu!", pensei.
- Vocês querem banhar? Eu busco água "proceis". - nos disse -. Só que a água tá em falta, eu pego do poço, mas é um pouco "salobra*"...
- Não tem problema nenhum, seu Nilo. - respondemos, loucos por um banho. O calor do Piauí estava violentíssimo e nosso estado fazia frente a ele.
Fui o primeiro, enquanto pendurava minha toalha no banheiro, vi seu Nilo chegando com um enorme balde de água e um pote de plástico. Na outra mão uma toalha, caso eu precisasse. Tomaria um bom banho de cumbuca, comum em muitas casas pelo sertão.
Agradeci ao nosso anfitrião, coloquei o balde no chão e vi. Não pude acreditar e comecei a dar risada sozinho. No balde, repleto de água, nadavam três peixinhos, bem pequenos. Estavam ali, traquilos, na água em que eu tomaria banho. Quando olhei o vaso sanitário, que estava ao lado, comprovei: Haviam mais dois nadando ali dentro, com a calma de quem nem imagina onde está. "Ignorance is bliss"
Tomei meu banho, sempre com muito cuidado para não pegar um peixinho na ex-caneca de leite que usava para me banhar. "Com meus cabelos enrolados, se cai um peixinho aqui só vou encontrar o fóssil décadas depois!", pensei rindo.
Acabei o banho, renovado, limpo, e saí com a toalha nas costas sorrindo como quem saiu de uma ducha relaxante de um hotel de luxo. Mas não era. Era um banho muito, mas muito mais gostoso.

*Salobra: modo como o povo sertanejo chama a água, um pouco salgada, dos poços ou lençóis freáticos

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Boa noite

Me deito mais cedo, seria bom ter uma noite mais longa. Há alguns anos atrás, lembro que saía com João Batista, amigo de infância, de segunda à segunda. Nada de baladas nervosas ou bagunça. Geralmente íamos ao Select, loja de conveniência do posto Shell, onde juntávamos nossas poucas moedas para inteirar a quantia suficiente para dois "dogs" e uma coca. Conversávamos até umas duas da manhã.
Enquanto me deito, penso "Não sei como a gente conseguia isso", pois já éramos formados e trabalhávamos tanto quanto hoje. "É a idade, meu amigo...", digo a mim mesmo.
Enquanto o sono não vem, abraço minha esposa que já dorme. Que inveja. Só não é maior do que aos sábados de manhã, quando levanto às 6 da matina para trabalhar e a observo dormindo, quentinha sob as cobertas.
Dou um beijo, viro para o lado e espero o sono chegar. Penso em utilizar técnicas milenares, para acelerar a chegada do sono. A primeira que me vem, é uma que remete aos tempos em que Davi - ele mesmo, o que matou Golias - ainda era um simples pastor. Antes de escrever seus salmos, ele ensinava aos insones da antiguidade: "Contai carneiros!".
Começo: um, dois, três, ..., no vinte paro e penso "que coisa de jerico". Pensei jerico e não Jericó. Chego à conclusão que contar carneiros mais estressa do que dá sono. Isso poderia ser algo positivo na antiguidade, estressar para cansar e fazer dormir. Para um morador de São Paulo, stress é dado na mamadeira e tempera nossos pratos, do café da manhã ao jantar.
Me lembro de outra técnica infalível: as músicas de ninar. É isso! Agora é fácil.

"Dorme nenê, que a Cuca vem pegar
Papai foi pra roça, mamãe volta já"

Paro e sento na cama. O quê? Meu Deus, nunca tinha pensado na letra dessa música assustadora! Como as pessoas querem que uma criança durma dizendo: "olha bebê, dorme tranquilo, viu? Que a Cuca vem te pegar. E fique "sossegadinho", porque você está sozinho, sacou? So-zi-nho. O papai... Xiii, tá lá na roça. E a mamãe, deve vir daqui a pouco. Mas até lá, a Cuca já deve ter te pegado e, sem o papai por aqui, a mamãe também vai pro saco."
Ainda bem que as crianças não pensam na letra da música. Quem diria que uma melodia tão bonita assim, seria de uma história tão assustadora?!
Melhor pensar em outra.

"Sai bicho feio de cima do telhado
Deixa o menino nanar sossegado"

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O sorriso

Tatiana, em um comentário da postagem anterior, falou em expor a foto de um desses sorrisos devolvidos.
Em abril, viajamos para o sertão e, em Canudos-BA, conhecemos Ismael. É um daqueles garotos, com seus quinze anos, líderes nato. Engraçado, simpático, todos o conhecem, e o adoram. Sempre disposto a ajudar, era um dos primeiros a se oferecer para descer as pesadas caixas de materiais doados à escola.
Tinha um problema, um grave problema: os dentes da frente completamente destruídos por cáries. Foi assim que o conheci enquanto atendia em uma sala de aula. Cristiano, grande amigo local e que já viajou conosco, o trouxe pelo braço, deu um tapinha em sua cabeça e falou:
- Wolber, dá uma olhada nesse safado!
Ele sorriu e de longe, eu poderia ver. Fiz questão de encaixá-lo durante os três dias em que ficamos por ali. Deixei bem claro que, mais importante do que tratar, era cuidar melhor para que isso não acontecesse de novo e, a cada dia, tínhamos mais de uma hora e meia de "Ismael" na cadeira.
Saiu de lá "só sorrisos", com a certeza de que, à partir daquele momento, cuidaria melhor de seus dentes.
Seguem suas fotos:





E apresentado por Leandro - grande amigo da equipe - com seu novo "look".

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O pagamento

Chegamos na comunidade de Paraty Mirim (Paraty-RJ) na sexta bem cedo. É um trabalho bem mais tranquilo ao que estamos acostumados no sertão, onde ao chegar na escola, encontramos dezenas de crianças e adultos nos aguardando em festa. Porém, apesar da comunidade ser pequena, o carinho com que fomos recebido dessa vez foi semelhante.
A área odontológica - sem puxar "sardinha" - sempre encontra muito trabalho. Não importa quanto seja afastada e pouco centralizada a comunidade, tratamento dentário, infelizmente, ainda é uma carência enorme de nosso país. Portanto eu e o André - amigo e colega de profissão -, trabalhamos bastante nos dois dias de atendimento.
No meio da tarde, apareceu um garoto, de seus 9 anos, Lorran, pedindo para que eu arrumasse seu dente quebrado. Tinha tomado um tombo semanas atrás e, ao bater a boca na escada, quebrou o dente da frente (incisivo superior direito, para ser mais técnico).
- Claro, aguenta um pouco que a gente já dá uma olhada nele - eu disse e ele abriu seu sorriso, mostrando o dente pela metade.
Pouco tempo depois chegou sua vez. Adoro arrumar esses dentes do sorriso. Bom, na verdade, é claro, adoro arrumar todos, mas esses da frente, abraçam muito mais do que reestabelecer uma função e evitar futuros problemas. Envolve devolver auto-estima, confiança, e até mesmo reinserção social. Uma pessoa com os dentes da frente em mal estado, geralmente, se envergonha ao sorrir, levando a mão na frente da boca nessa hora, tentando esconder os dentes com os lábios, ou mesmo virando o rosto. Por isso a importância de devolver o sorriso original.
Com Lorran foi assim. Acabamos a restauração e pude ver seus olhos brilharem quando olhou no espelho. Não foi uma restauração difícil, ou que exigisse grande habilidade do dentista. Algo normal e casual, que levou seus 40 minutos, mas que devolveu aquele brilho nos olhos do garoto. Me pergunto, já sabendo a resposta, se tem pagamento que me deixaria mais feliz.
De noite, havia uma feira cultural, onde fizeram uma confraternização conosco. Uma grande roda de viola foi armada e, como adoramos isso, nos sentamos em volta. Um dos presentes pegou o violão e tocou algumas músicas. Fiquei surpreso ao ver Lorran se aproximando dele, colocando o braço em volta de seu pescoço e cantando a música, como velhos conhecidos. Me olhava e sorria. No final da música, caminhou até mim, me cumprimentou e me disse "muito obrigado por arrumar meu dente", meio tímido, meio sorrindo e saiu.
Minutos depois, o rapaz que tocava violão, veio até mim. Era o pai de Lorran.
- Olha, não sei nem como agradecer pelo que você fez pelo meu filho, só Deus mesmo. Muito obrigado. - disse emocionado.
Me explicou então, que desde que havia caído, seu filho andava triste, o que o fez levá-lo ao dentista na cidade, porém ali, o profissional cobrou 600 reais para restaurar o dente fraturado.
- Pensei até em pedir para que ele desgastasse o do lado, para ficar na mesma altura, mas seriam 250 reais e desisti. - continuou.
Eu expliquei para que ele nunca pensasse em fazer aquilo, estragar um dente bom para parecer o outro, e respondi, sinceramente, que não foi nada de mais.
Mais uma vez me disse que não sabia como agradecer. Não percebeu que não precisaria mesmo. Aqueles minutos valiam muito, mas muito mais, do que aqueles 600 reais que o outro dentista ganharia pela restauração.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Trabalho

Hoje estamos de saída para um trabalho na comunidade de Paraty Mirim, no Rio de Janeiro. Voltaremos no domingo. É um trabalho bacana, em uma comunidade formada, em sua maioria por pescadores.
Diferente do trabalho no sertão, quando levamos muitos voluntários e muitas áreas, ali implantaremos o projeto de saúde bucal, meio ambiente e educação.
Segunda postarei novamente!

Grande abraço!

Wolber Campos