quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A história de Del

Em algum texto atrás eu disse que contaria a história do Del, um menino da cidade de Nova Iorque, no Maranhão. Isso mesmo, a cidade se chama Nova Iorque. Todos devem imaginar a quantidade de piadas (sem a mínima graça, diga-se de passagem) que surgem por ser homônima da famosa cidade americana: "Putz, esqueci o passaporte!", essa uma das mais comuns, geralmente quando passávamos a divisa, "Xiii, o Pinduca vai ser barrado na fronteira...", sobre nosso amigo barbudo e com um volumoso nariz lembrando Bin Laden. Bom, antes que o assunto se perca para nunca mais voltar, vamos falar de nosso pequeno amigo de lá. Delino é um garotinho pequeno, franzino, com 9 anos e muito inteligente. Nasceu com alguma síndrome que, nas pouquíssimas vezes em que foi a um médico, nunca diagnosticaram. Ela causa problemas como ausência de glândulas na pele, que provoca grande ressecamento: "A gente morria de dó, as vezes o bracinho dele estava tão ressecado que até rachava", nos disse uma professora. Possui um cabelo bem ralinho e, no que compete a minha área, além da ausência de muitos dentes possuía os quatro dentes da frente pontudos, como o canino. Assim que o conheci me propus a transformar os dois centrais, acrescentando resina e os deixando mais quadrados. Ele disse que queria e apareceu na sala da escola - onde montamos a cadeira de dentista - meio desconfiado. Sua professora me disse em particular que ele era muito inteligente, um dos mais espertos da escola, algo que eu comprovaria logo depois. Levamos alguns brindes para as crianças, entre eles uma réplica do antigo Pirocóptero (aquela hélice que se encaixa num canudo de plástico e voa alto quando o giramos. Antigamente vinha de brinde nas garrafas de Toddy). A sala estava repleta de crianças que faziam a maior festa enquanto eu terminava de arrumar a sala. Manolo (companheiro de equipe) pegou a hélice e o canudo separados e o fechou na mão perguntando: "A criança que souber o que é isso ganha o presente!". Passou de uma em uma, que olhavam e balançavam negativamente a cabeça. Ao passar na frente do Del ele olhou com um sorriso para o Manolo e disse: "Eu sei o que é isso. Você cloca essa parte junto com a outra e roda pra ele sair voando." Disse com uma calma como se já tivesse visto alguma vez o brinquedo. No final do dia dormiríamos na própria comunidade em que estávamos e de noite começou um animado luau em que até bem tarde ficamos cantando ao som do velho Raulzito (violão de estimação da turma), a única criança que ficou até o fim, bem quietinho, ouvindo com atenção atrás de um contido sorriso, era o Del. No dia seguinte, chegamos à escola as 8 da manhã. Segundo a professoara ele estava lá desde as 7! Assim que me viu correu até mim, me deu um abraço, olhou nos meus olhos e disse: "você toca e canta muito bem!". Dei risada e agradeci, perguntando se ele gostava de ouvir violão. Ele respondeu que sim e nesse momento decidi: na outra visita que faríamos levaria um violão de presente para ele. Ao aoltar para São Paulo não foi difícil organizar entre os amigos uma "vaquinha" para um bom violão, capa, cordas sobressalentes, revistinhas de teoria, enfim, tudo que um garoto inteligente como o Del - e com sensibilidade para a música - precisaria para começar a tocar. Assim que voltamos à cidade eu estava ansioso; o embrulho para presente estava do jeito que eu adoraria ganhar quando era criança. Chegamos tarde da noite e ele estava ainda acordado para nos esperar. Me abraçou e me segurei para não falar antes do tempo na surpresa que o aguardava. Uma professora me disse momentos depois: "Tadinho do Del, não sei se você sabe, mas o pai dele morreu faz 10 dias hoje. Ele ficou tão tristinho...". Senti um nó na garganta e, ao mesmo tempo, pensei que o presente vinha no momento certo. Na despedida, na hora dos agradecimentos e das premiações para a escola e professores resolvemos presentear também o Del. Um momento muito feliz, ele mal sabia o que falar e o Bruno - nosso amnigo músico - já começou uma rápida aula para ele. Quando pediu para que ele repetisse, o pequeno, muito sincero, disse: "eu prefiro não tocar nada por enquanto, ainda faz pouco tempo que meu pai morreu.". Pela simplicidade de nosso pequeno amigo e de sua família ainda não consegui contactá-lo, mas amigos da cidade dizem que ele está adorando e seguindo adiante com o instrumento. Fevereiro teremos a oportunidade de reencontrá-lo numa nova etapa do trabalho em Nova Iorque. Segundo o combinado, Del tocará uma música conosco, talvez à beira de uma fogueira, como no dia em que ele ouvia, alegremente, seus novos amigos tocando o instrumento que sonhava em ter um dia.

No vídeo Del conversa comigo na primeira viagem, no dia seguinte à roda de violão.
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