quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O cachorro manco

Ele sempre gostou de animais. Não foi surpresa quando se apaixonou por aquela filhotinha de labrador, cor de chocolate. "É essa!", pensou. Assim levou a pequena cadelinha para casa.
Os meses foram passando, e ela crescia rápido, como os cachorros de sua raça e, um ano depois, já estava grande. Postura imponente e pelo impecável. Muito bem cuidada, era o orgulho de sua família.
Gostava da brincadeira de se referirem a ele como pai de sua chocolate. Era como se fosse. Cuidava, alimentava, passeava, brincava, ensinava... Assim o carinho mútuo ia crescendo.
Alguns meses mais, e a natureza visitou sua casa, lembrando que animal algum escapa de suas leis. O cio chegou para a jovem chocolate. Nunca é fácil para um pai aceitar que sua filha se inicie na vida sexual. Mesmo que essa seja uma cadela. E assim, chocolate começou a desejar os machos de sua espécie.
Mas ele percebeu que sua "princesa" tinha uma vontade maior de iniciar sua vida mundana. Para seu desgosto, queria dar para qualquer cachorro que se apresentasse. Uma manhã, deu risada quando um pincher, ridículo de tão pequeno, se aproximou, se engraçando para ela. Se assustou quando a viu arrastar a barriga no chão, abrir as pernas, fazendo de tudo para facilitar o incrédulo baixinho a realizar suas mais loucas fantasias sexuais.
"Ah, não!! esse pirralho não vai comer minha cachorra!!", pensou e afastou o minúsculo cãozinho, o deixando na mão, ou melhor, na pata...
Para seu desgosto o cio de sua chocolate durava muito, mais de duas semanas, e na frente de sua casa, uma matilha se formava. Era como se houvesse uma placa: "aqui mora uma vagabunda". E para piorar, ela dava a impressão que queria dar pra todos, ao mesmo tempo. "orgulho do pai", pensava, e saía para espantar aquele monte de cachorros sedentos da frente de sua porta.
Mas o que mais o irritava, era aquele cachorro manco. Todos fugiam, se escondiam. Mas o manco logo voltava, só ele, desafiando o pai protetor. Encarando, como quem dizia: "vou comer sim!". Tinha uma perna atrofiada, mancava completamente, mas se achava bonito o bastante para traçar uma bela labradora.
Foram vários dias, espantava todos, mas o cachorro manco o ameaçava, como quem enfrentava alguém a ponto de atacar a qualquer momento.
Uma manhã daquelas, difíceis no trabalho, stress, cabeça cheia, e um monte de cachorros latindo, fazendo uma algazarra do lado de fora. Parecia que entendia o que queriam dizer: "Ô coroa, libera a belezura aí pra gente dar um xamêgo nela!".
Todos temos nosso dia de fúria. O dele foi aquele. Dificuldade em se concentrar, problemas, trabalho acumulado, latidos; saiu como um raio de casa, liberando toda raiva, gritando com os cachorros e espantando a todos, mas em seguida, o cachorro manco voltou, o desafiando.
- Não, meu amigo, hoje você escolheu o dia errado! - disse como para si mesmo e correu em direção ao adversário.
Ploft! O chutou, com toda a raiva do mundo, como se fosse uma bola de futebol americano rumo a sua alta trave. O Cachorro subiu, e subiu. Por um momento, quase sorriu de raiva. Olhou para o lado e viu seu Manoel. Um português, seu cliente, um homem sofisticado, culto, poeta. Daqueles que o convidava a se sentar na mesa do restaurante para degustar um bom vinho. Não sabia se dava uma risadinha sem graça ou se chorava.
- Estais nervoso, hã? - perguntou o português.
- Ô, seu Manoel... Pois é. Esse cachorro... - não havia como dar explicações. Nem com todo tempo do mundo conseguiria explicar cada tijolo de história que o levou àquele momento. E depois de uma atitude daquela, provavelmente, seu Manoel nem daria ouvidos.
Foi para casa triste. Abriu a porta de sua casa e deixou sua cadela sair. Para a alegria de todos os cachorros do bairro.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Essências

No Pará, recebemos a ajuda de George, um dentista que trabalha na cidade de Quatipuru, pela prefeitura e foi liberado para nos ajudar durante os três dias de trabalho que teríamos na escola local.
Muitas vezes recebemos o apoio das prefeituras, que nos ajudam com o auxílio de funcionários do posto de saúde e odontólogos (como os dentistas são conhecidos em muitas regiões do interior).
Desde o começo, George "arregaçou" as mangas e se mostrou muito disposto em ajudar no que fosse preciso.
- Infelizmente não trouxemos outra cadeira de dentista, George... - eu disse, imaginando que ele pudesse preferir auxiliar.
- Não precisa, atendo nas cadeiras da sala de aula mesmo. Já fiz muito isso na época da faculdade. - respondeu prontamente.
E foi assim, durante aqueles dias. Quando eu saía para dar palestras, ele assumia a cadeira portátil, mais confortável para se trabalhar, e quando voltava, fazia questão de continuar em suas desconfortáveis cadeiras comuns, numa humildade de coração comovedora.
Em outro estado, eu estava montando o equipamento quando adentrou a sala a secretária de saúde.
- Olha, trouxemos pra você o dentista da cidade e duas auxiliares.
"Nossa, desse jeito fico mal acostumado", pensei, ainda lembrando da ajuda do amigo paraense.
Acabei a montagem, fomos para as apresentações das crianças, palavras do prefeito, da diretora da escola, do Luis, presidente do Instituto, e fomos para a sala. O dentista estava esperando.
- Olha, trouxemos outra cadeira de dentista, se quiser podemos montá-la agora, pra você começar a ajudar nos atendimentos. - eu disse. George tinha, realmente, nos deixado mal acostumados...
Argumentou que preferia olhar primeiro, ver nosso estilo de trabalho e depois atenderia com o maior prazer.
Atendi duas crianças, uma auxiliar ajudou com os materiais, outra com as fichas e a fila e o dentista observou tudo. Quando ia chamar a terceira, observei os três arrumando suas coisas e se preparando para sair.
- Wolber, Hoje temos que sair cedo, mas amanhã viremos passar o dia inteiro com vocês, viu? Parabéns pelo lindo trabalho que vocês fazem! - disse e saíram.
Curiosamente a secretária de saúde já havia saído cinco minutos antes.
Nos dias seguintes a cena se repetiu. O dentista, no último dia, foi sincero. Assumiu que estava ali para não receber falta e o lado bom de "trabalhar" no feriado - aquela quinta era feriado - era que poderia tirar a sexta de folga.
A profissão era a mesma, a habilidade, talvez, também fosse, mas havia um abismo gigantesco que separava aqueles dois dentistas de cidades diferentes. A essência. Algo interior, primordial no ser humano e que define uma série de outros comportamentos que temos, como caráter, bondade, vontade.
George me enviou um e-mail, dias depois que voltei para São Paulo:

"(...)Durante a viagem de volta para Belém vim refletindo sobre os 2 dias de muito trabalho que tivemos (minha coluna ainda dói) e sobre vocês do Instituto. Como é bom saber que em um país de desigualdades, egoísmo e desamor ao próximo, como o nosso, ainda existem pessoas como vocês que vem de longe, deixam seus trabalhos e o conforto de suas casas para ajudar pessoas necessitadas, essas desconhecidas, e tudo isso em troca de um sorriso, um abraço ou um obrigado que tenho certeza que vale muito mais do que qualquer dinheiro.
(...) Eu sei que vocês plantaram a semente em Quatipuru e tenham a certeza que do que depender de mim vai continuar, vou cobrar e fazer acontecer o que vocês deixaram para aquela população que tanto precisa."

Ler o e-mail fez tudo valer à pena.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Lutas

No último texto, publiquei sobre a alma social de muitos brasileiros, que lutam desde tempos atrás para melhorar nosso país.
Margô, é secretária de educação da cidade de Irecê, na Bahia e sua história me chamou a atenção. Leonel, amigo sempre presente neste blog, chamou a atenção, em um comentário, pertinente sobre a visão comunista da época.
Eu já imaginava a visão que ela tinha nos idos dos 70, mas em outro comentário ela ratificou essa impressão.
Segue abaixo o texto enviado.


Olá querido Wolber,

Gostei imensamente do teu relato. Muito obrigada amigo, pelo honroso texto!
A sensação é de que estou compondo de fato uma história de superação. (E estamos, né?) O que foi por mim, vivenciado na década de 70 e parte dos anos 80, contribuíram sim, para uma abertura política de longo prazo, mas sabemos o quanto ainda falta para sermos de fato reconhecidos como cidadãos plenos neste imenso País.
Como te disse anteriormente, a ação do IBS, é muito especial pois transgride a ideia do assistencialismo e reúne ingredientes que protagonizam a tão sonhada ação cidadã. Eu sou fã número um deste trabalho.
Obrigada Leonel pelo contributo à minha experiência, mas é preciso lembrar que o contexto que víviamos, não permitia ainda pensar no comunismo como uma ditadura de esquerda. Sei muito bem o que ocorreu na Rússia, Albânia, China, etc. Nós jovens brasileiros que compunhamos o Movimento Estudantil, lutávamos por ações que estavam muito distantes da construção de um país comunista; Queríamos Liberdade de Expressão, votar para presidente, governador, ler obras de cunho sócio-político, trazer novas perspectivas para a população brasileira que estava em situação de miséria, superlativamente maior da que ainda testemunhamos.
Mas respondendo ao teu questionamento, eu saí do partido, justamente por não concordar com o governo totalitário que foi implantado nos países do leste Europeu, e outros que se intitulavam comunistas. Entrei muito jovem, como o Wolber registrou, no entanto a maturidade, me impulsionou a questionar a nossa militância, a linha ideológica stalinista, e maoista...etc. E aí eu "desertei" aos 26 anos... Já mãe de dois filhos, já era uma mulher que podia se expressar livremente independente de qualquer orientação partidária.
Não me arrependo, não consigo enxergar outra ação que não fosse aquela, no período que em víviamos. Ou partia para uma atitude revolucionária, de enfrentamento, correndo riscos terríveis, ou seríamos cordeiros do Regime Militar. (Fui indiciada na Lei da Segurança Nacional, privada de sair de Salvador durante dois anos, e vigiada constantemente, de forma constragedora, mas valeu a pena!).
Hoje eu não sou filiada a partido algum. Costumo dizer que tenho uma ação libertária e não partidária...rs.
Conheci o Rondon. A minha cidade tb recebeu os jovens do Mackenzie, com o lema "Integrar para não entregar"... Mas sou mais o IBS, rsss. Conversaremos mais por aqui, e espero que a desconfiança que o relato do Wolber te causou, em relação a minha pessoa, seja analisada pela lente do contexto histórico. Afinal, quem sabia de fato, que existia o "Paredón" na Cuba Castrista? Longe de bajular Fidel, Mao, ou quem quer que seja, nós queríamos nos ver livres dos nossos inimigos mais próximos, ACM, FIGUEIREDO, DELFIM NETO, TORTURAS, EXONERAÇÕES FORÇADAS, EXÍLIOS, DESEMPREGO, PANCADAS NA RUA, ETC, ETC.
Pois, pois.
Wolber, seu BlOG, é muito interessante, vou tentar me fazer mais presente neste espaço.

Mais uma vez obrigada, e um grande abraço saudoso da amiga...

Margô. ( Meu codinome é Raposa vermelha...rs)

Margô é Secretária de Educação da cidade de Irecê, na Bahia

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Alma social

Essa viagem me levou a meditar bastante sobre o que fazemos e o porquê fazemos. 
Em Irecê, fomos recebidos por Margô, a secretaria de educação local, que há muito tenta levar o Instituto Brasil Solidário para sua cidade. Organizou uma linda recepção com orquestra, apresentações e festas. Nos sentimos em casa. 
Dado momento ela me disse que era nossa fã, do nosso jeito de ser e de lutar para melhorar o Brasil. 
Durante a conversa, ela contou sua história de vida, que nos anos 70 foi a pessoa mais jovem a se filiar ao PC do B, aos 16 anos. 
- Queria ajudar o meu país, lutar contra o autoritarismo. Sabia até fazer coquetel molotov, aliás, sei até hoje. - disse e deu uma risada. 
Contou histórias daquela difícil época em que nosso país vivia sobre uma ditadura que sufocava os direitos do cidadão, censurava qualquer forma de expressão que fosse contrária à sua visão, torturava e matava. 
Naquele momento, percebi que o orgulho que ela sentia de cada um de nós, era, sem que percebesse, uma empatia perfeita. Se identificava conosco, simplesmente porque se estivesse em nossa geração, estaria viajando ao nosso lado. Assim como nós, se vivêssemos nos anos 60 e 70, muito provavelmente, estaríamos lutando contra a ditadura. 
Naquela época, não havia como pensar em fazer um trabalho social, melhorar as comunidades carentes. Havia um problema muito maior impelindo os brasileiros com espírito social a lutar contra. 
Hoje, graças a Deus - e a esses corajosos brasileiros que organizaram passeatas, reivindicaram e até pegaram em armas - estamos livres desse mal. 
O Brasil tem liberdade de expressão a cada cidadão, podemos bradar sem medo. Os problemas são outros, que empurram os brasileiros dessa geração a colocá-lo mais um degrau acima, onde haja educação de qualidade a todos, sem pobreza, com saúde, que cuide do seu meio ambiente e tenha mais igualdade entre sua população. 
O que me faz ser fã da Margô e seus amigos. Pois nossa luta atual traz algumas dificuldades como o tempo na estrada, que acompanha tanta saudade de casa e da família, como tempos difíceis nos relacionamentos de cada voluntário com suas parceiras, ou a dificuldade em conciliar o trabalho, tempo de portas fechadas e dinheiro que não entra. 
A luta, algumas décadas atrás, trazia o medo de ser preso, torturado, de perder a vida. Digna de uma coragem sem tamanho. 
Brasileiros voluntários, questionadores, militantes ou soldados de esquerda; pessoas que ajudaram a construir a história. 
Como me disse a Margô:
- Na frase do sábio Bertolt Brecht: "são os anônimos, na coletividade, que fazem os grandes acontecimentos".

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Um bate-papo

Depois de quase um mês na estrada, estamos de volta. Foram semanas de trabalho no sertão, emendadas com o casamento de um grande amigo no nordeste.
Desculpem a ausência por tanto tempo neste blog, a volta é ainda mais corrida quando adentro o consultório. Sensações antagônicas se misturam, pois, apesar do trabalho social ser algo leve e estimulante para a mente, as longas viagens e seqüências de atendimentos diários não descansam o corpo.
Dessa vez o casório do grande parceiro de trabalho, e amigo, Vanderson, ajudou ao descanso ser completo. Baterias recarregadas, é retomar a rotina no trabalho e no blog.
Breve virão os textos.

Um grande abraço!

Wolber Campos

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Saída de São Jorge

Acabamos o trabalho em Alto Paraíso, Goiás, na linda comunidade de São Jorge, porta de entrada da Chapada dos Veadeiros. 
O local é envolto em energia, por isso recebe muitos esotéricos e grupos alternativos, o que confere um clima paz e amor daqueles em que é fácil de sentir bem. 
Essa noite tocamos violão em um pizza bar, o Canela D'Ema, característico, todo envolto no assunto de ufologia. Há bonecos de ETs do tamanho de uma pessoa, recebendo os clientes na porta com uma lata de cerveja na mão, olhando pela janela ou descendo de rapel do teto. 
Partimos dessa agradável cidade às 6 da manhã desta segunda, rumo à Irecê, na Bahia, mais de 1100 quilômetros de deslocamento. Devemos chegar no fim do dia, descarregaremos todo o material, cadeira de dentista, livros da biblioteca, computadores, oficinas e descansaremos. 
Amanhã continuaremos o trabalho na segunda cidade desta fase do projeto. Uma nova cidade, novas historias. 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O retorno

Esse foi um ano tão corrido, que a palavra retorno pode ser usada agora, quando estamos retornando para o sertão, não só quando voltamos para São Paulo.
Hoje partimos de São Paulo rumo a Goiânia, as 7 da manhã. O horário de saída seria as 6, porém João Victor dormiu no ônibus e acordou vários pontos depois do escritório, onde estávamos esperando. Chegou sonado, e ainda teve que escutar brincadeiras de todos.
Chegaremos de noite na capital goiana, e amanhã seguiremos para Alto Paraíso, cidade esotérica e bela.
Na Van e na pick up vão amigos que estão juntos desde 2004, quando comecei, outros desde 2007 e alguns novos voluntários.
Porém não importa se é retorno, ou de é a primeira viagem, o brilho nos olhos é o mesmo.
Tentarei postar durante o trabalho.

Grande abraço a todos!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Carro de pobre

Ele sairia com a namorada e o irmão. Na última hora, o cunhado pediu uma carona. "É claro, te deixo em casa!", disse solícito. Os quatro entraram em seu velho carro e seguiram animados como sempre, dando risadas.
O cunhado tinha amizade e apreço por ele e, com liberdade, brincava com seu carro, chamando-o "carro de pobre". O jovem crescera em um ambiente mais abastado, amigos com muito dinheiro, acostumado ao luxo, porém a brincadeira era sem maldade, na ingenuidade de quem ainda não aprendeu que chamar alguém pobre de pobre pode ser a mesma situação de chamar alguém feio de feio.
O dono nem ligava, achava graça, e ele mesmo gozava de seu querido carro velho.
Era "carro de pobre" pra cá, "carro de pobre" pra lá, até que se aproximaram da casa do rapaz.
- É a próxima rua á direita, mas pode parar na esquina - disse o cunhado.
- Imagina, eu te levo até em casa. - respondeu.
O cunhado disse que não havia problema, não precisava sair do caminho, não teria que andar muito. Mas àquela hora da noite o amigo fazia questão de deixá-lo em frente sua casa.
Ao abrir a porta para descer, o cunhado comentou:
- Pôxa, meus amigos sempre me deixam lá em cima, na esquina.
Ele prontamente respondeu:
- É que este é um carro de pobre, e carro de pobre sempre leva os amigos onde eles precisam, desvie o que precisar, seja onde for.
O silêncio que ficou no carro foi quebrado no momento seguinte por uma gargalhada geral. O único que não deu risada foi o cunhado.
- Podia ter dormido sem essa... - disse baixinho. E seguiu para casa pensativo.

domingo, 2 de outubro de 2011

O mergulho

Somos apaixonados pelo nosso país. Mergulhar nas diferentes culturas, nos envolver com as diversidades de costumes, sotaques, hábitos, paisagens, nos faz parecer meninos abrindo presentes na noite de natal. Cada viagem parece ser a primeira, não importando quantos anos fazemos isso, ou qual a idade do voluntário.
Estávamos em uma festa, em uma cidade do interior, com um som tocado por um DJ. Caixas enormes, uma altura digna de ser ouvida do outro lado da pequena cidade. O povo local apinhado, dançava o ritmo peculiar daquela região. À equipe, naquela cidade, havia se juntado José, um conhecido chef de cozinha de um importante hotel de São Paulo. Ele faria um trabalho com as merendeiras e ainda pesquisaria sobre a culinária local. Carinhosamente recebeu o apelido de "merendólogo".
Nós dançávamos, curtíamos, de uma forma intensa. Mal parecia que cada um ali, tinha trabalhado tanto, dormido pouco, feito viagens longas em estradas ruins há mais de duas semanas. Ele havia mergulhado de uma vez, em uma locomotiva que viajava a todo vapor e a toda velocidade, por dias seguidos, com jovens sedentos em conhecer e viver.
A certa altura, Luis, coordenador do Instituto, chamou José para lhe mostrar algo. O levou para o fundo do terreno, sob o céu estrelado, no bonito lugar onde ocorria a festa. Todo terreno era cercado por um muro de bambus e atrás do palco havia uma parede de palha. José viu, que aquele simples tapume, fazia o papel de um banheiro. Homens, mulheres, faziam suas necessidades ali, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Sem cuidados com higiene ou privacidade.
- Zé, a gente está aqui para mudar coisas como essa. Passamos semanas na estrada, vendo situações que nos chocam. Crianças que choram e perdem aulas por causa de dentes completamente destruídos, a educação em um caos, descaso com o meio ambiente com lixos esparramados sobre terrenos ao lado das escolas, pessoas vivendo em lugares com esgoto ao céu aberto e doenças infestando toda uma população, enquanto muitos políticos andam de carro importado. Um amontoado de emoções e sentimentos que ficam presos no peito de cada um, seja do dentista que tenta mudar algo e vê centenas de crianças que não terá tempo para atender, seja do educador que tenta mudar a história de uma comunidade e esbarra na falta de interesse de muitos poderosos da região.
"Quando temos a oportunidade de conhecer, jogar tudo pra fora, é nessa hora que expulsamos tudo daqui de dentro - disse batendo a mão no peito -. Por isso entramos em um lugar como esse e cantamos, dançamos, como se fosse o último dia de nossas vidas. Por isso um toca violão por 3 ou 4 horas seguidas em um dia, o outro incorpora um DJ até o dia amanhecer."
José entendeu. Voltaram para a roda de amigos e cada sorriso, de cada voluntário, fez mais sentido depois daquela conversa.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O presente

Ela entrou na sala com um semblante sério. Uma senhora velhinha, com a pele castigada pelo sol. Na mão, trazia uma prótese embrulhada em um guardanapo. Em meio à correria dos atendimentos, eu ainda encaixava alguns pacientes para ajustes das próteses que nós entregamos em junho.
Assim que terminei o atendimento de uma criança a chamei e perguntei como havia ficado a peça.
- Eu nem usei! Ficou muito grande aqui na frente, machucou muito. Muito ruim. - disse de forma seca.
A primeira coisa que me veio, foi algo ruim. Como se fosse ficar bravo, pela senhora não ter que reclamar com tanta veemência, visto que é normal ter que fazer alguns ajustes na prótese e, ainda por cima, aquela havia sido doada, com muito carinho.
"Calma, não julgue antes de solucionar o problema...", me veio à cabeça. Logo espantei aquele nervosismo inicial e pedi que ela sentasse. Disse que era normal ter que ajustar a prótese e que faríamos o possível para deixá-la boa.
Vi que, realmente, a parte da frente estava alta, o que seria bom deixar para aumentar a retenção, mas que se ela não se acostumava, era ideal diminuir o tamanho.
Desgastei com carinho, experimentei, tirei mais um pouco.
- Nossa, agora tá muito boa! - disse, abrindo um ligeiro e tímido sorriso.
- Dona Maria, se sentir algo incomodar, ainda estou aqui amanhã o dia inteiro, e no terceiro dia, só pela manhã. Pode voltar que eu dou um jeito. - eu disse, e ela saiu contente com a peça ajustada.
No terceiro dia, após o almoço, estava desmontando toda a aparelhagem, guardando os materiais, limpando as caixas. Olhei para a porta, a vi do lado de fora, olhando como se quisesse me dizer algo.
"Pedi que ela viesse até hoje de manhã se precisasse, agora já guardei tudo...", pensei.
Olhou para mim e fez um sinal com o dedo, para que eu me aproximasse. Larguei os materiais e me dirigi até ela. Seu semblante era sério, mas o olhar sereno. Percebi que era o mesmo olhar do primeiro dia, mas eu não havia percebido. A aparência séria e o modo ríspido de descrever o problema da prótese, não era por ser uma pessoa dura, ou mal agradecida, apenas alguém que cresceu em um lar mais sério e lacônico e não aprendeu a falar de forma polida ou suave.
- Tudo bem, dona Maria?
- Você me desculpa que eu não entrei na sala agora, mas eu tava com vergonha, porque não sabia se você gostava disso. Mas eu trouxe esses abacates que deram lá em casa pra você e para seu amigo - o Manolo, que trabalha comigo -. Se não gostar não tem problema não.
Aquilo me emocionou, ainda mostrou a netinha, de seus 7 anos, que segurava um saco menor, com dois abacates. "Ela quis trazer de presente pro senhor também", me disse, e a menina me entregou também o saquinho dela.
Eu disse que adorava abacate, que misturava com açúcar e ainda gotejava limão, e ficava uma delícia.
Ela deu o mesmo tímido sorriso, só que dessa vez ele durou mais tempo, e saiu feliz, como saiu depois que a prótese havia sido ajustada.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Estrada

Chegamos ontem de noite em Primavera, nossa ultima cidade da viagem. Aqui, trabalharemos para a Votorantim, implantando  projeto, nos mesmos moldes, num trabalho paralelo ao que fazemos com as Casas Bahia, o Amigos do Planeta na Escola. 
Primavera fica apenas a 13 km de Quatipuru, resolvi seguir, antes da turma, com o quadriciclo. A noite já havia caído, então, segui pela bela estrada de terra que divide as duas cidades. 
Durante o dia, podemos ver alguns balneários beirando a estrada, seus belos lagos, geralmente cercados com palhoças ou quiosques. 
Mas à noite o charme é outro. cercada por mangues e belas árvores pelos dois lados, a estrada seguia escura, iluminada apenas pelo farol do quadri, deixando a moldura das copas dividindo o claro e estrelado céu. 
Aos poucos as árvores diminuíram, e abriam certos espaços na beira da pista, onde surgiam pequenas casas. Diminuí a velocidade. Eram casas de barro, com suas portas de entrada totalmente abertas. Dentro de todas, uma televisão iluminava a penumbra, exibindo a novela das 7. 
No meio do caminho, não havia como resistir: parei e desliguei o farol. O céu estava repleto de estrelas e com uma definição incrível! A Via Láctea estava clara como uma nuvem, de infiltrando entre as brilhantes estrelas. 
Agradeci a Deus, e segui adiante, para Primavera, mais um local onde nos sentimos em casa. 

sábado, 17 de setembro de 2011

Chilitos

Estávamos descarregando uma doação destinada a outra escola do Ceará. Um calor literal do sertão. O suor escorria e gotejava no chão de terra. 
Depois de descer as pesadas caixas de livros, chegou a hora dos computadores. As caixas eram cheias com pequenos cilindros de isopor, que amorteciam qualquer sacolejo que pudesse prejudicar as frágeis peças. Nos balanços do caminhão, que saiu de São Paulo até aquela região, uma das caixas abriu o suficiente para derrubar alguns cilindros do isopor azul no chão de terra, na frente da escola. Continuamos a descarregar tudo; depois limparíamos a bagunça. 
Trabalho feito, conversávamos com alguns professores, quando uma criança, aluno da escola, que acompanhava curioso a movimentação, chegou e disse. 
- Mas é ruim esse chilitos, hein?! Comi 5, mas tem um gosto ruim. 
Outro ainda estava com um na mão, pronto para comer, quando alguém da equipe falou:
- Não come isso não, não é Cheetos, é isopor!
O menino sem pestanejar enfiou na boca, mastigando e falando:
- Tem problema não...
Rapidamente limpamos antes que outras crianças viessem para os "petiscos".
Na saída pensamos em falar com o patrocinador, para trocar os cilindros de isopor por alguma outra coisa que não parecesse um Chilitos. 

domingo, 11 de setembro de 2011

Livre arbítrio

Queridos amigos, muito obrigado!!
Essa demonstração de carinho e confiança me trás paz e certeza que o caminho segue, sempre sua trajetória correta.
Estamo em Crateús, terra querida também do Ceará. Visitamos duas escolas em que trabalhamos nos anos anteriores e agora estamos saindo da construção do galpão da futura central de reciclagem da cidade, que o IBS está contribuindo financeiramente.
Tamboril foi uma cidade incrível! A cada viagem continuamos nos surpreendendo com nosso Brasil, mesmo após tantos anos na estrada. Para se chegar à comunidade do Açudinho, subimos uma grande serra que apresenta características muito peculiares para a região. Uma pessoa desavisada que olhasse em volta, poderia pensar que estava em Minas Gerais. Vários montes e montanhas, verdinhos, cercam a comunidade. O calor intenso durante o dia, é seguido por uma fria noite, digna de usar blusas de frio.
Estava na praça, com uma turma muito bacana de amigos. Uns eram professores e outros alunos da escola. E o assunto passou a ser os jovens que saem de lá para São Paulo.
- O problema é que num lugar tão pequeno a gente não tem oportunidades. Nós também temos nossos sonhos, queríamos correr atrás das coisas que gostaríamos de ter. - nos disse Mailson.
- Olha, vou te dizer o outro lado que eu escuto, me sinto na obrigação. Muitos saem de um lugar lindo, como o que vocês moram, chegam em São Paulo e tem uma rotina ingrata. Moram longe de seus empregos, perdem uma hora e meia para ir trabalhar, mais uma e meia para voltar, em um ônibus lotado. Três horas por dia, perdida. Muitas vezes não tem tempo pra se divertir, em um lugar onde podem ganhar mais, mas gastam muito mais também. Não sobra tudo o que imaginam. - eu disse.
Ele pensou, balançou a cabeça e respondeu:
- Olha, se tem uma coisa que todo mundo aqui tem de sobra, é vontade de trabalhar. Pense num pessoal que tem coragem.
Aquilo me ensinou mais uma coisa: a realidade pode ser diferente olhada pelo ponto de vista de cada um. E todos, sem exceção, tem o direito de tentar. Errar ou acertar, é uma outra história, mas tentar, é um direito divino que Deus deu como nosso livre arbítrio.
Continuamos com o violãozinho na praça, e a viagem estava apenas começando.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Estrada

As vezes penso na estranha rotina que eu tenho. Curioso, na verdade acaba não sendo uma rotina, se torna o oposto disso.
Os últimos dias foram tão agitados que mal pude entrar em meu blog, menos ainda nos de meus amigos. Véspera de viagem de torna uma correria insana; preparativos para o trabalho, materiais a comprar, caixas a organizar, palestras a arrumar, e muitos pacientes para correr com o tratamento entes de viajar.
Ainda mais em um projeto de 21 dias.
Por isso escrevo neste momento, sentado no degrau de uma escola, no sertão do Ceará, na cidade de Tamboril, enquanto o cinema montado no pátio exibe o filme do super-homem, para uma platéia cheia de crianças e pessoas da comunidade.
Fica o amor pelo trabalho realizado, pelas pessoas que atendi hoje, a saudade das pessoas amadas que ficaram em São Paulo. Sentimentos misturados em um coração que não sabe se pula de alegria ou de aperta de saudade.
Serão mais vinte dias pela frente, passando ainda pelo Maranhão e Pará. Muita coisa a acontecer. E me comunicarei, sempre que possível.
Um enorme abraço a todos os amigos queridos que sempre passam por aqui, dando sempre tanta força e apoio.
E até a próxima!!

Wolber Campos

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Canudos Velho

Em 2004, quando entrei para o IBS, soube que eles haviam visitado Canudos, na Bahia. Fiquei impressionado. Sempre gostei muito de história, e conhecer o cenário da famosa Guerra de Canudos, seria um sonho.
Em 2007 surgiu a oportunidade. Trabalharíamos na comunidade de Canudos Velho, local que sobreviveu à inundação.
No fim do século 19, o beato Antônio Conselheiro, andava por regiões do sertão brasileiro, consolando a população maltratada pela seca e pregando a palavra de Deus. Em 1893, resolveu formar uma comunidade à beira do pequeno rio Vaza-Barris, que deu o nome de Belo Monte. Todos os que sofriam com a seca e confiavam no Conselheiro passaram a vender todos os poucos bens que tinham e entravam para a comunidade, que em cerca de quatro anos, passou a ter mais de vinte mil moradores, todos vivendo no que pode ter sido o mais bem sucedido regime socialista da história contemporânea.
Padres da época, começaram a se incomodar com suas velhas igrejas, moldadas por missas em latim, vazias, em contrapartida aos sermões apinhados de gente de Antônio Conselheiro, que falava a língua do povo. Assim, escreveram muitas cartas para a jovem República, então com menos de 10 anos de nascimento, dizendo que Conselheiro era monarquista e planejava apoiar a volta do rei com um exército muito numeroso que criava no sertão bahiano.
Assim Canudos foi destruída, em 1897. Como uma borracha que apagasse a história, um açude foi construído sobre a cidade que havia sido reconstruída pelos sobreviventes da Guerra e uma Nova Canudos foi erqguida a cerca de 12 km dali.
Mas restou ao lado do açude de Cocorobó, uma pequena parte do antigo vilarejo, que hoje se chama Canudos Velho. Onde nos sentimos em casa e trouxemos essas imagens para mostrar, em meio a um fim de semana de atendimentos da área da saúde, na base do IBS.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Astral

Energia, vibração, astral. Não importa o nome que damos a isso, mas é inegável como ele influi em nossas vidas.
Essa semana atendi o Wilson, paciente muito bacana, que sempre me cumprimenta com um sorriso no rosto. Estava retornando para a sessão de ajustes em uma prótese que eu havia entregue a ele na semana passada.
Seu caso não era simples; tem pouca gengiva, uma daquelas pessoas que a prótese tem grande chance de ficar mais solta.
- Como ficou essa semana, Wilson? - perguntei, já imaginando que precisaria fazer alguns ajustes.
- Ficou ótima! Já estou comendo de tudo! - disse.
Ouvi entre feliz e surpreso. Era um caso que poderia levar a ajustes e adaptações, e não precisei fazer nada. O bom astral do Wilson atraiu um ótimo resultado.
Da mesma forma que o contrário, parece uma lei. Há pacientes (graças a Deus, uma pequena minoria) que já chegam reclamando antes do orçamento, que tudo dá errado, falam mal de outros profissionais; um poço de energia negativa. Costumo dizer que andam com uma "nuvenzinha negra sobre suas cabeças. Estes podem estar com a gengiva que o dentista pedia a Deus. Você olha e pensa "não tem o que dar errado". Mas dá. Pode fazer o que for, o melhor tratamento, perder tempo pensando em alguma alternativa. Não adianta, a prótese solta, a peça machuca, a estética não fica boa.
E percebi que não é apenas da cabeça dele, não. Realmente as coisas tendem a dar errado. O baixo astral atrai todo este resultado negativo. Nós funcionamos como karma para expiar pecados anteriores dessa turma.
Mal percebem que, para tudo dar certo, basta agir de forma contrária. Elevar o astral para atrair coisas positivas. Como Wilson, e seu belo sorriso novo.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Cidadã

Ela acordou cedo, como de costume. Pegou sua xícara de café e se sentou na mesa. Ali havia uma carta, com a marca da prefeitura da cidade onde reside. Curiosa, abriu o envelope, estranhando o seu conteúdo.
"Taxa do bombeiro? Que diacho é isso?", pensou.
Sua cidade, ainda pequena, não tinha bombeiros e fazia pouco tempo, inauguraram seu primeiro posto. Mas ainda achava estranho aquela cobrança.
- Isso não é certo. Bombeiro é igual polícia. A gente já paga imposto para ter, não tem que vir cobrança a mais! - disse, e resolveu ligar para a prefeitura para esclarecer o fato.
O funcionário da prefeitura disse não saber explicar, que não era de sua competência e que se ela quisesse maiores esclarecimentos deveria ligar para Brasília.
Foi o que ela fez. Ligou para o planalto até ser encaminhada para o setor correto, onde um homem atencioso a atendeu.
- Não, isso não pode! Está errado. - disse o homem de Brasília. E continuou. - Você vai fazer o seguinte: vai ligar no Palácio do Governo do Estado de São Paulo neste número - passou o número -, vai falar com o Fulano e dizer que falou comigo, aqui em Brasília e eu te disse que ligasse para ele. Conta tudo o que está acontecendo.
Ela, feliz, fez o que lhe foi indicado.
Alguns dias depois, a prefeitura devolveu todo o dinheiro recebido pela cobrança ilegal, a cada morador da cidade.
Ela respirou fundo, sorrindo, contente por ter feito bem o seu papel de cidadã.

terça-feira, 26 de julho de 2011

O consultório na pedra

O trabalho que realizamos este mês em Paraty, trouxe momentos marcantes. Muitos momentos nos marcam e, devido ao número de lugares onde passamos, às vezes pensamos já saber o que vai nos esperar. Assim, há horas em que uma novidade vem como uma pancada, dizendo: você ainda não viu nada...
O projeto ocorreria no Saco do Mamanguá, em Paraty-RJ, e teríamos que pegar um barco na praia de Paraty-Mirim para chegar até aquele local. Essa logística fez com que tivéssemos o maior trabalho braçal que já vi em todos estes anos de trabalho com o IBS.
A equipe era composta por 4 homens, 5 mulheres e muitos equipamentos, onde o odontoportátil é o item mais pesado, precisando de 4 pessoas para ser carregado. Nas condições normais, chegamos com todo o material no carro e caminhão e os descemos para entrar na escola. Ali, teríamos que levar tudo do carro e carreta até as areias, da areia para o barco (onde a água ficava pela cintura), do barco até um pier, do pier até subir a escada para uma grande pedra, e desta pedra, descer uma escada até pegar uma trilha que chegaria à escola no alto de um morro.
Após entrarmos na baía com o barco - já cansados com o esforço - atracamos no pier na região da escola. Haviam muitas caixas de livros que seriam doados à biblioteca, além das pesadas madeiras que virariam as estantes. O odontoportátil foi colocado sobre a grande pedra, decidiríamos o que faríamos depois.
O cenário era tão bonito - e o cansaço tão grande! - que decidimos montá-lo ali mesmo, sobre a pedra, ao ar livre, acima do mar que balançava suavemente empurrando os belos barquinhos de pescadores. O gerador permitiria o sonho.
Foi algo inesquecível, as crianças, como das outras vezes, em volta da cadeira, olhando, aprendendo, brincando. Havia momentos em que levantava os olhos e observava, por alguns segundos, o cenário, voltando com um sorriso sereno.
Nunca um consultório foi tão agradável, nunca um foi tão bonito.



























segunda-feira, 18 de julho de 2011

A feira

"Olha a maçã, freguesa!! Leva que tá docinha, tá gostosa!". "Olha o peixe, tá fresquinho, tá barato!". "Abacaxi, é dois por 5, pra levar, moça!"...
Andar por uma feira livre é mergulhar em meio à cultura atual de nosso povo. Os feirantes gritam, gritam alto. Mudam tom de voz, chamam os fregueses, brincam com as pessoas. Tudo para chamar a atenção aos seus produtos, para vender mais, se divertindo enquanto trabalham.
Ir a uma feira é testar todos os seus sentidos, cada barrraca exala seus cheiros, frutas, verduras, temperos. E o que dizer da combinação - tão famosa quanto o arroz e feijão - entre pastel e caldo de cana?
Vou a feiras desde que me conheço por gente e todas trazem a mesma magia, como a vontade de comer um pastel quando ouço um feirante gritar e anunciar seus produtos.
Em um bairro de classe alta de São Paulo, alguns moradores passaram a se incomodar com o barulho em frente suas casas. De reclamação entre os vizinhos, foi formado um grupo que entrou na justiça para que os feirantes parassem de gritar e prejudicar a tranquilidade de seus lares. Ganharam a causa.
Nas feiras seguintes, todos respeitaram a decisão da lei, vendiam seus produtos em silêncio. O local ficou mais silencioso do que o trânsito que habitava aquela rua nos outros dias. Porém algo estava errado. Uma feira sem gritos? Sem coros, frases musicadas e rimadas dos seus vendedores?
Os próprios consumidores acabaram achando aquilo muito estranho. Pessoas diziam que aquela não parecia ser uma feira de verdade. Numa consequência inesperada o movimento caiu e as vendas despencaram. Os feirantes, se uniram, entraram na justiça para poder voltar a gritar. Ganharam.
Na semana seguinte ao resultado, voltaram a entoar seus cantos, suas rimas, seus gritos. Devolvendo à sua querida feira toda cultura, toda alegria e toda vida que haviam lhe tirado.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Educação

"Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda", já dizia Paulo Freire. Nas comunidades de pescadores de Paraty, as crianças fazem um grande esforço para seguir este caminho.
Onde trabalhamos, há várias comunidades, porém as pequenas escolas que servem esta população, educam apenas até o quarto ano do primeiro grau. As crianças que avançam este patamar tem que se dirigir ao centro de Paraty.
Nosso imenso país apresenta curiosas diferenças em suas diversas regiões. Em grande centros, os alunos vão para a escola em vans. Em lugares do sertão, seguem em caminhões, os famosos paus-de-arara. Naquela região de pescadores, embarcam em barcos-escola.
Não é fácil, os barqueiros - como Ademir, do texto anterior - começam sua jornada às 4 horas da manhã, quando pegam a primeira criança e, de pier em pier, vão pegando todos os alunos, até deixá-los nas areias de Paraty Mirim, antes das 6 da manhã. Lá, pegam o ônibus que se dirige para a cidade de Paraty. Ainda assim, a rotina segue dura, a estrada de terra é precária, com muitos buracos e quando chove então...
-Tem dias em que nem conseguimos passar, atola tudo e ninguém passa. - nos disse um morador.
Na última época de chuva, as águas caíram com tal força que levaram a ponte pela qual atravessamos o rio para a casa que ficamos no último trabalho.
Seguem mais de 18 km, por mais de uma hora até seu destino. Retornam para a praia até o barco só em torno das 14 horas.
Há brasileiros que fazem um grande esforço para conseguir sua educação, sem perder seu sorriso, sem perder sua força de vontade. Acordam muito antes do primeiro raio do sol nascer, perdem muitas e muitas horas em seu trajeto para a escola. Mas jamais perdem sua esperança.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Julgamentos

Chegamos na quarta em Paraty Mirim. Ali nos aguardaria um barqueiro para nos levar até a comunidade do Mamanguá. Descarregaríamos todos os equipamentos na escola e só então seguiríamos para a pousada onde descansaríamos após cada dia de trabalho. 
Ele estava nos esperando, com cara de poucos amigos. Como sempre fazemos, puxamos conversa, comentamos sobre o trajeto e quando dissemos que esperávamos que nos levasse da escola à pousada, Ademir foi enfático:
- Não me falaram que tinha que esperar não. Era só pra deixar vocês lá e ir embora. 
Naquele momento tive um pensamento que me envergonharia logo depois: "que má vontade! Custa esperar um pouco?"
Tudo bem, depois veríamos o que fazer para chegar à pousada. 
Foi um dos trabalhos braçais mais difíceis que fizemos até hoje na história do IBS. Estamos acostumados a chegar com todo o material na escola, de caminhão, descermos os pesados equipamentos, caixas e mais caixas de livros, e carregarmos direto para as salas e bibliotecas. Desta vez, aliado ao esforço para, em três pessoas (eu, Valter e Luis), carregarmos todo equipamento na carreta e na van na tarde anterior, descarregamos tudo na areia da praia, da areia para o barco, do barco para a escola. Para nossa salvação, tivemos a ajuda do Nori, um voluntário que se juntou à equipe com um vigor invejável!
Vendo todo o esforço que fazíamos, nosso amigo barqueiro se comoveu, e passou não só a nos ajudar com todo peso, como se comprometeu a nos levar embora depois de acabado o trabalho. carregava pesadas caixas, sorria e brincava conosco.
Enquanto o pequeno barco se dirigia para a escola (um trajeto de seus 45 minutos), fiquei sabendo que Ademir fazia este percurso algumas vezes por dia. Pegava a primeira criança para levar à escola às quatro da manhã e depois as buscava em torno das 14h. Para isso acordava as 2 da manhã, todos os dias da semana. 
A pressa de Ademir passou a fazer sentido. Também a minha necessidade de conhecer as pessoas melhor antes de julgar suas atitudes.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Saco do Mamanguá

Na estrada, novamente. Desta vez não estamos rumo ao sertão e sim para Paraty-RJ, onde daremos continuidade ao projeto Remar. 
Saímos de São Paulo num frio de "bater os dentes", o que ocasionou uma cena diferente: todos "empacotados", com pesadas roupas de frio, diferente de bermudas e chinelos quando partimos para a região norte e nordeste. 
Trabalharemos em uma comunidade de pescadores, no Saco do Mamanguá e onde só é possível chegar de barco. 
Não há sinal de celular e se o orelhão não estiver funcionando estaremos sem comunicação, algo curioso nos dias atuais, perto de um grande centro, na região sudeste. 
Entre os equipamentos segue um gerador, caso tenhamos problemas com a instável energia elétrica. 
Voltaremos semana que vem. Grande abraço!

Wolber Campos

domingo, 19 de junho de 2011

Nosso Brasil - casa de barro

Hoje começo a publicação de uma nova série no blog: Nosso Brasil. Nela, além de um texto descrevendo cenas, regiões, culturas e nosso povo, virá uma imagem, seja uma breve cena ou seja um filme, colhidos por essas lindas terras.
Espero que gostem!

Casa de Barro

Difícil algo que exprima mais a imagem do sertão brasileiro do que elas. As casas de barro estão por nossos livros de escola, fotografias, e quando o assunto é a seca, habitam o imaginário do cidadão das grandes metrópoles tanto quanto o próprio sertanejo.
Já havia entrado em algumas delas e sua simplicidade pode assustar a alguém que não esteja acostumado a andar pelo interior de nosso país. Não se trata de falar em carência, ou pobreza, mas sim em cultura. Povos tem sua forma de vida e moradia e casas de barro, palafita ou palha, muitas vezes abrigam pessoas que possuem boa situação financeira para a região.




















Levantada em torno de uma ou duas semanas, guarda em suas paredes a energia das próprias mãos do dono e amigos que, juntos, a ajudaram a subir. O chão, geralmente, é de terra batida e muitas vezes a parede que divide os cômodos é um lençol ou tapume de madeira.
Jeremias deve ter em torno de 20 anos, já fez sua família, já levantou sua casa, ao lado da escola onde trabalhamos, em Primavera, no Pará. Abriu a porta de seu lar para que pudéssemos conhecê-lo. Para que muitos brasileiros pudessem ver como muitos irmãos de pátria moram em nosso sertão. Numa linda casa de barro.


quarta-feira, 15 de junho de 2011

Fim de tarde

Ontem, estava saindo do consultório, o Luis me ligou:
- Cara, escuta só esse som! - e por alguns segundos chegou ao meu ouvido o som do sertão.
Estava ele em Barreirinhas, bela cidade onde ficam os Lençóis Maranhenses. Trabalharemos lá este ano, e Luis teve uma reunião com o prefeito e secretários do local para mostrar os detalhes do projeto.
Após a reunião, fim de tarde, chegou em um barzinho, estilo "boteco beira-rio", sentou-se e pediu uma cerveja. Foi o primeiro a se sentar ali, e, para sua surpresa, alguns minutos depois começou a tocar um trio de forró pé-de-serra, daqueles da Nossa Terra (assim mesmo, com letra maiúscula). Eram mais velhos e não tinham uma zabumba, som que era tirado em uma bateria.
- Vamos dar uma zabumba pra esses caras! - me disse empolgado com a música do Luiz Gonzaga tocando ao fundo "vaaaaaaaai boiadeiro que a noite já veeem...".
Uma nostalgia invadiu meu peito. Graças a Deus, uma nostalgia nova, sendo que cenas assim ainda encontramos algumas vezes por ano nessas viagens. Mas veio aquela saudade de Brasil. De um lugar onde podemos, depois de um dia de trabalho, nos sentar em um bar e ver senhores tocando belas canções da nossa terra (aqui está em letras minúsculas, mas lembre-se que sempre serão maiúsculas em sua acepção), do mesmo modo como faziam décadas e mais décadas atrás.
Me despedi, liguei o carro e peguei o trânsito de São Paulo para chegar em casa. Dessa vez com uma música na cabeça: "...guarda o teu gado e vai pra junto do teu bem". Eu iria, mas guardaria meu carro.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Simpáticas simpatias

No começo de maio a equipe retornou ao Vale do Jequitinhonha para encerrar o projeto Sorriso Solidário. Dessa vez, enfrentaram um intenso frio e muitos começaram a ficar doentes; gripes, febre, dor de garganta.
Em uma das cidades, Valter ficou de cama, com uma forte febre e dores pelo corpo. Voltou para a casa omde estava hospedado (Receptivo Familiar) e entrou embaixo das cobertas. Estava quase dormindo quando bateram na porta.
- Pode entrar! - encontrou forças para dizer.
Entrou uma senhora, com rosto sério e um copo com água na mão.
- Me disseram que você estava passando mal. Vamos ver o que é. Vou jogar essas pedras de carvão no copo e já saberemos. - disse com um ar grave.
Lançou dentro do copo três pedras de carvão, duas desceram vagarosamente até se alojarem no fundo do copo, uma boiou. Ela fez uma cara de desaprovação e disparou:
- É mal olhado! levante-se. - ordenou.
Falou para ele andar de costas, com o copo de água na mão até a porta, sem olhar para onde estava indo, tomar um gole da água e jogar todo o conteúdo por sobre seu ombro, fora da casa, retornando à cama sem olhar para trás.
Ele, abatido demais para discutir, fez todo o combinado.
Deitou, alguns minutos depois, batem à porta novamente. Era uma outra senhora, um pouco mais velha. Disse que veio ajudar, podia curá-lo, mas ele teria que acreditar que poderia ser curado.
- Posso tirar uma de suas meias? - perguntou, a retirando do pé esquerdo assim que Valter concordou.
Saiu e volou alguns minutos depois.
- Olha, vai estar um pouco gelada, mas é para o seu bem. - disse e vestiu a meia, ensopada e gelada.
Alguns minutos mais tarde outra senhora adentrou o quarto, perguntando o que ele estava sentindo. Colocou a mão em sua testa e diagnosticou: "você está com febre!".
Valter sorriu cansado, esperando a próxima simpatia que viria, mas a senhora retirou todas as suas cobertas e ele se sentiu entrando em uma geladeira.
- Tira tudo isso, é febre e você não pode ficar se cobrindo, não. Senão não melhora! - disse e saiu.
Pinduca entrou no quarto - para o alívio de Valter que imaginou mais uma senhora com algum aparato de cirurgia nas mãos.
- Valtão, está tudo bem? Tem um monte de mulher na sala com garrafas de água com raízes, dizendo que é pra você...
Valter disse que já tinha melhorado, tremendo pegou as cobertas de volta, se cobriu e disse que só precisava descansar. Ficou feliz em saber que tanta gente se preocupava com ele, mas já estava bem de simpatias para aquele dia...

sábado, 4 de junho de 2011

A lição vem de longe

Não é de hoje que me revolta a exploração que a mídia faz sobre desastres. Um grande amigo, que trabalha em um jornal de São Paulo, me disse que no meio há profissionais que parecem urubus em busca de carniça. Após o terremoto que destruiu o Haiti, viu um editor com algumas fotos da tragédia que estampariam a primeira página no dia seguinte. Ele olhava com um sorriso e comentava "veja que lindas imagens!".
Também em relação ao povo. Os amigos que por aqui passam, sabem que sou um brasileiro de todo o coração, mas como povo, ainda temos muito o que aprender. O desastre no Japão nos trouxe muitas lições. Cabe a nós aplicá-las em nosso cotidiano.
Recebi por e-mail, de alguma alma observadora e com grande sensibilidade, 10 exemplos a serem seguidos.

Um grande abraço!

DEZ COISAS A SEREM APRENDIDAS COM O JAPÃO

1 – A CALMA
Nenhuma imagem de gente se lamentando, gritando e reclamando que “havia perdido tudo”. A tristeza por si só já bastava.
2 – A DIGNIDADE
Filas disciplinadas para água e comida. Nenhuma palavra dura e nenhum gesto de desagravo.
3 – A HABILIDADE
Arquitetos fantásticos, por exemplo. Os prédios balançaram, mas não caíram.
4 – A SOLIDARIEDADE
As pessoas compravam somente o que realmente necessitavam no momento. Assim todos poderiam comprar alguma coisa.
5 – A ORDEM
Nenhum saque a lojas. Sem buzinaço e tráfego pesado nas estradas. Apenas compreensão.
6 – O SACRIFÍCIO
Cinquenta trabalhadores ficaram para bombear água do mar para os reatores da usina de Fukushima. Como poderão ser recompensados?
7 – A TERNURA
Os restaurantes cortaram pela metade seus preços. Caixas eletrônicos deixados sem qualquer tipo de vigilância. Os fortes cuidavam dos fracos.
8 – O TREINAMENTO
Velhos e jovens, todos sabiam o que fazer e fizeram exatamente o que lhes foi ensinado.
9 – A IMPRENSA
Mostraram enorme discrição nos boletins de notícias. Nada de reportagens sensacionalistas com repórteres imbecis. Apenas calmas reportagens dos fatos.
10 – A CONSCIÊNCIA
Quando a energia acabava em uma loja, as pessoas recolocavam as mercadorias nas prateleiras e saiam calmamente.
Nenhum arrastão contra o povo, ou para roubar o comércio

Para encerrar, algumas frases de Mahatma Gandhi:

"Temos de nos tornar na mudança que queremos ver"

"Um homem não pode fazer o certo numa área da vida, enquanto está ocupado em fazer o errado em outra. A vida é um todo indivisível"

"Há riqueza bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ambição"

"O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente que há no mundo"

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Volta à Belém

Hoje chegamos em Belém do Pará. Numa equipe pequena, eu, Luis e Valter, viemos entregar as próteses moldadas em abril, participar da semana do meio ambiente em Primavera e fazer uma reunião na cidade vizinha de Quatipuru, onde trabalharemos no segundo semestre. 
Quinta-feira estaremos de volta. 

Grande abraço!

Wolber Campos

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Atitudes

João era um cara, tipicamente, esquentado. Seu temperamento era paradoxal; uma das pessoas mais carismáticas - e boas - que eu conheço, mas pisasse alguém em seu calo, era bom sair de perto.
Como somos amigos de infância, presenciei situações do tipo: um "trombadinha" (como chamávamos os malandros em nossa adolescência) passava encarando, fazendo cara de mal, como quem diz "vou assaltá-los!", e era o bastante.
- Tá olhano o quê, ô babaca! Acha que tenho medo só porque você é feio pra caramba? - dizia, indo na direção do elemento, que sempre desviava. (acho que a confiança do meu amigo é tão grande que assustava mais ainda).
Era "esquentado" contra injustiças, diga-se de passagem. Nunca arranjou encrenca em filas, ou por impaciência, mas quando via algum espertalhão, desses folgados que gostam de levar vantagem sobre os outros, já deixava o cheque com a boiada (para não sair da briga) assinado.
- Sei o quanto erro em estourar muito e sei o quanto preciso melhorar... - dizia sempre, mostrando seu caráter e preocupação em se tornar uma pessoa melhor.
Poucas semanas atrás, João saía com seu carro. No final de sua rua, embicou em uma avenida movimentada e viu um carro descendo rapidamente. Imaginou "dá tempo" - como pode acontecer com qualquer um de nós - e entrou. O carro, como de costume em São Paulo, acelerou e brecou bem perto do seu, e ,mesmo saindo mais rápido, o adversário (outro costume no trânsito de São Paulo são os carros serem adversários) acelerava e gesticulava.
Aquilo o deixava muito nervoso. "Pra quê tanto stress? O cara podia ter diminuído!", pensava. Mas parece que muitos aceleram apenas para dar motivo para justificar sua ira.
Entrou em uma rua menor à esquerda, o outro entrou atrás, "colando" em sua traseira e tentando emparelhar o carro. João tentava ter paciência, mas era muito difícil. Até um momento em que o farol fechou e o outro carro tirou para o lado e parou junto à sua janela. O homem baixou o vidro e começou a gritar, o xingando de vários nomes.
João baixou sua janela. Olhou para a pessoa tresloucada no outro veículo. Levantou sua mão e disse:
- Amigo, me desculpa! Achei que daria tempo pra entrar e acabei te fechando. Sei que tava errado. Mals aí.
Aquilo transfigurou o homem. Como da água para o vinho, seus olhos irados refletiram compaixão. João nunca tinha visto uma mudança de atitude tão drástica daquela forma.
- Opa, tudo bem. Me desculpe também. Estou atrasado, acabei estressando à toa. Foi mal! - disse, até sorrindo.
João me contou:
- Cara, incrível! Parecia que eu ia parar o carro e tomar um chopp com o cara. Ficamos quase "brothers"...
Nada como uma mudança de atitude. Pode-se ter certeza que naquele dia duas pessoas mudaram, um pouco para melhor.

domingo, 15 de maio de 2011

Banco

Numa cidade do interior do estado de São Paulo, Itapetininga, os moradores mais velhos se lembram nostálgicos do tempo em que a modernidade passou a chegar em sua terra. De todas, a mais curiosa - e engraçada - foi a época em que o serviço financeiro, os bancos, começaram a se popularizar.
Pode-se imaginar, para pessoas simples, em toda a humildade que o interior lhes envolvia, o que era confiar todo seu dinheiro, ganho em sua lida de cada dia, a um estranho, que havia construído uma grande casa e dizia que tomaria conta de sua fortuna.

Havia um senhor idoso, que todo dia se encaminhava ao caixa, retirava todo seu dinheiro, o contava na frente do atendente, o olhando com cara desconfiada, como quem diz "estou esperto, viu?", para ver se todo seu dinheiro estava ali mesmo. Conferindo que ali estava toda a quantia que havia deixado no dia anterior, a depositava novamente, dizendo "até amanhã". Seguia para casa tranqüilo, sabendo que, pelo menos a ele, aqueles homens não enganariam.

Um morador, faria uma compra grande, então se encaminhou para o banco, para retirar seus 15 mil reais (em moedas atuais). O gerente lhe disse que era uma grande quantia, que ele esperasse "alguns minutos, que o carro-forte chegaria em pouco tempo com o dinheiro". Ele se inflamou, sabia desde o primeiro instante que estava sendo enganado. Aquilo não ficaria assim, faria um escândalo para que todos pudessem ouvir. Encheu os pulmões e bradou:
- Ladrões!!! Eu sabia!!! Meu dinheiro estava aqui dentro, deixei aqui com vocês e vocês o levaram daqui!! Quero o meu dinheiroooo!!!!

Um velhinho, já tinha imaginado o banco como a melhor invenção da modernidade. Ficou fascinado com a vantagem de depositar um dinheiro ali e ter um talão de cheques, aquelas folhas maravilhosas que, com sua assinatura, seria aceita como dinheiro em qualquer lugar. O usava em todos es estabelecimentos. Ia almoçar, ao pedir a conta, tirava o talão de seu bolso e fazia o ritual mágico que havia se habituado: abria o talão na mesa, postava a caneta sobre a folha de cheque e a deslizava sorrindo.
Não poupava em lugar algum, saía com todos os amigos para um jantar. Na hora de pagar, não deixava ninguém ajudar com a despesa.
- Podem deixar, eu tenho um cheque! - dizia, abrindo o talão sobre a mesa, postando a caneta sobre a folha e a deslizando, sorrindo.
Fez isso com toda paixão e orgulho por algumas semanas, sempre ávido para pagar tudo a todos. O gerente do banco, preocupado com o número de cheques que chegavam, chamou o velhinho para uma conversa.
- Senhor, percebemos aqui que está chegando um grande número de cheques a serem debitados em sua conta. E o valor já superou seu limite. Sua conta está no negativo e o senhor está nos devendo 2.500 reais...
- Quanto? - perguntou calmamente o velhinho, ouvindo novamente o valor de sua dívida.
Não pensou duas vezes, tirou o talão de seu bolso, postou a caneta sobre a folha de cheque e a deslizou sorrindo, escrevendo "dois mil e quinhentos reais".

Fatos verídicos colhidos em forma de documentário pelo cinegrafista Vítor Pinduca

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A manga

Conhecer o interior do Brasil é sempre enriquecedor, seja por admirar nossas variadas culturas, participar do cotidiano de outras regiões, ouvir o sotaque "puxado" das pessoas, ou mesmo viver por uns dias em uma realidade tão diferente da cidade grande. 
Estávamos sentados, certa noite, numa mesa de bar, dessas de alumínio, tão comuns por botecos de norte a Sul do nosso país. Porém ali, tudo era diferente. Acima de nossas cabeças estava uma frondosa e enorme mangueira, aos nossos pés  o chão de terra, acima da árvore, as estrelas, que iluminavam o céu límpido que nos observava naquela bela noite. Um cenário que faria a mais pura inveja a qualquer barzinho da Vila Olímpia ou da Vila Madalena. 
O papo seguia muito animado, quando de repente foi cortado com um grande barulho:
- Bam!!
Um susto, mas nada grave. Uma manga despencou de lá de cima, no alto da árvore, sobre a mesa de alumínio. Demos muitas risadas, era uma cena, no mínimo, inusitada. 
Bem lá no fundo, entre sorrisos, agradecíamos a Deus. Primeiro, por ter oportunidade de presenciar uma cena dessas. Segundo, por estarmos embaixo de um pé de manga e não de um de jaca.  

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Misturas

O Pará é uma linda terra. Há fartura, seja de chuva, de peixes, plantações. O povo, mesmo quando em situação bem humilde, vive bem e feliz. Pessoas simpáticas, receptivas e festeiras.
Trabalhamos na cidade de Primavera, a menos de 200 km de Belém. Fomos recebidos por um animado carro de som e uma carreata com fogos de artifício, sempre ao som do Melody, ritmo bem característico da região, com suas músicas com a velocidade acelerada, deixando as vozes bem "fininhas".



Numa festa, no fim dos trabalhos, com um som de discoteca no porta-malas de um carro, o rapaz falava: "Olha meus amigos, este é o som de nossa cultura aqui no Pará", fazendo questão que conhecêssemos tanto as músicas dançantes, quanto as regionais e folclóricas, como o carimbó.
Grande parte da população daquela região tem traços indígenas, espalhando pelas ruas a beleza da mistura, tão presente no povo brasileiro.





Há também moradores com características de outros estados, como o Ceará e o Maranhão, devido à grande migração de sertanejos na época áurea da borracha.
No fim do trabalho, conversando com um professor, com seus traços mestiços, ele me definiu:
- Meu amigo, aqui temos muita mistura, por isso deu esse povo bonito. As mulheres são lindas. Esse negócio dos europeus se juntando aos índios e negros, deu muito certo. Mas a cria com essas mulheres daqui é melhor com alguém de fora da região, aí o filho sai lindo! Se juntar eu com uma mestiça, não sai filho bonito não. Se eu tiver um filho com uma paulista, já sai bonitinho, um moreninho, de olhinho meio puxado, olho claro, cabelo enrolado...
Curiosa teoria. Assim como outro paraense completou a definição:
- Essa mistura ficou muito boa. Mas a melhor empresa de todas, é a que dá da mistura do italiano com a índia! - disse sorrindo.
Se a moda pega, haja europeus empreendedores se mudando para nossa região norte...

domingo, 10 de abril de 2011

Raposa

Neste domingo, 10 de abril, Estamos numa van alugada saindo de Belém do Pará rumo à cidade de Primavera. Trabalharemos esta semana, implantando um projeto em parceria com a empresa Votorantin.
Na cidade não há sinal de celular e provavelmente dó conseguirei dar notícias no blog depois de sexta, quando voltamos para São Paulo.
Foi a primeira vez que vi Belém, e a imagem dos braços do Rio Amazonas chegando ao lado do aeroporto me deu uma doce alegria. Era um sonho antigo conhecer a região amazônica.
O avião estava tocando o solo e diminuindo a velocidade e enquanto olhávamos as arvores altas da floresta que chegava perto de uma 200 metros da pista, meu amigo Manolo apontou: "olha lá!". Uma rapozinha seguia andando em direção à floresta.
Logo no primeiro momento, já fomos bem recebidos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Doutora Brasileira: 50 reais

Conversando com os dentistas da Marinha, colegas de trabalho na região amazônica, a doutora percebia uma certa tristeza. Para pessoas que querem fazer a diferença, é difícil aceitar que, em muitos casos, não há como mudar a situação das pessoas que ajuda.
O trabalho odontológico consistia em sua maioria em curetagem dos dentes (remoção da cárie com um instrumento manual) e colocação de uma restauração provisória.
A parte de prevenção, com palestras, era pouco absorvida. A extrema dificuldade financeira das populações ribeirinhas tornava difícil a aplicação de normas simples, como a escovação após todas as refeições e o uso de uma escova por pessoa.
Naquela manhã, um casal sentou à sua frente com uma criança. Uma mãe que aparentava estar próximo aos quarenta anos, pela dureza de suas feições e pele castigada pelo sol, porém com 23 anos. Baixinhos. Os ribeirinhos são, em sua quase totalidade, de estatura baixa. Ao fazer as perguntas básicas sobre a estrutura da família, colheu os seguintes dados: um casal, seis filhos, renda familiar = 50 reais por mês.
Com cinquenta reais por mês, como imaginar que um pai gastará dinheiro com 8 escovas e creme dental para sua família? Já será difícil conseguir comida para completar a refeição dos peixes que pesca para sua sobrevivência.
O Brasil e seus constrastes. Há regiões em que é comum se gastar 50 reais em um jantar, num restaurante simples. Em outras, famílias sobrevivem por um mês inteiro com este valor.
Uma região com famílias esquecidas, soltas por sua própria sorte, à márgem da sociedade. Da mesma forma que sobrevivem às margens dos rios da Amazônia.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Politicagem

Poucas palavras me embrulham mais o estômago do que esta. Para quem faz trabalho social e, com frequência, mantém contato com políticos, não é fácil lidar com muitas dessas situações que aparecem.
Há prefeitos que apoiam, gostam do projeto e, realmente, se empenham em ajudar. Por mais incrível que possa parecer, para nós brasileiros, que estamos acostumados a imaginar políticos com chifres e tridentes. Sempre me preocupo em não generalizar, e também devo escrever quando recebemos algum apoio do poder público. Há pessoas boas e ruins em qualquer esfera, nesta não é diferente.
Mas semana passada tivemos mais um exemplo da parte triste da política brasileira. Realizamos em Lençóis, na Bahia, o Primeiro Encontro Amigos do Planeta na Escola. Uma semana de seminário, onde as dez escolas em que trabalhamos nos dois últimos anos, levaram apresentações onde demonstravam como os trabalhos que implantamos seguem em cada região.
Foi um sucesso. Em torno de cinco integrantes de cada município, viajaram de vários estados brasileiros (Minas, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Maranhão, Piauí e Ceará), num percurso que chegava, em alguns casos, a mais de 1000 quilômetros!
Um grupo de educadores subiu no palco. A diretora da escola agradeceu a todos e contou sobre a dificuldade em chegar até ali. Com os olhos cheios de lágrimas, disse que o prefeito negou o veículo que as levaria ao encontro, dias antes da viagem. Não entendiam o motivo, correram atrás, tentaram de todas as formas, mas ganhavam apenas um lacônico "não". Até que uma pessoa de dentro da prefeitura, lhe disse:
- Olha, não diga a ninguém que eu te falei, mas se você quiser ir, troque a equipe.
Tudo começou a se explicar, as outras professoras eram de outro partido.
- Como eu vou trocar a equipe se elas tocaram esse projeto comigo? - retrucou.
Politicagem. Uma das maiores chagas que afetam nosso país, acabava de atingir uma equipe que havia realizado um ótimo trabalho para os alunos de sua escola.
A diretora conseguiu o apoio do presidente da câmara de vereadores e um veículo foi emprestado para levar a equipe.
Contando essa história, as lágrimas não resistiram e rolaram. À sua frente, muitos educadores, uns passaram algo parecido, outros não, mas todos as aplaudiam, solidários por sua luta.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Duelo espiritual

Deus é um só. Ponto. Admitindo-se que há um criador de tudo e de todos, automaticamente temos que concordar que apenas um Deus criou a todos nós. Não existe um para os brasileiros, outro para os muçulmanos e um terceiro para os judeus.
Há vários caminhos para um mesmo destino. Devemos ter diversas religiões, pois cada pessoa se encaixa melhor em uma determinada crença, compreendendo assim melhor o caminho para atingir seu objetivo.
Por este motivo, sempre me incomodou ver pessoas que tentam mudar a religião de outras, dizendo que esta está errada, que a sua é melhor, e por aí vai. E muitas vezes, essas diferenças chegam, até mesmo, a um conflito.
Em uma pequena comunidade, do interior da Paraíba, chegamos a uma linda e arborizada praça. Mas algo estava estranho. Um barulho terrível, o que me espantava, era observar todas as pessoas que se espalhavam por ali conversavam como se aquilo tudo fosse imperceptível. Estavam acostumados àquela cena.
Aproximando-me, pude ver uma cantoria saindo por altas caixas de som, de dentro de uma igreja católica, permeada por sermões de um empolgado padre. Do outro lado da praça, uma igreja evangélica exibia um enorme amplificador, voltado para fora de suas paredes, - mais precisamente em direção à outra casa de Deus - onde um pastor gritava agressivo as palavras de Deus.
- Já faz um bom tempo que aqui é assim. Quando era só uma igreja era mais calmo, mas a outra abriu e começou a falar mais alto. Agora é um gritando mais do que o outro, tentando buscar fiéis. - comentou um amigo local.
Nessa competição louca, muitos preferem nem entrar nas igrejas.
Deus deve pensar: "só pela forma como tentam pregar minha palavra, já mostra que dela nada entenderam...".

quinta-feira, 10 de março de 2011

Doutora brasileira: animais silvestres

A lancha seguia à frente do navio da Marinha brasileira. Estavam no rio Xingu, no estado do Pará, e navegavam rumo a uma comunidade que necessitava de atendimentos médicos.
Saíram para um afluente menor, adentrando ainda mais para o interior do estado. Naquela região, não há muita floresta acompanhando as margens do rio. O Pará é muito mais desmatado do que o Amazonas e poucas árvores ficam nas proximidades.
O grande navio aguardava onde o afluente desaguava no rio Xingu, era necessário ver se a profundidade era suficiente para uma grande embarcação. O sinal foi dado e a enorme embarcação pode navegar com sua calma peculiar.
A lancha seguia, agora rapidamente, e mais à frente observaram algo estranho: três pequenas embarcações, emparelhadas, próximo à margem direita. Era algo estranho. A lancha diminuiu a "marcha". Ao se aproximarem das embarcações viram do que se tratava. Homens passavam de um barco a outro gaiolas, repletas de animais silvestres. Ali, em sua frente, estava escancarado o tráfico de animais da fauna amazônica brasileira.
Quando perceberam que a lancha que se aproximava era da Marinha, como se fosse combinado, todos os homens pararam, gaiolas suspensas, feito estátuas. Movimentavam apenas os olhos, que acompanhavam a lancha que passava, vagarosamente; exalando o medo de serem pegos em flagrante.
O grande navio veio em seguida. O comandante deveria decidir, agir, ou comunicar o fato. Aquele era um navio médico, com pouquíssimo armamento, militares, em sua maioria, formados por médicos, dentistas e profissionais da saúde. Havia a chance de um conflito, e traficantes desse porte, geralmente, estão sempre armados.
Pelo rádio, o comandando comunicou à Polícia Federal, dando todas as coordenadas do local e a cena que estavam presenciando. Não poderia colocar em risco toda uma equipe e uma embarcação médica.
O tráfico de animais silvestres é o terceiro maior comércio ilegal do mundo, perde apenas para o tráfico de drogas e o de armas. Estima-se que a cada dez animais capturados, apenas um chega vivo ao destino. A crueldade desses criminosos chega ao ponto de furarem os olhos de aves para que não cantem ao ver a luz do sol, denunciando seu cativeiro, ou mesmo de anestesiar todos para chegarem silenciosos aos consumidores, que acabam compactuando com essa crueldade. Tão grave quanto comprar um aparelho de som roubado.
A doutora seguiu para a comunidade. Durante todo o dia de atendimento, aquela imagem não saía de sua cabeça. Sabia que aquilo existia, já tinha ouvido muito sobre isso, mas ver, com seus próprios olhos, era muito diferente.
Não sabia se a PF conseguiu chegar ao local. Não sabia como acalmar seu apertado coração que não conseguia esquecer aquela cena. Ainda hoje não sabe.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Cenas de uma recepção

Nossa porta de entrada para o Vale do Jequitinhonha, no último trabalho realizado em fevereiro foi a linda cidade de Diamantina, com seus casarões antigos e igrejas coloniais.



Chegamos à cidade de madrugada, após a aventura da viagem de ida. Na manhã seguinte, conseguimos conhecer um pouco o local. Andamos por suas belas ruas calçadas por enormes pedras, visitamos a casa da Chica da Silva, e vimos até uma famosa fofoqueira, olhando curiosa os acontecimentos pela sua janela.























Após o almoço, sguimos para a pequena comunidade de Cachoeira do Norte, nosso primeiro destino de trabalho. Fomos recebidos de forma extremamente calorosa, com palmas e cantos dos moradores.



Uma pequena roda se formou e nos falaram de uma apresentação de um dos folclores mais tradicionais de nosso país: a folia de reis. Homens e mulheres, de todas as idades cantavam ao som dos violões e instrumentos de percussão. Aquele coro tradicional, com vozes de homens entoando uma música enriquecida por vozes femininas bem agudas, de moças e senhoras.



Após algumas músicas, foi formada uma imensa roda, crianças e adolescentes se uniram e começaram a entoar músicas reginais, uma deliciosa Folia de Reis.



E claro, nós entramos na dança...



A noite caia e a festa parecia ir longe, para nossa alegria. O cenário era lindo, a pequena igreja da praça, olhava para as alegres pessoas que dançavam e cantavam ao som do violão.



E contentes, passamos a ver adolescentes e senhoras de seus 70 anos, pulando e dançando, com um vigor invejável, e deixando a boa mensagem de que a cultura vai sobrevivendo, sendo passada para as outras gerações.



E no fim da festa, ainda assistimos ao show de percussão, dado pelos nossos amigos. E ali estava ela, com seu pandeiro. Que felicidade saber que, no dia seguinte, eu teria oportunidade de retribuir um pouco dessa maravilhosa recepção.

















Abaixo um pouco da nossa feliz roda de folia de reis.

video

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Rotinas

Meus amigos. Voltamos e esta segunda-feira, voltei ao consultório. Saio de uma rotina, entro em outra. Realidades tão antagônicas, conflitantes, e, ao mesmo tempo, complementares.
Fazer um trabalho social, viajar por alguns dias, doar o pouco que aprendeu - e desenvolveu - em favor de outras pessoas, é participar de um mundo novo. Um mundo que se imaginaria ideal, onde aquele papel ($) que tanto distancia a humanidade de seus verdadeiros propósitos, quase perde o sentido.
Os mundos se complementam, pois neste lado, é necessário correr atrás do trabalho, para melhorar a vida da família, para se especializar e melhorar cada vez mais profissionamente e, aí sim, doar esta melhora para outros menos necessitados.
Pode parecer demagogismo, numa época em que estamos cansados de tantos discursos políticos, tão vazios como uma bexiga furada. Porém, quem já foi uma vez pode afirmar: a cada trabalho, sentimos mais a necessidade de doar cada vez mais.
Em cinco cidades eu e o Wanderson, fizemos 220 próteses. O número é grande e nos deixa orgulhosos e felizes, ainda mais quando cada unidade deste número é um "seu João", "seu Raimundo", uma "dona Maria", pessoas, a grande maioria, a mais de 10 anos, sem nenhum dente na boca e sem nunca ter usado uma prótese.
Rogério e Glaucia, outros dois dentistas, atenderam em torno de 200 pessoas entre adultos e crianças, sempre com o auxílio e lideraça do Manolo. Válter, ambientalista, ensinou ao lado de Pedrão, João Victor, Fernando e Erik como montar uma horta comunitária, arborizar, montar viveiros e fazer coleta seletiva, além de reciclar papéis e até água, para várias comunidades. Tudo registrado, com extrema competência, pelo grande cinegrafista-editor Vitor Pinduca.
Bernardo, da Companhia de Inventos, levou a parte da cultura com maestria, ministrando oficinas de teatros de sombra e bonecos para aliar o ensino com a arte, além de uma apresentação de um teatro de marionetes que empolga dos 8 aos 80 anos.
Ana Elisa Salvatore, esteve a frente do do projeto, que terminou com todo sucesso esperado.
Diante de tudo isso, de uma convivência durante duas semanas com uma família que escolhemos para ter ao lado, a volta tem de ser feliz. No reencontro com as pessoas amadas, com a querida família, com a caminha e o travesseiro próprio, a bateria, independente do cansaço, está completamente recarregada.
Como disse, sabiamente, meu grande amigo-irmão Bernardo:
- É muito especial essa turma que podemos fazer parte. No dia a dia temos que carregar esta alegria e vontade de fazermos tudo com o coração aberto e verdadeiro.
Tem como não encarar uma segunda com o sorriso aberto? Eu acho que não.

Obrigado a todos queridos amigos que passaram por aqui nestes dias em que estive tão ausente da blogosfera. Obrigado pelos comentários e desculpem a falta de tempo de visitar cada blog de amigos que tanto prezo. Senti falta.

Enorme abraço a todos!

Wolber Campos

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O que comemos

Olá amigos, estamos, neste momento, na van, voltando para casa. 
A última cidade em que trabalhamos foi Capivari, uma pequena e aconchegante comunidade, onde há apenas uma rua mais larga com  suas lindas humildes casas. 
Na penúltima noite, estávamos jantando na casa de Flanciene e Renato, onde fomos muito bem recebidos e acomodados, uma deliciosa galinha caipira. 
Tenho parentes em Minas Gerais, e desde criança, percebia a grande diferença naquela ave, pega no quintal e levada minutos depois para a mesa e aquela congelada, que pegamos dentro de um saco no supermercado, sabe-se lá a quanto tempo nesta condição. 
Renato fez uma colocação interessante:
- Olha seu moço, eu não entendo esse negócio de criação na cidade. Aqui a gente cria um frango, dando boa comida, tratando bem dos bichinhos, e ele leva meses pra ficar bom. A gente mata ele só depois de uns oito meses. Estes criados em granja, para a cidade grande, em 45 dias, as vezes até antes, já estão prontos pro abate. 
Dura realidade, pois é sabido que, em grandes produções, os frangos ficam desde o nascimento sob luz intensa, o que o faz ficar acordado praticamente o tempo todo, comendo e crescendo. Unido isto à ração com hormônios que comem, há o crescimento exagerado. 
Outro exemplo é nosso famoso chester de natal, um frango "anabolizado". E para a crescente demanda no fim do ano, a produção segue a todo o vapor. Abatem e congelam, assim no natal haverá um grande estoque. 
Pelo menos o interior ainda guarda alguns hábitos saudáveis. 
Pensando nisso, saboreei com mais gosto ainda a deliciosa galinha caipira que estava a minha frente.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Um ligeiro sorriso

Ela entrou na sala tímida, trazida pelas mãos da coordenadora da escola. Olhava para o chão e tivemos dificuldade para que abrisse a boca para que a examinássemos. 
Tem 15 anos, e lhe faltam os dois incisivos superiores (os dentes da frente). Fala muito pouco e raras vezes olha para quem fala olhando nos olhos. Se esboça um ligeiro sorriso, logo a mão cobre sua boca. 
Assim Wanderson, dentista que faz a parte de próteses do nosso trabalho, decidiu que faria uma peça provisória no mesmo dia, para que ela usasse até maio, quando retornaremos com a definitiva. 
No dia seguinte à moldagem ela voltou, tímida como de costume, tão calada que mal podíamos decifrar a ansiedade por trás de sua já enraizada proteção. 
Wanderson, emocionado como sempre num caso como este, colocou a peça. A garota, em um segundo, voltou a ter os dentes da frente. 
- Agora vocês tem que convencê-la a voltar para a escola, faz um ano e meio que ela abandonou os estudos. - disse a coordenadora, olhos cheios de lágrimas. 
- E sabemos porquê ela saiu da escola, não é? - eu disse, em alusão à perda de seus dentes. 
A coordenadora começou a chorar  de emoção e saiu da sala, sem conseguir falar. 
Olhei para a jovem, agora usando sua nova prótese, segurando um espelho. Agora ela abriu um ligeiro sorriso, rápido, quase imperceptível, e voltou à antiga timidez, que só a abandonará com  o tempo, assim como trejeitos de não abrir a boca ou levar a mão à sua frente quando fala. 
Um pequeno sorriso, inversamente proporcional à alegria que dois dentistas ali sentiam. 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A troca

Que recepção! Chegamos na comunidade de Cachoeira do Norte, no município de Chapada do Norte. Descemos dos carros recebidos por uma grande parte dos moradores, cantando musicas locais de recepção a visitantes e batendo palmas. 
Depois dos cumprimentos, nos disseram que veríamos apresentações de um grupo regional de folia de reis. E assim uma banda formada por dois violões, percussão e muitas vozes, com as mulheres cantando nos tons mais altos, típicos das sertanejas do nosso país, começou a interpretar várias cantigas regionais. Estávamos recebendo cultura "na veia". 
O que nos deixava felizes era ver no grupo um bom número de adolescente e até crianças, dançando e curtindo com fervor a folia. Em muitos lugares onde vamos, uma tristeza dos mais velhos é que os jovens não de interessam mais por sua tradição, trazendo o medo de que a cultura se perca. Ali era diferente. 
Uma senhora me chamou a atenção. Estava com um alegre e saltitante pandeiro em sua mão. Com seus 60 anos, Sorria, dançava e tocava seu pandeiro com felicidade singular. Batia o instrumento com a mão e as vezes ate com o cotovelo. Que alegria. 
Dia seguinte, na fila de atendimento ela estava lá, sorridente, como no dia anterior. E assim ela se sentou em minha cadeira, olhou em meus olhos e disse "obrigado". 
Ali, eu teria a oportunidade de retribuir a linda apresentação cultural que ela havia participado. Para nós. Feliz, eu disse:
- Eu que lhe agradeço! 

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Pobres cavalos

Estamos saindo de Diamantina, rumo a nossa primeira cidade do Vale do Jequitinhonha, Chapada do Norte. Pelo que ouvimos, é muito provável que não terá sinal de celular, o que deve restringir a comunicação por estes primeiros dias.
Ontem de noite, a chegada foi uma aventura. A falta de placas na estrada - indicando Diamantina - fez com que passássemos a entrada por 140 km, tendo que voltar a mesma distância até o lugar correto. Em vez de chegar as 23h, chegamos às 3:15h da madrugada. As vezes acontece.
Assim que fizemos o retorno na estrada, a caminhonete se adiantou e a van seguiu uns 800 metros atrás, dirigida por Valter com Fernando ao seu lado. Um carro vinha na direção contrária e, logo após cruzar com a caminhonete, se movimentou bruscamente. Fernando viu algo apagar os faróis e alertou:
- Valter, acho que eles pegaram algo! Diminua.
O carro diminuiu e foi para o acostamento. Passamos ao seu lado e e motorista estava saindo, confuso e nervoso, de um carro muito avariado na frente. Vimos que as pessoas estavam bem e seguimos vagarosamente, atentos a qualquer coisa que pudesse estar sobre a estrada. Algo apareceu estirado sobre a pista, dois montes. No meio dela, um cavalo esta estirado, pegando as duas pistas. Outro caído no acostamento, apenas a traseira entrando no lado esquerdo.
O carro os atropelou, em boa velocidade, tendo a grande sorte de ter acertado cada um deles com uma lanterna, o que arrebentou apenas a frente do seu carro. Pegasse de frente e o animal seria jogado contra seu para-brisa, vindo para dentro do carro. Graças a Deus, o desfecho foi diferente.
Passamos assustados, mas agradecidos por nao ter acontecido nada de grave com o outro carro e por termos chegado tarde, mas termos chegado bem.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Mais uma

Olá amigos! Nada como a tecnologia. Escrevo este texto dentro da van do Instituto Brasil Solidário, enquanto viajamos para mais um trabalho. 
Faremos o projeto "Sorriso Solidário" no Vale do Jequitinhonha - próximo da divisa entre Minas e Bahia -, onde trabalharemos em 5 municípios nas próximas duas semanas. 
Tentarei fazer uma espécie de diário durante esses dias, postando histórias, novidades ou mesmo contando sobre nosso dia. 
Peço desculpas antecipadamente por eventuais erros de digitação ou pressa na hora de escrever. Na verdade, espero até que eu encontre sinal de internet por aquelas bandas. 
Seguimos em dois veículos, puxando duas carretinhas cheias ao máximo de sua capacidade, com todos os equipamentos, incluindo 3 cadeiras de dentista portáteis. Um Deles é uma caminhonete e o outro é uma van, onde vão 8 pessoas, onde escrevo tendo ao meu lado esquerdo o Vítor Pinduca (cinegrafista e editor), dormindo assustadoramente de boca aberta, e ao meu lado direito a Ana Elisa (coordenadora do IBS), arrumando o lay out da minha palestra. 
É sempre uma felicidade retomar para um trabalho. A saudade das pessoas queridas aperta, mas é abrandada pelo bem que o projeto nos faz e pelos grandes amigos de estrada. 
E é desta estrada que me despeço de vocês. Em breve trarei notícias. 
Um grande abraço a todos!

Wolber Campos

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Doutora brasileira: pontos de vista

Eles estavam na lancha, se encaminhando para uma comunidade ribeirinha, localizada no alto do rio Solimões. O céu, como de costume, estava fechado. Na Amazônia, havia dias em que de manhã estava um sol forte e intenso, algumas horas depois se nublava, prestes a uma grande chuva.
O calor, também como o costume, era intenso demais. Com o ar completamente úmido, o macacão da Marinha dava a impressão de cozinhar seu corpo, onde o suor escorria constantemente, mesmo com o forte vento que batia em sua face.
A lancha viajava muito mais rápido que o navio, assim poderiam atender algumas horas até que este os alcançasse, para seguirem viagem.
Chegaram em seu local de trabalho, atracaram a embarcação na terra e subiram o imenso barranco. Era uma época mais seca e o leito do rio ficava muito mais abaixo do que a margem e subir aquelas terras barrentas era uma grande dificuldade.
A comunidade ribeirinha, geralmente, se formava em uma pequena clareira na floresta. Vinte a trinta casas, quando muito, se espalhavam, rentes à "cortina" de gigantes árvores que as envolviam.
- Incrível como a floresta se impõe sobre nós - comentou com uma colega. A sensação era, realmente, como se as enormes árvores sufocassem tudo a sua volta.
As casas de palafita estavam como de costume, com as criações de porcos, bodes e galinhas debaixo de seus assoalhos, o que trazia um cheiro característico e forte a todas elas.
Enquanto se encaminhavam para a escola, onde fariam os atendimentos, muitas crianças correram ao seu redor. Essa cena era comum a cada chegada, mas daquela vez, a empolgação era maior.
- Doutora! Doutora! Vem ver a onça!! Vem cá!! - diziam, a puxando pela mão.
Seguiu atrás delas, pressentindo algo. Quando chegou em uma pequena roda de pessoas, bem próximo à enorme cortina natural da floresta, sentiu um arrepio por todo o seu corpo. Ali, estirada na grama, estava ela: uma linda onça pintada. Enorme, como havia visto apenas pelas fotos dos livros, amarela e rajada de manchas negras. Morta.
As crianças sorriam, os adultos orgulhosos. E a doutora não conseguiu esconder sua cara de espanto e tristeza.
Em sua frente, jazia um maravilhoso animal em extinção. Percebendo a feição de decepção da médica, um homem, de seus 40 anos lhe falou:
- Doutora, isso aqui não é brincadeira não. Já fazia um tempo que a gente estava atrás dessa bicha. Umas semanas atrás, ela matou uma das nossas crianças. E esse bicho é assim, viu que aqui tinha comida pra ela e ia voltar, até pegar outra.
Começou a se dar conta. Tinha aprendido desde os livros de escola, da importância de se preservar aquele lindo animal, em extinção. Mas ali, na floresta, o ser humano era mais um animal, lutando pela sua sobrevivência. Era a onça, ou o filho.
Fácil tomar decisões e ter suas verdades atrás de uma mesa, na capital. Ter seu filho brincando ao lado de uma onça faminta, é outra coisa. É outro ponto de vista.