sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Crônica da "Lei de Gérson"

"Tudo que acontece em nossa vida, Deus coloca para que aconteça uma entre duas coisas: para aprender algo, ou para ensinar", já dizia o velho sábio do sertão, seu Zazu.
Paulo e João aprenderam isso essa semana. Depois de um bom tempo, resolveram tomar aquele bom choppinho que tomavam durante a semana. Uma das coisas boas em São Paulo é a vida noturna. Encontrar um bom chopp é a coisa mais fácil, mesmo durante a semana e, para finalizar a noite, mesmo de madrugada, há sempre uma boa padaria 24 horas, com seus lanches e refeições bem feitos.
Foi numa dessas padarias que entraram e cumprimentaram o segurança. Lancharam e pegaram uma grande fila para ir embora. Depois de um tempo, havia apenas uma pessoa a sua frente, um novo caixa abriu e disse, de forma mal humorada, "próximo". Antes que se dirigissem ao recém aberto caixa, um homem saiu de trás deles e passou na frente, "furando a fila" na "cara dura". Os amigos se olharam, comentaram o absurdo, mas resolveram não comprar briga, se apressando a ir atrás do espertalhão, antes que os outros 3 amigos que estavam com ele também passassem em sua frente.
Porém, a paciência de ambos se esgotou quando os outros passaram as comandas por cima das cabeças dos perplexos amigos e as deram para que o primeiro pagasse também. Era demais.
João comentou com a caixa que disse:
- Eu chamei 'próximo' vocês não vieram... - disse dando de ombros, tomando partido dos "espertos".
João, mais esquentado, jogou a comanda na bancada e foi saindo, "então se vira, volto para pagar quando eu quiser", sendo advertido por gritos da caixa.
- Ei você não pode sair sem pagar, segurança!
Paulo disse sobre a "Lei de Gérson" e que, infelizmente, o Brasil está como está, por atitudes como aquela, incluindo a da caixa, que tomou partido dos espertalhões.
Quando se uniu ao João, o segurança ria simpático: "Por isso temos que estar sempre atento, não tratar ninguém mal. Nunca sabemos quando pode ser um promotor público como o senhor", disse colocando a mão sobre o ombro do amigo.
"O João já se fez de promotor, meu Deus!", pensou Paulo, rindo para si mesmo.
Quando sairam, recebendo o carinho total do segurança, João explicou a situação. Quando estava saindo da padaria, o homem o segurou dizendo "vai sair sem pagar, seu porra?".
- Do que você me chamou? - perguntou João, quase explodindo, o que novamente o homem respondeu "seu porra!!".
Dependendo da situação, a lição tem de ser dada na língua que a pessoa entenda. Não adianta chegar para um pit bull, que tenha mordido alguém, passar a mão na cabeça e dizer "não morda". O que funciona é enrolar um jornal e descer a "lenha" sobre ele. Não é bonito, mas é o que funciona.
João enrolou seu jornal e disparou:
- Você sabe com quem você está falando?
- Eu sou polícia, e você! - disse, ainda agressivo o segurança.
- Eu sou promotor de justiça, e aí? O que você vai fazer? Tentar me prender, enquanto está trabalhando num lugar privado? Ou vai me xingar de novo, para que eu possa acabar com você? - disse ante a um homem, que, automaticamente, mudou seu jeito para um tom amigável.
Quando chegou, Paulo ainda completou para responder a frase que o incomodava.
- E nem é só isso, não tem que tratar agressivamente, não porque pode ser um promotor, mas simplesmente porque é um ser humano e merece respeito, seja pobre seja rico.
Foram embora, entre chateados e aliviados, por saberem estar com a razão e terem tentado ensinar algo. Se os outros não aprendessem nada, pelo menos sua parte, tinham feito.

Instituto Brasil Solidário na TV

No mês passado, trabalhamos no Maranhão, Piauí e Ceará. O pessoal do programa Good News, da Rede TV, nos acompanhou em São Raimundo Nonato-PI, berço da Serra da Capivara (palco de uma futura postagem).
O programa será exibido neste sábado, dia 13/11, às 21:55h. Será bacana para quem quer conhecer um pouco mais do trabalho que realizamos.
Nos vemos lá!

Um grande abraço!

Wolber Campos

domingo, 7 de novembro de 2010

O sanfoneiro

Figura tão típica e transcendental, assim como o vôo da Asa Branca, ou o famoso luar do sertão, é o sanfoneiro. Mas não adianta ser qualquer um. Aulas no instrumento, prática e habilidade para tocar as dezenas de teclas do difícil instrumento, ainda assim não me dariam a aura inerente deste músico. Não, o sanfoneiro, de verdade, tem que ter cheiro de sertão. Não aquele que, temperado com toda a felicidade do mundo, impregna minhas roupas surradas depois de um bom dia de trabalho naquelas terras. É um cheiro nativo, que foi absorvido assim que o primeiro choro do bebê ecoou entre céus e caatingas. É fácil conhecê-lo.
No Ceará, na querida cidade de Crateús, mês passado, pousamos em uma casa emprestada pela comunidade. Ah essa velha e maravilhosa hospitalidade sertaneja. Imagino alguém, vindo a São Paulo de outra região e nós dizendo: “Olá amigos, fiquem aqui na minha casa, aproveitem e descansem bem, vou dormir na casa de uns parentes para deixá-los tranqüilos. A geladeira está ali. Fiquem, todos vocês, à vontade”. Não, nós aqui não fazemos isso, infelizmente. Não temos tanta evolução por essas bandas. Na cidade grande, a evolução é material, lá, é espiritual. Um penhasco de diferença entre as duas.
Havia um bar ao lado da casa e, enquanto me banhava, ouvi o som de um trio, aquecendo um forrozinho que seguiu animado noite adentro.



A banda parou, era hora do violeiro assumir a sina da cantoria. Mesas postas no chão de terra ao ar livre, a lua quase cheia iluminando a noite de forma magnífica e, ao som da viola, ele chegou. Assim como o violeiro, o sanfoneiro toca por amor; não resiste a pessoas que amam uma música tocada com o coração. Chegou humilde e se sentou.



Enquanto todos se ajeitavam, quase era possível ouvir uma música de fundo:
“Não há, ó gente oh não, luar como esse do sertão...”.
A música nunca me fez tanto sentido.
- Tocamos um xotezinho? – pergunta o violeiro, e o novo parceiro responde com um puro sorriso e um aceno de cabeça. A música era um forró universitário, bem paulista. É claro que ele não conhecia, mas o puro sanfoneiro nunca, eu disse nunca, se importa com isso.
“Moreno, me convidou para dançar um xote, pegou no meu cabelo beijou meu cangote, fez meu corpo inteiro se arrepiar...”.
A música, pedida com todo carinho do mundo, começou e na introdução, o violeiro fez, com a boca, o som que a sanfona deveria fazer. Já após o primeiro refrão, Zé, o sanfoneiro, tocava com perfeição o solo outrora balbuciado pelo boquiaberto homem da viola. Mais uma noite perfeita ia chegando ao fim. Mas havia tempo para uma pergunta.
- Zé, qual foi a primeira música que você aprendeu na sanfona?
Uma música linda à luz do luar, amigos verdadeiros do lado e o cheiro de sertão saindo do fole de uma bonita sanfona. Era o encerramento perfeito para uma noite perfeita.


A primeira música: Zé, com sua sanfona, nos brinda na noite do sertão - com uma lanterna iluminando a filmagem - com a primeira música que aprendeu.
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