segunda-feira, 16 de abril de 2018

Sobre o valor e valores

Ela chegou eufórica em casa. Tinha vivido na escola a oportunidade de ajudar ao próximo. Nove anos de idade e a vontade de melhorar o mundo.
- Pai! Pai! Me dá dinheiro para eu levar na escola?! Eles estão arrecadando para ajudar a comprar leite para famílias carentes!
O Pai se felicitava por dentro ao ver que ali se mostrava um coração preocupado com pessoas e com o mundo em que vive. Perguntou quanto ela levaria e se surpreendeu quando a resposta foi "uns 50 reais, tá bom!".
- Filha, acho que 50 reais é muita coisa. Fica pesado pra ajudar. Você não tem que tentar resolver tudo sozinha, o ideal é cada pessoa ajudar com um pouco.
- Mas pai - disse a pequena quase indignada - você não sabe! São pessoas carentes, eles precisam e não tem dinheiro para comprar esses leites que são caros! - era um argumento inapelável, papai não teria como escapar.
Ele pensou; entre a vontade de adentrar o caminho mais fácil, agradando a filha e se orgulhando de sua preocupação social ou ensinar o valor das coisas. Decidiu o que para ele era o certo.
- Tudo bem, acho que é você quem tem realmente que decidir isso já que o valor sairá da sua mesada...
Ambos sabiam que ela tinha em suas economias um pouco mais do que a quantia pedida. Ela pensou, cara de tristeza, mas decidiu.
- Tá bom, pode ser dez reais, então.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Gratidão

Entre normas e regras internas criadas seguimos nossos dias, agindo de forma quase automática. Sobre esmolas havia criado um roteiro que me guiava, admirando quem o fazia mas tentando ajudar de outras formas. Já havia visto adultos explorando crianças e recolhendo o dinheiro que pediam na rua.
Aquela era uma fria noite de junho e com este conceito intrínseco esperava minha vez na fila do mercado. Numa mão uma garrafa de vinho, na outra salgados e na cabeça o pensamento em ajeitar as coisas em casa para receber amigos minutos depois.
- Tio, você pode comprar este pão pra mim? - me perguntou um menino de seus 12 anos.
Seus trajes surrados indicavam que dormia na rua. Usava uma blusa fina de moletom para o frio que fazia e exibia um saco de pães na mão.
- Não tenho, meu amigo. - Respondi de forma maquinal, quase friamente.
O garoto se virou como já acostumado àquela resposta e se dirigiu a um senhor da fila ao lado, recebendo mais uma negativa.
"Espere! - pensei - Ele me pediu para comprar pão, não dinheiro".
Enquanto ele andava meio sem destino após um terceiro não o chamei. "Amigão, deixa que eu passo o pão pra você".
- Obrigado! É oito e quarenta. - disse como que preocupado se não seria muito caro.
Aliviado por ter conseguido "resgata-lo" vi na frente do caixa prateleiras repletas de doces de todas as cores. Perguntei se não queria pegar um. Ao me perguntar qual, respondi o que toda criança sonharia ouvir: "pode escolher".
Viu os valores, pensou e perguntou:
- Em vez do doce, posso pegar um refrigerante?
É claro que podia. Outra pessoa passasse aqueles pãezinhos e talvez minha consciência pesaria de não ter ajudado. Disparou para o corredor de bebidas e voltou feliz com uma coca de 2 litros.
- É seis e cinquenta, pode ser?
Ao passar no caixa retomou:
- O meu é oito e quarenta do pão e seis e cinquenta da coca. E o seu? - disse apontando para a garrafa de vinho.
Disse que não lembrava ao certo. E não lembrava mesmo, mas também estava sem jeito de dizer o valor daquela garrafa que, apesar de não ser um vinho caro, era muito mais do que o lanche que alimentaria algumas pessoas de sua família aquela noite.
- É engraçado, as vezes as pessoas nem sabe quanto custa as coisas... - disse entre divertido e pensativo.
Nos despedimos. Ele seguiu feliz para a rua com seu irmão que o esperava junto ao caixa. Entrei no carro e o conforto do interior, longe do vento frio que fazia lá fora, me envolveu. Saindo do estacionamento vi na calçada os dois irmãos, abrindo o saco de pães com o provável irmão mais velho, que estava sentado envolto em um fino cobertor cinza. A noite seria mais agradável para aqueles três. Assim como também seria a minha, envolto aos amigos.
Ao seguir em diante senti uma gratidão imensa. Não tivesse resgatado a oportunidade naquele supermercado poderia ter visto uma cena diferente naquela calçada.
E poucas vezes um vinho foi tão gostoso quanto o daquela noite.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Olhar de paz

Ele atendia um senhor muito simples, que dizia ser morador de rua.
- Na verdade costumo dormir em albergue, na rua só quando não consigo vaga. 
Pelo sotaque ligeiramente marcado acabou descobrindo que ele havia nascido no Líbano e veio ao Brasil depois da guerra que devastou o país nos anos 80. 
- Doutor, quem vê guerra quer paz. O senhor não imagina o que é ver alguém levando corpos de pessoas no carrinho de mão...
Ele realmente não imaginava. E mesmo tentando sabia que não chegaria perto de entender a avalanche que uma imagem daquela ocasiona no interior de um ser humano.
Lembrou das recentes imagens da guerra que ocorre na Síria, das fotos das crianças machucadas. Automaticamente pensou nas mazelas de seu país, que de tão grande ainda era imensuravelmente menores do que conversava com aquele humilde senhor.
Entendeu o sorriso sereno e limpo de um homem que dizia morar na rua e mesmo assim seu olhar transmitia paz.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Um lugar no tempo e no espaço

Ele estava em um bar, do sertão, ouvindo dois amigos conversando sobre um acidente fatal ocorrido ali vinte anos antes. 
Um homem havia caído de uma cadeira sobre a pecheira que carregava, provocando um imenso corte na perna que sangrou até levá-lo à morte. 
- Mas isso aconteceu por falta de sabedoria! Se alguém soubesse, era só amarrar um pano em volta, bem forte, que poderia até ter arrancado a perna que dava tempo de chegar ao socorro. - disse um deles.
Vinte anos depois dessa conversa, ela surgiu em sua mente, fresca como se tivesse sido ontem e necessária como o remédio que salvaria sua vida. Um descuido enquanto operava uma serra de marcenaria fez com que caísse sobre a mesa e um corte que quase atingiu o osso de seu braço fez com que seu sangue espirrasse ao longe. 
Como se fosse automático, rasgou sua camisa e amarrou a tira fortemente antes do corte, o que estancou a hemorragia. 
Eram três da tarde e após passar em dois hospitais o médico decidiu levá-lo até o Hospital das Clínicas, onde foi operado. 
A cirurgia ocorreu apenas à uma da manhã do dia seguinte e após acordar da anestesia o cirurgião o explicava da dificuldade de reconstrução dos nervos e o religamento dos vasos sanguíneos. 
"O senhor teveve sorte e sabedoria por ter estancado tão bem o sangramento, do contrário não estaria aqui agora", ouviu do médico aquelas palavras que ficariam gravadas em sua memória. 
Assim como aquelas ouvidas vinte anos atrás, de um acontecimento de mais vinte anos antes, em um lugar longe no tempo e no espaço, mas que salvaram sua vida. 

quinta-feira, 10 de março de 2016

Sobre voltar a enxergar

Muitas vezes um médico se encontra frente a uma difícil decisão, aquela não seria diferente. Dona Maria já havia sentido mais de noventa primaveras aquecerem sua pele, porém já fazia vinte delas que não mais enxergava suas cores. A catarata avançada a cegara e ela sentiu naquele profissional sua última esperança de voltar a enxergar em seu fim de vida.
- Doutor, já passei em muitos outros médicos e ninguém quer me operar por eu estar com a idade avançada. Mas eu quero tanto! Sinto que minha hora está chegando, não conheço o rosto de meus bisnetos. Gostaria de rever meus filhos, irmãos...
Entendia perfeitamente seus colegas. Levar uma paciente com mais de 90 anos para a mesa de cirurgia sempre é um risco grande. Um organismo já debilitado pode não resistir à anestesia ou ao stress cirúrgico. Comentou com ela e toda a família sobre todos os riscos possíveis, mas achou justo o desejo sincero de uma senhora em voltar a ver seus entes queridos.
A cirurgia foi um sucesso! Um misto de alegria, por ter devolvido a visão a alguém, com o alívio da paciente ter suportado a intervenção, o envolveu.
No acompanhamento pós-operatório, já no terceiro dia pós cirúrgico, a filha comentava ao lado da senhora a alegria de toda a família, compartilhando a emoção da "bisa" em rever a todos.
- Virou uma peregrinação de parentes em casa! Todo dia tem gente diferente para ela ver. Já tem parente vindo do norte. Fazia tempo que a família não se reunia assim!
E os dias seguintes transcorreram assim. Parentes vieram do sertão para revê-la, e ela, para vê-los. No décimo dia, Maria descansou. Como se esperasse apenas a alegria de poder ver novamente o rosto dos seus para fazer sua passagem, fechou definitivamente seus olhos.
Emocionado, o doutor ouvia o agradecimento sincero da filha e os relatos alegres dos últimos dias.
A família havia dividido a cirurgia em quatro pagamentos.
- Está tudo certo. Não precisam se preocupar com as outras parcelas. - disse segurando a emoção.
Não podia existir maior pagamento do que ter ajudado com sua intervenção àquela simpática senhora a ter seus últimos dias inundados de amor e da visão de sua família.

domingo, 25 de outubro de 2015

O jeitinho

Sábado, 24 de outubro de 2015, ele estava com a esposa na fila de um restaurante que havia aberto perto de sua casa. Pela proximidade da inauguração ainda havia boa concorrência para entrar no local e uma enorme fila se estendia a sua frente, para retirar uma senha e entrar em uma fila de espera.
"Já imaginávamos", pensou resignado, e assim se passaram mais de vinte minutos para dar seu nome à garota que organizava a espera.
Enquanto o último casal a sua frente passava seus dados, observou uma jovem, de não mais que vinte e cinco anos, aproveitando a pequena confusão de pessoas em volta, se juntar ao seu lado. Assim que o casal saiu ela se adiantou perguntou à funcionária:
- A espera está muito longa?
- Em torno de quarenta minutos, gostaria de esperar? - respondeu a hostess, sem imaginar que não se tratava de alguém fora da fila. Quando a moça resolveu deixar seu nome na lista, ele decidiu que, daquela vez, não deixaria passar.
- Tudo bem, mas você não estava na fila, não é?
Olhando assustada e não imaginando que alguém recriminaria seu gesto de ultrapassar a todos que pacientemente esperavam sua vez, gaguejou e disse para a funcionária que a olhava assustada:
- Não, só vim fazer uma pergunta, meu namorado está lá atrás na fila... - disse constrangida, disfarçando o indisfarçável, visto que passava seus dados para a lista de espera.
- Mil desculpas, não havia percebido que ela não estava na fila! - se desculpou a funcionária sinceramente e ele a tranquilizou, não havia o menor problema.
E realmente não haveria. O problema que poderia ocorrer estava envergonhado de sua atitude, ao ponto de não mais ficar na fila.
Enquanto jantava pensou no número de pessoas que recriminam corrupção no governo, em empresas, mas quando encontram uma possibilidade buscam levar vantagem ilegal sobre os outros.
Decidiu não mais pensar sobre aquele ato, ou o jantar não teria o mesmo sabor. Mas tinha a certeza de não mais observar uma corrupção sob seus olhos sem se manifestar.

domingo, 19 de julho de 2015

Filho de Tupãberapa

Não haviam muitas tribos isoladas no país. Na verdade, nos dedos de uma, ou no máximo, duas mãos, ainda descobriríamos um grupo de seres humanos completamente isolados de outros de sua espécie. Porque um brasileiro, hoje, está tão próximo de outro homem, quanto um chinês.
Mas tribos de índios brasileiros que se mantém na mesma etapa evolutiva desde que Cabral pisou nestas terras, há pouquíssimo, em mais de 500 anos.
"Nossa, mas quinhentos anos é muito tempo!", já pensou, lembrando daquela amiga que sempre julgava tudo pelo status quo do pensamento corrente.
- Você tá louca?!! Enquanto esses caras andavam pelados pelas ruas daqui da cidade, outros estavam estudando música clássica na escola no Velho Continente! E sabia que eles ainda andam pelados?!!! - diria tão diretamente quanto um verdugo em frente ao muro de fuzilamento.
Por tudo isso, se sentia um privilegiado em conversar com aquele jovem.
O outro, à sua frente, também se sentia um "escolhido". Por ser o filho mais velho o pajé - algo na atualidade comparável a ser filho do príncipe Charles, da Inglaterra (e aqui, um outro parênteses - pensou -, uma adolescente do interior do sertão do Piauí, conhece os pormenores da vida deste príncipe e de sua família real inglesa...).
Ele não fora "o escolhido". O índio sabia de sua colocação em sua época na terra. Por estar ali, deveria agradecer à luz de Tupãberaba. Por ter nascido naquela tribo, por ser o filho mais velho do soberano dos seus. E sabia também da brutal responsabilidade daquela posição.
Estava ali, naquela reunião de homem-branco, por causa de uma ong que cuidou da saúde de sua tribo e começou um trabalho de parceria por lá.
Pensando em tudo isso, o rapaz da cidade grande, decidiu tentar estabelecer o maior diálogo possível - claro, com a ajuda de um intérprete - com seu "semelhante".
- É um enorme prazer conhece-lo! - disse o outro em um tupi-guarani difícil de assimilar mesmo ao experiente intérprete.
- Meu amigo, você nem imagina quanto estou feliz em estar aqui...
E ali conversaram, sobre tantos assuntos quanto poderia imaginar. Porém, marcou muito quando o jovem riu, quando ouviu sobre o cotidiano de sua gente. Era difícil entender esse negócio de segunda, terça..., enfim!
Só poderia ser coisa de Jurupari, pegar cinco dias sagrados, como parte de sete, os transformando em tristeza, em troca de dois que seriam felizes, assim como os sete deveriam ser.
Se desculpou com o novo conhecido pelo riso que deu. E ele percebeu ainda que o outro também sorria como seus amigos.
Percebeu também, que algo não andava bem com sua sociedade. Não era apenas uma crítica de alguém que sentava num bar e tomava 10 chopps em sua frente, e discorrias sobre possibilidades e correntes humanistas. O rapaz em sua frente vivia sete sexta-feiras por semana, aclamada por dez entre dez amigos seus como o melhor dia de todos!
- Trabalhar é bom, comemorar é bom, Por quê dividir essas coisas? - ele não soube responder.
Não sabia se conseguiria deixar as coisas que aprendeu em sua sociedade, mas tinha certeza que a partir daquele dia, procuraria ser uma coisa simples: apenas um ser humano melhor.
E sua meta dali para frente era apenas ser melhor do que ontem.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Crônicas de um brasileiro nos Estados Unidos - Contrastes


Era a segunda vez que visitava os Estados Unidos. Da primeira, se surpreendeu mesmo antes da aterrisagem. 

Quando decolou à noite de Guarulhos, em São Paulo, como sempre fazia, olhou para as luzes das casas e ruas que iam se distanciando abaixo de si. Curioso notou a disposição desses pontos brilhantes, irregulares, espalhados como se fossem sementes jogadas ao acaso por um lavrador descuidado. 
Ao se aproximar do destino, espantado, fitou as luzes que se aproximavam abaixo. Eram de uma regularidade que não conhecia. Formavam quadrados perfeitos, brilhando em uma ordem exata, denunciando o que deveria ser um crescimento planejado e consciente. 
Achou estranho sentir aquele contraste como um pequeno incômodo surgindo do fundo de seu peito. Ainda sentiria muito essa sensação, e o avião ainda não tinha tocado o solo. 
Desta vez a surpresa não viria tão cedo, mas quase. 
Visitava um amigo que morava em Portland, do outro lado americano, necessitando um segundo vôo no país. 
Diferente do primeiro, este vôo interno era composto praticamente por cidadãos locais e assim em mais 4 horas estava pousando em seu destino. 
Como acontece em qualquer lugar - quando o avião para - pessoas levantaram e pegaram suas malas no bagageiro. Mas o que viu em seguida o deixou espantado. As pessoas da primeira fila saíram, e só então as da segunda se adiantaram. As que estavam na terceira se levantaram em seguida e, pacientemente, pegaram suas malas de mão e seguiram em diante. 
Ele estava na penúltima fila e viu aquele desembarque calmo, orquestrado, de uma educação intrínseca que, mais do que chocava, emocionava. 
Se emocionou porque lembrava do "salve-se quem puder" quando as portas de um avião abriam em seu país. 
Quando chegou sua vez teve vontade de agradecer às pessoas da última fila por esperá-lo sair, mas se segurou. Lembrou que ninguém agradecia a quem esperava, pois aquilo era o certo, e o certo não é um agrado, é uma obrigação. 
A surpresa desta vez não havia ocorrido antes do avião tocar o solo, mas surgiu antes mesmo de que saísse da aeronave. 
E assim ele saiu, pensativo para uma cultura que era mais nova que a sua, mas estava a muitos e muitos anos na frente em questão de cidadania e educação. 

sábado, 21 de março de 2015

Conceitos

Pelos caminhos que vamos traçando fiz amigos verdadeiros em extremos, de uma simplicidade de sala de chão batido de terra ou de um brilho de porcelanato que ofusca a visão. 
Nesse convívio mudei alguns conceitos que ouvi durante a vida. Um deles: "o dinheiro não trás felicidade".
Bobagem. O que trás, ou não, a felicidade é o grau de bondade que há no coração da pessoa e isto está longe de estar ligado à posição social ou a oportunidades. 
E vou mais além: nem está ligado à educação que as pessoas exaltam, que é a escola de qualidade. Já vimos adolescentes ricos, que viajaram o mundo, falavam várias línguas e colocaram fogo em um índio porque pensavam se tratar de um mendingo(!). 
A educação de casa sim, ajuda a moldar um coração bom. 
Tampouco, como outro ditado prega: "o dinheiro deturpa o ser humano". Pessoas boas nascem no mesmo tanto entre ricos e pobres. Aquele corrupto que desviou milhões ou o empresário tirano e desonesto são o espelho exato daquele garoto que nasceu na favela e em vez de procurar um trabalho prefere as facilidades de tráfico. Alguém dúvida que, nascessem em papéis trocados, desempenhariam seus papéis da mesma forma?
Uma pessoa infeliz nunca estará satisfeita com o tanto que tem, sempre colocará a alegria no próximo passo a dar, a cada dia.  
A felicidade escolherá para amiga aquele que viaja para Paris ou aquele que em seu chinelo velho de dedo senta na calçada de terra para conversar com o vizinho e olhar as crianças brincando. 
Para isso, basta ter um bom coração. Simples assim. 

domingo, 8 de março de 2015

Mundo ideal

Fila de supermercado tem suas peculiaridades. Uma delas é a capacidade de se fazer amizades. Poucos minutos são suficientes para assuntos diversos, dos mais frívolos aos mais transcendentais.
João havia adentrado uma conversa daquelas despretensiosas em que se discorre sobre o clima ou como estão caros os produtos. O senhor com quem trocava impressões tinha um papo fácil e interessante. Brincou com sua filha, deram risada juntos, e firmaram a amizade que sabiam ter fim em alguns minutos, numa translúcida honestidade onde ao sair do estabelecimento não trocariam contatos, talvez nunca mais se encontrariam, mas eram gratos um ao outro por simplesmente terem compartilhado aquele instante.
"Um abraço" dito e João seguiu com as compras e sua alegre filha, saltitante da altura de seus quatro anos de idade, em meio às filas de carros que se espremiam pelo estacionamento naquele agitado fim de semana em sua cidade.
Atravessando a última rua do local, um carro virou com certa velocidade, todavia em hábil tempo para que pedestre e motorista se olhassem e se reconhecessem. Poucos minutos atrás, haviam sido amigos. Tempo também para que ambos pudesses escolher, o primeiro recuar um passo, o segundo parar e dar passagem à pequena família.
Neste instante, que pareceu durar o eterno tempo de todas as conjecturas possíveis João refletiu. Fosse um mundo ideal, sua preferência seria incontestável. Porém, sabia há tempos que vivia em um lugar dramaticamente distante deste mundo e jamais arriscaria sua vida - muito menos a de seu maior tesouro! - esperando o bom senso no semelhante, tão escasso pelas ruas como a água nos reservatórios de sua cidade.
Recuou, no mesmo instante em que o adversário acelerou. Se espantou de ser "no mesmo instante", pois o motorista contou que ele não confiaria na bondade alheia e retrocederia. Do contrário...
Do caso contrário João não queria pensar. Apertou a mão de sua pequenina com o mesmo aperto que sentia em seu coração; pelo risco que ela sofreu. Pela tristeza em saber que sua amada filha não vivia em um mundo ideal.

domingo, 1 de março de 2015

A Pedagogia do Horror (parte II): a inadequação dos contos de fadas na Educação Infantil (por Fernando Martins)

No dia 10 de fevereiro de 2015, o Canal Brasil, de TV por assinatura, veiculou o programa “No Divã do Dr. Kurtzman”, em que foi entrevistado o cantor, músico e compositor brasileiro Zeca Baleiro. O músico contou que, quando criança, ouvia histórias do folclore regional em que os ciganos figuravam como sequestradores de crianças. Um dia, foi a uma festa com um amigo que resolveu pregar-lhe uma peça. Combinou com um cigano, que atendia em uma das barracas do evento, que ao passar próximo da barraca apontaria para o cigano e diria ao menino: “O cigano irá te pegar!”. A ignorância ou a crueldade da ação não parou por aqui. O cigano, incorporando o personagem da trama, corre atrás do menino dizendo que iria pegá-lo. Resultado: o menino Zeca Baleiro corre desesperadamente, sem parar, até a sua casa e se refugia debaixo de sua cama. O músico finaliza seu testemunho dizendo que aquele episódio ficou marcado em sua mente como uma espécie de trauma. Certamente poderíamos coletar diversos outros testemunhos semelhantes ao de Zeca Baleiro, em que crianças são vítimas destas histórias. 


 


O importante a ser observado é o fato de que histórias como estas continuam a ser transmitidas não somente na cultura popular, mas nos ambientes formais de Educação Infantil, ou seja, nas escolas públicas e privadas de nosso país. Estas histórias possuem o mesmo eixo central do enredo dos contos de fadas. 


 


Se estas histórias, como os contos de fadas, fossem contadas na Idade Média europeia, não seria muito difícil entender a razão pela qual elas eram contadas às crianças, uma vez que estas narrativas representavam exatamente o mundo tenebroso daquele espaço e tempo histórico, conforme já nos descreveu o historiador Robert Darnton.


 


O mais espantoso é saber que no Brasil do século XXI, estas histórias sejam ministradas como conteúdo de sala de aula para crianças na Educação Infantil. Parece não haver, por parte dos educadores, pesquisadores e dos responsáveis pela elaboração dos documentos regulatórios da política educacional promovida pelo Ministério da Educação, nenhuma discussão séria e aprofundada sobre a adequação ou inadequação destes conteúdos para nossas crianças. Parece que os educadores de um modo geral ficam anestesiados diante destas narrativas e não conseguem perceber o quanto de crueldade, de medo, de terror e de horror estas narrativas podem incutir nas crianças. Ou será que devemos desprezar e desconsiderar os diversos testemunhos existentes de crianças, de pais, de adultos, como o testemunho de Zeca Baleiro, que clamam em alta voz sobre os malefícios destas histórias na psique das crianças? 


 


Se analisarmos os estereótipos dos personagens que são recorrentemente encontrados nos contos de fadas, chegaremos a conclusão de que a bruxa é a personagem mais terrível e mais temível dos contos de fadas. A bruxa frequentemente exerce o papel de sequestradora e devoradora de crianças, assim como os personagens das narrativas sobre os ciganos. A pesquisadora de literatura folclórica da Universidade de Harvard, Maria Tatar, em seu livro “The Hard Facts of the Grimm’s Fairy Tales”, alerta que, para muitos adultos, ler as edições originais dos contos dos irmãos Grimm pode ser uma experiência reveladora diante das descrições de assassinatos, mutilações, canibalismo, infanticídio e incesto que preenchem as páginas destas “bed time stories”. Eu ainda acrescentaria que não somente nas edições originais dos irmãos Grimm encontramos essas terríveis descrições, mas encontramo-las em várias edições utilizadas pelas escolas de educação infantil. 


 


Diante destes fatos, cabem algumas perguntas:


 


Até quando nós (pais, educadores, pedagogos, pesquisadores da área de educação) aceitaremos estas narrativas que amedrontam e apavoram as crianças, como se fossem um conteúdo útil e benéfico? 


 


Até quando nos manteremos anestesiados diante de narrativas que promovem o medo e o terror em pequeninos seres humanos que mal ainda conseguem se alimentar por si próprios? 


 


Até quando nossa incapacidade de reflexão nos manterá como perpetuadores de um discurso obsoleto, anacrônico e totalmente deslocado de nosso tempo e contexto histórico? 


 


Até quando reproduziremos nas salas de aula o ensino dos vícios e do medo, em vez de ensinarmos as virtudes? 


 


É urgente que todos os atores (pais, pedagogos, pesquisadores e educadores em geral) deste importante e nobre processo que se chama Educação Infantil sejam mais ativos e mais participativos. A passividade é a posição mais cômoda, mas ela é incapaz de melhorar o nosso mundo. É urgente que os conteúdos de literatura para crianças sejam revistos e atualizados e que se proponham soluções pedagógicas atuais. Os contos de fadas e narrativas semelhantes não representam estas soluções. O tempo da ministração da literatura é um tempo rico e valioso na Educação Infantil para ser desperdiçado com conteúdos inadequados como são os contos de fadas. Existe uma miríade de novas e boas propostas de literatura infantil. Resta aos educadores o trabalho de selecioná-las com critérios bem definidos e fundamentados, levando em conta que a criança é um ser em desenvolvimento e que necessita de orientação e informação adequadas para se tornar um adulto emocionalmente equilibrado e cognitivamente bem formado. Educar é criar as condições para que este pequeno ser em desenvolvimento se torne um adulto capaz de gerenciar a própria vida e capaz de transformar o nosso mundo em um mundo melhor. Para que logremos êxito nesta nobre missão, precisamos constantemente questionar os discursos vigentes, a fim de identificarmos suas inadequações e propormos sua superação.



* O autor é bacharel em Letras pelo Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (USP) e mestre pelo programa de Filologia e Língua Portuguesa da USP.


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Tudo pelo social

Temos um país nas mãos com toda a capacidade para se tornar uma potência - e reverter isso para a melhora real de seu povo - porém desperdiçamos a cada dia essa possibilidade.
Sem dúvida, numa grande nação o social é o mais importante. O bem estar do fator humano deve estar à frente de outros interesses, mas o populismo e atitudes simplistas fazem parecer que o melhor meio de melhorar o social é apenas o atingindo diretamente, fechando os olhos para tudo o que há em volta.
Focar a melhora de uma nação meramente olhando somente para esta área funciona como estar em um carro na direção de um abismo, onde o objetivo é alcançar o outro lado, simplesmente acelerando o veículo e não pensando em construir uma ponte.
E aqui falo o que pode soar um paradoxo para 51% de nosso país: melhorar o social é melhorar a economia e incentivar empreendedores que gerarão empregos.
É sabido: muito melhor para um brasileiro ganhar 700 reais por mês, se sentindo útil trabalhando, do que ganhar 350 de uma bolsa sem nada produzir. Isto é claro como água e qualquer cidadão de bem concorda. Agora, pensar que aumentar o número de beneficiários não é uma roleta russa é devaneio.
A economia indo mal, mais desemprego, mais Bolsa Família. E dois e dois não são quatro? A conta não fechará, pois menos produzirão para mais receber.
Não precisamos inventar a roda a cada geração, cresçamos com os exemplos e aprendizados. A Venezuela focou em atitudes extremamente populistas, xingou os Estados Unidos publicamente, esqueceu o termo "economia global", se fechou e criou bolsas de todos os tipos. As empresas fecharam e o número de beneficiários para as bolsas aumentou drasticamente. Hoje, num ambiente em que o petróleo (sua principal fonte de renda) se desvalorizou está vivendo uma crise interna terrível. Não há produtos básicos e o cidadão que quer comprar um papel higiênico, por exemplo, tem que registrar seu CPF para não comprar mais que um produto e deixar o outro sem. Há alguma dúvida de que estão à beira de um caos social?
Espero de todo o coração que possamos alterar nosso caminho, pois o carro está cada vez mais acelerado. E não estamos vendo nenhum material para construir ponte alguma perto do buraco.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Roberto Carlos e suas emoções...

Achava engraçado estar ali. Era um eclético musical, gostava de boa música, mas sua preferência era o rock and roll, e pesado. Porém, isso não o fazia desprezar o rei brasileiro.
Ganhou o ingresso e com prazer se dirigiu ao show com sua esposa. Para a grata surpresa dos dois, seu amigo havia lhe dado o melhor lugar: a primeira mesa da primeira fila!
- Amor, meu joelho está encostando no palco onde o Roberto irá cantar! - ela brincou eufórica.
O espetáculo passou rápido. Mesmo para quem não é fã do grande Roberto Carlos não há como negar o poder e carisma que aquele homem tem. Inebriado naquele clima já se imaginava agarrando uma das rosas que, conhecidamente, o rei lançava aos fãs no fim de cada apresentação. "Será meu troféu!", pensou.
Chegou a hora. Começou a música "Jesus Cristo", sempre a saideira. Algo estranho começou a acontecer. Sentiu como se o chão se movesse. Eram senhoras que se arrastavam entre as mesas, vindo das profundezas da plateia e se esgueiravam entre as primeiras filas, como veteranas de guerra que rememoravam os antigos embates nas trincheiras.
Sua mesa começou a se mover. Se preocupou, nem tanto pela sua saúde, mas pelos planos de pegar uma rosa do Roberto.
"Jeeeeeesus Cristo eu estou aqui!" cantava o rei, indicando o fim do show e "Bum!" as senhorinhas se levantaram como que combinadas, quase virando as mesas em frente ao palco, transformando ali como uma pista dos shows de rock que já tinha cansado de ir.
Obrigado a se levantar começou a sentir encontrões de senhoras troncudas que se acotovelavam em busca do melhor lugar para avançar sobre as esperadas rosas que seriam lançadas. Conseguir uma das flores virou questão de honra!
Pensou em dar o troco na mesma moeda, mas mal podia acertar aquele exército de tiazinhas que mais pareciam uma tropa de butijõezinhos lhe atacando. Teria gargalhado com a situação, mas tinha que manter o foco e cuidar de sua vida ao mesmo tempo.
Um rodie se aproximou de Roberto Carlos com um buquê enorme e deu uma a ele. As senhorinhas foram ao delírio. Ele aproximou-a de seus lábios, sem a beijar e a lançou. Se sentiu dentro da carga de um caminhão da Liquigaz passando pelas ruas de Carapicuíba.
Em segundos Roberto ia pegando uma rosa atrás da outra, fazendo um movimento como se beijasse, mais para uma benzida, e a atirando para suas fãs ensandecidas. Tentou, tentou, tentou... Não conseguiu agarrar nenhuma.
Na saída comentou com sua esposa:
- Inacreditável! Já peguei palheta no show do Metállica e do Pantera. Mas uma rosa no do Robertão é tarefa impossível!
Olhou para o lado, havia uma banca com "rosas do Roberto Carlos". Em sua frustração pensou em comprar uma. Mas a semelhança a uma peixaria ao lado de um rio no Pantanal o fez mudar de ideia. Além do mais, dez reais por uma rosa, que nem vinha direto das mãos do rei...
Deu a partida no carro, apesar de tudo feliz, pensado: "se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi...".

sábado, 11 de outubro de 2014

Gentileza gera gentileza

Fazia tempo que não pegava trânsito. Morando em São Paulo isso é bem raro. 
Num lugar caótico os carros disputavam nariz a nariz seu espaço. Na faixa do lado vi uma seta desejando entrar em minha frente. 
Naquele ligeiro momento em que nossa alma consegue gritar por trás da mordaça da vida real (real?), resolvi deixar espaço para que ele entrasse. 
Ainda pensei: "deve ter achado que eu me distraí no celular...".
Após virar a esquina, em frente ao mar de carros que se apinhavam ante a um farol, vi que tinha que estar à esquerda e que minha faixa era liberada para a direita.
Após o leve palavrão que mentalizamos numa situação como essa, liguei a seta para esquerda e vi que, milagrosamente, um espaço se abriu para que eu entrasse. Era o mesmo carro que eu havia ajudado cem metros atrás.
Tive a impressão que o carro dele sorria quando entrei.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Médicos

Já fazia mais de dois anos que suportava os mesmos problemas. Sabia bem o que era sentir o peso do mundo nas costas. Mesmo que não fosse sobre as suas, essa dor era transferida automaticamente, indo parar bem fundo em seu peito.
Ver uma pessoa, jovem, se tornando cega e se aposentando por invalidez na sua frente, quando diagnosticou a doença lá atrás e era possível se curar com um simples tratamento, gera uma revolta, sensação de impotência, tristeza.
Se tornará em três semanas mais uma médica que abandona o SUS. Não é uma "patricinha" como muitos querem acreditar, nunca teve medo de "meter a cara" nas periferias como políticos dizem, e justamente por não ter um coração de pedra - como muitos também disseram de sua classe - teve que pedir o aviso prévio.
O paciente em questão não era o primeiro, e percebeu há tempos que não seria o último. Em sua cabeça não entendia porque o sistema público de saúde agia assim. Uma pessoa de 38 anos, com diabetes gerando um problema em seus olhos, necessitava de um simples tratamento com laser para estabilizar e preservar sua visão. Nos meses em que aguardava atenderem o pedido do tratamento observava a visão ir diminuindo, diminuindo, diminuindo, até desaparecer definitivamente.
"Mesmo que não quisessem olhar pelo lado humano, você deixar um homem novo, que trabalha e gera impostos para o país, se aposentar cedo e viver do imposto dos outros, já seria motivo!", concluiu.
Mas era o lado humano que gritava ainda mais alto, e esse caso foi um. Quantos pacientes com glaucoma e tantas outras doenças passíveis de tratamento ou cirurgia ficavam presos em meio às engrenagens de um sistema falido, que mutila, invalida e mata tantos brasileiros.
Ainda possui três semanas pela frente. Sai com a tristeza de não ter conseguido vencer esse desafio e com a eterna angústia de saber que embora não receba diretamente sobre seus ombros, esse peso insuportável continuará sufocando a maioria de nossa população. E em saber isso seus ombros ainda doem. Até quando?