quarta-feira, 20 de abril de 2016

Um lugar no tempo e no espaço

Ele estava em um bar, do sertão, ouvindo dois amigos conversando sobre um acidente fatal ocorrido ali vinte anos antes. 
Um homem havia caído de uma cadeira sobre a pecheira que carregava, provocando um imenso corte na perna que sangrou até levá-lo à morte. 
- Mas isso aconteceu por falta de sabedoria! Se alguém soubesse, era só amarrar um pano em volta, bem forte, que poderia até ter arrancado a perna que dava tempo de chegar ao socorro. - disse um deles.
Vinte anos depois dessa conversa, ela surgiu em sua mente, fresca como se tivesse sido ontem e necessária como o remédio que salvaria sua vida. Um descuido enquanto operava uma serra de marcenaria fez com que caísse sobre a mesa e um corte que quase atingiu o osso de seu braço fez com que seu sangue espirrasse ao longe. 
Como se fosse automático, rasgou sua camisa e amarrou a tira fortemente antes do corte, o que estancou a hemorragia. 
Eram três da tarde e após passar em dois hospitais o médico decidiu levá-lo até o Hospital das Clínicas, onde foi operado. 
A cirurgia ocorreu apenas à uma da manhã do dia seguinte e após acordar da anestesia o cirurgião o explicava da dificuldade de reconstrução dos nervos e o religamento dos vasos sanguíneos. 
"O senhor teveve sorte e sabedoria por ter estancado tão bem o sangramento, do contrário não estaria aqui agora", ouviu do médico aquelas palavras que ficariam gravadas em sua memória. 
Assim como aquelas ouvidas vinte anos atrás, de um acontecimento de mais vinte anos antes, em um lugar longe no tempo e no espaço, mas que salvaram sua vida. 

quinta-feira, 10 de março de 2016

Sobre voltar a enxergar

Muitas vezes um médico se encontra frente a uma difícil decisão, aquela não seria diferente. Dona Maria já havia sentido mais de noventa primaveras aquecerem sua pele, porém já fazia vinte delas que não mais enxergava suas cores. A catarata avançada a cegara e ela sentiu naquele profissional sua última esperança de voltar a enxergar em seu fim de vida.
- Doutor, já passei em muitos outros médicos e ninguém quer me operar por eu estar com a idade avançada. Mas eu quero tanto! Sinto que minha hora está chegando, não conheço o rosto de meus bisnetos. Gostaria de rever meus filhos, irmãos...
Entendia perfeitamente seus colegas. Levar uma paciente com mais de 90 anos para a mesa de cirurgia sempre é um risco grande. Um organismo já debilitado pode não resistir à anestesia ou ao stress cirúrgico. Comentou com ela e toda a família sobre todos os riscos possíveis, mas achou justo o desejo sincero de uma senhora em voltar a ver seus entes queridos.
A cirurgia foi um sucesso! Um misto de alegria, por ter devolvido a visão a alguém, com o alívio da paciente ter suportado a intervenção, o envolveu.
No acompanhamento pós-operatório, já no terceiro dia pós cirúrgico, a filha comentava ao lado da senhora a alegria de toda a família, compartilhando a emoção da "bisa" em rever a todos.
- Virou uma peregrinação de parentes em casa! Todo dia tem gente diferente para ela ver. Já tem parente vindo do norte. Fazia tempo que a família não se reunia assim!
E os dias seguintes transcorreram assim. Parentes vieram do sertão para revê-la, e ela, para vê-los. No décimo dia, Maria descansou. Como se esperasse apenas a alegria de poder ver novamente o rosto dos seus para fazer sua passagem, fechou definitivamente seus olhos.
Emocionado, o doutor ouvia o agradecimento sincero da filha e os relatos alegres dos últimos dias.
A família havia dividido a cirurgia em quatro pagamentos.
- Está tudo certo. Não precisam se preocupar com as outras parcelas. - disse segurando a emoção.
Não podia existir maior pagamento do que ter ajudado com sua intervenção àquela simpática senhora a ter seus últimos dias inundados de amor e da visão de sua família.

domingo, 25 de outubro de 2015

O jeitinho

Sábado, 24 de outubro de 2015, ele estava com a esposa na fila de um restaurante que havia aberto perto de sua casa. Pela proximidade da inauguração ainda havia boa concorrência para entrar no local e uma enorme fila se estendia a sua frente, para retirar uma senha e entrar em uma fila de espera.
"Já imaginávamos", pensou resignado, e assim se passaram mais de vinte minutos para dar seu nome à garota que organizava a espera.
Enquanto o último casal a sua frente passava seus dados, observou uma jovem, de não mais que vinte e cinco anos, aproveitando a pequena confusão de pessoas em volta, se juntar ao seu lado. Assim que o casal saiu ela se adiantou perguntou à funcionária:
- A espera está muito longa?
- Em torno de quarenta minutos, gostaria de esperar? - respondeu a hostess, sem imaginar que não se tratava de alguém fora da fila. Quando a moça resolveu deixar seu nome na lista, ele decidiu que, daquela vez, não deixaria passar.
- Tudo bem, mas você não estava na fila, não é?
Olhando assustada e não imaginando que alguém recriminaria seu gesto de ultrapassar a todos que pacientemente esperavam sua vez, gaguejou e disse para a funcionária que a olhava assustada:
- Não, só vim fazer uma pergunta, meu namorado está lá atrás na fila... - disse constrangida, disfarçando o indisfarçável, visto que passava seus dados para a lista de espera.
- Mil desculpas, não havia percebido que ela não estava na fila! - se desculpou a funcionária sinceramente e ele a tranquilizou, não havia o menor problema.
E realmente não haveria. O problema que poderia ocorrer estava envergonhado de sua atitude, ao ponto de não mais ficar na fila.
Enquanto jantava pensou no número de pessoas que recriminam corrupção no governo, em empresas, mas quando encontram uma possibilidade buscam levar vantagem ilegal sobre os outros.
Decidiu não mais pensar sobre aquele ato, ou o jantar não teria o mesmo sabor. Mas tinha a certeza de não mais observar uma corrupção sob seus olhos sem se manifestar.

domingo, 19 de julho de 2015

Filho de Tupãberapa

Não haviam muitas tribos isoladas no país. Na verdade, nos dedos de uma, ou no máximo, duas mãos, ainda descobriríamos um grupo de seres humanos completamente isolados de outros de sua espécie. Porque um brasileiro, hoje, está tão próximo de outro homem, quanto um chinês.
Mas tribos de índios brasileiros que se mantém na mesma etapa evolutiva desde que Cabral pisou nestas terras, há pouquíssimo, em mais de 500 anos.
"Nossa, mas quinhentos anos é muito tempo!", já pensou, lembrando daquela amiga que sempre julgava tudo pelo status quo do pensamento corrente.
- Você tá louca?!! Enquanto esses caras andavam pelados pelas ruas daqui da cidade, outros estavam estudando música clássica na escola no Velho Continente! E sabia que eles ainda andam pelados?!!! - diria tão diretamente quanto um verdugo em frente ao muro de fuzilamento.
Por tudo isso, se sentia um privilegiado em conversar com aquele jovem.
O outro, à sua frente, também se sentia um "escolhido". Por ser o filho mais velho o pajé - algo na atualidade comparável a ser filho do príncipe Charles, da Inglaterra (e aqui, um outro parênteses - pensou -, uma adolescente do interior do sertão do Piauí, conhece os pormenores da vida deste príncipe e de sua família real inglesa...).
Ele não fora "o escolhido". O índio sabia de sua colocação em sua época na terra. Por estar ali, deveria agradecer à luz de Tupãberaba. Por ter nascido naquela tribo, por ser o filho mais velho do soberano dos seus. E sabia também da brutal responsabilidade daquela posição.
Estava ali, naquela reunião de homem-branco, por causa de uma ong que cuidou da saúde de sua tribo e começou um trabalho de parceria por lá.
Pensando em tudo isso, o rapaz da cidade grande, decidiu tentar estabelecer o maior diálogo possível - claro, com a ajuda de um intérprete - com seu "semelhante".
- É um enorme prazer conhece-lo! - disse o outro em um tupi-guarani difícil de assimilar mesmo ao experiente intérprete.
- Meu amigo, você nem imagina quanto estou feliz em estar aqui...
E ali conversaram, sobre tantos assuntos quanto poderia imaginar. Porém, marcou muito quando o jovem riu, quando ouviu sobre o cotidiano de sua gente. Era difícil entender esse negócio de segunda, terça..., enfim!
Só poderia ser coisa de Jurupari, pegar cinco dias sagrados, como parte de sete, os transformando em tristeza, em troca de dois que seriam felizes, assim como os sete deveriam ser.
Se desculpou com o novo conhecido pelo riso que deu. E ele percebeu ainda que o outro também sorria como seus amigos.
Percebeu também, que algo não andava bem com sua sociedade. Não era apenas uma crítica de alguém que sentava num bar e tomava 10 chopps em sua frente, e discorrias sobre possibilidades e correntes humanistas. O rapaz em sua frente vivia sete sexta-feiras por semana, aclamada por dez entre dez amigos seus como o melhor dia de todos!
- Trabalhar é bom, comemorar é bom, Por quê dividir essas coisas? - ele não soube responder.
Não sabia se conseguiria deixar as coisas que aprendeu em sua sociedade, mas tinha certeza que a partir daquele dia, procuraria ser uma coisa simples: apenas um ser humano melhor.
E sua meta dali para frente era apenas ser melhor do que ontem.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Crônicas de um brasileiro nos Estados Unidos - Contrastes


Era a segunda vez que visitava os Estados Unidos. Da primeira, se surpreendeu mesmo antes da aterrisagem. 

Quando decolou à noite de Guarulhos, em São Paulo, como sempre fazia, olhou para as luzes das casas e ruas que iam se distanciando abaixo de si. Curioso notou a disposição desses pontos brilhantes, irregulares, espalhados como se fossem sementes jogadas ao acaso por um lavrador descuidado. 
Ao se aproximar do destino, espantado, fitou as luzes que se aproximavam abaixo. Eram de uma regularidade que não conhecia. Formavam quadrados perfeitos, brilhando em uma ordem exata, denunciando o que deveria ser um crescimento planejado e consciente. 
Achou estranho sentir aquele contraste como um pequeno incômodo surgindo do fundo de seu peito. Ainda sentiria muito essa sensação, e o avião ainda não tinha tocado o solo. 
Desta vez a surpresa não viria tão cedo, mas quase. 
Visitava um amigo que morava em Portland, do outro lado americano, necessitando um segundo vôo no país. 
Diferente do primeiro, este vôo interno era composto praticamente por cidadãos locais e assim em mais 4 horas estava pousando em seu destino. 
Como acontece em qualquer lugar - quando o avião para - pessoas levantaram e pegaram suas malas no bagageiro. Mas o que viu em seguida o deixou espantado. As pessoas da primeira fila saíram, e só então as da segunda se adiantaram. As que estavam na terceira se levantaram em seguida e, pacientemente, pegaram suas malas de mão e seguiram em diante. 
Ele estava na penúltima fila e viu aquele desembarque calmo, orquestrado, de uma educação intrínseca que, mais do que chocava, emocionava. 
Se emocionou porque lembrava do "salve-se quem puder" quando as portas de um avião abriam em seu país. 
Quando chegou sua vez teve vontade de agradecer às pessoas da última fila por esperá-lo sair, mas se segurou. Lembrou que ninguém agradecia a quem esperava, pois aquilo era o certo, e o certo não é um agrado, é uma obrigação. 
A surpresa desta vez não havia ocorrido antes do avião tocar o solo, mas surgiu antes mesmo de que saísse da aeronave. 
E assim ele saiu, pensativo para uma cultura que era mais nova que a sua, mas estava a muitos e muitos anos na frente em questão de cidadania e educação. 

sábado, 21 de março de 2015

Conceitos

Pelos caminhos que vamos traçando fiz amigos verdadeiros em extremos, de uma simplicidade de sala de chão batido de terra ou de um brilho de porcelanato que ofusca a visão. 
Nesse convívio mudei alguns conceitos que ouvi durante a vida. Um deles: "o dinheiro não trás felicidade".
Bobagem. O que trás, ou não, a felicidade é o grau de bondade que há no coração da pessoa e isto está longe de estar ligado à posição social ou a oportunidades. 
E vou mais além: nem está ligado à educação que as pessoas exaltam, que é a escola de qualidade. Já vimos adolescentes ricos, que viajaram o mundo, falavam várias línguas e colocaram fogo em um índio porque pensavam se tratar de um mendingo(!). 
A educação de casa sim, ajuda a moldar um coração bom. 
Tampouco, como outro ditado prega: "o dinheiro deturpa o ser humano". Pessoas boas nascem no mesmo tanto entre ricos e pobres. Aquele corrupto que desviou milhões ou o empresário tirano e desonesto são o espelho exato daquele garoto que nasceu na favela e em vez de procurar um trabalho prefere as facilidades de tráfico. Alguém dúvida que, nascessem em papéis trocados, desempenhariam seus papéis da mesma forma?
Uma pessoa infeliz nunca estará satisfeita com o tanto que tem, sempre colocará a alegria no próximo passo a dar, a cada dia.  
A felicidade escolherá para amiga aquele que viaja para Paris ou aquele que em seu chinelo velho de dedo senta na calçada de terra para conversar com o vizinho e olhar as crianças brincando. 
Para isso, basta ter um bom coração. Simples assim. 

domingo, 8 de março de 2015

Mundo ideal

Fila de supermercado tem suas peculiaridades. Uma delas é a capacidade de se fazer amizades. Poucos minutos são suficientes para assuntos diversos, dos mais frívolos aos mais transcendentais.
João havia adentrado uma conversa daquelas despretensiosas em que se discorre sobre o clima ou como estão caros os produtos. O senhor com quem trocava impressões tinha um papo fácil e interessante. Brincou com sua filha, deram risada juntos, e firmaram a amizade que sabiam ter fim em alguns minutos, numa translúcida honestidade onde ao sair do estabelecimento não trocariam contatos, talvez nunca mais se encontrariam, mas eram gratos um ao outro por simplesmente terem compartilhado aquele instante.
"Um abraço" dito e João seguiu com as compras e sua alegre filha, saltitante da altura de seus quatro anos de idade, em meio às filas de carros que se espremiam pelo estacionamento naquele agitado fim de semana em sua cidade.
Atravessando a última rua do local, um carro virou com certa velocidade, todavia em hábil tempo para que pedestre e motorista se olhassem e se reconhecessem. Poucos minutos atrás, haviam sido amigos. Tempo também para que ambos pudesses escolher, o primeiro recuar um passo, o segundo parar e dar passagem à pequena família.
Neste instante, que pareceu durar o eterno tempo de todas as conjecturas possíveis João refletiu. Fosse um mundo ideal, sua preferência seria incontestável. Porém, sabia há tempos que vivia em um lugar dramaticamente distante deste mundo e jamais arriscaria sua vida - muito menos a de seu maior tesouro! - esperando o bom senso no semelhante, tão escasso pelas ruas como a água nos reservatórios de sua cidade.
Recuou, no mesmo instante em que o adversário acelerou. Se espantou de ser "no mesmo instante", pois o motorista contou que ele não confiaria na bondade alheia e retrocederia. Do contrário...
Do caso contrário João não queria pensar. Apertou a mão de sua pequenina com o mesmo aperto que sentia em seu coração; pelo risco que ela sofreu. Pela tristeza em saber que sua amada filha não vivia em um mundo ideal.

domingo, 1 de março de 2015

A Pedagogia do Horror (parte II): a inadequação dos contos de fadas na Educação Infantil (por Fernando Martins)

No dia 10 de fevereiro de 2015, o Canal Brasil, de TV por assinatura, veiculou o programa “No Divã do Dr. Kurtzman”, em que foi entrevistado o cantor, músico e compositor brasileiro Zeca Baleiro. O músico contou que, quando criança, ouvia histórias do folclore regional em que os ciganos figuravam como sequestradores de crianças. Um dia, foi a uma festa com um amigo que resolveu pregar-lhe uma peça. Combinou com um cigano, que atendia em uma das barracas do evento, que ao passar próximo da barraca apontaria para o cigano e diria ao menino: “O cigano irá te pegar!”. A ignorância ou a crueldade da ação não parou por aqui. O cigano, incorporando o personagem da trama, corre atrás do menino dizendo que iria pegá-lo. Resultado: o menino Zeca Baleiro corre desesperadamente, sem parar, até a sua casa e se refugia debaixo de sua cama. O músico finaliza seu testemunho dizendo que aquele episódio ficou marcado em sua mente como uma espécie de trauma. Certamente poderíamos coletar diversos outros testemunhos semelhantes ao de Zeca Baleiro, em que crianças são vítimas destas histórias. 


 


O importante a ser observado é o fato de que histórias como estas continuam a ser transmitidas não somente na cultura popular, mas nos ambientes formais de Educação Infantil, ou seja, nas escolas públicas e privadas de nosso país. Estas histórias possuem o mesmo eixo central do enredo dos contos de fadas. 


 


Se estas histórias, como os contos de fadas, fossem contadas na Idade Média europeia, não seria muito difícil entender a razão pela qual elas eram contadas às crianças, uma vez que estas narrativas representavam exatamente o mundo tenebroso daquele espaço e tempo histórico, conforme já nos descreveu o historiador Robert Darnton.


 


O mais espantoso é saber que no Brasil do século XXI, estas histórias sejam ministradas como conteúdo de sala de aula para crianças na Educação Infantil. Parece não haver, por parte dos educadores, pesquisadores e dos responsáveis pela elaboração dos documentos regulatórios da política educacional promovida pelo Ministério da Educação, nenhuma discussão séria e aprofundada sobre a adequação ou inadequação destes conteúdos para nossas crianças. Parece que os educadores de um modo geral ficam anestesiados diante destas narrativas e não conseguem perceber o quanto de crueldade, de medo, de terror e de horror estas narrativas podem incutir nas crianças. Ou será que devemos desprezar e desconsiderar os diversos testemunhos existentes de crianças, de pais, de adultos, como o testemunho de Zeca Baleiro, que clamam em alta voz sobre os malefícios destas histórias na psique das crianças? 


 


Se analisarmos os estereótipos dos personagens que são recorrentemente encontrados nos contos de fadas, chegaremos a conclusão de que a bruxa é a personagem mais terrível e mais temível dos contos de fadas. A bruxa frequentemente exerce o papel de sequestradora e devoradora de crianças, assim como os personagens das narrativas sobre os ciganos. A pesquisadora de literatura folclórica da Universidade de Harvard, Maria Tatar, em seu livro “The Hard Facts of the Grimm’s Fairy Tales”, alerta que, para muitos adultos, ler as edições originais dos contos dos irmãos Grimm pode ser uma experiência reveladora diante das descrições de assassinatos, mutilações, canibalismo, infanticídio e incesto que preenchem as páginas destas “bed time stories”. Eu ainda acrescentaria que não somente nas edições originais dos irmãos Grimm encontramos essas terríveis descrições, mas encontramo-las em várias edições utilizadas pelas escolas de educação infantil. 


 


Diante destes fatos, cabem algumas perguntas:


 


Até quando nós (pais, educadores, pedagogos, pesquisadores da área de educação) aceitaremos estas narrativas que amedrontam e apavoram as crianças, como se fossem um conteúdo útil e benéfico? 


 


Até quando nos manteremos anestesiados diante de narrativas que promovem o medo e o terror em pequeninos seres humanos que mal ainda conseguem se alimentar por si próprios? 


 


Até quando nossa incapacidade de reflexão nos manterá como perpetuadores de um discurso obsoleto, anacrônico e totalmente deslocado de nosso tempo e contexto histórico? 


 


Até quando reproduziremos nas salas de aula o ensino dos vícios e do medo, em vez de ensinarmos as virtudes? 


 


É urgente que todos os atores (pais, pedagogos, pesquisadores e educadores em geral) deste importante e nobre processo que se chama Educação Infantil sejam mais ativos e mais participativos. A passividade é a posição mais cômoda, mas ela é incapaz de melhorar o nosso mundo. É urgente que os conteúdos de literatura para crianças sejam revistos e atualizados e que se proponham soluções pedagógicas atuais. Os contos de fadas e narrativas semelhantes não representam estas soluções. O tempo da ministração da literatura é um tempo rico e valioso na Educação Infantil para ser desperdiçado com conteúdos inadequados como são os contos de fadas. Existe uma miríade de novas e boas propostas de literatura infantil. Resta aos educadores o trabalho de selecioná-las com critérios bem definidos e fundamentados, levando em conta que a criança é um ser em desenvolvimento e que necessita de orientação e informação adequadas para se tornar um adulto emocionalmente equilibrado e cognitivamente bem formado. Educar é criar as condições para que este pequeno ser em desenvolvimento se torne um adulto capaz de gerenciar a própria vida e capaz de transformar o nosso mundo em um mundo melhor. Para que logremos êxito nesta nobre missão, precisamos constantemente questionar os discursos vigentes, a fim de identificarmos suas inadequações e propormos sua superação.



* O autor é bacharel em Letras pelo Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (USP) e mestre pelo programa de Filologia e Língua Portuguesa da USP.


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Tudo pelo social

Temos um país nas mãos com toda a capacidade para se tornar uma potência - e reverter isso para a melhora real de seu povo - porém desperdiçamos a cada dia essa possibilidade.
Sem dúvida, numa grande nação o social é o mais importante. O bem estar do fator humano deve estar à frente de outros interesses, mas o populismo e atitudes simplistas fazem parecer que o melhor meio de melhorar o social é apenas o atingindo diretamente, fechando os olhos para tudo o que há em volta.
Focar a melhora de uma nação meramente olhando somente para esta área funciona como estar em um carro na direção de um abismo, onde o objetivo é alcançar o outro lado, simplesmente acelerando o veículo e não pensando em construir uma ponte.
E aqui falo o que pode soar um paradoxo para 51% de nosso país: melhorar o social é melhorar a economia e incentivar empreendedores que gerarão empregos.
É sabido: muito melhor para um brasileiro ganhar 700 reais por mês, se sentindo útil trabalhando, do que ganhar 350 de uma bolsa sem nada produzir. Isto é claro como água e qualquer cidadão de bem concorda. Agora, pensar que aumentar o número de beneficiários não é uma roleta russa é devaneio.
A economia indo mal, mais desemprego, mais Bolsa Família. E dois e dois não são quatro? A conta não fechará, pois menos produzirão para mais receber.
Não precisamos inventar a roda a cada geração, cresçamos com os exemplos e aprendizados. A Venezuela focou em atitudes extremamente populistas, xingou os Estados Unidos publicamente, esqueceu o termo "economia global", se fechou e criou bolsas de todos os tipos. As empresas fecharam e o número de beneficiários para as bolsas aumentou drasticamente. Hoje, num ambiente em que o petróleo (sua principal fonte de renda) se desvalorizou está vivendo uma crise interna terrível. Não há produtos básicos e o cidadão que quer comprar um papel higiênico, por exemplo, tem que registrar seu CPF para não comprar mais que um produto e deixar o outro sem. Há alguma dúvida de que estão à beira de um caos social?
Espero de todo o coração que possamos alterar nosso caminho, pois o carro está cada vez mais acelerado. E não estamos vendo nenhum material para construir ponte alguma perto do buraco.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Roberto Carlos e suas emoções...

Achava engraçado estar ali. Era um eclético musical, gostava de boa música, mas sua preferência era o rock and roll, e pesado. Porém, isso não o fazia desprezar o rei brasileiro.
Ganhou o ingresso e com prazer se dirigiu ao show com sua esposa. Para a grata surpresa dos dois, seu amigo havia lhe dado o melhor lugar: a primeira mesa da primeira fila!
- Amor, meu joelho está encostando no palco onde o Roberto irá cantar! - ela brincou eufórica.
O espetáculo passou rápido. Mesmo para quem não é fã do grande Roberto Carlos não há como negar o poder e carisma que aquele homem tem. Inebriado naquele clima já se imaginava agarrando uma das rosas que, conhecidamente, o rei lançava aos fãs no fim de cada apresentação. "Será meu troféu!", pensou.
Chegou a hora. Começou a música "Jesus Cristo", sempre a saideira. Algo estranho começou a acontecer. Sentiu como se o chão se movesse. Eram senhoras que se arrastavam entre as mesas, vindo das profundezas da plateia e se esgueiravam entre as primeiras filas, como veteranas de guerra que rememoravam os antigos embates nas trincheiras.
Sua mesa começou a se mover. Se preocupou, nem tanto pela sua saúde, mas pelos planos de pegar uma rosa do Roberto.
"Jeeeeeesus Cristo eu estou aqui!" cantava o rei, indicando o fim do show e "Bum!" as senhorinhas se levantaram como que combinadas, quase virando as mesas em frente ao palco, transformando ali como uma pista dos shows de rock que já tinha cansado de ir.
Obrigado a se levantar começou a sentir encontrões de senhoras troncudas que se acotovelavam em busca do melhor lugar para avançar sobre as esperadas rosas que seriam lançadas. Conseguir uma das flores virou questão de honra!
Pensou em dar o troco na mesma moeda, mas mal podia acertar aquele exército de tiazinhas que mais pareciam uma tropa de butijõezinhos lhe atacando. Teria gargalhado com a situação, mas tinha que manter o foco e cuidar de sua vida ao mesmo tempo.
Um rodie se aproximou de Roberto Carlos com um buquê enorme e deu uma a ele. As senhorinhas foram ao delírio. Ele aproximou-a de seus lábios, sem a beijar e a lançou. Se sentiu dentro da carga de um caminhão da Liquigaz passando pelas ruas de Carapicuíba.
Em segundos Roberto ia pegando uma rosa atrás da outra, fazendo um movimento como se beijasse, mais para uma benzida, e a atirando para suas fãs ensandecidas. Tentou, tentou, tentou... Não conseguiu agarrar nenhuma.
Na saída comentou com sua esposa:
- Inacreditável! Já peguei palheta no show do Metállica e do Pantera. Mas uma rosa no do Robertão é tarefa impossível!
Olhou para o lado, havia uma banca com "rosas do Roberto Carlos". Em sua frustração pensou em comprar uma. Mas a semelhança a uma peixaria ao lado de um rio no Pantanal o fez mudar de ideia. Além do mais, dez reais por uma rosa, que nem vinha direto das mãos do rei...
Deu a partida no carro, apesar de tudo feliz, pensado: "se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi...".

sábado, 11 de outubro de 2014

Gentileza gera gentileza

Fazia tempo que não pegava trânsito. Morando em São Paulo isso é bem raro. 
Num lugar caótico os carros disputavam nariz a nariz seu espaço. Na faixa do lado vi uma seta desejando entrar em minha frente. 
Naquele ligeiro momento em que nossa alma consegue gritar por trás da mordaça da vida real (real?), resolvi deixar espaço para que ele entrasse. 
Ainda pensei: "deve ter achado que eu me distraí no celular...".
Após virar a esquina, em frente ao mar de carros que se apinhavam ante a um farol, vi que tinha que estar à esquerda e que minha faixa era liberada para a direita.
Após o leve palavrão que mentalizamos numa situação como essa, liguei a seta para esquerda e vi que, milagrosamente, um espaço se abriu para que eu entrasse. Era o mesmo carro que eu havia ajudado cem metros atrás.
Tive a impressão que o carro dele sorria quando entrei.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Médicos

Já fazia mais de dois anos que suportava os mesmos problemas. Sabia bem o que era sentir o peso do mundo nas costas. Mesmo que não fosse sobre as suas, essa dor era transferida automaticamente, indo parar bem fundo em seu peito.
Ver uma pessoa, jovem, se tornando cega e se aposentando por invalidez na sua frente, quando diagnosticou a doença lá atrás e era possível se curar com um simples tratamento, gera uma revolta, sensação de impotência, tristeza.
Se tornará em três semanas mais uma médica que abandona o SUS. Não é uma "patricinha" como muitos querem acreditar, nunca teve medo de "meter a cara" nas periferias como políticos dizem, e justamente por não ter um coração de pedra - como muitos também disseram de sua classe - teve que pedir o aviso prévio.
O paciente em questão não era o primeiro, e percebeu há tempos que não seria o último. Em sua cabeça não entendia porque o sistema público de saúde agia assim. Uma pessoa de 38 anos, com diabetes gerando um problema em seus olhos, necessitava de um simples tratamento com laser para estabilizar e preservar sua visão. Nos meses em que aguardava atenderem o pedido do tratamento observava a visão ir diminuindo, diminuindo, diminuindo, até desaparecer definitivamente.
"Mesmo que não quisessem olhar pelo lado humano, você deixar um homem novo, que trabalha e gera impostos para o país, se aposentar cedo e viver do imposto dos outros, já seria motivo!", concluiu.
Mas era o lado humano que gritava ainda mais alto, e esse caso foi um. Quantos pacientes com glaucoma e tantas outras doenças passíveis de tratamento ou cirurgia ficavam presos em meio às engrenagens de um sistema falido, que mutila, invalida e mata tantos brasileiros.
Ainda possui três semanas pela frente. Sai com a tristeza de não ter conseguido vencer esse desafio e com a eterna angústia de saber que embora não receba diretamente sobre seus ombros, esse peso insuportável continuará sufocando a maioria de nossa população. E em saber isso seus ombros ainda doem. Até quando?

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Pedagogia do Horror (por Fernando Martins Rocha*)

 Introdução
Mães que abandonam filhos para que pereçam, traições, mentiras, esquartejamentos e toda a sorte das ações mais vis e abjetas que pode engendrar a mente humana. Não estamos descrevendo um enredo de um filme com um pesado conteúdo imagético e censurado para menores. Este conteúdo é encontrado nos “melhores” contos de fadas que hoje são utilizados como material pedagógico por uma boa parte de nossas escolas infantis.
Diante deste fato, cabe (ou deveria caber) a nós pais e educadores, como responsabilidade, fazermos algumas perguntas e refletirmos acerca deste fato. Talvez a primeira pergunta que coubesse seria: como estórias com cenas tão fortes e com um conteúdo tão pesado foi parar nas prateleiras das escolas de nossos filhos tão pequenos (de 3, 4 ou 5 anos de idade) ? Em seguida, poderíamos (ou deveríamos) perguntar: o conteúdo destas estórias é adequado para a instrução de nossas crianças? Quais os efeitos sobre a mente de nossos filhos quando são expostos a conteúdos deste tipo?
Considerando que a todo efeito corresponde uma causa, este pequeno artigo pretende exatamente verificar quais as causas que levaram os “contos de fadas” (que melhor seriam chamados de contos de horror, pois é o que de fato são) a figurarem como conteúdo pedagógico infantil em nossas escolas. Também refletiremos sobre os possíveis benefícios ou malefícios que estes contos podem causar em nossas crianças.
Contos de fadas ou contos de horror?
Antes, porém, de questionarmos a validade da utilização dos contos de fadas como método pedagógico, é necessário fazer uma pequena digressão. No âmbito dos estudos sobre a linguagem, estuda-se, além de outras coisas, a relação entre a forma e o conteúdo das palavras, sentenças e enunciados. No caso em particular, gostaria de chamar a atenção para uma inadequação. Se olharmos para a forma da expressão “contos de fadas” muito provavelmente a primeira imagem que se formará em nossas mentes será a de uma estória que contém seres encantados como uma fada (personagem feminina, delicada, exígua e com poderes mágicos utilizados para o bem), alguns animais que falam e uma moral ao término da narrativa. Estas ideias e imagens que vem à nossa mente, quase que intuitivamente, são resultado das significações que nos são transmitidas pela forma da expressão “conto de fadas”. Contudo, se voltarmos o nosso olhar, não para a forma da expressão, mas para o seu conteúdo, perceberemos que nada mais falso poderia emergir de nossas mentes do que estas ideias iniciais ou intuitivas que se formam ao ouvirmos a expressão “contos de fadas”.
Em primeiro lugar, os “contos de fadas” não possuem fadas. O que de fato esses contos possuem são bruxas que sequestram crianças (conto de fadas: “Rapunzel”), assassinos esquartejadores de mulheres (conto de fadas: “Barba Azul”), dentre outras imagens de medo e terror. Ao menos uma boa parte deles, ou os mais famosos que figuram em nossa tradição oral, não possuem sequer uma fada. Aquelas imagens quase angelicais, idílicas, delicadas (seres femininos diminutos com varinhas que produzem estrelinhas pelo ar), que vêm à nossa mente, é produto da forma e não do conteúdo dos “contos de fadas”. O que há de concreto e de real nos “contos de fadas” é o oposto de tudo isso. Os “contos de fadas” são na realidade contos de horror. Bruxas malvadas, animais vorazes, trapaças, mentiras, sequestros de crianças, medo e terror, estes são os elementos mais frequentes destas narrativas.
Como se não bastasse, os contos de fadas não param por aí. Os contos também constroem imagens terrivelmente negativas sobre os pais e mães. Nos “contos de fadas” há mães ou madrastas que abandonam os seus filhos em florestas para que eles morram! Belo exemplo! Como se não fosse suficiente transmitir estórias que pregam uma moralidade repugnante e degradante, ainda somos obrigados a submeter os nossos filhos a conteúdos que constroem imagens de pais e mães como sendo figuras cruéis, sórdidas e hediondas. Perguntamos: em que mundo vivemos? É isto mesmo o que devemos ensinar às nossas crianças?
É por estas razões que daqui para adiante utilizaremos a expressão contos de fadas (horror), para que não percamos a perspectiva do verdadeiro conteúdo que reza nestas narrativas.
O contexto histórico dos contos de fadas (horror)
Se fossemos resumir bastante toda a história, poderíamos dizer que os contos, assim como outras espécies de narrativas, são contados desde os tempos imemoriais e começaram quando o ser humano inventou a linguagem. Falando do gênero específico dos contos de fadas (horror), que são hoje utilizados por boa parte da pedagogia infantil, estes tem localização definida no tempo e no espaço. Robert Darnton, especialista em literatura folclórica, nos relata que boa parte dos contos que chegaram até nós foram gerados pela cultura popular francesa do antigo regime, num período que se situa entre os séculos XV e XVIII. Os franceses da idade média inventaram uma instituição, a “Veillée”, que constituía na prática de narração de histórias nas lareiras de suas casas, à noite, quando os homens consertavam suas ferramentas e as mulheres costuravam.
Aqui é importante ressaltar que estes contos, que são classificados pela teoria literária como contos maravilhosos, não possuíam nada de “maravilhoso” ou de “sobrenatural” em suas origens e não provocavam nos camponeses europeus o mesmo efeito de sentido que em nós é produzido. Estas narrativas relatavam a realidade de uma época em que a fome, a peste, a insegurança, o pavor e o terror predominavam na sociedade. A assustadora e amedrontadora personagem da Bruxa, que é capaz de voar e possui uma série de poderes mágicos, era um elemento bastante real na vida dos camponeses europeus dos séculos XV e XVI. A igreja cristã, com a instituição da Inquisição, empreendeu uma “cruzada” contra as “mulheres-bruxas” camponesas deste período, a fim de combater as heresias que ameaçavam sua hegemonia na cristandade. Um número considerável de mulheres foram executadas “em nome de Deus”. Portanto, diferente da leitura que fazemos atualmente destes contos, estas narrativas possuíam um alto grau de realismo para os ouvintes da época em que estes contos foram gestados.
Em 1679, o escritor francês Charles Perrault decidiu registrar estes contos em uma coletânea que denominou de “Os contos da mamãe ganso”. As versões escritas dos contos de Perrault (que posteriormente ganharam um “final feliz” que não existia em suas origens), juntamente com as versões orais dos contos, chegaram à Alemanha através dos franceses huguenotes (protestantes) que fugiam da perseguição religiosa na França de Luís XIV. Por outro lado, os irmãos Grimm, alemães, baseados tanto nas versões orais quanto escritas, também escreveram sua coletânea de contos em 1832. Foram estas as versões (Perrault e Irmãos Grimm), principalmente, que foram registradas nos livros de histórias infantis e chegaram às prateleiras de nossas escolas. Bem, até aqui explicamos de onde vieram as versões dos contos de fadas (horror). Daqui para adiante, discorreremos sobre como essas estórias de horror saíram de uma cultura oral e editorial e foram parar no ensino formal infantil de boa parte de nossas escolas.
A justificativa “teórica” para se ensinar os contos de fadas (horror) para crianças nas escolas
Tudo começa em 1976, quando um psicólogo vienense chamado Bruno Bettelheim ousou escrever “The Use of Enchantments”, um livro em que se defendia, em linhas gerais, a seguinte tese: os “contos de fada”, por conterem uma narrativa com elementos universais que habitam o interior psíquico e emocional do ser humano, como o medo e o abandono, ao serem contados às crianças, expõem-nas à realidade do mundo, disparam nelas uma reflexão sobre os seus dramas e consequentemente, e quase automaticamente, num processo não explicado, fazem com que elas se tornem adultos equilibrados, com seus conflitos interiores resolvidos. Deste modo, a justificativa teórica para sustentar a utilização dos “contos de fadas” na educação infantil, passa, obrigatoriamente, pela “autoridade” da “teoria” de Bettelheim. O trabalho final foi feito pela Academia que, sem questionar ou criticar a autoridade de Bettelheim, endossou sua pretensa teoria e a recomendou como método de ensino nas escolas infantis.
O problema que se coloca diante de nós (pais, educadores e pedagogos) é: qual o fundamento científico deste apanhado de ideias tão abstratas para garantir que nossas crianças não estão sendo expostas a conteúdos nocivos e que talvez tenham impactos negativos em seus futuros? Qual é a garantia que nos dá Bettelheim, que sua teoria não gerará prejuízos no desenvolvimento psíquico de nossas crianças? Resposta: nenhuma! E aqui reside todo o perigo ao expor nossas crianças a este tipo de conteúdo.

O que precisa ser discutido é o seguinte: o método científico exige que algumas perguntas sejam respondidas para satisfazer a condição de cientificidade das teorias. Dentre elas, poderíamos elencar algumas como: Bettelheim isolou o seu objeto de estudo (no caso as crianças) para observar os fenômenos sobre os quais descreve? Em outras palavras, Bettelheim acompanhou o comportamento das crianças de 3, 4 ou 5 anos e depois em sua idade adulta, 30 ou 40 anos, para saber se estas mesmas crianças tiveram seus supostos conflitos interiores resolvidos quando atingiram a maturidade? O número de crianças observadas foi em número suficiente para validar a sua teoria? Como Bettelheim, em seu método, conseguiria provar que os conflitos resolvidos não tiveram causa diferente da narração dos contos de horror? Como garantir que todas as crianças responderão aos estímulos da mesma maneira? É importante frisar que estas e muitas outras perguntas que poderiam ser feitas para questionar a cientificidade das ideias de Bettelheim não possuem nenhuma resposta no livro em que Bettelheim expõe a sua “teoria”.
Nossa suspeita é a de que se uma criança de 3 anos ainda não tem nenhum drama, ou poucos, poderá começar a tê-los após ser exposta ao experimento (ouvir estórias dos contos de horror) de Bettelheim. Diante do exposto até aqui, nos parece que estamos diante de um problema, ou melhor, dois. De um lado, há o problema de uma teoria não comprovada, que não se sustenta do ponto de vista científico. De outro, a exposição de nossas crianças ao procedimento experimental desta teoria não comprovada.
O que talvez seja mais surpreendente de tudo é que Bettelheim, no livro em que expõe sua “teoria” sobre os usos dos contos de fadas (horror) como método pedagógico infantil, em nenhum momento aponte para a possibilidade de estes conteúdos provocarem reações ou interpretações negativas às crianças. É incrível que, em nenhum momento, Bettelheim considere a hipótese de que a exposição sistemática e regular das crianças a um discurso amedrontador, aterrorizante e desmoralizante, em vez de resolver conflitos interiores, possa gerar o medo e perpetuar a insegurança nas crianças. Para Bettelheim, as crianças sempre, incondicionalmente, interpretarão estas narrativas de forma positiva (ainda que esta hipótese contrarie frontalmente as investigações da linguística moderna, que tem demonstrado que a complexidade da linguagem não permite interpretações unívocas e monolíticas dos enunciados).
Se a teoria de Bettelheim tivesse alguma sustentação e considerando que estes contos são narrados (não no ensino formal) há pelo menos 300 anos (desde Perrault e os Irmãos Grimm) para as crianças, então, poderíamos inferir que todas estas gerações (inclusive a nossa), que cresceram ouvindo os contos de fadas (horror), formaram adultos confiantes e bem resolvidos emocionalmente. Perguntamos: isto é uma verdade? A geração de nossos avós, de nossos pais e a nossa própria geração formou adultos confiantes e equilibrados emocionalmente por terem ouvido os contos de fadas? Nada parece mais contrário à razão, para não dizer à ciência.

O estatuto da mãe/madrasta/mulher nos contos de fadas
É importante destacar que a crítica literária que faz Bettelheim, para defender a narrativa dos contos de fadas (horror) como método de educação psíquica das crianças, é uma crítica que atua apenas sob o viés da psicanálise (método criticado intensamente por outras correntes). Deste modo, Bettelheim desconsidera outras linhas de análise como a crítica impressionista, a crítica histórica, sociológica dentre outras. Se analisarmos o estatuto da mulher nos contos de fadas, por exemplo, sob a ótica impressionista, verificaríamos a condição degradante a que a mulher é submetida. No conto João e Maria, conta-se a estória de uma mãe/madrasta que faz uma proposta cruel para o pai: por conta da fome extrema que assolava a família, e para que os pais não tivessem que dividir a escassa comida com as crianças, ela propõe abandonar os dois filhos na floresta para que eles morram. Vale ressaltar que é a mãe que faz esta proposta hedionda e não o pai. O pai ainda resiste inicialmente à proposta por julgá-la muito cruel. Deste modo, se constrói um estereótipo da mãe/madrasta/mulher extremamente negativo. Por outro lado, se analisarmos o estereótipo da Bruxa, que é recorrente nestas narrativas, verificaremos que a imagem que é construída é sempre de uma mulher má e que pratica as maiores atrocidades contra as crianças. Não há um homem bruxo. A personagem má, com poderes sobrenaturais, que se apresenta dominantemente nos contos de fadas, é a imagem de uma mulher. Segundo Maria Tatar, autoridade em estudos sobre literatura infantil, as mães e madrastas que aparecem nos contos de fadas são sempre punidas com maior rigor que os pais. Enfim, são estas e outras sutilezas que passam despercebidas pela análise de Bettelheim. Em nenhum momento, o psicólogo-psicanalista vienense levanta a seguinte hipótese: a construção negativa da imagem da mãe/madrasta/mulher nos contos de fadas (horror) pode eventualmente criar na psique infantil noções negativas sobre suas mães e desenvolver contra elas algum tipo de hostilidade ou rejeição?
Conclusão
Atualmente, boa parte de nossas escolas adota a narrativa dos contos de fadas como “método” de ensino e educação psíquica de nossas crianças. O que este artigo pretendeu demonstrar é que este “método” ou “teoria” não se sustenta sob o ponto de vista científico e que, portanto, é matéria perigosa quando utilizada na pedagogia infantil como se fosse um axioma ou uma verdade inamovível. É perigosa, pois pode gerar o efeito de sentido contrário ao que se propõe: formar crianças com medos, pavores e noções que lhes foram inoculados artificialmente, desestabilizando o seu desenvolvimento emocional.
Outra questão relevante também deve ser considerada. Uma coisa é se contar estas estórias num ambiente não institucionalizado, em que as pessoas são livres para fazer suas escolhas pessoais. Outra é obrigar as crianças a ouvirem estas estórias nas escolas, no ensino formal da educação infantil. Perguntamos: Onde está o direito das crianças de decidirem por não serem submetidas a este procedimento? E mais, onde fica o direito dos pais (que não mais veem sentido em contar estórias amedrontadoras e assustadoras para seus filhos) de optarem por eleger outras opções de literatura infantil que fazem mais sentido para o nosso tempo e contexto históricos?
Que as crianças não saibam ainda produzir todas as sutilezas de raciocínio como as de Bettelheim, é compreensível. Por outro lado, entendemos que é imperativo que nós adultos (pais, educadores e pedagogos) façamos a reflexão, a crítica e utilizemos a razão para saber discernir sobre todas essas absurdidades produzidas pela mente de Bettelheim. Defender os contos de fadas como instrumento de pedagogia da educação infantil é perder o poder de reflexão sobre as referências e os limites que devem nortear o nosso mundo.
Na Pedagogia do Horror, o medo, os vícios e terror devem ser ensinados às nossas crianças, contudo, elas não precisam de mais medos e horrores, pois já os há em abundância em nosso mundo. O que nossas crianças precisam é de virtudes. Para que elas cresçam seguras de si, precisamos antes mostrar-lhes que existe um mundo melhor do que o mundo tenebroso dos contos de fadas. Não faz sentido querer formar indivíduos equilibrados e seguros por meio da transmissão de noções de insegurança. Precisamos antes fortalecê-las para que adquiram condições e estrutura para enfrentar as realidades do nosso mundo. E não parece nada razoável utilizar o método de amedrontar para fortalecer.
Se pretendemos formar indivíduos saudáveis, emocionalmente, poderíamos começar transmitindo às nossas crianças segurança, atenção, compreensão, amor, senso de pertencimento, senso de inclusão, enfim, precisamos mostrar a elas que em nós, pais e educadores, existe um porto seguro em torno do qual elas podem construir suas redes de sentidos. Se conseguirmos isto, o que não é pouco, certamente lançaremos as bases para a formação de adultos confiantes e preparados para viver a realidade do mundo que nos cerca.
* O autor é bacharel em Letras pelo Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (USP) e mestre pelo Departamento de Filologia e Língua Portuguesa da USP.
i Pretendessem elas divertir os adultos ou assustar as crianças, como no caso de contos de advertência, como Chapeuzinho Vermelho, as histórias pertenciam a um fundo de cultura popular, que os camponeses foram acumulando através dos séculos, com perdas notavelmente pequenas. (Darnton 2011:31-32)
ii Cf. Tatar (1992:11).
Referências Bibliográficas:
Bettelheim, Bruno. The Uses of Enchantment: The Meaning and Importance of Fairy Tales, 2010.
Darnton, Robert. O Massacre dos gatos e outros episódios da história cultural francesa, 2011.
Tatar, Maria. Off with their heads: Fairy Tales and the culture of childhood. Princeton University Press, 1992.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Música brasileira

Aqui, fazemos um trato: não mais mudaremos nomes e definições das coisas, com a facilidade que se dá apelidos ou se cria uma nova palavra. Aliás, muito mais fácil e honesto seria criar mesmo uma nova palavra para algo novo.
Hoje, nostálgico, coloquei como trilha sonora de meu trabalho músicas da Clara Nunes. Sons de qualidade são assim. Não conhecia quase nada de sua discografia e a primeira vez que ouvi, achei excelente (e olhe que meu estilo predileto é rock!). Uma paciente entrou e quando me preparava para atendê-la, cantarolou a música que ouvia.
- Conhece Clara Nunes, Andrea? – perguntei.
- Nossa, adoro samba! Na realidade o de verdade, o samba raiz. Porque hoje, qualquer pagodinho que tocam na esquina, chamam de samba...  – respondeu com pesar.
Realmente, escutar Clara Nunes, Cartola e Adoniran Barbosa (e nem entramos no quesito “qualidade”) e o gênero chamado samba atualmente é um contraste muito grande. Assim como deveriam ter dado outro nome para designar o som criado no Rio de Janeiro, que nada tem de próximo com o estilo eternizado por James Brown e cantores da Motown nos anos 70.
Concordei por entender e vivenciar isso em outros estilos. Viajamos pelo sertão e lá aprendemos a admirar profundamente Luiz Gonzaga. Ver jovens de hoje, que do Rei do Baião conhecem apenas “Asa Branca”, chamando de forró o que escutam de "Calcinha Preta" ou "Moleka 100 Vergonha" (nada contra as bandas e sim contra a mesma nomenclatura para um estilo completamente diferente do que foi criado) é no mínimo estranho.
Um amigo, profundo admirador da cultura indiana, em suas andanças pela Índia, ao conversar sobre a cultura daquele país com os próprios músicos nativos, observava que estes se espantavam quando discorria sobre a ligação espiritual e história musical do local. “O brasileiro sabe mais sobre nossa história do que nós mesmos!”, falavam.
É parecido com isso o que ouvimos de muitos amigos do sertão, mais novos, quando discorremos sobre Gonzagão, Dominguinhos e seus seguidores.
Trato feito!

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Comunidade

Observando uma comunidade de formigas um cientista constatou: assim como as comunidades das abelhas, cupins e outras semelhantes, estes insetos encontraram a forma perfeita de sobrevivência da espécie. 
Nela, cada ser, cada cidadão  presente, é extremamente importante. Tem sua função para a sociedade e doa cada parte de sua energia para o todo, para cada formiga de seu formigueiro, não se importando se é uma de seu convívio próximo ou de uma que nunca irá ter contato em toda sua vida. 
Ela simplesmente sabe que sua sobrevivência depende daquela que nunca conhecerá e que trará o sustento para si mesma e para todas as outras de sua comunidade. 
Mesmo a rainha, que em teoria seria a mais importante de todas, sabe que sua função é tão importante quanto a, que seria, simples operária. Não é mais nem menos. É simplesmente igual. 
Interessante. 
E assim notou, que a morte ou o sofrimento de um membro da sociedade, era tido como um sofrimento de todo o grupo. Seja próximo ou distante, ver um ser semelhante a si sofrendo ou morrendo era uma tristeza enorme a qualquer um do grupo. Pois sabiam que poderia ser ele mesmo padecendo e sentiam como se assim fosse. 
Naquele dia de descoberta o cientista não dormiu. Entendeu o padecimento humano. Quando foi que o homem deixou de se importar com o sofrimento alheio? Quando começou a ver na televisão que outros sofrem com doenças terríveis, fome, miséria, e voltou aos seus afazeres se esquecendo em seguida do que vira?
Pior: quando começou a pensar em seu único benefício desviando tanto que seria destinado ao bem de toda sociedade pra si mesmo, por ganância?
Quando deixou de pensar no bem de todos por pequenos momentos de prazer solitário, ou de pouquíssimas pessoas?
Foi aí que o cientista, em toda sua inteligência, que se achava dono de uma capacidade enorme de entendimento, simplesmente sentou e chorou.