sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O novo ano

Em 2004 fiz meu primeiro trabalho social. Eram 10 cidades em 10 dias. Uma intensidade enorme de histórias, novos amigos e experiências que nos faziam misturar tudo. Na sétima cidade, já não lembrava mais se a escola que tinha o professor X era a segunda ou a terceira.
"começarei a fazer um diário de bordo para não misturar as histórias e fatos", decidi.
Assim, toda noite, passei a anotar tudo o que se passava durante o dia. Meus amigos roncavam e eu ali, num quarto no sertão anotava, pingando de sono, nosso dia a dia. .
O blog veio como uma necessidade de extravazar essas histórias, acumuladas em tantas folhas de papéis amarrotadas. Quando comecei a escrevê-lo, mal imaginava onde estava me embrenhando. Termos como "blogosfera", "blogueiros", "posts", me eram tão estranhos como um livro de física quântica.
Hoje, pouco mais de dois anos depois de meu início neste novo mundo, me senti de tal forma impregnado nele, como ele em mim. Como aquele novo amigo, que conhece há poucos anos, mas acha que esteve junto a você desde que se conhece por gente. Aqui fiz amigos fiéis e queridos como muitos que estão ao meu lado desde sempre. Pessoas que conheci apenas "on line" mas que você cônegos saber se está bem ou não no dia aquela postagem, ou até sofrer junto quando percebe que terminou um relacionamento.
Amigos que entram durante seu dia de trabalho, só para ver o que você escreveu. Que olharam em seu face book que você postou um texto novo e livraram alguns minutos de seu dia para você.
Neste último dia do ano, gostaria de agradecer a cada amigo, ou mesmo simples leitor, que entrou neste humilde blog e cedeu um pouquinho de seu tempo a ler o pouco que escrevo. Um desejo de que todos possam ter um ano maravilhoso. Lembrando que um mundo só é realmente maravilhoso quando é maravilhoso para todos. E que em 2011 cada um possa melhorar mais ainda sua vida e a de seus semelhantes. Essa é minha meta de ano novo. E o que desejo para cada um de vocês.
Um ótimo 2011 para todos!!

Wolber campos

sábado, 11 de dezembro de 2010

A casa na mata

No fim de semana passado, viajamos para Paraty Mirim, uma comunidade pequena, habitada em sua maioria por pescadores, que fica em torno de 15 quilômetros da cidade de Paraty.
Encerramos um trabalho que durou um ano, onde atendemos na escola, no posto de saúde e no centrinho, próximo à praia.
Com o intuito de ficarmos mais próximos, alugamos a casa da da filha de uma moradora local, que fica encravada na mata atlântica. Para se chegar até ela era necessário atravessar uma ponte, bem feita, bonita, que balançava a cada passo, sobre o rio, de águas barrentas pela chuva que caía naqueles dias, que seguia para desaguar no mar.



Na madrugada de sexta-feira, quando chegamos (em torno das 3 da manhã), era grande a escuridão, e algumas lanternas nos ajudavam a enxergar algo. A atenção devia ser grande, pois o peso das malas, compras e equipamentos dificultavam atravessar o balançar da ponte.
A sensação de estar integrado com a mata, a mesma que portugueses descobriram há séculos atrás, era incrível. Paraty Mirim, foi o primeiro ponto que eles encontraram, transferindo a cidade décadas mais tarde para onde ela se localiza nos dias atuais.
O convívio com a natureza, a reunião com amigos após os trabalhos, um churrasquinho, violão e cantoria, são ingredientes que inflam com tal energia, que dia seguinte não há como não realizar um bom trabalho.


O vídeo mostra a travessia da ponte e "nossa" casa na mata:

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Almir

Almir é o mecânico chefe de uma concessionária de carros importados. Numa viagem em que acompanhava seu chefe com amigos, dividiu o quarto com Bernardo. Ao entrarem na simples pousada em que passariam a noite, encontraram apenas uma cama e um colchão encostado ao lado.
- Almir, pode deixar que eu durmo no colchão. - disse Bernardo, humilde como sempre.
- Imagina, seu Nado, pode deixar que eu durmo no chão. O senhor nem imagina onde eu já dormi... - respondeu o amigo, lhe contando sua história.
Nasceu e morou toda sua juventude no pantanal matogrossense. Era um matuto, na acepção da palavra. Muitas vezes, dormia ao relento, sobre a grama, embaixo de uma árvore. "E aquilo, pra mim, era a melhor coisa do mundo!", exclama saudoso.
Em seu último emprego no Pantanal, tomava conta de uma grande fazenda. A casa grande, ficava sobre altas palafitas, pois na época das águas, tudo se alagava e o único caminho era sair de barco pela porta de entrada. Os donos, sempre saiam nesse período, esperando o tempo de seca para retornarem à sua casa. Mas não podiam deixar o imóvel sozinho; a coisa mais comum quando as águas subiam, eram saqueadores levarem tudo o que os donos deixavam para trás. Essa era a principal função de Almir, estocar provisão para os quatro meses em que tudo estaria inundado e ficar, em suas palavras, "armado até os dentes", para não deixar ninguém se aproximar.
- Seu Nado, eu mal dormia de noite, pois os bandidos vinham nessa hora, com o motor do barco desligado para não chamar atenção, e matariam quem tivesse tomando conta, só para roubar tudo mais tranquilos.
Almir continuou contando histórias sobre m Brasil conhecido por poucos, onde a lei é muito diferente. Onde a vida, acaba valendo pouco quando a sede de bandidos é insaciável.
Hoje, é feliz com sua nova profissão, que o ajudou a ganhar um bom dinheiro e o afastou de tantos perigos e noites mal-dormidas. Mas ainda sente muita falta de suas noites dormidas sob uma frondosa árvore iluminada pelo luar do pantanal.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Faça o que eu digo...

Jennifer é australiana, aventureira nata, viaja o mundo dando palestras sobre saúde, principalmente DSTs. Desembarcou no Peru como turista, depois de passar um mês em várias regiões na África, assoladas por doenças sexualmente transmissíveis; locais onde a aids é a pior epidemia, afetando a maioria da população .
Em seu bom coração, não podia entender como pessoas podiam brincar assim com sua vida. Em muitos países desenvolvidos, conversava com adolescentes grávidas, crianças que terão outras crianças:
- E gravidez, nem é o maior perigo que você passa por não usar preservativo. Imagine pegar uma doença venérea, que pode prejudicar o bebê, ou até levar à sua morte, como a aids ou sífilis... Homens “bonitinhos” podem ter doenças terríveis! – sempre alertava.
Pablo é um descendente de peruanos. De seus pais, herdou o amor pela segunda pátria e o sonho de conhecer um dos paraísos da humanidade: Machu Pitchu. Foi assim que, quando completou a maioridade, pegou sua mochila e viajou rumo à sua aventura solitária. Sempre se encantou por trabalhos sociais. Por isso, quando conheceu Jennifer, no mesmo grupo que subiria o lendário monte, logo se encantou.
Desde as primeiras frases, ataram uma amizade profunda e verdadeira. Se identificaram e permaneceram juntos em cada passeio. Trocaram experiências e ambos, tendo feito trabalhos sociais em diferentes partes do mundo, acabaram tendo uma admiração profunda, um ao outro.
Após conhecerem tudo sobre o mágico local, a história, a vida local dos acestrais incas, tinham 30 minutos de descanso. Não pensaram duas vezes, o amor, a atração, a admiração mútua, pedia momentos a sós, naquela mata que transpirava história. Uma milenar história.
Ela estendeu sua mão, ele a apertou com carinho, e caminharam juntos para a floresta. Encontraram um pequeno descampado, coberto de grama e ali seria o cenário perfeito para um momento íntimo, eterno, num ambiente histórico e mágico.
Ali, fizeram amor como os ancestrais incas, sem roupas, sem preconceitos, sem medos e sem camisinha.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Trailer do Filme "Em busca dos brasileiros"

Hoje é o lançamento do filme documentário "Em busca dos brasileiros". Para os amigos que não poderão comparecer no Espaço Unibanco (o convite continua abaixo) deixo o trailer nesta postagem.
Dá para dar um gostinho (ou deixar com mais vontade ainda de ver...).

Um grande abraço a todos e me desculpem a correria das últimas semanas que dificulta a visita a tantos amigos queridos.

Wolber Campos


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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Filme: "Em busca dos brasileiros"

Há 10 anos atrás, dois irmãos tiveram um sonho: conhecer o interior do Brasil e usar um de seus maiores prazeres (a fotografia) para mostrar o Brasil que poucos conheciam.
Foram 8 meses na Expedição Trilha Brasil, que tinha como principal objetivo realizar um levantamento cultural de nosso país. Como não poderia deixar de ser, se apaixonaram e perceberam que, diferente do que ouviam em São Paulo, a maior necessidade do sertão não era ajuda financeira, cestas básicas ou outros projetos assistencialistas e paliativos. A necessidade era melhorar as escolas, dar base para as crianças. Deviam focar na educação.
Foi assim que surgiu a idéia do Instituto Brasil Solidário e hoje o sonho virou realidade.
Horas e mais horas de filmagens daquela Expedição, viraram um documentário, que conta como tudo começou. O lançamento será no Espaço Unibanco, nesta quinta-feira, à partir das 19:30h.
O convite segue abaixo. Os amigos blogueiros e leitores que quiserem saber um pouco mais e nos conhecer pessoalmente (seria uma honra!) estão mais do que convidados. Os esperamos lá!

Um grande abraço!

Wolber Campos

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O homem mais puro do mundo

Galeguinho é um surfista de um dos lugares mais bonitos do mundo - se não for o mais bonito -. Fernando de Noronha é uma ilha paradisíaca e quando se chega nela, tem-se a impressão de que se atravessou um portal para uma outra dimensão.
Ali, até as horas parecem passar de forma diferente e os problemas da vida (ir)real, parecem se tornar pequenos, exatamente pelo contato com uma natureza tão bela. A bela sensação de proximidade de Deus.
É um desses surfistas de alma, extremamente puro de coração, daquelas pessoas que não conseguem desejar mal para ninguém. Fala de Deus e de Jesus Cristo, não como quem fala de algo inatingível e distante, mas com a simplicidade de quem fala de um amigo. Possui pouco, mas é extremamente feliz.
Todos o adoram, basta sair pelas ruas ao seu lado e todos fazem questão de cumprimentá-lo com o muito ouvido "Ô Galeguinho!", acompanhado de um sorriso, seja pelos pedreiros das construções, ou pelo rico empresário de uma das pousadas mais bonitas daquele local.
Seu emprego não poderia ter mais a sua cara. É pegador de tartarugas.
- Mas eu não pego pra caçar não, é pro pessoal do Projeto Tamar estudar, colocar as pulseiras e soltar de novo.
Algum tempo atrás, teve problemas, precisou deixar a casa onde morava e não tinha para onde ir. "Se é para morar em algum lugar, deixa eu procurar o lugar mais bonito daqui", pensou. Foi assim que morou, durante quase 6 meses em umas cavernas, com uma das vistas mais bonitas para o mar, de azul turqueza, de Noronha.
Não passou esse tempo isolado, continuava com a mesma vida que tinha, saindo com os amigos, apenas, de noite, seguia feliz para sua morada provisória - hoje vive em um trailler, doado por um amigo do continente.
Nos levou até lá onde, olhando para o incrível visual, lhe disse: "você era um cara feliz , hein meu?".
Sem pensar, me respondeu:
- Era não, eu sou feliz, brother, porque eu tenho Jesus no coração...
Quanta verdade em tanta simplicidade.
6 meses morando em uma caverna, em contato íntimo com a natureza e com Deus. tem melhor receita para ser feliz?


O vídeo mostra Galeguinho, o homem mais puro de mundo, nos apresentando sua querida caverna.

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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Crônica da "Lei de Gérson"

"Tudo que acontece em nossa vida, Deus coloca para que aconteça uma entre duas coisas: para aprender algo, ou para ensinar", já dizia o velho sábio do sertão, seu Zazu.
Paulo e João aprenderam isso essa semana. Depois de um bom tempo, resolveram tomar aquele bom choppinho que tomavam durante a semana. Uma das coisas boas em São Paulo é a vida noturna. Encontrar um bom chopp é a coisa mais fácil, mesmo durante a semana e, para finalizar a noite, mesmo de madrugada, há sempre uma boa padaria 24 horas, com seus lanches e refeições bem feitos.
Foi numa dessas padarias que entraram e cumprimentaram o segurança. Lancharam e pegaram uma grande fila para ir embora. Depois de um tempo, havia apenas uma pessoa a sua frente, um novo caixa abriu e disse, de forma mal humorada, "próximo". Antes que se dirigissem ao recém aberto caixa, um homem saiu de trás deles e passou na frente, "furando a fila" na "cara dura". Os amigos se olharam, comentaram o absurdo, mas resolveram não comprar briga, se apressando a ir atrás do espertalhão, antes que os outros 3 amigos que estavam com ele também passassem em sua frente.
Porém, a paciência de ambos se esgotou quando os outros passaram as comandas por cima das cabeças dos perplexos amigos e as deram para que o primeiro pagasse também. Era demais.
João comentou com a caixa que disse:
- Eu chamei 'próximo' vocês não vieram... - disse dando de ombros, tomando partido dos "espertos".
João, mais esquentado, jogou a comanda na bancada e foi saindo, "então se vira, volto para pagar quando eu quiser", sendo advertido por gritos da caixa.
- Ei você não pode sair sem pagar, segurança!
Paulo disse sobre a "Lei de Gérson" e que, infelizmente, o Brasil está como está, por atitudes como aquela, incluindo a da caixa, que tomou partido dos espertalhões.
Quando se uniu ao João, o segurança ria simpático: "Por isso temos que estar sempre atento, não tratar ninguém mal. Nunca sabemos quando pode ser um promotor público como o senhor", disse colocando a mão sobre o ombro do amigo.
"O João já se fez de promotor, meu Deus!", pensou Paulo, rindo para si mesmo.
Quando sairam, recebendo o carinho total do segurança, João explicou a situação. Quando estava saindo da padaria, o homem o segurou dizendo "vai sair sem pagar, seu porra?".
- Do que você me chamou? - perguntou João, quase explodindo, o que novamente o homem respondeu "seu porra!!".
Dependendo da situação, a lição tem de ser dada na língua que a pessoa entenda. Não adianta chegar para um pit bull, que tenha mordido alguém, passar a mão na cabeça e dizer "não morda". O que funciona é enrolar um jornal e descer a "lenha" sobre ele. Não é bonito, mas é o que funciona.
João enrolou seu jornal e disparou:
- Você sabe com quem você está falando?
- Eu sou polícia, e você! - disse, ainda agressivo o segurança.
- Eu sou promotor de justiça, e aí? O que você vai fazer? Tentar me prender, enquanto está trabalhando num lugar privado? Ou vai me xingar de novo, para que eu possa acabar com você? - disse ante a um homem, que, automaticamente, mudou seu jeito para um tom amigável.
Quando chegou, Paulo ainda completou para responder a frase que o incomodava.
- E nem é só isso, não tem que tratar agressivamente, não porque pode ser um promotor, mas simplesmente porque é um ser humano e merece respeito, seja pobre seja rico.
Foram embora, entre chateados e aliviados, por saberem estar com a razão e terem tentado ensinar algo. Se os outros não aprendessem nada, pelo menos sua parte, tinham feito.

Instituto Brasil Solidário na TV

No mês passado, trabalhamos no Maranhão, Piauí e Ceará. O pessoal do programa Good News, da Rede TV, nos acompanhou em São Raimundo Nonato-PI, berço da Serra da Capivara (palco de uma futura postagem).
O programa será exibido neste sábado, dia 13/11, às 21:55h. Será bacana para quem quer conhecer um pouco mais do trabalho que realizamos.
Nos vemos lá!

Um grande abraço!

Wolber Campos

domingo, 7 de novembro de 2010

O sanfoneiro

Figura tão típica e transcendental, assim como o vôo da Asa Branca, ou o famoso luar do sertão, é o sanfoneiro. Mas não adianta ser qualquer um. Aulas no instrumento, prática e habilidade para tocar as dezenas de teclas do difícil instrumento, ainda assim não me dariam a aura inerente deste músico. Não, o sanfoneiro, de verdade, tem que ter cheiro de sertão. Não aquele que, temperado com toda a felicidade do mundo, impregna minhas roupas surradas depois de um bom dia de trabalho naquelas terras. É um cheiro nativo, que foi absorvido assim que o primeiro choro do bebê ecoou entre céus e caatingas. É fácil conhecê-lo.
No Ceará, na querida cidade de Crateús, mês passado, pousamos em uma casa emprestada pela comunidade. Ah essa velha e maravilhosa hospitalidade sertaneja. Imagino alguém, vindo a São Paulo de outra região e nós dizendo: “Olá amigos, fiquem aqui na minha casa, aproveitem e descansem bem, vou dormir na casa de uns parentes para deixá-los tranqüilos. A geladeira está ali. Fiquem, todos vocês, à vontade”. Não, nós aqui não fazemos isso, infelizmente. Não temos tanta evolução por essas bandas. Na cidade grande, a evolução é material, lá, é espiritual. Um penhasco de diferença entre as duas.
Havia um bar ao lado da casa e, enquanto me banhava, ouvi o som de um trio, aquecendo um forrozinho que seguiu animado noite adentro.



A banda parou, era hora do violeiro assumir a sina da cantoria. Mesas postas no chão de terra ao ar livre, a lua quase cheia iluminando a noite de forma magnífica e, ao som da viola, ele chegou. Assim como o violeiro, o sanfoneiro toca por amor; não resiste a pessoas que amam uma música tocada com o coração. Chegou humilde e se sentou.



Enquanto todos se ajeitavam, quase era possível ouvir uma música de fundo:
“Não há, ó gente oh não, luar como esse do sertão...”.
A música nunca me fez tanto sentido.
- Tocamos um xotezinho? – pergunta o violeiro, e o novo parceiro responde com um puro sorriso e um aceno de cabeça. A música era um forró universitário, bem paulista. É claro que ele não conhecia, mas o puro sanfoneiro nunca, eu disse nunca, se importa com isso.
“Moreno, me convidou para dançar um xote, pegou no meu cabelo beijou meu cangote, fez meu corpo inteiro se arrepiar...”.
A música, pedida com todo carinho do mundo, começou e na introdução, o violeiro fez, com a boca, o som que a sanfona deveria fazer. Já após o primeiro refrão, Zé, o sanfoneiro, tocava com perfeição o solo outrora balbuciado pelo boquiaberto homem da viola. Mais uma noite perfeita ia chegando ao fim. Mas havia tempo para uma pergunta.
- Zé, qual foi a primeira música que você aprendeu na sanfona?
Uma música linda à luz do luar, amigos verdadeiros do lado e o cheiro de sertão saindo do fole de uma bonita sanfona. Era o encerramento perfeito para uma noite perfeita.


A primeira música: Zé, com sua sanfona, nos brinda na noite do sertão - com uma lanterna iluminando a filmagem - com a primeira música que aprendeu.
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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Rei do Baião

Uma das coisas que me ficaram impregnadas pelas andanças no sertão, foi o amor ao forró. Ao forró pé-de-serra, como dizem por lá, principalmente por Luiz Gonzaga.
Esse ícone da música brasileira tem minha admiração por vários fatores. Primeiro, claro, o musical. Sua criatividade, melodias, letras e a habilidade com a sanfona, instrumento que deveria ser esculpido a ouro, pela beleza e capacidade de soar um som tipícamente brasileiro, quase cheirando à caatinga molhada em épocas de chuva.
Outro ponto de minha admiração é seu orgulho de ser sertanejo e cantar a vida dos nordestinos, seja sofrida - como "Asa Branca" - seja no feliz contato com a natureza - como a "Estrada de Canindé" - entre tantas e tantas histórias.
É muito comum um paciente entrar em meu consultório e meu rádio estar ao som do velho Gonzaga; um forrozão "lascado"! Alguns dão risada e estranham que eu goste de forró. Outros gostam.
Marcos sorriu. Um sorriso de nostalgia, como quem lembra um gosto puro de infância.
- Oh, meu amigo, você gosta do Gonzagão, então? - me perguntou.
Nordestino, veio para São Paulo há algumas décadas. Mas até os 15 anos, morou em Juazeiro no Ceará.
- Foi lá que conheci Luiz Gonzaga, no começo dos anos 80. Ele vinha para nossa cidade toda terça, com Patativa do Assaré, e eu ganhava uns trocados como engraxate e tive o prazer de engraxar os sapatos do homem.
Na primeira vez, velho Luiz gostou de Marcos e disse: "Moleque, venha engraxar meu sapato na terça que vem que te trago um saco de laranja do meu sítio!". Soltou com a voz inconfundível de trovão.
E foi assim, na outra semana o menino terminou o serviço e levou contente um saco de laranjas para casa.
- Um dia, ele me levou na F-1000 dele para a sua casa, no Exú. Engraxei os 60 pares de sapato. Muitos que ele usava nos shows. Olha que honra! - disse com um grande sorriso de felicidade.
Ficamos conversando ainda por um tempo, lembrando de curiosidades, do prazer e orgulho de ter engraxado os sapatos do Rei do Baião.
Que inveja boa eu fiquei!

domingo, 31 de outubro de 2010

Tráfico de água

A seca. Exposta desde os livros de história do Brasil nas escolas, ainda hoje é um problema no sertão. A solução poderia manar, assim como a água brota de poços artesianos em locais áridos, não fosse os interesses políticos escusos e desejo em manter a miséria, de uma das pragas mais antigas e presentes de nosso país: o coronelismo.
Em uma cidade do interior seco do Brasil, meses atrás, a seca vinha de forma intensa. A época de chuvas havia passado e isto significava esperar por mais um ano pela sonhada água. O nível das cisternas (reservatório ligado aos telhados das casas para armazenar a água das chuvas) estava no fim, e os caminhões pipa se esforçavam em manter água nas escolas e comunidades mais afastadas.
Luis, fotógrafo, visitou o açude da região, onde o nível baixava cada vez mais e as mulheres sertanejas buscavam a água barrenta para o sustento de sua família. Latas d´água na cabeça, andavam, muitas vezes, mais de 5 quilômetros, equilibrando 10, 15, 20 ou mais, litros de peso sobre o velho pano enrolado sobre os sofridos cabelos.
Enquanto retratava essa dura realidade, alguns caminhões pipa passaram, despejando água no maltratado açude. O motorista de um deles parou e veio em sua direção. Seu Raimundo, era um homem de meia idade, olhar duro, mas sereno, caminhou até Luis e lhe disse, ao pé de um morro onde estava.
- Por que você está tirando fotos? É de alguma revista ou jornal? - perguntou sério, porém sem agressividade.
Luis disse que não, estava apenas retratando o dia a dia das sertanejas e sua luta pela água.
Ele disse que não havia problemas, mas pediu que apagasse qualquer foto que tivesse saído os caminhões pipa.
- Sei que estamos fazendo algo errado, essa água é ilegal, buscamos no município vizinho. Mas não temos água para abastecer a cidade e a situação está perigosa para toda a população.
Explicou que, durante a noite, saíam escondidos e enchiam seus tanques no açude de outra cidade, despejando o conteúdo no seu, quase seco.
Não havia problema, apagou as fotos onde haviam caminhões despejando a água e pensou no certo e errado. A luta pela vida, o que fazer? Uma população toda pode morrer sem água, bem inestimável à vida. Sem dinheiro para comprar e, mesmo se houvesse, municípios vizinhos também se preocupavam com seus níveis.
O tráfico, ali, era uma necessidade. Vida ou morte.

Volta

Queridos amigos! Estou de volta.
Trabalhamos durante duas semanas no Maranhão (Balsas e Nova Iorque), Piauí (São Raimundo Nonato) e Ceará (Crateús). A véspera de viagem foi tão corrida, que não pude avisar a ausência que seguiria neste blog.
Novas histórias foram encontradas, pessoas conhecidas, amigos reencontrados. Aos poucos tudo será dividido com vocês.
Senti saudades.

Enorme abraço a todos!!

Wolber Campos

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Imagens do Brasil: Irmão Sol, Irmã Lua



Estávamos no final de um trabalho, na querida cidade de Cabaceiras-PB. Quase como um prêmio, fomos visitar as lindas pedras do Pai Mateus, uma área que contém pedras enormes, redondas, maciças, ocas, espalhadas sobre uma gigantesca laje, também de pedra. Lugar maravilhoso, onde foi filmado "O auto da compadecida".
O pôr-do-sol estava incrível, e nós, sentados embaixo de toneladas esculpidas por milhões e milhões de anos pelo vento, o fitávamos.
Luis, presidente do IBS e fotógrafo, estava com a máquina e tirou uma foto da lua, que estava acima de nossas cabeças naquele fim de tarde. Usando uma técnica, prendeu a imagem e tirou, ao lado, a foto do sol. Irmão Sol e irmã Lua, estavam no mesmo céu, no mesmo instante, e pelas lentes da máquina se eternizaram na mesma fotografia.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A parteira

Podemos até dizer que é uma das profissões mais antigas do mundo. No Brasil, ainda temos algumas que resistem aos tempos modernos. Porém, infelizmente, sua atuação vem, pouco a pouco, se esvaindo. Nossa geração, pode ser a última que ainda vê essas corajosas mulheres em ação.
Hoje, mesmo lugares pequenos e afastados, possuem um posto de saúde ao qual recorrer e programas de incentivo ao exame pré-natal, estimulam o parto com acompanhamento médico.
O exame pré-natal é imprescindível e deve ser realizado. Para atrair mulheres locais há um plano do poder público, onde todas as mães que fizerem todos os exames ganham, ao nascer da criança, um "bônus enxoval", de cerca de 1500 reais. O efeito colateral é uma explosão demográfica, onde uma quantia dessa, perto dos 200 reais mensais do Bolsa Família, incentiva mães a fazerem filhos todos os anos.
- Hoje diminuiu muito a quantidade de pessoas que nos procuram para fazer partos, por causa do bônus. Mas, mesmo quando faço o parto em casa, sigo com a mãe até o hospital, assino os papéis, e ela pode ganhar o dinheiro da mesma forma. - nos conta dona Maria das Neves, 59 anos, parteira desde os 16.
Entrou na profissão sem escolha, tendo que fazer o parto da própria mãe.
- Imagine eu, 16 anos, matuta de tudo, e minha mãe falando "filha, me ajuda, não me deixa morrer". Não tinha nem como pensar.
E foi assim, a mãe que já havia tido muitos filhos, foi dizendo o que ela faria e, graças a Deus, tudo deu certo.
Haviam outras duas parteiras na região e quando uma estava doente e a outra viajando as pessoas diziam "chama a das Neves, que é corajosa e faz". E assim se tornou uma ótima parteira.
Hoje, já perdeu a conta de quantos partos fez. Mas lembra muito bem dos mais difíceis, como quando o bebê está colado no útero.
- Aí meu filho, a gente tem que usar a inteligência, né?! Colocamos a mão lá dentro e vamos, com cuidado, descolando o bebê da parede do útero. Do mesmo jeito que fazemos quando ele tá fora de posição, vamos arrumando até ele se ajeitar, lá dentro... - diz com uma sabedoria e tranquilidade impressionante.
Assim como dona Isabel, 70 anos, também do interior de Pernambuco. A última vez que "pegou menino", como falam, faz apenas 3 meses.
- Diminuiu, mas vez ou outra ainda chamam a gente pra fazer. - diz em sua simplicidade cativante.
Há 10 anos atrás, tinha muito mais trabalho, 6 ou mais partos por mês. Teve vezes que vinha de um e já a chamavam para fazer outro. Hoje já faz parto dos "netos", filhos de homens e mulheres que já nasceram por suas mãos e fazem questão de que seus filhos nasçam da mesma forma: pelas mãos abençoadas de quem nasceu com um dom de Deus para auxiliar milhares de mães por este sertão adentro.

Uma informal entrevista com dona Isabel, em sua casa, no sertão do Pernambuco. 24/09/2010
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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Máquinas do tempo

Sempre gostei de história. Quando criança, sonhava em ter uma máquina do tempo, igual àquela do filme "De volta para o futuro". Um dos livros que mais gostei de ler foi "Operação Cavalo de Tróia", onde o autor (J.J. Benítez) escreve sobre um ex-militar americano - que não é o Euller - que haveria participado de uma operação, onde a Nasa construíra uma dessas máquinas, que o levara até o ano em que Cristo foi crucificado.
Mal sabia eu que, já adulto, conheceria verdadeiras máquinas do tempo. E são muitas, estão por todos os lados, podem até nos esbarrar na calçada cheia de uma tarde de sábado.
Há quase duas semanas, conversei com uma delas. Seu José Tiburcio, tem 92 anos, e mora em Manari, no sertão do Pernambuco. Foi boiadeiro dos bons, a maior parte de sua vida, e era autoridade na época do conorelismo: comissário.
Começou a "correr no mato", como diz, atrás de bois, aos 15 anos de idade.
Seu José ouve muito pouco e não enxerga muito bem. Não anda há 8 anos.
- Desde 2 de novembro de 2002, me lembro bem... - diz com sua voz rouca e fraca.
Mas tem uma boa memória, lembra fatos e histórias de sua juventude que nos conta como se um filme fosse passando à nossa frente. E foi assim que nos contou. Aqueles olhos, os mesmos que nos fitavam agora, olharam para Lampião e seu bando, na época do cangaço.
- Era Virgulino o nome dele. Ele que juntava os cabras pra roubar por aqui. - conta, olhos vidrados no passado, com uma simplicidade, e a liberdade de quem fala de um conhecido, que chega a nos arrepiar.
Quando jovem, certa vez, estava voltando para casa, quando o alertaram que Lampião e seus cangaceiros estavam na casa de seu tio Florêncio. Vinham atrás de dinheiro e traziam Mané Perna, sanfoneiro local para tocar. Lá, ordenaram que o tio deixasse as moças dançarem com seus homens, "com todo respeito!", nas palavras do rei do cangaço. E a festa foi longe.
José, ao saber que estavam por perto, correu para o mato e escondeu sua arma num umbuzeiro, com medo que o bando a roubasse; sua primeira e querida pistola. Voltou à estrada para sua casa, protegendo a família de uma possível visita de Lampião.
Respirou aliviado ao chegar e ver sua casa a salvo. Ainda não sabia, naquele momento, que estava vivendo um capítulo da mais pura história do nosso Brasil.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Bonzinho só "toma na cabeça"?

Pergunta que não cala. Muitas vezes me pego pensando sobre isso. No final dessa viagem tive uma dura lição.
Sempre faço questão de cumprimentar com um sorriso, perguntar o nome das pessoas que me atendem, enfim, não importa se estou ali para ser atendido ou não, tento fazer o trabalho do outro ser mais agradável, pois gosto que façam isso comigo. Infelizmente, muitos não enxergam assim.
No final do trabalho, tive a oportunidade de tirar alguns dias de descanso. Ficaria em uma pousada, Wanderson - amigo e dentista que viajou comigo - ficaria com sua namorada, na casa ao lado.
Wilson, o dono, me recebeu bem, apresentou a pousada, e assinamos a estadia, até quinta-feira.
Segunda, meu primeiro dia inteiro no local, voltei de uma longa trilha, bem cansado - e muito feliz! - quando ele me disse:
- Ah, viu, você vai ter que sair na quarta, depois do café. Houve um problema com a reserva. Mas vou ver se consigo alguma outra pousada pra você. Tá difícil... - disse como se eu não tivesse outra alternativa.
Estava cansado, não pensei muito, e deixei meu lado "sussas" falar na minha frente, antes que eu o calasse:
- Sério Wilson? Que pena. Bom, vou descansar, depois a gente vê o que faz. - disse e fui para o quarto.
Na cama comecei a pensar o que teria acontecido, se tudo estava certo até quinta. Tinha ouvido falar de algumas pessoas que pensam muito em dinheiro e dão certas "mancadas". Era muito provável que ele havia recebido uma proposta de duas pessoas, onde ganharia mais, visto que eu estava sozinho num quarto de casal.
Dia seguinte resolvi parar de ser bobo (ou bonzinho, visto que, infelizente, essas palavras se misturam nos dias atuais, por causa de tantos malandros e aproveitadores). Fui até o dono e perguntei:
- Wilson, queria saber por que você mudou a palavra do que havíamos combinado no domingo? - disse sério, e meu sorriso de bonzinho, ou de bobo, como queiram, havia sumido. Tentei lembrar de alguns filmes onde alguns caras faziam cara de mal e acho que me saí bem, pois ele gaguejou e respondeu:
- Veja bem, não é que eu mudei, houve um problema na reserva, marcaram duas juntas, inclusive, o rapaz será mandado embora... - e continuou se explicando e se enrolando.
- Tudo bem, acontece. E você concorda que eu não tenho nada a ver com isso, certo? - perguntei, quase exultante em fazer papel de bravo. - Agora como fazemos? Tenho um blog, que colocarei um diário dessa viagem, lido por mais de 4000 pessoas (eu sei, menti, são mais de 4000 visitas, mas achei que teria mais resultado assim) e o que você imagina que eu direi sobre sua pousada?
- Eu sei, pode falar mal a vontade, quanto quiser. Não tenho nem o que falar. - disse, já nervoso.
Dei por encerrada a conversa, chateado por sair de onde já estava, e ficar longe de meus amigos. Mas fiz minha parte.
Dia seguinte, no café da manhã, Wilson me chamou:
- Viu, consegui arrumar aquele probleminha. A mulher que viria não poderá vir. Pode ficar tranquilo até quinta.
Fiquei entre feliz e chateado ao mesmo tempo. Fosse eu "gente boa", compreensível, estaria em outro lugar, praticamente expulso da pousada. Como fui "casca grossa", o dono fez questão em me ajudar e resolver o problema.
Que inversão de valores!
Estou um pouco desanimado, não queria que fosse assim. Espero estar errado. Mas há alguns casos em que ser simpático pode não ser uma boa alternativa.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Dinheiro fácil

Quando se faz um trabalho social, tem-se uma reputação a zelar. Deve-se tomar extremos cuidado com exemplos e conselhos. Muitas pessoas acabam depositando sobre você grande fé e confiança e, mesmo em meio a alguma brincadeira e bagunça, a essência deve ser boa.

Certa vez, na cidade de Palmas-TO, acabamos o trabalho na escola e combinamos um luau com alunos e amigos. Não sabíamos, mas a 20 minutos da escola, havia uma cachoeira, não muito grande, mas muito bela, em torno de 1,80m, que caía suavemente sobre um pequeno lago, tocando aquela suave e intensa música da natureza.

Luis, a descobriu na saída fotográfica que faz com seus alunos, na oficina em que ensina a arte da fotografia digital. Um pequeno exemplo do quanto essa capacitação mexe a vida dos adolescentes das escolas são garotos que encaram a fotografia como profissão, como é o caso de Givanilson, da cidade de Balsas-MA, que trabalha em uma empresa tirando fotos de eventos e casamentos, ou da Joyce e Suedivaldo, que melhoram a cada dia suas técnicas e já possuem seus blogs fotográficos.

Durante a tarde, Luis conheceu o lindo local e, automaticamente, pensou no violão de noite. Conversou com o "tiozinho" dono do simples bar que ficava ao pé da cachoeira que garantiu: "Então eu espero vocês com o bar aberto de noite. Pode ficar tranquilo que estarei por aqui!!".

Quando chegamos à noite o bar estava fechado. Chamamos, batemos palmas, assoviamos, oramos. Em vão, nem sinal do homem, que àquela hora devia estar curtindo seu "fogo".

"Não é possível, não trouxemos nada, água, cerveja, ou refrigerante", pensamos naquele breu do centro do Brasil. Até que um amigo falou:

- Olhem só, sempre há alguma falha a ser encontrada... cresci abrindo casas para brincar, conheço possiveis formas de abrir algo... - disse checando as grades e cadeados que lacravam o boteco de madeira rústica. Até que de repente “trec”, uma grade se mexeu. Estava aberta! Comentamos com os amigos locais que iríamos entrar como amigo do dono, anotar tudo e deixar o dinheiro depois. Assim, um de nós entrou, pegou as latinhas e fomos para o luau. Seguimos, assim, o procedimento noite afora.

A lua seguia alta, iluminando apenas o suficiente, completando a chama trêmula da fogueira ao pé de uma grande árvore.
No final contamos as latinhas e imaginamos quanto seria se ele cobrasse caro. 3 reais cada uma? Daria uns 36 reais, cobrando caro. Deixamos um bilhete, pedindo mil desculpas por entrar no bar sem ele estar presente, informando o que tomamos, e um dinheiro em cima: 50 reais.
No dia seguinte, o homem deve ter pensado: "Foi o dinheiro mais fácil que já ganhei...".

P.S.: Esterei em viagem até a terça feira, 28/09. Abraço a todos!

domingo, 19 de setembro de 2010

Um dia de atendimento

Que imagem temos quando pensamos em um dentista? Um consultório sóbrio, sério. Um profissional que chegará de branco para atender em uma sala, a sós. Medo. Infelizmente, não são boas as nossas primeiras impressões.
Tentamos fazer diferente. A idéia é montar um consultório dentro da sala de aula de escolas no sertão brasileiro, então por que não dar às crianças uma outra imagem? De que o dentista pode brincar com a crinçada enquanto atende, dar risada com elas, jogar água para acabar com a bagunça, pegar o violão durante alguns minutos do dia. Já ouvimos muitas crianças dizendo que morriam de medo e resolveram passar ali, serem atendidas dentro da sala de aula.
Não se trata de um texto narcisista, de modo algum. É apenas uma amostra de como os dentistas do Instituto trabalham. A idéia, também, é ter as crianças próximas, olhando, aprendendo porque o dente do amiguinho está com aquele buraco enorme - como o seu - e o que ela precisa fazer para não ter esse problema nunca mais.
É completamente agradável, são muitas as vezes que crianças ficam o dia inteiro ali, ao meu lado, brincando, aprendendo, cantando. Não é à toa que trabalho muito mais tempo que em meu consultório, em São Paulo, mas me canso muito menos. Ou melhor, não me canso.

video
A professora que filmava não enquadrou muito bem... :) Mas dá para ter uma idéia.
Atendimento na querida escola do Pé do Morro, em São Raimundo Nonato-PI.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A cerveja ideal

Não. Não sou nenhum "mestre cervejeiro". Tampouco algum pinguço que vive "enchendo a cara" (melhor deixar claro, não é?). Mas gosto de uma boa cervejinha e acho que hoje descobri a cerveja ideal. Bem, hoje não, pois estou no consultório, antes das 9 da manhã, e isso, imediatamente, desmentiria minha afirmação antes dos parênteses acima. Mas sim, nos últimos meses.
Ao contrário do que muitos pensam, o lugar onde encontramos as pessoas que mais sabem gelar uma cerveja é no sertão. "Nossa, mas um lugar quente e que gela bem a cerveja? Não é um paradoxo?". Não, gelam daquele jeito que você pega a garrafa, acha que vai estar "empedrada" e ela sai, tinindo!
E não estou falando de barzinhos, com mais aparatos. Quando há uma festa na escola, ou na casa de alguém, lá estão elas, no freezer ou geladeira, esbranquiçadinhas.
Um grande amigo, o Nado da Cia de Inventos, usa uma expressão bacana para a garrafa que fica branquinha, com uma fina camada de gelo em sua superfície: "canela de pedreiro", em alusão ao trabalhador que fica com o cal da obra sobre sua canela.
No sertão é assim, em muitos botecos, ou em casas, nos servem as "canelinhas de pedreiro".
Abaixo, deixei uma foto de duas que retiramos da geladeira num jantar, na querida escola de Poço das Trincheiras-AL. Aquela noite, incrível, todas as garrafas estavam assim, sem congelar a cerveja dentro. Como eles fazem isso? Não sei. Sabedoria sertaneja.
Uma pena que eu não tenha tirado uma foto da mais perfeita que já tomei em minha vida. Estávamos na casa de uma simpática senhora, que nos deu um maravilhoso jantar, em Poço Redondo-SE. Luis perguntou se podia pegar uma cerveja.
- Vá lá na geladeira, meu filho... - respondeu amavelmente.
Ele voltou com os olhos arregalados.
- Dá uma olhada nessa garrafa! - me disse mostrando a cerveja que trazia.
Ela estava com uma pedra de gelo grande, de ciama abaixo, em uma metade. Linda. Colocamos no copo, não estava congelada, mas tinha pequeninos flocos de gelo no líquido amarelo ouro, que dava uma sensação única. Foi assim até o último gole.
Me senti, exatamente, como um apreciador de vinho, que senta com um amigo em uma vinícola e prova aquela garrafa única de vinho, da melhor safra que tem. Sabe que como aquela, dificilmente experimentará outra. Tomamos até o fim, silêncio quebrado apenas para rápidos comentários de como aquilo estava sensacional.
Terminamos felizes, sabendo que será difícil encontrar outra igual, por toda a vida.



Imagem das duas canelas - direita e esquerda - de pedreiro

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Um dia no sertão

Em agosto, como comentei em algumas postagens, trabalhamos no Ceará, na cidade de Crateús. O trabalho aconteceria na comunidade de Pocinhos, um assentamento sem-terra, muito organizado e bem feito, na zona rural.
Ali, todos vivem em harmonia e, logo na primeira vista, pode-se ver que é um lugar diferenciado. Os moradores que ganharam o direito de viver nas terras, não se tornam donos das casas.
- Aqui a pessoa mora, mas a casa é da comunidade. Se um dia ela quiser sair, deixa a chave e nós damos a casa a outra pessoa que precise. - nos comentou o líder comunitário.
Isso é muito salutar, visto que são conhecidos muitos casos de pessoas que vivem na cidade, alugam suas casas e vão para um assentamento. Ao ganhar a terra, a vendem para terceiros.
Antes, para chegar até o local, pegamos uma estrada típica do sertão: de terra, entre a caatinga.



Fomos recebidos calorosamente, mesmo na hora avançada em que chegamos (em torno da meia noite), professores e moradores nos esperavam com um delicioso jantar.
Porém, mesmo com a fome apertando e cansaço, a primeira coisa que todos nós reparamos foi na casa que nos abrigaria. Uma casa branca, grande, espaçosa e com várias redes dispostas para cada um dos voluntários, dentro das quais havia um lençol e um travesseiro. Assim, a apelidamos carinhosamente de "Casas das Redes".



Jantamos, nos despedimos, fizemos ainda um ótimo sonzinho no violão. Haviam 3 deles na equipe. Os dois médicos oftalmos (Bruno e Filipe) também tocavam e o som embalou o sono de toda a turma.
O dia amanheceu, e dormíamos em paz. Poucas horas que revigoram mais do que as muitas que durmo em São paulo.



Ao acordarmos, tivemos mais uma grata surpresa: à frente da casa, uns 50 metros, havia um grande açude, que nos enviava uma suave brisa na manhã do sertão.
Após um reforçado café da manhã, seguimos para a escola onde fomos recebidos por muitas crianças com bexigas e versos carinhosos para os amigos visitantes.



O trabalho fluiu muito bem, a sensação da equipe, de dever cumprido, brilhava nos olhos de cada um, visto que era a última cidade em que trabalharíamos. Fizemos novos amigos e uma festa nos aguardava. Não precisaríamos de mais nada. Nada mesmo. Ainda assim, Deus nos presenteou com um lindo pôr-do-sol. Novamente, nós é quem agradecíamos...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Quer saber como tirar o cheiro de cocô do carro? Pergunte-me como. (O cocô 2 - a revanche / continuação da última postagem)

"Como vai sair esse cheiro do carro?", eu me perguntava, quase suando frio.
Primeira coisa a fazer: checar o tamanho do estrago. Paramos em um posto de gasolina e desci para olhar o quanto tinha pisado. Resultado: muito. Então pedi para meu sobrinho descer e avaliá-lo também. Foi aí que, ao atestar que ele também tinha pisado - em cheio! -, ouvi um lamento do outro lado do veículo. A Ju estava vendo o banco e uma mancha morrom característica. Rezei para não ser, pedi a todos os santos que conhecia por um milagre, até cheirei pra mostrar que tinha fé neles. Mas era.
Um dia, exagerei sem querer em um perfume doce, o que deixou minha esposa com dor de cabeça e enjôo. Resolvi brincar para amenizar a situação:
- A gente pode pegar aquele meu perfume e jogar no carro pra disfarçar o cheiro... -disse com um sorrisinho amarelo.
O tiro saiu pela culatra, ela disse que preferia o cheiro do cocô.
O frentista, muito gente boa, se compadeceu ao ver nossa cara de "fiz merda" ou melhor, de "pisei na merda" e a cara de brava da Ju e lavou a sola de nosso tênis. Eu e o Luquinhas esperamos descalços ali ao lado.
A Ju teve uma ótima idéia, na loja de conveniência do próprio posto, e comprou aqueles lenços umidecidos cheirosos. Aqueles de limpar a bunda de nenêm. Não limparia a bunda de um, mas o produto higienizado seria o mesmo.
Bingo! os paninhos limparam tudo, tanto os tapetes, pisados por mim, quanto o banco, pisado pelo Lucas, e ainda deixou um cheirinho de bosque e não da palavra semelhante a essa.

Resultado: pisou no cocô de cachorro = posto de gasolina, água na sola e lenços umidecidos no estrago.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O cocô

Ah, o cheiro de carro novo! Que delícia! Se um fabricante conseguisse engarrafar a essência e vendê-lo como aqueles perfumes de carro, ficaria mais rico ainda.
Imagine que você comprou aquele bonito carro, novinho, com esse cheirinho. E que você está com ele a pouco mais de uma semana. Entraria nele, sentiria o aroma e aquela suave alegria de quem ralou muito para trocar de veículo.
Imagine que, num feriado, você leve o sobrinho pra passear e, no fim do dia, seu marido e seu sobrinho, antes de entrar no carro, pisem, em cheio, num cocô de cachorro e não percebam.
- Luquinhas, você fez pum? - seria a primeira pergunta a fazer, negada pelo sobrinho.
Pergunta que seria repetida ao marido, que também negaria veementemente.
Mas não pare de imaginar. Imagine ainda que seu sobrinho tem a péssima mania de colocar o pé no banco quando vai se sentar...
Imaginou?
Bom, alguém tem idéia de como tirar cheiro de cocô de cachorro do carro e voltar àquele cheirinho de carro novo?

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Boa ação ou...

Uma amiga internauta, Pétala, disse em um comentário, sobre o atendimento na área da saúde. Realmente, há uma necessidade enorme dos profissionais dessa área tratarem os pacientes da melhor forma possível, fazendo com que se sintam especiais.
Esse seria o básico, o primeiro passo de todo atendimento por um profissional da saúde: cumprimentar a pessoa, saber que antes de uma doença, uma cárie, um problema, temos ali em nossa frente um semelhante que precisa de atenção.
Infelizmente, nos dias atuais, muitas pessoas se esquecem disso e, quando um profissional faz o básico, aquilo que é seu primeiro dever, parece que é algo diferenciado.
Quantas vezes agradecemos muito a uma pessoa uma ajuda, elogiamos e nos impressionamos. "Que cara bacana!". Porém, se a mesma pessoa não se oferece para ajudar quando precisamos, passa direto, achamos o maior absurdo do mundo. Ajudar, tratar bem o próximo, é sempre nosso primeiro dever.
Lembrei-me disso pois ontem, enquanto saíamos de manhã para o trabalho, passei em frente a um hospital que existe na rua de casa. Uma mãe tentava, com muita dificuldade, subir a cadeira de rodas em que a filha estava por uma pequena rampa, que disfarçava um degrau.
- Precisa de ajuda? - perguntei, e a mulher prontamente me deixou subir a pesada cadeira de rodas.
Me agradeceu com um sorriso e segui adiante. Juliana, minha esposa, me disse:
- Já fez sua boa ação de hoje!
Ao que respondi:
- Minha boa ação não, minha obrigação.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Imagens do Brasil: crianças

Começarei no blog hoje a idéia dada por um grande amigo, Rafael Beolchi. Por ser apaixonado pelo nosso país, ele "devorou" as fotos que estão na lateral, que seguem o mesmo nome desta postagem.
- Por que você não fala sobre elas, as circunstâncias em que foram tiradas, histórias...
Boa idéia Beolchi! E a cada uma que retirar, para virar história, colocarei uma nova lá embaixo.
Espero que gostem!

Um grande abraço!
Wolber Campos



Se há algo que emociona, é a inocência de uma criança. Por fazermos trabalhos em escolas, o contato com elas é intenso. A amizade também.
No sertão, elas tem um carinho diferente. É um carinho mais intenso, espontâneo, carente, sôfrego.
São várias as situações em que, quando chegamos, nos avançam, umas quatro ou cinco (ou mais!), e nos abraçam, seguindo dessa forma enquanto andamos até a escola, num fundo musical de risadas e palavras de saudade.
Ainda guardam aquela saudosa infância, perdida na cidade grande, onde brincar na rua de terra, jogar futebol com golzinhos de pedra na rua, empinar pipas, nadar em rios e açudes, faz parte de uma deliciosa rotina depois das aulas.
Não admira que se tornem, futuramente, adultos de paz. Os mesmos que nos abrem as portas de suas casas com todo carinho e hospitalidade.
A velha e boa "hospitalidade sertaneja" começa desde cedo.

* Foto de Luis Salvatore

domingo, 29 de agosto de 2010

À noite

Ele acorda cedo, em torno das 5 da manhã. Desce as ruas da favela em busca do ponto de ônibus que fica lá no asfalto. Sempre apreensivo, cumprimentando com a cabeça aqueles que já foram grandes amigos das "peladas" de infância, quando corriam atrás de uma bola de meia e a vida parecia não ter tantas preocupações. Hoje sim, tem consciência das privações que sua família passa e da violência que o cerca.

"À noite, quando o calor se mistura com a luz da tv preto e branco
À noite, eu quieto dentro de casa ouvindo rajadas de bala"


Entra no ônibus e viaja, no tempo e em pensamentos. Sonha acordado com dia que sua vida vai mudar. E vai mudar, sabe disso. Só não sabe quando. Enquanto isso trabalha muito e, cansado, viaja de volta para seu barraco. Saiu no escuro, volta no escuro.

"À noite, fatos ruins do jornal se unem ao meu cansaço
À noite, o mesmo corpo cansado as vezes se perde em frente à saída"


É duro, sabe, mas entende também que a vitória tem mais gosto com o tempero do suor. Imagina os playboyzinhos que ganham tudo de mão beijada dos pais e não dão valor a isso. Já viu vários se acabando no mundo das drogas, que se esparrama pelas ruas de sua favela. O dinheiro compra a droga, mas não a paz. E isso ele tem. Graças a Deus! Pensa nos antigos amigos, que se enveredaram pelo caminho mais fácil e muito mais perigoso: o do crime.

- Mano, a sociedade é injusta! O nego rala que nem um condenado pra tirar uma merreca por mês. No tráfico eu ganho 3 vezes mais! - cansou de ouvir.

Já pensou muito no assunto, e chegou à conclusão que índole, nasce com a pessoa. Não existe essa história de "a miséria empurra para o crime". Tem muitos amigos do bem, que são tão pobres como ele e decidiram escolher o caminho correto. Isso é desculpa de quem já era "torto". A favela tá abarrotada de gente honesta.

"Mesmo assim eu paro e agradeço
Por eu não fazer do rancor minha vida
Por ainda acreditar no poder do amor
Revolucionário e salvador
Amor que me tirou a arma da mão
E me deu mais essa canção"


E assoviando uma melodia, deita a cabeça, leve, no travesseiro duro e amarrotado. E dorme em paz.

video

Texto e estilo inspirado no blog Mulher na Polícia
Música: À noite - O Rappa, de 1994

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O espelho

Às vezes, quando estou dirigindo e preciso mudar de faixa, digo:
- Vou acionar o acelerador de carros ao lado. - e ligo a seta.
É uma realidade incrível. Muitas vezes - digo até que a maioria delas - quando damos a seta, o carro que vem na faixa ao lado acelera, quase inconsciente, não nos deixando entrar.
Hoje, até olho isso com naturalidade. Antigamente até reclamava, mas hoje apenas constato e, involução minha, xingo mentalmente...
Ontem vinha para o trabalho num trânsito paulista de tão cheio. Porém, andava, e era carro de um lado, motos voadoras passando por entre eles, caminhões soltando fumaça, carros velhos com seus escapamentos fazendo um barulho de dar inveja a muitos aviões, enfim, aquela maravilha.
Meio atrasado eu acelerava quando podia, pensando em chegar na hora certa. Um carro deu seta à minha direita, logo à frente, querendo entrar no espaço que tinha entre o meu e o próximo veículo. Esperei sem diminuir a velocidade e, como ele demorou um pouco para entrar, acelerei, o impedindo de mudar de faixa, o que ele conseguiu, mas apenas uns quatro carros atrás de mim.
Naquele instante me lembrei da velha máxima: "antes de criticar, se olhe no espelho".
Ontem, na visão do outro motorista - e minha -, eu fui o chato que sempre acelera quando alguém dá seta.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A dúvida

A zona rural de Crateús, é um dos lugares com mais cara de sertão que eu conheço. Com suas ruas de terra, cercas de galhos retorcidos retirados da caatinga e bodes desfilando pelas ruas, tocando seus alegres e calmos sinos, temos a impressão de entrar diretamente pelas fotos dos livros de história.



Já trabalhamos nessa cidade, há alguns anos e fizemos grandes amigos. Sempre somos recebidos de forma maravilhosa e, dessa vez, não foi diferente.
Na segunda noite, houve uma grande festa na comunidade de Curral do Meio, onde trabalhamos nos anos anteriores. Ficamos surpresos ao chegar em uma recém-construída pizzaria. Ela estava cheia de gente, a mesma banda de forró que tocara na noite anterior também estava ali e na rua muitas pessoas preenchiam cada espaço, nos dando a impressão de que toda a comunidade estava presente.
- Isso aqui nunca tem não, é só porque vocês vieram. - me disse um alegre menino.
Foi uma noite agradabilíssima, o céu completamente estrelado, a lua cheia fazia sombra mais forte do que as luzes fracas que "alumiavam" as casas. O sanfoneiro "rasgava" a sanfona. Até que ela se aproximou. Do alto de seus 11 anos, sorriso aberto, me cumprimentou. Havia tratado de seus dentes em outra oportunidade e feito grande amizade com toda a turminha, alegre e esperta, que ficavam o dia todo brincando em meu improvisado consultório na sala de aula. Até que, depois de um tempinho, me disparou:
- Sabe que eu gosto e não gosto de você, ao mesmo tempo?
Aquilo me pegou desprevenido. Não entendi e perguntei o porquê.
- É porque quando vocês vem, é uma alegria danada, todo mundo fica muito feliz, mas aí vocês vão embora e a gente fica muito triste.

O texto poderia acabar aqui. Seria uma bela demonstração do carinho que recebemos, não fosse um assunto que sempre converso com amigos de estrada. É comum, quando partimos, ver crianças e amigos chorando, o que nos deixa alegres pela amizade verdadeira demonstrada, mas com o coração apertado. Imagine a dor de um tio, deixando seu sobrinho chorando porque ele está se mudando. Algo assim.
Então perguntei:
- Mas então, é melhor ter conhecido, gostar muito e dar essa saudade doída na hora de ir embora? Ou é melhor nem conhecer e continuar como se nunca tivesse visto?
- Ah, é claro que conhecer... - disse com seus olhinhos tristes.
Eu mesmo, tenho que pensar antes de responder.

domingo, 22 de agosto de 2010

Xixi nas calças

Chegamos hoje (domingo, dia 22/08) de mais um trabalho. Tiveram muitas emoções (como diria Roberto Carlos), reencontros de amigos e escolas, histórias que gostaria de escrever. Mas a primeira que me veio, foi a que mais dei risada.
Em Crateús-CE, tivemos uma recepção maravilhosa, como sempre. Há anos, realizamos trabalhos sociais nessa querida cidade e fizemos grandes amigos. Após o primeiro dia de trabalho na comunidade de Pocinhos, eles nos presentearam com uma festa incrível, na casa onde estávamos hospedados. Uma banda de forró tocava em nosso quintal. Mas o melhor: era uma banda de forró de verdade. Não esse que faz mais sucesso hoje em dia, o brega eletrônico. Tocavam o verdadeiro pé-de-serra, aqueles que animavam festas assim, nessa região, desde o começo do século passado.
Eram quase duas da manhã quando pararam de tocar. Foi cedo. Além do meu violão, haviam mais dois na casa. Os dois médicos oftalmologistas, que relizavam exames e prescreviam óculos - que serão entregues na próxima visita - também tocavam, mas já estavam dormindo em suas redes. Fomos acordá-los.
Chegamos no quarto, começamos a tocar músicas e, até que eles levantassem, continuamos ali. Vários amigos em volta. Bruno e Felipe - os oftalmos - se sentaram, preparando-se pera pegar seus violões.
Alfenas, que estava sentado ao meu lado, começou a cantar e cochilar, quase ao mesmo tempo. Repousou seu copo de cerveja na coxa direita, apoiado pela mão, e dormiu.
Sem perceber, enquanto tocava, bati o violão em seu joelho - estava sentado numa rede, por isso mais baixo - que automaticamente empurrou sua perna para o lado, virou o copo que segurava, derrubando a cerveja sobre o zíper de sua bermuda.
Acordando num susto pelo líquido gelado que escorria perna abaixo, levantou sem graça e saiu rápidamente porta afora, dizendo:
- É... acho que está na hora de dormir. - Não olhou para ninuém e saiu, pensando que havia mijado nas calças na frente de todos.
Nem conseui terminar a música. Gargalhávamos.
Fomos muito amigos, não o deixamos o tempo inteiro achando que havia feito xixi nas calças. Apenas três dias. Hoje contei no almoço. Ele, é claro, deu muita risada.
Na verdade, penso que foi mais de alívio, do que de graça.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Relembrando

O texto anterior me lembrou de outras postagens sobre o assunto. A cobra é um animal que, reamente, nos impõe grande medo.
Em viagens pelo interior do Brasil, sempre ficamos atentos, pois muito são os casos e histórias que nos são contadas de acidentes com picada de cobra, como o caso do Pedrinho.
Outra foto, foi de uma viagem que fizemos a Canudos, na Bahia. Em uma visita à vizinha cidade de Monte Santo, subimos na famosa igreja, reconstruída no século 19 por Antônio Conselheiro, que fica no Alto do Morro.
Logo na subida da enorme escadaria, nos deparamos com uma cobra coral. Ainda bem que era falsa!



Mas a mais impressionante, foi a cascavel que encontramos na estrada. Quando postei essa foto em outro blog, houve uma pessoa que nos criticou, dizendo que éramos desumanos, havíamos matado o animal.
Na verdade, não a matamos. Estávamos numa estrada, se não me engano no Tocantins, quando vimos a enorme cobra enrolada no esfalto escurecido pela negra noite que se erguia. Não havia um carro na deserta estrada, encostamos para vê-la. Estava morta, atropelada por algum carro a minutos atrás.
Se me lembro bem, a pobre cascavel tinha em torno de doze anos - número de voltas em seu guizo. A história toda está aqui.
Uma cobra extremamente venenosa. Sem perigo naquele momento, mas topar com uma dessas viva deve ser assustador.
Que nos diga Pedro, da história do primeiro link acima...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A cobra

Ela nunca pensaria em ter uma, até que lhe ofereceram. A quantia não era pouca, mas uma sucuri bebê, realmente, era algo inusitado. O vendedor, era um homem estranho, mas disse que não havia problema algum.
- É assim que é bom, criando desde pequenininha ela vai gostar de você. - disse, com um sorriso amarelo.
Levou a cobra para casa, era linda. Nunca havia sequer ficado perto de uma. "Pelo menos não é venenosa", pensou.
Os dias foram passando e a cada vez mais se afeiçoava ao animal. Começou a se sentir excêntrica ao comprar ratinhos para sua cobra comer. Parecia uma roqueira famosa, com seus hábitos estranhos. Não ligava, até gostava.
Meses se passaram e o amor pela sucuri aumentava, e era recíproco, tinha certeza. Tanto que passaram a dividir a mesma cama.
Certo dia acordou e olhou para o lado. Achou estranho. Sua cobra estava dura, esticada, bem próxima ao seu corpo. "Por que será, ela sempre dormia enroladinha?", pensou confusa. A cada dia era a mesma coisa. Cogitou perguntar a algum amigo, mas a chance de ouvir uma brincadeirinha sem graça, por acordar com uma cobra dura ao seu lado, a desencorajou...
Depois de uma semana, o fato se repetindo, foi procurar um veterinário. Ele não faria piadinhas sobre a cobra. Contou a história toda, o amor pelo animal, alimentação e o fato que se repetia toda manhã. Ele ouvia paciente e, assim que ela terminou, deu-lhe uma enorme bronca. Não podia criar um animal silvestre em casa, comprar de contrabandistas que maltratam os bichos, os trazem da mata em caixas fechadas e para cada animal vendido vivo, dezenas de outros morreram pelo caminho.
Ela ouvia em silêncio. "Preferia as piadinhas", chegou a pensar, mas logo concluiu que ele tinha total razão. E assim, o profissional completou:
- E para finalizar, te mostrando o perigo de ter um animal desses em casa, você sabe por que ela acordava daquele jeito todos os dias?
- Não senhor.
- Estava te medindo. A sucuri come algum animal quando consegue engoli-lo por inteiro. Assim que o comprimento ultrapassasse o seu, ela se enrolaria em seu corpo enquanto você dormia e te apertaria até sufocar. Depois, tentaria te engolir. Inteirinha!
Foi depois disso que decidiu deveolver seu amado animal para a mata. O medo seria maior que a saudade...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Doca

Ele chegou humilde, cara de sono e sanfona nas mãos. O conhecemos nessa noite, no sertão de Alagoas. aliás, uma noite inesquecível, onde uma simples rodinha de violão se transformou em uma apresentação do puro trio de forró nordestino.
Depois deste dia, travamos grande amizade. Doca é um sanfoneiro especial. Ainda novo, toca - e tem a voz rouca - como aqueles antigos sanfoneiros, que você percebe o amor pela música saindo pelos poros, como suor. E o que admiramos, logo de cara, é que é um jovem que tem correndo em suas veias o forró raiz.
Hoje, a nova geração, incrivelmente, conhece pouco de Luiz Gonzaga. É difícil de acreditar, mas nós, da equipe, que somos de São Paulo, conhecemos quase tudo do rei do baião e onde quer que vamos, pedimos músicas e incentivamos às pessoas a ouvirem esse estilo, que faz parte da cultura brasileira.
Quando Doca viu que gostávamos do Gonzagão, mandou uma atrás da outra, para nosso delírio. No dia seguinte, a pequena comunidade em que estávamos - o Quandu, em Poço das Trincheiras - AL - só falava no som da madrugada anterior. Pedíamos desculpas pelo grande barulho, ouvido léguas adiante.
- Que que é isso, meu filho. Mas foi bom demais, dormir ouvindo aquele sonzinho gostoso! Fazia muito tempo que não acontecia uma coisa dessas por aqui... - ouvimos frases semelhantes de várias pessoas.
Voltamos alguns meses para trabalhar ali e Doca não estava. Trabalhava, naquela época, em outra cidade. Em nossa terceira visita ele apareceu logo de manhã na escola.
- Olha, marcamos um show pra vocês na quadra, de noite! Vai ser grande o negócio! - disse contente e nós, ficamos mais ainda.
De noite choveu. A maioria dos professores desistiu de ir à quadra e a banda pensou em cancelar.
- Tá maluco?! - disse o Luis - Vamos assim mesmo. Se tem a cobertura pra banda estaremos lá!
Foi uma noite fantástica, nunca tínhamos visto um forró de sombrinhas. Nem sei se já existiu algum. Mas na quadra, vários casais dançavam embaixo de seus guarda-chuvas e a banda tocou até altas horas.
No fim da noite Doca nos disse:
- Olha, eu nem sei como agradecer. O respeito que todos tem por mim hoje, eu devo a vocês, por aquela noite. Antes, poucos davam alguma importância pra mim. Hoje todos me chamam, me cumprimentam e me convidam para todos os eventos. Muito obrigado mesmo. - disse. Os olhos cheios de lágrimas.
Como naquela noite em que o conhecemos, dia seguinte acordamos muito cedo para trabalhar, mas, lembrando das palavras de Doca, empolgados, como se tivéssemos descansado por horas e horas.


Doca, com sua amada sanfona, na noite em que a chuva caía prazerosamente sobre o sertão

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Xou da Xuxa

- Xuxa, me dá um beijo? - ela perguntou, não conseguindo esconder a felicidade em encontrar sua ídola, na última sexta-feira.
Essa frase foi ouvida, incessantemente, pela famosa "Rainha dos baixinhos" na década de 80 e 90. E ainda hoje a atinge, mesmo sem um programa diário ou exposição massiva na mídia, como há anos atrás. Isso confirma a áura de sucesso que teima em acompanhar Xuxa por toda sua vida.
O que torna ainda mais interessante, é que a "baixinha" que pediu o beijo na sexta passada - com olhos emocionados de alegria - era minha esposa, Juliana, de 30 anos de idade. Num evento da Monange, no qual foi convidada pelo trabalho, tirou fotos com a bela ex-apresentadora.
Os antigos baixinhos cresceram, mas continuam seus eternos fãs.
- Ela era tão "ícone" para a gente, que o sonho de cada garota era ser Paquita. Ninguém pensava em ser a Xuxa, ela era única, uma deusa. Queríamos ser paquitas para ficar ao lado dela. - completa Juliana, segurando orgulhosa sua foto, como um troféu.
E assim se segue. Meu sobrinho de 7 anos a adora, minha sobrinha de 5 também. Dudu, filho do Luis com a Dani, de 3 anos, é apaixonado e canta suas músicas. Penso que pelos dvds, visto que não há mais um programa na tv.
alguma pessoas vieram para brilhar. Xuxa é uma delas.

O "troféu"


Juliana, ao centro, ainda ganhou um abraço de Xuxa. "É muita emoção!" rs

sábado, 7 de agosto de 2010

MPB

Quando mais novo, lembro de assistir a alguns filmes nacionais e pensar “é por isso que muitos gringos imaginam que no Brasil não existem grandes cidades”. Pequenas casas do interior, florestas e sertão povoavam nossos filmes e mostravam ao mundo a cara de nosso país que, na época, eu imaginava errônea.
Como um morador de uma metrópole (nos moldes de uma Nova York), acreditava que São Paulo era o Brasil de verdade. Um país de cidades grandes, que também tinha seu lado interiorano. Hoje percebo como estava errado. Este é um imenso país, riquíssimo em belezas naturais, com suas casas simples, pessoas amáveis e fortes, com cara de interior, que tem seu pequeno lado megalópole, com seus arranha-céus colossais e trânsito caótico.
Assim é com a música popular brasileira. O termo que se popularizou, MPB, hoje define um estilo característico, liderado por Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e toda uma nova – e boa! – “safra” de músicos como Ana Carolina, Zeca Baleiro, Jorge Vercilo, e por aí vai. Porém, se nos atentarmos ao sentido real da palavra, a música popular brasileira definiria outro estilo.
“Popular” significa “do povo”, que está no gosto da maioria da população. Seria a música escutada e cantada pela maior parte de nossa terra. Me desculpem os fãs da MPB (me incluo neles também), mas o estilo que definimos no parágrafo anterior é escutado por uma pequena parte dos brasileiros.
Perguntemos no Piauí, por exemplo, em qualquer cidade, e é claro que eles conhecem Gilberto Gil, e podem até ter ouvido falar nessa nova geração – o que eu acho pouco provável -, mas poucos os escutam.
O que deveria ser definido como música popular brasileira seriam bandas como Djavu, Moleka 100 Vergonha, Anjo Azul e muitas outras, que lançam uma música num dia e, no mês seguinte, ela é tocada em todos os bares, cantada em festas e suas coreografias estão decoradas por todas as meninas, dos 5 anos (isso mesmo, vimos crianças novíssimas com gingado de fazer inveja a muita adolescente) até onde as “juntas” permitirem.
A cada viagem que fazemos uma nova música está “estourando”. É incrível, um botequinho toca durante horas a mesma música, no esquema “loop” do aparelho de CD. Voltamos para casa com aquele som na cabeça, meses depois, ao voltarmos, perguntamos sobre aquele som e ninguém mais quer saber dele, já há outro nas “paradas”.
Bandas que aprendemos a gostar – o que foi mais difícil para mim, amante de rock – e respeitar, que cantam, num ritmo característico que tem, bem lá no fundo, uma raiz no forró de nosso eterno Luiz Gonzaga. Fazem shows que lotam estádios inteiros e movem caravanas de várias cidades.
A nomenclatura já está definida, não mudará. Mas para mim, hoje, a música popular brasileira tem outros representantes.

sábado, 31 de julho de 2010

Homem-problema

Eles estão por toda parte. Temos que torcer para não cruzar com um deles. Mas como? São tão comuns quanto procurar alguém de olhos azuis. Uma hora você vê um.
Um lugar fácil de encontrar esse "ser" é em um supermercado, ou banco, em qualquer lugar que haja uma fila e que seja necesário um mínimo de paciência. Ah, paciência é algo que ele - ou ela, deixemos bem claro - não tem.
- Ai meu Deus do céu, como é lerda... - geralmente fala alto, para todos da fila ouvirem, inclusive a pessoa que trabalha duro, durante horas, no caixa.
Quem trabalha com público, vez ou outra encontra um deles, e aí, é só rezar...
Um dia ele entrou em meu consultório. Sorriu e eu, idiota, acreditei naquele sorriso. Ainda dei sorte, ele gostou de mim. Nunca reclamou diretamente comigo, com o mundo em volta sim, mas comigo não. Pensando bem, não dei sorte, dei azar. Quando o homem-problema não gosta de você, sai de perto e azucrina outro.
Fiz uma prótese para ele. Ficou boa (modéstia à parte), mas na semana seguinte ele estava lá.
- Olha, isso tá machucando muito! Não dá pra usar não! - disse, agressivo como sempre.
Eu, ainda inocente - não sabia ainda o que era um homem-problema, muito menos que aquela criatura se tratava de um dessa espécie - ajustei a prótese e o marquei para semana seguinte. Muito antes ele estava de volta.
- Essa "chapa" não tá boa não. Tá machucando tudo! - disse e xingou o protético (pessoa que constrói a prótese no laboratório). Me elogiava - já disse que, por azar, ele gostava de mim? - e "descascava" no pobre profissional que tinha feito tudo certinho.
O pior é que eu examinava e via sua mucosa, realmente, machucada. Na verdade, não é que o HP (decidi parar de repetir "homem-problema", é muito grande e pode até atrair...) inventa essas coisas, mas ele tem a incrível capacidade de atrair problemas.
Na semana seguinte, a peça, em vez de vir na sua boca, veio em sua mão. Havia quebrado o grampo de metal. No final das contas, fiz outras duas próteses para ele e não cobrei. As três não tiveram bom ajuste. Perguntava a mim mesmo, onde eu errava. Foi quando me veio a resposta. Num dia de ajuste - devia ser o de número 452, se não me engano -, perguntei se ele estava bem.
- Bem nada! Essa semana fui ao hospital, pra me operar. Fiquei nervoso, minha pressão subiu e não puderam fazer a cirurgia. Aí piorei, fiquei mais nervoso ainda e tiveram que me internar... - e prosseguiu. Havia mais desgraças em seu relato. Mas eu não me lembro, ainda bem.
Foi ali que tudo ficou claro como água: o problema não era eu ou a prótese. Era ele! o HP atraía, e atrai, tudo para si.
Meses depois o vi embaixo da porta de outro dentista. Ele ficou completamente sem graça ao me ver.
- Ooooh, meu amigo. Eu vou passar com a Dra. Ciclana para ver outra prótese. Olha, o seu trabalho é muito bom, mas é que aquele protético...
Eu disse que ele estava certíssimo. Que eu fiz tudo o que podia e não consegui ajudá-lo, teria melhor sorte com outro profissional.
Saí sorrindo. Parecia que havia tirado um peso de toneladas sobre meus ombros. Mas fiquei com uma dó da Dra. Ciclana...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Histórias d(n)o Lixo: O eletro-imã (por Valter lima / Wolber Campos)

Na usina de compostagem em que Valter trabalhava, o intuito era separar apenas o lixo orgânico - vendido posteriormente para agricultores, por exemplo -, retirando de seu interior todo material inorgânico, passível de reciclagem.
Foi uma grande alegria, quando conseguiram instalar o sonhado eletro-imã. Este, se tratava de um imã gigante, suspenso sobre a mesa que, ligado, atraía de uma vez, quase todo material metálico misturado ao lixo, facilitando muito o trabalho dos separadores que se dividiam por toda a mesa. Assim voavam do montante tampinhas, pregos e moedas, muitas moedas. No final do dia, elas totalizavam em torno de 50 reais.
Com o novo aparelho operando, Valter começou a fazer, toda manhã, um saboroso café para todos os funcionários. Pão, leite, suco, faziam a festa de todos, criando um bom ambiente para começar o trabalho.
Para declarar tudo, e não haver problema, fez um ofício à prefeitura, comunicando sobre o dinheiro encontrado e o destino que estava sendo dado ao mesmo. Demorou quase seis meses para obter um retorno da área jurídica, que dizia "o dinheiro é público e não deve ser usado para esse fim." E, o truculento texto, encerrava ordenando que o café deveria acabar imediatamente.
Incrédulo, nosso amigo fez outro ofício, perguntando então se era possível usar o tal "fundo público" para a aquisição de alguns materiais necessários para o escritório, como impressora e fax. Mais seis meses de espera por mais uma resposta negativa. E, para piorar, não davam uma indicação do que poderia ser feito com tal dinheiro.
Valter, todos os dias, apenas juntava as moedas e colocava em tambores de metal de 200 litros, os enchendo como cofrinhos de crianças ituanas.
Após mais uma negativa da prefeitura - e de encher 8 tambores de 200 litros com moedas! -, conversou com uma amiga advogada pública.
- Olha Valter, eu trabalho há anos aqui e sei como funciona. Se eu fosse você, pegava todo esse dinheiro, depositava direto na conta da prefeitura e deixava essa história de lado. Pode acabar dando problema para você. - ela orientou.
Assim ele fez. Depois de levar 8 tambores cheios ao banco, ouvir reclamações do gerente dizendo que não aceitaria aquilo - "você tem que aceitar, é dinheiro!", disse Valter -, pôde trabalhar em paz.
A prefeitura desligou o eletro-imã, devido à burocracia, moedas continuaram a ir embora e os separadores de lixo nunca mais tiveram seu gostoso café-da-manhã.

terça-feira, 27 de julho de 2010

O macho

Tenho dois pacientes, bom, na verdade, graças a Deus, tenho mais que dois pacientes, mais o que eu queria dizer, é que entre eles, existem dois com características opostas. Um delicado e um machão.
O primeiro, homossexual assumido, é extremamente simpático, delicado e sorridente. Sensível, dá a impressão que se eu falar mais ríspido em sua direção, ele sentaria e começaria a chorar.
O segundo, daqueles machões, no melhor estilo "troglodita", é grande, para cima e para o lado - não de gordo, mas de forte -, fala pouco - e grosso -, cara sempre fechada. Bravo, dá a impressão que se eu falar mais ríspido em sua direção, ele sentaria a mão em minha cara!
O primeiro se sentou em minha cadeira e logo me disse que dispensava a anestesia. Não por medo, mas não gostava da sensação de dormência que "segue horas e horas depois da consulta". Fui removendo a cárie e, a cada momento, a broca se aproximava mais do nervo. (esse texto parece filme de terror, não?)
- Prefere que eu anestesie? Não quero que você sinta dor... - perguntei.
Ele, impassível, dizia que estava tudo bem e que poderia seguir adiante. Assim terminei uma cárie enorme, sem anestesia e, o pouco que sentiu, ele se controlou perfeitamente. Saiu sorrindo como entrou.
O segundo se sentou, poucas palavras, me disse o dente que queria restaurar e também dispensou anestesia. Meio sem graça, admitiu que morre de medo da agulha. Comecei e, ao primeiro toque, deu um pulo.
- Puta que o pariu!!! - bradou, como se um palavrão, bem colocado, disfarçasse sua pouca demonstração de coragem.
Resmungou a dor que sentiu, e só faltou coçar o saco e cuspir de lado. Continuei, e após mais um grito, um xingamento ao "motorzinho dos demônios", resolveu deixar que eu anestesiasse.
É amigos, nessa hora vemos muitos fortões se contorcerem mais que criancinhas indefesas. Como diria o Metállica: "Sad but true".
Acabei o serviço, não antes de outros sustos, que eu percebia se tratar mais de medo do que dor, pela pequena cárie removida.
Saiu como entrou, falando pouco, agora com a mão no queixo, como quem sai de uma sala de torturas.
Naquele dia o macho foi outro.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Amanhã - Terça, dia 27/07/2010

Amigos, amanhã será o lançamento do livro "Caminhos de um Brasil Solidário", com fotos e histórias do nosso país, de todas suas belas regiões. Todas são ligadas ao trabalho social que o Instituto Brasil Solidário realiza por nossas terras.
As imagens são dos fotógrafos - irmãos e coordenadores do IBS - Luis e Ana Elisa Salvatore. Vale a pena conferir!
Estaremos na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, à partir das 18:30h.
Será um prazer recebêlos lá!
O convite segue novamente abaixo.

Grande abraço!!

Wolber Campos

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Duas gotas

O que são duas gotas? Quase nada. Uma total indiferença. Imaginamos duas solitárias gotas em um copo. "Está vazio", diríamos.
Duas gotas, na maioria dos casos, passam despercebidas, como dois grãos de areia em uma praia. Porém, em um caso, a diferença é tão brutal que pode significar a linha tênue entre a vida e a morte, assim como um mísero segundo, antes ou depois, pode significar o encontro com um carro ao atravessar a rua.
Hoje, atendi Francisco. Um homem de 37 anos, simpaticíssimo, alegre, que chegou em meu consultório em sua cadeira de rodas, carregada nos braços de dois amigos que a subiram pelos muitos degraus que levam até minha sala.
Ele não anda, possui o braço esquerdo com grande limitação de movimentos e o direito com alguma dificuldade.
- E doutor, já estive muito pior. Até a cabeça era mais difícil de mexer e eu babava muito. Era um babão! - comenta e solta uma alegre risada.
O destino de Francisco o levou para essa situação por causa de duas gotas. Míseras -ou colossais - duas gotinhas que, na época certa, o faria subir as escadas do meu consultório saltitando e me cumprimentar de pé, sem limitação alguma.
Hoje, com a enorme campanha anual por todos os cantos do país, a paralisia infantil está praticamente erradicada. Nos anos 70, ainda mais na roça do interior de Minas Gerais, onde nasceu, essa não era a realidade.
Tratei dele por um bom tempo, tentando adiantar ao máximo que pudesse o tratamento, pois sei da dificuldade de locomoção e trabalho para seus amigos o carregarem escada acima. Tempo que fiquei pensando em como essas duas gotas poderiam ter mudado o destino do jovem e alegre Francisco.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Hospitalidade sertaneja

- Vocês podem pousar lá em casa essa noite!
Assim nos disse seu Nilo, um sertanejo típico, desses que usam a camisa de botões aberta, uma calça surrada e saudável que só. Não aparenta, nem de longe, a idade que tem. Apesar de ter seus setenta anos, passa facilmente por cinquenta e poucos.
Estávamos em São Raimundo Nonato, cidade do sul do Piauí, que abriga a famosa Serra da Capivara. Um lugar "mágico", patrimônio da humanidade e que exibe um conjunto fantástico de pinturas rupestres, espalhadas por seus ancestrais paredões, nítidas, como se estivessem sido pintadas há poucos anos atrás.
O hotel em que estávamos hospedados, ficava a alguns quilômetros da escola de zona rural em que trabalhamos. O bairro Pé do Morro. Ainda hoje temos amigos que nos consideram (e são considerados) da família por lá. Quando os moradores nos ofereceram suas casas para uma boa noite de sono, ficamos felizes.
Seu Nilo levou-nos - eu, Luis e Ana Elisa - para o interior de sua casa. Entramos por uma pequena porta e passamos uma sala com duas cadeiras de balanço - feitas com tiras de plástico - e um pequeno corredor, onde haviam duas entradas, uma a sala de televisão, onde uma simpática senhora, que a assistia, nos cumprimentou, e a outra seria meu quarto e do Luis.
- Vocês não "arreparem" não, a casa é de pobre. - nos pediu humildemente seu Nilo.
Dissemos que, muito pelo contrário, a casa estava linda e agradecíamos a hospitalidade. Afastamos a cortina, que funcionava como a porta, e entramos no quarto, muito limpo e bem arrumado.
"Seu Nilo preocupado em ser um quarto simples e está mil vezes mais arrumado do que o meu!", pensei.
- Vocês querem banhar? Eu busco água "proceis". - nos disse -. Só que a água tá em falta, eu pego do poço, mas é um pouco "salobra*"...
- Não tem problema nenhum, seu Nilo. - respondemos, loucos por um banho. O calor do Piauí estava violentíssimo e nosso estado fazia frente a ele.
Fui o primeiro, enquanto pendurava minha toalha no banheiro, vi seu Nilo chegando com um enorme balde de água e um pote de plástico. Na outra mão uma toalha, caso eu precisasse. Tomaria um bom banho de cumbuca, comum em muitas casas pelo sertão.
Agradeci ao nosso anfitrião, coloquei o balde no chão e vi. Não pude acreditar e comecei a dar risada sozinho. No balde, repleto de água, nadavam três peixinhos, bem pequenos. Estavam ali, traquilos, na água em que eu tomaria banho. Quando olhei o vaso sanitário, que estava ao lado, comprovei: Haviam mais dois nadando ali dentro, com a calma de quem nem imagina onde está. "Ignorance is bliss"
Tomei meu banho, sempre com muito cuidado para não pegar um peixinho na ex-caneca de leite que usava para me banhar. "Com meus cabelos enrolados, se cai um peixinho aqui só vou encontrar o fóssil décadas depois!", pensei rindo.
Acabei o banho, renovado, limpo, e saí com a toalha nas costas sorrindo como quem saiu de uma ducha relaxante de um hotel de luxo. Mas não era. Era um banho muito, mas muito mais gostoso.

*Salobra: modo como o povo sertanejo chama a água, um pouco salgada, dos poços ou lençóis freáticos