quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O futuro professor

Roberto e Jamis andavam pela praça de sua cidade, no sertão do Maranhão. Era uma noite de segunda-feira e, àquela hora da noite, os poucos bares já estavam fechando. Porém o som de um violão vindo de um canto chamou sua atenção.
Naquele banco, com uma garrafa de cerveja ao lado, estavam dois caras tocando e cantando. Com toda a certeza, eram de fora. Resolveram parar para ouvir.
Música vai, música vem. Papo vai, papo vem. Rapidamente fizeram amizade e depois que o barzinho da praça fechou resolveram seguir até um posto, onde achariam alguns petiscos para comer e continuar a prosa.
Os dois forasteiros adoravam conversar com pessoas da região, fazer amizades e engataram uma animada conversa enquanto caminhavam. Quando o assunto chegou no futebol, Roberto se mostrou um grande conhecedor. Não só de seu time, como de todo o campeonato brasileiro e até sobre o Santos, time de um dos rapazes de São Paulo. Este ficou impressionado com o conhecimento futebolístico de Roberto e - erroneamente - pensou que aquela cultura toda poderia ser focada em algo mais produtivo. Ainda aprenderia muito naquela noite...
Ao passarem em frente a uma igreja Roberto soltou:
- Aqui nessa cidade o que mais tem é Igreja e bar. Mas sou um pouco decepcionado com a religião, sabe. A Igreja fez muita coisa errada na história. Se você pegar Galileu, por exemplo, que teve que renegar tudo o que tinha descoberto (que a terra gira em torno do sol) e foi preso por causa disso, a Inquisição, as fogueiras...
Os forasteiros ouviam aquilo impressionados e o santista ficou feliz em ter queimado a língua, ou melhor, o pensamento...
Ficaram sabendo que Roberto tinha parado de estudar para trabalhar, mas voltou este ano para terminar os estudos e realizar seu sonho: ser professor de história.
Jamis, que ouvia a tudo com atenção, acabou de tomar sua garrafa de refrigerante e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, a jogou num terreno baldio ao lado.
Os dois paulistas pararam e explicaram que aquilo não era legal. Que eles tinham uma cidade linda, com cachoeiras e natureza abundante. O pior que poderiam fazer é deixar que sua cidade ficasse tão feia e suja como uma cidade grande.
- Não leve a mal, é que trabalhamos com isso em escolas, conscientizando as pessoas para a reciclagem do lixo e melhorar o meio ambiente. - completou o outro.
Jamis não só entendeu como, àquela hora da noite, passou a procurar no meio do mato aquela garrafa perdida e quando a achou ergueu-a triunfante, como se fosse um troféu. Andou ainda muitos metros com a garrafa suja nas mãos e quando encontrou um lixo a colocou dentro, dizendo:
- Agora sim ela está no lugar certo!
Para alegria de todos e fechar a noite com "chave de ouro" Roberto finalizou sua aula:
- Pois é, como dizia Lavousier: "na natureza nada se cria e nada se perde: tudo se transforma."

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A primeira impressão

Ainda bem que a primeira impressão não é a que fica. Uma boa segunda visita pode facilmente fazer sumir aquela imagem ruim que tínhamos. Tenho grandes amigos hoje que, ao conhecer, não pensei que o seriam.
Minha primeira estada no Maranhão, no ano de 2004, foi assim. Já sabia sobre as mazelas locais, miséria, pobre educação, a infeliz presença - forte até hoje! - do coronelismo, mas imaginava que os trabalhos correriam como em outras comunidades carentes. Não ocorreram.
À primeira vista tudo ocorria normalmente: muitas pessoas nos aguardando em frente à escola, crianças correndo ao lado do carro, escola muito simples enfeitada. Porém, assim que desci do carro e me preparava para ajudar a descarregar o caminhão, percebi que algo poderia dar errado. Em minha frente estavam três mulheres, daquelas bem mal-tratadas pela labuta ao sol. Mulheres que não podemos nem arriscar "chutar" sua idade; muitas vezes nos surpreendemos ao imaginar moças, na casa dos vinte anos, como se estivessem perto dos quarenta.
Uma, que estava pouco mais a frente, olhou para mim e disparou:
- Cadê as cestas básica?
Se há algo que não gostamos de associar ao nosso trabalho é "entrega de cestas básicas". Este é o maior exemplo do assistencialismo e, por mais que muitos possam me criticar, é algo que não muda a realidade da pessoa e ainda por cima sempre gera problemas na hora da distribuição.
Disse que não existiam cestas a serem distribuídas, que o trabalho seria diferente, com atendimentos médicos e odontológicos, oficinas e... -
- Ah. eu não quero nem saber! Quero a minha cesta básica! - disse me cortando.
Imaginei que aquele poderia não ser um bom dia.
Naquela época de atendimentos ainda não tínhamos o Odontoportátil, que possibilita fazer restaurações mais completas, e fazíamos apenas um procedimento rápido de curetagem das cáries, portanto o número de atendimentos era enorme e as filas idem. Logo após o almoço um amigo entrou na sala dizendo: "Wolber, pode parar com os atendimentos. Tá dando a maior confusão lá fora!"
O número de pessoas era tão grande que tivemos que distribuir senhas, do contrário não conseguiríamos ir embora aquele dia e essa distribuição estava gerando um pequeno tumulto.
Sai da sala e a escola parecia um caos. Fui ajudar a distrair as pessoas que se apinhavam em frente à sala usada como farmácia - os medicamentos doados eram distribuídos conforme a receita de nossos médicos-.
"Adesivos?", perguntei para o Erik que deu uma risada como quem diz "É o que temos...".
Peguei os adesivos, cético de que conseguiria tirar todo aquele pessoal da frente da sala.
- Quem quer adesivo? - gritei.
Adultos, jovens e crianças me olharam e começaram a caminhar em minha direção. Eu, inocente, feliz que o plano tinha dado tão certo, os levei para o outro canto do pátio.
Desgrudava um pequeno adesivo do Instituto e o colava na esta de uma criança, outro do Palmeirinha (piloto do Rally que nos apoia) e dava a um adulto, mais um para um adolescente e assim seguia, tentando ser cada vez mais rápido.
Mas não tão rápido quanto o número de pessoas que apareciam, vendo que algo estava sendo distribuído ali e vinham tentar ganhar o que quer que fosse, mesmo sendo um pequeno pedaço de papel colorido que em breve perderia sua cola e viraria lixo.
Minha preocupação aumentou demasiadamente quando havia tanta gente que começaram a empurrar, me espremendo contra a parede. E ao meu lado haviam muitas crianças. Era assustador.
Quando vi que meus gritos de calma e pedidos de organização não faziam o menor efeito e as crianças estavam prestes a se machucar gritei:
- Chega, acabou!! Não tem mais adesivos!! Vocês não vêem que aqui tem crianças se machucando? - estava tão nervoso que nem pensei no perigo de brigar com aquele sem-número de pessoas afoitas.
Me dirigi para alguma sala para deixar os "sonhados" adesivos e a turba me seguia, como se não acreditassem que eu realmente pararia a distribuição.
Deixei os maços de adesivos numa sala fechada e todos se dispersaram.
Foi um dia atípico de trabalho. Um dia assustador. Que nos deixou ainda mais desanimados com o poder público, por existir uma situação como aquela.
Ainda bem que anos mais tarde conheceríamos Nova Iorque e Balsas no Maranhão. Cidades em que temos grandes amigos até hoje, o que nos faz sempre sentir saudades de voltar para lá.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A fé

Ela ia andando com seu rosário entre os dedos, balbuciando algo inaudível (pelo menos para os outros mortais). Já havia esquecido a dor de seu pesado fardo; apenas orava, apreciando a calma e ternura que aquelas palavras, como um bálsamo, acariciavam sua mente atribulada.
Outros a observavam de longe. Céticos. Quase ateus (eu disse "quase") comentavam entre si a inutilidade daquela cena. Mais prudente seria arregaçar as mangas, esbravejar, tentar resolver no braço e no grito aquela situação.
Mas a calma senhora nem os notava. Nem precisava. Certo ou errado, não importava. Sua prece já havia cumprido o doce objetivo de lhe acalmar o coração.
Anjos a escutaram? Deus? O poder da mente? O que importa a resposta?
Os céticos é que se preocupem com isso.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O sertanejo

Na volta para Crateús, uma cidade onde nos sentimos em casa, reencontramos um amigo especial. Escrevi sobre Bastião duas vezes ("Bastião" e "A mão") e ficamos, realmente, muito felizes ao vê-lo adentrando a escola. Estava acompanhado de seus dois itens inseparáveis: o pandeiro e o sorriso.
Entre abraços, conversas e - é claro - músicas, fiquei sabendo um pouco mais sobre sua vida e, consequentemente, a de muitos moradores do sertão.
Para um morador de uma cidade grande, tão costumado com a correria e stress que inconscientemente - e inconsequentemente - nos empurram atrás de uns trocados todos os dias de nossas vidas, não pensava ainda na força da agricultura de subsistência.
Bastião é assim: vive cuidando de sua roça. "Todo dia, meu amigo, desde os oito anos de idade!", diz orgulhoso. Planta milho, feijão e verduras, o excedente troca com os vizinhos. Tudo apenas para consumo próprio e de sua família. Não ganha um real, vai trocando o que lhe sobra.
Seus dois filhos - hoje adolescentes - já o ajudam na lida diária.
- Graças a Deus tenho dois filhos de ouro, que gostam de me ajudar e hoje já posso descansar um pouco mais.
Cria seus poucos gados num curral atrás de sua casa. Mas também não tem pretensões de aumentar a criação para vendê-los. Para quê? O que tem já é muito para seu sustento e de sua família. E com esse estilo de vida se tornou um excelente pandeirista e ostenta um puro e sincero sorriso.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Os 15 dias

Foram quinze dias intensos. Muito trabalho, viagens longas, reencontro com amigos, novidades (apresentações de seminários), alguns passeios e até uma festa de formatura no Maranhão, tão comentada neste blog (como na postagem abaixo).
Enfim, tudo que amo fazer e que me faz uma pessoa mais feliz. Estou de volta. Sorrindo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Nunca é "apenas" mais uma viagem

Domingo, dia 8, estaremos novamente na estrada. O IBS continuará o trabalho Amigos do Planeta, em conjunto com as Casas Bahia, no Maranhão, Piauí e Ceará.
Nunca é "apenas" mais uma viagem. Um dia meu irmão me perguntou, depois de tantos anos trabalhando no sertão: "Mas não é sempre a mesma coisa?".
Não, nunca é a mesma coisa. Cada viagem nos sentimos empolgados como se fosse a primeira! Em lugares novos é sempre uma ótima experiência, conhecer cidades e culturas diferentes, e em locais pelos quais já passamos, reencontrar grande amigos que fazemos é um prazer enorme. Isso sem falar o principal: fazer o trabalho mais gostoso do mundo: o social.
Porém esta etapa tem um gostinho ainda mais especial. No Maranhão, passaremos na cidade de Nova Iorque, onde fizemos mais que amigos: somos da família. Nossa família maranhense é a da professora Régea, cuja bonita história contei aqui no blog a tempos atrás. Ela e seus irmãos (Bruno, Glorinha e Andressa) nos chamam de irmãozinhos e seus pais nos recebem como filhos.
No lar, onde a luz elétrica ainda não chegou, nos sentimos em casa. Acordamos com os pássaros e, com o sabonete e shampoo nas mãos, andamos ao ar livre, até o poço, onde retiramos a água para um delicioso banho de moringa sob o céu - quase sempre azul -, no box de tijolos construído no quintal.
Como disse no outro texto, este ano Régea se forma em letras e fazia questão (nós também) de que estivéssemos presentes. Por um momento isso quase não foi possível, estaríamos no meio da viagem e ainda não haveríamos chegado em Nova Iorque. Mas ela não desistiu até mudar a data da formatura para o dia exato em que estaremos na cidade.
Será um dia inesquecível, onde nossa "irmãzinha" receberá seu sonhado diploma e nós, como bons irmãos mais velhos, estaremos presentes e orgulhosos!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

De volta

É incrível como somos guiados pela nossa aparência. Muitos podem fingir, e até se enganar, que não dão a mínima ou que pouco se importam com o visual. Mas nossa imagem vai muito mais além do que ser ou não ser vaidoso.
Ela nos insere ou expulsa de um meio, nos enturma ou repele de um grupo e isso antes mesmo das pessoas raciocinarem sobre o fato. Como aquela pessoa com quem "vamos com a cara" ou evitamos no primeiro sorriso que dá ao nos cumprimentar.
Contei a pouco tempo um caso do amigo dentista Wanderson, em que ele teve a grande alegria de melhorar a vida da Joanita, apenas lhe fazendo uma prótese nova. E essa viagem foi realmente marcante para ele. Mais uma surpresa numa cidade mais à frente.
Quem me conhece sabe que acredito que somos meros instrumentos para realizar projetos maiores - a história "mão de Deus" é um exemplo do que penso - e em Sergipe tivemos mais uma prova.
Geralmente, quando atendo numa sala de aula, costumo deixar que as crianças fiquem em volta observando, assim acabam perdendo o medo e ainda aprendem olhando para as enormes cáries que os amiguinhos tem. Porém, muitas vezes, a bagunça fica enorme e Manolo (nosso braço direito e esquerdo na área odontológica) tem que pedir pra todo mundo sair da sala.
Num desses momentos de paz e silêncio perguntei ao Wanderson: "te atrapalha se eu chamar a criançada para entrar de novo?". Disse porque tem pessoas que não gostam, se sentem incomodadas pelo barulho. Ele disse que não e a sala voltou a ficar cheia.
Terminando uma moldagem de uma mocinha de 14 anos que não tinha um dente da frente perguntou se ela conhecia outra menina com o mesmo problema. Esta respondeu negativamente, mas uma aluna que estava ao lado, apenas observando lançou:
- Eu conheço, espera aí que vou chamar! - e saiu em disparada pela porta.
Voltou alguns minutos depois com uma garota de 15 anos, sem os dois incisivos centrais (os dentes da frente).
A história nos emocionou. Não julgo o dentista que extraiu seus dois dentes, pois não sei como estavam, pode ser que precisassem mesmo serem removidos. Mas não consigo entender como um profissonal pode extrair os dois dentes da frente de uma mocinha de 15 anos e não fazer uma prótese para reabilitá-la. Mesmo que ela não tivesse dinheiro, é inconcebível!
Wanderson a moldou de manhã e fez algo inédito no trabalho até então: confeccionou uma prótese provisória no mesmo dia, pra que ela use até que a outra chegue, daqui a alguns meses. Procurando em seus materiais se havia alguns dentes de resina para usar, encontrou dois incisivos centrais, exatamente da mesma cor e tamanho de que a garota precisava! E olha que ele não costumava levar dentes de sobra, mas pensou que eu pudesse usar alguns se desse problemas nas próteses que eu havia colocado nas cidades anteriores.
Filmei e tiramos fotos do caso e de noite, na pousada, ligamos a máquina na televisão, analizando cada detalhe. Era incrível como ela mudava de expressão antes e depois da prótese. Seu olhar era como se estivesse vago, sem profundidade, antes e depois tivesse ganhado novamente vida.
Uma moça que voltou a ser bonita e a se sentir novamente inserida em sua pequena comunidade escolar. Tudo por um pequeno pedaço de prótese que segurava dois felizes dentes de resina.

O vídeo que fiz é o bastidor da entrevista que o grande amigo Víctor Pinduca (nosso cinegrafista) fez com Wanderson, mostrando este caso: http://www.youtube.com/watch?v=PkAJIVI9kus

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A melhor religião

Recebi um e-mail com este texto. Resolvi publicá-lo pois representa exatamente o que penso sobre o tema.
Vale a pena...

Breve diálogo entre o teólogo brasileiro Leonardo Boff e o Dalai Lama.

Leonardo Boff explica:

"No intervalo de uma mesa-redonda sobre religião e paz entre os povos, na qual ambos (eu e o Dalai Lama) participávamos, eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico, lhe perguntei em meu inglês capenga:
- "Santidade, qual é a melhor religião?" (Your holiness, what`s the best religion?)
Esperava que ele dissesse:
"É o budismo tibetano" ou "São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo."
O Dalai Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olhos - o que me desconcertou um pouco, por que eu sabia da malícia contida na pergunta - e afirmou: "A melhor religião é a que mais te aproxima de Deus, do Infinito". É aquela que te faz melhor..."
Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta, voltei a perguntar:
- "O que me faz melhor?"
Respondeu ele:
-"Aquilo que te faz mais compassivo" (e aí senti a ressonância tibetana, budista,
taoísta de sua resposta), aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado, mais amoroso, mais humanitário, mais responsável... Mais ético...
A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião..."
Calei, maravilhado, e até os dias de hoje estou ruminando sua resposta sábia e irrefutável...
Não me interessa amigo, a tua religião ou mesmo se tem ou não tem religião.
O que realmente importa é a tua conduta perante o teu semelhante, tua família, teu trabalho, tua comunidade, perante o mundo...
Lembremos:
"O Universo é o eco de nossas ações e nossos pensamentos".
A Lei da Ação e Reação não é exclusiva da Física. Ela está também nas relações humanas. Se eu ajo com o bem, receberei o bem. Se ajo com o mal, receberei o mal.
Aquilo que nossos avós nos disseram é a mais pura verdade:

"terás sempre em dobro aquilo que desejares aos outros".

Para muitos, ser feliz não é questão de destino.

É de escolha.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Pão e Circo

Durante um jogo de futebol do Campeonato Brasileiro vi meu irmão mais novo se revoltando contra seu time de coração. Eu não o recrimino, sou santista desde criança e me chateio quando meu time dá vexame. Porém algo me incomoda quando vejo muitas pessoas indo muito além disso.
Como escrevi alguns textos atrás é triste quando brasileiros colocam seu time na frente de tantas outras coisas mais importantes. Quando eu era criança ouvia uma frase que hoje me faz sentido: "esse deixa de comprar o leite das crianças para comprar o ingresso do jogo...".
Repito: nada contra o futebol em si. Eu amo este esporte! Só gostaria que ele fosse visto assim: como um esporte.
A humanidade vem evoluindo, milhares e milhares de anos, e, infelizmente, algumas mazelas também.
Na época do Império Romano, décadas antes de Cristo, os imperadores inventaram uma grande "sacada", o Pão e Circo. Como desfocar o povo do que acontecia no Senado? Joguem pães e dêem diversão que eles se distraem...
Incrível o grau de evolução que essa máxima chegou aos dias atuais. O mesmo pão e circo ainda persiste, só que hoje o povo não tem o pão e ainda paga pelo circo!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Hino Nacional

Quem não se lembra da Fafá de Belém cantando o Hino Nacional (e ele deveria sempre ser escrito assim, com letras maiúsculas!) quando morreu Tancredo Neves? Ou mesmo num jogo de futebol da seleção brasileira quando é tocado ao vivo.
Ele sempre nos emociona - só não quando é cantado pela Vanuza... - e deveria ser tocado em todas as escolas do nosso país. O cidadão quando é patriota se torna muito mais ético e não teríamos tantos desvios de dinheiro se nossos políticos fossem patriotas.
Em Cabaceiras-PB ganhamos um lindo presente na abertura dos trabalhos na escola: um aluno (infelizmente não sei o seu nome) nos tocou o hino no saxofone. Tive até que parar de gravar a segunda parte para aproveitar ao máximo naquele momento. Segue abaixo. Uma maravilha!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Flores, crianças e música

Fim de semana estava num churrasco na casa de um amigo e num certo momento comecei a bater um papo com a sua avó. Muito simpática e inteligente. É sempre ótimo conversar com "vózinhas", elas (ou eles, os vôzinhos) tem uma experiência riquíssima de vida e no mínimo ficamos impressionados com descrições de uma época em que nem sonhávamos nascer - nem nossos pais.
Ela nasceu em 1925. "Mil novecentos e vinte e cinco... Meu Deus, tinha acabado a Primeira Grande Guerra fazia pouquíssimos anos.", pensei. Sem contar que viveu numa época em que nosso país florescia. Era um Brasil que parecia decolar, na música, literatura, esportes. Ouviu o lançamento de Chega de Saudade e da Bossa Nova, leu textos diários do Nelson Rodrigues no Jornal do Brasil, sofreu com a derrota do Brasil na Copa do Mundo de 50, no Maracanã.
Ah, que época boa! Ninguém imaginaria que passaríamos anos de trevas após o golpe militar.
Depois de um ótimo papo fui para casa e no dia seguinte encontrei uma outra "vózinha", esta, minha tia-avó. Numa conversa bem tranquila, enquanto ela nos agradecia pelas flores que a presenteamos me disse uma frase certeira:
- Meu filho, quem não gosta de flores, crianças e música que não seja meu amigo!
Não sei se eu terminaria assim a frase, mas tenho que concordar que exageros à parte ela encerra uma tremenda verdade.
Nada como a sabedoria dos mais velhos. Vamos, literalmente, vivendo e aprendendo.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Os três macacos

Num fim de semana fiz um passeio muito bacana - fui conhecer o Templo Budista de Cotia. Um lugar muito bonito, visual bem bucólico e por onde andamos cruzamos com monges em suas túnicas laranjas que transpiram paz.
Lá revi um desenho que conheço desde criança, porém só naquele dia fiquei sabendo do real significado: os três macacos sábios.
Na verdade, quando os vi, ainda não sabia que eram sábios e isso mostra o quanto eu não sou nem um pouco. Sempre pensei que eram os macacos, um cego, um surdo e um mudo e nem imaginava o porquê.
O budismo é realmente uma doutrina linda e diz a lenda que o símbolo dos macacos foi introduzido por um monge séculos atrás e significa: não falar o mal, não ver o mal e não ouvir o mal.
Gandhi sempre levava consigo uma pequena escultura com os três macacos, para estar sempre atento aos ensinamentos.
E realmente, como a vida pode ser melhor se simplesmente uma pessoa ignorar as coisas más. Deixar uma fofoca ou comentário maldoso entrar por um ouvido e sair pelo outro ou simplesmente segurar aquela reclamação que quase escapa da boca no trânsito.
Comprei um amuletinho com os três macacos. Eles agora me olham da mesa do meu consultório. Bom, pelo menos dois deles...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Os carrões

Era mais um dia comum, como os outros de trabalho no sertão: crianças com cáries enormes e alguns dentes que já não mais havia o que fazer: canal exposto ou indicados para extração.
E como em outros dias eu perguntava a algum adulto como era o atendimento odontológico no posto de saúde da região.
"Eles estão sem material lá, por isso só estão arrancando."
A resposta também era comum, já a havia escutado em outras cidades. Mas dessa vez doeu um pouco mais. Não sei se, como numa pancada leve no mesmo lugar, várias vezes, o incômodo vai se tornando insuportável, ou se estou ficando velho, mas naquela hora deu vontade de ir até a prefeitura e esbravejar. No fundo sei que de nada adiantaria...
O que resolveria era a comunidade se reunir e protestar em frente aos homens do povo, para que eles fizessem juz a esse nome. Mas como estava ali para trabalhar e não para agitar passeatas resolvi tentar fazer minha parte e continuar trabalhando.
Mas não parei de pensar como um prefeito não tem peso na consciência, ou como pode nem tê-la. O gasto com material odontológico em um mês não deve chegar a 500 reais em um posto do interior (e estou chutando alto!). O que é esse valor para um prefeitura? E não me venha niguém falar que algumas cidades são muito necessitadas, pois mesmo nas mais precárias já vi prefeito descer de uma Hi-Lux zero. Quanto sai um carro deste por mês entre impostos e combustível - e nem comento o preço de compra -. Então que troquemos o carro importado por um Uninho zero (pode até ter ar-condicionado!). Eu como "chefe da cidade" me orgulharia de desfilar num carro popular e colocar material no posto de saúde.
Não generalizo. Há prefeitos que hoje tranformaram em lei projetos que implantamos em algumas escolas (como o escovódromo e escovação diária), o que nos enche de orgulho e felicidade. Agora muitos outros...
Temos então que fazer uma campanha: Abaixo a Hi-Lux e viva o Uninho!!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O pagamento

Retornamos de viagem na última sexta-feira. Foram 21 dias na estrada, em um trabalho que nem eu, nem nenhum de meus amigos, conseguimos mais deixar de fazer.
Em uma dessas cidades conheci Joanita. Já a havia conhecido na etapa anterior, sempre prestativa, nos ajudou muito, principalmente cuidando de nossas refeições, na escola e na pousada.
Porém não tive o prazer de atendê-la em maio, quem o fez foi Wanderson, dentista, protético, grande amigo e parceiro de viagens. Ele realiza moldagens e confecciona próteses a serem entregues em outra visita. E foi assim que conheceu Joanita, que tinha uma dentadura quebrada que a incomodava a muitos meses.
Mas tive o prazer de entregar a prótese pronta a ela, já que emu amigo não pode estar nessa cidade (estaria nas duas seguintes). E assim acabei recebendo o pagamento por ele. Não, nós realmente não cobramos pelas próteses, mas o que recebi foi muito maior do que qualquer um jamais poderia pagar com sua carteira: um agradecimento emocionado e os olhos cheios de lágrimas. Tento repassar o "valor" recebido ao grande amigo.
Joanita retirou a prótese antiga, quebrada, que ainda machucava sua boca. Colocou a nova e abriu um sorriso largo, expontâneo, sem que ao menos eu tivesse tempo de pedir isso a ela.
"- Nossa, que alívio, meu filho..." - disse ainda de olhos fechados.
Passei o espelho para que ela pudesse ver o resultado e perguntei se havia gostado. Com os olhos cheios de lágrimas me respondeu:
"- Meu filho, eu fiz essa prótese antiga com um homem que não era dentista, faz muito tempo, e ela começou a me machucar muito. Você sabe o que é pensar que está com câncer? Pois foi o que me disseram desse machucado, que eu tinha que fazer uma dentadura nova com um dentista de verdade.
Mas como? Faço bicos quando aparecem, fiz o almoço e jantar de vocês e consegui 15 reais. Não sou aposentada, não trabalho, como posso juntar dinheiro para pagar uma nova?
Foi Deus quem colocou vocês aqui nessa comunidade pra ajudar a gente. Que Ele ilumine sempre o caminho de vocês..."
Disse e começou a chorar.
Me senti muito feliz pelo Wanderson, por fazer parte da equipe e por, simplesmente, receber aquelas palavras de agradecimento.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Deus e eeeeeu, no sertãaaaao...

Pois é, mais uma etapa do trabalho no sertão. Estamos de saída hoje (até por este motivo estou com uma pressa danada. Sempre arrumo a mala aos 45 do segundo tempo...) para o trabalho do Intituto no sertão. será o mesmo trajeto que percorremos em maio.
Tentarei escrever algo durante o percurso.
Voltamos em breve!

Grande abraço!
Wolber Campos