quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O super-herói

Quando falamos em super-heróis, pensamos em uma entidade, de uniforme, sua vontade imensurável de melhorar o mundo e caráter inalterável. Eu definiria um herói de outra maneira, com atitudes positivas, bondade no coração aliada à ação, para tornar o mundo melhor.
Porém, meses atrás, conheci um, nos moldes originais, inclusive nos uniformes que usa para evidenciar sua luta pelo bem.
Alguns podem não entender, outros julgar sem perceber a real pureza das ações e idéias deste benfeitor. A humanidade tem seus devaneios. Muitos vivem dizendo que Jesus Cristo vai voltar e que este tempo está prestes a acontecer. Se Ele nascer novamente entre nós, como da primeira vez, não escolheria um berço de ouro, e sua mãe daria a luz em um simples casebre, uma favela. Quando um homem muito pobre, viesse dar seu testemunho de ser o Cristo, provavelmente seria ridicularizado e perseguido por todos das igrejas que hoje o clamam. Assim como a história mostrou lá atrás.
Sendo assim, como querer que todos possam enxergar um super-herói.
Mas ele está lá, firme em sua luta, na cidade de Palmeiras, interior da Bahia. Índio Gladiador - "gladiador do meio ambiente!", ele completa - é um brasileiro que tem no sangue a vocação de cuidar do planeta. Daquelas pessoas que vendo um lixo esparramado sobre um terreno não reclama ou perde sua calma, segue até o local e pacientemente recolhe todo o entulho, mostrando aos que estão em volta que a melhor lição é fazer a sua parte.
Não vive só de ações silenciosas, educa a todos que pode, ensina as crianças sobre o perigo do lixo para toda a humanidade e incentiva a todos para a reciclagem dos materiais. Assim, de sua própria ação, criou vários tambores de coleta seletiva e espalhou pela cidade. Com grande parte do material constrói utensílios ou artesanatos, os quais vende para se sustentar. O restante leva para o GAP (Grupo Ambiental de Palmeiras), que fazendo uma comparação com a história em quadrinhos seria a Liga da Justiça, onde trabalham outras pessoas de bem, como Joás, mais um herói de nosso país.
Ele mesmo constrói suas armaduras, com latas, pedaços de garrafa pet, tampinhas de plástico, anéis de metal. E anda praticamente o tempo todo uniformizado, para chamar atenção para o problema do lixo e a importância da reciclagem.
Incrível como a vida imita a ficção, pois nosso amigo encontra até vilões pela frente:
- Outro dia eu estava recolhendo lixo na beira de um córrego e um homem disse que eu era louco de ficar fazendo aquilo. Eu disse que queria deixar o mundo um lugar melhor, ele saiu e voltou com um montão de lixo e jogou ali perto. - disse e com uma paz inalterável comentou que pacientemente juntou todo o lixo que o rapaz jogou mais algumas vezes, até que mostrasse que a sua vontade de fazer o bem era superior a do outro de fazer o mal.
Assim ele segue sua luta. Dia a dia buscando molhorar o planeta em que vive para que os pequeninos tenham um lugar mehor para viver no futuro.
Índio, eu acreditava em heróis. Depois de te conhecer, passei a acreditar em super-heróis!

Foto: Luis Salvatore

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Nem um metro

Eu estava atendendo sua filha, quando ela me perguntou:
- A última vez que vocês vieram aqui foi em outubro do ano na passado, não foi? - concordei e ela continuou - Eu não pude trazer a minha filha porque quase morri! - disse séria.
Perguntei o motivo e ela contou sua história. Mora perto da escola, em Tamboril, sertão do Ceará, mas costuma acompanhar o marido na roça, onde ele trabalha com plantação. Andando pela trilha, não percebeu a grande cobra cascavel que estava no caminho. Pisou no perigoso animal que no reflexo a atacou.
- Foi tão rápido que nem deu para ouvir o guizo da bicha. As vezes andando a gente ouve ela avisando e desvia, mas acho que nem ela tinha me visto.
Não era a hora de Josefa morrer, alguns fatores a ajudaram.
- Primeiro eu dei sorte que ela não mordeu em cheio, acertou meu dedo do pé, mas só com um dente. Depois, ela tinha acabado de matar um rato do mato, soltado a maior parte do veneno nele. E por último, que minha filha estava perto e correu pra me acudir. - completou.
E foi muita sorte mesmo. Alguns segundos após o susto da picada, sua vista começou a escurecer. A filha correu em sua direção enquanto se apoiava no mato rasteiro ao lado da trilha, matou a cobra e a levou rápido para o socorro.
Pela gravidade do caso, mesmo sendo uma pequena cidade, foi resgatada de helicóptero para a capital, onde ficou internada por uma semana.
Na mesma viagem, duas cidades a frente, em Primavera, no Pará, terminei tarde o trabalho. Só restava na escola eu, Manolo - grande amigo que me ajuda na área da saúde - e o vigia da escola. Havia sido um dia cansativo. Fui até o escovódromo e joguei água no meu rosto, como para recobrar as energias, me espreguicei, e fui à frente da escola, ligar para casa. Ao voltar para me despedir o segurança disse:
- Olha, acabei de matar uma urutu ali atrás das torneiras. - disse com a normalidade de quem diz que  comeu uma tapioca.
Urutu é uma cobra bem venenosa e me preocupei por ser dentro da escola, onde há centenas de crianças durante o dia. Ele a havia matado onde eu havia acabado de lavar o rosto.
- Mas era pequenininha, não tinha nem um metro.
Lembrei da história da senhora de Tamboril. "Não tinha nem um metro", era o que eu precisava ouvir para ficar bem tranquilo...

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Caridade

Muitas pessoas chegam a mim e comentam a vontade de ir ao sertão, ajudar as pessoas, fazer caridade. É, realmente, uma experiência singular e recomendo a quantos possam ir um dia ao menos, que embarquem nessa idéia. Porém, a caridade verdadeira não é encontrada somente lá.
Já vi pessoas, nesses anos de trabalho, que viajaram dias ao nosso lado, se emocionaram, conheceram, viveram. Mas de tudo, aproveitaram o superficial, uma experiência fantástica, mas só isso. Tenho amigos em São Paulo, que quase nunca saíram daqui, e são de um amor ao próximo de se emocionar, que exercitam a caridade a todo momento.
Para falar a verdade, uma cidade grande é um prato cheio para exercitar essa virtude, e em sua forma mais pura, pois na magia do sertão, em meio a pessoas boas, carentes, é mais fácil. Difícil é ser caridoso imerso nas preocupações do cotidiano, num caos social, em meio à bagunça sob o medo da violência.
Mas atitudes simples nos tornam uma pessoa melhor. Poucos lugares oferecem mais possibilidades de fazer uma caridade como o trânsito. Tentei, mas perdi a conta de quantas pessoas pediram passagem no trajeto ao meu trabalho. Quantas vezes ajudamos e damos passagem? E nem digo que devemos deixar todos que dão seta a entrar em nossa frente, pois no trânsito de São Paulo fazer isso é quase ficar parado e não pensar na pessoa que está atrás de você. Digo ajudar algumas pessoas a saírem de situações difíceis no trânsito, quando a verdade é que há uma grande competição, como se motoristas fossem adversários.
Quantos pedintes sofridos que vemos pela rua, nos pedindo dinheiro. Caridade não é dar uma moeda, mas um cumprimento com vontade, carinho, mostrar que você se importa com ele (a), quando a maioria das vezes, ele (a) acha que ninguém se importa. Isso, por si só, pode liberar uma alegria nesta pessoa, um bem estar tão positivo ao seu coração, que nenhuma nota conseguiria.
Pra mim, fazer caridade é dar descarga naquele vaso imundo de um banheiro público, pensando que a próxima pessoa que o usará não terá aquela visão horrível que você viu.
A caridade verdadeira não está lá no sertão, porque está dentro de cada um. Pode-se ir até lá e voltar do mesmo modo que foi, pode-se viver em São Paulo e ser uma pessoa melhor. A cada dia.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Brasil, BRICs e populismo


Há mais de oito anos viajamos pelo sertão do Brasil. Desde as cidades mais estruturadas até as localidades mais isoladas onde dormimos em casa de moradores que não possuem banheiros. Já ouvi algumas historias sobre fome e miséria, assim como a seca que ainda hoje dificulta a vida de muitos brasileiros. Eu mesmo, em tanto tempo visitando locais diversos, nunca presenciei uma cena trágica dessas, apesar de saber que elas existem, assim como a miséria debaixo das pontes e nas grandes periferias dos grandes centros urbanos.
Porém já vi muitas historias de comerciantes que não conseguem registrar seus funcionários, pois assim eles deixariam de ganhar o Bolsa Família. Pessoas que me contam fatos sobre meninas que engravidam para ganhar o auxílio maternidade. 
Em uma palestra no início do ano, Jim O'Neill - economista chefe do banco de investimento Goldman Sachs -, que criou o termo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) designando as futuras potências econômicas do planeta, disse que, infelizmente, em pouco tempo o famoso grupo tem grande chance de ser apenas RIC. O Brasil poderá sair desta projeção pois, de todos os integrantes, é o único que não investe pesado em infra-estrutura e educação, dando prioridade a políticas populistas e investindo grande volume financeiro em ações de curto prazo, como ajuda financeira para empresas ou baixando impostos para vender mais carros, por exemplo. 
Hoje não temos desculpas para usar políticas como o bolsa-família. Investir dinheiro público com intuito de ganhar votos na próxima eleição é um atentado contra o próprio povo! Estamos perdendo a oportunidade de lançar o Brasil na onda de desenvolvimento e torná-lo um dos fortes países das próximas décadas.
Até quando o país será regido por homens que pensam apenas no que fazer para estar no poder daqui a quatro anos, e não no que fazer para sermos um país melhor daqui a dez?
Como cantava Luiz Gonzaga nos anos cinquenta, em meio a uma seca que castigava o sertão e gerava uma miséria digna de auxílio. Agradecia o auxílio de roupas e dinheiro para os sertanejos, mas pedia aos políticos para investirem na infra-estrutura, em empregos:

"... mas doutor uma esmola a um homem que é são
      ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão".

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Um profissional exemplar (por Carlos Fonseca)

Certa vez me fiz uma pergunta, e que talvez já tenha sido feita por muitas pessoas. “- Por que é tão difícil acordar pela manhã?”
E a resposta me veio da maneira mais surpreendente que poderia imaginar, e me serviu inclusive para elucidar a definição de “profissional exemplar”. Tudo começou quando em mais uma manhã de trabalho parei em um semáforo próximo de casa, fim do verão, por volta das 6H10 da manhã. Um garoto que aparentava os seus vinte e poucos anos, de semblante simples e sorriso no rosto, se aproximou do meu carro e colocou acima de meu retrovisor um pequeno pacote com algumas balas e seguiu dizendo:“-Bom dia senhor!” , após aguardar um certo tempo o garoto retirava o pacote com as balas e dizia com o mesmo sorriso e empolgação: “- Muito obrigado, tenha um bom trabalho”.
Seria um acontecimento qualquer para a rotina de um paulistano que percorre mais de 80 Km por dia e passa por mais de 15 semáforos, mas este singelo evento se repetia com a mesma motivação todos os dias, no calor, no frio, em dias de chuva, inclusive nos feriados. E o que mais me deixava surpreso era a pontualidade e a dedicação do rapaz, que nos 4 meses seguidos esteve naquele mesmo local com a mesma motivação e o mesmo sorriso todos os dias da semana.
Não vou negar que comprei as balas algumas vezes, principalmente nos dias de chuva, e assim como eu muitas pessoas faziam o mesmo, acredito até que aquele pequeno “comércio do farol” lhe ofereceu um importante retorno financeiro. Acontece que determinado dia não o encontrei mais, e assim seguiu por algumas semanas e meses, e tal foi minha surpresa quando encontrei outro garoto no mesmo lugar, com a mesma “estratégia” de venda e com uma motivação parecida. Foi então que tive a ideia de questionar o novo vendedor a respeito do paradeiro de seu antecessor, e o mesmo me disse:
- Ele é meu irmão, um dia um de seus clientes o convidou para trabalhar em uma empresa, está ganhando bem e está muito feliz.
Dei um sorriso, agradeci os esclarecimentos, e me enchi de orgulho ao lembrar de toda dedicação que aquele garoto ofereceu ao seu comercio informal, do quanto ele teve que superar a vontade de permanecer na cama nos dias de chuva e frio, mas sempre se colocou motivado e confiante. Esta simples história me fez refletir sobre a maneira com a qual as pessoas encaram o trabalho, tornando o seu dia-a-dia muitas vezes cansativo e estressante, ao invés de encarar com motivação e comprometimento, ingredientes facilitadores para o crescimento e satisfação profissional. Mas uma coisa não posso negar, de fato aquele garoto é um profissional exemplar.

Carlos Fonseca é dentista, tem 28 anos, e realiza projetos sociais em São Paulo ("Sorria Jd. Capela") e pelo Brasil com o "Bandeira Científica" da USP.

sábado, 28 de julho de 2012

Portugal

Temos muito a agradecer a Portugal. Claro que na história de nosso Brasil foram cometidos erros, excessos e muitas coisas erradas que levamos décadas e mais décadas para acertar. Outras, até hoje ainda sentimos.
Mas a história só pode ser julgada quando nos colocamos nas circunstâncias históricas da época vivida. Em um tempo mercantilista, de nações de reis e nobres materialistas, seria difícil pensar em uma metrópole que não explorasse as riquezas de uma imensa colônia como foi o nosso caso.
Pensemos nos fatos positivos. Como um país incrivelmente pequeno em sua extensão territorial manteve uma colônia gigante intacta, mesmo em meio a tantos países poderosos e com frotas marítimas assustadoramente superiores à sua decadente frota, em uma época em que nações agiam como piratas, conseguiu manter a união de todas suas capitanias.
A forte Espanha - que dominou Portugal por alguns anos naquela mesma época - perdeu o controle de todos os seus territórios (divididos no tratado de Tordesilhas) que se tornaram todos os países diferentes que nos circundam.
A vinda da família real para as terras brasileiras, em 1808, ajudou a manter a união, mesmo em meio a tantos movimentos separatistas do nordeste ao Sul.
Nossa independência foi realizada aos poucos, mas sem que precisássemos derramar sangue sobre nosso solo, como ocorreu em tantos outros países.
Se hoje podemos viajar mais de 4.000 quilômetros, verificando as mais diferentes paisagens, observando as diferenças culturais de cada estado, cada povoado, histórias, e tantas diferenças que tornam o Brasil um dos países mais ricos do mundo, temos que reconhecer a grande contribuição de Portugal.
E incrível o grande carinho que percebemos recíproco entre brasileiros e portugueses. Como nações irmãs que reconhecem a importância enorme que um exerceu na história do outro.
Aqui fica o carinho, de um homem que exalta todo o amor que tem pelo seu país, ao outro, que como um irmão mais velho, o guiou para sua formação.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Brasil e suas culturas

Um país imenso e rico, não só territorialmente, mas, principalmente, culturalmente. Viajar pelo Brasil é mergulhar no mais profundo oceano de variedades regionais. Seja nos diferentes sotaques e entonações de um mesmo português (que deveria se chamar língua brasileira), seja nos folclores e histórias de cada estado.
No trabalho que estamos realizando na região norte e nordeste tivemos uma "injeção" de cultura musical incrível! Saímos da cidade de Tamboril, no sertão do Ceará, visitamos Crateús, onde já implantamos um intenso projeto nos últimos anos, seguimos para Barreirinhas, no Maranhão, e finalizamos em Quatipuru, no Pará.
Sempre digo que fazer um trabalho social, é receber mais do que se doa, e esta é uma das provas. A maioria dos locais, gratos por receber pessoas que vem de outros estados para contribuir com experiências ou atendimentos em sua cidade, prestam homenagens, com apresentações culturais, seja do seu folclore ou músicos locais. E em menos de vinte dias vivenciamos a diversidade que existe em estados ou cidades vizinhas.
Tamboril é uma cidade curiosa. Se localiza no alto da Serra das Matas, ponto mais alto do Ceará. Apesar de estar no sertão, costuma fazer um frio intenso, principalmente de noite. Em nossa última noite no local, organizaram um show. Seria uma banda de forró. Não o que nós chamamos de forró - o nosso grande Luiz Gonzaga, para a população mais jovem, toca o pé-de-serra -, mas o que nossos amigos locais chamam, que é o estilo brega (famoso com bandas como Calcinha Preta, Moleka 100 Vergonha e outras).
Após o último dia de trabalho seguimos para a quadra de futebol da comunidade. Estacionado em frente havia um grande caminhão e em cima da caçamba toda uma estrutura de caixas e instrumentos montados, ao estilo de um trio elétrico simplificado, e pela noite seguiu o estilo brega, cantado por um rapaz acompanhado de um teclado.
Dia seguinte passamos em Crateús, onde verificamos os trabalhos implantados nas escolas da cidade, e dormiríamos na comunidade de Pocinhos, um organizado assentamento que deve ser um exemplo a ser seguido no seguimento para todo o país. Ali há a querida Casa das Redes, onde nos receberam com a alegria de sempre e uma surpresa: o grande sanfoneiro Zé, nos aguardava com uma banda. Além de sua sanfona, seu filho no teclado, um triângulo, uma zabumba, havia no lugar de um vocalista, um senhor tocando pífano, uma simples flauta que desenhava toda a escala melódica das famosas músicas de Luiz Gonzaga. Uma beleza que tocava fundo nossa alma. No piso de terra à frente da casa, casais dançavam o forró, o verdadeiro forró, levantando, literalmente, poeira. Uma cena que lembra qualquer foto de festa da região do começo do século, bastava esquecer os fios, caixas de som e as roupas mais modernas. A essência estava ali: igual!
A próxima parada seria em Barreirinhas. O Maranhão é conhecido por ser a terra do reggae no Brasil e, por sorte, haveria uma noite com uma radiola de reggae em uma linda palafita sobre o rio Preguiças. Ouvimos durante horas músicas que passavam do reggae brasileiro de São Luiz, ao rei Bob Marley. Tudo ao deleite das imagens das luzes amarelas - da rua em frente a uma duna - refletindo nas calmas e limpas água do rio.
Nossa última parada seria em Quatipuru. Uma cidade localizada entre o mar e um rio, que respira a pesca e preserva sua tradição com casas de palafitas e de barro pela estrada que liga à Primavera. Havia a festa do camarão e, de noite, fomos conhecer o local. Na entrada do espaço já ficamos surpresos com o tamanho das caixas de som, que subiam ao lado do palco como uma alta muralha. Um DJ, ao estilo da famosa banda Super Pop, saiu de dentro de uma nave no palco, que imitava um metrô (mesmo nome da banda). Começou o estilo melody, atual febre na região, com suas batidas fortes, repetidas, como um tecno-regional.
Demoramos muito tempo para assimilar tamanha diferença cultural em tão pouco tempo. Na verdade, não sei se a absorvemos até hoje.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sobre devolver sorrisos

Acabamos o trabalho e estamos no caminho de casa. Paramos a alguns minutos atrás em um posto na estrada que liga Iraquara a Feira de Santana. A rotina de descer, ir ao banheiro, comer algo. Minha fome era de um sorvete e peguei um Magnun, daqueles grandes de chocolate.
Conversava e dava risada com os amigos em frente a adesivos engraçados e irônicos. Apareceu em minha frente uma menininha, daquelas bem carentes, roupinha suja e cabelo bem desgrenhado. Com cara triste e humilde me pediu:
- Tio, você pode comprar um desse pra mim? - disse e apontou para meu sorvete.
Eu tinha pego o último, mas haviam outros grandes e variados na geladeira. Dei 5 reais a ela e disse para escolher um ali.
Alguns segundos depois, voltou com um corneto na mão, com um sorriso enorme na boca, e me mostrou:
- Tio, olha o que eu consegui pegar! - e levantou o sorvete como a um troféu.
Ainda me disse antes de se virar e abrir seu prêmio:
- Muito obrigado, tio, que Deus o abençoe! - e abriu mais uma vez o grande sorriso que me deu ao mostrar o sorvete.
Neste projeto meus amigos brincam que eu devolvo sorrisos quando faço restaurações estéticas com materiais de qualidade. Hoje eu precisei apenas de um sorvete.

sábado, 23 de junho de 2012

Diário de um trabalho social - parte 5

Sábado, 23 de junho de 2012

Hoje damos seqüência ao projeto na cidade de Palmeiras, na Bahia. Uma cidade histórica que remete aos tempos áureos de garimpo na região.
Estamos na época de São João, e as bandeirinhas espalhadas pela cidade dão o charme na fachadas coloridas das casas.
Começo o ultimo dia de atendimentos, já que amanhã estaremos em Iraquara, inaugurando a Biblioteca Municipal Luis Eduardo Salvatore (que ganhou o nome do presidente do IBS).
Já fica a sensação de dever cumprido e de final de trabalho.


quarta-feira, 20 de junho de 2012

Diário de um trabalho social - parte 4

Quarta-feira, 20 de junho de 2012

Estamos deixando Irecê, cidade onde o trabalho foi incrível!
Agora na van, com destinos à Palmeiras, também na Bahia.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Diário de um trabalho social - parte 3

Sexta, 15 de junho de 2012

Estamos novamente na estrada. Terminamos ontem o trabalho na vila de São Jorge, em Alto Paraíso, Goiás e estamos mos encaminhando para Irecê, na Bahia. Ali, chegaremos e já montaremos o auditório para o seminário de amanhã.
Serão 1.100 km até lá, por isso, mas uma vez saímos as 5:20 da manhã.
Acabamos de almoçar em um restaurante de estrada, na cidade de Luis Eduardo Magalhães, BA.
Ontem, em nossa despedida da charmosa e linda vila, fomos presenteados com um pôr-do-sol fantástico!
Um grande abraço!

domingo, 10 de junho de 2012

Diário de um trabalho social - parte 2

Domingo, 10 de junho de 2012

Enfim, chegamos em Alto Paraíso. Aqui faremos nesta segunda o seminário no auditório da cidade para todas as escolas do município.
Nesta manhã, rodamos os últimos quilômetros que faltavam e montamos, ainda cedo toda a aparelhagem no local.
Alto Paraíso é a porta de entrada para a Chapada dos Veadeiros e antes do almoço conseguimos um tempo para visitar um mirante, que fica a caminho de São Jorge.
Subimos no teto da van para uma boa visão e um barulho característico champanha atenção: duas araras vermelhas passaram voando sobre nós, a uma certa distância e sumiram nos buritis que se erguiam imponentes no horizonte. Não conseguimos tirar uma boa foto das lindas aves.
Desci e andei na direção dos buritis, que surpresa! Duas outras araras (elas sempre voam em casal), estas canindés, vermelha, azul e amarela, vinham voando na minha direção. Pensei em fotografar, mas achei melhor filmar. Elas vieram num vôo rasante, bem perto, e enquadrei cada movimento na máquina, dando um zoom quando se afastavam e o retirando quando elas se aproximavam. Durante quase 2 minutos fiz imagens que me deixaram muito feliz! Das mais bonitas que já captei, pensei.
Como ir da euforia para a decepção? Quando fui rever as imagens na câmera vi que não tinha acionado o botão. No final, quando as araras sumiram no horizonte e apertei o botão pensando em desligá-la, ela começou a filmar, mostrando uma cena sem nexo de uma caminhada para voltar ao carro.
Bom, ao menos ficaram muito bem gravadas na memória, como um presente, poder ver o vôo de duas araras livres na natureza, a pouquíssimos metros de minha cabeça.

sábado, 9 de junho de 2012

Diário de um trabalho social

Sábado, 9 de junho de 2012

Estamos na estrada, para mais uma viagem. Nesta etapa trabalharemos no projeto Amigos do Planeta na Escola nas cidades de São Jorge (GO), Irecê (BA) e Palmeiras (BA).
Nos encontramos hoje em frente ao escritório do IBS às 5 da manhã. O deslocamento é grande, em torno de 1.300 km.
"Cair da cama" as 4 da madrugada também se explica por nossa São Paulo. Sair perto das 7 horas pode significar perder uma hora parados no trânsito, tempo precioso quando se está noite adentro tentando chegar ao destino.
Nossa cidade também tem suas curiosidades. Saímos completamente agasalhados pelo frio, em torno de 12 graus, e céu encoberto e duas horas mais tarde na estrada, debaixo de um sol intenso começamos a passar calor.
Agora acabamos de cruzar a divisa de São Paulo-Minas Gerais, sentido Uberaba (na foto da estrada, a baixada é o rio Grande, divisa dos dois estados).
Estamos na estrada, às 12:18h, daqui a 100km devemos parar em Uberlândia para almoçar.
Um ótimo fim de semana a todos!

Grande abraço!

domingo, 3 de junho de 2012

Crônicas de um jogo de futebol

Uma noite, um jogo de futebol, um estádio cheio. Histórias que tem muito a ensinar sobre nós mesmos.

No dia 10 de maio, o Santos recebeu o time Bolívar (Bolívia) para uma partida em casa. Foi uma bela resposta. Na partida de ida, na semana anterior, os bolivianos deram um péssimo exemplo de como receber um adversário. Xingamentos, agressividade fora e dentro de campo, objetos jogados contra os jogadores - incluindo uma maçã arremessada da arquibancada direto no rosto do jogador Neymar.
Neste jogo de volta, na Vila Belmiro, o sentimento de revanche era grande, porém o "troco" foi todo dentro de campo - e das regras. O Santos venceu por 8 a 0. Via-se uma gana nos olhos de cada jogador do time brasileiro, para fazer mais gols, não para jogadas mais duras como alguns esperavam.
Certa altura, em torno dos 6 tentos para o time brasileiro, um jogador boliviano foi até o zagueiro Edu Drascena e pediu para "aliviar um pouco" e não fazer mais gols.
Na torcida uma grande faixa exibia uma frase em espanhol "aqui a resposta é dentro de campo".

O futebol tem certos aspectos difíceis de se entender. Um esporte maravilhoso, emocionante, mas que provoca atitudes incompreensíveis de muitas pessoas. É mais fácil de entender uma luta entre judeus e palestinos, uma violência sem razão, mas com motivos seculares de embates e uma diferença histórica em suas raízes.
Aqui, dois jovens do mesmo poder aquisitivo, da mesma cidade, se fossem trabalhar no mesmo local, provavelmente, seriam grandes amigos, mas num determinado dia, os dois acabam indo a um jogo de lados diferentes. Um decidiu que torcia para um time, o segundo preferia outro. Pessoas com a mesma cultura, mas decidiram que gostam de camisas de cores diferentes. Um acaba matando o outro por isso.
Seres humanos, modificados pela emoção, mas sempre agindo, exteriorizando sua essência. Certo ou errado, nunca se deve culpar a emoção do momento, ou o álcool ingerido, por atitudes tomadas. Só jogamos para fora o que está ali dentro, bem quieto, esperando um pequeno descuido para sair.
Eu estava no portão de entrada, aguardando meu irmão, quando ouvi um barulho de vaias e gritos, olhei e vi um grupo de torcedores bolivianos, perdidos, e passando no meio de toda torcida do Santos que esperava para entrar no portão principal. Dois guardas ao meu lado correram para proteger e levar os amedrontados visitantes para o lugar correto. Um homem de seus 40 anos, olhou para mim e falou:
- Pra que proteger, deixa esses índios tomarem porrada!
Ele não falou brincando.

Minutos depois um homem comia um cachorro-quente. Acabou, enrolou o papel nas mãos e o atirou para o lado, no meio da rua. Alguns metros dali, outro terminou sua cerveja, abaixou e, carinhosamente, colocou a latinha no chão, e saiu. Qual dos dois era pior? O segundo, pois tinha mais consciência a ponto de tentar esconder o que realmente era: um "porco".

É fato o problema que enfrentam os jogadores brasileiros quando jogam em cidades com altitude extrema. A baixa concentração de oxigênio preocupa inclusive danos a saúde geral de qualquer indivíduo, fazer intenso exercício num ambiente tão hostil. Os times destes próprios países costumam jogar ao nível do mar, deixando a altitude apenas como arma para prejudicar jogadores que não estão acostumados com ela.
Comprovando isso, o time que perdeu de 2 a 1 na Bolívia, ganhou de 8 a 0 em casa, com uma facilidade que parecia um jogo de profissionais contra crianças.

Humildade.
Ainda sobre o tema da altitude, é incrível como certas pessoas públicas acham que podem dar suas declarações emocionais, parciais, e não pensar com a razão, visto que comentários podem se voltar contra eles mesmos.
Maradona, depois de um jogo onde a seleção brasileira perdeu para um desses times que jogam na altitude, deu uma entrevista ácida, dizendo que a altitude não influenciava em nada o resultado do jogo. Qualquer jogador que já atuou nestas condições saberia que não prejudica em nada o rendimento, e outras baboseiras de seu costume nas entrevistas.
Algumas semanas depois, a seleção argentina (da qual era técnico) perdeu de maneira vexaminosa para a seleção da Bolívia, na altitude. 6 a 1. E ele não podia explicar com a verdadeira causa do desastre, que seria o motivo óbvio. Assumiu que seu time jogou mal e procurou explicações alternativas, muito piores que a verdade, que não podia usar por ter sido garoto-propaganda das cidades de altitude quando a Fifa quis impedir jogos nestas condições.
Nada como um dia após o outro...

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Escassez

Esse é o nosso Brasil: terra dos contrastes. Das favelas na grande cidade, crescendo aos pés de luxosos condomínios. Dos ricos empresários com cultura de sobra, fechando sua janela ao pedinte que lhe estende a mão no farol. Da colossal arrecadação de impostos e do miserável retorno dos benefícios à sua população.
O último texto mostrou nosso espanto pela fartura de peixes em uma comunidade de pescadores do Pará. Porém uma solitária fartura. O peixe é o alimento em abundância, mas há carência de muitas outras coisas. Tão surpresos quanto observamos os peixes que sobravam, visitamos a escola de palafita da comunidade. E não, não era por ser de palafita - o que dava até uma beleza ao local, assim como belas casas da comunidade, erguidas pelas hastes de madeira que as afastam da maré alta -, mas pela continuidade do ensino.
Eram três salas, repletas de lindas crianças. Olhos brilhando ao fitar os kits escolares que ganhavam. Dei uma rápida palestra, olhei seus dentes. A maioria com cáries enormes! Dentes perdidos esperavam por uma extração. Quem faria se para ir a um dentista seria necessário um barco e muito tempo até o destino? A primeira escassez que notamos foi essa: saúde.
Idagamos sobre a educação, ali os alunos estudam apenas até a quarta série. Depois, somente pegando o barco-escola de madrugada até a outra cidade (algo que vimos também na comunidade de pescadores de Paraty-Mirim-RJ). São poucos os que seguem essa rotina. A grande maioria dos alunos não mais são chamados assim. Tornam-se pescadores como seus pais, avós... E nao é problema o fato da profissão, digna e bela como qualquer outra, mas sim o fato de não haver uma alternativa. De crianças não terem chance de sonhar com outros horizontes, mesmo que fosse apenas continuar estudando. Apenas?
Se o acesso à educação, saúde, inclusão social, para brasileiros que vivem com poucos recursos em uma cidade maior não é fácil, o que dizer dos que vivem em uma comunidade mais isolada?
Fizemos uma confraternização com as crianças e adultos na praia, sob uma bela palhoça. Tocamos violão, fizemos um belo churrasco. Eles cantavam, brincavam. As crianças comiam e sorriam. Notamos, com curiosidade, que elas preferiam muito mais a farinha que tínhamos do que o peixe assado, onde observamos o excesso de um em relação ao outro.
Num belo pôr de sol percebi que a fartura de peixes na região não era solitária como disse no começo do texto. Era acompanhada da maior fartura que um povo pode alcançar, e, acredito, a mais rica de todas as outras: a de felicidade.







                                               Fotos: Luis Salvatore