quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A cerveja ideal

Não. Não sou nenhum "mestre cervejeiro". Tampouco algum pinguço que vive "enchendo a cara" (melhor deixar claro, não é?). Mas gosto de uma boa cervejinha e acho que hoje descobri a cerveja ideal. Bem, hoje não, pois estou no consultório, antes das 9 da manhã, e isso, imediatamente, desmentiria minha afirmação antes dos parênteses acima. Mas sim, nos últimos meses.
Ao contrário do que muitos pensam, o lugar onde encontramos as pessoas que mais sabem gelar uma cerveja é no sertão. "Nossa, mas um lugar quente e que gela bem a cerveja? Não é um paradoxo?". Não, gelam daquele jeito que você pega a garrafa, acha que vai estar "empedrada" e ela sai, tinindo!
E não estou falando de barzinhos, com mais aparatos. Quando há uma festa na escola, ou na casa de alguém, lá estão elas, no freezer ou geladeira, esbranquiçadinhas.
Um grande amigo, o Nado da Cia de Inventos, usa uma expressão bacana para a garrafa que fica branquinha, com uma fina camada de gelo em sua superfície: "canela de pedreiro", em alusão ao trabalhador que fica com o cal da obra sobre sua canela.
No sertão é assim, em muitos botecos, ou em casas, nos servem as "canelinhas de pedreiro".
Abaixo, deixei uma foto de duas que retiramos da geladeira num jantar, na querida escola de Poço das Trincheiras-AL. Aquela noite, incrível, todas as garrafas estavam assim, sem congelar a cerveja dentro. Como eles fazem isso? Não sei. Sabedoria sertaneja.
Uma pena que eu não tenha tirado uma foto da mais perfeita que já tomei em minha vida. Estávamos na casa de uma simpática senhora, que nos deu um maravilhoso jantar, em Poço Redondo-SE. Luis perguntou se podia pegar uma cerveja.
- Vá lá na geladeira, meu filho... - respondeu amavelmente.
Ele voltou com os olhos arregalados.
- Dá uma olhada nessa garrafa! - me disse mostrando a cerveja que trazia.
Ela estava com uma pedra de gelo grande, de ciama abaixo, em uma metade. Linda. Colocamos no copo, não estava congelada, mas tinha pequeninos flocos de gelo no líquido amarelo ouro, que dava uma sensação única. Foi assim até o último gole.
Me senti, exatamente, como um apreciador de vinho, que senta com um amigo em uma vinícola e prova aquela garrafa única de vinho, da melhor safra que tem. Sabe que como aquela, dificilmente experimentará outra. Tomamos até o fim, silêncio quebrado apenas para rápidos comentários de como aquilo estava sensacional.
Terminamos felizes, sabendo que será difícil encontrar outra igual, por toda a vida.



Imagem das duas canelas - direita e esquerda - de pedreiro

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Um dia no sertão

Em agosto, como comentei em algumas postagens, trabalhamos no Ceará, na cidade de Crateús. O trabalho aconteceria na comunidade de Pocinhos, um assentamento sem-terra, muito organizado e bem feito, na zona rural.
Ali, todos vivem em harmonia e, logo na primeira vista, pode-se ver que é um lugar diferenciado. Os moradores que ganharam o direito de viver nas terras, não se tornam donos das casas.
- Aqui a pessoa mora, mas a casa é da comunidade. Se um dia ela quiser sair, deixa a chave e nós damos a casa a outra pessoa que precise. - nos comentou o líder comunitário.
Isso é muito salutar, visto que são conhecidos muitos casos de pessoas que vivem na cidade, alugam suas casas e vão para um assentamento. Ao ganhar a terra, a vendem para terceiros.
Antes, para chegar até o local, pegamos uma estrada típica do sertão: de terra, entre a caatinga.



Fomos recebidos calorosamente, mesmo na hora avançada em que chegamos (em torno da meia noite), professores e moradores nos esperavam com um delicioso jantar.
Porém, mesmo com a fome apertando e cansaço, a primeira coisa que todos nós reparamos foi na casa que nos abrigaria. Uma casa branca, grande, espaçosa e com várias redes dispostas para cada um dos voluntários, dentro das quais havia um lençol e um travesseiro. Assim, a apelidamos carinhosamente de "Casas das Redes".



Jantamos, nos despedimos, fizemos ainda um ótimo sonzinho no violão. Haviam 3 deles na equipe. Os dois médicos oftalmos (Bruno e Filipe) também tocavam e o som embalou o sono de toda a turma.
O dia amanheceu, e dormíamos em paz. Poucas horas que revigoram mais do que as muitas que durmo em São paulo.



Ao acordarmos, tivemos mais uma grata surpresa: à frente da casa, uns 50 metros, havia um grande açude, que nos enviava uma suave brisa na manhã do sertão.
Após um reforçado café da manhã, seguimos para a escola onde fomos recebidos por muitas crianças com bexigas e versos carinhosos para os amigos visitantes.



O trabalho fluiu muito bem, a sensação da equipe, de dever cumprido, brilhava nos olhos de cada um, visto que era a última cidade em que trabalharíamos. Fizemos novos amigos e uma festa nos aguardava. Não precisaríamos de mais nada. Nada mesmo. Ainda assim, Deus nos presenteou com um lindo pôr-do-sol. Novamente, nós é quem agradecíamos...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Quer saber como tirar o cheiro de cocô do carro? Pergunte-me como. (O cocô 2 - a revanche / continuação da última postagem)

"Como vai sair esse cheiro do carro?", eu me perguntava, quase suando frio.
Primeira coisa a fazer: checar o tamanho do estrago. Paramos em um posto de gasolina e desci para olhar o quanto tinha pisado. Resultado: muito. Então pedi para meu sobrinho descer e avaliá-lo também. Foi aí que, ao atestar que ele também tinha pisado - em cheio! -, ouvi um lamento do outro lado do veículo. A Ju estava vendo o banco e uma mancha morrom característica. Rezei para não ser, pedi a todos os santos que conhecia por um milagre, até cheirei pra mostrar que tinha fé neles. Mas era.
Um dia, exagerei sem querer em um perfume doce, o que deixou minha esposa com dor de cabeça e enjôo. Resolvi brincar para amenizar a situação:
- A gente pode pegar aquele meu perfume e jogar no carro pra disfarçar o cheiro... -disse com um sorrisinho amarelo.
O tiro saiu pela culatra, ela disse que preferia o cheiro do cocô.
O frentista, muito gente boa, se compadeceu ao ver nossa cara de "fiz merda" ou melhor, de "pisei na merda" e a cara de brava da Ju e lavou a sola de nosso tênis. Eu e o Luquinhas esperamos descalços ali ao lado.
A Ju teve uma ótima idéia, na loja de conveniência do próprio posto, e comprou aqueles lenços umidecidos cheirosos. Aqueles de limpar a bunda de nenêm. Não limparia a bunda de um, mas o produto higienizado seria o mesmo.
Bingo! os paninhos limparam tudo, tanto os tapetes, pisados por mim, quanto o banco, pisado pelo Lucas, e ainda deixou um cheirinho de bosque e não da palavra semelhante a essa.

Resultado: pisou no cocô de cachorro = posto de gasolina, água na sola e lenços umidecidos no estrago.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O cocô

Ah, o cheiro de carro novo! Que delícia! Se um fabricante conseguisse engarrafar a essência e vendê-lo como aqueles perfumes de carro, ficaria mais rico ainda.
Imagine que você comprou aquele bonito carro, novinho, com esse cheirinho. E que você está com ele a pouco mais de uma semana. Entraria nele, sentiria o aroma e aquela suave alegria de quem ralou muito para trocar de veículo.
Imagine que, num feriado, você leve o sobrinho pra passear e, no fim do dia, seu marido e seu sobrinho, antes de entrar no carro, pisem, em cheio, num cocô de cachorro e não percebam.
- Luquinhas, você fez pum? - seria a primeira pergunta a fazer, negada pelo sobrinho.
Pergunta que seria repetida ao marido, que também negaria veementemente.
Mas não pare de imaginar. Imagine ainda que seu sobrinho tem a péssima mania de colocar o pé no banco quando vai se sentar...
Imaginou?
Bom, alguém tem idéia de como tirar cheiro de cocô de cachorro do carro e voltar àquele cheirinho de carro novo?

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Boa ação ou...

Uma amiga internauta, Pétala, disse em um comentário, sobre o atendimento na área da saúde. Realmente, há uma necessidade enorme dos profissionais dessa área tratarem os pacientes da melhor forma possível, fazendo com que se sintam especiais.
Esse seria o básico, o primeiro passo de todo atendimento por um profissional da saúde: cumprimentar a pessoa, saber que antes de uma doença, uma cárie, um problema, temos ali em nossa frente um semelhante que precisa de atenção.
Infelizmente, nos dias atuais, muitas pessoas se esquecem disso e, quando um profissional faz o básico, aquilo que é seu primeiro dever, parece que é algo diferenciado.
Quantas vezes agradecemos muito a uma pessoa uma ajuda, elogiamos e nos impressionamos. "Que cara bacana!". Porém, se a mesma pessoa não se oferece para ajudar quando precisamos, passa direto, achamos o maior absurdo do mundo. Ajudar, tratar bem o próximo, é sempre nosso primeiro dever.
Lembrei-me disso pois ontem, enquanto saíamos de manhã para o trabalho, passei em frente a um hospital que existe na rua de casa. Uma mãe tentava, com muita dificuldade, subir a cadeira de rodas em que a filha estava por uma pequena rampa, que disfarçava um degrau.
- Precisa de ajuda? - perguntei, e a mulher prontamente me deixou subir a pesada cadeira de rodas.
Me agradeceu com um sorriso e segui adiante. Juliana, minha esposa, me disse:
- Já fez sua boa ação de hoje!
Ao que respondi:
- Minha boa ação não, minha obrigação.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Imagens do Brasil: crianças

Começarei no blog hoje a idéia dada por um grande amigo, Rafael Beolchi. Por ser apaixonado pelo nosso país, ele "devorou" as fotos que estão na lateral, que seguem o mesmo nome desta postagem.
- Por que você não fala sobre elas, as circunstâncias em que foram tiradas, histórias...
Boa idéia Beolchi! E a cada uma que retirar, para virar história, colocarei uma nova lá embaixo.
Espero que gostem!

Um grande abraço!
Wolber Campos



Se há algo que emociona, é a inocência de uma criança. Por fazermos trabalhos em escolas, o contato com elas é intenso. A amizade também.
No sertão, elas tem um carinho diferente. É um carinho mais intenso, espontâneo, carente, sôfrego.
São várias as situações em que, quando chegamos, nos avançam, umas quatro ou cinco (ou mais!), e nos abraçam, seguindo dessa forma enquanto andamos até a escola, num fundo musical de risadas e palavras de saudade.
Ainda guardam aquela saudosa infância, perdida na cidade grande, onde brincar na rua de terra, jogar futebol com golzinhos de pedra na rua, empinar pipas, nadar em rios e açudes, faz parte de uma deliciosa rotina depois das aulas.
Não admira que se tornem, futuramente, adultos de paz. Os mesmos que nos abrem as portas de suas casas com todo carinho e hospitalidade.
A velha e boa "hospitalidade sertaneja" começa desde cedo.

* Foto de Luis Salvatore

domingo, 29 de agosto de 2010

À noite

Ele acorda cedo, em torno das 5 da manhã. Desce as ruas da favela em busca do ponto de ônibus que fica lá no asfalto. Sempre apreensivo, cumprimentando com a cabeça aqueles que já foram grandes amigos das "peladas" de infância, quando corriam atrás de uma bola de meia e a vida parecia não ter tantas preocupações. Hoje sim, tem consciência das privações que sua família passa e da violência que o cerca.

"À noite, quando o calor se mistura com a luz da tv preto e branco
À noite, eu quieto dentro de casa ouvindo rajadas de bala"


Entra no ônibus e viaja, no tempo e em pensamentos. Sonha acordado com dia que sua vida vai mudar. E vai mudar, sabe disso. Só não sabe quando. Enquanto isso trabalha muito e, cansado, viaja de volta para seu barraco. Saiu no escuro, volta no escuro.

"À noite, fatos ruins do jornal se unem ao meu cansaço
À noite, o mesmo corpo cansado as vezes se perde em frente à saída"


É duro, sabe, mas entende também que a vitória tem mais gosto com o tempero do suor. Imagina os playboyzinhos que ganham tudo de mão beijada dos pais e não dão valor a isso. Já viu vários se acabando no mundo das drogas, que se esparrama pelas ruas de sua favela. O dinheiro compra a droga, mas não a paz. E isso ele tem. Graças a Deus! Pensa nos antigos amigos, que se enveredaram pelo caminho mais fácil e muito mais perigoso: o do crime.

- Mano, a sociedade é injusta! O nego rala que nem um condenado pra tirar uma merreca por mês. No tráfico eu ganho 3 vezes mais! - cansou de ouvir.

Já pensou muito no assunto, e chegou à conclusão que índole, nasce com a pessoa. Não existe essa história de "a miséria empurra para o crime". Tem muitos amigos do bem, que são tão pobres como ele e decidiram escolher o caminho correto. Isso é desculpa de quem já era "torto". A favela tá abarrotada de gente honesta.

"Mesmo assim eu paro e agradeço
Por eu não fazer do rancor minha vida
Por ainda acreditar no poder do amor
Revolucionário e salvador
Amor que me tirou a arma da mão
E me deu mais essa canção"


E assoviando uma melodia, deita a cabeça, leve, no travesseiro duro e amarrotado. E dorme em paz.



Texto e estilo inspirado no blog Mulher na Polícia
Música: À noite - O Rappa, de 1994

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O espelho

Às vezes, quando estou dirigindo e preciso mudar de faixa, digo:
- Vou acionar o acelerador de carros ao lado. - e ligo a seta.
É uma realidade incrível. Muitas vezes - digo até que a maioria delas - quando damos a seta, o carro que vem na faixa ao lado acelera, quase inconsciente, não nos deixando entrar.
Hoje, até olho isso com naturalidade. Antigamente até reclamava, mas hoje apenas constato e, involução minha, xingo mentalmente...
Ontem vinha para o trabalho num trânsito paulista de tão cheio. Porém, andava, e era carro de um lado, motos voadoras passando por entre eles, caminhões soltando fumaça, carros velhos com seus escapamentos fazendo um barulho de dar inveja a muitos aviões, enfim, aquela maravilha.
Meio atrasado eu acelerava quando podia, pensando em chegar na hora certa. Um carro deu seta à minha direita, logo à frente, querendo entrar no espaço que tinha entre o meu e o próximo veículo. Esperei sem diminuir a velocidade e, como ele demorou um pouco para entrar, acelerei, o impedindo de mudar de faixa, o que ele conseguiu, mas apenas uns quatro carros atrás de mim.
Naquele instante me lembrei da velha máxima: "antes de criticar, se olhe no espelho".
Ontem, na visão do outro motorista - e minha -, eu fui o chato que sempre acelera quando alguém dá seta.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A dúvida

A zona rural de Crateús, é um dos lugares com mais cara de sertão que eu conheço. Com suas ruas de terra, cercas de galhos retorcidos retirados da caatinga e bodes desfilando pelas ruas, tocando seus alegres e calmos sinos, temos a impressão de entrar diretamente pelas fotos dos livros de história.



Já trabalhamos nessa cidade, há alguns anos e fizemos grandes amigos. Sempre somos recebidos de forma maravilhosa e, dessa vez, não foi diferente.
Na segunda noite, houve uma grande festa na comunidade de Curral do Meio, onde trabalhamos nos anos anteriores. Ficamos surpresos ao chegar em uma recém-construída pizzaria. Ela estava cheia de gente, a mesma banda de forró que tocara na noite anterior também estava ali e na rua muitas pessoas preenchiam cada espaço, nos dando a impressão de que toda a comunidade estava presente.
- Isso aqui nunca tem não, é só porque vocês vieram. - me disse um alegre menino.
Foi uma noite agradabilíssima, o céu completamente estrelado, a lua cheia fazia sombra mais forte do que as luzes fracas que "alumiavam" as casas. O sanfoneiro "rasgava" a sanfona. Até que ela se aproximou. Do alto de seus 11 anos, sorriso aberto, me cumprimentou. Havia tratado de seus dentes em outra oportunidade e feito grande amizade com toda a turminha, alegre e esperta, que ficavam o dia todo brincando em meu improvisado consultório na sala de aula. Até que, depois de um tempinho, me disparou:
- Sabe que eu gosto e não gosto de você, ao mesmo tempo?
Aquilo me pegou desprevenido. Não entendi e perguntei o porquê.
- É porque quando vocês vem, é uma alegria danada, todo mundo fica muito feliz, mas aí vocês vão embora e a gente fica muito triste.

O texto poderia acabar aqui. Seria uma bela demonstração do carinho que recebemos, não fosse um assunto que sempre converso com amigos de estrada. É comum, quando partimos, ver crianças e amigos chorando, o que nos deixa alegres pela amizade verdadeira demonstrada, mas com o coração apertado. Imagine a dor de um tio, deixando seu sobrinho chorando porque ele está se mudando. Algo assim.
Então perguntei:
- Mas então, é melhor ter conhecido, gostar muito e dar essa saudade doída na hora de ir embora? Ou é melhor nem conhecer e continuar como se nunca tivesse visto?
- Ah, é claro que conhecer... - disse com seus olhinhos tristes.
Eu mesmo, tenho que pensar antes de responder.

domingo, 22 de agosto de 2010

Xixi nas calças

Chegamos hoje (domingo, dia 22/08) de mais um trabalho. Tiveram muitas emoções (como diria Roberto Carlos), reencontros de amigos e escolas, histórias que gostaria de escrever. Mas a primeira que me veio, foi a que mais dei risada.
Em Crateús-CE, tivemos uma recepção maravilhosa, como sempre. Há anos, realizamos trabalhos sociais nessa querida cidade e fizemos grandes amigos. Após o primeiro dia de trabalho na comunidade de Pocinhos, eles nos presentearam com uma festa incrível, na casa onde estávamos hospedados. Uma banda de forró tocava em nosso quintal. Mas o melhor: era uma banda de forró de verdade. Não esse que faz mais sucesso hoje em dia, o brega eletrônico. Tocavam o verdadeiro pé-de-serra, aqueles que animavam festas assim, nessa região, desde o começo do século passado.
Eram quase duas da manhã quando pararam de tocar. Foi cedo. Além do meu violão, haviam mais dois na casa. Os dois médicos oftalmologistas, que relizavam exames e prescreviam óculos - que serão entregues na próxima visita - também tocavam, mas já estavam dormindo em suas redes. Fomos acordá-los.
Chegamos no quarto, começamos a tocar músicas e, até que eles levantassem, continuamos ali. Vários amigos em volta. Bruno e Felipe - os oftalmos - se sentaram, preparando-se pera pegar seus violões.
Alfenas, que estava sentado ao meu lado, começou a cantar e cochilar, quase ao mesmo tempo. Repousou seu copo de cerveja na coxa direita, apoiado pela mão, e dormiu.
Sem perceber, enquanto tocava, bati o violão em seu joelho - estava sentado numa rede, por isso mais baixo - que automaticamente empurrou sua perna para o lado, virou o copo que segurava, derrubando a cerveja sobre o zíper de sua bermuda.
Acordando num susto pelo líquido gelado que escorria perna abaixo, levantou sem graça e saiu rápidamente porta afora, dizendo:
- É... acho que está na hora de dormir. - Não olhou para ninuém e saiu, pensando que havia mijado nas calças na frente de todos.
Nem conseui terminar a música. Gargalhávamos.
Fomos muito amigos, não o deixamos o tempo inteiro achando que havia feito xixi nas calças. Apenas três dias. Hoje contei no almoço. Ele, é claro, deu muita risada.
Na verdade, penso que foi mais de alívio, do que de graça.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Relembrando

O texto anterior me lembrou de outras postagens sobre o assunto. A cobra é um animal que, reamente, nos impõe grande medo.
Em viagens pelo interior do Brasil, sempre ficamos atentos, pois muito são os casos e histórias que nos são contadas de acidentes com picada de cobra, como o caso do Pedrinho.
Outra foto, foi de uma viagem que fizemos a Canudos, na Bahia. Em uma visita à vizinha cidade de Monte Santo, subimos na famosa igreja, reconstruída no século 19 por Antônio Conselheiro, que fica no Alto do Morro.
Logo na subida da enorme escadaria, nos deparamos com uma cobra coral. Ainda bem que era falsa!



Mas a mais impressionante, foi a cascavel que encontramos na estrada. Quando postei essa foto em outro blog, houve uma pessoa que nos criticou, dizendo que éramos desumanos, havíamos matado o animal.
Na verdade, não a matamos. Estávamos numa estrada, se não me engano no Tocantins, quando vimos a enorme cobra enrolada no esfalto escurecido pela negra noite que se erguia. Não havia um carro na deserta estrada, encostamos para vê-la. Estava morta, atropelada por algum carro a minutos atrás.
Se me lembro bem, a pobre cascavel tinha em torno de doze anos - número de voltas em seu guizo. A história toda está aqui.
Uma cobra extremamente venenosa. Sem perigo naquele momento, mas topar com uma dessas viva deve ser assustador.
Que nos diga Pedro, da história do primeiro link acima...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A cobra

Ela nunca pensaria em ter uma, até que lhe ofereceram. A quantia não era pouca, mas uma sucuri bebê, realmente, era algo inusitado. O vendedor, era um homem estranho, mas disse que não havia problema algum.
- É assim que é bom, criando desde pequenininha ela vai gostar de você. - disse, com um sorriso amarelo.
Levou a cobra para casa, era linda. Nunca havia sequer ficado perto de uma. "Pelo menos não é venenosa", pensou.
Os dias foram passando e a cada vez mais se afeiçoava ao animal. Começou a se sentir excêntrica ao comprar ratinhos para sua cobra comer. Parecia uma roqueira famosa, com seus hábitos estranhos. Não ligava, até gostava.
Meses se passaram e o amor pela sucuri aumentava, e era recíproco, tinha certeza. Tanto que passaram a dividir a mesma cama.
Certo dia acordou e olhou para o lado. Achou estranho. Sua cobra estava dura, esticada, bem próxima ao seu corpo. "Por que será, ela sempre dormia enroladinha?", pensou confusa. A cada dia era a mesma coisa. Cogitou perguntar a algum amigo, mas a chance de ouvir uma brincadeirinha sem graça, por acordar com uma cobra dura ao seu lado, a desencorajou...
Depois de uma semana, o fato se repetindo, foi procurar um veterinário. Ele não faria piadinhas sobre a cobra. Contou a história toda, o amor pelo animal, alimentação e o fato que se repetia toda manhã. Ele ouvia paciente e, assim que ela terminou, deu-lhe uma enorme bronca. Não podia criar um animal silvestre em casa, comprar de contrabandistas que maltratam os bichos, os trazem da mata em caixas fechadas e para cada animal vendido vivo, dezenas de outros morreram pelo caminho.
Ela ouvia em silêncio. "Preferia as piadinhas", chegou a pensar, mas logo concluiu que ele tinha total razão. E assim, o profissional completou:
- E para finalizar, te mostrando o perigo de ter um animal desses em casa, você sabe por que ela acordava daquele jeito todos os dias?
- Não senhor.
- Estava te medindo. A sucuri come algum animal quando consegue engoli-lo por inteiro. Assim que o comprimento ultrapassasse o seu, ela se enrolaria em seu corpo enquanto você dormia e te apertaria até sufocar. Depois, tentaria te engolir. Inteirinha!
Foi depois disso que decidiu deveolver seu amado animal para a mata. O medo seria maior que a saudade...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Doca

Ele chegou humilde, cara de sono e sanfona nas mãos. O conhecemos nessa noite, no sertão de Alagoas. aliás, uma noite inesquecível, onde uma simples rodinha de violão se transformou em uma apresentação do puro trio de forró nordestino.
Depois deste dia, travamos grande amizade. Doca é um sanfoneiro especial. Ainda novo, toca - e tem a voz rouca - como aqueles antigos sanfoneiros, que você percebe o amor pela música saindo pelos poros, como suor. E o que admiramos, logo de cara, é que é um jovem que tem correndo em suas veias o forró raiz.
Hoje, a nova geração, incrivelmente, conhece pouco de Luiz Gonzaga. É difícil de acreditar, mas nós, da equipe, que somos de São Paulo, conhecemos quase tudo do rei do baião e onde quer que vamos, pedimos músicas e incentivamos às pessoas a ouvirem esse estilo, que faz parte da cultura brasileira.
Quando Doca viu que gostávamos do Gonzagão, mandou uma atrás da outra, para nosso delírio. No dia seguinte, a pequena comunidade em que estávamos - o Quandu, em Poço das Trincheiras - AL - só falava no som da madrugada anterior. Pedíamos desculpas pelo grande barulho, ouvido léguas adiante.
- Que que é isso, meu filho. Mas foi bom demais, dormir ouvindo aquele sonzinho gostoso! Fazia muito tempo que não acontecia uma coisa dessas por aqui... - ouvimos frases semelhantes de várias pessoas.
Voltamos alguns meses para trabalhar ali e Doca não estava. Trabalhava, naquela época, em outra cidade. Em nossa terceira visita ele apareceu logo de manhã na escola.
- Olha, marcamos um show pra vocês na quadra, de noite! Vai ser grande o negócio! - disse contente e nós, ficamos mais ainda.
De noite choveu. A maioria dos professores desistiu de ir à quadra e a banda pensou em cancelar.
- Tá maluco?! - disse o Luis - Vamos assim mesmo. Se tem a cobertura pra banda estaremos lá!
Foi uma noite fantástica, nunca tínhamos visto um forró de sombrinhas. Nem sei se já existiu algum. Mas na quadra, vários casais dançavam embaixo de seus guarda-chuvas e a banda tocou até altas horas.
No fim da noite Doca nos disse:
- Olha, eu nem sei como agradecer. O respeito que todos tem por mim hoje, eu devo a vocês, por aquela noite. Antes, poucos davam alguma importância pra mim. Hoje todos me chamam, me cumprimentam e me convidam para todos os eventos. Muito obrigado mesmo. - disse. Os olhos cheios de lágrimas.
Como naquela noite em que o conhecemos, dia seguinte acordamos muito cedo para trabalhar, mas, lembrando das palavras de Doca, empolgados, como se tivéssemos descansado por horas e horas.


Doca, com sua amada sanfona, na noite em que a chuva caía prazerosamente sobre o sertão

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Xou da Xuxa

- Xuxa, me dá um beijo? - ela perguntou, não conseguindo esconder a felicidade em encontrar sua ídola, na última sexta-feira.
Essa frase foi ouvida, incessantemente, pela famosa "Rainha dos baixinhos" na década de 80 e 90. E ainda hoje a atinge, mesmo sem um programa diário ou exposição massiva na mídia, como há anos atrás. Isso confirma a áura de sucesso que teima em acompanhar Xuxa por toda sua vida.
O que torna ainda mais interessante, é que a "baixinha" que pediu o beijo na sexta passada - com olhos emocionados de alegria - era minha esposa, Juliana, de 30 anos de idade. Num evento da Monange, no qual foi convidada pelo trabalho, tirou fotos com a bela ex-apresentadora.
Os antigos baixinhos cresceram, mas continuam seus eternos fãs.
- Ela era tão "ícone" para a gente, que o sonho de cada garota era ser Paquita. Ninguém pensava em ser a Xuxa, ela era única, uma deusa. Queríamos ser paquitas para ficar ao lado dela. - completa Juliana, segurando orgulhosa sua foto, como um troféu.
E assim se segue. Meu sobrinho de 7 anos a adora, minha sobrinha de 5 também. Dudu, filho do Luis com a Dani, de 3 anos, é apaixonado e canta suas músicas. Penso que pelos dvds, visto que não há mais um programa na tv.
alguma pessoas vieram para brilhar. Xuxa é uma delas.

O "troféu"


Juliana, ao centro, ainda ganhou um abraço de Xuxa. "É muita emoção!" rs

sábado, 7 de agosto de 2010

MPB

Quando mais novo, lembro de assistir a alguns filmes nacionais e pensar “é por isso que muitos gringos imaginam que no Brasil não existem grandes cidades”. Pequenas casas do interior, florestas e sertão povoavam nossos filmes e mostravam ao mundo a cara de nosso país que, na época, eu imaginava errônea.
Como um morador de uma metrópole (nos moldes de uma Nova York), acreditava que São Paulo era o Brasil de verdade. Um país de cidades grandes, que também tinha seu lado interiorano. Hoje percebo como estava errado. Este é um imenso país, riquíssimo em belezas naturais, com suas casas simples, pessoas amáveis e fortes, com cara de interior, que tem seu pequeno lado megalópole, com seus arranha-céus colossais e trânsito caótico.
Assim é com a música popular brasileira. O termo que se popularizou, MPB, hoje define um estilo característico, liderado por Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e toda uma nova – e boa! – “safra” de músicos como Ana Carolina, Zeca Baleiro, Jorge Vercilo, e por aí vai. Porém, se nos atentarmos ao sentido real da palavra, a música popular brasileira definiria outro estilo.
“Popular” significa “do povo”, que está no gosto da maioria da população. Seria a música escutada e cantada pela maior parte de nossa terra. Me desculpem os fãs da MPB (me incluo neles também), mas o estilo que definimos no parágrafo anterior é escutado por uma pequena parte dos brasileiros.
Perguntemos no Piauí, por exemplo, em qualquer cidade, e é claro que eles conhecem Gilberto Gil, e podem até ter ouvido falar nessa nova geração – o que eu acho pouco provável -, mas poucos os escutam.
O que deveria ser definido como música popular brasileira seriam bandas como Djavu, Moleka 100 Vergonha, Anjo Azul e muitas outras, que lançam uma música num dia e, no mês seguinte, ela é tocada em todos os bares, cantada em festas e suas coreografias estão decoradas por todas as meninas, dos 5 anos (isso mesmo, vimos crianças novíssimas com gingado de fazer inveja a muita adolescente) até onde as “juntas” permitirem.
A cada viagem que fazemos uma nova música está “estourando”. É incrível, um botequinho toca durante horas a mesma música, no esquema “loop” do aparelho de CD. Voltamos para casa com aquele som na cabeça, meses depois, ao voltarmos, perguntamos sobre aquele som e ninguém mais quer saber dele, já há outro nas “paradas”.
Bandas que aprendemos a gostar – o que foi mais difícil para mim, amante de rock – e respeitar, que cantam, num ritmo característico que tem, bem lá no fundo, uma raiz no forró de nosso eterno Luiz Gonzaga. Fazem shows que lotam estádios inteiros e movem caravanas de várias cidades.
A nomenclatura já está definida, não mudará. Mas para mim, hoje, a música popular brasileira tem outros representantes.