quarta-feira, 21 de julho de 2010

Duas gotas

O que são duas gotas? Quase nada. Uma total indiferença. Imaginamos duas solitárias gotas em um copo. "Está vazio", diríamos.
Duas gotas, na maioria dos casos, passam despercebidas, como dois grãos de areia em uma praia. Porém, em um caso, a diferença é tão brutal que pode significar a linha tênue entre a vida e a morte, assim como um mísero segundo, antes ou depois, pode significar o encontro com um carro ao atravessar a rua.
Hoje, atendi Francisco. Um homem de 37 anos, simpaticíssimo, alegre, que chegou em meu consultório em sua cadeira de rodas, carregada nos braços de dois amigos que a subiram pelos muitos degraus que levam até minha sala.
Ele não anda, possui o braço esquerdo com grande limitação de movimentos e o direito com alguma dificuldade.
- E doutor, já estive muito pior. Até a cabeça era mais difícil de mexer e eu babava muito. Era um babão! - comenta e solta uma alegre risada.
O destino de Francisco o levou para essa situação por causa de duas gotas. Míseras -ou colossais - duas gotinhas que, na época certa, o faria subir as escadas do meu consultório saltitando e me cumprimentar de pé, sem limitação alguma.
Hoje, com a enorme campanha anual por todos os cantos do país, a paralisia infantil está praticamente erradicada. Nos anos 70, ainda mais na roça do interior de Minas Gerais, onde nasceu, essa não era a realidade.
Tratei dele por um bom tempo, tentando adiantar ao máximo que pudesse o tratamento, pois sei da dificuldade de locomoção e trabalho para seus amigos o carregarem escada acima. Tempo que fiquei pensando em como essas duas gotas poderiam ter mudado o destino do jovem e alegre Francisco.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Hospitalidade sertaneja

- Vocês podem pousar lá em casa essa noite!
Assim nos disse seu Nilo, um sertanejo típico, desses que usam a camisa de botões aberta, uma calça surrada e saudável que só. Não aparenta, nem de longe, a idade que tem. Apesar de ter seus setenta anos, passa facilmente por cinquenta e poucos.
Estávamos em São Raimundo Nonato, cidade do sul do Piauí, que abriga a famosa Serra da Capivara. Um lugar "mágico", patrimônio da humanidade e que exibe um conjunto fantástico de pinturas rupestres, espalhadas por seus ancestrais paredões, nítidas, como se estivessem sido pintadas há poucos anos atrás.
O hotel em que estávamos hospedados, ficava a alguns quilômetros da escola de zona rural em que trabalhamos. O bairro Pé do Morro. Ainda hoje temos amigos que nos consideram (e são considerados) da família por lá. Quando os moradores nos ofereceram suas casas para uma boa noite de sono, ficamos felizes.
Seu Nilo levou-nos - eu, Luis e Ana Elisa - para o interior de sua casa. Entramos por uma pequena porta e passamos uma sala com duas cadeiras de balanço - feitas com tiras de plástico - e um pequeno corredor, onde haviam duas entradas, uma a sala de televisão, onde uma simpática senhora, que a assistia, nos cumprimentou, e a outra seria meu quarto e do Luis.
- Vocês não "arreparem" não, a casa é de pobre. - nos pediu humildemente seu Nilo.
Dissemos que, muito pelo contrário, a casa estava linda e agradecíamos a hospitalidade. Afastamos a cortina, que funcionava como a porta, e entramos no quarto, muito limpo e bem arrumado.
"Seu Nilo preocupado em ser um quarto simples e está mil vezes mais arrumado do que o meu!", pensei.
- Vocês querem banhar? Eu busco água "proceis". - nos disse -. Só que a água tá em falta, eu pego do poço, mas é um pouco "salobra*"...
- Não tem problema nenhum, seu Nilo. - respondemos, loucos por um banho. O calor do Piauí estava violentíssimo e nosso estado fazia frente a ele.
Fui o primeiro, enquanto pendurava minha toalha no banheiro, vi seu Nilo chegando com um enorme balde de água e um pote de plástico. Na outra mão uma toalha, caso eu precisasse. Tomaria um bom banho de cumbuca, comum em muitas casas pelo sertão.
Agradeci ao nosso anfitrião, coloquei o balde no chão e vi. Não pude acreditar e comecei a dar risada sozinho. No balde, repleto de água, nadavam três peixinhos, bem pequenos. Estavam ali, traquilos, na água em que eu tomaria banho. Quando olhei o vaso sanitário, que estava ao lado, comprovei: Haviam mais dois nadando ali dentro, com a calma de quem nem imagina onde está. "Ignorance is bliss"
Tomei meu banho, sempre com muito cuidado para não pegar um peixinho na ex-caneca de leite que usava para me banhar. "Com meus cabelos enrolados, se cai um peixinho aqui só vou encontrar o fóssil décadas depois!", pensei rindo.
Acabei o banho, renovado, limpo, e saí com a toalha nas costas sorrindo como quem saiu de uma ducha relaxante de um hotel de luxo. Mas não era. Era um banho muito, mas muito mais gostoso.

*Salobra: modo como o povo sertanejo chama a água, um pouco salgada, dos poços ou lençóis freáticos

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Boa noite

Me deito mais cedo, seria bom ter uma noite mais longa. Há alguns anos atrás, lembro que saía com João Batista, amigo de infância, de segunda à segunda. Nada de baladas nervosas ou bagunça. Geralmente íamos ao Select, loja de conveniência do posto Shell, onde juntávamos nossas poucas moedas para inteirar a quantia suficiente para dois "dogs" e uma coca. Conversávamos até umas duas da manhã.
Enquanto me deito, penso "Não sei como a gente conseguia isso", pois já éramos formados e trabalhávamos tanto quanto hoje. "É a idade, meu amigo...", digo a mim mesmo.
Enquanto o sono não vem, abraço minha esposa que já dorme. Que inveja. Só não é maior do que aos sábados de manhã, quando levanto às 6 da matina para trabalhar e a observo dormindo, quentinha sob as cobertas.
Dou um beijo, viro para o lado e espero o sono chegar. Penso em utilizar técnicas milenares, para acelerar a chegada do sono. A primeira que me vem, é uma que remete aos tempos em que Davi - ele mesmo, o que matou Golias - ainda era um simples pastor. Antes de escrever seus salmos, ele ensinava aos insones da antiguidade: "Contai carneiros!".
Começo: um, dois, três, ..., no vinte paro e penso "que coisa de jerico". Pensei jerico e não Jericó. Chego à conclusão que contar carneiros mais estressa do que dá sono. Isso poderia ser algo positivo na antiguidade, estressar para cansar e fazer dormir. Para um morador de São Paulo, stress é dado na mamadeira e tempera nossos pratos, do café da manhã ao jantar.
Me lembro de outra técnica infalível: as músicas de ninar. É isso! Agora é fácil.

"Dorme nenê, que a Cuca vem pegar
Papai foi pra roça, mamãe volta já"

Paro e sento na cama. O quê? Meu Deus, nunca tinha pensado na letra dessa música assustadora! Como as pessoas querem que uma criança durma dizendo: "olha bebê, dorme tranquilo, viu? Que a Cuca vem te pegar. E fique "sossegadinho", porque você está sozinho, sacou? So-zi-nho. O papai... Xiii, tá lá na roça. E a mamãe, deve vir daqui a pouco. Mas até lá, a Cuca já deve ter te pegado e, sem o papai por aqui, a mamãe também vai pro saco."
Ainda bem que as crianças não pensam na letra da música. Quem diria que uma melodia tão bonita assim, seria de uma história tão assustadora?!
Melhor pensar em outra.

"Sai bicho feio de cima do telhado
Deixa o menino nanar sossegado"

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O sorriso

Tatiana, em um comentário da postagem anterior, falou em expor a foto de um desses sorrisos devolvidos.
Em abril, viajamos para o sertão e, em Canudos-BA, conhecemos Ismael. É um daqueles garotos, com seus quinze anos, líderes nato. Engraçado, simpático, todos o conhecem, e o adoram. Sempre disposto a ajudar, era um dos primeiros a se oferecer para descer as pesadas caixas de materiais doados à escola.
Tinha um problema, um grave problema: os dentes da frente completamente destruídos por cáries. Foi assim que o conheci enquanto atendia em uma sala de aula. Cristiano, grande amigo local e que já viajou conosco, o trouxe pelo braço, deu um tapinha em sua cabeça e falou:
- Wolber, dá uma olhada nesse safado!
Ele sorriu e de longe, eu poderia ver. Fiz questão de encaixá-lo durante os três dias em que ficamos por ali. Deixei bem claro que, mais importante do que tratar, era cuidar melhor para que isso não acontecesse de novo e, a cada dia, tínhamos mais de uma hora e meia de "Ismael" na cadeira.
Saiu de lá "só sorrisos", com a certeza de que, à partir daquele momento, cuidaria melhor de seus dentes.
Seguem suas fotos:





E apresentado por Leandro - grande amigo da equipe - com seu novo "look".

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O pagamento

Chegamos na comunidade de Paraty Mirim (Paraty-RJ) na sexta bem cedo. É um trabalho bem mais tranquilo ao que estamos acostumados no sertão, onde ao chegar na escola, encontramos dezenas de crianças e adultos nos aguardando em festa. Porém, apesar da comunidade ser pequena, o carinho com que fomos recebido dessa vez foi semelhante.
A área odontológica - sem puxar "sardinha" - sempre encontra muito trabalho. Não importa quanto seja afastada e pouco centralizada a comunidade, tratamento dentário, infelizmente, ainda é uma carência enorme de nosso país. Portanto eu e o André - amigo e colega de profissão -, trabalhamos bastante nos dois dias de atendimento.
No meio da tarde, apareceu um garoto, de seus 9 anos, Lorran, pedindo para que eu arrumasse seu dente quebrado. Tinha tomado um tombo semanas atrás e, ao bater a boca na escada, quebrou o dente da frente (incisivo superior direito, para ser mais técnico).
- Claro, aguenta um pouco que a gente já dá uma olhada nele - eu disse e ele abriu seu sorriso, mostrando o dente pela metade.
Pouco tempo depois chegou sua vez. Adoro arrumar esses dentes do sorriso. Bom, na verdade, é claro, adoro arrumar todos, mas esses da frente, abraçam muito mais do que reestabelecer uma função e evitar futuros problemas. Envolve devolver auto-estima, confiança, e até mesmo reinserção social. Uma pessoa com os dentes da frente em mal estado, geralmente, se envergonha ao sorrir, levando a mão na frente da boca nessa hora, tentando esconder os dentes com os lábios, ou mesmo virando o rosto. Por isso a importância de devolver o sorriso original.
Com Lorran foi assim. Acabamos a restauração e pude ver seus olhos brilharem quando olhou no espelho. Não foi uma restauração difícil, ou que exigisse grande habilidade do dentista. Algo normal e casual, que levou seus 40 minutos, mas que devolveu aquele brilho nos olhos do garoto. Me pergunto, já sabendo a resposta, se tem pagamento que me deixaria mais feliz.
De noite, havia uma feira cultural, onde fizeram uma confraternização conosco. Uma grande roda de viola foi armada e, como adoramos isso, nos sentamos em volta. Um dos presentes pegou o violão e tocou algumas músicas. Fiquei surpreso ao ver Lorran se aproximando dele, colocando o braço em volta de seu pescoço e cantando a música, como velhos conhecidos. Me olhava e sorria. No final da música, caminhou até mim, me cumprimentou e me disse "muito obrigado por arrumar meu dente", meio tímido, meio sorrindo e saiu.
Minutos depois, o rapaz que tocava violão, veio até mim. Era o pai de Lorran.
- Olha, não sei nem como agradecer pelo que você fez pelo meu filho, só Deus mesmo. Muito obrigado. - disse emocionado.
Me explicou então, que desde que havia caído, seu filho andava triste, o que o fez levá-lo ao dentista na cidade, porém ali, o profissional cobrou 600 reais para restaurar o dente fraturado.
- Pensei até em pedir para que ele desgastasse o do lado, para ficar na mesma altura, mas seriam 250 reais e desisti. - continuou.
Eu expliquei para que ele nunca pensasse em fazer aquilo, estragar um dente bom para parecer o outro, e respondi, sinceramente, que não foi nada de mais.
Mais uma vez me disse que não sabia como agradecer. Não percebeu que não precisaria mesmo. Aqueles minutos valiam muito, mas muito mais, do que aqueles 600 reais que o outro dentista ganharia pela restauração.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Trabalho

Hoje estamos de saída para um trabalho na comunidade de Paraty Mirim, no Rio de Janeiro. Voltaremos no domingo. É um trabalho bacana, em uma comunidade formada, em sua maioria por pescadores.
Diferente do trabalho no sertão, quando levamos muitos voluntários e muitas áreas, ali implantaremos o projeto de saúde bucal, meio ambiente e educação.
Segunda postarei novamente!

Grande abraço!

Wolber Campos

terça-feira, 6 de julho de 2010

Livro: Caminhos de um Brasil Solidário

Dia 27 de julho, terça-feira, será lançado o livro "Caminhos de um Brasil Solidário", de Luis Salvatore e Ana Elisa Salvatore, fotógrafos e diretores do Instituto Brasil Solidário. Um livro de fotos de todas as regiões do Brasil, porém, se trata mais do que retratar belas paisagens. Todos são locais onde o IBS estava atuando com o trabalho de desenvolvimento sustentável que realiza pelo país.
Fotografias que retratam lugares e cenas do povo brasileiro, tendo por trás todas suas belas histórias de luta e força. Assim, acompanha textos e experiências dos voluntários (inclusive alguns meus), nesses anos de trabalho.
O evento será na livraria Cultura, do Conjunto Nacional da Av. Paulista, à partir das 18 horas. O convite vai para todos e segue abaixo.
Ficaremos felizes com sua presença!

Grande abraço!

Wolber Campos

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Maradona

Pois é amigos, a copa do mundo, realmente, nos inflama. Eu até tentei, mas não há como não escrever sobre o Maradona.
Desde o começo de sua aparição como técnico na copa, foi uma figura única. As câmeras o procuravam, os narradores se deliciavam com suas imagens levantando a bola com categoria, durante a partida, na mão dos jogadores, seus treinos eram assistidos como filmes recém-lançados, enfim, uma celebridade.
O que me deixa abismado, é o fato desse ex-craque, ter pensado tão pouco antes de soltar suas palavras e farpas para todo lado.
Primeiro, de forma arrogante, declarava a cada entrevista coletiva, que seu time seria campeão, porque era o melhor de todos, e, além disso, tinham Messi: "o melhor jogador do mundo!". Será que não via que, dessa forma, jogava toda torcida mundial contra seu time?
Ah, e o Messi. Era Messi para cá, Messi para lá. A imprensa contou, numa entrevista de 30 minutos, o nome do jogador foi citado 37 vezes por Maradona. "A Coréia que me desculpe, mas vamos ganhar, porque temos o Messi!", concluiu.
Como não observava que poderia até provocar um mal estar entre os jogadores? Para estar numa seleção, você tem que ser um craque. Imagino os outros companheiros dizendo "poxa, ele só fala em Messi, será que ele vai ganhar o jogo sozinho?".
Pra mim, a Argentina saiu da copa por um único motivo: prepotência. Maradona os achava superiores, os jogadores podem ter acreditado. Pegaram uma Alemanha forte que passou como um rolo compressor por sua equipe. Via-se nas expressões dos jogadores um susto, como se não estivessem preparados para aquilo, não sabiam o que fazer. O que acabou por enterrar suas ambições, é que Maradona também apresentava a mesma expressão e, da mesma forma, não sabia o que fazer. Assistiu seu time tomar um gol atrás do outro, como um torcedor, esperando que o time reagisse de alguma forma. Quando precisavam de um treinador, viram que não tinham um de verdade. O ídolo era apenas um ótimo ator, brincava, carismático, atuava com malabarismos com a bola, e, o pior, é que os argentinos acreditaram que ele era técnico também.
Por tudo isso, não entendo como na recepção da seleção argentina puderam ouvir tantos gritos de "fica" para Maradona. Acho que gostaram da atuação (no sentido de atuar como ator, mesmo).
Como disseram alguns comentaristas da TV: "nós brasileiros também torcemos para que ele fique..."

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Seleção brasileira

Tem uma lição que aprendemos por esses trabalhos no sertão brasileiro: uma escola é a cara do diretor. Onde há um diretor com atitude, vontade de fazer algo acontecer, boas intenções, o trabalho social flui maravilhosamente. Assim como a cidade, é a cara do prefeito. Quando o administrador é corrupto, com interesses torpes, a cidade se arrasta na estagnação (se não entrar em decadência).
Digo isso pois, da mesma forma, um time tem a cara de seu técnico. E nossa seleção, desde o princípio, era a imagem de Dunga. Já nasceu retranqueira.
Sem ufanismo, o futebol brasileiro tem em suas origens a habilidade e excelência pelo ataque. Tivemos grandes zagueiros? Claro, mas que não ofuscavam nossos craques. Em toda a história, todos os técnicos que mudaram esse estilo inerente de jogar, obtiveram fracassos, como em 90 com Lazaroni e seu esquema com líberos.
O que entristece dessa desclassificação é atestar que tínhamos um leque de jogadores, com categoria estupenda, para brilharem nessa copa (e o Ganso é apenas o nome mais certo desse grupo).
Esse time, que hoje se desclassificou, ficará com a cara do violento jogador Felipe Melo (que já teve até um texto nesse blog exaltando sua violência), defensivo e sem brilho. Até tínhamos um Kaká e um Robinho que, solitários, davam algum respiro de lembrança do nosso verdadeiro futebol, mas se o primeiro não estava completamente inspirado, a bola não chegava no segundo e em Luis Fabiano.
Como uma previsão, isso era sabido desde a convocação: levávamos, ou melhor, o Dunga levava, um único meia de armação, que vinha de uma lesão e poderia não aguentar uma competição. E parece uma piada: não levou um único jogador para substituí-lo à altura. Tínhamos apenas volantes e mais volantes, por todos os lados!
Essa é minha opinião sobre o Dunga: é, puramente, teimoso. Quando todos clamávamos por Ganso, e até Neymar, ele batia contra, no maior estilo "sou eu é quem mando". De repente, ninguém pedisse e, talvez, ele levasse os dois. Pode ter sido uma vontade de se aproximar de nosso saudoso Felipão, que segurou a bronca para não levar Romário e calou a boca da crítica com o título mundial. Dunga só não percebeu que era muito diferente, Romário vinha de contusões, já estava quase se aposentando, e não treinava, assim como Adriano.
Ganso estava - e está! - "voando baixo", recebendo elogios de todas as torcidas e jornalistas do Brasil.
Como consequência, terá que segurar a bronca que sua teimosia causou. Sem falar em comprar briga com a imprensa e deixar sua imagem de arrogante se consolidar.
Agora é torcer, não pelo campeonato, mas para que o próximo técnico deixe o Brasil jogar como o brasileiro gosta: buscando sempre o gol primeiro, e se defendendo depois.
O Felipão está voltando para o Palmeiras... Quem sabe?

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Por que as pessoas trabalham doentes? (por Graziela Souza)

Tenho algumas teorias sobre esse assunto:

1º Falta de amor próprio: Afinal qualquer tipo de indisposição, é uma forma do corpo falar que não está bem, está precisando de atenção, seja ela qual for, física ou psiquica(que é a pior);

2º Auto flagelação: Jesus Cristo foi único e sua ação foi para salvar o mundo do pecado, não é o caso do doente, afinal nem a sua própria vida ele está poupando;

3º Carência: Ficar sozinho em casa? Doente? Com quem vou conversar, almoçar?;

4º Egocentrismo: Imagina de forma alguma vou ficar em casa, tenho 5 reuniões das 08:00 as 10:00 e uma as 10:10 pra definir qual o tipo de letra que vou usar na próxima apresentação em ppt.que farei para o meu chefe, para levar ao chefe dele que apresentará para o nosso vice presidente que fica lá sei onde e que por sua vez vai apresentar para algum C(Chef) da área Internacional...

E o MEU telefone, vai ficar tocando e ninguém vai poder atender, afinal ele está na MINHA mesa.
Emails, emails, emails e mais emails invadirão MINHA Caixa de Entrada e MEU computador vai travar porque não há mais espaço no HD de 850.000 terabytes.
E a reunião que eu tenho toda semana com o meu principal fornecedor, aquele que só fala "NÃO" pra tudo o que peço...
Não, decididamente não, de jeito nenhum...vou trabalhar.
Descubro a cabeça, tento respirar o ar que não consegue entrar nos pulmões porque estou totalmente entupida, e me levanto.
Ao colocar os pés no chão, sinto um calafrio que vai da unha do dedinho do pé até o último fio de cabelo e um choque no calcanhar porque já ultrapassou a sensação de dor.
Mas pior que ser você o doente, é ficar do lado de um doente.
Acho isso uma falta de respeito, falta até mesmo de educação, afinal ninguém é obrigado a ficar doente por tabela.
Que tal uma Campanha, podemos até usar um modelo existente.
"Se beber, não dirija". "Se ficar doente, não saia de casa".

Graziela Souza é administradora, tem 32 anos

terça-feira, 29 de junho de 2010

Crônicas de um brasileiro, ex-soldado americano: O índio (por Euler Fernandes / Wolber Campos)

Era noite de domingo e dia seguinte, mais precisamente às 4 da manhã, estaria de pé para mais um dia de trabalho duro no exército. Deitado em sua cama, como de costume, Euler mudava os canais à procura de algum programa interessante. Num deles, viu um documentário sobre os índios americanos. Caçadores afirmavam que viam espíritos dessa antiga população na floresta. Pensou em mudar o canal, não gostava dessa história de espíritos, mas o assunto era interessante.
Tinha uma explicação científica por ter medo de espíritos:
- Algo vivo, a gente tem como matar para se defender, agora algo morto não tem! O que vou fazer se vier um espírito? Matar de novo? - conclui.
Mas agora era um soldado do exército mais poderoso do mundo, tinha que, pelo menos, enfrentar seus temores. Assistiu até o fim.
O documentário mostrava a entrevista de caçadores e uma dramatização. Descreviam que ao se esconderem nas árvores, ouviam aquele conhecido grito indígena: "Uuuulululululululululuulu!!!". Tremendo de medo, viam depois um índio, vestido com suas roupas e penas na cabeça, tão nítidos como nós, porém, brilhantes, como se emanacem luz.
Morreu de medo, mas só desligou a TV quando o programa terminou. Naquela noite, dormiu de luz acesa.
Dia seguinte, viajaram para a floresta, na Carolina do Norte. Já havia dormido naquelas matas e, para falar a verdade, dormia até quando montava guarda. No começo da noite um amigo começou a vigília, ele seria o próximo. Até lá, como todos faziam, armou sua improvisada barraca - estendendo a pesada capa de chuva sobre 4 estacas no chão - e dormindo abraçado ao seu fuzil. Nem a chuva, que caía incessantemente, atrapalharia seu sono.
Mais tarde acordou sendo chacoalhado, demorou para despertar, mas se sentou num susto. Era seu colega, dizendo que sua hora de ficar de guarda havia chegado. A adrenalina do susto baixou e, sonolento, se levantou. "Que preguiça!". Levantou do jeito que estava, já entrando sob a capa de chuva e seguiu andando para o posto - um buraco mais além na floresta.
"Tlililililililililim", ouviu um barulho atrás de si. Parou na hora, assustado. A primeira coisa que veio à sua cabeça foi a imagem do índio, ainda viva em sua memória como se tivesse acabado de desligar a TV naquele momento. Não era um "Uuuulululululululululuulu!!!", era mais fino e um "Tlililililililililim", mas vai saber se era um índio meio esquisito... Torceu para ser sua imaginação e voltou a andar.
"Tlililililim", dessa vez parou na hora e se voltou para trás apontando o fuzil em todas as direções. Sentiu vontade de disparar balas para todo o lado, no estilo Rambo, xingando de todos os nomes aquele índio maldito, mas se controlou. Tentou se acalmar, se virou, respirou fundo e foi andando.
"Tlililililililililim", continuou o barulho o seguindo. Ele andava mais rápido e, incrível, o som vinha atrás, na mesma velocidade. Começou a correr e era como se o índio corresse logo atrás, quase em seu pescoço.
"Ahaahhhhhhhhhhh!!" gritou internamente, para que seus companheiros não se assustassem também e pluft! se atirou de uma vez no buraco que iria montar a guarda. O som cessou assim que entrou na vala. respirava ofegante, segurando seu fuzil e olhando para todos os lados, temendo ver a luz do índio americano.
Geralmente dormia quando montava guarda, encostado na parede. Aquela noite ficou acordado, olhos arregalados, atento a cada estalar de galho, ou pequeno barulho, algo comum numa floresta.
Veio o amanhecer e a luz do sol é acompanhada dessa mágica, espanta todos os medos e faz nossos calafrios noturnos parecerem bobos. Se espreguiçou e pulou fora de seu buraco. Estava "quebrado" por não ter descansado. Deu um passo em direção ao acampamento e "Tlililililim", agora olhou para trás e deu mais um passo. "Tlililililim", batiam as quatro estacas de metal de sua capa de chuva, as mesmas que esqueceu de guardar no bolso ao se levantar "bêbado de sono" para montar a guarda.
Lembrou da noite mal dormida, guardou as estacas no bolso e teve vontade de chorar de raiva do índio americano.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O sobrevivente

Eu sou um sobrevivente. "Nossa, mas como ele se acha!", pode pensar o leitor, porém, os fatos descritos a seguir são incisivos, me transformaram em uma pessoa que quase volta do além.
O mundo de hoje se tornou muito, mas muito mais seguro. Antigamente, nós estávamos expostos a uma gama de males que colocavam nossas vidas em risco. Hoje esses males foram espantados pela tecnologia e avanços da medicina.
Me lembro, ainda pequeno, quando eu, criança inocente, almocei e em seguida tomei banho. Ah, criançada de hoje em dia! Com o avanço tecnológico, comer e tomar banho depois é uma coisa simples que não causa mal algum. Há 20 anos atrás era um risco seríssimo de morte! Minha mãe me deu uma bronca e eu esperei com angústia os minutos seguintes enquanto escutava o toque fúnebre como uma música de fundo em meus ouvidos. Para o espanto geral, eu sobrevivi.
Pouco depois já havia esquecido do risco passado anteriormente. Criança é fogo, come de tudo durante a tarde interminável que tem depois da escola de manhã. Hoje olho para trás e lembro que achava pouco ter uma tarde inteira livre depois de uma manhã de estudos. Uma tarde livre, hoje em dia, seria uma eternidade, acho que construiria uma nave espacial. Bom, volto às tardes de criança, num belo dia em que minha falta de inteligência me fez comer uma manga e poucos minutos depois tomar um copo cheio de leite com Nescau. Mal sabia eu da tenebrosa equação: Manga + Leite = Morte Certa. Dessa vez porém, não ouvi a música sinistra, não havia ninguém por perto para me dizer que a morte estava próxima. Quando escutei dias mais tarde que isso era um perigo, só pensei em uma coisa: "meu Deus, escapei de mais uma!".
Meu próximo risco, foi na adolescência. Trabalhava eu no Mc Donald´s e, como qualquer funcionário, tinha direito a comer um lanche por dia. Pois bem, na sexta-feira santa, estranhava que muitas pessoas pediam lanche que continha carne vermelha. "Mas não se pode comer carne vermelha nesse dia...", eu pensava, mas tinha que vender, então vendia. MInha avó já havia me avisado várias vezes, "se comer carne vermelha na sexta-feira santa, você vira lobsomem". Ali eu tinha consciência, sabia do mal que poderia me causar, mas resolvi desafiar o perigo e comi um Big Mac. Nem pensei que nesses dias de lua cheia, poderia estar coberto de pêlos, em cima do telhado e uivando sob a luz do luar. Nada, continuo um ser humano normal.
Já quebrei espelhos, alguns deles, e pimba: não tive 7 anos de azar! Mais uma escapada fulminante do lado escuro da força.
É claro, já caí da rede e levei vários pontos na cabeça, caí de uma caixa d´água, meti a testa na quina da TV e etc, mas isso não é nada. Uma mãe e um pronto-socorro davam conta facilmente, perigo mesmo foram esses fatos anteriores.
Diante de tudo isso, só posso me considerar um sobrevivente. As crianças de hoje nem imaginam, vivem num mundo seguro, embaixo de tanta tecnologia avançada. A própria internet e suas explicações científicas espantaram inúmeros riscos de vida que nos cercavam na infância.
Viver a 20 anos atrás era um eterno perigo.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Reggae

São Luís do Maranhão é a capital brasileira do reggae. A cidade respira o ritmo e amigos meus que já foram para lá - eu infelizmente ainda não fui -, dizem que existem várias radiolas, barzinhos que tocam esse tipo de música e lançam suas bandas e cantores.
É comum ouvir músicas internacionais, muito conhecidas, e trazidas para o ritmo com perfeição. Eu tenho várias num cd e, para ser sincero, a maioria - pra não dizer todas - fica muito melhor nas regravações.
Me perguntava de onde vem essa disseminação que o reggae conseguiu em São Luís, como sementes boas espalhadas num solo fértil.
Acabei de atender um paciente, o Weberson. Eu estava ouvindo Bob Marley quando ele entrou na sala e durante o tratamento falou:
- Ótimo gosto musical, hein?
Descobri que também gostava de reggae, já tinha ido à São Luis e comentando sobre a cidade me respondeu a origem da cultura musical de lá. Nos anos 30 e 40, as rádios locais pegavam algumas transimssões de rádios da Jamaica, que fica mais ao norte e as ondas alcançavam a cidade. A população começou a beber na mesma fonte que Bob Marley bebeu desde que nasceu. Então não teve jeito: o que é bom fica mesmo.
Assim como o velho Bob, que mesmo anos após sua morte ele ainda continua cantando em meu aparelho de som.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Contraste

O contraste social está sempre em nossas vistas. Em São Paulo, vemos inúmeros moradores de rua deitados em frente a prédios luxuosos. No bairro do Morumbi, condomínios enormes fazem divisa com grandes favelas. Porém é em pequenas cidades do sertão que essas diferenças são ainda mais marcantes.
Em abril, num deslocamento no estado de Minas Gerais, paramos para descansar em uma pequena cidade. Saímos com a turma para jantar e fomos conhecer o único lugar aberto da cidade: um clube que naquele dia teria músicas em um telão e um dj, tocando o sucesso regional brasileiro (Anjo Azul, Djavu, bandas no estilo da Calypso).
O local era tão simples, que não nasceu ainda a idéia de conscientização do lixo, ou alguma educação nesse sentido. Todos bebiam sua lata de cerveja e a jogavam no chão. Nós mesmos, quando tomamos as nossas, procuramos em vão, algum lixo solitário. Tivemos que jogá-las no chão, assim como todo mundo.
Naquele local pudemos perceber a diferença de classes nitidamente. A maioria eram jovens muito simples, vestidos com camisetas surradas, porém limpinhas e passadas, o que denunciava serem suas roupas de sair. O boné e a calça jeans completavam o visual. O público geral, contrastava com algumas caminhonetes importadas estacionadas na porta do clube. Eram de alguns filhos de fazendeiros da região. A diferença social ali era muito mais gritante: alguns poucos rapazes, filhos de fazendeiros milionários e muitos outros bem pobres, filhos de lavradores.
Fui pegar mais uma latinha de cerveja, havia uma fila e um pequeno bate-boca. Me aproximei e alguns garotos pediam para a pessoa do bar uma cerveja de graça, dizendo algo como "depois a gente acerta, estou sem dinheiro". A latinha custava dois reais.
Voltei ao encontro de meus amigos e, incidentemente, esbarrei num cara, derrubando um pouco de sua bebida.
- Putz, mil desculpas, meu amigo. - pedi.
Ele me estendeu a mão, me cumprimentou e deu um ligeiro abraço. Percebi que tinha um estilo diferente da imensa maioria. Vestia uma camiseta nova e chamativa, calça da moda e uma enorme corrente no pescoço, imaginei ser de prata. Estava acompanhado de um amigo troncudo, que vestia uma roupa semelhante à sua e me olhou feio enquanto eu conversava com o "playboizinho gente boa".
Me despedi e comecei a entender: muito provavelmente o outro era um guarda-costas disfarçado, fingindo estar se divertindo com um amigo, para não constrangê-lo em ir a um lugar escoltado. Mas bastasse um desentendimento e ele cobriria algum infeliz de porrada.
Uns de guarda-costas, outros implorando dois reais, tudo ali, embaixo do mesmo teto, ouvindo o mesmo som.
O mais cruel da discrepância social do interior, é que em uma cidade grande um filho muito pobre, tem mais chance de trabalhar, por exemplo, em uma lanchonete, subir de cargo, acabar virando gerente e melhorar muito sua condição. Em lugares muito pequenos, geralmente, o filho do fazendeiro milionário se tornará fazendeiro milionário, e o do lavrador pobre já tem sua sina escrita.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Darwin

Hoje vejo com todo sentido do mundo - e beleza - a teoria da evolução das espécies, de Darwin. Não é apenas sobre fatos complicados durante os milênios, ou pensamentos complexos sobre DNA e mutações. Alguns fatos são explicados com uma simplicidade tal, que nos faz sorrir ao entendê-los, como uma criança que tem sua curiosidade saciada em torno dos 5 ou 7 anos.
Muitos casos hoje se explicam como uma simples história: imagine uma tribo onde só existam homens enormes, com mais de 2 metros de altura. Pode-se entender que naquela região, os homens que eram mais altos tinham mais facilidade em colher alimentos que ali só davam em árvores mais altas. Isso, por si só, não extinguiria os mais baixinhos, mas eles teriam mais dificuldades. As próprias mulheres da tribo, poderiam se sentir mais seguras ao lado de homens que dariam mais proteção e facilidade em conseguir alimentos. Com isso os grandalhões teriam mais facilidades em conseguir uma parceira e assim transmitiriam muito mais os seus genes do que os pobres baixinhos solitários. Simples assim.
Alguns animais, geralmente, possuem cores fortes e berrantes para manter seus predadores distantes. É uma forma de dizer "olha, sou um bicho venenoso", recado entendido por outros animais. É o caso de rãs venenosas, taturanas e a cobra coral. A coral verdadeira possui cores fortes e é muito venenosa. Ela avisa que é perigosa - com suas cores -, e é! A cobra coral falsa é uma evolução da verdadeira. Possui cores ainda mais berrantes e chamativas e, com isso, espanta mais ainda seus possíveis predadores, como se fosse ainda mais venenosa. Como é muito menos incomodada, não precisava de seu veneno, que com o tempo foi sumindo, sua glândula atrofiou. Hoje ela não é venenosa. Não precisa ser perigosa, apenas avisa com mais veemência que é. Isso que é marketing bem feito!
O ser humano, com seu cérebro altamente desenvolvido (como diz o documentário "Ilha das Flores") desenvolveu até artimanhas para se manter longe de encrencas. Quantos não são esses bichos bem coloridos, que, sem pensar, já sentimos nojo, repulsa? Esse nojo, o cérebro usa para nos afastar de futuros problemas.
O mais impressionante é que, em nosso casos, além da evolução natural, nosso cérebro ainda pensa e trabalha incessantemente para nos preservar a cada dia mais.
O curioso é que ele precisa aprender a se defender de outros cérebros perigosos. E assim a evolução segue seu curso.