quarta-feira, 17 de março de 2010

Ilha das Flores

Pessoal, estréia hoje no blog a parceria com o site "Porta Curtas", que exibe curtas nacionais.
De início vou disponibilizar o documentário "Ilha das Flores". É um clássico genial, feito no final dos anos 80, forte, inteligente e atual como nunca.
Espero que gostem.

Grande abraço!
Wolber Campos



segunda-feira, 15 de março de 2010

Glauco

Ouvir no fim de semana a notícia da morte do cartunista Glauco me deixou triste. Cresci vendo seus livros e tirinhas no jornal e foi assim que se tornou um dos maiores cartunistas brasileiros.
Sua morte dá início a um debate sobre o assassino: loucura, crueldade, drogas e, enfim, a religião do Santo Daime. Já há pessoas falando sobre o famoso chá, o quanto pode deturpar pensamentos e por aí vai.
É sempre a mesma coisa. Quando vamos parar de procurar algo material que possa prejudicar e desviar a atenção do real motivo principal: a maldade humana?
O álcool prejudica raciocínio, drogas podem alterar a percepção, tudo isso é sabido. Mas o ponto determinante é a índole da pessoa.
Este fim de semana um homicida dirigiu seu carro pela estrada Raposo Tavares por mais de 20 quilômetros (!), até bater de frente com o carro de uma família. O policial conseguiu salvar a filha, que ia no banco de trás, mas o fogo consumiu o veículo com seus pais. O assassino continua vivo e internado e foi comprovado que estava alcoolizado. Só falta falarem que a culpa foi da bebida.
Como um grande amigo, João Paulo, disse sabiamente: "O cara já era um homicida! Duvido que qualquer um de nós nessa mesa, faria algo parecido, dirigiríamos em alta velocidade na contra-mão. podemos beber o quanto for, estar quase desacordado e não faríamos isso".
Infelizmente a lei tem, sim, que nivelar por baixo. Muitas pessoas de bem, se beberem, dirigiriam bem devagar, se preocupando em não causar mal a si mesmo, muito menos a outras pessoas. O problema é que há outras que bebem e aceleram mais ainda do que quando estavam normais.
Nunca experimentei o Santo Daime e pouco sei sobre a doutrina. Mas deixemos tudo isso de lado. O único problema é que o cara era um assassino. Sempre foi e um dia poderia acabar como acabou. Pena que Glauco estava em seu caminho.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Arquitetura da balada de alto risco

Todos já ouvimos falar numa balada “risca-faca”. O nome remonta à antiguidade de nosso Brasil, onde festividades acabavam entre brigas e os polidos cavalheiros retiravam seus facões, peixeiras - ou qualquer coisa que furasse – e raspavam rapidamente no chão, produzindo abundantes faíscas. (pelo menos eu imagino isso...)
Hoje em dia temos em mente aquele boteco, com um som alto de forró-brega tocando, sujeitos de “cara fechada” jogando bilhar sobre uma velha mesa e moças dançando entre rapazes de bigodinho por fazer e cerveja na mão.
Adriano, um paciente e amigo, estudante de direito, se disse assíduo freqüentador desses locais. “Gosto de emoções fortes”, diz entre risadas.
Foi ele quem me deu a interessantíssima descrição de “como se dar bem numa balada risca-faca”. Inteligente e observador, deu toda a seqüência que se deve seguir para, não só se dar bem num lugar desses, como, principalmente, sair ileso de lá.
- Estava numa cidade do interior de São Paulo, dessas bem pobrezinhas, e saí com mais dois amigos para o único bar que estaria aberto àquela hora, no meio da semana. – disse e descreveu a cena do boteco que imaginamos pouco atrás.
“Sentamos, humildes, numa mesa e ficamos observando. Cara, me deu uma vontade de jogar sinuca. Meu amigo quase surtou! Perguntou se eu queria morrer. Nessa hora, você tem que estudar o lugar. Tem que ser como um general: observar cada peça do tabuleiro e agir, conscientemente e sem pressa. Não sabia se estava mais a fim de jogar sinuca ou dançar com a morena mais linda – e perigosa! – daquele bar. Então, listei os passos a serem dados:”

“1 – Humildade
Primeiro, é humildade. Nada de chegar falando alto ou dando risada. Sem “botar banca”, ainda mais em lugar desconhecido. Sente e tome sua gelada.
2 – Contato com as pessoas certas
Você tem que saber quem são os formadores de opinião do local, o dono, o garçom ou garçonete, músicos. Saber quem é quem.
Vi que tinha um alemão alto, que dançava com todas as meninas, davam risada com ele, conhecia todo mundo. Fui até lá e puxei papo; cara gente fina! Segui para frente da banda que tocava música brega e vi que entre as músicas um cara pedia canções e dava algumas ordens. “É o dono”, pensei, e fiz amizade com ele também.
3 – Aguardar
Voltei para a mesa e me juntei aos amigos. “Daqui a pouco é nossa vez na sinuca”. Em poucos minutos o alemão, que eu havia falado da vontade de jogar um bilharzinho, veio me puxar pela mão para a gente jogar.
4 – Curtir sem moderação e com respeito
Enquanto estava jogando não acreditei: meu amigo que tinha falado com o alemão da morena, estava dançando com ela! Ele a tirou do meio da roda dos bigodinhos e a colocou na mão do meu chapa.
No fim da música ela veio jogar bilhar conosco.
Foi a noite perfeita!”.

No fim, havia dado tudo certo. Tinham se divertido muito, jogado seu bilhar, feito amizades e ainda dançado com a melhor mulher do lugar.
Se eu acredito? Não sei. Mas quem quiser pode procurar a balada risca-faca mais próxima e fazer a experiência. Boa sorte e que Deus o proteja!

quarta-feira, 10 de março de 2010

Caridade

De volta ao blog, depois de uma semana de descanso.
Após o casório, aproveitamos um ótimo presente do seu Sérgio (meu sogro) e viajamos para a lua-de-mel. Seria uma viagem longa - cerca de 9 horas e meia num avião. Eu adoro longas viagens, a Ju, nem tanto, mas estaríamos ali, lado a lado e passaria rápido.
A primeira surpresa veio ainda em frente à empresa aérea: "sinto, mas não temos mais lugares um ao lado do outro...".
Tentamos argumentar, falamos sobre a lua-de-mel, enfim, tudo o que podíamos, mas não adiantou. "Tudo bem, é só pedir a quem se sentará ao meu lado para trocar de lugar", pensei. Quem separaria um casal recém-casado por mais de nove horas de viagem?
Nesse episódio entendi mais a respeito da palavra "caridade", em seu sentido profundo. Caridade não é o que muitos pensam, dar uma esmola a um necessitado, ajudar uma velhinha com problemas ou dar aquela força a uma pessoa que passa dificuldades. Podemos fazer caridade até a um rico empresário, ajudando-o após alguma dificuldade grande, basta ajudar de coração.
A caridade não olha a questão do ajudado, mas sim o coração e a vontade de quem ajuda.
Quando sentamos nas poltronas, esperando os passageiros que estariam ao meu lado e ao da Ju, eu imaginava ser fácil conseguir a troca. Chegou o primeiro - ao lado dela -, me levantei e, educadamente, expliquei a história, que havíamos casado no dia anterior, das nove horas e meia de viagem sendo recém-casados; a novela toda. Ele, com uma cara indiferente, perguntou onde eu estava sentado, o que apontei na fileira ao lado: uma poltrona do meio.
- Alí? Me desculpe, mas é muito desconfortável viajar no meio. - disse e se sentou ante a um casal incrédulo.
Tentei a última alternativa, a mulher que já havia se sentado ao lado do meu lugar.
- No meio? Não, desculpe. - disse após eu terminar a história.
Não digo que viajar no meio seja, realmente, a mesma coisa que estar na ponta. Nem queria me convencer disso. O que me espantou, foi a dificuldade em conseguir encontrar uma pessoa, em duas tentativas, que, simplesmente, quisessem ajudar, serem simpáticas, serem caridosas. E o fato de pedirem desculpas, mostra que sabiam a falta de bondade que tinham naquele momento.
Ali, duas pessoas perderam uma boa chance de fazer uma caridade. Não imoporta o motivo, caridade não tem tamanho.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O mundo dos humildes

Poucas coisas me emocionam tanto como uma pessoa muito, muito humilde. Mas não é muito humilde, no sentido de muito pobre, ou (apenas) de muito sofrida. É muito, muito humilde, endendeu?
E não é que me emociona no sentido triste da palavra. Me emociona no sentido bonito, daquele que, se por um acaso, seus lábios não sorrirem incontrolavelmente, seu coração sorrirá o sorriso mais aberto de todos.
A emoção da tristeza, me levaria a pensar algo do tipo "tadinho, como eu queria que ele melhorasse de vida". A emoção bonita, aquela que só os muito, muito humildes me provocam, já me leva a pensar "incrível, invejo esse homem".
Que estranho é invejar uma pessoa bem humilde, que não possui quase nada de dinheiro e quase não tem bens. Pois é, mais uma arte dos muito, muito humildes.
Eles nos ensinam, nos mostram como ser felizes, tem uma sabedoria fantástica e podem dar aula sobre o tema mais procurado de todos os tempos pela humanidade: como ser feliz. E o mais curioso, é que todo mundo quer ser feliz, mas pouquíssimas pessoas perguntam como para a pessoa certa. Passam a vida numa correria incessante, fazem cursos, competem, mudam de empregos e nada.
Os poucos que descobrem essa fonte de sabedoria, se espantam, pois os muito, muito humildes ensinam sem saber e quando os elogiamos, quase morrem de vergonha: "onde já se viu, doutor, quem sou eu...". E nos deixam mais envergonhados em ver o quanto estamos, ainda, longe daquela evolução toda.
Eles estão por todos os lados, graças a Deus. Falta só prestarmos mais atenção.
Engana-se quem pensa que basta nascer pobre para ser muito, muito humilde. Existem muitos pobres que são tão esnobes quanto os maiores magnatas do nosso país, só não tem o dinheiro deles.
Para ser uma pessoa muito, muito humilde, é preciso nascer assim ou lutar muito, querer, muito, melhorar como pessoa. Abdicar, não do dinheiro ou posses, mas abdicar de algo maior que isso: o ego.
Uma pessoa muito, muito humilde tem ego também. Só que ele é perfeito. É humilde.
Da próxima vez que cruzar com uma pessoa muito, muito humilde, não perca a oportunidade, converse com ela, aprenda e depois segure em suas mãos e agradeça. E quando a pessoa se envergonhar, ficar vermelha e sem-graça por você tê-la elogiado, apenas sinta aquela sensação boa, que sentimos quando nosso coração abre um enorme sorriso.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Clarice Lispector

Li um texto da Clarice Lispector daqueles que dá vontade de reler em seguida.

O medo da eternidade (por Clarice Lispector)

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
- Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.
- Não acaba nunca, e pronto.
Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta. Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? – Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.
- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
- Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
- Acabou-se o docinho. E agora?
- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito. Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar. Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
- Olha só o que me aconteceu! – Disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
- Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A evolução

Estou lendo um ótimo livro para quem gosta de história: 1808, de Laurentino Gomes. Ele trata da vinda da coroa portuguesa (nosso príncipe regente, rainha e a maior parte da nobreza) para o Brasil, fugindo de Napoleão Bonaparte.
Olhando para trás, é difícil de acreditar que tudo aquilo se passou a apenas 200 anos. Duzentos anos é algo mínimo se pensarmos em história, muito próximo. Nesse curto período tínhamos um rei do outro lado do oceano, que partiu com sua família e realeza, para cá em dezenas de navios e demoraram para tanto quase dois meses.
Dois meses! Em pensar que hoje o mesmo trajeto gasta apenas algumas horas de avião.
A humanidade vem, nas últimas décadas, seguindo uma velocidade vertiginosa de evolução. Se olharmos o desenvolvimento da época em que Cristo começava sua caminhada, há 2000 anos atrás, até o ano 1800, não observamos um salto notável em questão de desenvolvimento. Agora se estudarmos o "vôo" que a humanidade deu só neste último século, de 1900 para hoje, é algo extraordinário!
Um exemplo dessa avalanche de desenvolvimento: Em 1906, Santos Dumont recebeu um prêmio em Paris por ser o primeiro homem que conseguiu fazer um veículo, mais pesado do que o ar, se manter por alguns segundos voando alguns metros sobre o chão. Pouquíssimos anos mais tarde, em 1914, na Primeira Guerra Mundial, aviões já sobrevoavam seu inimigos e despejavam bombas e tiros sobre eles.
Apenas algumas décadas mais tarde, em 1969, os Estados Unidos conseguiam mandar o homem para a Lua.
Hoje, televisão, internet, celular, são coisas completamente adaptadas às nossas vidas, ao ponto de parecer que sempre existiram. Eu, que tenho 32 anos, passei minha adolecência sem imaginar que esses dois últimos existiriam um dia.
Outro exemplo é a famosa banda Mamonas Assassinas, infelizmente com sua história interrompida por um trágico acidente em 1996. Sua história é tão recente que parece ontem que assistíamos suas apresentações ao vivo nos programas de televisão. Mal podemos acreditar que seus integrantes não tinham celular ou e-mail. Esses acessórios estavam engatinhando neste ano.
E até hoje a evolução segue acelerada, seja em São Paulo, seja em pequeninas cidades do sertão, com suas lan-houses abarrotadas de jovens.
Onde vamos parar? Sinceramente eu não sei. Seria ótimo que a humanidade utilizasse toda essa nova tecnologia para o bem do ser humano, evoluindo a medicina para vivermos melhor, ou a agricultura para solucionar os problemas de fome espalhados pelo mundo.
Infelizmente, até agora, vimos o conrário. O que mais impulsionou a evolução foi a competição entre as nações, a guerra. Os aviões se desenvolveram tão rápido para jogar bombas nos oponentes, a Guerra Fria entre EUA e URSS colocou o homem no espaço e a medicina sempre seguiu o ritmo para curar os feridos em batalhas.
Sonhemos com um mundo onde a evolução espiritual acompanhará a material.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Carnaval

Nada mais genuinamente brasileiro do que o carnaval. Duas coisas podem salvar a vida de brasileiros em enrascadas no exterior: uma falar sobre o carnaval e outra mencionar sobre o Pelé. Cada uma dessas palavras provoca quase sempre uma reação positiva e um sorriso no ouvinte.
Há dois anos atrás resolvi desfilar em uma escola de samba, aqui em São Paulo. Como um bom amante do rock and roll não sou um grande fã de samba, mas sempre senti vontade de participar de algo tão brasileiro.
Foi emocionante. Ouvi poucas vezes o enredo da escola antes do desfile, mas quando o puxador gritou o nome da escola e a bateria começou a tocar, não houve quem não se arrepiasse.
Ao entrar na avenida, a arquibancada cheia vibrava e ali, o mais humilde dos paulistanos, cantava sob sua impecável fantasia e sentia a multidão o ovacionando.
Foram poucos minutos. O bastante para sentir toda a emoção que um sambista sente pulsando em seu peito. O bastante para sentir o que é o carnaval. O bastante para me sentir mais brasileiro.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Muros (Zazu)

Sentado na calçada, em frente sua casa, Zazu enrolava seu cigarro de palha e observava a casa nova que seu vizinho construíra. Uma bonita casa, com um grande muro na frente e um portão, que ao abrir permite a entrada de dois carros.
"Parece casa de cidade grande", pensou, com um ligeiro aperto em seu coração, imaginando se um dia o sertão de que tanto gostava se pareceria muito com os grandes centros.
Olhando aquela casa, pensou no absurdo desse detalhe: o muro. "É um absurdo termos muros, totalmente! Tê-lo em frente às nossas casas significa que temos que proteger nosso patrimônio de alguém, que queremos evitar que entrem em nossas casas quando não estamos ou até pior, nos proteger quando estamos lá dentro."
O que há com as pessoas para não respeitarem os outros? Como eu posso, simplesmente, tentar tomar algo que não me pertence? Que direito eu teria de tornar a outra pessoa infeliz, retirando aquilo que lutou tanto para conseguir?
Realmente, o muro é a personificação de todo esse absurdo. De nossa preocupação para que outros não queiram tomar o que é nosso indevidamente.
Concluiu: "prefiro as pontes, que unem, aos muros que separam...".

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Encontros e desencontros

Mulheres e homens vivem em encontros e desencontros.
Quando tem 12 anos a menina começa a deixar de lado a boneca. A brincadeira de casinha começa a ser levada mais à sério, já pensando em sua vida após o casamento. Começa a gostar dos meninos, mas não pelos da sua classe, que são terrivelmente infantis, mas por aqueles de 15 e 16, que já são mais maduros.
O menino de 12 não está nem aí, não gosta daquelas meninas chatas mesmo. Quer saber é de jogar futebol e video-game.
Aos 15 ou 16, a garota já deixa de brincar, com qualquer coisa. "Deus me livre, parecer uma menina!", afinal, já é uma mulher muito madura. Não liga pros meninos da sua sala, eles são incrivelmente infantis, mas sim para aqueles que estão se formando no colégio e entrando na faculdade. Esses sim são mais maduros.
O garoto de 15 ou 16, já começa a se interessar completamente pelas garotas de 15 ou 16, pena que elas não dão bola. Se interessa, mais ainda, por aquelas que estão quase se formando. "São gostosíssimas!", mas infelizmente, lhe dão menos bola ainda. Também se interessa por aquela professora, gata e novinha, que dá aula para o primário. "Ah, se ela me desse bola...". Acha também que, se a tiazinha que serve a merenda desse bola, ele não desperdiçaria a chance.
A mulher de 18 ou 20 anos já se interessa pelos rapazes de sua classe, apesar de achá-los ainda infantis, porém, são engraçados. Mas prefere aqueles que estão quase se formando: muito mais maduros. Aquele professor, quarentão e bonitão, que vive jogando charme em cima dela, lhe dá um friozinho na espinha, mas gosta só de provocá-lo. Gosta daquele rapaz bonzinho, bonito e já maduro, até fica com ele, mas prefere aquele cachorro, descolado, bonitão, imaturo, que a deixa louca porque fica com todo mundo.
O homem de 18 ou 20 anos se interessa muito pelas mulheres de sua classe, fica com um monte delas, mas também se interessa por algumas veteranas. Fica com elas também. Vive saindo para festas e baladas cheias de mulheres, também fica com muitas delas. Fica com todo mundo. Fica também com aquela garota de 15 ou 16 anos que se interessa muito pelos homens dos 18 ou 20 anos, que estão entrando na faculdade. Fica com as amiguinhas dela também.
A mulher perto dos 30 trabalha muito, pensa na carreira e em sucesso profissional. Cansou de rapazes galinhas e imaturos. Namorou com algum deles, sofreu um bocado. Hoje pensa: "o que viu neles?", não tinham conteúdo algum. Ah, se voltasse atrás namoraria aquele rapaz bonzinho, "que partidão!". Procura algum do mesmo tipo, mas não se acha mais homens assim hoje em dia: estão todos namorando.
O homem perto dos 30 também trabalha muito, pensa em sua carreira e em sucesso profissional. Os bonzinhos se dão bem: chegou a época em que são completamente valorizados e suas ações estão lá no alto, subindo cada vez mais. Os galinhas não entendem muito bem porque a procura por suas ações caíram tanto. Tenta virar bonzinho.
Depois dos 30, mulheres e homens finalmente se encontram. Ambos passam a se curtir mais, na mesma idade, afinal de contas, estão maduros. A partir daí, erros e acertos já não dependem mais da idade. Se unem e se tornam felizes quando conseguem enxergar que o importante é tentar amadurecer juntos, a cada dia mais, e passar os anos vendo filhos e netos continuando a mesma busca.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Beatles

Sou um grande fã dos Beatles. Conheci sua música antes mesmo de ter algum conhecimento musical significativo, aos 7 anos. Morávamos em um bairro bem residencial, daqueles em que as crianças ainda brincavam na rua - de terra -, tinham uma porção de amigos e cada época do ano tinha suas aventuras: pipa, peão, taco (que muitos conhecem como betis), isso sem contar as que corriam todos os dias do ano como o futebol no "golzinho" formado com duas pedras no chão, pega-pega, esconde-esconde e tantas outras.
Nessa época, Michael - meu irmão mais velho - já tnha 12 anos e junto a alguns amigos já vinham desenvolvendo seu gosto musical (que graças a Deus ia certeiro para o rock, e não para o pagode...). Toninho, que tinha a mesma idade, ouviu um disco, um bom e velho vinil, em sua casa e correu para mostrar aos amigos:
- Ouvi esse disco da minha irmã. Olha que legal! - e apresentou os Beatles para meu irmão e Alex, outro amigo da rua.
Os três "piraram"! Acharam aquela banda boa demais e passaram a escutar qualquer coisa que se tratasse dos Beatles.
Algo digno de nota, é que isso ocorreu em 1984. Já fazia 14 anos que os Beatles tinham acabado - bem antes de nascermos -, 4 anos que John Lennon havia sido assassinado, e o rock já não tinha mais aquela potência dos anos 70 (tirando raras excessões como Van Halen e Police).
Com isso penso na força e qualidade dessa perfeita banda. Depois de anos e mais anos, sua música conseguia despertar interesse e admiração em uma turma de 12 anos - e numa criança de 7 -, sem que ninguém a apresentasse e dissesse: ouça.
Foi questão de dias para decidirem formar um cover dos Beatles. Michael seria o John, Toninho o Paul, Alex o George e eu - que andava pra cima e pra baixo com eles - o Ringo. Claro que nosso cover se limitava a dublar os discos que rolavam nas festas e imitar as guitarras com papelões desenhados. No meu caso pegava dois gravetos, uma mesinha e estava criada a bateria. Animávamos algumas festinhas da turma.
Essa nostalgia, misturada a uma total admiração musical, fez os Beatles terem um significado todo especial pra mim e guiar todo meu gosto pela música.
Hoje vinha escutando no carro um cd deles e me ocorreu um pensamento preocupante: "será que, com os anos, essa música vai perdendo sua força?". Afinal de contas, quantas novas bandas surgiram e os anos 60 a cada década fica mais longe (me desculpem o pleonasmo).
Logo concuí que não, imagino que os Beatles serão eternos. Nós, os fãs de música, demos sorte de sermos contemporâneos desses gênios, pelo menos de suas vidas - Paul e Ringo ainda estão vivos. Uma música tão boa e criativa sobreviverá sempre. Não a toa, ainda hoje ouvimos Mozart, Beethoven ou Vivaldi, não importando se são de 1800, 1700, ou seja lá que ano for. A música clássica é eterna. O rock também.
Por isso hoje, depois de mais de 40 anos de seu fim, os Beatles estão tão fortes como antes. A cada ano são lançadas novas coletâneas, caixas de cds, regravações e a atual febre: o Rock band dos Beatles. Um jogo para video-game que está fazendo muitos novos fãs, que antes só ouviam as músicas mais conhecidas.
Com tudo isso, não duvido se um dia meus filhos formarem uma bandinha cover desses caras.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Cofrinho

Ela entrou sorridente, apesar de estar sentindo dor de dente e do rosto inchado do lado esquerdo. Sentou-se no sofá da sala de espera e pacientemente esperou que eu terminasse de atender o paciente que já estava na cadeira e outro que esperava a um bom tempo sua consulta.
Me lembrava dela, uma garota que havia passado no final do ano passado, também sentia dor no mesmo dente. Eu havia limpado, posto um medicamento e explicado a necessidade de tratar o canal, infelizmente um tratamento que não é barato.
- Você pode dividir em quantas vezes precisar, mas precisa começar em breve, antes que o medicamento perca seu efeito e o dente volte a incomodá-la. - expliquei na época.
"Porque não veio fazer o tratamento? Agora o dente voltou pior ainda...", pensei.
Muito simpática, entrou na sala e disse que não pôde tratar no fim do ano, pois estava sem dinheiro, mas agora faria, mesmo que precisasse dividir em muitas vezes, o que eu confirmei que poderia fazer.
Como da outra vez, limpei o dente e passei uma medicação para a infecção que havia inchado seu rosto.
Sentamos na mesa, onde expliquei como seria o tratamento e, ao final, ela me perguntou quanto havia sido a emergência.
- Quarenta reais.
- Ai que bom! Foi exatamente o que eu trouxe! - disse animada. - Abri meu cofrinho e juntei o dinheiro que eu tinha lá.
Até pensei que estava brincando, mas ela colocou um saquinho plástico sobre a mesa e começou a contar "um, dois, três, quatro...".
- Pronto, aqui tem trinta. - e me entregou trinta moedas de um real.
Levou mais algum tempo para contar as outras, de cinquenta, vinte e cinco e dez centavos. No fim ficou triste e disse meio envergonhada:
- Nossa, só deu 38 reais, eu tinha certeza...
Checou em seu bolso e sorriu feliz:
- Ah, tenho uma nota de dois reais! - disse e me entregou, entre alegre e aliviada. Como se eu fosse me preocupar ou ficar bravo pela falta de dois reais.
Saiu sorrindo como entrou, dessa vez sem dor, pensando que dessa vez faria o tratamento.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Desmatamento

No caminho para meu consultório, passo pela Granja Viana, um bairro muito bonito e aconchegante, pode se dizer até elegante e charmoso. Um local onde há condomínios com suas casas bonitas, vivendo em harmonia com a natureza.
Ali estão também restaurantes que nos fazem sentir como se estivéssemos no interior, algo como Monte Verde ou Campos do Jordão.
Em alguns pontos da avenida São Camilo - que corta a Granja - vê-se uma mata tropical densa ao lado da pista. Moradores da região contam orgulhosos que, em seus quintais, pequenos macacos os visitam para comer as frutas deixadas nas vasílias.
Certa manhã observei uma placa em frente a um desses pedaços de mata densa: "Breve: condomínio Alphaville Granja Viana".
Aquilo me deixou preocupado, como se previsse o que estaria para acontecer. "Onde eles levantarão um condomínio por aqui?", pensava. Não seria possível que alguém desmataria toda aquela região. Hoje em dia há uma proteção ambiental grande, principalmente dentro da cidade. Valter, um grande amigo ambientalista, me disse que "se você cortar uma árvore da sua rua, a prefeitura lhe dará uma multa enorme e ainda terá que plantar outras árvores".
Mas era possível. Difícil explicar a dor no coração que tive ao passar num sábado de manhã e observar, incrédulo, que haviam cortado todas aquelas lindas árvores que haviam ali. E olha que nem moro na Granja, imagino a dor dos vizinhos.
Esses, relatam um grande número de macacos que, assustados, entram em seus quintais, expulsos de seu lar. Imaginamos o número de animais mortos.
Passeatas de moradores ocorreram e - graças ao bom Deus! - embargaram a obra.
Hoje, alguns meses após o desmatamento, vemos um terreno completamente nu de vegetação, terra, barro e tratores parados, como cães famintos sobre um bom bife, esperando a hora de continuar sua furiosa destruição.
Não se pode, simplesmente, liberar essa construção com a desculpa do "mal estar feito, agora que já foi tudo destruído". esse mal exemplo será seguido sempre: destruímos o verde primeiro e depois, como não há o que fazer, construímos cimento em cima.
Será que algum dia isso tudo vai mudar?
Tirei algumas fotos do local.


Um dos trechos arborizados da avenida São Camilo, ainda não destruído por algum novo condomínio de luxo



Área desmatada pelo "futuro"(?) condomínio. Os tratores esperam estacionados (e ansiosos).

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

As mulinhas

Gostaria de pedir às pessoas com problemas cardíacos, que se assustam facilmente ou não suportam emoções fortes, que não prossigam a leitura das próximas linhas.
-
-
-
-
-
-
-
-
-
Bom, se você desceu até aqui é porque é corajoso e não tem os problemas descritos anteriormente. Ou porque é teimoso e curioso mesmo! Bom, não digam que não avisei...
A história a seguir trata de um assunto forte, polêmico, até certo ponto engraçado, ou melhor, muito engraçado! Mas que muitos podem achar um absurdo (não que eu não ache também, é claro).
Bom, chega de papo e de enrolações, falaremos agora sobre as mulinhas safadas do sertão. O título poderia ser outro, mas em um assunto "caliente" como esse, o eufemismo cai bem.
Já havíamos, há muito, ouvido a história de que alguns garotos do interior, tem uma relação com alguns animaizinhos que, digamos assim, passa da amizade. Mas nunca havia encontrado algum que admitisse e não sentisse vergonha em tocar no assunto. Isso até conhecermos Antônio.
Hoje já está próximo aos 30 anos (e não come mais mulinhas, deixa bem claro), mas nos conta de suas zoo-aventuras sexuais de quando tinha 12 anos.
- Ah meu amigo, você imagina: um monte de moleque de doze anos, tinindo que só, sem mulher pra chegar perto, não podia prestar mesmo... - conta entre risadas.
A turma não era pequena e todos ali partilhavam do mesmo segredo. Era quase uma sociedade secreta e a história que os unia realmente fazia o silêncio ser respeitado; era questão de honra.
- Geralmente um cabra não ia sozinho, porque era preciso acalmar a mula e prender as patas da frente, para que ela ficasse abaixada assim... - disse levantando a bunda para trás e soltando uma gargalhada.
E comentou que os garotos faziam fila para saciar seu instinto carnal, que na época praticamente saía pelos poros.
Pobre mulinha, violentada. O que se passava na cabeça do pobre animal? Poderia até estar chorando... Aí, é que nos enganamos.
- Dotô, a bicha gostava. Era safada!
Segundo Antônio, a mula não só gostava como pedia mais. Todos os garotos reclamavam da mesma coisa:
- Olha, era de dar vergonha no caboclo. Você as vezes estava conversando com alguma menina e, se a bicha te visse, vinha para o seu lado, virava a bunda e ficava com a bitela - lê-se: xoxota - abrindo e fechando assim, querendo vara! - disse abrindo e fechando a mão direita - Aí era um perigo o cidadão ficar conhecido como "comedor de mula".
Era consenso entre todos os garotos: as mulinhas reconheciam seus casos amorosos, cada um deles. Não sabem se era pelo cheiro, visual, ou seja lá o que for, mas sempre que um da turma se aproximava a mula safada ficava doida. E olha que não era só uma mal-amada pela cidade.
- É, a gente variava, mas sem que uma soubesse da outra, é claro.
Pois é, ainda bem, se é como dizem, seria um perigo ocorrerem brigas de ciúmes pela cidade. Sobraria coice para todo lado...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O bicho homem (Contos de zazu)

Depois do encontro com o novo amigo, Zazu chegou em casa pensativo. Realmente o homem, cada vez mais, perde o contato com a natureza e isso o deixa mais infeliz. Fato: o homem é o animal mais infeliz de todos!
Que estranha – e triste! – conclusão. Mas é verdadeira. Alguém já viu um macaco entrar em depressão porque não encontra sua banana preferida? Ou uma vaca sofrendo porque não tem o capim verdinho como o da sua vizinha? Não, realmente os animais não dão importância a essas coisas, mas nós...
Zazu imaginava uma conversa – se fosse possível, é claro – entre o garoto que havia levado à cachoeira e um pequeno grilo que estava ali, participando do momento, sobre uma folha verde e úmida.
- Nossa, hoje volto para casa, meu último dia de férias. Amanhã volto a trabalhar... – diria triste e cabisbaixo.
O grilo olharia confuso, pensando no motivo daquela tristeza toda, se ele mesmo escolheu esse caminho. “Boa sorte”, pensaria o pequeno animal, e voltaria ao seu pedaço de paraíso, podendo aproveitá-lo hoje, amanhã, e depois, sem ao menos fazer idéia do que é uma segunda, terça, ou quarta-feira.
O sábio sertanejo pensava na arrogância do homem, um ser que se acha superior a todos os outros animais, apenas por ter o intelecto mais desenvolvido, como se, houvesse uma evolução entre as formas de vida, a espécie humana seria o último degrau a se ultrapassar.
Pobre homem, criou tantos problemas para si, vive em uma competição cruel com seu semelhante em vez de conviver em harmonia, criou cidades que esmagaram a natureza sob seu asfalto, criou a própria sociedade que vem nessa loucura, como uma roda descontrolada, fazendo com que entremos nela e nem nos perguntemos se há outro caminho. Apenas continuamos a empurrá-la...
“Claro que fizemos – e fazemos! – muitas coisas boas, mas infelizmente não aprendemos ainda a conviver em paz com tudo isso". - pensou, um tanto quanto amargurado.
É Zazu, pensar as vezes nos deixa melancólicos...